20.4.04

Estava no saguão do prédio esperando o elevador, eu tinha uns 5 anos. Chegaram dois garotos que deviam ter a idade que eu tenho hoje, falaram de trauma. Um deles já tinha se encontrado com a porta de vidro daquele saguão, de bicicleta, e se cortado todo. Mostrou uma cicatriz no braço e outra na perna, apertou o botão do elevador e ficou esperando como eu. Foi nesse dia que eu aprendi o significado da palavra "trauma". Tive medo do trauma.

Sempre achei que eu era uma pessoa sem traumas, bem resolvido. Eu penso reto, simplifico as coisas e tudo parece até ser fácil... E os outros parecem pensar que eu tenho soluções. Eu só observo os ombros das meninas que vêm de camiseta reluzindo as lâmpadas frias da sala de aula. Meus ombros não andam erguidos, meus traumas devem estar tão intrínsecos que não consigo detectá-los. Não consigo dizer de onde os meus medos vêm.

Eu só encontro esse som que vem e me amarra por dentro, me carrega, me faz voar, cair no mar e me afogar, subir à tona secar na superfície do sol, queimar, congelar. E eu estou dentro de casa. Estou aqui querendo estar longe. Eu quero ir para longe, quero trocar alguns amigos, quero deixar de gostar de algumas pessoas. Gostaria de parar de discriminar os feios e acreditar na honestidade das meninas dos ombros bonitos, me sentir feliz assim e fazer uma serenata.

Para no dia seguinte acordar e encontrar as penas do travesseiro ao meu lado... E vem esse som que minha cabeça-rádio capta no ar e tenho medo de passar todas as minhas tardes assim... Preciso alcançar o coelho nas luzes do carro. Andar a pé na areia da práia, numa tempestade, de madrugada, ao lado de alguém. Minha respiração... já está... ficando... devagar... denovo.


Reticências de Um Poeta Morto

Nenhum comentário: