9.2.03

Patriotismo

Não vejo nada de ridículo no patriotismo. O problema é que a palavra foi usada quase sempre por imbecis. Mas o sentimento em si é natural: você ama a rua em que viveu, porque tem memórias ali; ama o seu bairro, sua cidade, um certo corredor da sua universidade, um certo trecho atrás da quadra de vôlei do seu colégio, porque tem memórias ali. Isso é o seu país.

O meu problema é que o meu país é em grande parte os livros que li e os filmes que vi. E isso não é o Brasil, é alguma outra coisa. Li mais sobre Belgrave Square do que sobre a Praça da Sé. Tenho mais memórias do castelo de Blandings, criado em livros por P.G. Wodehouse, do que do terreno baldio perto da minha casa, onde só brinquei uma vez.

O território do meu país: alguns quilômetros quadrados de páginas impressas, mais quinze trechos de rua em São Paulo, Rio, Lisboa, mais uma certa idéia de Londres, Paris, São Petersburgo, mais a minha poltrona, mais a minha tevê a cabo. O apartamento do Seinfeld. Narnia. O Sítio do Picapau Amarelo. Que rio corta a minha cidade? O Neva, que às vezes é o Tâmisa.

Como deve ser bom simplesmente se sentir confortável no próprio país, no país oficial, no Brasil; não ter essa necessidade de ler sobre Washington Square ou a Perspectiva Névski. Mas se fico algumas horas passeando pelo centro da cidade, começo a sentir saudade da Perspectiva Névski, onde meus compatriotas passeiam na neve, falando português de tradução. Conheço bem o mapa de São Petersburgo e de Moscou, mas me perco sempre nesta cidade...

E ainda há quem fale mal de quem não gosta do Brasil! Poder gostar do Brasil - poder me sentir tão bem aqui quanto me sinto no país da Rússia Traduzida de Boris Schnaiderman - não posso imaginar nada melhor do que isso... Quem, aparentemente sendo brasileiro, fala mal do Brasil, não faz isso por maldade, ou por afetação; faz isso porque se sente desconfortável aqui como se estivesse no estrangeiro. E ainda é odiado pelos patriotas que confortavelmente vivem no país que amam.

Alexandre Soares Silva

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