21.7.04

Confissões do Serjones pirralho

Não sei se esta merda vai dar uma série, mas vamulá. Quando eu era muito pequeno, primeira série, meus pais me entregaram aos cuidados de uma professora pra me levar todos os dias à aula. Eles não podiam me levar, e essa mulher morava perto de casa. Não sabiam, mas a vaca me fazia carregar os cadernos de toda a turma, que ela trazia pra corrigir. Uns 40 cadernos. Até pegar o ônibus para a escola, tinha uma ladeira fudida, e ela me repetia "respira pelo nariz e solta pela boca!" Te juro por Deus, pra carregar o peso daqueles cadernos eu respirava até pelo cu. Mais: aquela professora tinha me recebido na primeira aula com uma saudação inesquecível: dois tapas na cara, depois de me encurralar na parede por uma safadeza que eu não tinha cometido. Mas o pior era ouvir a filha dela cantando, enquanto eu esperava o momento de seguir carregando os cadernos com a velha: "Eu amo a letra S/por ela tenho paixão/com ela escrevo Sergio/Serginho do meu coração".
***
Quando eu era molequinho, gostava de espiar a empregada tomando banho. Ficava de tocaia.
Quando ouvia o barulho do chuveiro, colava o olho no buraco da fechadura. Ver aquela buceta peluda fazia meu coração disparar feito um cavalo árabe. Era um banheiro de empregada, pequeno como todos eles, e a moça apoiava o pé na privada para ensaboar a coxa e a xana. Eu ficava paralisado. Até que um dia, com meu olho grudado ali, sabe o que eu vejo? Outro olho grudado ali. Só que do lado de dentro. Eu não soube e nunca vou saber como ela descobriu. Nunca fiz nenhum barulhinho! Só me lembro do olho me olhando e da pergunta que veio: "o que cê tá fazendo aí?" Naquela idade, não tive resposta. Nem era o caso de responder. Saí correndo e me escondi, adivinhando o esporro da minha mãe e do meu pai. O da minha mãe veio mesmo. Pesado. Meu pai só fez uma pergunta básica, pra cumprir tabela. Deve ter pensado "o moleque é macho". A empregada tinha um namorado japa lutador de karatê, e eu passei semanas com medo dele saber. Vou te contar. O susto foi tão grande que até hoje eu sonho com aquele olho me olhando. Com a buceta peluda, nunca sonhei. Tudo bem. Eu só não quero é sonhar com o japa do karatê.

catarro verde

Por que não posso falar mal dos cegos?

"Mas ele é cego!"

Sim, eu sei; por isso que não gosto dele. Não gosto de cegos, são um estorvo. Dizem que é maldade de minha parte, mas sigo com minhas piadas e insinuações maléficas -- não consigo respeitar um ser guiado por um cachorro, menos funcional que um cão bichento qualquer. Ojeriza; e proporcional tanto à sofisticação da alva bengala, quando à estupidez do motivo por que perderam a visão, ou à raça do animal.

"Mas ele é cego!"

Deficiente visual. Você não fala mal da amiga que engordou três quilos? Do vizinho que não faz a barba? Da conhecida que abortou? De qualquer outra mesquinharia? Prescindo de seus conselhos e admiração; deixe-me amolar meus cegos em paz; aproveite e fofoque a meu respeito pelo telefone...

Admito que falo mal dos cegos por capricho, que poderia falar mal de outras categorias, talvez mais perniciosas ou meritórias, e que nunca perdi um emprego devido a cotas para cegos -- quem me dera --, porém nada posso fazer, também é questão de costume.

Minha infância inteira foi defronte a uma associação de cegos. Havia também as senhoras em cadeiras de roda, mas elas me ofertavam doces. Os cegos só me davam trabalho. E um deles era alemão.

A cegueira é o mal típico da raça ariana. Não que haja mais cegos em nossa piscina genética que em qualquer outra, porém não há povo obstinado, cabeça-dura e pertinaz como o nosso. Não é uma boa combinação.

O alemão foi atropelado pelo menos duas vezes, uma à minha frente. Não aceitava ajuda, considerava-se uma mago da contagem e da audição. Era a piada do bairro. Fingia que não sabia, desprezava-nos. Deve ter morrido na terceira.

Mas se falo deste alemão, não é só por capricho ou costume, mas porque foi o desprezando que me converti num igual. Tudo que tenho devo a este cego, e portanto nada mais natural que continuar a agredi-lo anos após a sua passagem.

E se por isso me disserem mau caráter, com um rascunho de riso no canto da boca, dir-lhes-ei o que penso da bondade hodierna: nunca tantos amaram outros tantos por tão pouco. Churchill, traga meus charutos!

sinfonia em dies iræ

20.7.04

Mulheres

Madrugada, muito longe do meu mundo, assisti numa fita velha e de péssima definição "Esse estranho que nós amamos". Lembram desse filme? O Clint é um soldado, que, durante a Guerra Civil Americana é acolhido num colégio feminino, e escondido pelas mulheres do colégio. Quando ele ameaça a harmonia do grupo, ou melhor, não a harmonia, a dinâmica meio doente do grupo, elas o matam. A psicóloga e antropóloga que assistiu comigo me disse que funciona assim: se um elemento que exerce atração, mas traz algum tipo de discórdia entra num grupo só de homens, hipotética, figurativa ou literalmente, os homens vão se anulando, seja lá como for, até sobrar só um, que fica com o elemento pra ele. Se isso acontece num grupo só de mulheres, elas se unem, mesmo que se odeiem, e anulam, seja lá como for, o invasor. Passei boa parte da noite de olhos abertos na cama, pensando nisso.

Drops da Fal

19.7.04

Intimidade

2001:
Ele abre a porta do carro para ela:
- Milady.
Ela, toda lisonjeada, pisca pra ele, delicadamente entra no carro, e sussurra com doçura:
- Milord...


2004:
Eles descem a escada, ela na frente. Ele carinhosamente flerta:
- E esse bundão, heim!!!
Ela, toda lisonjeada, olha pra trás de canto de olho, pisca para ele, e afirma com doçura:
- É. Meu namorado...

acontece contigo e comigo

Meu editor imaginário sugeriu que eu escrevesse um livro sobre dieta. Tá na moda, ele disse, todo mundo quer saber de dietas, tem essa tal Dieta de South Beach, dieta da Idade Verdadeira, Dieta Disso, Dieta Daquilo, ele disse, e se você conseguir colocar algum detalhezinho esotérico, melhor ainda, ele disse, as pessoas gostam desses negócios esotéricos.

Eu até tenho um histórico com esses livros de saúde, desde que lancei "A Cura Através da Cabeçada na Parede". Na ocasião, as chamadas "entidades médicas" tentaram me prender. Felizmente, esses que se denominam "médicos" não conseguiram provar que a minha técnica não funcionava.

Mas, enfim, eu estava falando do meu livro de dieta. Seguindo a orientação do meu editor, decidi escrever "A Dieta da Porcelana". São sete dias se alimentando apenas de porcelana. Recomenda-se lavar a louça antes de comer.

O que falta agora é testar. Preciso de algum voluntário. De preferência, alguém que pareça um gnomo, que é pra dar esse ar esotérico que o meu editor pediu.

Ê Vida mais ou menos

15.7.04

se você é uma daquelas pessoas que quando vão ao cinema fazem "shhhhh" assim que acabam os trailers, logo na primeira letra do primeiro crédito que aparece na tela, saiba que eu odeio você. e se você é um daqueles que ficam falando o tempo inteiro, saiba que eu também odeio você.

Escárnio e Maldizer

14.7.04

Quero o seu amigo.

Quero o seu amigo
aquele que não peida
não arrota sem querer
nem está muito perto quando
você resolve tirar ranho do nariz
No país dos amigos pixelizados
as garotas todas lêem Dostoiévski
e dão o cu porque é moderno
porém sempre ao som da melhor trilha
curtindo um hobby interessante
tipo pular de bungee jump
ou saber frases gozadinhas
do Mussum

Quero o seu amigo e/ou
a sua amiga ou quem quer que você finja conhecer
pra adicionar seu nome à minha comunidade de autistas
e depois quem sabe jogar suas características
na bolsa de valores ou num puteiro de figurinhas
quem sabe deletar seus dados chatos
e desligar sua face estúpida antes do último
pão amanhecido vendo um western na tv e ir

dormir
sozinho
e sonhar
com todos os meus amigos
com todos os meus amigos de verdade
acessando os meus gases terminais
no meu funeral.

em Fakerfakir

11.7.04

Intervalo comercial

Existencialismo Copie&Cole

Onde diabos foi parar o chefe? Ele não ia só sair de férias? Ele fugiu? Deserdou? Ele foi MESMO para o exílio? O poder foi tomado aqui no Copy&Paste e não era apenas teorema da conspiração meu? Eu me transformei em ASPONE? Tem alguma eminência parda aí?

Fim do Intervalo Comercial

Wôndful!!!

Só percebi hoje: Nunca mais escreva entre parênteses o abominável "(é assim que se escreve?)"!!! O google implementou uma função que te sugere os nomes corretos. Estava tentando lembrar o nome do filme "Koyaniqqatsi" e o google me avisou: "Você quis dizer: Koyaanisqatsi". Isso mesmo, Sr google, eu quis dizer Koyaanisqatsi! Perfeito. Wôndful.

Onipresente ausente

Não havia nada que pudéssemos fazer, ele ainda está lá caído no chão os braços abertos, olhando para o céu. Nada ao redor faz sentido, só ele e o sol. Um grito angustiado, um pedido de energia para a longa caminhada, para longe desses muros.

Aconteceu tudo muito rápido, não deu tempo. Um fim de semana, um par de segundos. Eu queria ficar mais na práia, mas não pude: as obrigações não deixam. Eu não teria como sustentar.

Agora venho envelhecer de segunda a sexta-feira, carregando pedras para construir a minha lápide, voltando para buscar mais. Caio no chão com os braços abertos e peço ao sol um pouco mais de sua generosidade.

Não há nada que vocês possam fazer.

Reticências de um Poeta Morto

O que a gente não diz

Oi, tudo bem?

Tudo.
(muito melhor agora, meu deus, como tu tá lindo homidedeus!)

Demorei?

Nah.
(se eu tivesse que esperar num pau de arara apanhando na sola do pé pra ter essa visão, ainda assim estaria feliz)

Vamos almoçar onde?

Onde achares melhor.
(lá em casa, no meio dos lençóis, ouvindo Coltrane, por favoooooor)

Pode ser no italiano?

Pode.
(desisti de almoçar, vou te raptar agora e te levar pra República Tcheca)

Não está com fome?

Não.
(Como é que alguém pode pensar em comer com tudo isso pra olhar? Eu quero é ficar decorando cada detalhezinho dessa imagem, deusdocéu)

Não queres sobremesa?

Não.
(a única sobremesa que me interessa não está no buffet, meu querido, se bem que com chantilly deve ficar ótemo)

Então vamos?

Vamos.
(tu não vais me agarrar, me pegar no colo, me deitar no solo e me fazer mulher? Não? Como assim?)


Tu estás tão quieta, algum problema?

Não, tudo bem.
(Tá tudo bem, só não tô sentindo o lado esquerdo, meus pés congelaram, tô com taquicardia e faz uma hora e meia que não tenho notícia alguma do meu estômago).

Então, tá. Te cuida. Bom te ver.

Tchau.
(agora dá licença que eu vou ali me atirar debaixo da primeira jamanta carregada de concreto que aparecer)

Megeras Magérrimas

O que você quer?
O que você sabe?
Não é fácil pra mim
Meu fogo também me arde
Às vezes me vejo tão triste
Onde você vai?
Não é tão simples assim
Porque às vezes meu coração não responde,só se esconde e dói

Por favor não vá ainda, espera anoitecer
A noite é linda, me espera adormecer
Não vá ainda, não, não vá ainda
Me diga como você pode viver indo embora, sem se despedaçar
Por favor me diga agora, ou será
Que você nem quer perceber?
Talvez você seja feliz sem saber.

Pérolas do Dia

8.7.04

terceira tequila
- Nossa, que show de sapato!
- Ô querida, obrigada, é tão velhinho.
- Ah, não parece velho!
- Ah, tudo em mim é velho, meu carro é velho, minhas roupas são velhas, meus gatos são velhos, eu sou velha...
- Ih, tava assim também, aí arrumei um amante.
- E melhorou?
- Olha, melhorar não melhorou, mas ficou mais divertido.

Ao fundo, Caetano Veloso canta Love me tender, acompanhado dumas cordas e duns sininhos.

Drops da Fal

Da minha cara de biscoito Maria
Foi no dia em que encontrei esse moço pela primeira vez, ele olhou para mim e disse que me conhecia de algum lugar.

Oh, céus, de novo não.

Porque a vida inteira assim, tão cansativo. E quando me pararam na rua para perguntar se sou filha de Beth? Tem certeza que não? Irmã de Maurício? Mas puxa vida, tu és a cara da namorada do vizinho da minha tia. Até a recepcionista do curso de inglês me disse um dia que minha irmã mais velha secreta trabalhava lá. Então eu sei que quando acham que me conhecem de algum lugar ou é cantada barata ou é engano mesmo. Sempre.

(Quer dizer, menos naquele carnaval que um moço louro veio com essa história e depois de uns minutos de conversa ele disse que realmente me conhecia de algum lugar. E era verdade, tempos depois lembrei de um São João.)

Oh, céus, de novo não. E foi quando o moço entendeu que eu tinha cara de biscoito Maria. Eu que não entendi foi nada na hora, nem tenho o rosto assim redondo, afinal. Mas é porque o biscoito Maria é único, não é feito biscoito recheado, ou wafer, com marcas e sabores. Ao mesmo tempo tem vários iguais. Entende? Acho que é isso. Uma boa explicação, vá. Só não vale dizer que a mesma coisa acontece com biscoito de maizena porque perde a graça.

clarices

Momento
Cristais Baccarat, não. Baixelas de prata, não. O último grito da moda, não. Iates, não. Ações da bolsa, não. Rolex de ouro, não. Pedras preciosas, não. Hotel 5 estrelas, não. Relógios Rolex, não. Roupas da Daslu, não. Porcelana Legle, não. Fracalanza, não. Cartier, não. Caviar Beluga, não. Investimentos, não. Grifes, não. Primeira classe, não.

Só me interessam as coisas que são tão caras que o dinheiro não pode comprar.

Marina W

1.7.04

obesa sabedoria

conseguira sobreviver a uma infância e a uma adolescência gordas. é difícil, acreditem. deixou de comer e engravidar muita menininha com cocô na cabeça, deixou de pegar muita praia - só ia de camisa, mesmo dentro da água, deixou de fazer skibunda quando esteve em natal, deixou de brincar de esconder atrás de muita árvore, deixou de fazer muitas coisas.

tinha subido numa árvore, certa vez. claro que o galho quebrou, derrubando-o e dando-lhe duas fraturas expostas, o que ajudou a deixá-lo de molho por alguns meses - fato que o engordou mais ainda. mas agora que a idade chegava para si e para todos que conhecia, agora que seus ídolos e familiares de mais idade pagavam o derradeiro preço pelos anos sobre a terra, agora que ainda tentava entender como funcionava o aparelho de dvd recém-comprado e que sua filha de nove anos dominava como a um dócil cão treinado, agora sentia-se bem. é sério, via seus amigos todos ficando gordos, ofegando qualquer fato por mais ameno que fosse, as mulheres de sua idade engordando e perdendo formas que nunca tivera prazer de acarinhar quando mais jovem - sem pagar, claro - agora que tudo a sua volta engordava, sentia-se bem. conhecia muito bem todos os problemas que sua gordura lhe causava, sabia todas as piadas possíveis a respeito do tema, limitações, prós - tem isso?, contras, curiosidades e outros a respeito da vida gorda, sentia-se bem.

muito bem, aliás. e aproveitava tudo o que a obesa sabedoria proporcionava, todos os livros que lera no horário da prática esportiva serviam para citações, poemetos instantâneos, sussurros a ouvidos femininos e respostas simultaneamente inargüíveis e divertidas aos ignaros - o que evitava a briga, na maior parte das vezes, mas para isso mesmo que mantinha amizade com muita gente. comia todo mundo, corria mais que todos os outros desacostumados, e tudo isso bebendo quantidade estupendas de álcool, que demorava para fazer efeito em seu organismo. no inverno, um casaco bastava, sempre elegante, claro. aprendera a elegância, o respeito, a convencer as mulheres para o sexo anal, e sentia-se muito feliz.

era tanta felicidade que mal podia contê-la dentro de si, e sentiu seu coração querendo explodir de felicidade, uma falta de ar, pontos brancos dançando em sua visão, um formigamento no braço, a vista escura e

morreu de infarto.
mas com um sorrisão.

como assim dois uísque?

Ele estava certo, não leiam bulas. Neurótico de boa qualidade, só assimila o efeito colateral.

sem saída

Tá ligado?
A diferença entre a escola e a prisão?
Uma delas bloqueia sinal de celular.

Bricabraque

Entre o mito e o biquíni

Ah, a juventude. Há alguns anos, inscrevi-me numa lista de discussão sobre Legião Urbana, na esperança ingênua de trocar idéias consistentes a respeito da discografia da banda. Como era de se esperar, a lista estava apinhada de adolescentes ingênuos (expressão redundantemente redundante) que discutiam, dentre outras coisas, maneiras de mudar o mundo (por momentos pensei estar por engano em um fórum de militantes do PSTU). O mais irônico foi o lugar sugerido pelo grupo para discutir formas de "revolucionar o sistema": a praça de alimentação do Shopping Paulista.

E hoje, cá estamos. O muro de Berlim caiu, a China bebe Coca-Cola, a utopia comunista é só um retrato na parede e Fidel Castro de quando em quando manda opositores para o "paredón". Numa época em que a figura mítica de Che Guevara tornou-se estampa no biquíni da Gisele Bündchen, torna-se difícil não assistir a um filme como "Diários de Motocicleta" sem um quê de melancolia.

Enquanto nos anos 80 Cazuza questionava por uma ideologia pela qual viver, a tal Geração 00 não parece mais se importar com isso. Ao contrário, aparenta ter assimilado bem até demais essa era pós-utopias, focando seus ideais e objetivos na mera sobrevivência individualista. Aquele garoto que ia mudar o mundo já não senta em cima do muro: agora prefere escorar-se nele, enquanto faz uma pose blasé para um retrato a ser postado em seu fotolog.

Pensar enlouquece. Pense nisto.

Mais uma história real cheia de coisas absurdas

Então ontem a noite minha mãe me avisou que hoje pela manhã eu deveria ir até o posto de saúde de meu bairro e fazer uma consulta com o médico (uns examizinhos para saber se eu estou totalmente curado da doença fulminate que me atacou há alguns dias). É claro que eu bati o pé, mostrei respeito, disse "Não!" e nem sequer esperei ela mais falar algo que me fizesse mudar de idéia.

Oras, estou de férias e ela quer me mandar pro médico? Onde já se viu.
Médico, Dentista, Urologista é lugar para se ir enquanto se está em período de trabalho. É uma forma remunerada e inteligente de faltar trampo e não levar puxão de orelha do chefe.
Então eu disse que não iria a médico nenhum e queria ver quem iria me fazer dizer o contrário. Vamos ver quem é que manda.

E, de fato, eu vi quem é que manda.
Hoje, 7 horas da matina eu estava num banco gelado de um posto de saúde esperando o médico chegar. Na parede tinha um cartaz desses do governo federal que enfatizava o uso da camisinha: "Jovem, use a camisinha!" ou algo assim, ao lado deste havia o celebre cartaz das forças armadas e o alismatento militar: "Jovem, aliste-se!" ou algo assim.

A atendente? (como se chama uma mulher que fica lixando as unhas e chama seu nome para ser atendido pelo médico?). Bom, a atendente quis ser simpática (ou talvez só estivesse cumprindo seu trabalho chato de orientar as pessoas mais jovens) e começou a falar comigo (tenho que parar de abrir parênteses neste paragrafo).

-- Olá jovem! Você já se alistou?
-- Já sim, escapei do serviço militar por causa de um "probleminha".


O Probleminha
Isso é verdade. Eu escapei do serviço militar por causa da lordose na minha coluna. Era uma manhã gelada e chuvosa aquela da inspeção, mas eu estava lá, meio a outros jovens, só de cueca e fazendo exercícios físicos sem sentido. O cara de farda olhou pra mim e disse: "Vai pra casa, garoto! Você tem lordose". Eu fiquei feliz por ter lordose e não precisar ir morar longe de casa por alguns meses ou quem sabe me meter numa guerra. "Mas antes de ir embora, passa ali na frente e paga a taxa" disse o senhor de farda num último resmungo.
É isso aí, não fui para o exercíto mas precisei pagar uma taxa idiota e fazer o juramento a bandeira, no qual prometi estar a disposição de meu país caso ele fizesse uma burrada e se metesse numa guerra para defender os Estados Unidos.

Voltando ao papo com a atendente
-- Oi? Você tá me ouvindo?
-- Ah, desculpa! É que eu estava recordando como foi a minha inspeção militar. Deu um flashback na minha mente. Mas sobre oque nós estavamos falando mesmo?
-- Eu perguntei se você já iniciou a sua vida sexual.
-- Hein?
-- Sua vida sexual.
-- Ah, sim... masturbação conta como vida sexual?
-- Conta, mas neste caso estou falando de sexo com alguma menina.
-- Ah! Não. Eu sou gay.
-- Gay? (disse ela espantada)
-- Sim, por isso não me aceitaram no serviço militar.


Pronto, já tinha feito minha parte e sabia que a atendente não iria mais me amolar com estes papos de "Jovem, se cuida ou a casa cai!". Por fim esperei por meia hora e o médico não chegou. Disse para a atendente que ia dar uma voltinha e respirar um "ar puro e colorido desta manhã cativante" e já voltava. Fui embora. Cheguei em casa, disse para minha mãe que deu tudo certo e eu não vou morrer ainda.

Moral da história
Minha mãe ficou feliz por eu não estar doente.
Eu fiquei feliz por não ser examinado por um médico.
A atendente ficou feliz porque eu não voltei lá.
O médico ficou feliz porque não vai precisar examinar ninguém.
As forças armadas ficaram felizes porque eu paguei a taxa.

Então, não quero influenciar ninguém mas preciso dizer, mintam sempre e todos serão felizes. Mintam na escola, no trabalho, no posto de saúde. Mintam para seus pais e para seus amigos. Mintam para seus leitores. Todos ficarão felizes.

de que jeito?

30.6.04

Ontem me aproximei de uma barraca de ervas e garrafadas, no centro de São Paulo. Curioso, fiquei mexendo nas ervas e lendo os rótulos das garrafas. O dono, só me olhando. Até concluir que eu não estava achando o remédio que procurava:

- O senhor queria pra quê?
- Saudade. Tem?

catarro verde

Os relógios gritam "Você está atrasado!" porque é para isso que foram feitos. Tal qual papagaios monossilábicos, não sabem dizer outra coisa. Quando estamos adiantados, os relógios calam. Mas ficam bufando de raiva, e esperando (um relógio esperando algo é uma imagem insólita) que voltemos a estar atrasados para que possam soltar o grito que lhes sufoca a garganta, que eu não sei onde fica, já que a única certeza que eu tenho sobre a fisionomia dos relógios é a de que eles usam bigodes - os ponteiros. Menos os digitais é claro, mas isso é porque eles são orientais.

vale o que está escrito

19.6.04

À VISTA

Assim que ele a olhou bem dentro dos olhos, ela sentiu que ele examinava seu peito como uma prateleira de supermercado: alguns medos em conserva, angústias em lata, frustrações defumadas. Amizades de consistência firme, algumas com prazo de validade vencido, alegrias a granel, tristezas embaladas à vácuo. Uma saudade torrada e moída, um saco de felicidade empoeirado. E, ora, ora, desejo suculento e fresco, aroma maduro. Isso.

Ela exigiu que fosse à vista, cash. Não, nada de cartões de crédito. Isso de esperar trinta dias, e quem sabe receber só o pagamento mínimo, ainda que o saldo esteja posteriormente sujeito à cobrança de juros e correção monetária, não lhe agradava. Cheque, nem pensar. Entrega-se o produto, esvazia-se o estoque e depois não há compensação. Consignação? Não, também não. O produto é perecível e para consumo imediato. Se acondicionado fora das condições recomendadas pelo fabricante se deteriora rapidamente. Tem garantia, claro, mas só contra defeitos de fábrica. Não aceitamos devolução.

Vou levar.

Assim que ele a tomou nas mãos e sentiu o peso, achou que o pacote poderia estourar.

E quem discute?

16.6.04

O pior desse negócio de quebrar a cara com freqüência é que você vai adotando certos cuidados, tirando aos poucos toda a graça da aventura amorosa. Eu, que sempre fui maluco e arrojado quando se tratava do sentimento com nome de paçoquinha, me vejo agora olhando para os lados com desconfiança, avaliando o terreno, como uma barata de laboratório cansada de levar choques a cada passo em falso.
Dizem que é bom ter cuidado, ir com calma, essas coisas. Sei não, sei não... Sinto-me como o velho trapezista que, balançando-se preso por um cabo de segurança e vendo a rede lá embaixo, dá um sorriso triste e sente saudades do tempo em que se lançava no vazio de olhos vendados.

Jesus, me chicoteia!

15.6.04

MORRE MAIS UMA PARTE DA MINHA INFÂNCIA

Um dia desses, há mais ou menos três semanas eu estava na cantina da universidade especulando com uns amigos sobre quem seria a pessoa famosa mais idosa ainda viva. Sem contar o Papa, claro, devido às especulações sobre o fato de ele ter sido substituído por um robô que do original só tem a pele. Dercy Gonçalves, Tonia Carrero e Paulo Autran, dinossauros do teatro brasileiro foram rapidamente lembrados. Hebe, que atuou na primeira transmissão nacional de televisão, em 1950, também. Walter Mathau e aquela velhinha simpática que fez Conduzindo Miss Daisy já bateram as botas, senão certamente seriam lembrados. Mas ninguém lembrou de Ronald Reagan, um ícone dos anos 80 que voltou a estar em evidência nos últimos dias por ter batido as botas, o que no caso de um ex-ator e ex-cowboy-na-casa-branca (cargo atualmente ocupado por Bush) é muito mais do que figura de linguagem.

No tempo em que Reagan estava caçando comunistas no Afeganistão ou vendendo armas ilegalmente ao Irã para depois repassar o dinheiro, também ilegalmente aos guerrilheiros da América Central, minhas aulas de Educação Artística na escola eram quase sempre dedicadas a desenhar mapas e esquemas para a detonação da Terceira Guerra Mundial, coisa que eu e todos os outros alunos da escola achávamos que ia acontecer antes que completássemos doze anos. Na época não sabíamos que desde o fim da crise dos mísseis em Cuba, quando o mundo esteve realmente pela bola 8, os riscos de algum maluco realmente apertar o tal botão vermelho eram muito remotos. Mas vá dizer isso para uma criança de 8 anos...

Com a morte de Reagan morre mais uma parte da minha infância, que começou a ir embora no rastro da frustração deixada por aquela porcaria de cometa Halley. Não que eu nutrisse alguma simpatia por ele, ainda mais que o único filme em que o vi atuar é ¿Em cada coração um pecado¿, de 1942, mas é que ele estava lá por bastante tempo, e ao contrário de alguns de meus bonecos playmobill, ele demorou uns vinte anos para quebrar. Um bom filme aquele aliás, dirigido pelo mesmo Sam Wood que foi o responsável pelos melhores filmes dos Irmãos Marx, além de ter sido um dos diretores de ¿...E o vento levou.¿. Tanto o filme quanto o diretor foram indicados ao Oscar, mas ambos perderam para ¿A rosa da esperança¿, de William Wyler, diretor que ainda levaria a estatueta outras duas vezes, uma delas com Bem-Hur. Dizem que esta é a melhor atuação filmada de Reagan, se bem que aquela cena em que ele, já presidente, foi alvejado por um maluco em 81 era muito mais impactante do que qualquer coisa que ele já havia feito até então. Principalmente porque se aquele sujeito (John W. Hinckley Jr.) tivesse melhor pontaria, os anos oitenta, a minha infância e o mundo poderiam ter sido completamente diferentes. Mesmo porque se Reagan tivesse morrido naquele atentado quem teria assumido a presidência seria Bush (o pai), e ele provavelmente teria metido os Estados Unidos em alguma guerra antes de 84 e não teria sido reeleito naquele ano, porque a economia iria estar em recessão. Como o Bush atual só parou de beber em 86, eu me arrisco a dizer que é possível que se o pai dele tivesse perdido a eleição de 84, ele não tivesse conseguido e hoje em dia, ao invés de estar no número 1600 da Av. Pensilvânia brincando de Dr. Fantástico ele estivesse em uma confortável cela acolchoada tentando afugentar elefantes cor-de-rosa. Maldito atirador vesgo!

Falando em Bush Jr, a máquina da reeleição já está trabalhando a todo vapor para associar a imagem de Reagan à dele através de panfletos, cartazes e programas de TV. Eu pergunto: Por que não mandam empalhar o corpo dele de uma vez e saem em turnê com ele pelos Estados Unidos? Assim pelo menos alguém naquela gangue teria um pouco de personalidade. Aproveitem e empalhem o cometa de Halley também para eu finalmente poder vê-lo.

vale o que está escrito

14.6.04

por mais que eu esteja na pqp, sozinho, sem drogas e com muito pouco pra me divertir de verdade, eu fico feliz pra caralho quando encontro meus amigos online...
ta, eu sei q é óbvio, e talvez inapropriado para diabéticos (exceto para o grillo, é claro), mas porra, é a pura verdade.
eu fico aqui, perdido no lobby do hotel, rindo sozinho, as vezes alto...recebendo e mandando arquivos, links, e trocando várias idéias...as melhores possíveis...por que será que as vezes a gente precisa estar longe pra apreciar tudo aquilo de melhor que se tem por perto?
denovo, óbvio, insatisfação talvez seja a característica humana mais perene. seguida de medo e preguiça. mas mesmo assim, verdade.

100 dias numa caixa de areia

Perdi uma excelente oportunidade de me matar hoje com a salsicha vencida que tirei do freezer. Cheguei a ferver a bonita e a separar cebola e massa de tomate pra fazer o molho, mas as pintas laranjas, amarelas e cor de cocô que nela se alastravam eram por demais repulsivas. Parti, cheirei e joguei no lixo. Tsc. Eu não sou mais de nada mesmo. Se bem que comi presuntada logo em seguida. Prevalece, portanto, o pendor para o suicídio lento e gradual. Aguardemos.

Nervocalm Gotas

12.6.04

Tem um telejornal local aqui em Trento , que è em alemao .

A propaganda do gàs tambem : em alemao .

Preciso dizer mais alguma coisa ????

Preciso sim : Puta que pariu !!!!! Onde foi que eu vim parar , meu rei ?!!!

Quattrostagionado por Dani

11.6.04

Cristina me conheceu de barba. Mas eu já estava com saudade do meu rostinho lindo e resolvi tirar. Correr o risco de ser rejeitado, chutado, espezinhado, repelido, desprezado por ela. Ou não. Procurei meu barbeador elétrico e cadê?, sumiu no mocó. Soquei a bota na lâmina mesmo, arrancando aqueles puta chumaços de pêlos lambuzados com espuma de barbear. Encerrado o escalpo que me entupiu a pia, verifiquei se não tinha sobrado nada no meu rostinho lindo. Nada. Beleza. Tomei meu banho quinzenal, passei rolão no suvaco e me mandei para o Centro da cidade. Caralho. Só no caminho fiz a descoberta no espelho retrovisor. Puta que pariu, um pêlo! Tinha sobrado um pêlo de barba um pouco acima da minha bochecha direita. E não era um pelinho, era um pêlo considerável! Nem que eu quisesse conseguiria aquela façanha, mas ele estava ali, ali, ali. Parei o carro e puxei o pêlo com os dedos. Nada. Catei aquela tesoura vagabunda que vem no kit de primeiros socorros e ela não cortou. Puxei o pêlo com as unhas. Puxei tanto, que ele acabou enrolando. Agora eu tinha um pentelho no rosto! Nem por uma xana eu ia deixar a Cristina ver aquilo. Lobisomem de um pêlo só? Foi quando eu lembrei das ferramentas do carro. Não, nada de usar macaco ou chave de roda, mas alguma coisa útil haveria de ter. E achei meu alicate! Grandão, revestido de plástico laranja. Com ele consegui finalmente arrancar o pêlo pentelho. Alguns passantes me estranharam olhando para o retrovisor e tentando acertar, com o alicate no rosto, alguma coisa invisível para eles, mas em São Paulo o que mais tem é louco então tudo bem. Cristina? Gostou do meu rostinho lindo. Ela é do tipo que curte beleza interior, sabe? Pâncreas, fígado, baço, essas coisas.

catarro verde

10.6.04

Christiano, pálido como farinha de mandioca, suava frio. O cano da pistola, a pelo menos um metro e meio de distância, mantinha-o em silêncio apavorado. Os olhos - sim, Chris estava sem chapéu - tinham a resignação de quem está pronto para ir de encontro a São Pedro nos próximos instantes. Enquanto isso, Samuel encarava-o, praticamente deixando Rodrigo fora de percepção. O jovem misterioso tentou falar. Samuel esforçou-se em ouvir, mas o processador de fala estava com suas pilhas descarregadas.
- Fala mais alto - disse Samuel.
- Eu... eu... só pedi fogo, uai! Não precisa apontar este trabuco nimim!
- Você pediu fogo, agora vai ter.
- Sam, calma...
- Calma o quê?! Pelamordedeus, vocês estão malucos.
O dedo indicador de Samuel empurra a alavanca. Christiano vê sua vida, seus amores perdidos, seus filhos que nunca irão nascer em toda essa fração de segundo. O coração empurra o diafragma para a baixo, e quase ao mesmo tempo, sobe até as amígdalas, juunto com um pavoroso berro que também durou uma fração de segundo.
Rodrigo, de olhos arregalados, não moveu uma célula de seu corpo; nessa fração de segundo, sabia que não podia e não devia fazer nada para ele também não levar uma bala entre os olhos. Samuel estava louco, era preciso interná-lo imediatamente.

Ônibus dos Pensadores

7.6.04

O caso dos dois papeizinhos

Mais uma história para minha autobiografia não-autorizada:

— Alô?
— Lúcia? — o nome não era esse.
— Sim.
— Oi, é o Márcio. Tudo bem?
— Oi, Márcio. Tudo e você?
— Tranqüilo. O que está fazendo de bom?
— Tô aqui no lançamento do livro de minha tia e vou fazer uma performance daqui a pouco — ela era atriz.
— Que bacana. E, escuta, o que você vai fazer depois?
— Eu? Por que?

Como assim? Afinal, já havíamos pré-combinado de fazer algo.

— Ué, queria saber se você não estava a fim de fazer alguma coisa mais tarde.
— Não posso. Depois que sair daqui vou encontrar meu marido e pegar umas coisas na casa de minha mãe.

Marido? Ela não tinha marido. Puta desculpa esfarrapada, pensei.

— Então tá. Depois a gente se fala. Tchau.
— Tchau.

Desliguei o telefone com aquela sensação "que coisa estranha". Mas, afinal, as mulheres nunca dizem claramente "cara, não estou a fim de sair com você, não se enxerga não?". Mais delicadas, elas dizem algo do tipo: "Putz, hoje não dá porque é o Dia da Árvore" ou "Sabe o que é, meu cachorro está muito doente, quem sabe na semana que vem". E, se você for esperto, não liga mais para não ouvir alguma outra frase-bomba de efeito moral.

Por isso, encolhi os ombros e disse para mim mesmo "então falô, não quer, não quer". Já ia dando o assunto como encerrado quando, súbito, me caiu uma ficha. E, olhando para os dois papeizinhos em cima da mesa ao lado do telefone, comecei a entrar em pânico.

Coincidências misturada com estupidez é receita certa para destruir sua dignidade. Uns dias antes desse telefonema, precisava gravar uma locução feminina para um trabalho que estava fazendo em meu estúdio. Só que a voz precisava ser bem jovem, quase adolescente. Como não tinha ninguém com essa característica em meus contatos, sai a caça de locutoras novas para testar e mandar a prova para o cliente.

Pedi uma indicação o Tomas, que é ator e racha o aluguel comigo. Ele me falou:

— Chama a Lúcia. Ela é atriz e faz locuções também. A voz dela é bem isso que você quer.

E foi o que fiz. No entanto, também havia chamado para o teste outra pessoa, uma atriz com quem já havia flertado. O nome dela? Advinha. Isso, Lúcia (que vou chamar de Lúcia II). Então, fiz o teste com as duas, em momentos diferentes. Tudo no maior profissionalismo, claro. Anotei os telefones das duas em dois desse papéis de bloquinhos que servem para a gente anotar as coisas e depois fazer uma puta confusão. Enfim, dois pedaços de papel de mesma aparência, escritos da mesma forma a lápis. Só mudava o sobrenome de cada uma, o resto era igual. E deixei ao lado do telefone.

No mesmo dia, o cliente me informou que havia aprovado a voz de Lúcia. Liguei para ela e dei a boa notícia. Depois ligue para Lúcia II, dizendo que o trabalho não ia rolar. Conversamos um pouco e disse que ligaria depois para marcar algum programa.

Antes de terminar a história, vamos recapitular: duas mulheres de mesmo nome, mesma idade, vozes parecidas, dois papéis quase idênticos posicionados bem próximos um do outro e um idiota fazendo a ligação.

Voltando à história, olhei para os dois papeizinhos e lembrei que Lúcia havia me dito que era casada, com cara que inclusive eu sabia quem era. Já em pânico chequei o número que eu havia discado e... Nãããããããoooooooooooooo... Puta que o pariu idiota de merda não acredito que você fez isso!

Imediatamente, telefonei para o mesmo número para tentar desfazer o mal entendido, se que isso era possível. Caiu na caixa postal, claro. Maldito olho mágico de celular. Mas se eu fosse ela também não atenderia. Afinal, só um cara muito mala iria ligar logo em seguida depois de levar um fora. Deixei uma mensagem meio desesperada na caixa postal, sabendo que nem ela nem ninguém acreditaria nessa história. Eu mesmo não estava acreditando.

Tentei mais uma vez de outra linha. Caixa postal de novo. Caracas...

O Tomas estava em casa, felizmente, e falei:


— Fiz uma puta cagada, me ajuda — e contei a história.

Ele riu muito enquanto dizia "não acredito que você fez isso". Acho que ele só acreditou porque me conhece bem e sabe de minhas "capacidades". Assim, telefonou para Lúcia e explicou minha cagada. Depois me passou o telefone e pedi desculpas a ela, que acabou achando graça de tudo. Ufa! Escapei com apenas alguns arranhões morais.

Acabei não conseguindo falar com Lúcia II naquele dia, o que foi até bom porque o episódio já tinha tirado minha vontade de ter um encontro. Acabei ligando alguns dias depois. Quando perguntei se queria fazer algo na sexta ou sábado ela me contou que andava meio ansiosa porque estava procurando apartamento para ir morar sozinha e que preferia deixar para a outra semana.

Não sei se era verdade ou não. Pode até ser. Mas, na dúvida, não liguei novamente.

Chez Nigro's - Movimento pela Insanidade Coletiva

6.6.04

Três coisas que odeio no Unibanco Arteplex:

1. O comercial da Regina Duarte
É tão irritante, mas tão irritante que sinto uma vontade quase incontrolável de atirar objetos na tela. Ou pelo menos de gritar um ?ãããããããããããã?.

2. Os comerciais com o Falabella e a Débora Bloch
Em especial aqueles em que eles fazem a "segurança do patrimônio"

3. Os comerciais com a hiena Hardy
Ela é tão desgraçada que quase faz parecer os três citados acima legais.

no escurinho do cinema com a Central de Manicures

Cuba, Ilha de Magia e Chatice...
Naquela época do ano a casa ficava infestada de romancistas-que-falam-de-cuba. Giravam em torno da lâmpada ouvindo Elis.

-Foram pra debaixo do sofá.
-Tem um atrás do quadro.

Eu tentava não matar: recolhia num copo de requeijão e a ajuda de um jornal, e os soltava do outro lado da estrada, com mão trêmula.

-A resistência heróica...

Quando eu ouvia isso de resistência heróica às vezes voltava e matava mesmo, pisando de chinelo e depois esfregando o chinelo na quina da calçada.

-Ai, tá mexendo a perninha ainda.
-Tá fazendo discurso.
-Fidel é conhecido por sua grande coragem pessoal, seu grande carisma...

Eu pisava de novo.

Às vezes um deles caía no meu cabelo quando eu estava escrevendo e me dizia que o romance é uma grande ferramenta para aferir a saúde política de um povo, essas coisas. Ou me pedia para entrar no pen club de Osasco, presidido pelo grande Dr. Mirandinha, dermatologista e poeta, autor do grande e injustamente esquecido "Veredas da Resistência" (ed. COGITEC, 1976). Eu levantava em pânico dizendo que nem morava em Osasco e dando tapas no pescoço, sentindo o romancistinha de boina correndo pelas minhas costas.

História verdadeira:

Na palestra do romancista A, o romancista B cutuca o romancista C e diz baixinho:

-Se eu algum dia virar tamanha besta solene, me mata.

Muita gente gostou da palestra do romancista A - mostrou grande indignação moral temperada pelo seu conhecido humanismo. Na saída, foram todos comer feijoada e terminaram cantando London London.

Nesse ponto chega o dedetizador.

-Essa época do ano... - diz, coçando a nordestina cabeça.

Os verdadeiros fregueses do restaurante ficam consternados:

-Quem são? Parecem humanos...
-Estavam usando talherzinhos e tudo!

O romancista A grita "Por Fidel!" e cai morto da lâmpada. Nobremente bóia na salada de frutas. À guisa de epitáfio ouve-se Dona Salete, que dá aula de matemática para alunos da sexta e sétima série no Colégio Arquidiocesano e secretamente acha Cuba superduper, dizer alcoolizada a grande frase, "ai gente, também não precisava matar."

Direto da lâmpida de Alexandre Soares Silva

Sala de Espera

Quando a gente pensa que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

Requintes de Crueldade

No seu lugar, eu não fecharia meus olhos ainda.
Não apagaria a luz nem trancaria as janelas.
Porque existem coisas que você precisa entender.
Coisas que você precisa ouvir de mim.

Eu não diria uma única palavra agora.
Não tiraria conclusões, não pararia para pensar.
Porque existem coisas que eu preciso te dizer.
Coisas que você quer ouvir de mim.

meu paredro

5.6.04

Hoje tente me amar. Venha, levante o queixo. Deixa que eu te dê uma rosa, um escravo, um torrão de açúcar. Hoje, tente fazer com que eu seja indispensável, com que eu seja matéria-prima dos seus dias, esse que, quando se ausenta, torna a respiração dificultosa e inútil, porque viver, sem mim, se torna inútil. Hoje. Me dispa em ternuras tão ingênuas pra que quando estivermos inteiramente nus, um vele com inconsciência e febre a existência do outro e então, finalmente, não existiremos. Não seremos senão vultos morenos e plásticos, nódoa no lençol alvo. E a rosa, o escravo, o torrão de açúcar descansarão em esquecimento enquanto o fogo emprestar sua dança furiosa, enquanto o pavio arder submisso e intranqüilo. Hoje me faça sua essência, sua causa e efeito. Faça com que esse gesto de adoçar com colônia tuas veias e vestes seja um jeito de dizer que me ama. Hoje borde detalhes em teus vestidos compridos, costure flores de vôos longínquos. Espere eu voltar de uma guerra infinda, mesmo que receba carta que me acuse morto, cotovelos envelhecidos no parapeito, me espere com resignação de viúva e fervor de amante.
Componha uma sonata, traduza um soneto. Hoje tente me amar. Venha, levante o queixo.

Tabacaria

Insônia

Acordou no meio da madrugada, qual este que vos escreve, e não consegue dormir? Sem problema, vasta é minha experiência no assunto, basta fazer o seguinte:

0) Não abra o livro mais próximo na página 23;
1) abra a latinha de cerveja mais próxima;
2) redija uma nota suicida ou uma redação sobre suas meias;
3) abra outra latinha de cerveja;
4) engula 20 a 40 drágeas de diazepam ou equivalente;
5) amarre um saco plástico na cabeça;
6) aperte "Publish";
7) bons sonhos.

dies iræ

4.6.04

Amigos,

De novo, sem consultar niguém, resolvi mudar. Uma das vantagens da democracia é que você tem o direito de ser ditador, se ninguém reclamar.

Mas se alguém não gostar, sou o primeiro a dizer "desculpe". Guardei o template antigo, então, para tudo há solução.

Ainda é preciso arrumar uma coisa ou outra, (deve haver algum deslise). Portanto, se alguém encontrar erro, por favor avise.

Colegas de trabalho, entrem em "edit my profile" para que o linque no nome de vocês, à direita, leve a algo diferente do que um aviso de "nem rolou".

Favor confirmar o recebimento deste memorando, em três vias carbono, e com a assinatura da D. Lindaura, a secretária.

Chefinho Rata, espero que seja do seu gosto.

Grato,

Henrique

Parabéns, miúda

... e que não continues a destruir-me os teclados do computador deitando-lhe cola por entre as teclas e as membranas.
(a tua mãe, quando te vir aqui, dá-me um tiro)

No arame

Se voce está desesperada porque dia 12 está chegando e você está na fissura de encontrar alguém e não consegue, eis aqui minha mais famosa simpatia para o seu desencalhe total:
Simpatia para conquistar seu amor :
Amarre o pescoço do Santo Antonio com o seu mouse , dê 3 voltas com o fio e pendure atrás do monitor.
Baixe pelo Kazaa as seguintes músicas:
- Eguinha pocotó
- Você é meu amor (de qualquer grupo de pagode)
- Segura o Tcham
- Pense em mim ,chore por mim.
- Funk das cachorras (ou algo semelhante a isso)
- Ave Maria com Jorge Aragão.
Coloque as caixinhas de som perto do ouvido do Santo, ligue o som em modo repetitivo e faça a seguinte oração:
"Adorado Santo Antonio essa sequencia vai repetir até meu homem surgir."
Saia do quarto, tranque a porta e vá pra rua.
É tiro e queda.Só não esqueça de pedir perdão pro Santo depois.

...

Nina, minha irmã, resolveu convidar mamãe para ir a um show de Punk Rock em algum lugar lá da Zona Sul em São Paulo, mas antes fez algumas recomendações:
- Mãe, por favor, nada de falar Supimpa, ok?
- Ok, vamos lá mina, vai ser do balacobaco!
- Não mãe, peloamordeDeus, balacobaco é pior que supimpa!
- Balacobaco é Supimpa!
- Ah mãe, assim não dá! O Carlinhos vai lá e você falando Balacobaco?
- Ta, ok, lets go now, o que devo falar então?
- Ah sei la, fala Fodasso!
- Fodasso?
- É, fodasso pra tudo. Não precisa falar mais nada, ok?E também não fica parada, tenta se sacudir um pouco.
- Ok mina, lets go now!

Foram as duas pro show.

- Mãe, não precisa ficar balançando os braços no ar, o show não começou ainda.
- Ué, você pediu pra eu não ficar parada.
- Ih mãe, olha o Carlinho chegando..olha la hein..
- ok.
- E aí Tia Sô, bele?
- Fodasso!
- Tá gostando do ambiente?
- Tá Fodasso!
- Não sabia que a senhora gostava de punk rock.
- Pois é, Fodasso!
- Mas a sra curte essa banda também, porque é nova e tal.
- É fodasso, né?
- É tia, é sim, super. Será que vai demorar pra começar?
- É, já tá fodasso.
- Manêro esse jeito da senhora balançar os braços pra cima mesmo sem musica, é bem style.
- É fodasso!
- Nossa queria que minha mãe fosse manêra assim também.
- Mas é fodasso!
- Nina, sua mãe é D+
- Ahh..ela é bem fodassa né?
- Fodassa nada, fodassa é meio ultrapassado, eu diria que ela é supimpa mesmo!
- Supimpa?
- É, ela é supimpa!
- É isso aí mãe, você é supimpa, viu?
- E você é fodassa Nina, supimpamente fodassa!

Fata

Chego na academia. Depois de correr 30 minutos da esteira (e colocar os bofes pra fora), encaro aquela bicicleta em que a gente fica confortavelmente assentado e pode ler coisas legais que lembrou de levar para a ginástica. Duro é quando você descobre que esqueceu de levar coisas legais para se divertir enquanto pedala aquele negócio chato... Aí você olha pro lado e tem uma moça bonita como as modelos de capa de revista, com jeito de simpática e um jornal inteirinho, do tipo este aí me interessa muito. Aí você espera ela ler uns dois cadernos e arrisca:
- Desculpa incomodar, mas você poderia me emprestar a parte do jornal que já leu?
E ela, com a cara mais impassível do mundo, responde, monossilábica:
- Não.
Além de bonita, inteligente e egoísta. Quando crescer quero ser assim.

Linda e Loura

2.6.04

Vida Besta

'Titiôôôô..., o que é dadaísmo?'
'Senta aqui no colinho do titio que ele explica. Pronto. Dadaísmo, minha querida, é o que tua tia Janete fazia.Ela saía e dava, dava, dava, dava, dava, dava.Por isso o titio descarregou um trezoitão na cara dela.'
'Que looouco, tio! Quando eu vou poder fazer isso também?'

Adianta dizer que a menina cresceu e prestou vestibular pra letras?
Adianta chamar a vida de besta?

Uns choram. Outros vendem lenços.

1.6.04

Hoje, num restaurante perto do escritório:
- Por favor, uma Coca-Cola, sem gelo e limão.
- Light, Light Lemon? - perguntou o garçom.
- Gelada e normal mesmo.
Sempre achei que quem pede a versão Light da bebida é que deveria especificar o seu pedido. Pois é, birra minha, mas penso que o sabor que existe há um século é que deve ser o pedido default, não a inovação recente. Enfim, chega a Coca-Cola correta, mas acompanhada de um copo com gelo e limão.
- Desculpe, mas eu pedi sem gelo e limão (preciso parar com essa mania de pedir desculpas mesmo sem ter feito nada de errado).
- Ah, tudo bem, vou trocar o copo - e vem um só com gelo. E depois um só com limão.
- Tudo bem, é só tirar o limão, eu quero só o copo mesmo - disse eu, enquanto o garçom me olhava como se estivesse pensando "ele vai beber essa Coca-Cola assim, pura?".

Veja só que coisa esquisita: o sujeito fala "uma Coca-Cola" e recebe a bebida com todos os acessórios e opcionais, Light ou Light Lemon gelada com gelo e limão; eu preciso especificar "uma Coca-Cola normal gelada, sem pedras de gelo e sem limão" para receber a versão simples. O meu idoso interior (que quando contrariado parece com o Zagallo) levanta seu dedo indicador torto em riste e resmunga "isso não faz sentido!". Da mesma forma que os apreciadores de whisky têm a expressão "cowboy" para o drink puro, deveria haver um termo similar para a Coca-Cola.

Qualquer dia desses fico ranzinza novamente e publico aqui minhas observações sobre esse costume insensato de tirar os picles dos sanduíches do McDonald's, outro absurdo.

Concatenum

Em mim habita eternamente o que de mim fizeste, este algo subjascente às incredibilidades da vida, aos reveses do mundo que tem o sarcasmo do teu sorriso. Em mim, um entardecer desperto há pouco tinge-se de cores insuspeitas que me acompanharão até o fim dos dias, como me acompanhará a outra de mim que se inaugurou pelos teus olhos e que comigo já se confunde irreversivelmente. Em mim o tanto de ti que se confundiu comigo e tornou-se a minha parte mais eu mesma.

Não Discuto

They call me The Howlin' Guava

Estou tentando virar bluesman. Todo dia eu encho a cara de bourbon e tento tocar dois acordes no meu violão - até agora, não saí do primeiro, que só acerto quando estou sóbrio. Já compus, mesmo sem acompanhamento, 115 músicas que começam com os versos "I woke up this morning/ My baby was gone". Cada uma delas tem sutilíssimas variações no tipo de interjeição utilizado ("boom, boom", "hey, hey", "yeah, yeah", "iac, iac" e assim por diante). Ainda assim, já estou bem perto do coma alcoólico e não consegui ser reconhecido como um legítimo homem-azul do delta do Tamanduateí. Penso que estejam faltando só o chapéu com estampa de oncinha e pena e a aprovação do pessoal da UnB, certificando que sou black e sou proud. Vou a Brasília bater o mojo na mesa e impressionar esses branquelos. I spell M-A-N...

Pura Goiaba

31.5.04

Marquei com o John Atoshman para ele me buscar na faculdade as 21:00. Ali pelas 22:40 ele apareceu junto com o Portela, e de lá partimos para a sua casa, onde rolaria uma bebedeira seguida de violões.
Ao se dirigir para a casa do John, em seu carro, com o som lacrado numa música de metal fodido (porque o John e o Portela são metaleiros) um estranho barulho começou a ocorrer.
-- Cara, que bateria zoada!
-- Não é bateria não.
-- Acho que furou um pneu.
Diminuímos o volume do som e constatamos que o barulho vinha do lado de fora do carro. Paramos e descemos para checar os pneus. Tudo certo. Nada errado. Voltamos para o interior do carro e seguimos viagem, mas o barulho voltou a aparecer.
Paramos o carro denovo. Desta vez descemos e fomos olhar embaixo do carro. Confesso que nessa hora eu achei que o John tivesse atropelado um veado campestre e ele estava enrroscado nos pneus, ou algo assim.
-- Cara, o escapamento tá no chão.
-- Como?
-- O escapamento. Quebrou.
Pois é, o escapamento estava solto, no chão, arrastando.
Não conheço muito essa parte mecânica dos automóveis. Pra falar a verdade não conheço nenhuma parte de um automóvel. Mas não foi preciso ser um grande conhecedor de mecânica para constatar que aquela peça ali não devia estar no chão.
-- Essa coisa aí não deveria estar presa no carro?
-- Claro que sim, moskito.
-- Pô, então porque ela tá arrastando no chão?
Percebi que o John e o Portela não gostaram da minha pergunta e se negaram a responde-la. O Portela se encarregou de dar chutes no escapamento afim dele cair por completo, pois ainda estava semi pendurado na parte debaixo do carro. Enquanto isso o John ficava falando: "Meu pai vai me matar! Meu pai vai me matar!" repetidamente.
Eu, estava um pouco mais calmo e observando tudo atento, só conseguia pensar numa coisa:
Prá que serve um escapamento de carro?
Pô, o carro até ficou mais bonito sem aquele cano ali atrás. Se não fosse um amassado no parachoque traseiro causado por um chute sem pontaria do Portela, o carro teria ficado perfeito. Aquele cano tirava todo o carisma do carro.
Colocamos o escapamento dentro do porta-malas e seguimos viagem. O ronco do carro até tinha ficado mais legal. Os mano na rua ficavam todos olhando pra aquele Escort roncando forte na avenida. E nós três, John, Portela e eu, ali dentro, curtindo um hardmetal afudê.
Até que enfim tinhamos estilo e todos olhavam para nós. Abaixamos os vidros e lacramos o volume do som. O John fazia o carro roncar bonito cada vez que passava por alguém na rua. E a playboyzada toda ia ao delírio. Estiloso, fera.
Então pensei ainda mais: "Pra que serve a porra do escapamento?" Tudo parece tão legal sem aquele cano feioso. Porque então o carro tinha aquilo pendurado?
No meio de um bairro barra pesada e deserto da cidade o carro resolve apagar e não mais ligar. Não tinhamos telefone algum para tentar contato com o mundo exterior. Apenas alguns meninos com cachimbos na boca circulavam por aquela rua, por isso resolvemos não pedir ajuda e ficar por ali mesmo.
Frio, escuridão e fome. Decidimos empurrar o carro até um beco e dormirmos por ali mesmo. Os três metaleiros dormindo dentro de um Escort.
Claro que não conseguiamos dormir e mantinhamos os olhos bem abertos com preocupação. Ali pelas duas da matina uma coisa apavorante aconteceu: Um morcego louco que ficava perambulando em volta do carro, achou bonito nos assustar, e pra isso batia-se contra o para-brisa. Era assustador.
Hoje pela manhã quando acordamos, caminhamos alguns kilometros até acharmos um telefone público. Chamamos um guincho e fomos para a casa do John explicar tudo para o pai dele que, por sua vez, não acreditou em nada que dissemos, lógico.
"Que história idiota!" disse o pai do John.
Eu também achei uma história deveras idiota. Mas o que eu posso fazer? Foi verdade e, além do mais, ainda nem aprendi pra que serve o maldito escapamento de um automóvel.

alguém aí pode esclarecer para o moskito, do ¿de que jeito?

Vi na farmácia. Cápsulas de berinjela. É que para muita gente, berinjela é uma coisa difícil de engolir. Podiam então fazer cápsulas de:
Saudade
Tristeza
Choro
Sapo
Desaforo

catarro verde

25.5.04

Solidão? Baixa auto-estima? Aquele sentimento indigesto com um gostinho amargo de abandono? Sensação de que você não faz diferença para o mundo?

A solução para o seu problema é muito simples. Siga a receita.
INGREDIENTES:
- Uma assinatura do Jornal do Brasil.
- Um pouco de bom senso pra perceber que o jornal está muito fraco e não é mais o que era antes.
- Pouco dinheiro na carteira pra gastar com assinatura de jornal que está muito fraco e não é mais o que era antes.

MODO DE PREPARO:
Leia o jornal por muito tempo. Encha o saco da falta de informação. Critique sempre, fazendo do seu café da manhã uma espécie de mesa redonda sobre a cultura no novo milênio. Misture o bom senso com a falta de dinheiro e mexa bem. Ao receber o novo carnê de pagamento, ignore como se sua vida dependesse disso. Finja que o carnê é um daqueles vizinhos chatos que faz com que você desvie o caminho. Rasgue, esconda, jogue fora, faça o que quiser, mas não pague em hipótese nenhuma. Não pague!
Essa receita rende três semanas de ligações telefônicas de simpáticos atendentes de telemarketing muito interessados em saber o motivo que te levou a não renovar a sua preciosa assinatura.
Mesmo dando sempre a mesma resposta, eles te ligam de novo. E de novo.
É melhor que CVV.

uma dama não comenta

As três formas didáticas ou caminhos humanos para o entendimento: você explicar, você ilustrar, você bater até a pessoa entender.
Uma deformação no terceiro caminho, caminho chamado hodiernamente de zen, é quando o aluno em vez de aprender gosta da surra ou quando o professor abandona a didática pelo vale-tudo.
Aí, em vez de zen, recebe o nome de civilização ocidental, e estamos diante do terceiro e meio caminho.
...
Fulano morava quase sozinho, dividia a habitação com uma gatinha malhada e quatro Prousts. Um parecia mesmo o escritor, outro até dava ré, o terceiro escrevia de forma incompreensível e enrolada os menores recados de geladeira e o último passava o dia e a noite na cama.

saudade do presidente figueiredo

Uma questão séria.

Qual é o tão terrível problema em usar a seta do carro para sinalizar que você vai entrar numa rua e/ou garagem?
Será que ninguém percebe que este é um facilitador da vida ou a minha paciência que está atingindo limites do intolerável?

hmpf.

acredite ou não

Por que não acredito nos médiuns

Trecho de um texto escrito por Raul Seixas aos 13 anos de idade:
"Cirilo conta coisas engraçadas: hoje entrou contando que seu colega de sala morreu com massa de modelar no nariz. Falta de ar (sabe como são essas coisas...).
Dei-lhe uns trocados e ele me cuspiu. Mamãe rosnou na cozinha. Fingi que chorei para ela morder Cirilo.
Ninguém ligou.
...
Tomei o ônibus na esquina. Estava cheio de gente, gente com cara de viajar de ônibus. Caras sérias, porque em ônibus só se viaja sério; é o normal, é o certo."

Agora um trecho supostamente ditado pelo mesmo Raul Seixas a um tal Nelson Moraes, médium, em março de 2002:
"Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes a verdadeira finalidade da vida, conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros. Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação em que, alguns casos, podem se prolongar durante séculos.
Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: você mesmo!"

Eu quero ver quem é que me convence que alguém que aos treze anos escrevia tão bem, com idéias originais e uma percepção irônica do mundo, tornou-se um cuspidor de clichês semianalfabeto depois de morto. E o caso do Raul Seixas é só um exemplo. Pelo que percebo dessas tão populares obras psicografadas, ou das tais pinturas feitas por espíritos, a morte é mesmo um treco horrível: além de nos tirar a vida, arranca-nos totalmente o talento. Coisa triste.

Jesus, me chicoteia!

24.5.04

Uma das piores coisas que acontecem quando crescemos é ver a palavra "aventura" degradada por toda parte. “A aventura de aprender”, “a aventura da matemática”, “a aventura de comer jiló”. “A aventura de ir no dentista e ser um bom menino.” “A aventura da vida!”

Aventura uma ova. A única aventura que conheço é ser perseguido por sepóis numa selva malaia e levar um tiro na bunda. Todo o resto é no máximo Esforço.

Alexandre Soares Silva

Estou postando direto de um engarrafamento. Não chega a ser um prazer escrever em telefone, mas a verdade é que, com o tempo, pelo menos fica mais rápido. Quem sabe um dia eu não fico boa nisso? Tem uma garotada aí que tecla à velocidade da luz...

internETC

A solidão dói milhares de ratos a roer o avesso da pele e cheira um mofo de cantos há anos sem sol. Brotam verdes e estranhos azuis no corpo que vai se tatuando de abandono e se entrevando cada vez mais e mais encolhido buscando o próprio colo e um ventre de nascer pra dentro. A solidão vigia com olhos escancarados minhas noites em claro, bebe meus medos na taça da minha boca deserta, suga meus lábios tristes da mesma saliva e dói nos meus braços vazios a dor de um abraço oco.

não discuto

Se você está perdido numa dessas megalojas, cansou de comprar eletrodomésticos e achou que seria bacana levar um livrinho para casa, mas não sabia qual, siga as recomendações listadas abaixo.

1) Dê uma boa fuçada nas estantes de auto-ajuda. Não, você não leu errado. É só contar com o analfabetismo funcional do pessoal que as organiza. Como já escrevi aqui, podem-se encontrar os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" entre os Japachiques e o último livro da Lya Luftal (copyright de Alexandra, a Nibelunga). Há também "A Montanha Mágica", história do sucesso de um rapaz alemão na luta contra a tuberculose, e "Lolita", lindo livro que mostra que as diferenças de idade não são obstáculo para o amor.

2) Evite comprar livros da Conrad. Se saiu por essa editora, não pode ser bom -é como água e azeite, Ingmar Bergman e Paulo César Pereio, livros da Brasiliense nos anos 80 e boa literatura, essas substâncias que nunca se misturam. Vá por mim. O mesmo vale para qualquer coisa publicada pela Fundação Perseu Abramo.

3) Fuja, correndo e gritando, de livros-escritos-por-gente-que-tem-blogue. Pelo amor de Deus. As pessoas só têm blogues porque são analfabetas, disléxicas ou as duas coisas juntas (como é meu caso). Blogueiros que publicam livros somam a chatice a essas duas qualidades -e dá-lhe spam, banner, autopromoção desenfreada e o cazzo-a-quatro para que você compre o maldito livro. Na cabecinha dos "escritores de internet", "escrever livros" confere um status social superior a "escrever em blogue" e ainda ajuda a disfarçar a caspa e o mau hálito. Ora, francamente. (Eu ia dizer que há exceções. Não vou. Assim é mais divertido.)

4) Por último, mas importantíssimo: jamais compre livros de escritores que se deixem fotografar descalços. Está cientificamente provado: em 100% desses casos, não há hipótese de o livro não ser uma caca. Você já viu alguma foto de James Joyce descalço? William Butler Yeats na banheira, com os pés para cima? Jorge Luis Borges exibindo seus joanetes? Claro que não. Então, amigo escritor, trate de calçar os sapatos se quiser que eu compre algum livro seu. Não, nada de sandálias Havaianas: sapatos, s'il vous plaît. Poupe-nos da visão grotesca das suas extremidades inferiores.

pura goiaba

déco é gordo. déco nunca teve nada de importante a dizer, nunca elaborou raciocínio algum ao qual alguém já não tivesse chegado, lendo ou pensando, nuncas colaborou nas discussões em aula sobre o assunto que fosse, nunca gravou um vídeo amador e vendeu para alguma tevê, nunca fotografou nenhuma celebridade em trajes íntimos ou em pêlo, nunca foi célebre, nunca jogou na megasena, nunca torceu pelo mocinho, sequer pelo bandido, nada.

déco levava sua vidinha, tirava a nota média, sentava no banco que estivesse vazio, respeitava as filas e nelas entrava onde indicado, pagava as contas em dia, não era nada especial. déco não poderia sequer aspirar ao reconhecimento, dado que este, em tempos remotos, era dado apenas aos que o mereciam, de alguma forma, e não por apenas terem seus rostinhos aparecendo em algum meio. déco tinha azia de vez em quando, uma diarréia ocasional por ter misturado comidas propícias a tal, tinha dores de cabeça esporadicamente e agradecia à existência da farmacêutica, da qual não tinha o menor conhecimento, e vivia sua vida ali sentado no banco, na fila, no banheiro, arrotando amargo, fazendo a barba.

mas déco tinha um segredo. assistira certa vez a um filme, numa das vezes em que esperava o momento ideal em que sentiria sono e dormiria para recomçear a vida que nunca tinha começado de verdade. não gostava muito de filmes, normalmente não levava deles aprendizado algum, quando muito o tempo de entretenimento que o suporte oferecia. o filme era estranho, mais estranho do que déco podia conceber, mas ainda assim não conseguia largar dele, seus dedos não conseguiam fugir do canal que exibia a obra, e ele entendia. conseguia elaborar toda a história em torno do filme, toda a relação de significados ali contida, todo o universo narrativo e implicações imbricadas na película telecinada. e déco entendia tudo.

no dia seguinte, já no ônibus, ao lado do colega de trablho de que sempre pegava a mesma linha três paradas adiante, déco comentou o explicou todo o filme nos pormenores que lhe tinham relevância. o colega, depois de muito ouvir e acusando o momento da descida deles do coletivo, respondeu.

"que nada, nem vem que ninguém entende david lynch".

como assim 2 uísque?

EM PORTUGAL

Anda meio país, auto-intitulado culturalizado, indignadíssimo com o erro ortográfico que escreve benvindos ao invés de bem-vindos. É claro que o restante da frase “ao Rock in Rio” lhes passa ao lado.

No Arame

Moro há 8 anos aqui no prédio e conheço poucas pessoas pelo nome, acho que só o síndico e duas vizinhas daqui do andar, portanto temos uma forma peculiar de chamar alguns moradores daqui:
1. Coelhinho - um garoto que quando era mais novo, eu estava no elevador com ele e mais uma moça e essa moça disse que ele estava muito bonito fantasiado de coelhinho e o garoto muito bravo disse que a fantasia era de índio. Coitado. Ficou sendo o coelhinho.
2. Soldadinho de Chumbo - um cara que é da PM, chato e arrogante. Guarda uma vaga para o carro dele com uma moto que atrapalha a garagem.
3. Beatle - uma cara certa vez viu um CD dos Beatles na minha mão, disse que adorava e iria mandar convites para assistirmos um show de uma banda cover. Estamos esperando até hoje.
4. Louca - uma mulher insegura que certa vez estava saindo para ir buscar lanche do Mac Donalds para o "filhinho" de 19 anos.
5. Doido - Filho único da Louca, cara é um safado, fuma todas e vive metido em encrenca. Tem um carro com neon azul por baixo, horrível.

Como diz meu pai: bom mesmo só nós :o)

Post It

Há prazer com a nebulosidade, as dezenas de hipóteses, a falsa confirmação das coisas. A verdade nos frusta, quase sempre.

Bricabraque

18.5.04

EU SOU DONO DA VERDADE
E tenho a nota fiscal para provar. Paguei por ela durante quase 34 anos, em nada suaves prestações. Troco-a, de ótimo grado, por mentiras simpáticas ou por um Monza 86 com menos de 70 mil quilômetros. Alguém chame a Granero e leve essa verdade para bem longe daqui.

Pura Goiaba

Que o amor não mais me pese, que não me acorrente, nem me traga amarras mesmo que de cetim. Que não me amiúde, não me escravize, não me ponha cabresto ou arreio e que também não venha por pena de mim. Que o amor me chegue manso como um cachorro ferido e se aconchegue aos meus pés numa réstia de sol e me lamba as mãos como se reconhecesse seu dono. Que venha decidido a ficar para sempre, mesmo que logo ali mude de idéia, que me deixe na boca sempre um gosto de véspera de estréia, um inaugurar de outono. Que o amor de mim se aperceba e me escolha, que me veja entre as multidões e aos seus olhos eu seja diferente e depois me queira e me proponha: me ama simplesmente.

Não Discuto, indiscutível.

15.5.04

Vocês quase me perderam. Além do servidor onde o meu blog está hospedado ter ido pro espaço por 17 dias, o sistema aqui do blogger cismou que eu não existia. Foi por um triz que vocês não ficaram sem chá. Essa passou perto...

Dani, de volta à ativa

A partir de hoje serei a alma da escória humana, enquanto houver maldade eu viverei, pois eu serei a pedra no teu sapato, a paçoca grudada no céu da boca, a tia chata do fim de semana, a hipocrisia, o ódio, a sede de vingança, a podridão que habita a mente humana, eu serei seus piores pesadelos, e não terei piedade em lhe castigar, farei você sofrer até implorar e quando isso acontecer, irei te torturar até a morte! Simplesmente por que eu sou uma MALVADA anoniMÁ.

A.M.A. - Amigos dos Malvados Anônimos

13.5.04

Tem umas coisas que só acontecem comigo.
Em cima da loja tem dois flats, o vizinho de cima está reformando a cozinha, hoje cheguei na loja, abri e fiquei alguns minutos paralisado até entender o que estava acontecendo: metade do teto caiu, teve um vazamento enorme de água, a prateleira do meio da loja virou uma piscina, só vi a testa do Baden Powell fora da agua, ou então o Humberto Gessinger dentro da piscina sentado no sofá na capa do Tchau Radar, eu acho. Deve ter uns mil e quinhentos CD's imersos ali.
Vim para casa buscar minha câmera fotográfica e enviar um e-mail para meu chefe que está no México.
Vou lá salvar os músicos, que nem todos devem saber nadar...
Phoda.

The Nowhere Man

10.5.04

A solidão não me é prazerosa. Não me basto como companhia, preciso dos meus silêncios tanto quanto preciso dos silêncios dos outros a fazer eco dos meus. Eu não basto a mim mesma porque minha matéria não cabe em mim. Vivo de transbordamentos e avalanches e preciso em quem transbordar. Vivo de entregas, vivo enquanto me dou de presente, me ofereço. Vivo para extrapolar minhas fronteiras e me imiscuir em terra estrangeira. Vivo enquanto exploro e fecundo, vivo enquanto tomo outros territórios, enquanto me aproprio, possuo e sou possuída. Minha fome não se aplaca em autofagia, preciso da carne de outros, do sangue de outros, dos olhos de outros.

Não Discuto

A garotinha está sentada no colo do avô, no sofá da sala com capa cinza clara – o mesmo que está lá até hoje – e o avô olha no fundo dos olhos dela e diz que são olhos de jabuticaba. Só mesmo amor de avô para ver qualquer graça em olhos castanhos como a maioria. A garotinha ri e eles cantam juntos: “Cabooooocla, seu olhar está me dizendo/que você está me quereeeeendo/que você gosta de miiiiiiiiim”. Ele é o seu Nelson Gonçalves e ela é a sua cabocla. A avó entra na sala e acena para a garotinha com a encomenda pronta: um copinho de plástico cor-de-rosa, com uma família de coelhinhos desenhados. A coelha mãe veste um vestidinho azul. A garotinha pula do colo do avô e agarra o copinho. Aquela é quase uma rotina dos dias de férias na casa dos avós. A rotina que ela adora. Dentro do copinho, ela sabe, água e detergente esperam para, com a ajuda de um canudinho pequeno, ser transformados, magicamente, em bolinhas de sabão que vão voar pela vila e se espatifar num dos paralelepípedos enormes, enquanto a garotinha observa tudo, curiosa, sentada no degrauzinho de mármore branco da casa.

A garotinha, é claro, sou eu. E, de repente, a saudade dos meus avós me deu vontade de encolher na cama e ser ela de novo.

Epinion

– Pai, o que é Orkut?
– Você não devia estar fazendo sua tarefa?
– Por que quando eu pergunto alguma coisa que você não sabe responder é sempre assim: “Você não devia estar fazendo sua tarefa?” Igual quando eu perguntei sobre camisinha.
– Tá, tá certo. Então. Você não devia estar me perguntando sobre camisinha?
– Eu não quero saber sobre camisinha. Eu quero saber o que é Orkut.
– Mm. Sei. Orkut. Bom. É, hã, uma espécie de associação. Onde as pessoas se reúnem e conversam, e encontram pontos em comum.
– Ah, sei. Igual àquela associação que a mamãe freqüenta, pra parar de beber? E que ela finge que vai – mas vira o carro na última esquina pra ir jogar pôquer na casa da tia Selma?
– O quê?!? Ela faz isso?? Vai pra casa da Selma???
– Só que ela pediu pra eu não te contar. Mas e aí? Vai responder ou não?
– Mmmmm. Tá, filho, tá. O Orkut é um modo de reunir na rede, várias pessoas interessantes, e...
– Ah, igual ao tio Flávio, lá na chácara, quando disse que a empregada e a cunhada dela eram muito interessantes e foram os três pelados pra rede, na varanda dos fundos?
– Quêêêêê?!? Quando foi isso?!?
– Sábado. Mas ele pediu pra não te contar.
– Hã. Hum. Bem. Hã. Bom, Orkut, meu filho, é um mecanismo que permite que você deixe sua ficha, sua foto, seus dados, e...
– Ah. Igual o Júnior fez na delegacia, semana passada, quando foi preso fumando maconha?
– O quêê?!? Seu irmão foi... preso? C... com maconha?
– Foi. Só que tem uma coisa...
– Tá, tá. Ele disse pra não me contar nada.
– Arrã.
– Hã. Mmm. Pfff. Ahhhh. Hm. Olha, meu filho. Orkut é uma invenção de dois carinhas, um russo e um americano, que encheram o rabo de dinheiro com o tal do Google e agora criaram essa coisa aí pra todo mundo se viciar, esquecer o trabalho e ficar horas e horas gastando pulso na internet! Faz o seguinte: vai lá na farmácia agora e compra uma camisinha que eu te explico direitinho como colocar ela!
– Colocar? Mas eu só tenho oito anos, pai!
– Não tem problema. A gente usa uma banana. Pelo menos conversar sobre camisinha vai ser muito menos desgastante pra mim do que falar sobre o Orkut!

Ao Mirante, Nelson!

Ouço Tim Maia, o que me alivia a dor nas costas conquistada em duas horas de treino. Não há nada de esotérico em Tim Maia. É só a distração da dor. Dores são facilmente distraídas com banalidades pop. Ou então com eventos da natureza. Mesmo as dores mais fortes são ludibriadas com artifícios ao acaso. Ao menos por alguns instantes. Hoje à tarde, por exemplo, meu coração rasgava sufocante. Foi então que caiu uma chuva fora de hora sobre a camada sem forma de São Paulo. E não sei se foi a temperatura, a súbita mudança estética ou o cheiro que subiu do Parque molhado lá embaixo. Não sei bem da onde, mas uma súbita paz tomou conta de tudo. Durou adoráveis poucos minutos. Mas garantiu todo o início da noite.

AMARAR

3.5.04

respeitável público,
estou de férias.
volto em breve, tá?

abraços e beijos pra vocês
(conforme o gosto de cada um)

Ratapulgo Cansado

30.4.04

Da convivência com mulheres, uma irritação: ô grupo friorento.

bricabraque

A escuridão, bem diferente da que fazia eu me espremer de covardia na cama, era toda afago. Sentei ao lado de minha tia (qual? Me eximo de usar a cínica desculpa de que estava escuro; não lembro qual tia mesmo) e o cheiro de bala de menta se acomodava ao breu dando a certeza de que o preto era uma cor com fragrância, e doce. Até hoje, quando chamo de volta a experiência, aspiro com a alma aquela essência de menta – sinônimo ancestral de escuro de cinema. Mas eu ia dizendo: o retângulo lá na frente explodiu silencioso; minha retina acolheu o clarão como a escuridão havia me recebido: com familiar surpresa. No meio da tela (era tudo em sépia, pois que o sépia é o preto e o branco com saudade das outras cores) estava ela, cabelo roçando os ombros, e sentada debaixo de uma árvore, sobre uma estampa de folhas finas, alegres, quase desenhadas. Suas pernas estavam encolhidas sob a saia espraiada, o que eu via dela acabava na borda arredondada do tecido – a partir dali, só folhas. Meus olhos, representados dignamente pela câmera, circundaram a árvore, a saia, os chuviscos do sol que furavam a copa da árvore e acendiam de leve, aqui, ali, ali e ali, o sépia das folhas no chão. E o rosto, o rosto dela, o queixo levantado quase nadinha, o suficiente para deixar exalar o aspecto de quem se sabe presente na remota memória de alguém, de quem se imagina acariciada pela lembrança que extrapola a lente de uma câmera. Aí começou a música.

Eu tinha cinco, seis anos. Foi minha primeira vez. Nunca soube que filme foi esse, quem ela era. Acho que vejo filmes compulsivamente – o que faz muitos desavisados me confundirem com um cinéfilo – para, um dia, por acidente, dar com essa cena: ir reconhecendo-a aos pedaços, cair em mim ao identificá-la por completo e ver trinta e tantos anos se dissolvendo em meio à essência de menta. Então acho que as coisas – todas – deverão começar a fazer algum sentido, caramba.

ao mirante, nelson

29.4.04

Em uma certa manhã ou tarde ou noite da adolescência as pessoas decidem o que vão ser – em um minuto. O garoto, visitando o quarto do vizinho que sabe alemão e conhece diferentes aberturas no xadrez, se sente humilhado pelas fotos do vizinho de smoking, jantando num hotel escandinavo com uma garota linda de vestido de noite. “Quer saber, eu sou vulgarzão mesmo, com orgulho”, ele pensa.

E pronto. Cinco minutos antes não era, mais agora vai ser. Chegando em casa se olha no espelho e sorri: “Eu sou vulgar, vulgarzão”. Faz pose de vulgarzão.

Dez dias depois cria um blog que ele mesmo chama de tosco, e deixa comentários elogiando outros blogs por serem toscos: ae supertosco o seu blog huahuahuahuahua. Na escola faz sucesso ao escarrar na própria coca-cola e depois beber - enquanto seus amigos sorriem e fazem cara de vômito, andando pela quadra de vôlei recurvados como se tivessem levado com um taco de beisebol no estômago e gritando “Deus! Deus!”. Repete a façanha sempre que pedem. Dois anos depois está lendo Bukowsky...

Às vezes volta atrás na decisão, é verdade; usa o uniforme de vulgarzão durante uma semana e depois devolve para a loja porque pinica, ou fede, ou solta bolinha. Eu mesmo, acreditem (mostra-se encantadoramente confiante que as pessoas ficarão espantadas) já me disse vulgar, vulgarzão, numa certa tarde do início da década de oitenta. Mas meu conceito de vulgar era o das pessoas pintadas por Frans Hals – você sabe, pessoas de bochechas vermelhas que riem batendo nas coxas e são francas, essas coisas todas. “Eu sou vulgar”, eu disse com orgulho – o caso mais patético de má compreensão de si mesmo desde que Henry James achou que podia escrever peças e Michael Jackson achou que era bad. Usei essa roupa de vulgar durante três dias e desisti. Mas outros, oh, os outros (eu me desespero muito dos outros) persistem, e ficam fazendo desenhinhos de pôneis fumando baseados gigantes nas costas dos cadernos alheios.

Candidamente lhes proponho que todas as pessoas que se dizem toscas (com orgulho) passaram na juventude por um momento de embaraço social e decidiram recuar - para o cantinho mal-iluminado em que Bukowsky eternamente come comida que caiu no chão, sob o olhar vigilante de duas prostitutas paraguaias que riem huahuahuahuahua.


alexandre soares silva

27.4.04

Toda mãe tem que entender e ser paciente.

Meu filho:
-Mãe, cadê aqueles cds que estavam no quartinho de som?
Eu:
- Que cds?
Meu filho:
- Aqueles mãe! Uns pretos!
Eu:
-Cds pretos, filho? Eu nunca vi cds pretos no quartinho de som, tem uns aqui perto do Computador que seu pai gravou umas musicas, seriam esses?
Meu filho:
- Não mãnhêêêe! Uns grandões com um buraco pequeno no meio.
Eu:
- Ahhhh? Filho, aquilo são (ELEPÊS), discos de vinil. Seu pai levou pra guardar na firma....
Meu filho:
- Ah tááá

Nestas horas que eu olho para o céu e penso:
Como o tempo passa rápido.

Bambam e Pedrita - Proibido para menores de 18

26.4.04

POEMA REPUBLICANO

Um bar diante do cu de bronze
do cavalo do Marechal Deodoro,
que, à guisa de enigma, fica
na praça Princesa Isabel:
Isto faz-me sentir tão inadequado
quanto o brônzeo ânus desse
quadrúpede, afinal que faço
eu num boteco no centro da
cidade, alvejado por perdigotos
discursados pelos bêbados?
No entanto o não-caber no mundo
move e se cumpre, ocupando
tudo: eu, cascos de cerveja, o Ceará
dono do bar e até mesmo o cu
do eqüino, buraco negro e cego,
como uma galáxia prestes
a nos engolir sobremaneira.
E entre mugidos ou seja lá quais
impropérios assoprem cus de
estátuas eqüestres, nos dissolvemos,
Mal. Deodoro, Princesa Isabel, praças,
bêbados, você e eu:
sob o vasto merdaçal de pombas
sob a penumbra onde já não vejo gestos
sob asas que não deixam rastros nem sombras
sob a mira da merda de bronze que certamente
uma hora soltará o brioco desse cavalo.

HOTEL HELL

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Casos e Acasos da trifase

O homem do balão

Sabe quando alguém vira pra você e diz: "joga nas mãos de Deus"? Pois é, voar de balão é isso. É se jogar em um cesto de Deus. Um dia antes de lançar minha sogra ao vento, o homem do balão me liga. Uma voz grossa, fria e direta:

- Estou ligando pra cancelar o vôo do sábado. Teremos que agendar para o feriado que cairá na próxima quarta-feira.
- Mas assim? Em cima da hora?
- Desculpa, mas as previsões não são nada boas...

Como é que alguém, sendo o "Senhor Balão", diz uma coisa dessas pra um passageiro de primeira viagem? Pensei: "Vixe! Esse negócio não deve ser seguro. Além de se arriscar em um cesto de vime tamanho família, ainda é necessário acreditar nas previsões do homem do tempo e na sanidade do homem do balão".

- Ô moço, me diz uma coisa: alguém já morreu "andando" de balão?
- Comigo no comando, não.
- Claro! Se tivesse morrido, você também não estaria aqui pra contar a história.
- Engano seu. Dificilmente morreriam todos os tripulantes. Já vi gente ser arrastada em pousos forçados e outros saírem intactos. Vi um rapaz que ficou grudado em uma cerca de arame farpado e outros que não se seguraram direito na hora da descida e foram arremessados pra fora do balão. Alguns chegaram até a sofrer fraturas expostas, mas outros nem sentiram o pouso. Soube de uma mulher que...
- Pára, pára, pára! Tenha dó, meu senhor! Minha sogra vai andar nesse treco em poucos dias e o senhor vem me contar histórias como estas? Agora vou dizer o quê pra ela?
- Perguntou por que, se não estava preparada para ouvir?
- Para o senhor me tranqüilizar, dizer que o passeio é só serenidade, omitir detalhes trágicos... Eu sou mulher, meu querido! Não fui preparada para ouvir a verdade.
- Você acha que atravessar a rua é seguro?
- Anh? E o que tem a ver o loló com as calças?
- Acha ou não acha?
- Acho. Claro que acho...
- Minha mãe morreu atravessando a rua.
- Conversa!
- O sonho da sua sogra não é andar de balão?
- É, mas...
- Então diga pra ela não atravessar a rua antes do feriado. Viver é correr riscos.

Silêncio dos dois lados da linha...

- Lá, lá! Falou bonito, hein moço?

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Dor que dói no peito

- Eu não tenho mais a certeza de que você é a pessoa certa pra mim.

- Ainda existem coisas inacabadas para decidir, e não posso continuar com você enquanto meu coração não for livre.

- Falei com minhas amigas, elas me deram uma força, afinal não é assim que funciona. Preciso de um tempo pra pensar.

- Pelo menos teremos uma boa história pra lembrar.

- É muito complicado eu ter de falar isso pra você, acontece que...

- De início pensei que o problema fosse comigo, muito trabalho, esse tipo de coisa. Mas não. O problema é com a gente.

- Ele veio falar comigo, me lembrou de coisas que ainda marcam...

- No começo eu ainda relevei por causa das crianças. Só que hoje, nessa situação, não dá mais.

- Tentei imaginar a vida sem você, e não foi assim tão difícil.

- Depois desse mês percebi que a nossa situação se tornou insustentável.

- A gente não precisa terminar agora. Ficamos juntos, e esperamos a relação se dissolver naturalmente. Talvez seja mais fácil assim pra você.

Zazoeira

Nem mulher, nem rato. Eu sou é piolho .



1. pegue o livro mais próximo de você
2. abra o livro na página 23
3. ache a quinta frase
4. poste o texto em seu blog junto com estas instruções

"Quais invejosos e implacáveis demônios espalharam sobre ti a intemperança de sua sobriedade, que loucos e odiosos Prócios acenderam a tocha nupcial?"

Em Baudolino, Umberto Eco, Editora Record, 2001.
E foda-se o ISBN.

Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!

Confesso ao nada o que de mim duvido e aos meus ouvidos, grito. Da garganta vem um soluço torto, um choro incerto entre lamento e pranto. Vai ver desaprendi tanto de lágrimas e choro goles de palavras aos pedaços, engulo minha tristeza e vomito uma dor tamanha que te traz mais perto. Tu, que não sabes ser ninho, nem porto, tu que fiz tão longe. Entre nós plantei deserto, pus abismo, cerca de espinho, mas quando choro esse choro de certo desatino, busco tuas sobras, os restos do nosso destino e embalo nos braços um filho morto.

Não Discuto

21.4.04

Com o velho:

– Pai, você tá apertado com aqueles convites lá pro show do Pão de Açúcar?
– Tô. Por quê?
– Porque eu queria mais ums...
– Quantos?
– Dois.
– Eu acho que consigo mais um. Tá foda, filhote. Todo mundo tem um amigo que também quer ir, todo mundo pede vários.
– Pô, mas eu te vi ligar pra uma porrada de gente oferecendo convites.
– Eu liguei pro pessoal do marketing do Banco do Brasil e pra alguns pareceristas do Ministério da Cultura.
– Ah, tá. Só pra galera que apóia o show.
– É, pô. Assim eles continuam do lado dos projetos.
– Pai.
– Oi?
– Você suborna as pessoas!
– Não suborno, meu filho, mas as pessoas que estão envolvidas com o projeto recebem por isso.
– Hm.
– Entendeu.
– Você suborna as pessoas!
– Tá, eu suborno.
– E com o dinheiro do Abílio Diniz ainda! Pior do que o cara que saca grana do próprio bolso e compra alguém é você, que saca grana do bolso alheio!
– É isso aí.
– Seu pilantrão!

Laboratório Secreto

Crônicas do Amor Possível
by sérgio p torres

I - A Cervejinha Gelada

A noite, já deitados, o casal combina as tarefas para o dia seguinte:

- Amanhã tenho uma reunião da diretoria. Vamos acertar o cronograma para o 2º semestre. Você leva as crianças para a escola?
- Claro, meu bem...
- A casa tá cheia de pó.
- Tá, amor, eu arrumo...
- A pia tá cheia de louça.
- Eu lavo...
- Vou trazer uns colegas pra almoçar.
- Quantos?
- Três. Capricha na comida.
- Você podia ter avisado antes...
- Decidi agora. Tá faltando alguma coisa?
- Não sei...
- Você nunca sabe nada. Bem, qualquer coisa você passa no supermercado depois que deixar as crianças na escola.
- Tudo bem. Não esquece de deixar o dinheiro.
- Puxa, você só me dá despesa. Vê se pelo menos não esquece de botar a minha cervejinha pra gelar, tá?
- Tá, não esqueço...
- Não deixa congelar.
- Tudo bem...
- Amanhã vai ser puxado. E de tarde, o que você vai fazer?
- Não sei ainda, acho que vou ao shopping...
- Shopping!? Por que você não arruma um emprego, nem que seja de meio expediente?
- Tá difícil, amor...
- Você só sabe torrar o meu dinheiro. Também, quem mandou largar os estudos? Não viu a fila de candidatos pra gari? Tinha gente até com curso superior!
- Eu sei...
- Sabe, mas não faz nada, não é? Ninguém merece. Esse negócio de ficar em casa sem fazer NADA não tem cabimento.
- Desculpa, amor. Mas é muita coisa pra uma pessoa só fazer...tem que levar as crianças pra escola, ir ao supermercado, banco, costureira, lavanderia, o almoço, a louça, a casa, a cervejinha gelada...
- Alôôôuuuuuu...quem é que rala todos os dias e sustenta você, as crianças e a casa?
- É você, Marisa...
- Então, Haroldo, vê se pelo menos não reclama tanto.
E apaga a luz que eu quero dormir.

decadência urbana

20.4.04

Se esparrama com delicadeza, dá um sorriso (discreto) de canto de boca, espia pelo buraco da fechadura sem nenhum pudor.
Dá marcha a ré menor sem charmeur, segue pelo caminho mais comprido dando um adeus dramático e nada mais.
Suspira com impaciência resignada.
(não basta um grande amor para escrever poemas.)

Carbon Monoxide

Estava no saguão do prédio esperando o elevador, eu tinha uns 5 anos. Chegaram dois garotos que deviam ter a idade que eu tenho hoje, falaram de trauma. Um deles já tinha se encontrado com a porta de vidro daquele saguão, de bicicleta, e se cortado todo. Mostrou uma cicatriz no braço e outra na perna, apertou o botão do elevador e ficou esperando como eu. Foi nesse dia que eu aprendi o significado da palavra "trauma". Tive medo do trauma.

Sempre achei que eu era uma pessoa sem traumas, bem resolvido. Eu penso reto, simplifico as coisas e tudo parece até ser fácil... E os outros parecem pensar que eu tenho soluções. Eu só observo os ombros das meninas que vêm de camiseta reluzindo as lâmpadas frias da sala de aula. Meus ombros não andam erguidos, meus traumas devem estar tão intrínsecos que não consigo detectá-los. Não consigo dizer de onde os meus medos vêm.

Eu só encontro esse som que vem e me amarra por dentro, me carrega, me faz voar, cair no mar e me afogar, subir à tona secar na superfície do sol, queimar, congelar. E eu estou dentro de casa. Estou aqui querendo estar longe. Eu quero ir para longe, quero trocar alguns amigos, quero deixar de gostar de algumas pessoas. Gostaria de parar de discriminar os feios e acreditar na honestidade das meninas dos ombros bonitos, me sentir feliz assim e fazer uma serenata.

Para no dia seguinte acordar e encontrar as penas do travesseiro ao meu lado... E vem esse som que minha cabeça-rádio capta no ar e tenho medo de passar todas as minhas tardes assim... Preciso alcançar o coelho nas luzes do carro. Andar a pé na areia da práia, numa tempestade, de madrugada, ao lado de alguém. Minha respiração... já está... ficando... devagar... denovo.


Reticências de Um Poeta Morto

Sonhos são

Três fortes batidas numa porta imaginária. Abro como num ensaio de uma peça de teatro, alguém aparece de cabelos quase raspados; pele branca, alto, magro, olhos grandes e marrons.
Trazia em uma das mãos um coração sangrando e ainda pulsando; o sangue escorria sobre a sua pele clara pelo braço até o cotovelo. Não identifico o sexo. Me olha severamente como que me repreendendo por algo que fiz um dia qualquer. Examino minha consciência, minha vida toda passa como um filme em Rewind e um sorriso surge por trás dos seus lábios finos e rosados.
As sobrancelhas antes arqueadas ficam leves. Seus traços me fazem lembrar carinhosamente alguém.
Me abraça com tanta ternura... diz que eu continue como sou. Caio no choro.
Abre a porta invisível e vai embora sem olhar para trás.
Eu sento na cama, pego uma fita de vídeo e vejo partes da minha vida em preto e branco e colorido.

Acontecível

E para não dizer que não falei de “flores”...

Eu adoro meninos que me ligam e me dão atenção. Eu adoro meninos que me convidam para ir ao cinema nos domingos de chuva. Eu adoro meninos que abrem portas para mim. Eu adoro meninos que são bonitinhos mesmo quando eu não estou mais sob efeito do álcool e fazem a barba e usam Fahrenheit. Eu adoro meninos que insistem em me levar em casa, que fica perto do fim do mundo, que vão até lá dirigindo civilizadamente e quando chegam dizem: “agora eu sei aonde tu mora...”. Eu adoro meninos que me ligam meia hora depois de ter me deixado em casa para dizer que acharam o caminho de volta para suas próprias casas e que dizem que gostariam muito de me ver no feriado próximo.

Perigo.

Deep Cuts