12.5.04

- Ai, que legal o Comida di Buteco!!!

Não, Comida di Buteco não é legal.

Primeiramente vou explicar do que se trata a aqueles que não residem em Belo Horizonte, ou o fazem porém acabaram de sair de um coma de 5 anos. Comida di Buteco é um festival organizado por Deus sabe quem, com a finalidade de eleger o melhor boteco da cidade em quatro quesitos diferentes, prato servido, atendimento, a cerveja mais gelada e o mais higiênico.

Devo ressaltar que o festival fere o princípio do bom boteco em 3 dos 4 quesitos, pois boteco que é boteco o atendimento é péssimo (haja vista que os garçons são mal remunerados e preguiçosos, e a patroa brigou com o dono do estabelecimento e o largou sozinho no balcão), a cerveja é quente (pois a eletricidade chega através de um “gato” mal feito e a tampa do freezer está com a borracha estragada) e o banheiro é um lixo (pois clientes de botecos são pessoas bêbadas que, eventualmente, fazem suas necessidades fora do vaso sanitário, e ninguém se dispõe a limpar aquilo, considerando-se que os garçons são mal remunerados e preguiçosos e o dono do boteco está sozinho no balcão; convenhamos, se o boteco tem um faxineiro, automaticamente perde o título de boteco). Continuando, o júri é composto por empresários da noite e pessoas bem abastadas, ou seja, não são freqüentadores assíduos de botecos, haja vista que usam garfo e faca para levar o alimento até a boca, são pessoas acostumadas a beber vinhos franceses e comer foie gras no Taste Vin. Outro dia, no MGTV, vi um jurado comentando um determinado prato, “as ervas dão um sabor leve e requintado que contrastam com a carne vermelha”, se o dono de um autêntico boteco vê um sujeito falando isso da comida dele, daria um tapa na mesa e o tocaria dali de vassoura em punho, agora digo como deveria ser a coisa, “o cabelo na comida confere uma oleosidade e uma cor única em contraste com o branco do prato”.

Boa parte dos botecos que participam do festival não são, de fato, botecos. E é aí que entra o grande desfavor, os poucos botecos autênticos que participam do festival se desbotequizam (se me permitem o neologismo, se não permitem que usem três palavras pra explicar isso), entendam, você vai num boteco próximo à sua casa em que a cerveja custa R$2,30 e o tira-gosto (que ainda nem era chamado de “prato”) sai por R$5,00, na semana seguinte à indicação do pardieiro, a cerveja passa a custar R$3,00 (mais os 10%, antes inexistentes, uma vez que você mesmo ia buscá-la no balcão) e o agora dito “prato”, que só deixou de vir numa vasilha velha, suja e engordurada, custa nada menos que R$13,90. E pior, o lugar em que antes você sentava praticamente só, apenas na companhia de meia dúzia de fregueses, agora é um dos metros quadrados mais disputados da cidade. O que o Comida di Buteco pretende promover é o anti-boteco, e todos batem palma como se isso fosse o máximo da programação cultural, haja paciência. Minininho do Feyenoord neles.

E por fim, que tipo de gente frouxa vai em boteco pra comer?

Escuro Com Sol Dentro

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