7.4.03

Uma pessoa que, na presença de nuvens escuras no céu, pára no meio da praia, esquece dos olhares alheios, desenha um sol na areia e pede três vezes "vem sol, vem sol, vem sol". Essa sou eu. Uma pessoa que desce tão baixo, age tão feio e se agride tanto. Essa não sou eu. Riso x dor. Inconstância, esse é o teu nome. E imagino que eu brinco o tempo todo de Alice no País da Maravilhas, crescendo e diminuindo, grande e pequena, forte e fraca. Pára a brincadeira que eu quero descer. Ô seu motorista, dá licencinha que chegou minha estação? Então inventei o domingo da Nathalia. Não todos, mas hoje. De encher o shopping de perna, de ficar sozinha, de rir no cinema e pensar em tudo e em nada. Sentei numa mesinha na praça de alimentação e escrevi uma carta pruma amiga, como há tempo não fazia. E me enchi de paz, comi crips de banana, comprei presentinhos e fiquei horas, como uma boba, encarando os livros nas estantes da loja. Gosto de ir passando as mãos pelas laterais dos livros, admirando com as mãos, lendo em pensamento, escolhendo O. Claro que quis levar Clarice, Pessoa, Saramago, Hilda e Caio numa sacola. Quis sentir bem forte o cheirinho do papel novinho e acreditar que estava devorando cérebros perfeitos. E dúvida, e dúvida, e dúvida. Acabou que trouxe pra casa Adriana Falcão e sua Máquina, e A paixão segundo G.H. da mestra. Mas tive medo. Vários deles. Não sei se devia ter lido a introdução do livro. Logo hoje, meu Deus. Ele dizia assim:

A POSSÍVEIS LEITORES. Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosa - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. C.L.

E como eu vivo pra me quebrar inteira e me refazer, pra me quebrar mais uma vez logo em seguida, mandei embalar pra presente e sai feliz, agarrada com meus livros na sacola. A saudade de mim gritando. Alto. Algo que, nos gibis, seria descrito em caps lock dentro de um splash cor-cheguei, cheio de exclamações. Devo ter cortado cheiro verde na tábua dos 10 mandamentos, só pode. Mas, como diria Marco Antônio, um narrador dos jogos de vôlei da Banda que eu amava, "o que é é, não é?". É sim, Marco. Mas é tão tarde e eu só quero dormir. Com o quarto cheirosinho, meus peixinhos coloridos na parede e o teto de estrelas. Vontade de ouvir Cazuza, e Rorô, e Vinicius e Joana. É, eu gosto de Joana. Principalmente aquele cd em que ela canta Lupicínio. Vontade de dormir e esquecer. Acordar e começar. Ou, como diria minha amiga delícia, passar "aciclovir" nessas feridas todas que eu tenho aberta, e esperar a casquinha cicatrizar tudo. Post grande. Como há tempos não escrevia. Agora chega. Porque o que há além de tudo isso só o caderninho laranja entende.

Sorvete de Casquinho

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