23.3.04

Segurança é algo que todos procuramos ter em nossas vidas. A garantia de se estar vivo e bem no dia de amanhã, sempre o dia de amanhã. E daí, quando se consegue garantir o dia de amanhã, tenta-se salvaguardar o dia depois deste, a semana, o mês, anos a fio.

Hoje em dia é possível ter a garantia de uma vida segura por anos por vir. Ou melhor, pode-se assegurar uma existência estática. Porque não sei se isto pode ser chamado de vida. É o aspecto negativo da segurança: Ela é limitante.

Eu estive no dito mundo desenvolvido, onde havia segurança em todo lugar, mas tudo que senti eram amarras ao meu redor. E as pessoas lá (e aqui também, claro) se guardam em caixas cada vez menores e mais fortes para ficarem seguras. Afinal, para quê ter espaço para bater os braços se já disseram que é impossível voar?

A maioria das pessoas prefere ser treinada a aprender e entender algo. O importante é ganhar o suficiente para o dia de amanhã. É muito mais rápido e produtivo viver sem pensar na vida, nas pequenas coisas que fazemos. O importante é ganhar o suficiente para o dia de amanhã. E eles nunca percebem que o amanhã chega todo dia e tudo que eles fazem com este tempo é garantir o dia seguinte. Eles põem tudo em números e esquecem que até os números podem ser infinitos, não têm amarras.

Mas eu não estou falando de máquinas, e sim de seres humanos, com sentimentos e emoções. E mesmo neste quesito eles procuram irracionalmente uma garantia. Coloca-se num pedaço de papel o amor que deverá ser estocado para o dia de amanhã. O amanhã continua chegando e tudo que se faz é... estocar.

Segurança é limitante. Admito que é confortável e agradável saber que no futuro há bonança, mas isso impede qualquer aprendizado e entendimento. Estas coisas são inevitavelmente incômodas.

no one knows

22.3.04

Das abstrações.

amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor amor amor amor
amor amor amor amor

amora amora amora amora
amora amora amora amora

                             você
                     você você
             você você
     você você
você você
você você
     você você
             você você
                     você você
                             você

.
.
.

e eu.

Pequenos Dias Longos

Das coisas boas da vida

Dia de sol. Café da manhã de padaria. Pedaladas na lagoa. Caminhadas na praia depois do pôr-do-sol. Dormir abraçada. Reencontrar pessoas que eu gosto muito. Descobrir músicas deliciosas em cds antigos. Beijar morrendo de rir. Morrer de rir. Rever fotos antigas. Cantar alto. Comer pizza dormida como se fosse caviar. Caminhar de mãos dadas. Acordar no meio da noite e ver que amo quem está do outro lado da cama. Ir ao cinema e sair apaixonada pelo filme. Beijos na boca por minuto. Poder pensar em alguém enquanto canto Chico Buarque. Fazer aniversário. Me sentir alucinadamente atraída por uma pessoa toda vez que ela repete uma palavra qualquer aparentemente sem importância. Ganhar uma aposta boba. Água de coco gelada no calor e de frente para o mar. Sentir que encontrei alguém que é a minha cara. Carinho de mãe. Paquerar e cair apaixonada. Ver qualquer gato dormindo. Abraço apertado-demorado. Caminhar em Ipanema no meio da tarde de um dia de semana. Ligar o rádio e achar uma música que eu a-do-ro!
Sentir que faço parte da felicidade de alguém.

Acontecível

"Mas Cacá, tu até tens muito bom gosto pra homens. O problema é que eles não têm lá um gosto bom pra mulheres."

clarices

Saída Estratégica Pela Direita

A frase é do leão da montanha, e sempre me vem quando sinto estar no lugar errado.

Uma das razões por que não fiz curso de inglês foi ter entrado na sala incorreta: em vez do primeiro ano, entrei numa do segundo ou terceiro, não entendia nada. Fingi, fui tão discreto quanto possível, até que aprendi a balbuciar licença pra ir ao banheiro com uma menina ao lado. Nunca mais voltei.

Duck and cover, run and hide, nem sempre é possível fugir, e quando nos percebem, não há defesa que dê conta.

Hmm, mas ia dizer de casamento, não vou mais. Um amigo sempre diz que se fosse coisa boa não precisava de testemunha. A piada é boa, mas está velha e desgastada. Uma correlata diz que o maior problema das mulheres aos quarenta são as mulheres de vinte.

No passado, o homem comprava sua esposa; com o passar do tempo, a mercadoria foi perdendo tanto o valor, que até o pai da menina passou a pagar pra se livrar do encosto, geralmente em festa. Vivemos em outros tempos, alguns costumes permanecem.

dies iræ

21.3.04

Manual Prático de Conquista

Um amigo perguntou-me como ganhar um coração. Duas surpresas: a primeira, que eu esteja com toda essa boa fama; a segunda, que ele possa querer ganhar um prêmio como esse.
Respondi-lhe que todo coração é um bandeirante em busca da Cidade d'Ouro. É preciso tornar-se a tal cidade, para que o aventureiro torne-se seu. Homens, mulheres, cachorros, todos buscam por um membro da realeza: seja um príncipe encantado, uma princesa - eu que o diga - ou uma cadelinha real. Antes de conquistar alguém, é necessário conhecer os sonhos desse alguém. E é por isso que a amizade é indispensável, como primeiro passo de uma conquista. Aliás, estamos cansados de ouvir que não há amor verdadeiro sem amizade.
Conhecendo-lhe os sonhos, vem a parte difícil: tomar parte neles. Há dois caminhos para isso. O primeiro, mais fácil e arriscado, é se transformar no príncipe encantado e fazer com que pareça que se é o par perfeito. Cá entre nós, só apóio o método quando falamos de uma conquista barata e rápida, sem pretensões de estender-se. O segundo é roubar os sonhos do coração bandeirante. Expulsar o príncipe encantado e chamar a atenção do alvo para alguém de sangue menos nobre: Vossa Mercê. As técnicas para fazê-lo, infelizmente, são secretas; cada um as desenvolve como melhor lhe parece. E - que isso permaneça secreto - não conto as minhas porque são extremamente egoístas e dolorosas para o alvo. Quando me preocupei em criar estratégias de conquista, não estava muito interessado no bem-estar das pessoas, se é que me entendem.
Um ponto importantíssimo é a franqueza absoluta. Fala-se, hoje em dia, muito em gostar; não admito, e jamais admitirei, que alguém "goste" de mim. O amor é suave e clássico; belo e deslizante; vermelho e sublime. Os olhos do conquistador jamais são inexpressivos, jamais vazios. Ele está sempre encantado com o céu, a água, a terra. Ele nunca - eu disse nunca - fala de futebol a quem quer conquistar. Ou se fala, dá sempre um jeito de descrever apaixonadamente a expressão do seu jogador predileto quando fez um gol. Sim, señores, é o que quero dizer: o conquistador jamais encara o mundo como um conjunto de banalidades. E isso é franqueza.
Discorri sobre os métodos que já tinha testado e aprovado, nos meus tempos menos sérios, e já que sempre terminava dizendo um "mas claro que isso não vai manter a pessoa ao seu lado", meu bom amigo fez a grande pergunta:
- E como fazer com que essa pessoa fique comigo por muito tempo... Para sempre?
Sorri e disse que nada era para sempre. Mesmo assim, demorei a responder o resto da pergunta, e o que saiu foi, finalmente:
- Pedir amor, meu amigo, só se você amar.
E é a mais pura verdade. O conquistador perfeito é, certamente, aquele que ama quem quer conquistar. Um olhar apaixonado vale mais que mil palavras; e não há ator que possa simular o épico sentimento que chamamos amor. Essa foi a minha grande conclusão, seguida de uma ainda mais verdadeira, só que do meu pretenso aprendiz:
- Uma lição para você: um conquistador apaixonado nunca mais será conquistador. E eu vou procurar outro professor.
A César o que é de César!

Vox Noctis Liber

Fiquei no chuveiro deixando a água cair forte e perscrutar lânguida cada canto do meu corpo, como que numa tentativa de revelar, e por conseguinte expurgar, nem sei bem o quê. Talvez tristeza, coisa que por si só não faz sentido. Talvez a causa de minha tristeza. Mas como expurgar-me de meu próprio corpo, morada onde há muitos anos fui encerrado, enclausurado sem sequer me perguntarem se era isso mesmo. Queria catarse. De qualquer tipo, de qualquer forma, vinda de qualquer lugar. Paleativos, que fossem, mas já me serviriam. Me abandonei ali, e segui, etéreo, para outras paragens distantes. Assim fiquei por longo tempo, imóvel, molhado, com olhos vagos enfiados em idéias, em imagens e elocubrações, como procurando o caminho da felicidade que já não é aqui. Sem que eu percebesse a angústia compactada no meu coação irrompeu e eu chorei, chorei até soluçar, até que meus olhos ficaram injetados e senti o gosto do chorar na boca. Mesmo assim, agora, enquanto escrevo ainda com os cabelos molhados a pingar-me sobre a testa, sinto que não retirei nada de mim, mas ao contrário, somei.

Henry_Wotton

Tagarelices de Domingo

Há uma poesia nos nomes ingleses. O nome do marido da escritora Dahpne du Maurier era Frederick Arthur Montague "Boy" Browning. Eu ouço um nome desses e fico feliz um dia todo...

-Como é o nome?

(sorrindo feliz) Frederick Arthur Montague "Boy" Browning. Vou lá na praia chutar as ondas com as mãos nos bolsos, pensando nesse nome e em outras coisas, e em outras coisas. Quer vir?

-Não, fique, me entretenha.

Quer outro nome inglês? Que tal Brigadier Gerrard Montgomery “Butcher” Collins? Esse inventei, mas posso procurar um autêntico para você. Ou nomes franceses, nem se fala. Italianos, espanhóis. Gregos. Faço-te saber que escrevi um livro com uma personagem chamada Julianna Rossa-Ravilius, e uma outra chamada Elizabieta Dushku. Eu...

-Chega de nomes, você me aborrece. Conta uma anedota aí.

Não, contarei um fato verídico que revela muita coisa, muita coisa. Meu irmão é psiquiatra, você sabe. E diz ele que 90% dos malucos que aparecem no hospital são fãs de Raul Seixas. No kidding. Boy, I wish I was kidding. Agora, diz ele que...

-Outro dia desses vi a empregada cantando “Viva a Sociedade Alternativa”.

Eu sei, foi horrível. Ela é Adventista do Sétimo Dia e nem faz idéia do que está cantando. Eu tentei dizer, mas não tive coragem de destruir o sorriso empolgado dela.

-Seu irmão não é aquele que você tentou matar?

Sim, sim. Bom, não tentei, foi sem querer. Estávamos os dois andando na nossa casa de campo, eu tinha seis anos, ele dez, e eu estava zangado porque ele ia na frente sem prestar atenção em mim. Daí peguei uma pedra deste tamanho, juro, deste tamanho, e atirei. No momento em que ela saiu da minha mão eu soube que ela ia cair na cabeça dele, e caiu mesmo.

-Que barulho fez?

Cluck. Não clock, cluck. Ele caiu de lado no matagal do lado da estrada e ficou lá. Sem saber o que fazer, voltei para casa. Minha mãe me viu emburrado e perguntou o que tinha acontecido, e eu disse, “O Ricardo não queria parar e ficava andando na minha frente, e eu atirei uma pedra na cabeça dele e ele caiu e agora ele está lá no chão sem se mexer e não quer falar comigo”. (Alexandre ri, feliz.) Isso tirou dez pontos do QI dele, mas ainda sobram 160.

-Mais 16 pedras pra atirar.

Sim. Escute, quer ouvir o meu plano pra ficar rico? Contratar o Paulo Cesar Pereio pra ler poesias famosas, dizendo “porra” no final de cada dois versos. Gravamos e vendemos os CDs. Ele leria a Rhyme of the Ancient Mariner, por exemplo, assim:

The Sun came up upon the left,
Out of the sea came he, porra!
And he shone bright, and on the right
Went down into the sea, porra!

Ou como Velho do Restelo. Depende se o primeiro CD vender bem. Não sei, não sei...

-Você e seus planos pra ficar rico. Como era mesmo? Um show em que as pessoas pagam pra ver motoristas estacionarem carros em vagas apertadinhas?

Sim, sim. Se esbarrasse no carro da frente ou de trás, soaria um alarme. E teria um tempo máximo pra fazer isso.

-Mínimo.

Não, máximo. Máximo, sua burrinha.

-Ah, é. (Estendendo um microfone imaginário) Alexandre, qual a sua opinião sobre as pessoas que deixam comentário no seu blog dizendo “aê malandro, se liga, fica aí só reclamando, reclamar é fácil quero ver fazer”, etc?

Reclamar é fácil? Fazer é que é fácil. Fazer qualquer badalhoco faz, na entrada e na saída, andando, dando cambalhotas e até assobiando. Mas reclamar bem é difícil. Repare que essas pessoas estão tentando reclamar, e pessimamente. O que há é pouca gente para dar valor à arte da reclamação, que é um artesanato que fazemos com nossos próprios desprezos, enroscando um no outro como vime. (Se levanta, e espreguiça) Mas agora chega, enough; vamos pra praia, ó Voz na Minha Cabeça, chapinhar a água reflexivamente, de mãos nos bolsos e assobiando clássicos do pop francês da década de sessenta.

-Desde que não seja Je T'Aime.

Então não. (Senta de novo, pega um jornal.) Olha, mais um escoteiro se perdeu na floresta...

Alexandre Soares Silva

MANIFESTO CATARRO VERDE

1. Sou a favor da legalização do aborto
2. Sou a favor da legalização das drogas
3. Sou contra qualquer ginástica ou esporte que não seja foder
4. Sou contra trabalhar
5. Sou contra todas as religiões
6. Estou cagando para o Palmeiras e detesto futebol
7. Não sinto tesão por mulheres pesadas, me dói o osso do púbis quando vêm por cima
8. Sou contra o misto-quente e a favor do hambúrguer
9. Odeio patrões e chefes, quem tem chefe é índio
10. Toda mulher tem que saber chupar direito ou tratar de aprender
11. Mulheres órfãs são as melhores, não tenho de conhecer os pais
12. Todo computador é bom desde que seja Macintosh
13. O ritual do Santo Daime é a coisa mais chata do mundo
14. O Angeli está morto e só falta enterrar
15. Circos com animais devem ser fechados
16. Japoneses que caçam baleias devem ser afogados no mar
17. A chatice é o único pecado humano imperdoável
18. Poodles devem ser extintos, assim como pinchers, pitbulls e rottweilers
19. Sou contra pipoca em cinema
20. Sou contra todos os partidos políticos
21. Odeio usar camisinha, embora use
22. Sou contra a redução da maioridade penal
23. Sou contra a fabricação de armas
24. Toda criança miserável deve ter direito a banho grátis em pet shop
25. Todo filme do Eric Rohmer deve dar direito a travesseiro na bilheteria
26. Não me sinto representado por políticos
27. Não sou governado por governos

catarro verde

20.3.04

Dona Donata

Talvez eu ainda não tenha falado dela aqui. Apesar de ateu, há coisas que são sagradas para mim, e não gosto de ficar falando nelas. Acho que é pra não desgastar, sei lá. Só sei que dentre essas coisas ocupa lugar de maior destaque a lembrança da minha avó materna, Dona Donata. Todo esse negócio que eu tenho, de contar histórias de um jeito meio engraçado, meio triste, eu herdei dela. E ela contava histórias bíblicas assim também: A versão dela para a história de Salomão e as duas mulheres que brigavam por um bebê era muito mais legal e engraçada que a original, com Salomão jogando a criança pra cima e tudo mais.
E sonhei com ela esse fim-de-semana. Ela dava um jeito de entrar em contato comigo através de uns aparelhos parecidos com modems, e as mensagens vinham numa espécie de código morse. Começou a me explicar que toda pessoa, depois de morta, vai para onde passou a vida acreditando que iria. Então o cara que acha que vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa, vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa. Um cara que acredita que vai passar a eternidade com muitas mulheres e cerveja, vai para o céu da putaria. Minha avó estava num lugar muito bonito, tinha praia lá, e ela conversava muito com Nossa Senhora, não rezando nem nada, mas como velhas comadres. E Deus (em maiúscula aqui por respeito à minha avó, não a ele) passava às vezes pra ouvir umas histórias dela também, e ria, ria muito.

Então perguntei para ela o que me estava reservado depois de morrer. E ela respondeu que eu iria para o inferno. Não por ser um descrente, mas por trabalhar com máquinas, e passar tanto tempo com estes seres sem espírito.

Antes que perguntem: Não, eu não acredito que minha avó tenha falado comigo em sonho. Mas acho meu subconsciente precisava encontrar um modo contundente de gritar por socorro, de avisar que estou afundando. Nada melhor do que fazer isso através da voz de Dona Donata, a melhor contadora de histórias que já habitou esse planeta.

Jesus, me chicoteia! || arquivos setembro 2002

apontamento

Acho curiosa a forma como as lembranças da infância habitam nossa cabeça. Para mim, pelo menos, nunca há um quadro completo, que me permita determinar exatamente como se deu o fato. São apenas fragmentos, parecidos com pedaços de sonhos que tivemos na noite anterior.

E assim foi com meu primeiro contato com um apontador de lápis. Lembro que estava do lado de fora de minha casa, sentada na rua. Sei, não sei como, que se tratava de uma casa no Bairro Floresta. Lembro-me da menina chegando da aula com um caderno na mão. Não sei determinar sua idade, já que, para uma criança pequena, tanto faz a pessoa ter 12 ou 32 anos. Afinal, no início da vida temos o costume de dividir o mundo entre "nós, pequenos" e "os gente grande".

Tenho na memória a imagem da "menina pequena" que eu era perguntando à "menina gente grande", já freqüentadora do universo escolar, o que era aquela coisa redonda e colorida que ela tinha nas mãos. Deve ter sido interessante para ela se deparar com aquela coisa miúda perguntando sobre um prosaico apontador de lápis. Ela foi gentil, me explicou e fez ponta em um lápis para que eu visse o funcionamento do interessante dispositivo.

Depois disso, minha infância foi sempre acompanhada de uma atração por essas maquininhas de afinar pontas de grafite. O auge da felicidade apontadorística seria ter um daqueles enormes apontadores de mesa, que afinavam várias pontas simultaneamente, bastando girar a manivela.
É... Nunca tive um daqueles. Mas querem saber? Acabo de inventar para mim uma mania em potencial: colecionar objetos que fascinavam a Mônica criança. O primeiro da lista? O apontador redondinho. Em seguida o grandalhão que se prendia à mesa tal qual um moedor de carne.

Bom. Esse "flashback" é cheio de buracos, de lacunas que o tempo impingiu a minha memória. Um deles é minha idade. O outro, a cor do apontador. Como não sou boba nem nada, em vez de me lamentar, vou fazer uma limonada com o limão que o esquecimento às vezes é. Meu primeiro apontador será vermelho. E minha idade? Três longos anos de vida.

monicômio

De perto demais

Sem lugar é como você se sente quando um motorista de táxi cheio de correntes douradas no pescoço e mais botões da camisa abertos do que pede o calor carioca te conta, refletindo lágrimas e saudades no retrovisor através do qual te olha acuada no banco de trás, que o fim do seu casamento de 16 anos foi decidido ali, exatamente no banco de praça em que você estava sentada esperando um táxi qualquer.

Da Estrangeiridade

A Saga do Primeiro Beijo (Post XXXI)

O Bilhete:

"Murilo, eu sei que você está bravo comigo e por isto eu queria pedir desculpas. É que eu estava doente e comecei a ficar zonza, zonza, zonza e meu estômago doía... Mas aquilo tudo que eu disse no parque não tem nada a ver com você. Juro.
Será que a gente pode ficar de bem?"

Preciso de um papel de carta bonito.

- Alê, eu falei uma carta! Esse bilhete está ridículo. Você acha o quê? Que o Murilo vai ler isto e desculpar você só porque o papel de carta é rosado e tem desenhos de flores do campo?
- Não agoura, Marilu! Não agoura! E isto não é rosa; é bordo. O bilhete está lindo. Pode entregar assim mesmo. E cuidado pra não dobrar. Entrega enroladinho como se fosse um pergaminho.
- Vai quebrar a cara.
- Não vou, não.

Passei a tarde procurando pontas duplas no cabelo. Uma ansiedade que me fazia bater a cabeça na parede. Pra piorar, a Marilu não voltou em casa naquele dia. Só foi aparecer no dia seguinte. E à noite!

- Isso são horas?
- Você parece minha mãe falando. Eu, hein...
- E então? Como foi?
- Eu avisei...
- Ele não vai me desculpar?
- Não vai, não.
- Mas o bilhete estava tão bonitinho... O que ele disse?
- Ele não disse.
- Como não disse? Ficou mudo?
- Eu falei que era um bilhete seu, ele olhou e nem abriu.
- Foi embora assim? E a carta?
- Não leu...
- Devolveu pra você?
- Rasgou.
- Rasgou? Sem ler?
- Ãnrãn... Trouxe os pedacinhos pra você não achar que é invenção minha.
- Que cretino!
- Alê, a gente já esperava que isto pudesse acontecer. Eu acho que essa história não tem volta, não.
- Que insensível! Você disse que eu estava doente?
- Disse. Em seguida dei o bilhete e ele rasgou na minha frente.
- Não acredito! Infantil! Babaca... Por que esses meninos são tão, tão, tão... Arght!

Ali começou um problema que me acompanhou durante muitos anos. Bastava o menino não me dar bola e eu ficava enfurecida. Enfurecida e muito mais apaixonada... Não era masoquismo, era burrice mesmo.

- Olha, sem querer ser estraga-prazeres, mas já sendo, eu acho melhor você esquecer o Murilo.
- Não. Ele não quer ler, vai ouvir.
- Alê, o Ivo disse que o Murilo não quer mais ver você.
- Tudo bem. Eu não ligo. Mas ele vai ter que ouvir. Vou gravar uma fita cassete.
- Já vi que vai sobrar pra mim de novo...

Vem, me ajuda a procurar o gravador.

----------> Continuará em
Amarula com Sucrilhos

Longe, o início. Perto, o fim. A névoa da incerteza invadia a sala mas ninguém poderia a ver, pois tudo estava cego, surdo e mudo. Não havia muito o que fazer senão esperar, mas como esperar se cada segundo era uma eternidade e se todos os segundos não equivaleriam a nada, daqui a algum tempo. A economia de movimentos não era proposital. Era realmente necessária, já que nada valia a pena ali.

Num panorama assim, dificilmente se mantém a sanidade. O cérebro logo desliga e nada do que acontece continua a acontecer. Até que um segundo depois, um segundo que a realidade resolveu chamar de Big Bang, o Universo se refez e eu, que era refém de uma situação de completa placidez, volto a viver. Mas o calor infernal faz com que essa minha vida não dure mais do que poucos milimilésimos de segundo, antes de ser consumido pelas chamas da explosão original. Ok, tudo bem, pelo menos posso dizer que fui testemunha ocular do início do Universo.

Mas o duro é que eu queria contar isso pra alguém..

(...)

Um, dois, três, pim, cinco, seis, sete, pim, nove, dez, onze, pim, treze, quatorze, quinze, d... pim, dezessete, d... dezoito, dezenove, pim, vinte... e um, vinte e dois, vinte e três, pim, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, pim, vinte e o...nove, trinta!

A-há, eu sempre fui bom nisso!

A vida tem dessas coisas

Rapadura é doce, mas não é mole não!

Ontem preparei-me para ser embalada nos mais belos sonhos (de preferencia com o bombeirão da Luma). Coloquei o celular para carregar, e o fdp ligou sozinho. Às 23;15 ele toca:

-Alô, Dra. tati, sua cliente xpto acaba de ser presa, o flagrante será lavrado no XXo. DP, a senhora pode ir lá, dar uma assistência?

- O que? Como? Onde? Quem? hã? Aquela ruminante, galinácia, filha de uma rapariga destentada. Pô eu já tô de pijama....

- Dra, a coisa é séria, a senhora vai?

(momentos de reflexão....sim, não, não sei, pô..... a essa hora!!)

- Eu vou. Me troquei, precisava de outra roupa, meu vestido quase novo e lindíssimo estava sujo de esfirra, pego um outro de alcinhas - tá calor - em 15 minutos já estou lá. Faço meu trabalho com esmero, volto para casa, praticamente congelada. Chego em casa e a mãe da Tati indaga:

- A senhora sabe que horas são?

- Três da manhã?

- Não fofa, são 4;30, você não disse que teria que levantar às 6 da manhã?

-Não só disse como hei de fazê-lo.

E o fiz, acabo de chegar de Tremebé, e não fica perto de Aparecida porr* nenhuma, fica perto de Taubaté.

Estado físico: podre.

Estado mental: esgotado.

Perspectivas para os próximos dois dias: CAMA, CAMA, CAMA

veleidade

19.3.04

Papos entre amigos

- Carnaval foi bom ?
- É, foi.
- Não senti segurança.
- É que houve um dia em que eu briguei com a namorada ,ela acabou comigo e até agora não estamos bem.
- O que houve ?
- Ela caiu, eu estava do lado e eu não a amparei.
- Por que não ?
- Por que fui eu quem causou a queda, na verdade. Pisei no pé dela.
- Acontece.
- Mas eu só caí porque tentei segurar a garrafa de cachaça que estava na minha mão.
- Hum.
- E ainda caí em cima dela(da namorada, a garrafa ele segurou).
- Hum.
- E o chão estava barrento, tinha chovido, sabe, melou todo mundo.
- ...
- E ela estava de saia, todo mundo viu a calcinha, imagina.
- ....? Não quero imaginar.
- E eu estava vestido de mulher,roupa dela aliás, rasguei a saia que estava vestindo, enterrei a cara dela na lama, foi uma coisa.
- Acabou?
- Não, de noite, enquanto dormíamos, eu vomitei em cima dela.
- Bêbado, na lama, vestido de mulher, e a única coisa que você pensa é em salvar a cachaça. Cara, eu sou tua fã.

Sabem, às vezes as pessoas abusam do amor alheio.

BooBlog Um blog inútil para voce passar o tempo útil (ou o contrário)

Já que não posso falar isso pessoalmente... aqui vai:

TE AMO!!

Nhacs e Slepts

Oficina de loucos 

O que você diria de uma pessoa que, com quase 30 anos nas costas, fica trancado um dia inteiro dentro do próprio apartamento porque a mãe saiu e não deixou a chave?
E se uma pessoa fica trancada pra fora de casa, das 14 às 23 horas porque sua mãe e irmã saíram e não deixaram a chave de casa?
O que acharia de um vizinho que bate na sua porta às 22 horas pra pedir a geladeira emprestada porque sua mãe muito lúcida (definição própria) quebrou a porta da geladeira e resolveu doá-la para catadores de lixo, impossibilitando gelar as cervejas?
E se isso tudo fosse a descrição de uma pessoa só? Pois esse é o meu vizinho. Vermelho de cabelo, rosado de pele e totalmente cara-de-pau.
Pediu nossa geladeira emprestada, dissertou sobre os problemas psicológicos de sua mãe, pegou gelo, falou sobre sua infância traumática, sobre as oportunidades perdidas, as faculdades não terminadas, a antiga namorada que lhe causou um prejuízo financeiro enorme (que inclusive foi o responsável por fazê-lo voltar a morar com a mãe). Tudo isso em suas três últimas visitas num curto espaço de tempo de menos de vinte minutos.

Até então a impressão que ele me passava era a de uma pessoa fraca da cabeça que, apesar da idade, não tem a chave de casa. Agora além disso, percebo que ele tem sérios problemas, que, quem sabe, anos de terapia poderiam amenizar.
"É... a minha vida é muito difícil" foi sua frase de despedida.
Pena que ele vai se mudar em breve. Com certeza renderia textos interessantes sobre o universo psicológico de uma alma perturbada.

Admirável Blog Novo

CONSULTA MÉDICA

- Bom dia, doutora.
- Bom dia.
- Direto ao problema. Quero que a senhora me receite aquela pomada que eu vi na TV. Aquela que o cara passa na barriga e fica com abdominais perfeitos.
- Desculpe, senhor... Mas isso é impossível!
- Não é, não. Depois de passar a pomada o cara ainda esquia por planícies verdes floridas, e acaba numa praia com muitas mulheres bonitas.
- Senhor, isso realmente não existe.
- Existe, sim! Eu gravei e trouxe a fita. Vamos assistir.

(cinco minutos depois)
- Uau!
- Eu te disse que era legal! E aí, vai me fazer uma receita.
- Sinto muito, mas para isso eu precisaria prescrever LSD, e isso seria ilegal.
- Não é, não. Eu trouxe um artigo. Leia aqui.
- Mas... Isso aqui está escrito a mão.
- Não, não está. A fonte que é assim.
- E por que está rasurado?
- Não sei. Pergunte pra eles!
- Posso te ajudar em mais alguma coisa, senhor. Por favor, não vale repetir o que o senhor já pediu.
- Droga. Tá certo. Então... Pode me dar o seu carimbo? É pro meu sobrinho.
- Não, não é. É pra você, você vai forjar uma receita falsa.
- Diabos, você é boa mesmo mulher! Fez USP?

ChickenDog

Ocupações maravilhosas*

* Título plagiado de J. Cortázar - Histórias de Cronópios e Famas

Quando era criança, uma de minhas ocupações preferidas era pegar um mosquito, desses caseiros, e colocá-lo próximo a um formigueiro para que as valentes formigas o levassem para dentro.


A operação

Primeiro passo: captura do inseto. Colocava a mão direita aberta, em posição vertical, a uns trinta centímetros da presa. Após alguns segundos de concentração, movimentava a mão rapidamente em direção ao alvo. Quando a mão estava a uns dois centímetros do mosquito, fechava-a. O fechamento da mão devia coincidir com a tentativa de fuga do pequeno animal. Quando tudo era feito com precisão cirúrgica, tinha o mosquito preso em minha mão.

Segundo passo: preparação do inseto. Introduzia os dedos da mão esquerda na mão direita ainda fechada. Pegava o mosquito. Então, com a mão direita, retirava-lhe as asas. Nesta etapa o bichinho fica muito parecido com um Fusquinha. Algumas variações: Quando queria uma batalha mais violenta, deixava o mosquito com uma das asas. Quando queria dar uma chance ao inseto, deixava as asas e lançava-o à parede com alguma força de modo que ficasse atordoado. Com isso, caso se recuperasse do impacto a tempo, poderia escapar das formigas. Acontecia, às vezes, de o mosquito voar levando uma formiga presa a uma de suas patas. Gostava de ficar imaginando a sensação da formiga ao voar pela primeira vez na sua curta vida.

Terceiro passo: colocação do inseto no formigueiro. Colocava então o mosquito próximo à entrada de um formigueiro. Era preciso cuidar para que o formigueiro fosse de uma espécie que inclui mosquitos em sua dieta alimentar. Depois disso bastava esperar que as formigas achassem o inseto e começassem uma árdua batalha para levá-lo para dentro do formigueiro. Várias delas pegavam-no pelas patas e arrastavam-no, não sem alguma dificuldade, para a sua despensa. Freqüentemente, uma formiga subia nas costas do inseto e de lá observa a movimentação. Até hoje não sei se era a líder que orientava as demais ou se era apenas preguiçosa e gostava de participar sem fazer força.

Em breve:

Como fazer um lança-chamas com uma seringa de injeção (não façam isso em casa, crianças).

Como fazer uma armadilha muito pouco funcional para matar ratos (podem fazer em casa, mas não dá certo).

Como matar (involuntariamente) uma galinha de hemorragia interna (para estômagos fortes).

PS. Meus pais diziam que quando eu morresse sofreria muito ao passar pela "terra das formigas". Mas essa ameaça me soava um tanto abstrata e não tinha um efeito dissuasório dos mais significativos.

neosaldina com coca cola