22.10.03

Preto, preto, muito preto e colorido

Eu gosto de brincar assim, à noite: fecho todas as janelas, mas deixo entrar o ar, pra não sufocar. É melhor fazer essa experiência se estiver desacompanhada, assim não tem pra quem pedir socorro, pelamordideus, alguém me acuda, ceguei, ceguei.

Tento colocar o plug da luminária na tomada. Não sei por que vou tentar colocar justamente o plug da luminária na tomada, já que não enxergo mais. Talvez, quando eu já não estiver mais sozinha, alguém se faça valer da luz da lâmpada - para ver, por exemplo. De memória, imagino o fio torcido e incandescente dentro do vidro. Nunca gostei de lâmpadas fluorescentes, essas outras são bem mais bonitas. Poderia ser o plug de um rádio. Melhor que fosse um rádio. Rádios são companhia, se não houver ninguém que possa ler as notícias do jornal.

Depois, vou me servir de água na cozinha. Do quarto até lá, devo atravessar a sala e vou com uma mão estendida para o nada, outra esfregando na parede. Uma das vantagens de se não ver nada, é que não se enxerga quando a parede fica naquele estado lastimável, a pintura toda feia e borrada. Até que acaba a parede e estou no vazio, até atravessar a sala e dar com a cristaleira, cheia de taças e louças e algumas miniaturas que minha mãe coleciona. Mas claro que eu só saberia que lá dentro tem vidro - ou cristal - se eu topar com o móvel e tudo lá dentro fizer tlintlim, ou ainda se eu abrir a porta e colocar a mão pra dentro. É perigoso mexer com essas coisas cortantes. E, se quebrar, melhor embrulhar no jornal pra não machucar o homem que recolhe o lixo. Ninguém sabe o que se esconde dentro de sacos plásticos que contêm o lixo do condomínio. Não quero que ninguém se fira porque eu não sou capaz de enxergar.

Daí eu chego à cozinha. Sei onde está o interruptor, mas não importa. É mais difícil abir o armário e pegar o copo. Gosto de sentir a água chegar até a ponta do dedo, que eu fiz descansar na borda do copo, pra que não se perca nada de líquido sobre a pia, em que está apoiado o copo. Bebo. Beber no escuro é igual a beber no claro.

Já tomei banho no escuro também. É bom. É macio. E molhado.

Deve haver coisas que sejam mais fáceis se não se conseguir enxergar. Por exemplo, não existe mais nenhum drama sobre a tão importante questã de fazer sexo no escuto ou no claro. Também acho que não deve haver mais vergonha de ficar pelada na frente das pessoas. A gente nunca vai saber realmente o quanto é feia. Por outro lado, também não vai nunca saber se é realmente bonita.

Se a gente nasce sem ver, não deve haver imaginações. Deve ser estranho ouvir uma história e não saber dar face e tamanho às personagens. Nem saber onde é que elas estão. Todos os lugares são só nomes. Se a gente tiver sorte de ter ido a alguns, os lugares são cheiros. E sons. Cheios ou vazios. Nunca bonitos ou feios.

Se a gente viu um pouquinho, daí dá pra inventar melhor. Deve lembrar de algumas cores, se bem que ultimamente as pessoas têm inventado muitas cores. É só ver nas propriedades de vídeo do cumputador. Antes, eram 24, agora são 256. De quantas cores mais será a humanidade capaz?

a menina do didentro

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