18.3.04

Saco cheio

O carro freou no cruzamento, o cavalo subiu por cima do carro, o carroceiro espancou o cavalo, a multidão linchou o carroceiro e eu, olhando, me atrasei.

failbetter.

Imortalidade

Encaro a mortalidade cada vez que encontro a face de meu avô no rosto de meu pai.

Dizem que a descoberta da mortalidade foi uma grande queda. Lendo as declarações de Truffaut, Allen e Borges, parece que a evitar por meio da obra não é aconselhável. O ceguinho dizia mesmo ninguém ter o direito de lembrar-se dos mortos, mas era só frase de efeito.

Dentre todas as formas de buscar a imortalidade, talvez a menos venerada ou romântica seja o acaso, todavia é uma das mais interessantes. Múmias não me interessam, desenhos e esculturas têm sua graça; porém o que mais aprecio são as cartas.

As cartas causam sensações paradoxais: ao mesmo tempo que nos vemos num distante passado, há sempre um elemento cotidiano próximo. Desta síntese sobrevem, invariavelmente, a consciência da mortalidade.

E as correspondências costumam revelar problemas e aflições que jamais saberemos como foram solucionadas, e a dúvida de até que ponto importa.

De qualquer modo, minha sugestão é parar de usar e-mail e começar a talhar cartas em madeira ou pedra: é caro, dá trabalho, porém é um dos meios mais seguros de se atingir a imortalidade.

dies iræ

.

(...) A passo de escoteiro, você consegue chegar ao centro do lugarejo em não mais que deleitáveis vinte e alguns minutos. São duas ruas paralelas, uma cansada de seus paralelepípedos e outra do mesmo barro quase ocre e sempre seco e muito rachado da estrada onde você encontra (fazendo o caminho de volta) a placa pregada na estaca. Entre elas você imaginou que haveria uma praça, mas para seu constrangimento não há praças na cidade. Um observador mais atento em verdade nos diria que não há quase cidade na cidade, mas ele não foi convidado para este quinhão da narrativa.

Garotos de calças curtas brincam nas calçadas que alguém plantou em frente às casas, menos à beira do armazém colorido. Trata-se da única edificação a quebrar a monotonia do centro da cidade, de resto marcada apenas pela geografia acidental de algumas residências. As crianças de Baixo do Ribas têm lábios rachados e narizes que sangram a todo momento, tornando a crostinha vermelho-negra um acessório corriqueiro ao redor de suas narinas. Possuindo apenas duas ruas para seus folguedos, é nada menos que previsível que estas crianças costumem explorar os arredores da urbe. A municipalidade de Baixo do Ribas também é seca, quase ocre e coberta de pó e rachaduras, com exceção de um pequeno bosque de vegetação rasteira e do único lugar no qual os pequenos não são bem-vindos para brincar: a velha pedreira.

A velha pedreira não é uma pedreira. Não existem rochas no perímetro de Baixo do Ribas, a cidade construída, povoada e esquecida ao final de um caminho ressecado protegido pela vertigem de seus barrancos. Se você virasse à esquerda ao fim da rua de paralelepípedos e tivesse a persistência de abrir caminho por entre o bosque de arbustos espinhosos de folhas quebradiças e depois tomasse de novo a sinistra e só então seguisse em linha reta por quase metade de um dia, acabaria chegando à velha pedreira. Tivesse você a felicidade de palmilhar esta via proibida no dia correto e na hora exata, encontraria três crianças – duas garotas de vestidinho de chita, um menino pançudo – descalças, mochilas de lona nas costas e calos curiosos nas mãos, desbravando o único lugar que lhes é vetado em Baixo do Ribas, cidade que, como qualquer lugarejo sem muito contato com as massas civilizatórias, cultiva grande respeito por seus tabus e não costuma dar atenção a porquês.

Mas você não estava lá e nada viu, então leia:

Jamais alguma criança de Baixo do Ribas pisara na velha pedreira. Na verdade, há incontáveis eras nenhuma criatura de qualquer idade ou espécie encostava o pé ou a pata ou o exoesqueleto ou qualquer parte do corpo dentro de seus limites, nem ao menos para tentar entender como um lugar poderia ser chamado de pedreira em uma região carente de rochas. Até os fabulosos besouros quadricórneos, onipresentes na região, receavam chegar muito perto dela, assim como as já extintas serpentes emplumadas. A primazia dessa exploração coube a Evita, Lili e Adinho, que de posse de seus óculos de natação – para proteger os olhinhos da poeira penetrante – e de um extenso cabedal de ferramentas – para impedir qualquer intransponível surpresa – ingressam na velha pedreira e caminham com muito gosto, algum temor e considerável excitação por seu território. A velha pedreira:

Um espaço quase circular em sua perfeição, se observado de uma altura aproximada de nove mil pés. Para os que estão no solo, apenas um descampado muito amplo, destacando-se do restante de Baixo do Ribas por seu solo muito fofo e de um tom definitivamente diverso de qualquer coisa que lembre o ocre. A cada passo, as crianças deleitam-se com o tato da superfície quase movediça nos cascos de suas solas. Mesmo ainda não tendo sido convidado para esta narrativa, o observador mais atento ressurge para nos revelar que este solo é composto de minúsculos fragmentos de rocha, mais exatamente de todas – todinhas! – as rochas que um dia existiram na região. Reduzidas a minúsculos grãos de poeira macia quase esbranquiçada, foram determinada tarde reunidas em círculo pelos zelosos Gigantes de Muito Antanho, à guisa de cemitério. As três crianças abrem as banguelas quando, sem precisar espichar muito as orelhas, escutam o ruído que o solo peneirado da pedreira faz ao ser compactado pelo peso de seus corpos. Entre latido e lamento, tão áspero quanto agradável, é impossível ignorá-lo enquanto continuam a deixar pegadas macias e inegáveis atrás de si. Assim que chegam ao ponto que consiste no exato centro da circunferência da velha pedreira, Lili estica os braços para o alto de modo a reduzir a tensão em seu esqueletinho e anuncia:

Lanchinho!

(...)

failbetter.

Notas do Cientista

A Cobaia exibe 3 personalidades distintas, cada uma observada cuidadosamente através de 3 mensagens consecutivas deixadas no celular do Cientista.

Mensagem #1: A Cobaia tenta parecer indiferente e despreocupado com a falta de ligações do Cientista:

*piii*
Oi João, aqui é o *meu ex*. Só queria saber como vc está. Se puder, me dá ligada. Beijo.
*click*


Mensagem #2: A Cobaia finalmente desmonstra sua frustração ao Cientista:

*piii*
Joãooooo... vc vai me ligar ou não? Me liga aí, se quiser.
*click*


Mensagem #3: A Cobaia começa a mensagem notavelmente irritada. Então, prossegue simulando melancolia, na esperança que o Cientista seja facilmente manipulado a sentir-se a pior pessoa do mundo. O Cientista, a seguir, percebe o hábito da Cobaia de tentar sempre passar-se por vítima:

*piii*
JOÃO. Terça-feira. Me liga. Eu não sei porque vc está me evitando. Eu simplesmente... não sei por que... vc me liga, diz que ainda pensa em mim... e depois me evita... Poxa, me liga.
*click*

Mais tarde, o Cientista pensa, enquanto escreve em seu blog, que talvez esse caso particular de tentar evitar o ex, simplesmente signifique que o Cientista desenvolveu uma vida nova fora do laboratório, e não é mais tão completamente fascinado pela Cobaia.

Apesar de que, o Cientista também nota que ele foi tornando-se menos objetivo durante a experiência, e na verdade, acabou criando um pequeno ressurgimento dos sentimentos que sentia pela Cobaia nas profundezas obscuras do seu coração.

O Cientista sente vergonha. Mas nada irá impedi-lo de continuar seus estudos, na esperança de achar um jeito de esquecer a Cobaia. E isso é uma puta mentira, porque a verdade é que a Cobaia é o único cara com que o Cientista quer transar.

Pilo

17.3.04

Sob as Pelancas Viris de Marlene Mattos...

Não sendo do Rio, queria falar mal do Rio. Mencionar os chiados cariocas que lançam perdigotos nos meus olhos abertos e inocentes de paulista. A preguiça, a vagabundagem, o eterno arrastar de chinelos sobre as pedras portuguesas nas calçadas, em frente a lojas caras demais. Mas eu ando arrastando o chinelo, eu adoro isso; e acho que uma certa preguiça é uma coisa boa, porque a preguiça anula os outros pecados todos. Deus sabe como eu seria vítima da luxúria, da ira e do orgulho se não preferisse tirar sonecas. Assim muitos cariocas são capazes de ir para o céu porque foram virtuosos por preguiça. E não vou reclamar do sotaque dos cariocas, ou pelo menos não muito – porque numa mulher sexy até um sotaque atroz fica bem.

Como eu adoro o Rio. Certo, levo um susto cada vez que ouço funk carioca saindo do carro ao lado – by Jove, isso é o ponto mais baixo do espírito humano, seguido de perto do infomercial e dos diálogos das novelas. Das janelas dos carros importados no Rio, por escolha de jovens de classe média alta que evidentemente tomam muito leite, sai o equivalente musical do cheiro de carniça que vem às vezes quando estamos correndo na Lagoa e passamos perto de um cachorro atropelado sob o sol. Mas será o funk carioca assim tão pior do que a música das classes baixas de São Paulo? É menos choroso, menos patético, menos bundão.

E as livrarias de Ipanema – Travessa, Travessinha, Letras e Expressões – gosto tanto delas que queria ser enterrado ali (contanto que não fosse na seção de livros da Conrad. Aí também não). Mais perto dos livres de poche, mais perto da biografia de Balthus. Enterrado de bermuda, camisa polo, chinelos. Debaixo do chão eu abriria os olhos cada vez que chegasse um carregamento de livros novos, eu ficaria feliz. E que ângulo para ver certas mulheres de saia.

Muitas das coisas que senti na vida, nunca fui capaz de escrever sobre. A sensação de estar no lobby do Hotel Tivoli em Lisboa, quando eu era criança – o mármore, os jornais de vários países, os cheiros de charutos e cachimbos e perfumes – aquela sensação de cosmopolitismo sobre a qual Mário de Sá Carneiro passou a vida toda tentando escrever. Homens em ternos creme falando em turco. Uma família, quatro filhas, falando alemão. Eu, sentado numa cadeira de vime lendo Lovecraft, observando tudo.

A sensação, aos vinte anos, chegado na véspera a Paris, de estar no Louvre olhando um armário com peças de porcelana, e ver no vidro do armário o reflexo de um rio verde-azulado que corria - e perceber que aquilo era o Sena, e me virar para trás para ver o Sena pela primeira vez. A sensação de estar dentro dos Invalides, vendo o túmulo de Napoleão no interior da cúpula, e sentir uma ambição incontrolável (como Balzac) de ser o Napoleão das letras - de ter merecido, ao morrer, ser enterrado com pompa igual. Exceto que fui pagar a entrada e não vi que havia uma divisória de plástico, paaam, bati a cabeça na divisória, para a diversão de turistas guatemaltecos e do cobrador senegalês, o maldito.

E também queria escrever sobre a sensação de estar na Urca, no banco de passageiro do carro de um amigo, e chegar na avenida Portugal e subitamente (é subitamente) ver a enseada sob o sol, e os barcos.

Alexandre Soares Silva

Oh, glória!

Como diz Gonzagão em Estrada do Canindé, tem coisas que pra mode ver o cristão tem que andar a pé. Agora mesmo eu estava vindo lá do terminal Aê, Carvalho!, andando sem pressa, praticamente pedindo para ser assaltado. Eis que chega a meus ouvidos uma voz meio estridente, falando muito rápido coisas ininteligíveis. Parecia narração de jogo de futebol numa estação AM mal sintonizada. Mas não, era algo mais interessante: vinha de uma Igreja Universal do Reino de Deus do outro lado da avenida (não é o Reino de Deus que fica do outro lado da avenida, é a igreja). Parei, considerei a pressa que tinha de chegar em casa (para tomar limonada), atravessei a rua e entrei no templo de São Edir.
A cena que vi foi das mais intrigantes: os fiéis haviam formado uma fila, que serpenteava entre os bancos. Lá na frente, identifiquei o dono da voz estridente: um "pastor" (minha formação batista me impede de chamar de pastor alguém que nunca pisou sequer numa faculdade de Teologia) que segurava o microfone com a mão esquerda enquanto abençoava os fiéis enfileirados com a direita. E era jogo rápido, quem olhasse de repente poderia pensar que ele dava tapas na cabeça das pessoas. A fila andava, ele botava a mão na cabeça de cada um, e ia repetindo sua cantilena acelerada: "SAI DA VIDA DESSA PESSOA! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DO CASAMENTO DESSA PESSOA! SAI, ESPÍRITO DO MAL! SAI, MALDIÇÃO! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DA FILHA DESSA MULHER! DA LOJA DESSE HOMEM! SAI, PRAGA! ESSA PESSOA QUE TEM INSÔNIA! ESSA MULHER QUE TEM ENXAQUECA! ESSE HOMEM COM PROBLEMA NA COLUNA! EU ESTOU DANDO UMA ORDEM: SAI!".
Ia assim, sem parar por um segundo. E o mais curioso: depois de passarem pela bênção do "pastor", as pessoas sumiam! É sério: a fila era grande, mas eu não vi ninguém voltar para os bancos, talvez com uma expressão de alívio espiritual na face. Sei não, sei não... Imagino que, logo depois de onde o homem gritava, existia um alçapão onde as pessoas iam caindo e sendo devoradas por crocodilos. Bela maneira de evitar conversas constrangedoras depois, tais como "Ué, mas eu nem sou casado", ou "Filha? Que filha?", ou "Eu nunca fui comerciante, meu Deus!". Pensei em averiguar, mas o homem gritou "SAI, PRAGA!" umas três vezes seguidas. Achei melhor obedecer, e fui embora.

Jesus, me chicoteia!

Ando permeada de fragilidades e delicadezas, bordada nos olhos da menina que povoa minhas inseguranças. O mundo tem emulado um quarto escuro cheio de incertezas e fito a porta rezando confusa uma oração onde peço resgate, onde peço um abraço de aconchego e calma. Desaprendi meus trinta e poucos anos e estranho este grande corpo que o tempo me trouxe. Por dentro me reconheço impúbere, miúda e pouca e tenho medo dos estalidos da casa. Se chover amanhã, invento doença e fico na cama e faço de conta que se chamar mãe, ela vem. A nenhuma menina poderia ser permitido ficar sozinha em dias de fragilidades e delicadezas como este.

Não Discuto

Pois é... incoerências à parte, meus dias correm em seus trilhos. Tudo funciona bem e loucas são as coisas que fervem na minha cabeça, no meu corpo, é uma sopa. De letrinhas, ainda que dadaístas.
Ah sim. Hoje fumei narguilé em plena aula. Como eu não fumasse nem corretamente e nem muito, os alunos ficaram tontos, menos eu. Estou lendo "Le Petit Nicolas" e meu texto aos poucos se contaminará daquela linguagem hilariamente infantil, e eu já logo penso em fazer traquinagens na classe, mesmo sendo eu a professora.
Hoje também comi nachos com chili no Mustang Sally, que é um bar cheio de curitibanos. Não que não devesse haver curitibanos em Curitiba, mas é que lá há demais. Mas vi uma celebridade por lá, que é aquele cara que chegou ao topo do Everest, o... bem, ele tem uma pizzaria por aqui.
As it doesn't make sense, I'll give up and go to bed.

A Moveable Feast

16.3.04

DA INFÂNCIA GIGANTESCA

Adotei um cãozinho. Devia eu ter uns 8 anos de idade. Estava brincando de playmobil na rua quando vi aquela graciosa criatura andando pela calçada. Era um cão fila, com coleira. Fugira de uma casa qualquer. Devia pesar 5 arrobas e ter dois metros de altura. Gigante. Não tive dúvidas: fiquei amigo do puppydog e arrastei-o para casa. Ele era meu amigão. Dei água e presunto com queijo para o bichano comer. Quando meus pais chegaram e acharam aquele cavalo no gramado de casa, assustaram-se. O cãozinho assustou-se também.

Mais de meia hora para acalmar os ânimos dos pais e do pequenino animal.

Dias depois o dono achou-o comigo. Levou embora o Remelento — nome que eu escolhera com tanto afinco.


VIZINHOS

Meus vizinhos da esquerda chamavam-se Hiroshi Schubert e Satoshi Mozart. Dois gênios de maquinários e traquitanas Hering-Rast. Eles tomavam nescau com água, lavavam — literalmente — dinheiro, trocavam carpas vivas por frutas diversas, tinham fixação por subir em árvores, dois Moglis, sim. Ensinaram-me a contar de 1 a 10 em japonês. Aprendi a responder minha mãe quando me chamava, usando um "Hi". Escalada solo com aqueles dois, pular muros e desenhar mangás zóiudos. "Quanto maior o olho, mais alma sua personagem terá".

Eram dois irmãos meus. Muito da minha personalidade, dali.

Mudaram, mudamos. Cada um para um canto diferente.

E o tempo deixou-nos assim, sem saber qual o destino brilhante de cada um.

ÓPIO

15.3.04

GRANDE APERTO, O FIM DA FELICIDADE & OUTROS FILMES DEFEITUOSOS

Saio do banheiro e sento-me aqui, diante do computador. Começo a escrever este texto, enquanto a chuva parece atravessar o vidro da janela, além do cinza do dia que se espicha lá fora. Você talvez tenha saído da cozinha, onde desligou o fogo e encheu uma xícara de café, e agora sentou-se diante do seu computador e está lendo este texto no meu blogue. Seus dedos longos desistem da havaiana azul (ou verde?) e pisam os tacos frios, depois dos lábios tocarem a borda quente da louça do café. Há uma mancha no canto de sua boca. Você olha pra janela (há uma janela?) no mesmo momento que também olho, depois de pensar um pouco, e, afinal, colocar uma enfermeira neste texto. Ela cuida dum senhor muito velhinho e gentil que está prestes a morrer, mas tem em mente apenas o filhotinho de beagle, e imagina as estrepolias que o cãozinho faz, sozinho em casa, e sorri. O velhinho também sorri pra ela, feliz por ela ter sorrido pra ele, enquanto neste exato instante o cachorro vira seu prato de leite e você derruba sua xícara e também sorri. Enquanto o café se esparrama por sua escrivaninha, eu também sorrio. A chuva diminui e o dia ganha dimensões mais luminosas por isto. A enfermeira recolhe seus utensílios, despede-se do paciente idoso e atravessa o corredor do hospital. Eu penso para onde ela poderia ir, enquanto você pensa que um filhotinho de beagle talvez diminuísse a sua solidão. Eu hesito em escrever a palavra solidão aqui, pois eu não acredito na solidão. Eu não quero começar a pensar agora, isto certamente

HOTEL HELL

atrapalhará a escritura deste texto e assim nunca saberemos onde a enfermeira pôde chegar, se ela voltou para casa e se sentiu feliz por estar com seu cãozinho e se o velhinho ficou triste por estar só e morreu de madrugada, olhando a chuva tocar na janela do hospital com seus dedos de granizo uma melodia líquida. Eu não quero pensar em outras coisas, mas é inevitável, e penso em Michel. Penso no quanto devo estar chateando-o, com meus atrasos no trabalho. Ouço um grito do Pernalonga, vindo da tevê na sala: a minha filha diz algo impossível ao Pernalonga no exato momento em que o cãozinho lambe uma lágrima no rosto da enfermeira. Os pensamentos todos sobre a sua solidão, a minha solidão, a solidão de minha filha e a solidão de seus pernalongas imaginários atrapalham o desenvolvimento deste texto, que certamente não terá fim. Você levanta-se, para além deste texto, para fora deste blogue, e coloca This Years Love para ouvir. O piano de David Grey e sua voz rascante fazem com você e com o dia algo semelhante ao que o cãozinho faz com a enfermeira. O fato de eu ter começado a pensar e ter interrompido este texto me deixa mais confuso ainda e eu penso em como tenho me sentido confuso, em como tenho me sentido só, mesmo quando acompanhado por uma turma de setenta alunos, e penso que alguma coisa deve estar por acontecer, pois há muito tempo não tinha a consciência de estar só. A enfermeira trança seus dedos no pêlo do cãozinho, minha filha abraça seu cobertor deitada no sofá, você veste suas calças pensando em mim, no cãozinho, David Grey solta um vibrato rouco, Michel desiste de esperar o meu telefonema, o velhinho ruma para sua felicidade escura e o dia começa, em um outro dia, em um outro dia. Em um outro dia.

HOTEL HELL

Acho que preciso de internação. Acordei com três músicas bombando ao mesmo tempo na cabeça: um jingle do Eymael + Dercy Gonçalves cantando "mando bala, meto bala, lasco bala" + um jingle do Janio Quadros. Tudo ao mesmo tempo. E olha que não mexo nos meus arquivos sonoros há tempos. Uma camisa-de-força, por favor? Tem de manga curta?

¢AtaRrO vE®De

Minha idéia para por a democracia em prática no Brasil é fazer o próximo Big Brother em Brasília. Imagine câmeras plantadas 24 horas por dia no congresso, senado, gabinetes e salas de reunião. Bem mais emocionante que o BBB atual, não. Teria menos caras fortões e mulheres saradas, mas haveria muito mais intrigas e emoção. O Pedro Bial proporia tarefas — fazer reforma agrária, melhorar o sistema de saúde, acabar com a fome, sei lá — e quem fosse vencedor poderia ser o líder temporariamente. E as votações semanais do público eliminariam aqueles que não tivessem bom desempenho.

Acho que assim Lula se esforçaria bem mais para justificar seu título de líder e o Palocci talvez não durasse tanto no cargo.

Chez Nigro's

Outro dia esteve aqui um priminho meu, moleque do alto de seus cinco anos de idade. Quando viu minha coleção de vinis na estante, me perguntou:

- Tio, onde você comprou esses CDzões gigantes?

Ai minhas costas.

Pensar Enlouquece. Pense Nisto. - versão 2.0

13.3.04

Algo já esperado

- Finalmente apareceu. Eu ia ter perguntar sobre fogos de artifício, mas deixa pra lá.
- Porque, não gosta deles?
- Não. Gosto de coisas de menina. Fogos de artifício me dão medo. Me fazem chorar feito um coelho.
- Coelhos choram?
- Você é sempre tão engraçado?
- Só quando ando com meninas bonitas.
- Ok, não vou estragar seu elogio.
- Está bem assim. Estou fazendo piadas do seu lado. Isso podia ser mais engraçado, você podia ajudar, que tal?
- Fique feliz que não estou estragando tudo. E porque você não está na balada com seus amigos?
- Pessoas felizes me deprimem. Pessoas bêbadas e felizes me dão vontade de cortar os pulsos.
- Você me faz feliz. Isso é deprimente?
- Não. É só uma boa ação. Se eu morrer esta noite e não for pro céu, vou ficar muito puto.
- Ei, vamos pra casa. Está começando a chover.

Às vezes, somente com um evento externo o contador de histórias pode achar o final mais apropriado para o seu conto. Então, tudo que for constante e esperado - como a morte, a chuva e o inverno - pode ser usado como fim. Isso nos lembra que, embora não pareça, é da natureza humana agir contra o inevitável.

Chicken Dog

11.3.04

Hoje e aquele dia

Não faço idéia do porquê, na verdade o melhor é nem tentar relacionar uma coisa às outras porque elas não têm rigorosamente nada a ver, mas depois do almoço de hoje, quando me dei conta do quanto a tarde estava bonita e de que não vai chover de jeito nenhum pelos próximos dias e que, graças a Deus, ninguém querido está prestes a ir embora de lugar algum por agora, nesse exato momento me lembrei daquele dia passado, o dia em que ela chegou lá em casa contando o caso do menino de quem arrancara um dente de leite.

O caso era assim: ela arrancou o dente do menino e pôs o pedacinho branco dentro do bolso da sua camisa de uniforme dizendo que o colocasse debaixo do travesseiro durante a noite e fizesse um pedido. Aí, no dia seguinte, o menino voltou pra escola com o dente exatamente naquele mesmo bolso e disse professora, minha mãe ficou muito brava com a senhora, mandou colocar meu dente de volta no lugar!

Enquanto dizia essa frase assim, em vivo e concreto discurso direto, não parava de gargalhar. Eu, que tinha lá pelos meus sete anos de idade na época mas me lembro de tudo como se fosse hoje, fiquei muito espantada com aquela gargalhada sem fim e, na minha cabeça de menina, vi naquilo tudo ares muito cruéis, brutos, atrozes, maus.

Passei vários dos dias que se seguiram àquele entregue a elucubrações mirabolantes: Será que ela é má? Será que vai ficar arrancando meus dentes assim também a vida toda? Será que as mães dos alunos odeiam tudo o que ela faz? Ai, será que ela é a professora mais malvada da cidade? Foram mil invenções e interrogações alimentando meus temores de menina até que, nessa mesma época, ela começou a me levar pra escola em que dava aulas.

Então conheci o tal menino banguela, brinquei com todos os seus alunos, merendei sopa sentada naquele banco gelado de alvenaria de escola pública. Ela me ofereceu giz pra brincar naquele quadro gigante, me deixou fazer dupla com alunos que estavam sozinhos pra fazer trabalhos, me deixou brincar de elástico com as meninas no recreio. Não sei, pode ser imaginação, mas acho que foi com essas idas à escola dela que os tais temores de menina passaram, porque desde então parei de pensar na possível malvadeza da minha mãe ou em dentes de leite sendo arrancados à revelia de crianças e suas mães.

Bom, é isso. É isso e, por incrível que pareça, hoje não quero chegar a lugar nenhum, pra mim está ótimo ir dormir tendo alcançado apenas esse conjunto de fatos, o que eu queria de verdade era só dizer em algum lugar que foi muito bom ter lembrado disso tudo do nada, muito bom mesmo, então pronto: está dito.

Da Estrangeiridade

regras de conduta no ambiente de trabalho (recebi do meu pai, hoje)

NOVAS REGRAS E CONDUTAS DE TRABALHO

INDUMENTÁRIA:

Informamos que o funcionário deverá trabalhar vestido de acordo com o seu Salário. Se o percebermos calçando um tênis Prada de $350 e carregando uma bolsa Gucci de $600, presumiremos que vai bem de finanças e, portanto, não precisa de aumento. Se ele se vestir de forma pobre, será um sinal de que precisa aprender a controlar melhor o seu dinheiro para que possa comprar roupas melhores e, portanto, não precisa de aumento. E se ele se vestir no meio termo, estará perfeito e, portanto, não precisa de aumento.

AUSÊNCIA DEVIDO À ENFERMIDADE:

Não vamos mais aceitar uma carta do médico como prova de enfermidade. Se o funcionário tem condições de ir até o consultório médico, pode vir trabalhar.

CIRURGIA:

As cirurgias são proibidas. Enquanto o funcionário trabalhar nesta empresa, precisará de todos os seus órgãos, portanto, não deve pensar em remover nada. Nós o contratamos inteiro. Remover algo constitui quebra de contrato.

AUSÊNCIAS DEVIDO A MOTIVOS PESSOAIS:

Cada funcionário receberá 104 dias para assuntos pessoais a cada ano. Chamam-se sábado e domingo.

FÉRIAS:

Todos os funcionários deverão entrar em férias nos mesmos dias de cada ano. Os dias de férias são: 01 de janeiro, 07 de setembro e 25 de dezembro.

AUSÊNCIA DEVIDO AO FALECIMENTO DE ENTE QUERIDO:

Esta não é uma justificativa para perder um dia de trabalho. Não há nada que se possa fazer pelos amigos, parentes ou colegas de trabalho falecidos. Todo esforço deverá ser empenhado para que não-funcionários cuidem dos detalhes. Nos casos raros, onde o envolvimento do funcionário é necessário, o enterro deverá ser marcado para o final da tarde. Teremos prazer em permitir que o funcionário trabalhe durante o horário do almoço e, daí, sair uma hora mais cedo, desde que o seu trabalho esteja em dia.

AUSÊNCIA DEVIDO À SUA PRÓPRIA MORTE:

Isto será aceito como desculpa. Entretanto, exigimos pelo menos 15 dias de aviso prévio, visto que cabe ao funcionário treinar o seu substituto.

O USO DO WC:

Os funcionários estão passando tempo demais no toalete. No futuro, seguiremos o sistema de ordem alfabética. Por exemplo, todos os funcionários cujos nomes começam com a letra 'A' irão entre 8:00 e 8:20, aqueles com a letra 'B' entre 8:20 e 8:40, etc. Se não puder ir na hora designada, será preciso esperar a sua vez, no dia seguinte. Em caso de emergência, os funcionários poderão trocar o seu horário com um colega. Ambos os supervisores do funcionário deverão aprovar essa troca, por escrito.

Adicionalmente, agora há um limite estritamente máximo de 3 minutos no box. Acabando esses 3 minutos, um alarme irá tocar, o rolo de papel higiênico será recolhido, a porta do box abrirá e uma foto será tirada. Se for repetente, a foto será fixada no quadro de avisos da empresa sob o título "Infrator Crônico".

A HORA DO ALMOÇO:

Os magros têm 30 minutos para o almoço, porque precisam comer mais para parecerem saudáveis. As pessoas de tamanho normal têm 15 minutos para comer uma refeição balanceada que sustente o seu corpo mediano. Os gordos têm 5 minutos, porque é tudo que precisam para tomar um "Slim Fast" e um remédio de regime.

Muito obrigado pela sua fidelidade à nossa empresa.

Estamos aqui para proporcionar uma experiência empregatícia positiva. Portanto, toda dúvida, comentário, preocupação, reclamação, frustração, irritação, agravo, insinuação, alegação, acusação, observação, consternação e "input" deverá ser dirigida para qualquer outro lugar.

Tenham uma boa semana.

A Gerência

perolada

10.3.04

Ele evita fotos. Evita fotos porque ela está muito longe, sempre esteve longe. E olhar uma foto, além da dor de ver a foto, tem a dor da nostalgia do tempo em que via as fotos sem medo, do tempo em que não calculava as tristezas e as euforias que lhe agitavam o espírito. Toma hoje mais cuidado. Mas resultados não parecem ter surgido muito claros.

Quanto a cartas, evita-as um pouco, foge menos. Que elas torturam muito pouco de cada vez, não dói na mesma hora e só se descobre que se foi ferido conforme o tempo haja passado. Descansam na estante, umas sobre as outras e também espalhadas. Às vezes muitas páginas, em que aparece comedida a expressão, mas latentes as idéias indizíveis, como latentes as idéias indizíveis nas outras onde se multiplicam as páginas e se oferece o coração em palavras muitas e de reflexões.

E as tais sensações que não se dizem o encobrem de tantos ditos, de tanto que dizem, e tanto que dizem, e de tanta ansiedade em que o afogam por serem suas falas sem palavras, que ele deseja uma palavra – mas não há quem a diga. Quem a diria está distante, prisioneira do ar, presa na fotografia, escrava do oceano, refém dos caprichos geográficos, latente quanto a idéias indizíveis e amorosa nas palavras. E esta palavra é possível que não seja palavra, pode ser discurso, pode ser aceno, olhar ou convite: contemplemos este mar entre terras; que não saibamos haver terras, mas apenas terra; que estejamos no mesmo lado, e que tudo seja agora dizível neste lado, libertos agora do papel das fotografias, do papel das palavras.

E assim conseguiremos, entre tantas outras coisas, a felicidade de respirar.

O Mercador de Seda

Minha vida no sertão

Pense nisso. Um calor de 40 graus à sombra. Você sai do trabalho, daquele ar-condicionado polar e vai almoçar na rua. Meio-dia. Seus miolos cozinham, seus sapatos derretem. Para piorar, ainda trabalho no local mais quente de toda a cidade. Nem vontade de comer você tem, tudo que você deseja é uma água bem gelada. Pena que não dá para jogar na cabeça. E aí fica nesse entra e sai, gelado, fervendo. Quando está em casa fica tomando um banho atrás do outro. Basta experimentar uma camisa para inutilizá-la. Fica parado de frente para o ventilador sem vontade de se mexer. De noite, a cama é uma frigideira. Você rola, rola e não consegue dormir. A água nem gela na geladeira porque você não pára de beber. E o termômetro da cozinha lá... bombando!

Compro chateau de inverno no Senegal.

Pirão sem Dono

Sem nunca abandonar o humor, traço de toda a sua obra, Prata falou ao Elas por Elas:

(...)

Qual a maior diferença entre homens e mulheres?

A única diferença é que os homens existem há séculos. E a mulher há apenas uns 50 anos. Mas veja só o que elas já fizeram em meio século!!!


Você acredita que há uma natueza feminina (e outra masculina)? Ou tudo é uma questão de cultura?

A verdade é que nenhum deles presta. Nem os homens, nem as mulheres. Se pelo menos uma das facções funcionasse, convencia a outra e o mundo seria maravilhoso. O problema é que as mulheres e os homens desconfiam. Por isso que existem os advogados. Os advogados são a prova de que não se pode confiar em ninguém.


Hoje é o Dia da Mulher. Você acha essa data necessária?

Não. Nivela a mulher a contador, indio, secretária, sogro... Ou seja, este negócio de "dia de alguma coisa" foi inventado para agradar as minorias...Todo "dia de alguma coisa" é pior que aniversário, em que as pessoas se obrigam a nos dar e a gente a receber e dizer "não precisava". Aliás, tem coisa pior ainda: Natal e carnaval. Acho que os dois deveriam ser iguais a copa do mundo: só de quatro em quatro anos.

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