18.2.07

Sensibilidades masculinas

Quando tinha 14 anos, esperava ter, algum dia, uma namorada.

Quando tinha 16 tive uma, mas não havia paixão. Então decidi que necessitava de uma mulher apaixonada, com vontade de viver.

Na escola saí com uma mulher apaixonada, mas era demasiado emocional. Era tudo urgente, era a rainha dos dramas, chorava todo o tempo e ameaçava suicidar-se. Então decidi que necessitava de uma mulher estável.

Quando tinha 25 anos encontrei uma mulher muito estável, mas aborrecida. Era totalmente previsível e nunca se excitava com nada. A vida tornou-se tão chata que decidi que necessitava de uma mulher mais emocionante.

Aos 28 encontrei uma mulher excitante, mas não conseguia acompanhar o seu ritmo. Ela andava de um lado para o outro sem que nada a detivesse. Fazia coisas impetuosas e flertava com qualquer um com quem se cruzasse. Fez-me tão miserável como feliz. De início foi divertido e enérgico, mas sem futuro. Então decidi procurar uma mulher com alguma ambição...

Quando cheguei aos 31, finalmente encontrei uma mulher inteligente, ambiciosa e com os pés no chão. Decidi então casar-me. Mas ela era tão ambiciosa que me pediu o divórcio e ficou com tudo o que eu tinha.

Agora, com 44 anos, almejo uma mulher com seios grandes.

obvious

17.2.07

Se.

Se você quiser ser meu namorado eu prometo ser eu mesma. Prometo amar da maneira maior e mais bonita que eu sou capaz, me doar na medida dessa mesma capacidade e ser leal e fiel de acordo com aquilo que eu acredito. Não prometo mais nada, (in)felizmente. Qualquer outra coisa está bem além do meu alcance, saiba desde agora. Essa aqui que gostaria muito de ser sua namorada foi quem eu consegui me tornar depois desse tempo todo de vida. É possível que eu melhore um pouco, mas não muito. O fundamental, essencial, estrutural, é esse aqui mesmo. O mais provável, no entanto, é que eu até piore com o tempo, mas espero, sinceramente, que as rabujentices possam parecer para você, assim como acho que as suas vão parecer para mim, muito mais charmosas do que atrapalhativas à medida que o tempo passe e a gente vá se conhecendo cada vez mais e se amando cada dia mais um pouquinho. Prometo, ainda, não fazer promessas vãs, incrumpríveis e demagógicas com o único intuito de fazer com que você seja e/ou continue sendo meu namorado. Prometo também continuar sendo sua namorada até bem depois de nossos netos estarem crescidos, mesmo quando já puder parecer um tanto ridículo – para os outros – dois velhinhos em atitude libidinosa no banco do parque, quando já não lembrarmos nem de longe o menino que guardava sorrisos nos bolsos e a menina que tinha estrelas nos olhos.

Ticcia, Mme. Mean

10.2.07

Tonitruei, pronto.

(…)

O caráter é como aquele velho restaurante que nunca é reformado mas sempre tem um ranguinho confiável: ele nunca entra na moda.

O Hermenauta

30.1.07

EXEMPLAR COMPÊNDIO SOBRE A FALTA DE TEMPO

Roma não se fez em um dia: foram doze horas corridas, sem intervalo para o almoço. A pressa foi tanta que até hoje você vê o Coliseu, lá, incompleto. O paraíso foi criado em cinco dias, em vez dos quatro bilhões de anos regulamentares, que incluiriam licitação, sub-empreitas e acabamento – e aí ele acabou entregue sem a nascente do Nilo. Os dias que abalaram o mundo foram só dez porque o John Reed tinha gasto todo o adiantamento da editora e precisava mandar os originais logo. Já eu tenho que entregar seis campanhas atrasadíssimas e não anda me sobrando tempo para postar. Ei, idéia para post: parodiando H. G. Wells, A Máquina da Falta do Tempo. Cientista ocupadíssimo é contratado por uma megacorp nipo-americana para desenvolver em tempo recorde um

Ao Mirante, Nelson!

Onesome

Cedo demais para acordar e ainda assim tarde demais para me despedir dela antes que saia para a escola: começo inauspicioso para o fim de semana. Traços discretos revelam a pressa matinal –duas peças de roupa jogadas na cadeira, o banheiro ainda úmido, a toalha pendurada apressadamente que caiu do gancho na parede, a máquina de espresso ligada. A essa altura ela está no trem, provavelmente tentando tirar um cochilo (a não ser que haja alguém sentado logo ao seu lado, porque ela jamais conseguiria cochilar com um desconhecido no assento ao lado). Ms. M. odeia essa convenção ferroviária de pares de assentos voltados um para o outro –a obrigação de desviar o olhar, de sorrir idiotamente quando o desvio não funciona-, e odeia a paisagem suburbana (da cidade para o campus, subúrbio sucede subúrbio, a desolação de marts, condomínios, casas isoladas enfeitadas por desenxabidas e desbotadas bandeiras). Ela poderia adiantar a lição de casa e ler sobre o Magma 3, Dogma 5, Zeugma 9, mas aposto –com certo sentimento de culpa- que o sono não vai deixar.

Tomo café, apanho o jornal. A bicicleta me olha com repreensão estampada nos pedais, mas tá uma chuva besta lá fora, composta, tenho certeza, por aquelas gotas geladas e espessas capazes de encontrar caminho gola abaixo não importa quantas camadas de roupa o mano vista. Me acomodo no sofá do escritório com um livro, mas meu encontro com Messrs. Walker & Sons na noite de ontem impede que eu dedique a concentração necessária às peripécias da economia nazista tais como brilhantemente descritas pelo Dr. Tooze. Leio um pedaço do jornal, penso nela mais um pouco –meio litro de café por hora de aula, estimo, rindo- e decido sair. Dizem que tem 15 milhões de pessoas na região metropolitana -e mais ou menos 14 milhões delas estão fazendo compras no mesmo horário que eu, aparentemente-, mas 15 milhões menos uma igual a zero: cidade fantasma e, em cada loja, em cada rua, a vontade irresistível de sacar o intimorato Blackie do borso e comentar alguma coisa com ela.

Depois de almoçar com amigo ainda mais melancólico do que me sinto –hair of the dog, wha’?- e de comprar mais coisas de que não preciso e presentes propiciatórios, descubro que tempo e perambulação conspiraram para me levar à gare, marromenos meia hora antes do horário em que o trem dela deve chegar. Compro flores, amasso as pobres das flores por conta do excesso de pacotes, alugo armário, confiro horário e plataforma (as câmeras de segurança com certeza já me catalogaram como ameaça). O celular chilreia. Ela, avisando do horário de chegada e perguntando se estou em casa. Sorrio. Compro meu 19° café. Me escondo por trás de uma coluna e das flores amarfanhadas na plataforma de desembarque. Ela desembarca, elegantemente envolta em um casaco que parece um pufe de napa. Deixo o abrigo, aceno. Ela pára. Franze os olhos. Abre aquele sorriso que demole cidades fantasmas. Corre que nem menina pela plataforma, e se lança em meus braços. Eu derrubo as flores, mas consigo dizer “tava morrendo de saudade” uma fração de segundo antes dela.


Filthy McNasty

26.1.07

Hay Kai? Soy contra

A poesia fede, a poesia quer ficar rica, dizia o poeta, com conhecimento de causa. Ou ele dizia outra coisa? Não sei, procuro não prestar atenção em poeta senão o sujeito não sai da minha mesa até eu comprar o incenso. Caso sério.

O problema com a poesia é que ela está ao alcance de todos, e como se sabe, a democracia não funciona em nenhuma área, com a possível exceção das eleições para presidente do Vasco, em que um perfeito exemplar da espécie é sempre escolhido. Democracia representativa é isso aí.

Mas falávamos de poesia, e de como, uma vez alfabetizada, qualquer pessoa pode entrar na brincadeira. E o principal problema é que a poesia, em mãos erradas, tem poder de destruição muito maior do que o das outras artes. Alguns acham que a o caso música é mais grave, porque é capaz de juntar o pior de dois mundos, mas acredito que na música a poesia ruim pode se diluir na melodia ruim e perder nossa atenção facilmente. Ou se a música é muito intrusiva, como grindcore ou Axl Rose, uma anular a outra pela estridência.

Mas de poesia é impossível fugir. Você pode ignorar um músico em um bar, mas seria mais fácil conseguir um visto de saída do Gueto de Varsóvia do que receber o mesmo indulto de um poeta. Ele põe os olhos sobre você, e o silêncio constrangedor em torno faz o resto. Você fica paralisado como um sapo sob o facho de luz.

Quem já esteve diante de um bom orador sabe o poder inspirador que as palavras têm, mas só um mau poeta para dar a dimensão exata de sua capacidade emburrecedora. Experimente encontrar palavras para comentar um livro da Bruna Lombardi. Elas nunca vão fazer justiça às profundezas da ruindade do objeto em questão. Você se sentirá analfabeto de pai e mãe.

Platão, em um texto famoso, disse que os poetas seriam expulsos da sua hipotética República. Eu me contentaria se eles fossem expulsos do recinto.

Arnaldo Branco Mau Humor na Bizz

22.1.07

2007

Decidi que vou investir tudo no meu quarto. Vou comprar um ar condicionado split, três metros de chita colorida suficiente para cobrir uma parede inteira, talvez uma cama nova, ou pelo menos o colchão – porque o atual está me matando – uma mesa de cabeceira com gaveta para guardar o livro que vou ler até o sono chegar. Depois apago a luminária super legal que também providenciarei. E fotos. Fotos espalhadas por toda parte em molduras que eu mesma farei. Aí, no dia que estiver tudo pronto, mudo a minha vida toda lá para dentro. E lá será o meu reino, onde todas as coisas aconteçam exatamente como eu acho que elas devem acontecer. Viverei sozinha lá dentro. Talvez algumas visitas uma vez ou outra, mas coisa rápida, para o lugar não perder nem um pouco da minha cara que não será a que vejo no espelho agora.

bem aqui assim

Tomografia computadorizada - R$ 808,64
Diária de internação - R$ 373,20
Optiray 50 Ml Injetável (santo remédio) - R$ 477,00
Ter uma cólica renal na frente da sua gerente de banco, enquanto você solicita um novo talão com lágrimas nos olhos - Não tem preço

Existem coisas que o dinheiro compra. Para todas as outras existe Whaddafuck?!

Fotografias

Há quem se desfaça de velhas fotos. Eu não. Guardo até um álbum do meu avô, que faleceu há mais de dez anos. Meu avô quando jovem, meus tios brincando no quintal de casa, gente que eu não faço idéia de quem seja. Estão lá, literalmente no fundo de um baú. Para quando eu quiser ver. E de vez em quando eu quero.
Hoje, por exemplo. Revisando essas e outras fotos, encontrei umas quatro ou cinco ex-namoradas (a dúvida numérica diz respeito às "namoradas"; as meninas eram cinco). E tentei me lembrar do tempo que passei com elas... Como, quando foi? O tempo se dobra sem tocar as pontas. Uma foto é só uma foto - nada se resgata. Mas em algum lugar eu sou o mesmo que um dia a olhou pela primeira vez.
E é como guardar um livro. Sabe-se as palavras, mas os sentidos são outros ao longo do tempo. Assim mesmo: Heráclito na veia. Só que num instante eternizado.

será que não faz diferença nenhuma?

19.1.07

Que a terra lhe seja leve

Morto sob 38 metros de terra no desabamento da estação Pinheiros do metrô, o motorista de caminhão Francisco Sabino Torres, 47, transportava 30 mil kg de terra todos os dias no caminhão Mercedes-Benz 2638 que pilotava a serviço do Consórcio Via Amarela. Ele teve de enfrentar a terra de novo na hora do enterro.

Velório realizado em sua casa, na rua Santa Terezinha, Vila Guilherme, bairro de Francisco Morato, Grande São Paulo, o féretro estava marcado para sair ontem às 9h em direção ao cemitério da Alegria. Não deu.

Nessa hora, sob chuva, a rua de terra era lama intransitável. O carro da funerária desistiu. Cerca de 20 operários do consórcio, que foram ao enterro, ofereceram-se para carregar o caixão nas costas -ladeira acima, 200 metros até o asfalto.

Câmeras de TVs ao vivo, a prefeita Andréa Pelizari (PSDB) mandou um trator jogar brita para estabilizar o terreno. O carro funerário conseguiu sair às 11h, sob aplausos de colegas, vizinhos e familiares.

No cemitério, outro problema: os jazigos foram construídos na medida padrão das urnas mortuárias populares. O caixão do motorista Torres era especial, de luxo, pago pelo Consórcio Via Amarela. Resultado: não cabia no retângulo concretado. Demorou. A solução foi enfiá-lo de lado.

O secretário estadual de Justiça, Luiz Antonio Marrey, que fora levar conforto aos familiares, não esperou. O corpo ainda estava encalacrado e o helicóptero da PM com Marrey a bordo sobrevoou o campo santo, voltando para São Paulo.

Pais de três filhos (Kelly, 19, Adilson, 16, e Danilo, 15), marido de Maria Sinhazinha Torres, o motorista era líder comunitário. Passou os últimos 20 anos, tempo de moradia em Francisco Morato, lutando por asfalto. Não deu tempo. Francisco Morato, 200 mil habitantes, só uma indústria instalada, é cidade-dormitório dona dos piores indicadores sociais do Estado. De 1.500 ruas, apenas 400 são pavimentadas. O resto é terra.

LAURA CAPRIGLIONE Folha de S.Paulo - 19/01/2007

Ordem e progresso

Inspirado na triologia das cores de Kieslowski lembrada no último post, comecei a redigir o roteiro de uma bi-logia das cores: verde e amarelo. Os nomes dos filmes serão "Verde" e - adivinhe - "Amarelo". Quando traduzidos para o francês, o russo e o suahili, os títulos poderão ser renomeados para "A ordem é verde" e "O progresso é amarelo".

O primeiro contará a história de um inglês que chega ao Brasil e tenta implantar sem sucesso seus ideais de ordem e método. Para dar a coloração verde que a fita requer, algumas cenas serão feitas num bananal no vale do Ribeira. Como o bananal entra na história é algo que ainda estou definindo. No fim, ele desiste e volta pra Europa.

O segundo filme narrará a vinda de um sul-coreano interessado em abrir uma fábrica de componentes eletrônicos no Brasil que, premido pela absurda carga tributária, pelos ridículos encargos sobre a folha de pagamento, pelos achaques sindicais, pela falta de infra-estrutura e, sobretudo, pela falta de cachorros sem vermes para comer, ele pica a mula de volta pra Coréia no final. A coloração amarela do filme será garantida por figurantes com febre amarela.

Antes de escrever a primeira linha dos roteiros, contudo, redigi meu discurso de agradecimento pelo Oscar que certamente há de vir. Tem seis laudas em frente e verso, tem tudo pra ser lembrado pelo resto da vida da minha mãe.

é por aqui que vai pra lá?

O inapto e o pneu

Na noite de segunda-feira eu descobri que sei trocar pneu.
...
Que foi? Que que tem? Vocês acham que todo homem vem de fábrica com os genes de trocar pneus, abrir jarros e matar baratas? Pois eu só vim com o dos jarros. Matar baratas foi uma habilidade que eu adquiri com o tempo, e trocar pneu foi algo que surgiu com a necessidade. Conto.
Depois da saga que foi obter minha carteira de motorista aos 30 anos de idade, e de enfiar um carro no poste, achei que já tivesse passado pelo batismo da direção. O negócio começou a mudar, porém, quando recebi minha primeira notificação de multa, há uma semana. Quatro pontos na carteira por andar a estonteantes QUARENTA E OITO QUILÔMETROS POR HORA (o limite era quarenta). E então, na segunda-feira, o pneu.
Vinha eu feliz pela Marginal Tietê após deixar a namorada em casa. Havíamos saído para comemorar o aniversário de dois anos de namoro (vejam só que mulher paciente). Pensando no quanto o trânsito estava livre, e que ia chegar em casa rápido, peguei a alça que leva à avenida Governador Carvalho Pinto, via pública com baixo índice de acidentes e alto índice de trocadilhos. No meio da curva, a oitenta por hora (o limite é sessenta; vem me pegar, CET!), um estrondo e o carro fica manco de repente. Quase me enfio na lateral do viaduto. Consegui controlar o carro, porém, e percebi que o pneu dianteiro esquerdo havia estourado.
O que fazer? Eu não tinha idéia. Liguei o pisca-alerta e me pus a pensar. Por pouco tempo: as buzinas atrás de mim (todos os carros surgem do nada quando você está parado na faixa da esquerda de um viaduto com o pisca-alerta ligado) me fizeram perceber que, caso ficasse ali, seria abalroado (vixe mãe) em breve. Então fui conduzindo o carro para a direita, fazendo sinais frenéticos e meio abichalados para que me deixassem passar.
Já do lado direito, outro problema: estava no meio da favela do Boi Lambão Malhado (sei lá o nome da favela). Não sei quanto a vocês, mas eu não ando muito com vontade de morrer, então fui dirigindo o Corsa capenga até passar a favela do Macaco Leproso. O que não adiantou muito: enfiei o carro numa travessa logo do lado da favela do Sapo Pilantra. Os moradores da comunidade (eu estava no meio do território dos caras, melhor ter respeito) estavam todos reunidos num bar ali perto, dançando ao som de um rock retardado qualquer. Capital Inicial, essas coisas. Um sujeito de bicicleta passou três vezes olhando para o carro e para minha cara de babaca.
Sim, leitores, eu tinha medo. Mas ali estava meu meio carro (a outra metade ainda é do meu pai; alguém tem 11 mil reais pra me emprestar?) de pneu furado, e eu precisava solucionar aquele problema. E o pior: estava de calça nova. Se pelo menos estivesse de minissaia, era possível que algum rapaz bondoso parasse para me ajudar. Como não estava, botei mãos à obra: abri o porta-malas, retirei o estepe, o macaco e a chave de roda (não tinha triângulo, nem zabumba, quanto menos sanfona), e resolvi tentar trocar o pneu.
Eu lhes digo: a troca de um pneu parece tarefa corriqueira, mas não é. Ah, não é mesmo! Trata-se de uma ciência hermética, uma arte para iniciados. Aposto com vocês que o teste para chegar a Grão-Mestre da Maçonaria é trocar um pneu. Pois vejam: para começar, não conseguia fazer com que o macaco executasse seu trabalho. Enfiei o safado sob o carro, imaginei onde seria um ponto de apoio decente na lataria, e comecei a rodar aquela joça. O diabo da alavanca ficava batendo no asfalto, e o carro subia um pouco e logo caía. Algo errado. Hora de ler o manual do carro. Consultando o importante documento, descobri que estava usando a ferramenta de cabeça para baixo.
Com o macaco devidamente posicionado, erguer o carro foi moleza. Aí veio o outro desafio: tirar o pneu. Afrouxei o primeiro parafuso sem grande dificuldade, mas os outros não cediam nem a pau. Depois de muito tentar, aceitei a derrota e fiz o que qualquer mocinha faria no meu lugar: liguei para o seguro.
O rapaz que me atendeu deve ter achado graça na minha incapacidade, mas garantiu que o socorro chegaria em meia hora. Provavelmente um negão que me olharia com desdém e tiraria os três parafusos usando apenas dois dedos. Que se fodesse: no que me dizia respeito, o problema estava resolvido. Mais tranqüilo, saí para procurar um lugar onde pudesse comprar uma coca-cola. Logo na frente do bar, um trailer de cachorro-quente me surgiu como um oásis. Pedi minha coca-cola, conversei um pouco com os presentes sobre assalto a banco e notas marcadas (eu fico interativo quando estou nervoso, mesmo com o menos recomendável dos públicos), e voltei ao meu posto ao lado do pobre carro manquitola.
Meus amigos, levou menos de cinco minutos. Olhando para o carro ali tão vulnerável, já com os apetrechos jogados de volta no porta-malas, tive uma revelação: se erguido no ar, o pneu girava um pouco a cada golpe; firmemente plantado no chão, ofereceria um ponto de apoio muito melhor à chave de roda. Senti meu QI aumentar uns cinco pontos, abri novamente o porta-malas e dei início à Opareção Troca de Pneu 2.0.
Mais inteligente como estava, deduzi rapidamente que retirar todos os parafusos poderia trazer efeitos indesejados, como receber o peso do carro sobre o pé. Então apenas afrouxei os danados, agora com a maior facilidade, e levantei novamente o carro. Depois disso foi só terminar de desrosquear os parafusos e tirar o pneu furado. Ao tentar botar o estepe, porém, outro problema foi apresentado à minha poderosíssima inteligência: o eixo, ou seja lá como for o nome daquela porra onde se enfia o pneu, estava muito baixo para o encaixe. "Este pneu é muito grande", pensei eu. Botei o danado ao lado de seu colega ferido, e de fato ele estava uns 10 centímetros maior. E eis que o gênio se manifesta novamente: os dois eram do mesmo tamanho, só que um estava furado e o outro não. Bastaria subir o carro um pouco mais e estaria feito. Pronto: com essa genial dedução final, terminei a troca do pneu, liguei para o seguro cancelando o chamado (atendido por uma moça, dessa vez) e voltei para casa.
A lição que aprendi e agora repasso a vocês: o bom mesmo é nascer mulher. Não que essa lição vá me servir para alguma coisa.

http://www.jesusmechicoteia.com.br/

25.12.06

O Natal foi um fiascão. A ceia chegou 11 da noite - porque famílias normais comemoram à meia-noite. Nós, às nove. Muito bem, meus filhos sairam antes do rango chegar. Pra passar a outra metade na casa do pai. Já começou por aí. Segundo: ninguém gostava de bacalhau (só a Bel) e meu irmão não gosta de presunto. Ele não gosta de comida de Natal. Umas onze e pouco chega o resto da minha família: tia, prima, marido da prima, etc, no total de oito pessoas. Atenção: que já tinham jan-ta-do. Resumindo, a festa foi uma zona, e eu tinha bolado tudo arrumadinho. De repente já tinha caçamba de gelo na mesa, coca-cola quente, falta de lugar para sentar, e virou Homer total. Natal dos Simpsons. Se eu soubesse dirigir eu levaria a comida para os sem-teto, é muita, não tenho condições de comer, nem de guardar tudo. E ia ser uma festona pra eles. O bacalhau estava delicioso - sim, eu como, porque não considero peixe, por ninguém nunca ter visto sua cabeça.

Mas ficou uma bagunça só. Não sei como minha prima consegue fazer um Natal tão perfeito. Tudo de prata, louças maravilhosas, árvore enorme, guardanapos de linho, mil sobremesas. Acho que é um dom, saber fazer uma festa onde a coca esteja sempre gelada, muito gelo, mesa de doces. Só tinha rabanada, que eu comprei na padaria da esquina. Não é para me gabar, mas o Davi Moraes toma café da manhã no balcão. Sacou? Quando eu cheguei lá, putzgrilo. Fila que não anda. Uma mulher ficou uma hora e meia na fila, te juro, fila pequena mas que não anda. Com senha e horário marcado. Quis fazer uma rebelião, mas uma senhora me olhou com rabo de olho desaprovando. E ninguém comeu rabanada nenhuma e a ceia ficou lá, vou te contar. A gente ficou vendo os dvds das crianças pequenas, por isso quase não conversamos. Na verdade minha familia deu um pulinho aqui, por causa do meu tio de cama, etc, etc. E eu comprei brindes para os adultos (sabonetes deliciosos ) e para as "crianças", moedas de chocolate. Festa meia-bomba e eu falando "Espírito natalino! Espírito natalino!", feito uma louca.

Acho que o Natal anda meio desacreditado.

blowg

3.12.06

Escoteiros

Sempre achei que eles fizessem parte do folclore. Sei lá, pra mim, escoteiros eram uma alucinação coletiva, ou alguma coisa do tipo que assusta de tão bizarra, sabe?. Mas, não, eles existem. E como são chatos!

Desde a semana passada, eu trabalho com um escoteiro. Carioca. Com o pior dos sotaques. E ele é chato demais.
Ele é solícito. O mais solícito. Só ele quer ser solícito no mundo todo.
Ele tem cabelo tigelinha. Comprido. E franja.
Ele fala das crianças que ele cuida (ensina, brinca, tutela, come, sei lá...). O tempo todo. Só disso.
Ele fala. Muito. O dia inteiro.
Ele está a um passo de mim. Oito horas por dia. Cinco dias por semana.

Folclore por folclore, podiam ter contratado a Mula-sem-cabeça. Pelo menos ela não fala.

Update:
Ele fala ao celular no viva-voz. Numa sala onde mais quatro pessoas estão trabalhando. Diz bye bye quando desliga.
Ele diz que vai "papá" quando sai pra almoçar. Todo dia.

calaboca que eu tô falando!

Procurando rostos no desembarque

Para aqueles que vivem sozinhos, difícil não é partir,
mas chegar.

vizionarios

1.12.06

Descobertas

Sinto o seu corpo ainda, de quando mal sabíamos o que era um corpo. O mundo tinha esse brilho bobo das coisas que acabam de nascer. Descobertas que engolíamos sem ver, sentir o gosto ou explicar: por que a fome não terminaria nunca? Nem ousaríamos perguntar. Talvez devêssemos?
Agora não, já não importa mais. E na memória as nossas pernas não se entrelaçaram tanto, nem estreitamos tanto os nossos braços, nem respiramos o mesmo ar impregnado de suor, saliva, instintos e ternura. E fica essa impressão de que mal chegamos a nos conhecer; de que o toque era somente o reconhecimento de onde terminava um e se inventava o outro.
O que talvez seja exatamente o que se passou.
Ah, minha amiga, mas com quanta alma nos iludíamos sobre isso tudo!

diferença nenhuma

Encontro

"Acaso já nã te vi?"
Não, você nunca me viu. Nunca estive aqui, nem nunca fui quem eu sou agora. Se ilude se pensa que o garoto da foto antiga, o adolescente que sentava ao seu lado, o motorista esperando no sinal vermelho são a mesma pessoa que eu hoje, não sou mais, tenho outros planos, outros sonhos, outras cicatrizes. O que importa se meu rosto ainda se assemelha ao que era antes, se tudo dentro de mim é novo? Não se iluda, você também não é o mesmo, apenas acostumou-se a pensar que é. Porque não aproveita que é novo, e faz o que, quem você era, nunca faria?

souvenirs do inferno

16.11.06

O Amor que Move Estrelas

É preciso bastante otimismo pra imaginar que só conseguiremos destruir um planeta.

Só É Morto Quem Quer

Quarenta minutos antes do Nada (Fla-Flu), já buscavam os Neanderthais a imortalidade -- mas acho que a extinção fala por si só. Felizmente, com o advento da globalização e da banda larga, hoje a imortalidade está ao alcance de todos, pode ser encontrada em qualquer banca do centrão. E dentre os métodos mais populares contamos:

- Pedra Filosofal
- Esconder a Idade
- Horcruxes
- Consultar o médico se persistirem os sintomas
- blogs

A fonte da juventude secou na crise de energia. A arte morreu com a paulicéia desvairada. E tanto o teleporte clássico quanto a clonagem de embriões de bode foram revogados pela administração Bush. Mas acho que estamos bem servidos - no sentido de que aumenta a taxa de obesidade.

Resolvido, portanto, o problema do Big Crunch, agora que alcançamos a imortalidade só nos resta uma questão: e aí, vai fazer o que com ela?

Fazer beicinho, assim como eleger políticos vagabundos, sempre traz alguma emoção, mas é muito pouco. Unir-se ao Pink e tentar dominar o mundo é uma idéia. O ócio criativo, não -- ou assim sugerem pesquisas sem valor científico. É uma situação complicada;

Mas graças a Brasil Xinique, filósofo e contraventor, talvez tenhamos a solução do problema. Num imortal, cacareja o professor, a crise de meia-idade só acontece no infinito. Então sejamos sábios e vamos deixar isso pra amanhã.

Mozart dies irae

15.11.06

Quem quer ser meu estagiário?

Não é para o Cocadaboa. É para a outra parada que eu faço.

Requisitos:

- Ser minimamente antenado para saber qual a outra parada que eu faço.
- Ter a noção de que não é para me procurar pelo email do Cocadaboa, mas pelo meu email do lugar onde trabalho. E ser safo para achar esse email. Quem me procurar pelo email do Cocadaboa será imediatamente rotulado como "não safo".
- Quero saber "o que o candidato faz de bacana", e não ler o seu currículo. E daí que você estudou em um colégio caro e fez inglês na Cultura Inglesa? Eu não. Aliás, o simples fato de você já ter um currículo pronto em Word já te desqualifica um pouco para o cargo. (…)

cocadaboa

11.11.06

Onde se ilustra a sobrevivência dos mais aptos

Eu mato as pessoas.

Mas não como todo mundo, usando as mãos, armas ou palavras.

Eu sou diferente. Eu só preciso pensar.

Esse dom surgiu aos poucos, e só me dei conta dele pela primeira vez na escola. Talvez por eu ser muito magrinho e míope, muitos garotos zoavam de mim. Até que um dia o Carlinhos não veio mais à escola. O Carlinhos era o fortão da turma e era o que mais caçoava de mim. Um dia eu tomei coragem e perguntei para a professora o que havia acontecido com o Carlinhos. Ela olhou para mim com uma cara de tonta e perguntou:

_ Que Carlinhos?

Depois de mais alguns desaparecimentos, eu comecei a perceber que as coisas estavam relacionadas. As pessoas que eu queria que desaparecessem desapareciam, e não apenas deixavam de existir: era como se nunca tivessem existido. As outras pessoas simplesmente deixavam de se lembrar delas. Só eu me lembrava delas.

No início eu achei que isso era um dom. Poder remover do meu caminho todos aqueles de quem eu não gostava, como se estala os dedos. Só que com o tempo descobri que a gente não consegue gostar o tempo todo de uma pessoa. E comecei a perceber que mesmo as pessoas de quem eu gostava a maior parte do tempo de repente sumiam, só porque um dia ou outro eu brigava com elas, e era difícil controlar os pensamentos e deixar de pensar: "suma daqui!". Como resultado, eu quase nunca tinha amigos, nem namoradas. Especialmente as namoradas desapareciam bem rápido, o que era triste, porque eu era muito magrelo e feinho e era difícil uma menina gostar de mim.

E isso acabou me deixando muito triste e deprimido. Eu já quase não saía de casa. Minha mãe percebeu isso e hoje de manhã entrou em meu quarto para uma conversa.

Ela entrou, sentou na beirada da cama, olhou bem para meu rosto e disparou:

_ Meu filho, você é gay?

Ela podia ter perguntado isso, ou se eu queria ser padre, ou se eu votava no PFL. Tanto faz. Eu só sei que fiquei com muita raiva dela por ela ter pena de mim. E ela sumiu.

***

E é por isso que eu quero mor

O Hermenauta

29.10.06

Feriado

Tédio. Cansaço. Desânimo. E não sei o que é pior. Se ficar em casa ou ir pro escritório. Porque quando estou em casa, quero ir pro escritório e quando estou no escritório quero vir prá casa, então acho que devia ir pr'outro lugar qualquer que eu também não sei aonde é. Parecido com vontade de comer alguma coisa sem saber o quê.
Além disso, o trabalho ultimamente tem parecido uma bicicleta ergométrica.
Não tem servido para nada, nem chegado a lugar nenhum.

E o Zé fica me perguntando porque é que eu não o amo mais.
Tenho preguiça até de dizer que amo. Então sorrio.
O que já me custa um esforço demasiado.

e já era hora da pausa para o cigarro

Não tenho mais idade para:

1. chorar em qualquer filme
2. jogar capoeira
3. paixão platônica
4. ter o cabelo quase raspado
5. culpa
6. roubadas em geral
7. ter vergonha de minhas pernas
8. brigar com meus pais
9. ou com meus irmãos
10. usar aparelho
11. usar substâncias ilícitas
12. mudar de profissão de novo
13. usar sapato de plástico
14. cuidar de neném
15. me achar baixinha demais
16. alisar o cabelo
17. ficar calada
18. topar qualquer coisa
19. virar noite trabalhando
20. trabalhar em agência
21. usar tic-tac no cabelo
22. ir a shows onde se fica em pé
23. viajar 10 horas seguidas de ônibus
24. tomar vinho ruim e não ter ressaca
25. não gozar
26. achar que sou uma farsa
27. usar minissaia
28. usar coturno
29. beber e querer beijar todo mundo
30. ficar contando minha vida em blog
31. passar vexame por causa de filho
32. querer ser outra pessoa
33. acampar
34. me deslumbrar com blogs
35. me levar muito a sério
36. estudar feito estudante
37. achar que não tenho mais idade para.

mothern

Eu fico maravilhada quando alguém me diz que nunca leu um livro na vida. Porque eu penso que bom que você não precisou. Fico querendo ouvir a respeito. Seu coração não dói, como é isso? As coisas não apertam tanto dentro de você?

por mary w, citada em bocozices

Desperate house-hubby & wife

Minha empregada tá de férias.
Pediu quinze dias pra “estar preparando” – eu juro que ela falou des’jeitim – o aniversário do filho. Fiquei imaginando que tipo de festa de aniversário vai ser essa, pra precisar de duas semanas de preparação tão intensa a ponto de a moça, que só trabalha autodeterminadas 4 horas por dia, precisar de tooodas as suas horas de vigília pra isso. Deve ser um festão, periga até sair na Caras. Mas como isso não é da minha conta, paguei as férias e calei a boca. Até aí, tudo bem. Achei que quinze dias passariam rápido, a gente daria conta das tarefas de casa, chatinhas porém simples, e logo ela estaria de volta. Hah. A primeira semana mal acabou e já estamos exaustos. Gatim, de lavar chão e louça. Eu, de cozinhar e lavar roupa – na verdade, estender no varal, porque lavar é fácil quando se tem um sistema como o meu (separar por cor, jogar dentro da máquina, escolher o programa, ligar e sair de perto). Além do mais, é claaaro que nesta exata semana, a pia da cozinha começou a vazar, o feijão congelado tá acabando (e eu morro de medo de panela de pressão), uma caixinha de leite longa vida surtou, fermentou, inflou e vazou um líquido viscoso e abundante que impregnou as outras caixas, o armariozinho de madeira onde ela estava, as latinhas de refrigerante da prateleira abaixo, enfim, toda a área de serviço, a cozinha e parte da sala e do corredor com um futum indescritível (mas que se eu fosse tentar descrever, diria que parecia que um bacalhau com cê-cê, sofrendo de chulé terminal e hálito de tigre louco havia morrido e apodrecido em cima de uma montanha de queijo Limburger com cebola e restos de cerveja choca deixados no sol por uma semana dentro de uma sacola feita de bucho de bode . E isso é só uma pobre tentativa, a realidade foi muito pior.). Por outro lado, desde que a moça saiu de férias, nossos almoços, feitos por mim, andam bem mais gostosos e bem temperados, o vaso do meu banheiro parou de entupir – talvez porque os quilos de cabelos que caem da minha cabeça todo dia agora vão parar no lixo, e não porcelana abaixo – e meus chocolates diet (que custam o triplo dos normais), os únicos que eu posso comer, pararam de sumir por milagre. Mas o mais triste foi que eu descobri, por acaso, por sorte (?) minha e descuido dela, que não eram só chocolates e sabonetes perfumados e bonitinhos da Natura que vinham sumindo, não. Na pressa de sair, ela esqueceu num potinho na área de serviço todos os seus balangandãs – brincos, colar, pulseiras, relógio e um anel de prata, diferente, lindo, caro pros padrões dela, e... inconfundível e irrefutavelmente meu. Que eu não usava há algum tempo, mas sabia muito bem onde estava – ou melhor, onde deveria estar, e não era ali. Quer dizer, a moça em quem confiamos nossa casa e tudo o que temos por mais de um ano, a quem adiantamos todos os vales que ela pediu, demos todas as folgas que ela quis e liberamos de todos os sábados; cujas faltas, prejuízos, coisas quebradas e voracidades específicas relevamos nos rouba, e provavelmente não começou agora. Portanto, além da chateação e do trabalho, ainda teremos um gasto extra : quando ela voltar, vamos ter que torrar uma boa (pra nós, pobrecitos) grana de acerto, inclusive com a multa de dispensa do aviso prévio, porque na minha casa ela não fica mais um dia. E mais a despesa pra trocar as fechaduras, porque quando nós perdemos a confiança, perdemos pra valer. Mas o pior mesmo é imaginar como fazer pra substituí-la. Parece fácil, não somos assim tão exigentes : só o que queremos mesmo é alguém que não seja porca, que não nos roube e que goste de gatas siamesas malucas e levemente histéricas. Mas não tá fácil. Além de não ter muita gente a fim de trabalhar com serviço doméstico – e juro que eu entendo isso de todo coração, esse trabalho é um porre mesmo - , nós também estamos meio ariscos, com a fé no "cerumano" abalada, e vai ser difícil voltarmos a deixar nossa casa inteiramente entregue a alguém de novo sem sofrer. Mas graças a nossas bravas e virginianas mães, sondagens estão sendo feitas, pauzinhos estão sendo mexidos, e se Zeus (e principalmente Hera) quiser, em breve teremos alguém pra manter a casa apresentável e a Nina um pouco menos carente. Meu voto é pela moça crente que atualmente trabalha na casa de um travesti e anda pensando em sair. Se não for por mais nada, porque eu sei que - depois do que já deve ter visto por lá - ela provavelmente não vai ficar escandalizada com as heresias do gatim, nem tentada por minhas pobres bijuterias de tamanho discreto, nem encantada com meus sapatos 37, quase todos pretos, sem brocal nem plataforma.
Tomara que dê certo.

cyn city

Bestiário (2)

Ela tinha longos cabelos negros e morava numa vila. Quando cresceu, cresceram-lhe também dois grandes peitos que ela, brincando, passou a chamar de grândulas, enquanto as amigas a chamavam de analfabeta. Certo dia, apareceu-lhe um namorado português que, cheio de pacífica ternura, deu-lhe um cravo como prova de seu amor. O pai dela, salazarista, meteu dois tiros na cara do namorado porque detestava trocadilhos, mais ainda os de fundo político.

Branco Leone: um blog sem conteúdo

Realejando

E lá eu deixei a menina racional. Em baixo do vão, debaixo de arte, no tapete vermelho da cidade. O papelzinho do realejo na mão, o espanto estampado na cara. Agora a vida tinha um roteiro, escrito sabe-se lá por quem e entregue às mãos da atriz principal pelo bico de um papagaio velhinho, que demorou a escolher um bilhetinho bem amassadinho e amarelinho no meio de outros tantos verdes, azuis e vermelhos. De todos os desenganos restava sempre a esperança com verniz de certeza de que o futuro era aquele mesmo e que mais cedo ou mais tarde o papagaio provaria saber mais da minha vida do que eu mesma. Só que agora o futuro já está passado e nem há mais a chance de voltar e pegar o bichinho de jeito.

Sealvia

A Mansão Foster Para Amigos Imaginários

Sala de espera. Meu deus, eu não deveria, mas vou te dar um conselho: NÃO FIQUE FALANDO DE DOENÇA EM SALA DE ESPERAAAA. TENHA MODOOOOS!!! Ao meu lado as senhouras "Meu-genro-é-médico" e "Sofri-onze-intervenções-cirurgicas" discutiram TODAS as especialidades médicas, com descrições muito vivas de tumores do tamanho de bolas de futebol, tumores cabeludos em pernas (eu juro que ouvi isso), baldes de água purulenta sendo retiradas de estômagos, cistos de seis centímetros nas trompas mais variadas, tosses catarrentas, bicos de papagaio, olhos de peixes de água doce e salgada, abscessos que explodem nos lugares mais incríveis, fístulas repugnantes, pústulas cabeludinhas, úlceras sangrentas, visagens, tonteiras, ataques fulminantes e coágulos inoperáveis. Puta merda. Quando numa sala de espera, meu bem, não dê trela pros mórbidos de plantão - enfie a cara num livro, depois vc reclama que não tem tempo de ler - mas, se for conversar, fale de flores, do penteado do Geraaaaaldo, do tempo, das cotovias. Mas não fale de doenças, pelo amor de deus. Já me mata gente que faz do blog um diário íntimo e sempre atualizado de mazelas, acho nojenta essa gente que fica "hoje fui ao médico e ele disse....e aí eu fiz um exame....", pelo amor de deus. Mas enfim, o blog é seu, se eu não gosto eu não leio. Mas ao vivo e a cores? Poupe o mundo da sua inebriante vida pessoal e da sua assombrosa ficha médica. É dum mau gosto indescritível.
(não, não tou falando de contar um ou outro fato isolado, mas tem blog que.... ah, vc sabem, o cara descreve a cor do xixi, santa maria mãe de deus)
De qualquer forma eu tou sentindo tudo que elas descreveram, até minha próstata dói, caras.

*

O Sistema Caiu

Parece nome de livro de economista.
Que sistema?
Como assim "o sistema"?
Quem é “o sistema”.
É Sistema, sistema?
É o sistema solar?
É o sistema Anhangüera-Bandeirantes?
É um sistema operacional?
É um sistema que adota políticas descentralizadoras?
É um sistema que auxilia a preparação e a composição de alternativas às soluções ortodoxas?
O sistema que oprime?
O sistema militar?
É o Sistema Único de Saúde?
Ou é “Senhor Sistema para você – sabe com qual Sistema tá falando?”
Cai-cai-cai-cai, que eu não vou te levantar.
The Sistema left the biulding.
O sistema subiu no telhado.
O sistema já foi tarde.
O sistema era tão moço, tão bom filho.
Se o sistema caiu, ele que aprenda a levantar.
“Ama, com fé e orgulho a conectividade em que nasceste! Criança! Não verás
nenhum sistema como este! Olha que servidores! Que aplicativos! Que bancos de dados! Que links!”
O sistema caiu.
Machucou?
Fez dodói?
Quando o sistema casar, sara.
Quebrou algum osso?
Alguém acudiu?
O sistema caiu de maduro.
O sistema descansou.
O sistema foi em paz.
O sistema parecia tão sereno, parecia estar dormindo.
Cai, cai, sistema, cai, cai sistema, aqui na minha mão.
O sistema é solar?
É neurológico?
É nervoso, coitado?
Cai onde, como foi?
Escorregou no xixi do gato, caiu, bateu a cabeça?
Torceu o pé no estacionamento do Carrefour e ficou engessado 50 dias ?
Foi mordido por um cachorro furioso, caiu e teve que reconstituir o tendão?
Se estabacou no banheiro, entalou no box, tiveram que chamar a vizinha do 403 pra levar o sistema ao pronto socorro?
O Sistema caiu, quebrou os dentinhos da frente, mas tudo bem, eram dentes de leite?
O Sistema caiu lamentavelmente nas mais recentes avaliações do pessoal?
Despencou do oitavo andar?
Caiu na rede? É peixe?
Caiu no meu conceito?
Caiu em si?
Caiu em desgraça?
Caiu na boca do povo?
Caiu no crime?
Caiu como uma luva?
Caiu na gandaia?
Caiu na real?
Caiu na malha fina do imposto de renda?
Ele que levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima

*

Eu, que nunca soube o nome da dor. Eu, que não semeei os campos, que não colhi os frutos, que não mantive o passo, que não errei, que não soube quando errei, que perdi o pé, que trinquei a taça, que sobrevivi ao império, aos meus filhos, ao vento noroeste, que não sobrevivi. Eu, que não escutei a voz da razão, que sabotei a lei das probabilidades, eu que matei, que surgi, que desapareci confinada que fui às visões românticas do colonizador, que refiz pegadas, que apaguei traços, que me enfureci e sacudi lapelas. Eu, que apontei dedos acusadores, eu que não sabia coisa alguma, eu que tinha tantas certezas, eu que sorria para a multidão que atirava rosas, eu que dava tchauzinho de miss. Eu, que respeitava o nosso gentil patrocinador. Eu, que tive medo e coragem, que amei e odiei na mesma frase, no mesmo segundo, no mesmo toque. Eu, que estabeleci motivos para a guerra e assinei tratados e capturei os chefes das outras tribos e cortei tendões dos inimigos e que não fiz prisioneiros. Eu, que embalei crianças mortas, lutei por causas perdidas, rendi-me a cada lugar comum, ou clichê, ou armadura brilhante, ou cão de ataque. Eu, que consultei os astros e os sábios da cabala, que entendi os mapas, que tracei as rotas, que tirei conclusões, que reuni a tropa, que segui os relatos dos vitoriosos. Eu, que patrocinada pela rainha, lancei-me e aos meus ao mar, enfrentando monstros, chacinando sereias, despencando de bordas e perecendo sem laranjas. Eu, que quis laços cor-de-rosa e chuteiras, tortas de maçã e cervejas, doença e guerra, instâncias individuais e direitos intactos, jujubas e drama, água potável e fontes decorativas. Eu, que enterrei os que partilharam de minha juventude, escolhi ignorar o óbvio, que preferi não notar o desmoronamento do improvável, que vaguei sem rumo, que temi o inexato e cantei durante o verão. EU, que grito das janelas ignorando os vestígios do impacto, chegando a extremos, capitulando, chegando a extremos, capitulando, chegando a extremos. Eu, que reuni fragmentos. Eu, que não pude ver os dizimados pelas armas e que, dizimada, não quis acreditar. Que, que não me identifiquei com os vencidos, que não tive culhões para ser o vencedor e nem caráter para apenas observar. Eu, que nunca soube o nome da dor.

Três, sem tirar de dentro, do ¡Drops da Fal!

23.10.06

Lendo atingi bom senso

Vontade de ter uma livraria só pra ofender os autores. E o leitor também, claro.

Nada de organização por tema e ordem alfabética. Agruparia livros em estantes assim:

Véio broxa

Morreu virgem

Recebeu bolsa-família

Analfabeto funcional

Ele era mãe

Carecas de bigode

Nem parece peruca

Olavetes de Chevette

Conservadores que dizem cu

Passou a vara em Che

Controla o calendário sem utilizar as mãos

Pega na teta do titio

Tá com pena? Leva pra casa

Cigano Igor já leu

Livros que o Tiririca não gosta

Comi muito

===============================================

Leitor: - Onde eu acho Machado de Assis?

Vendedor: - Na prateleira Carecas de Bigode.

Leitor: - Mas o Machado não era careca!

Vendedor: - Percebo que o sr. não conhece muito Machado de Assis.

Leitor: - Como não?! Já li praticamente tudo dele!

Vendedor: - E não percebeu a calvície? Tsc, tsc...

Leitor: - O sr. está ofendendo um clássico da literatura MUNDIAL!

Vendedor: - Daqui a pouco o senhor vai me dizer que os clássicos não envelhecem.

Leitor: - Mas é isso mesmo: eles nunca envelhecem!

Vendedor: - Envelhecem e ficam carecas. Só um cego pra não perceber a calvície de Machado de Assis.

Leitor: - O Machado tinha cabelo e até topete! Não era careca.

Vendedor: - Tá certo, não era careca. Qual a próxima barbaridade que senhor vai me dizer a respeito do Machado de Assis? Que não tinha bigode?

Leitor: - Bigode tinha. Careca eu não admito!

Vendedor: Tá bom, não vamos mais discutir, o cliente tem sempre razão. Vou mudar o Machado de Assis para a prateleira Nem Parece Peruca, ok?

Colorina

22.10.06

Fernando Rodrigues

O debate do SBT flopou – sejamos francos: foi um nada eleitoral esse debate de ontem à noite no SBT entre Lula e Alckmin. Hoje, as repercussões de cada um dizendo que venceu, que foi melhor, que apresentou mais dados... Baboseira pura.

Como era previsível, o tucano baixou o tom. Lula ficou naquela cantilena de números e números de seu governo. Nenhum dos dois explicou, de maneira convincente, o mais importante: como faria para que o Brasil cresça mais do que os níveis atuais.

E no final? Aquele bando de áulicos dos dois candidatos louvando a iniciativa maravilhosa e democrática do canal de TV que promoveu o encontro... No fundo, o maior ganhador é só a TV, que pode dizer com orgulho que rebocou os dois políticos para seu estúdio.

A maior contribuição do SBT foi oferecer um elemento extra para confirmar a falência do modelo em vigor desse tipo de debate. No primeiro turno, há aquela regra demencial de ter nanicos presentes. A pretexto de produzir democracia, a exigência é mero democratismo sem sentido. No segundo turno, todas as emissoras de TV querem fazer debate com regras complicadas que inviabilizam o verdadeiro embate entre os políticos.

“Candidato, o tema é educação. O sr. tem dois minutos”, diz o (a) moderador (a). Dois minutos para falar de educação?? Em seguida, o candidato fala sobre o que bem entende...

Por que não ter apenas uma única regra? “Candidatos, o srs. têm uma hora e meia para debater sobre o que quiserem. Podem começar. E cada module o seu tempo como quiser”.

Ah, mas daí seria uma carnificina, dirão os adoradores de regras e leis. Hummm, pode ser. Mas ficaria mais fácil saber quem é quem nesse deserto de idéias que se transformou a política. Até porque, falar sobre educação ou infra-estrutura em dois minutos com mais um minuto de tréplica é obviamente uma insanidade.

Fernando Rodrigues

20.10.06

...

eu gosto de gente que faz e de gente que pensa.
se você pensa e não faz, não serve.
se você faz e não pensa, também não.

Todaperplexa

18.10.06

Intervalos da navegação

Entrei na era da mp3. Downloads de graça. (Quantos desavisados não chegarão aqui pelo google por conta dessas palavras mágicas?) Alguém perguntou se a minha consciência não pesava. Por quê? Não pesa. E não é porque o CD está muito caro (e está) ou porque no fim das contas os artistas ganham uma porcentagem muito pequena da venda de CDs (e ganham). Os que me conhecem de outros tempos sabem que meus motivos não seriam jamais tão mundanos assim. Deverão supor que minha consciência está limpa por motivos puramente metafísicos, e estarão redondamente certos. Pois bem, a conveniente metafísica da vez é:

VOCÊ É O QUE VOCÊ COMPARTILHA (PONTO)

Como não haveria um amplo terreno do céu reservado à boa alma que acaba de compartilhar comigo um CD do Miles Davis? E que monstro seria capaz de censurar um dos gestos mais nobres que o século XXI é capaz de testemunhar? Eu respondo! Aquele mesmo canalha que acabou de repassar um e-mail com um texto lindo do Manuel Bandeira que o próprio Bandeira nunca teria a indelicadeza de escrever.

diferença nenhuma

Faça Você Mesmo: Ministério de Notáveis

Ministro da Saúde: Paulo Cintura
Ministro da Defesa: Júnior Baiano
Ministério das Relações Exteriores: Jane Mary Corner

dies iræ

16.10.06

etiqueta de rompimento – edição (quase) mensal

um guia prático de boas maneiras para pessoas que desejam pôr um fim na sua relação amorosa sem perder o decoro.

fim de caso para quem já leu o manual (qualquer um, pode ser o da geladeira. nunca se sabe o que existem nesses livretos, ninguém lê mesmo)

- bom dia.
- bom dia. fique a vontade. deseja beber algo? café, água?
- sim, claro. café.
- diga-me, o que ocorreu para marcar um encontro tão cedo? alguma saudade extraordinária?
- não. trata-se de um assunto delicado.
- sendo assim, prossiga.
- recebi uma proposta e vou me desligar de você...
- hmm...
- e, já conhecendo o seu perfil de negociação, prefiro não arriscar uma contraproposta.
- entendo. não posso oferecer muito e a competição é acirrada. é só você esquecer um aniversário-de-qualquer-coisa que já vem a concorrência prometer não somente lembrar, mas também levar pra jantar.
- está difícil pra todo mundo. tive muita sorte em ficar com você, lembra? aquela sua antiga pretendente era bem mais multidisciplinar...
- isso é verdade, entendia de um tudo... o problema foi ela já querer que eu assinasse uns contratos que lhe davam direito a metade dos lucros... inegociável. mas então apareceu você, recém dispensada de um estágio mal-amado, inexperiente, com vontade de mostrar serviço, não pensei duas vezes.
- isso eu não posso negar, mas meu foco mudou. resolvi arriscar um sonho antigo e fiz os meus contatos. conversamos e ele me ofereceu o dobro do que você me oferece.
- o dobro? acho difícil alguém oferecer mais do que eu já ofereço, mas se você prefere assim... poderia, antes de ir, porém, preencher esse formulário com sua opinião a respeito do meu desempenho, sua avaliação, críticas, sugestões, elogios. é uma forma que estou adotando para o auto-aperfeiçoamento.
- lógico, por que não? foi um prazer, enquanto pôde ser um, estar ao seu lado.
- o prazer foi meu. desejo que encontre muito mais para onde você está indo.
- muita gentileza da sua parte. desejo o mesmo para você!
- ah, outra coisa...
- diga...
- enquanto procuro outra... pode cumprir trinta dias de aviso prévio?

plastic surprise - por karla nazareth

13.10.06

ontem fui a la serena

ontem fui a la serena com as poetas argentinas. vao dizer que só ando com as argentinas. mas sempre me perco das chicas del cono sour, sempre combinamos un mango sour e acabo seguindo mis amigas da terra de thénon e pizarnik. fiquei na praia com gabriela bejerman e romina freschi, molhando os pés no pacífico e escutando as conversas das gaivotas (que bichinhas barulhentas!). e só ontem fui notar como as gaivotas comem mariscos. é assim: esperam as ondas retroceder, pegam os mariscos, voam alto e deixam o bicho cair na areia. assim a concha se quebra e elas comem o interior. mas nao é de primeira, nao, elas tem que deixar cair várias vezes. aí bejerman olhou pra mim e disse: "imagina o que o marisco está pensando agora? puta madre, de nuevo noooooooooooooooooo!" eu disse pra ela escrever um poema sobre o assunto. falando nisso eu vou ali comer uns mariscos no mercado. aqui é o epicentro dos mariscos, como ela diz.

de nuevo siiiiiiiiiiii

8.10.06

diz q. a gente veio do macaco, mas alguns ainda vêm vindo

amigos, um sábio amigo fala q. a estupidez humana divide-se geométrico-democrática/:
1-o imbecil elementar
2-o besta quadrada
3-o anta cúbica
4-o lorpa terminal, q. assim o é pois elevado a 'n'.
este último grau final/ reconhecido na alvissareira premiação.
creiam, o amigo fala 'de cadeira'.

de rodas, posto q. os percorreu um a um.


HIPOPÓTAMO ZENO

7.10.06

"Discutir na internet é igual competir nas olimpíadas especiais, você pode ganhar, mas continua sendo um retardado."

Flamewars Survival Guide

1 - Não eleve o tom da discussão.

2 - Posts agressivos podem ter respostas agressivas, sim. É isso que eles pretendem; é isso que eles merecem. Como Mel Gibson nos ensinou, as guerras podem ser muito divertidas.

3 - Um brogue é a casa de alguém. Mas se esta pessoa abre a janela de sua casa e começa a gritar que todo sãopaulino é viado, por exemplo, ela não pode esperar sinceramente que as paredes não apareçam pichadas no dia seguinte (ou cheias de pó-de-arroz, no caso).

4 - Sarcasmo é bom, ironia melhor, wit is jolly good. Ter argumentos é também recomendável, mas opcional.

5 - Só altere de forma jocosa os nomes de seus contendores se eles se irritarem com isso.

6 - Uma boa discussão está sempre no limite de se discutir mutualmente a profissão das progenitoras mas nunca o faz.

7 - Se uma metáfora infeliz foi usada pelo oponente, não tenha pena. Explore-a, torture-o.

8 - Releia seu texto antes de apertar o "send". Repita o processo. Novamente. Quando você estiver quase se arrependendo aperte o botão.

9 - Esqueça os erros de português e de digitação do adversário. Gramaticismos são a melhor forma de provar que você não tem argumentos.

10 - Sim, é possível dar um ippon simplesmente torcendo o mindinho. Atenha-se a um pequeno ponto que você tem razão e o oponente não tenha e vá determinado até o final. Exija uma resposta direta. Ele jogará diversos outros argumentos em sua direção, mas não se desconcentre, você pode retomar as discussões tangenciais mais tarde. Continue torcendo o dedinho.

11 - Cimente uma placa de bronze na parte interna do seu crânio com a inscrição: "por mais idiotas que os oponentes sejam você é muito pior pois está discutindo com eles." Tenha claro isso antes de entrar em qualquer debate. Você não está solucionando os problemas do mundo, está apenas os alimentando.

12 - Um corolário da Lei anterior: Tenha claro que na discussão você jamais irá convencer o oponente. Veja bem: ele é uma pessoa que acredita que a desregulamentação do mercado vai resolver o buraco da camada de ozônio; é com gente assim que você está lidando. Sua esperança reside em que um jovem leitor decida-se pelo seu lado (que é sempre o lado da Luz, da Razão e da Sabedoria) ao ver os argumentos de seu oponente solenemente pulverizados.

13 - Chiliques, faniquitos e fricotes são sinais óbvios que você já ganhou a discussão. Não os aponte, no entanto; não só não é educado como provocará mais chiliques, faniquitos e fricotes.

14 - Nunca reclame de ter um comentário deletado de uma caixa de comentários. Ela não é sua. Quer democracia? Discuta lá no seu brogue.

15 - Divirta-se. Se sua neurose não permite que você se divirta em uma discussão de internet, procure um analista ou arranje uma namorada; ou namore seu analista, sei lá.

16 - Em dúvida, crie confusão. Frases enigmáticas, vagamente relacionadas ao assunto, terminando com uma piscadela ;) são ótimas cortinas de fumaça para fugir definitivamente de uma discussão.

17 - Last but not least, the Golden Rule:
Shoot all the sitting ducks, shoot the nests, shoot the eggs. That's the real hunt!

O Sinistro

Cemiteriedade

O Pessoal lá do cemitério, está meio encanado com a gente desde que começou a reforma do túmulo do meu avô.
O primeiro que começou a reforma faleceu e deixou a gente na mão, então tivemos que contratar outro. Quando foi pra fazer a exumação do corpo, o outro foi mordido por escorpião e agora que um terceiro assumiu, foi internado ontem, chegou louco no cemitério e precisou ser levado pro hospital de camisa de força.
Diz meu pai que hoje, quando ele chegou no cemitério, levando as plaquinhas de cobre pra colocar no túmulo, os coveiros se esconderam com medo de serem contrados por ele.
O administrador do cemitério disse pro meu pai, que era melhor contratar um inimigo pra terminar o serviço, assim já fazia dois trabalhos de uma vez.
As plaquinhas voltaram, ninguém quis colocar e meu pai disse que também não vai colocar não e perguntou se a empregada não quer ir lá fazer o serviço, ela disse que vai mandar o ex-marido:
- Pelo menos ele não fica com aquela vaca!

Fata, De Pindamonhangaba para o mundo.

conversas furtadas

DOIS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS

— Hoje em dia eu não uso dinheiro pra nada.
— Ah, me dá seu dinheiro então que eu faço bom uso dele!
— Não, seu besta! Eu só uso cartão. Só uso o débito, por que crédito é furada. Débito é igual dinheiro.
— Eu não. Eu só gosto de negociar com dinheiro na mão.
— Rapaz, imagina quando cê for comprar um carro ou uma casa, como é que você vai colocar o dinheiro todo na mão? Que mão gigante, hein!

Enviado por Duubhglas Juarezzz.

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FILA NA FACULDADE

— Mas você aguenta mais bebida do que a sua amiga.
— Cê fala isso só por que eu sou gordinha.
— Nada a ver! Eu num posso achar que seu rim é grande, não?

Enviado por Duubhglas Juarezzz.

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BOTECO EM JUÍNA (MT)

— É estrupo ou estupro?
— Estupro é quando um estranho come à força uma mulher. Estrupo é quando o marido come a esposa sem ela querer.

Enviado por Paulão.

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CHAPADOS NA FACULDADE DE BIOLOGIA

— Cara, cê não tá falndo coisa com coisa!
— É?
— É.
— Vô pensar sobre isso. Vô pensar sobre isso...

Enviado por Paulão.

conversas furtadas

dog day afternoon [ou] gangue de nove marginais armados até os dentes com fuzis invade fábrica de jóias de limeira, fazem mais de 40 reféns e matam um

(…)

O Júnior não se ligava em política. Ele era bem mais bonito que eu, tinha um magnetismo interessante. Eu perdi o contato com ele, até que fui trabalhar em Limeira em 1993. Um dia cheguei à rodoviária da cidade e lá estava o Júnior com um carrinho cheio de listas telefônicas.

"O que você está fazendo da vida, Júnior?"
"Peguei esse bico de entregar listas telefônicas!"

Fiquei com um pouco de pena de ver um cara com potencial, um bom vendedor, ali com aqueles livros amarelos e um uniformezinho velho da Telesp. Pensei que ele talvez pudesse me invejar. Não tinha nada que pudesse gerar inveja em alguém, mas eu tinha focado minha vida profissional em TV e estava obtendo algum sucesso. Eu sempre soube que ele ia se dar bem, ele tinha simplesmente a cara de quem ia se dar bem.

Novamente fiquei um tempo sem encontrá-lo. Quando aconteceu foi em uma visita de Paulo Maluf à Limeira. Aí fiquei sabendo que meu amigo Júnior tinha se filiado no PPS do turcão e fiquei um pouco decepcionado. Maluf era candidato ao governo e apostei com o Júnior que ele não levava. Aposamos um almoço num rodízio. Eu ganhei. O Júnior nunca me pagou.

Fui fazer uma eleição municipal para o PT de Piracicaba e sempre que cruzava com Júnior, ele me zoava. Zoava a pobreza e a ignorância dos petistas e de como o PT nunca chegaria ao poder.

Na próxima eleição, trabalhei para o PL em Limeira. Ele encarou como uma virada-de-casaca minha, não entendia o lance profissional da minha atividade, diretor/redator dos programas do horário eleitoral. Nesse mesmo pleito, em 2000, Júnior saiu candidato a vereador. Ele havia se casado com a filha de um empresário do ramo de jóias e achava que podia representar o setor. Tentei dissuadi-lo. Ele pareceu firme, decidido, confiante que ia levar. Teve 71 votos.

Por essa época, ele teve uma filha. Lembro de vê-lo andando pela cidade com carrões, sempre bem vestido, sempre perfumado. Decididamente, um cara bonito.

Logo depois, em novo evento, de novo com Maluf e asseclas, ele me informou que estava se separando, que ia montar uma pequena empresa de jóias e queria tocar a vida, curtir a vida. Ele entrou no Orkut, me adicionou, montou um fotolog que eu sempre espiava, belas mulheres, locais bonitos. "O Júnior se deu bem, eu sabia!"

Ontem, cinco e meia da tarde, uma gangue entra em uma fábrica de jóias daqui. A polícia é acionada e é recebida com balas. Um PM morre no local. Dentro, com a gangue, quarenta e quatro reféns. Seis da tarde, entra no ar o programa A Hora da Verdade, sensacionalista-policial, o programa é comandado por Geraldo Luís, repórter que serviu de inspiração para o meu Geraldo Assis, de Sexo Anal.

Não temos nem dez minutos de programa, toca o telefone e é um ds sequestradores querendo negociar, ao vivo, com Geraldo a saída com vida deles e dos reféns. Nunca soube de nada igual na TV brasileira. Ficamos uma hora e meia ao vivo com os sequestradores falando de dentro da fábrica. Mulheres grávidas e algumas pessoas foram liberadas. O programa terminou e as equipes foram até o local. Depois de muita negociação, os marginais se entregaram e saíram em meio aos reféns, às duas e cinco da manhã, no melhor estilo "O Plano Perfeito", filme do Spike Lee.

Mas "O Plano Perfeito" é um filme americano e os americanos são mais inteligentes.

Hoje, chego na TV e vou ver as imagens. Vejo com cuidado a primeira dupla que foi liberada: uma grávida e um jovem bonito. Sim, era o Júnior. Até então ele estava dentro da fábrica, onde tinha negócios, quando a gangue chegou. Porém, fiquei sabendo na sequência, foram encontradas com ele três barras de ouro, escondidas nas meias e na cueca.

Ele saiu como refém liberado de um crime em andamento com três quilos de ouro escondido.

Por quê?

Teria sido oportunista? Aproveitou a confusão para faturar algum?

Talvez não. Uma hipótese é que ele tenha dado o serviço para a gangue e, quando tudo deu errado, ele ficou incumbido de sair com o ouro para contratar um advogado.

Talvez não tenha nenhuma participação em nada e o ouro era dele mesmo, frio, sem nota, sem documento. "Esse ouro é meu, ia tantar vender para a empresa".

Lugar errado, hora errada - ou não - meu amigo Júnior foi enquandrado em latrocínio, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e cárcere privado. Difícil ele escapar de trinta anos de cana.

(…)


Biajoni

6.10.06

Da vida e da morte:

Um senhor de cinquenta e seis anos, meu mentor sem querer, meu amigo sem saber, diz-me que perdeu todas as suas amizades. Razões? Irremediáveis. Irreparáveis. Pior de tudo: perenes. Todos os seus amigos morreram ao longo do último ano. Um a um. Ele: cá anda. Na merda, mas cá anda. Estudando, rindo, comendo, sobrevivendo. Faz colecção de selos e possui uma inteligência rara. Tem todas as doenças de uma velhice precoce e mal se consegue mexer. Diz umas piadas, conta umas anedotas, fala de números complexos e ri-se como uma criança. Simpático, triste, afável, é impossível não sentir um mínimo de compaixão. Quem olhar com atenção percebe que falhou a vida, os sonhos. Falhou, mas alcançou a resignação, conseguiu a felicidade. Uma felicidade escassa, débil, talvez efémera, mas suficiente. Pelo menos, por agora. Já a minha avó não me parece ter atingido esse reconforto. Na semana passada, passei lá por casa e vi uma mulher deitada, doente e desanimada. Sem sorriso, sem humor e sem esperança. Com o cabelo por pintar. A minha avó, para quem não sabe, para quem não viu, para quem não me conhece, foi o meu grande amor. É o meu grande amor. Hoje, sei que não será para sempre. Ela, não o amor. O meu pessimismo talvez esteja a adivinhar-lhe o fim demasiado cedo. Demasiado depressa. A verdade é que não faço a mais pequena ideia de como continuar a viver depois dela. Se é que haverá mesmo um depois. Mas a vida continua. Ouvi dizer.

Diário de Tiago Galvão

Não se come uma mulher, ela é que se devora.

Fabricio Carpinejar

5.10.06

No balcão da companhia aérea

- Bom dia, senhora, posso ajudá-la?
- Pasárgada, one way.

A Caverna da Ogra

Desamparados do mundo, uni-vos.

Meu amigo Rogério me falou esses dias que pretendia criar o movimento dos sem remédio. Sem remédio, veja bem, não são pessoas necessariamente sem conserto, mas gente pela qual não há (mais) nada a fazer. Para os casos-limite, ou existe medicação desenvolvida e testada, com resultados comprovados, posologia, acompanhamento, tempo de administração, efeitos colaterais, sintomas esperados, aprovação do Ministério da Saúde, ou ação judicial, ou providência administrativa, ou seguro, ou procedimento, ou solução. Para o restante, para todo o resto, para mim inclusivemente, não tem. Raciocinem comigo: se você tem síndrome do pânico, tem remédio; se você tem medo, não tem. Se você tem depressão, tem remédio; se você está triste, não tem. Se você tem DDA, tem remédio; se você é estabanado, não. Se você tem transtorno obsessivo compulsivo tem remédio; se você é um chato de galocha, não. Se você tem obesidade mórbida, tem remédio e cirurgia; se você tem uns pneuzinhos sobrando, não. Se você é anoréxica tem remédio; se é magra de ruim, não. Se você tem infecção intestinal tem remédio; se você tem diarréia nervosa, não. Se você não tem peitos, pode colocar silicone; se você tem peitos de fábrica e precisa de um sutiã sem enchimento que proporcione uma sustentação razoável, não seja especial para lactante nem se pareça com os sutiãs da sua avó, n.º 44 ou maior, não tem. Se você é assaltado à mão armada, vai na delegacia e presta queixa; se elegem o Maluf, não tem nada a fazer. Se alguém cruza o sinal vermelho e destrói o seu carro, você aciona o seguro; se o motoboy erra o cálculo e arranca o retrovisor, não dá nem o valor da franquia. Se você precisar de uma cirurgia, entra em licença saúde; se estiver com o saco cheio de tudo, azar o seu. Se protestam um título no seu nome e você não deve, você processa judicialmente e pede indenização; se o flanelinha cobra déreau o estacionamento na rua, você paga e não chia. Se o seu chefe lhe assedia sexualmente, você denuncia; se ele inventa uma piadinha cretina todo santo dia, você agüenta no osso. Se lhe quebram o maxilar com um soco, é crime; se lhe partem o coração, não.


Mme. Mean

4.10.06

Daily Lit

Ando lendo uns livros pelo Daily Lit, que é um serviço que manda livros pra você por email, trecho por trecho. A vantagem é que se você tem preguiça de ler na tela, bom, os trechos que eles mandam são curtos, não dá preguiça de ler.

E fiquei pensando em montar um serviço parecido - só que eu mandaria os livros todos errados sem dizer nada. A pessoa pediria pra receber "Emma", por exemplo, e receberia a minha versão de "Emma". Para o resto da vida ela acharia que Jane Austen incluiu uma cena de tetada no livro.

-Adorei a cena da tetada.
-Hein?
-Emma Woodhouse é uma lésbica que sai dando tetada em todo mundo. Daí um dia ela encontra a Harriet na estrada e as duas começam a brigar de tetada. Harriet quebra um braço e tal.
-Não tem isso no filme.

Um dia a pessoa leria o livro de papel e ficaria desapontada porque não encontra a cena da tetada.

-Cortaram tudo essa bosta.

Não que "Emma" fique melhor com a cena da tetada - é um dos meus livros preferidos do jeito que está. Mas talvez eu colocasse uma cena da tetada em "Dracula". Não sei exatamente onde. Talvez Mina Harker desse uma tetada no Conde? E gostaria de colocar - não sei bem o motivo - marcianos em um romance realista do tipo "As Vinhas da Ira". Faltam marcianos em "As Vinhas da Ira", certamente. Ou você está dizendo que não há espaço para marcianos em "As Vinhas da Ira"?

Estou convicto que a maior parte dos livros melhoraria muito com a presença de marcianos ou com uma bem colocada cena de tetada no meio, mas faltando isso também pode ser:

1) Dálmatas fumando charuto.
2) Combustão espontânea.
3) Traumatismo peniano.
4) Um mestre de Kung Fu.

"O Pai Goriot", "A Cartuxa de Parma" e "Oliver Twist" se beneficiariam de (1); quase qualquer livro se beneficiaria de (2), mas sobretudo "O Primo Basílio"; se Ahab sofresse de (3) em "Moby Dick", todos ficaríamos felizes (o mesmo valendo para Thoreau em "Walden"); e meu Deus, fico feliz só de pensar na aparição súbita de (4) em "Germinal", "Naná" e "A Besta Humana".

Nada, no entanto, me daria tanto prazer quanto a aparição de um Mestre de Kung Fu em "Guerra e Paz", ensinando Kutuzov a lutar no Estilo do Macaco Bêbado. É assim que Kutuzov expulsaria Napoleão de Moscou. Sim, isso e os macacos vampiros.

Alexandre Soares Silva

3.10.06

Onde está David Hussein?

Indo de Jaguariúna em direção ao sul de Minas, ou rumo a Ribeirão Preto e Franca, o motorista vai topar com várias praças de pedágio. Apesar do asfalto conservado, da sinalização impecável e de todos os serviços disponíveis ao usuário, a viagem meio que empaca.Ou é decepada pela cancela que se ergue ao comando da mocinha do guichê – depois de efetuado o pagamento, é claro. Uma guilhotina que corta para o alto.

A “Rodovias” ( concessionária desse trecho) poderia poupar as mocinhas dos guichês do constrangimento de nos desejar "boa viagem".Tenho pena das mocinhas dos guichês,ânsias de vômito e tesão - nessa ordem.

Todavia não me interessa,aqui, discutir tarifas & serviços. Quero elogiar a iniciativa da "Rodovias" de imprimir, junto ao recibo de pedágio, fotos, nomes e idades de crianças e adolescentes desaparecidos.Uma idéia magnífica.

Fazia muito tempo que eu não pegava uma estrada (dirigindo) ... e imagino que outras praças de pedágio devam ter adotado o mesmo sistema da “Rodovias”. Isso, de certa forma e apesar das altas tarifas,é reconfortante para aqueles que,como eu, tiveram seus parentes desaparecidos.

Faz três anos que perdi minha filhinha.

O curioso é que, somente na semana passada, me inteirei (ou dei o devido crédito) a este sistema de buscas.Eu mesmo, há três anos (quando perdi Sicília) me encontrava em situação semelhante. Quase desaparecido. A diferença é que eu ligava para casa duas vezes por ano, no aniversário de minha mãe e no aniversário da garota, dez dias depois. À época – confesso, com muito pesar - não acompanhei as buscas e também não me interessei em procurar ninguém, mesmo porque eu mesmo não sabia onde me encontrava.

Lembro vagamente de clínicas psiquiátricas, engradados de cerveja abandonados e ratazanas castanhas ... e até me recordo que vivi alguns meses na companhia de Hare Krishnas,o lugar ... se não me engano... era a praia do Santinho-SC,1998.

O que vale é que junto ao recibo do pedágio me deram uma foto de David Hussein ali de Lucena: desaparecido em 2001. Dois anos depois de Sicília, que semana passada completaria 4 anos?

Nem as datas nem a idade atual do garoto coincidem com os dados confusos que fervem em minha memória... mas tenho quase certeza que topei com este David no réveillon de 1998 para 1999, lá na praia do Santinho.Foi o meu Réveillon com Krishna.

O garoto era um devoto (aprendiz) que não se atrevia a olhar nos olhos de Kesava, chefão dos hare hare. Lembro que ele dançava ao redor de uma fogueira, repartia melancias com os demais e, meio que abobado, rezava para as estrelas e discos voadores. Isso, confesso,me incomodava/incomoda um bocado.

Acho que é melhor não descrever a noite de primeiro de janeiro de 1999... quando curraram o garoto... também não quero falar em defumadores,incensos e vidas passadas.

(cont)

Mirisola heroi devolvido

25.9.06

TPM

Alimento o cérebro com migalhas, enquanto o coração passa fome.

Lugar pra se falar sobre tudo e sobre o nada.

Utilidade pública

Seus amigos intelectualóides citam autores que você não leu? Quer aprender a ser pernóstico como eles? Está cansado de ler longas orelhas de livros pra fingir que é erudito?

Seus problemas acabaram! Nós do Botequim Socialista Inc. criamos para o seu conforto os micro-resumos de clássicos da literatura, filosofia e política. Quem precisa da Wikipedia ou do Google? Feche esse livro e vá ver TV!

Micro-resumos pra quem não gosta de ler

Bocaccio - Decameron
Dez jovens se reúnem num palacete pra fugir da peste. Todo mundo fala muito, mas ninguém come ninguém!

Chordelos de Laclos - As Relações Perigosas
Conde safado seduz mocinha com ajuda de condessa mais safada ainda. Depois descobre que estava cansado da safadeza, mas aí Inês é morta. Fim.

Saramago - Ensaio sobre a Cegueira
Epidemia de cegueira mostra a verdadeira face do ser humano. Como só uma moça não ficou cega, ela foi a única que viu. Fim.

Clarice Lispector - O Livro dos Prazeres
Mulher passa a história inteira na maior piração pra decidir se dá ou não.

Salinger - O Apanhador no Campo de Centeio
Sou um adolescente incompreendido, vou fugir por uns dias para ver se chamo a atenção de alguém. Fim.

Platão - Apologia de Sócrates
"Só sei que nada sei, e vocês, manés, sabem menos ainda!" Fim.

Goethe - Os Sofrimentos do Jovem Werther
Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor! Adeus!

Émile Zola - Germinal
Mineiro só se fode. Fim.

Adolf Hitler - Mein Kampf
Minha vida de emo.

Maria José Dupré - Éramos Seis
Cinco, quatro, três, dois, um!

Karl Marx - O Capital
Existe a burguesia, essa malvadona. Existe o proletariado, explorado pela burguesia malvadona. Fim.

Nietzsche - Ecce Homo
Filósofo maluco diz que é o fodão. Fim.

Obras completas de Charles Bukowski
Malucão bebe todas, come um monte de mulé e vive entrando em cana. Fim.

Dostoievski - Os Irmãos Karamazov
Quero que meu irmão se dane! Fim.

Gogol - O Inspetor Geral
O sr. sabe com quem está falando?

Maquiavel - O Príncipe
"Magnífico Lourenço de Médicis, eu conheço o esquema, me arranja um emprego aí vai!"

Velho do Farol

Aforismo Nº3 - Pode-se tudo que é possível.

(…)

VIDEOCLIPE – FLASHBACK EM TOM SÉPIA, CENAS COM BASTANTE CORTES. LOC.OFF

1) Atenas, ano 314 a.C. Teofrasto, com 48 anos, foi nomeado dono da escola onde Aristóteles lecionara até então, antes de se refugiar em Cálcis. Muitos foram os que julgaram que Teofrasto não podia dirigir a escola, pois estava lá havia menos tempo que outros discípulos. Conversavam seu descontentamento no pátio da escola, sempre na ausência de Teofrasto. Este sabia da oposição que havia dentre os demais, mas nunca trouxe o assunto a público. Apesar das queixas, ninguém nunca sugeriu ou fez nada para substituir Teofrasto na direção, e ele presidiu à escola peripatética por 35 anos.

2) Calígula havia escapado aos assassinatos de vários de seus familiares e foi aceito no governo de Tibério, seu tio-avô (que ordenara os crimes). Quando o imperador morreu, em 37, o testamento designava Calígula como herdeiro, em conjunto com Tibério Gemelo, neto do falecido. Dois dias depois da morte do tio-avô, fez com que o senado romano anulasse o testamento e proclamou-se imperador sem parceiros, mandando assassinar Gemelo pouco tempo depois. Cassius, um de seus guardas, que assassinou Gemelo, e a quem Calígula sempre ridicularizava, o assassinou 4 anos depois. Todas as ações aqui relatadas eram proibidas por lei.

3) Milan Kundera escreveu vários romances utilizando a cidade de Praga, em 1968, invadida pelos russos, como cenário, e tenho certeza que o sábio homem me entende. Os checos podem dizer o que for, que as botas dos russos eram cafonas, que o nome Nikita Kruschev é de menininha, que os motoristas dos tanques, que sitiaram a cidade de Praga, são barbeiros, tudo, menos que a Rússia não podia fazer aquilo. Mas é claro que podia. Podia até que fosse impedida.

4) Em 2005, meu pai me disse que eu não podia pedir demissão, depois de trabalhar por 5 anos em uma empresa em que me tornara chefe do departamento, para ir mochilar no Chile. Pelos relatos de Novembro e Dezembro do mesmo ano, vocês podem atestar o equívoco de papai.

Whaddafuck

24.9.06

Abaixo da Superfície

Estou no meio de uma reforma. Uma reforma que eu adiei alguns anos e que, enfim, começou a surgir por trás do quebra-quebra. Para não correr o risco de ver o tamanho da bagunça, pedi ajuda profissional. Alguém que me entregasse aqueles destruídos cômodos com os devidos retoques, curativos, pintura nova e, se possível, uma decoração que não deixasse lembranças dos estragos causados pelo tempo.
Fiz o possível para não ver nada. Fechei os olhos. Ouvia os barulhos, desviava dos pedreiros e abria a porta somente durante a madrugada. Acendia todas as luzes, procurava defeitos, reclamava sozinha da demora. Um dia, no fim de um dia, acordei de mau humor e decidi pedir que acabassem logo com aquilo. Eu queria acordar em outro lugar...

- Cadê o pedreiro?
- Já foi. Disse que precisava sair com urgência e que não tinha caçamba pra retirada do entulho. Você vai ter que dar um jeito de tirar o lixo de lá durante a noite se quiser que eles continuem o trabalho amanhã de manhã.


Olhei para aqueles sacos espalhados e pensei em jogá-los em caçambas alheias. Já era madrugada, ninguém perceberia. Madrugadas fazem cair as máscaras... Tentei erguer um dos sacos de entulho e achei pesado demais para uma noite de lua e vento gelado. Vesti um casaco e fechei a porta. Sai dali antes que a poeira me causasse algum tipo de alergia. Voltei para a cama e apertei os olhos...


- Que barulheira é essa?
- O pedreiro!
- Que horas são?
- Onze da manhã.
- E ele só chegou agora?
- Só. Ele quer conversar com você.
- Diz pra esperar vinte minutos.
- Ele disse que está com pressa.
- Diga que eu estou com sono.
- Você precisa começar a me pagar pelos recados que manda.
- Você já recebe até para me dar bronca.

Quarenta minutos depois...

- Boa tarde!
- Oh, dona... Tarde. A senhora me desculpe...
- Só um minuto... Quem é o senhor?
- Ah, me perdoe. Eu sou o pai do Cristóvão.
- E o que aconteceu com o Cristóvão?
- Ele pediu que viesse eu porque ele está muito enrolado com outra obra e...
- Mas o senhor sabe arrumar esse piso?
- Fui eu que ensinei o trabalho pro meu filho, dona! Tô velho, mas sei o que fazer. Só tô um pouco cansado... Por isso atrasei.
- E o senhor me chamou para?
- É que eu vou ter que sair mais cedo porque minha mulher tá com câncer no corpo todo, sabe? Ela tinha um tumor há uns cinco anos e a senhora sabe como é a ignorância do povo, né? Na época ela não quis tratar e rasgou o tumor por conta e risco na cozinha lá de casa. Agora tá que não agüenta nem andar... O médico desenganou. E eu tenho que carregá-la nas costas de tão fraca que a pobre ficou. Grandona ela... Maior que eu! Mais alta que a senhora. Minhas costas tão que tão arrebentadas sabe, dona? Ainda errei o caminho, desci numa avenidona lá pra baixo e subi esses morros todos a pé até encontrar o endereço da senhora. Nem sei mais o que fazer da vida... Mas a senhora num se preocupe não porque até o fim do dia eu acerto esse piso todo. Já enfiei aquela bagunceira em sacos de lixo e deixei na calçada. É torcer pro lixeiro levar.
- Carregou aquilo tudo sozinho?
- O que são dez sacos de entulho pra quem carrega um fardo como o meu na vida, dona?
- Não é melhor o senhor ir pra casa cuidar da esposa? Eu falo com o Cristóvão depois.
- Não, não! Pra mim é uma alegria trabalhar porque é quando eu esqueço da vida. Duro mesmo é ir pra casa ou pro hospital e ver a minha preta naquele estado... Eu só queria mesmo pedir desculpas pra senhora pelo atraso.


Voltei para o quarto depois de tomar um café com o pai do Cristóvão. Fechei a porta, avisei que não queria atender o telefone e me joguei na cama de barriga para o alto. Fiquei um tempo olhando a cortina e as frestas de luz que entravam pela janela e dançavam refletidas na parede. Meus lençóis gelados e as fronhas de percal distraindo meu desconforto. O som distante da minha braço-direito-esquerdo cantarolando na cozinha se intercalava com o som da marreta quebrando o piso.
O que será de mim se, um dia, eu precisar carregar sozinha os meus sacos de entulho? O que será de mim se, um dia, os dias se tornarem mais sombrios do que as minhas madrugadas chorosas por coisa nenhuma? O que será de mim o dia que eu tiver que encarar os meus males ao invés de rasgá-los como faz a mãe do Cristóvão? O que será das minhas costas se for preciso carregar alguém maior que elas? O que será da minha arrogância se, um dia, eu depender da sua bondade? O que será de mim o dia que reformas não bastarem pra esconder meus alicerces? O que será de mim se eu tiver que confessar que não sou forte?

AlêFélix - Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

22.9.06

a geladeira não é minha.

A geladeira é do meu primo.

Comprei a máquina de lavar, ele comprou a geladeira. Foi um acordo. A gente tirou no par-ou-ímpar. E quem tirasse a máquina, tinha que comprar um ferro de passar também. E foi assim.

Sendo a geladeira dele, achei que não devia vetar aquela maravilhosa idéia de abrigar em "nossa" geladeira, mais precisamente em "nosso" congelador, a comida do amigo sem casa que surgiu. Amigo dele, entenda. Que veio de Recife pra cá. Também. E tava morando nesse apartamento que tinha uma grande geladeira.

O pai do tal menino veio de Recife pra cá. E se deparou com a ausência de comida na casa do filho, e percebeu que o menino tinha perdido peso, tava meio pálido, meio doentinho mesmo, foi bem aí depois dessas constatações todas que o velho foi e agarrou o filho pelo braço arrastando-o assim até o supermercado, onde comprou Todo o Estoque de Comida Congelada que lá havia (sadia e perdigão, esse tipo de comida congelada).

E foi embora e o menino ficou com toda a comida congelada do universo em casa.

Mas teve que se mudar alguns dias depois, veja só que peça o destino pregou em todos nós.

Sim, eu disse em todos nós. Mesmo nós, nós que sequer sabíamos que essa pessoa existia. Nós, que tentávamos viver nossas vidas em paz. Nós.

E.

O menino foi e se mudou prum flat.

Que só tinha um único frigobar. Pra toda aquela comida.

Compreenderam então o que aconteceu, né? Toda A Comida Congelada Do Universo. No congelador mais proximo de você. Porque amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração assim falava a canção.

Mas seu eu pego, mas se eu PEGO Milton Nascimento na virada da esquina.

So here we are. Sem congelador.

O tempo vai passando. E vai passando. As páginas da folhinha voam. Faz frio. Faz calor. Faz frio de novo. Vem chegando a primavera. O menino prometeu que viria aqui nos fins de semana. Pra comer, né. E não veio uma vez sequer. E as pessoas não querem comer a comida do menino. Porque vai que depois faz falta, né? Ó, acho melhor tu ligar pra ele. Porque tem 3 caixas de hambúrguer vencendo na sexta-feira. Três. Ou ele vem e come tudo, ou a gente vai ter que fazer uma... ahm... uma hamburgada?

Então o roomie ligou.

E a novidade é: o menino foi simbora pra Recife.

Pra sempre.

Do tipo não vai voltar mais. Não vai voltar nunca mais.

Já faz duas semanas. E eu nem precisei perguntar o motivo.

E esse viadinho escroto nem pra avisar? Eu me privando de coca light com gelo durante todos esses meses? Screw you guys.

Mas e agora?


Em que microondas as pessoas "cozinharão" essas tais Tirinhas de Carne ao Molho de Vinho com Purê de Batatas e Vagem? E o Filé de Frango com Gratinado de Brócolis, Cenouras e Arroz Primavera? E os pedaços de bode? O que eu vou fazer com esse bode, meudeus. É um bode de verdade, o bicho. Num é o meu bode espiritual, não. O pai do menino mandou matar um bode, esquertejou o coitado, colocou nuns sacos plásticos e trouxe pra São Paulo.

Todo-um-BOOODE!

Hein, hein?

(…)
the only living girl in gumercindo village

A Mansão Foster Para Amigos Imaginários

Uma e meia da manhã, liga o cliente:
- Fal, te acordei?
- Acordou (as pessoas não esperam essa resposta, ela querem que vc diga "Nããããão, eu tava praticando sapateado")
- Er... hum... ai.... desculpa, é que eu não consegui dormir pensando no trabalho.
- Sei, e vc não quer que eu durma tb.
- Rárárá, Fal, vc sempre divertida... em que parte vc está?
- Mais ou menos na metade.
- Mas assim, em qual parte especificmente?
- Vc quer mesmo que eu levante daqui pra ir ver número de página?
- Não Fal (fungada sentida) deixa pra lá. Esquece.

Na manhã seguinte, liga a caléga:
- Oi Fal, acabo de falar com o Zé Luís e, menina, ele tá super triste, disse que vc foi super grossa com ele.

Vítimas. Estou cercada delas. Eu mereço.

*

- Repete, Fumiga, que eu não entendi.
- Tá, amor, é assim: a gente vai dormir hoje, acorda às 3 e meia da manhã e vai fazer farra com a Maliu no Extra.
- Ah, foi isso que eu ouvi. Achei que tava tendo alucinações auditivas.
- Pô, vai ser tão legal!
- Sei. Vc e sua mãe, soltas no Extra antes do dia amanhecer?
- É.
- Mas é o que, tipo, vcs vão lá nessa hora pq....
- Pq ela tá com dificuldade de dormir e eu não durmo mesmo muito e é um passeio, um programão!!
- Programão!?
- Ai, Alê, como vc é chato, parece que eu sou casada com meu bisavô.
- Rá, se teu bisavô fosse casado com vc, ele te dava uma coça de cinta, Fumiga. E outra na tua mãe. Programa a Telefônica pra chamar a gente, senão a gente não acorda.
- EBAAAAAAAAAAA.
- Tonta.

*

Quando, desesperada, resmungo que não tenho um sapato decente pra calçar, ele revira os olhos. Quando, histérica, brado que não tenho nada pra vestir, ele diz "Ah, Fumiga, pelo amor de deus". Enfim. A lua-de-mel acabou. Esse homem não me entende.

¡Drops da Fal!

E O MP3 CANTA : PSYCHO KILLER, QU'EST-CE QUE C'EST ?

O que será que tem na cabeça um sujeito que, em pleno engarrafamento da hora do rush, depois de esperar por cinco longos segundos, resolve que o melhor a fazer é enfiar a mão na buzina e esquecê-la por lá ? Será que ele acha que todo mundo tá lá parado por pura distração ? Será que ele realmente acredita que tudo o que centenas de carros precisam pra se mover é de um gênio da raça que some o insulto à injúria, o calor e o desconforto ao barulho mais chato do mundo ? Ou será que isso é uma doença, talvez a mesma que acomete os energúmenos que crêem firmemente que, se eles socarem repetidamente e com força suficiente o botão do elevador, ele vai magicamente se materializar no andar pretendido, ou pelo menos se reprogramar sozinho para funcionar no triplo da velocidade ? Será que quem age assim é o mesmo tipo de pessoa que ao ligar por engano no seu telefone – normalmente num domingo bem cedo, na hora do almoço ou quando você está bem no meio de um agradável torneio de nude jiu-jitsu com seu companheiro de cama – continua insistindo que “esse número aí é o da Cleidinha sim, foi ela mesma quem me deu” mesmo depois que você já falou três vezes que a Cleidinha não mora aí, você nunca a viu mais gorda e que, pelamor, ele desligue porque você também tá querendo dar ? E por que será que esse tipo de atitude não é passível de pena de morte em nenhum lugar do universo, ou pelo menos não costuma ser aceito como atenuante muito-muito atenuante no caso de alguma hipotética gordinha neurótica com enxaqueca feroz e estômago instável há uma semana perder o autocontrole e enfiar um canivete de mola cinqüenta e oito vezes no pescoço do infeliz ? Eu acho que devia. Mas bom, sei lá, isso é só uma opinião. Totalmente desinteressada.

Cyn City

21.9.06

NO CROSS, NO (WEIGHT) LOSS

Aí, depois de anos sem fazer nada disso e de meses ameaçando começar e não cumprindo por falta de ânimo, grana, tempo, grana, estacionamento ou grana, finalmente comecei a fazer exercício. Desisti da hidroginástica, ou hidrobike (que imaginei que detestaria menos do que outras modalidades, já que não iria me sentir suar, estando dentro d’água) porque nunca tem lugar pra estacionar na porta da academia de natação/hidro etc. que eu queria freqüentar. E sim, fica perto, pertíssimo da agência, e se eu tivesse vergonha na cara dava perfeitamente bem pra ir a pé, mas depois que eu fui assaltada com revólver na cara há dois anos, venho ficando progressivamente mais medrosa e covarde a cada dia que passa. Fora isso tem a preguiça, que além de grande, é enorme. E ah, peraê, se eu quisesse andar, ia fazer esteira ou caminhada logo, né não ? Bão, aí uma colega falou de uma outra academia que tem aqui perto e ela tá fazendo aula lá e putz, se ela tem sessentinha e dá conta, é bem possível que minha frágil e flácida pessoa vinte anos mais nova que isso também consiga, né ? Além do mais, gostei dos principais pontos de venda do boteco : primeiro, a academia é só pra mulher, eliminando reduzindo drasticamente a possibilidade de paqueras, o que diminui significativamente o contingente de babaquinhas caçadoras de emoções e monopolizadoras de aparelhos; não havendo homens, não há desfile de roupitchas, nem de peruas maquiadíssimas, e felizmente também de nenhuma sílfide escultural, pra passar raiva e inveja em nosotras, las viejitas fofas; não sei se por causa do corpo discente predominantemente rechonchudo, não há espelhos a não ser no banheiro, o que nos livra de descobrir, numa olhadela casual, que aquela bunda de hipopótamo que você tinha vislumbrado ali à direita no leg press é nenhuma outra que não a sua própria; a rotina de exercícios é feita em meia hora, incluindo aquecimento e alongamento, e as séries são feitas em circuito, sem pausa entre os aparelhos; é tudo totalmente individual, portanto não tem como colocarem você pra fazer algum exercício junto com alguma mulé suada que você nunca viu e poderia perfeitamente bem continuar sem ver e, mais importante ainda, sem TOCAR, pelo resto da sua vida. E o principal : tem estacionamento na porta, com segurança/manobrista educadíssimo. Então fui lá testar o terreno. E a mocinha-bonequinha-gerundista que me atendeu foi tão gentil e fofa que eu nem consigo falar mal dela, por mais que ela tenha me contado, com ar compenetrado e terminologia simplificada, pra tia burra aqui entender, coisas sobre fisiologia e exercícios e saúde e o caraglio d’oro que eu já tava careca de saber – e algumas até de praticar - quando ela ainda nem era um ovinho de codorna no prato do seu jovem papai. Aí me pesaram, me mediram (aparentemente, já encolhi um centímetro ou dois), me fizeram tirar todos os meus anéis e pulseira e relógio e segurar um aparelhinho que passa corrente elétrica pelo corpo da gente e diz o percentual (percentual ? porcentual ? anyone ?) de gordura no corpo do vivente. A corrente elétrica em si é fraquinha e totalmente imperceptível, mas o choque que eu levei ao ouvir a bonitinha dizer que eu tô com mais ou menos 37% de gordura corporal foi de arrepiar até cabelo encravado em cotovelo com psoríase (não, num tenho isso não, é só jeito de dizer, oras. Pêlo encravado em pele supergrossa, entendeu ? Então.). Minha pobre mente corroída pela NTAP galopante, e que além disso sempre foi péssima em matemática e demais ciências exatas, já começou a fazer as contas à sua maneira prejudicada e a decretar que se eu sou formada por 33,3% de água e 37,5% de gordura, praticamente uma ameba, os 29,2% restantes devem ser os ossos pra sustentar meu enorme peso, e portanto eu não tenho um músculo no corpo e, obviamente, nem vísceras. Sabe aquela história de “fazer das tripas coração” ? Comigo não. Eu não tenho coração, babies, sou um bacon vivo, um torresminho ambulante, um vidrinho de Hellwomann’s com pimenta – mas sem o vidro. E foi isso que me convenceu a assinar o termo de compromisso liberando o povo lá de qualquer ônus caso eu caia morta no meio do salão. É que se eu não tenho coração, nem, obviamente, cérebro (da ausência dessa víscera eu já suspeitava há um tempinho), é praticamente impossível que eu venha a sofrer um infarto ou um derrame, mesmo com toda aquela música baiana no último volume, todas as professorinhas adolescentes animadíssimas e gritantes, a vozinha de robô que diz “Mude. De Estação. Agora.” de 30 em 30 segundos e a desoladora paisagem - feminina pra onde quer que se olhe, ugh – ao redor. Mas vamo nessa, né ? Esporte é vida, esporte é saúde, esporte é... um saco. Mas eu não posso mais fugir.


Cyn City

5.9.06

O stand-up da montanha

O judeu, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e aproximou-se a platéia, e ele pôs-se a fazer seu stand-up, dando início a uma tradição étnico-vocacional que iria durar uns bons dois mil anos ou mais:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, esses seres geniais – até porque restam pouco de nós hoje, hm?” E eis que um dos discípulos bateu os pratos da bateria, e eis que a platéia riu. E o judeu prosseguiu:

“Bem-aventurados os que choram, porque pagar seis shekels no mercado por um cabrito para o Pessach não tem base. Por Javé, há que se pechinchar!”

“Bem-aventurados os mansos, principalmente os que chegam em casa e pegam a mulher na cama com um centurião romano: dar uma de bravinho numa hora dessas é passar pelo fio da espada, na certa.”

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque permanecerão com a silhueta que pediram a Javé, ao invés de engordar comendo ou bebendo bobagem”.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque coronária entupida é o fim”.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados por termos inomináveis pelo lobby da indústria bélica mas poderão posar de esquerda chique.”

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque haverá um tempo em que será totalmente in ser presidiário, e ainda por cima controlar uma rebelião sem sequer sair da prisão”.

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e disserem todo o mal contra vós por minha causa, pois podereis retrucar ‘ei, eu vi o primeiro stand-up dele e já percebi que não tinha a menor graça!’ “

E a todas estas se ria muito a multidão, e o judeu continuava:

“Vós sois o sal da terra; os sírios são a massa; os egípcios a calabresa; os bretões a cebola e os gregos as azeitonas: cuidai que os romanos estão aí a inventar um novo prato para patentear e comercializar no futuro.”

“Vós sois a luz do mundo – então virai um pouco para lá, pois nada pior na hora de fazer um stand-up do que o facho do holofote na cara.”

“Não pensai que vim destruir a lei ou o que disseram os profetas: os escribas semi-analfabetos já cuidam disso.”

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sequer olhar para uma mulher para a cobiçar deverá pensar antes nas juntas de bois, nos côvados de terra, nas vinhas e nas oliveiras que a esposa levará depois do divórcio – e então aquietará seu cajado.”

“Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o fora. Se tua mão direita é motivo de escândalo, corta-a e a lança longe de ti. Mas pára com os escândalos por aí, ou esta auto-flagelação reduzir-te-á a um bizarro homem-tronco”.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que a qualquer um que vos bater na face direita – sinalizando pois um desafio para duelar – optai pelo velho olho por olho e dente por dente mesmo, que é mais prudente acabar cego e banguela do que perecer em um duelo ridículo”.

“Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vosso próximo, odiai vosso inimigo e contai com um bom advogado”.

“Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem guardam provisões, pois já têm quem faça isso por elas. Olhai os lírios do campo, que não trabalham nem fiam, pois sabem que há quem proverá tudo para eles. Ou seja, acabais de ouvir a primeira metáfora para a mãe judia”.

E mais e mais a multidão se ria, e a cada bem-aventurança do judeu o discípulo batia os pratos, e cada vez mais a platéia se animava. Eis então que o judeu foi chamado a um canto por um homem, que lhe apresentou um cartão, disse ser um agente e pediu ao judeu para procurá-lo na segunda-feira. Entretanto ele advertiu: “Só cuidai para evitar piadas com a mulher de Herodes. O stand-up que te antecedeu, o Batista, incorreu nesta imprudência e pediram a cabeça dele.” E o judeu cochichou ao agente: “Tu sabes que stand-up é mesmo um martírio. Quando não são pessoas influentes se incomodando com o que dizemos, é a crítica nos crucificando”. E eis que o judeu guardou o cartão do agente e voltou à montanha; e assim prosseguiu, dizendo à multidão:

“Quereis agora ouvir a piada do bom samaritano ou a anedota do filho pródigo?”

E a todas estas a multidão se deleitando, pois via que rir era bom.

Ao Mirante, Nelson