Na época em que Chico morava na periferia tinha uma vizinha de porta estranhíssima. Grandalhona, robusta, de traços grosseiros, chamava-se Nanci. Quando se cruzavam na escada, ela até cumprimentava, às vezes sorria ou acenava, mas ele tinha uma cisma. Uma certa aversão àquela figura.
Certa vez, Nanci bateu à porta de Chico com um olhar manso, diferente do que ele costumava enxergar na moça.
Ela era analfabeta e com muita humildade, pediu para que o rapaz redigisse uma carta de muita importância para ela. Apesar da resistência que tinha a qualquer contato com a estranha, cedeu ao apelo sem insistência:
- Sente aqui e diga: para quem é e o que devo escrever?
- É para o meu namorado, o nome dele é Pablo.
- Namorado?! - Chico não conseguiu esconder o espanto.
- É, namorado. Por quê? Uma moça como eu não pode ter um?
- Claro, que bobagem! Vamos lá então, dite. - disfarçou tentando consertar a indelicadeza, mas ainda pensando em como seria possível alguém em suas condições mentais preservadas namorar um tipo como aquele.
E a moça ditou a carta com tanta emoção, mostrando-se delicada e amorosa que Chico pensou que caso a namorada não fosse Nanci, até gostaria de estar no lugar do tal Pablo.
Muito grata ao préstimo do rapaz, Nanci perguntou o que poderia fazer-lhe em retribuição - lavar e passar suas roupas, por exemplo. Chico apenas negou e ainda agradecendo, ela saiu.
Passada uma semana, Nanci novamente bateu à porta:
- Olá, boa tarde. Seria pedir demais que o moço me escrevesse outra carta?
- Absolutamente. Pablo, não é? - disse Chico sentando-se já com papel e caneta em punhos.
- Não. Desta vez é uma carta dele para mim.
- Como assim uma carta dele? Isso quer dizer que não existe nenhum namorado Pablo?!
Nanci respirou fundo e respondeu com uma voz diferente da que Chico havia ouvido antes:
- Não existe Pablo, nem existe Nanci. E daí? Se te custa muito escrever pra mim, tudo bem, peço a outro.
- Como assim não existe Pablo nem Nanci? - Chico meio perturbado e com os olhos esbugalhados, esperava uma explicação que lhe fizesse acreditar que não estava louco.
- Pois é, eu bem queria que ele existisse, mas não. Será que não é possível que eu seja uma pessoa normal como as outras, tenha um namorado e escreva para ele?
- Ele quem, meu Deus? A senhora não acabou de me dizer que Pablo não existe?
- Não existe, mas é como se existisse, ué. Eu escrevo para ele e ele me responde. Quando peço para que alguém leia para mim as cartas de Pablo, é como se ele existisse e sinto-me leve como uma pluma. Não estou prejudicando ninguém. Que mal pode haver nisso?
Chico finalmente entendeu. Passou a escrever semanalmente cartas de Nanci para Pablo e vice-versa. Às vezes lia algumas para ela, que normalmente chorava, ficava emocionada. Em troca, encontrava sempre suas roupas limpinhas e cheirosas.
Central do Brasil? Não, Anna Maron
28.6.03
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