A História é escrita pelos vencedores
Que bobagem! A História é escrita pelos historiadores. E historiadores são losers.
Yabbai
Desde 2002 no garimpo de pepitas e piritas cotidianas nos blogs brasileiros.
Sistema Copyleft. Sem figurinhas.
Que bobagem! A História é escrita pelos historiadores. E historiadores são losers.
Yabbai
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Ratapulgo
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8.11.04
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É necessário que eu acredite nisto.
É como crer no além.
É como crer no amor. E eu tenho que me agarrar a isto, é preciso.
Porque se eu não fizer nada disto, é como estar morto.
Mesmo que você cuide de mim quando tiver tempo, é como estar morto.
Mesmo que o tempo me prometa dias alegres, é como estar.
Meu Paredro
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DaniCast
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7.11.04
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Estou em cacos,
mas cintilo ao sol.
Partir-se em mil
foi a parte difícil,
estar em pedaços
é do que me orgulho.
Não procuro
recomposição.
Recomponham-se
os fracos.
Minha força está multiplicada
por minhas partes espalhadas
no chão.
por Ticcia Megeras Margérrimas
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DaniCast
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7.11.04
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Definitivamente, não tenho vontade de morar sozinho. Nenhuma. Simplesmente não vale a pena. Acredito que o ser humano não foi feito para morar sozinho. Afinal, de que vale uma existência se não tem ninguém pra incomodar, reclamar ou limpar a sua sujeira? De nada! O ser humano gosta de incomodar os outros. Isso lhe traz respostas emocionais.
Não deve ser nada legal ser um ermitão, por exemplo. Não toma banho, ninguém reclama do cheiro. Se quiser incomodar alguém, pode até jogar uma pedra num passarinho, mas o resultado será sempre o mesmo. E toda a individualidade desaparece. O ermitão só faz sucesso se tem alguma vila ou cidadela perto. E mesmo assim, é cada vez menos popular.
Estatisticamente, todos que moram sozinhos desistem cedo ou tarde. Por exemplo:
Não moro mais sozinho porque:
13% - conta de luz é muito cara.
12% - perdi as chaves de casa.
18% - vejo vultos e ouço vozes e falo comigo mesmo.
20% - uma cigana me parou na rua e falou que era o melhor a fazer.
21% - morri.
Esta pesquisa não tem caráter científico, mas, qual tem hoje em dia? Preciso escrever um diálogo, esses pensamentos estão me matando.
Chicken Dog
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DaniCast
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7.11.04
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Num livro que eu nem sabia que tinha, tou estudando mais um bocadim dos sumérios pra aula 1 do polvo e achei, num papelzinho dentro desse livro, com a letra fininha do meu pai, a lista das principais cidades da Suméria.
Chorei um pouco, claro.
Umma
Erech
Lagash
Ur
Kish
Adab
Eridu
Nippur
no ¡Drops da Fal!
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Ratapulgo
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7.11.04
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Numa manhã de abril, o dr. Orlando da C. M. chegou cedo na clínica para aplicar o psicotécnico. Escrevam sobre suas impressões de infância, ele disse. O que lhes vier à cabeça, não precisa elaborar. Têm 20 minutos e depois me entreguem. Mais não disse. Baixei os olhos e fiquei um tempão olhando para a folha em branco. Tudo o que queria era caprichar na caligrafia
--- "eu era pequena e não sabia que tinha de ser brasileira, branca, católica e mulher. gostava do mar e de fronhas limpas. e de ver a água escorrendo pelo ralo. matava formigas e queria saquear supermercados. me impressionava com os cérebros de boi no açougue e ameaçava jogar-me de qualquer janela porque achava que ia voar. não gosto de matemática. só queria roupas desbotadas. amava minha mãe quando apanhava dela e quando ela apanhava do meu pai. tinha fascinação pelo revólver do meu tio e pelo saxofone do vizinho, mas só podia brincar com a cadela da vizinha. minha irmã era a melhor aluna. eu era a mais bonita. toda sexta-feira santa me carregavam para beijar os pés de Cristo. me apaixonei por uma judia mas namorei um gordinho ruivo. odeio gente pão-dura. ou sovina, me ensinou a professora. não gosto de charadas. fugia das marcas que meus pés deixavam na areia. fazia xixi com frequência para sentir o impacto do chuveirinho do bidê. quando crescer vou ser médica, cardiologista. o senhor já teve caxumba? quando passo na frente de espelhos só vejo meus cabelos, minha boca, meus dentes, meus braços, minhas mãos, meus peitos. o resto embaça. acho a vida meio sem graça. tenho medo da morte. por isso já quis ser freira, guerrilheira, um milionário, uma rainha, um pássaro. já quis ter a boca enorme pra poder tocar trompete. sou desafinada. minha coleção de quadrinhos eu escondia no fundo do sofá. depois que aprendi a ler eu cantava qualquer música de trás pra frente. numa aula de redação fiz meu primeiro poema porque me pediram. era mais ou menos assim:
Librium Valium Rivotril
Oceano Atlântico
Dalmane Paxipam Verstran
Oceano Pacífico
Xanax Serax Centrax
Oceano Índico
Quaalude Halcion Doriden
Oceano Ártico
agora acabou, falta um minuto só. o senhor aceita um biscoito de chocolate?"
Coloquei o papel na mesa do dr. Orlando e fiquei ali, esperando. Ele leu porque devia ser muito curioso e depois me encarou. Os olhos arregalados. Eu estava sem dúvida muito bem maquiada naquela manhã.
Maira parula em típica Prosa Caotica
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Ratapulgo
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7.11.04
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Desde que se encontraram naquela noite, na praça, ela jamais tirou os olhos dele. O que o obrigou a uma atitude drástica: matou-a e tomou seus olhos de volta.
Letra Morta nA Praça
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Ratapulgo
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7.11.04
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E as pessoas buscam cultura nos locais mais improváveis: filmes, raps, anúncios de cigarro, rótulo de tinta suvinil, sopas de letrinhas.
"Oh, estou lendo um post edificante, estou aprendendo, estou crescendo enquanto pessoa, física e talvez até jurídica."
A mera idéia de que um filme tenha por fim o entretenimento, por exemplo, soa absurda. Ou a de que um rei pode, no fim, trazer lucros ao país -- mas a família me proíbe de falar sobre monarquia, bem ou mal.
Mozart nos comentários de dies iræ: Liberdade e Fraternidade
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Ratapulgo
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7.11.04
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O patrão me concedeu o poder e se mandou outra vez para uma das muitas ilhas onde ele se refugia, com uma de suas esposas e alguns de seus quinze filhos.
Estou responsável por mudar o layout.
O patrão fez sugestões grandiloqüentes a respeito do layout, algo branco, algo moderno, algo clássico com alguns cartoons. Algo que pareça sério e lunático ao mesmo tempo. Ele contratou a pessoa certa para esse trabalho, afinal, os senhores sabem, eu comando um chá maluco com mão de ferro.
Esse verde mausoléu está com os dias contados.
Muito bem.
Alguém tem alguma sugestão?
Cuidado, eu estou no poder, não me irritem.
A Mulher Insuportável Que Faz Chá
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DaniCast
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6.11.04
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Sentada na sala de espera de um consultório, em pleno domingo, de óculos escuros para esconder a cara de quem não dormiu tudo que devia e com a cabeça pesada sendo segurada pela parede. A senhorinha sai da sala da médica e me dá boa tarde sorrindo. Retribuo o sorriso e o boa tarde.
-- Minha filha, você é crente?
-- Hã?
-- É crente? Você parece uma serva do Senhor.
-- He. Não, sou não.
-- Quando lhe vi chegando antes, vi logo a luz de Jesus em você.
-- (o que se diz nessa hora? Amém?)
-- Amém.
-- (olhaí...) Amém.
-- Já visitou alguma igreja evangélica?
-- Não, nunca. Eu s...
-- Tem uma bem aqui perto, apareça lá. Deixe eu lhe dar uma oração, tome. Espero lhe encontrar de novo.
-- Mas é que eu sou...
-- Uma serva do Senhor. Que bonita. Até logo, minha filha!
-- Er.. até.
clarices
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DaniCast
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6.11.04
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Ontem vi num telejornal: o Dia de Finados foi instituído "para estabelecer um diálogo entre mortos e vivos". Eu, hein... Tô fora. Ficam dando muita confiança, daqui a pouco defunto vai querer discutir a relação.
...
Defunto bom é defunto morto.
catarro verde
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Jan
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4.11.04
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Dei um tapa aqui na bagaça. De um modo bastante amador, na unha mesmo. Mas é o que temos para o momento.
O outro template eu achava meio claustrofóbico.
O que vocês acharam? Deixa esse fundo amarelo hepatite ou muda pra branco?
abraços gerais,
O Administrador da Formidável Bagaça
Update:
Ok, ok, OK!!! Entendi a sutileza da mensagem! :)
Voltou o verdinho básico.
Dei uma olhada nos templates genéricos do blogger e esse é um dos menos piores mesmo.
Me irritam um pouco as colunas fixas. E a coluna da direita é muito larga para a sua inutilidade.
Parece que há uma maldição no código fonte avisando que se você mexer no tamanho das colunas os cantos arredondados irão assombrá-lo a noite. Sei lá.
Esse verdinho-abacate-diarréia também sei lá.
Obrigadíssimo pelos comentários. Continuamos aceitando sugestões de forma & conteúdo.
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Ratapulgo
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4.11.04
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Nem todos os santos salva
Desde Abel sabemos que churrasco é coisa excelente.
Quando havia espaço em minha casa, pelo menos duas vezes por semana dávamos um churrasco. Sempre achei que se faz pouco churrasco no mundo. Também sempre achei que o rap deveria ser música puramente instrumental, com temas escandinavos e coristas idem, mas isso não vem ao caso.
O único problema do churrasco é aquele pequeno inconveniente técnico de saber se o espeto está ou não sujo; se a desprezível crosta constitui ou não uma ameaça à saúde pública. Sempre há um germófobo pra torrar o saco.
- Fica tranqüilo, isso aqui não é sujeira, não...
- Mas como, homem? Se só falta andar!
- Sujeira não anda.
- Pois então.
- De qualquer modo, basta esquentar um pouco
- Meu, limpa logo esta merda.
- Mas cê é ignorante mesmo, hein? Nunca ouviu falar de Louis Pasteur?
- Ouvi de Lavoisier. Serve?
- Francês é tudo viado...
Daí para se fundar uma sociedade secreta o passo é curto. Discussão semelhante tem o dono da padaria com o encarregado da chapa, porém o desfecho desta preferimos não saber. Também não queremos saber a procedência da carne de certos churratos por aí. Se gênio e loucura se confundem, dane-se a busca pela verdade!
(i) Mas... por que são poucos os churrascos do mundo?
A meu ver, a culpa é desta dicotomia moderna entre sexo e churrasco; acidente histórico que cedo ou tarde findará. Prazeres carnais sempre andaram juntos, e sempre andarão. Prazos e prazeres, não.
(ii) Qual deve ser a proporção de mulheres e homens no churrasco?
A fração áurea, é óbvio. 1,618, Fi.
(iii) Batatas inglesas são erradas?
Não em romances de Nelson Rodrigues, mas eu ficaria longe da churrasqueira neste caso.
dies iræ
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Ratapulgo
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3.11.04
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O INCÊNDIO VESPERTINO NAS PISCINAS DOS SUBÚRBIOS
Quando lecionava escrita criativa na Iowa University, John Cheever propunha três exercícios a seus alunos:
1] A escritura de um diário por ao menos uma semana, um diário onde aparecesse tudo: sentimentos, sonhos, orgasmos, todo tipo de sensações, desde as mais íntimas até a descrição da cor de garrafas vazias ou prestes a serem entornadas;
2 ] O segundo passo consistia na composição dum conto onde sete personagens ou paisagens que aparentemente não tivessem nada a ver surgissem inevitável e profundamente relacionados entre si;
3 ] O terceiro passo -- e esta era a sua lição favorita -- era redigir uma carta de amor como se estivesse escrevendo num edifício em chamas -- "Um exercício que nunca falha", dizia.
HOTEL HELL
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Ratapulgo
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3.11.04
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Vi maravilhas
E mais maravilhas veria
Se o futuro fosse mais rápido que a morte
SMART SHADE OF BLUE
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Ratapulgo
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3.11.04
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Estou fritando ovos e converso comigo mesma. Amanhã é dia dos mortos e não sei se B. telefonará para irmos ao cemitério. Meu deus, eu não sei conversar com gente morta. Não é coisa que se aprende na escola ou em livros de filosofia. Aprendemos a chorá-los e a levar flores. Mas quem disse que gostam de flores e de gente lamurienta e viva ciscando em volta de seus túmulos? Talvez eu pudesse distraí-los. Botá-los a par das novidades. Das últimas descobertas da ciência. Das últimas guerras. De uma mudança nos hábitos. Do fim das baleias. Se o Messias voltou afinal. Se o mundo acabou. Se os extraterrestres chegaram. Eu poderia conversar muito e ninguém se importaria de ver-me falando sozinha. Nos cemitérios podemos ser loucos sem chamar atenção. Dizer-lhes que ainda não descobriram a vida eterna mas que falta pouco seria sacanagem da minha parte. Penso então numa piada, na história de um filme que eles não viram, numa música. Sim, uma música. O que um morto gostaria de saber? Adoço meu café e o sol tremelica na janela da cozinha. Por que Deus não sai daqui e os deixa tão sozinhos?
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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2.11.04
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Legião
Metrô, passa de meia-noite. O sujeito entrou no vagão empunhando um violão folk e com uma gaita presa ao pescoço. Apresentou-se aos ilustres passageiros e começou a tocar um blues. Ninguém deu muita atenção. Um preto que viajava em pé o chamou para fazer um pedido. "Pronto", pensei eu, o mulato racista, "lá vem pagode". Qual nada! O cara tinha pedido Legião Urbana, que é o que as pessoas pedem quando há um violão por perto. Foi bonito de se ver: o cara começou a tocar Será. Uma moça começou a cantar junto, dois bêbados se juntaram a ela, eu somei minha voz ao coro, e logo o vagão todo estava cantando. Ao final, todos aplaudiram. O músico mambembe, espantado com a reação, esqueceu-se de passar o chapéu e saiu do trem agradecendo.
No mesmo instante, me lembrei de quando Renato Russo morreu. No domingo seguinte, os amigos vieram aqui em casa (foi numa época distante, quando os amigos me visitavam, quando conversávamos sobre o futuro. Agora o futuro chegou, e é uma bela porcaria). Estávamos conversando na sala, falando as bobagens de sempre e assistindo TV. De repente a TV e a luz da sala se apagam: queda de energia. Fomos procurar velas, acendemos algumas e continuamos a conversa. Peguei o violão e comecei a tocar alguma coisa da Legião Urbana. Terminei a música, e um deles pediu outra. E depois outra. Só Legião Urbana. Cantamos até a Eletropaulo resolver o problema, à luz de velas, como num ritual em memória de Renato Russo, cujas letras haviam embalado nossa adolescência recém-terminada.
Hoje há uma tendência a se subestimar as músicas da Legião Urbana, tidas como infantis, bobas, cheias de lugares-comuns. Isso pode até ser verdade, sei lá. Eu sei que o adolescente ingênuo que eu era então ouvia aquelas letras e só conseguia pensar, "Puxa, eu não estou sozinho". O que era ingenuidade demais até para mim: é claro que estou sozinho, todos estamos.
Jesus, me chicoteia!
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Ratapulgo
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2.11.04
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Memórias de Finados
SEMPRE chove. Não sei se o truísmo se aplica a outras regiões do risonho e franco Bananão mas, no contínuo espaço-temporal Noronha, o feriado que eu “telescopei” na infância sob a definição “dia de todos os mortos” envolve necessariamente chuva. Na infância, envolvia também necessariamente viagem, ou melhor, aquela espécie de migração de horda mongol que nossos pais então entendiam por lazer –babbo, mamma, mana, nonna, tia(s)-avó(s), Fudílson, e mais tias e tios, alcatéias de primos, caixotes de comida, engradados de bebida segunda linha (por exemplo, refrigerante “Cerejinha” e “Laranjinha”), tudo embarcado laboriosamente nos Galaxies, Dodges, Veraneios e outros paquetes low-tech sobre rodas que nos serviam de transporte durante horas de congestionamento a caminho da praia ou do campo, e conduziam a outras tantas horas infernais de confinamento chuvoso para as crianças, aprisionadas em grupo de 14 no apartamento de um quarto em São Vicente.
E se bem a descrição acima seja um resumo razoavelmente realista de uma boa dezena de Finados, era tudo muito divertido. Hoje, como fotos de convescotes comunistas retocadas à força de cisões, execuções, expurgos, dissidências e expatriações que só deixam Fidel e a múmia de Lênin um em cada ponta do quadro, a foto Noronha de Finados teria muito mais lacunas que presenças. O 2 de novembro se tornou mesmo um “dia de todos os mortos”. As viagens, quando ocorrem, são muito mais confortáveis e, suponho, muito menos divertidas. Tudo mais mudou. Mas ainda chove, e não sei se por insônia ou essa nostalgia idiota que me vem tomando nas últimas semanas, eu vejo os mortos da minha vida na chuva –Vó Joanna, tia Hilda, Bea, os tios, as tias, os amigos perdidos. O véio. Não posso afirmar que lamento cada um deles com aquele pesar exquisite dos estetas devotos do láudano, mas alguns ali nunca deixam de fazer falta, e servem como abre-alas para uma segunda multidão de “mortos”, por sorte menos literais mas ausentes da mesma forma. Como se essa garoa ranheta servisse de prece para todos eles.
Talvez a solução ideal seja mesmo a mexicana, transformar o Finados em um segundo carnaval, preparar um altar de muertos em casa e sair bailando pela rua, depois da refeição acompanhada por golletes e pan de muerto, até terminar a baderna com uma imensa bebedeira na terça-feira, vestindo a careta, a máscara de espantar mortos que serve para reconduzir a legião de ceased-to-be de volta às covas, ao final da festa. Porque o Noronha pentelho que observava com olhar tão crítico as mazelas familiares nas viagens de Finados de sua infância aprendeu, enfim, tantos mortos mais tarde, que os rituais existem para fins muito palpáveis, e que a chuva oficial do feriado lava indistintamente as lágrimas e a manguaça. Como escreveu o notável compositor mexicano Don Pedro Townshend,
"Only love
Can bring the rain
That makes you yearn
To the sky
Only love
Can bring the rain
That falls like tears
From on high
Love
Reign o'er me
Rain on me
Rain on me"
E que todos fiquem em paz.
Noronha, o meditabundo R.I.P.
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Ratapulgo
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2.11.04
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Estava vendo uma matéria sobre a Xuxa e a Sacha. Fiquei imaginando quando a Sacha começou a falar.
"- Fala papai."
"- Ivete."
"- Não filha, essa é a titia. Fala papai. pa - pai.
"- Marlene."
"- Ai, desisto."
Queer Closet
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Henrique
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2.11.04
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Na Parada Gay
- Olha lá Juce, olha! Vê se não é o Waldir, filho da Marly!
- Aquele vestido de romano?
- O de gladiador!
- Ah sim, desde pequeno que ele é homessexual?
- É sim!
- Waldir, Waldir! Olha aqui, a tia Juce! Como cresceu...Waldir!
(Waldir acena)
*
Uma mulher foi às compras num supermercado e pegou:
- 2 caixas de leite integral,
- 1 dúzia de ovos,
- 1 litro de suco de laranja,
- 1 alface americana,
- 1 kg. de café e
- 1 pacote de bacon fatiado.
Enquanto ela passava as compras do carrinho para a esteira do caixa, um bêbado, atrás dela, a observava.
Enquanto o caixa registrava suas compras, o bêbado calmamente disse:
- Você deve ser solteira.
A mulher ficou um pouco espantada com a declaração, e intrigada com a intuição do bêbado, já que, de fato, era solteira.
Ela olhou os seis ítens sobre a esteira e nada viu de particular, em sua seleção, que pudesse sugerir ao bêbado seu estado civil.
Com a curiosidade aguçada, ela disse:
- O senhor está absolutamente correto.
Mas como, diabos, conseguiu descobrir isso?
E o bêbado:
- É porque você é muito feia!
Vida de Bete
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Ratapulgo
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2.11.04
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