A pior coisa de uma peça de teatro é o tédio que ela pode vir a causar. É um espetáculo estranho, esse do tédio. Você sai de casa numa noite quente, anda algumas quadras até o teatro, crente de não estar perdendo seu tempo. Claro que no meio do caminho pode pensar que, de repente, fez um mau negócio. É natural. Afinal,no sábado à noite a TV exibe Vídeos Incríveis, Zorra Total, ou um filme baseado numa história real no SuperCine. Pode não ser a melhor coisa do mundo, mas é capaz de ser melhor que a peça a que se está indo assistir.
Faltam poucos passos para o teatro. Suas pernas começam a bambear. Você vê casais abraçadinhos nos bares do Largo da Ordem e pensa no porquê de estar indo assistir a uma peça, sozinho, no sábado à noite. Amaldiçoa os deuses do teatro. E, no átimo seguinte, revisita mentalmente todas as vezes em que trocou um programa a dois por uma peça. Arrepende-se, claro. Ainda mais se lhe vem à mente a peça Ela, do histriônico Zé Celso, na qual o diretor, em nome da arte, mostra uma parte recôndita do corpo à platéia. Fazia frio naquele dia e ao final do espetáculo uns poucos espectadores, entre eles você, estava na platéia.
Não será o caso, pensa, otimista. Afinal, não se está indo a uma peça de vanguarda. Ora, a poucos metros do teatro você pensa que é mesmo uma pessoa sábia: trocou o jantar a dois por uma peça de Nelson Rodrigues. Como você é esperto!
As portas do teatro se abrem com algum atraso. Um charminho, claro. Tudo bem, você não reclama. Procura em vão um bebedouro no Memorial de Curitiba, bebe dois goles de água ?emprestados?, conversa aqui e ali com as pessoas que insistem em perguntar se você dispensou a guarda pessoal (e, neste caso, você ri como se não entendesse, entendo, claro), olha uma menina que numa rodinha à frente chora e sente aquele impulso altruísta de ir lá perguntar por que e não o faz, escuta pacientemente a menina que vendo uma rifa para montar um espetáculo qualquer, mais conversa, no meio da qual se pergunta que filme vai passar mesmo no SuperCine, quase arrependido. Eis então que se abrem as portas do Teatro Londrina para a Valsa Nº 6, de Nelson Rodrigues. Em pensar que você estava prestes a ir embora...
continua em o polzonoff
10.2.03
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