COMO AS MULHERES REAGEM QUANDO VOCÊ AS ENCARA NA RUA: PEQUENO CATÁLOGO DESORGANIZADO (REPOST)
As que ajeitam os cabelos sao as piores.
Há as que olham para o chão.
Aquelas de peitões sob camisetas translúcidas olham para eles. Talvez para fazer uma rápida checagem ou entao como se dissessem: sao meus e você os quer, né?
As de óculos escuros: há aquelas que olham por cima deles para você, e outras cujo olhar a gente perde completamente e fica apaixonado por elas. A não ser que ajeitem o cabelo.
As de óculos de grau geralmente são as que olham para o chão.
As mais raras são as que enfrentam o seu olhar, seguram-no, desaceleram o passo e aceleram o meu próprio passo e o meu coração. Destas você, o tímido, tem medo, mas também se apaixona por elas, a não ser que ajeitem os cabelos, claro. Apaixonar-se quer dizer levar o impacto da sua imagem gravado na retina durante um certo tempo.
As que olham com raiva.
Outras ajeitam a roupa. Por exemplo, esticam a blusa quando focamos a barriga e o umbigo. Não gosto dessas.
Acompanhadas por outro homem, retribuem o olhar. Dá vontade de agradecer-lhes pela distinção.
Olham para cima como se dissessem: céus, mais um que me olha, não aguento mais.
As que não existem: olham para trás quando você passa por elas em sentido contrário, como se fossem homens. Estas realmente não existem.
Que usam aliança: um capítulo inteiro para elas, livros. Kareninas, bovarys, luísas que passam por você como grandes desastres naturais, mas dos quais sai vivo por muito pouco. E depois se arrepende. Mas dá graças aos céus por ter se arrependido. Sabe que é melhor arrepender-se da omissão do que da ação.
As grávidas: olham para você olhando para a barriga delas. E fazem com que você deseje ser uma pessoa melhor.
etc.
terceiro BLOGAUTI
30.10.04
29.10.04
punção da pulsão
Deitada no colo do médico, como se fosse uma boneca de pano de tamanho natural, daquelas com as quais se dança caipirescamente, pés enroscados nos sapatos, sofreria uma punção no pulmão. Mas a palavra que surgia era pulsão: uma pulsão no pulmão. Agulhas de vários tamanhos, com seringas e objetos de operações estranhas. Mistura de dois movimentos. A punção que punge, fura e retira o líquido, o pus, seja lá o que for, ajuda a diagnosticar, a curar. A pulsão que impele, pressiona, movimenta. Para onde me leva minha respiração?
as partes do corpo
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DaniCast
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29.10.04
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Falsos profetas e promessas de uma terra que não existe - ou deixará de existir brevemente
Na porta da escola, uma criatura de boina me perguntou se eu gosto de poesia e ainda teve a bênção de receber o movimento da minha cabeça se movendo negativamente e não um grunhindo, uma careta, um tapa no cocoruto, derrubando a boina dele no tráfego, ou coisa que o valha. A criatura, vendo eu entrar na escola - que não ensina nada - e com a pasta de desenho em mãos - que só serve pra dificultar minha locomoção e esmurrar acidentalmente velhinhos e velhinhas nos ônibus e metrôs de São Paulo - riu pseudo-sarcasticamente, porque eu tenho uma religião, e nela se baseia que pessoas que usam boina, ou vendem poesia na rua, abordando pedestres atrasados, não tem capacidade intelectual para atingir o nível do sarcasmo bonito, o sarcasmo maroto e malandro dessa rapaziada traquina, e disse "Estuda arte e não gosta de poesia? Humpf", e eu gastaria toda minha saliva (estou resfriada, ainda por cima) cospindo nos seus livrinhos, picotando a boina em mil pedacinhos, torturando ele num quarto do Hotel Melancia do Ruy Othake, derrubando ele de alguma rampa do Oscar Niemeyer e gentilmente penetrando um quadro com círculos e quadrados e outras formas geométricas chamadas arte na cabeça dele, já desboinada e sangrenta, mas eu estava atrasada.
*
Nada bom pode vir com o Verão que não seja neve. Cansada, cansada.
Fabulosa e Inútil
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Ratapulgo
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29.10.04
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Esquizofrenia
- Cê pega mulher pra caralho, né?
- Claro que não. Olha pra mim! Vê se eu sou o tipão que pega mulher aos borbotões?
- Ah, manda a real. Essa conversinha de "sua opinião que se foda", esse ar de "tô cagando pro que você pensa" e teus textos de "toma aqui a verdade na tua cara e vê se agüenta o tranco" são só pra deixar a mulherada atrás de você.
- Deixa eu ver se entendi: na sua cabeça, então, não há nada mais irresistível do que uma pessoa que não só discorda de tudo como faz questão de deixar isso bem claro? É isso? Ser chato é o tipo de coisa que atiça os seus hormônios?
- Mas você não é chato.
- A descrição que você fez soou bem chata, pra mim.
- Ah, cê entendeu. E não muda de assunto. O fato é que você é um pegador.
- É, eu sou um pegador, sim. Ô! É só eu adentrar um recinto e a mulherada de imediato entra em polvorosa. Os olhares percorrem meu corpo, ardendo com lascívia. As bocas sussurram meu nome, as faces enrubescem, as mentes ficam vazias, retornam para seu estado primitivo e tudo o que as fêmeas passam a desejar, a partir de então, é o contato carnal puro e simples com o macho alfa aqui. Algumas choram, outras, ignorando a presença de estranhos, não conseguem conter o desejo que escorre delas qual pororoca do amazonas e levam as mãos às suas fontes personalizadas de prazer. O objetivo de todo ser vivo com dois cromossomos X num raio de 20 metros é sentir dentro de si a presença inenarrável deste que vos fala. Pode crer.
- ...
- ...
- Além de tudo é um poeta, veja só.
- Você perdeu completamente o contato com a realidade, na boa.
Puro Pedro Nunes em ::Utopia Dilucular::
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Ratapulgo
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29.10.04
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"Eu gosto de brigar mas tenho a mão fraca, doutor".
[Marcão, negão de 2 metros e meu considerado, ao pedir hoje que não lhe apertasse a mão com muita força. Destruiu alguém na madruga, de novo].
*
Coitadas das putas da Augusta. Ou mostram a mercadoria e congelam, ou seduzem na base do olhar. O que não é propriamente a vocação de todas, a começar das vesguetas. Sim, elas também faturam. Tu acha que o cara vai olhar nos olhos e dizer meu bem? Passar talquinho? Só não pode ser vesgo o olho do cu. Esse tem que olhar o freguês na cara, convidativo, e convencê-lo de que é pitéu. Vale piscar.
*
Não adianta, não consigo ler ogivas nucleares. Sempre leio vaginas nucleares.
*
Hoje tá bonita a manhã em São Paulo. Céu azul, friozinho, um lindo sol, uma luz leve. Uma bela manhã pra se comer um cu...
compilação da finesse do ¢AtaRrO vE®De
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Ratapulgo
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29.10.04
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Gus Van Sant´s Superman (2004)
Muitos riram quando Gus Van Sant disse que ia dirigir sua própria versão de Superman, mas o diretor calou a boca de todos com a atuação que conseguiu arrancar de Philip Seymour Hoffman no papel principal. Poucos se esquecerão da cena em que Hoffman (Superhomem), num quarto de hotel vagabundo, telefona para Lois Lane (Jennifer Connely) e começa a chorar e se masturbar ao mesmo tempo.
Superman: Oh, God, Oh, God, Oh, God…
Lane: Who is this? Clark?
Superman: Uh, no… It´s Superman… I´m sorry…Oh, God. (desliga)
Ou da cena em que Lex Luthor (Dennis Farina) e seu capanga Otis (Steve Buscemi) abrem um armário de vassouras em seu esconderijo subterrâneo e descobrem o Superhomem se masturbando lá dentro.
Luthor: What the fuck...?
Otis: Jeez.
Luthor: What the fuck is that?
Superman: I´m sorry.
Otis: He´s jerking off.
Luthor: No shit. I know he´s jerking off. I can fucking see he´s jerking off.
Superman: Please, it was a tough day… I´m sorry, I´m on my way out…
Luthor: Not so soon you´re not. You stay right here, pervert. I´m going to call the police.
Superman: Please, sir? Sir? It´s not necessary to call the police…
Otis: And tell him to clean everything up. Jeez.
Mais tarde Louis Lane perde um braço graças ao vício da heroína, e o Superhomem a carrega no colo, os dois atravessando nuvens ao som de P.J.Harvey. Ele a leva para a sua fortaleza (que fica num prédio abandonado e todo pichado no Bronx), onde ele tenta se matar tomando pílulas de kriptonita enquanto Lane se droga e vomita.
Superman: I´m such a fuckup... It´s all my fault, I´m such a fuckup… Sooner or later I fuck everything up, it´s just the way I am… I fuck everything up... I´m sorry, Lois, I´m so sorry…
Nesse ponto Lex Luthor e Otis entram na fortaleza do Superhomem e encontram os dois estrebuchando no chão, rolando nos jornais amassados que cobrem o concreto aparente, o uniforme de Superhomem todo coberto de vômito.
Luthor: What the fuck is that?
Otis: Jeez.
Luthor: Ok, that´s it. You go in there and kill them.
Otis: Hey, I´m not going in there, man.
Luthor: You take this, you go in there and kill them, Otis.
Otis: You crazy? There´s puke all over the place, man.
No final Otis acaba entrando, mesmo resmungando muito (“Fucking US$500 shoes, man, all messed up with Superman puke now. Shit.”), e tenta matar Lois Lane primeiro, mas o Superhomem se agarra na sua perna e tenta resistir, gemendo e gritando ao mesmo tempo, numa das mais terríveis e dramáticas manifestações de dor da história do cinema. Otis mata o Superhomem, e em seguida aponta a arma para a cabeça de Lois Lane, que diz, com o rosto coberto de lágrimas e vômito:
Lane: If you kill me, you´ll have killed the last orchid of God´s vast greenhouse in space, the last daffodil ever to be carried in the lap of the angels to the Virgin Mary herself. The last child of instant oblivion and eternal smile…
Otis: Hey, if you say so, lady. (atira) Whatever keeps your boat sailing, you know?
Não perca também o Superhomem de Walter Salles, no qual o berço do Superhomem cai na caatinga. O menino é criado por dois sertanejos, mas o destino faz com que ele se mude para Nova Iorque, onde se transforma no Superhomem. Um dia, ao ver uma partida da seleção brasileira em um restaurante de feijoada em New Jersey, Clark sobe na mesa, abre o paletó e grita: “Caralho, eu sou brasileiro! Eu sou brasileiro, porra!”, dando muitos socos no “S” de Superman e soltando cuspe. O que se segue é uma viagem pelo nordeste em busca de suas raízes e blá blá blá - ao som de Caetano Veloso em, para usar a linguagem das revistas de cultura, “trilha inspiradíssima”. 217 min.
vão lá ver as fotinhos no Alexandre Soares Silva
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Ratapulgo
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29.10.04
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are you surfing from just pains?
Spam mesmo é afirmar: pedofilia não é crime e não dá cadeia. O que não deixa de ser verdade. E no entanto se move.
Puxaria a fila na porta do auditório, “tio, tio, dá logo um Oscar ou um Nobel pro Brasil, ele queria muito, sabe. É melhor pedir do que roubar”.
Mil pacotes, foi tudo o que Iscariotes levou. Queria trocar por 3 Milon.
Precisa nosso povo de prêmios? E fazer zunzum na cama?
Acham que democracia é voto, mesmo em competições de beleza, literatura, jogos aquáticos. Sorteio é ainda mais democrático.
Nome para blog? Oscar Wilde comeu meu tapete. E este: Bush gemendo e soprando.
saudade do presidente Figueiredo
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Ratapulgo
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28.10.04
NOVAS PROPOSTAS PARA UM MUNDO MAIS MELHOR
Uma reforma do Código Penal que inclua um capítulo novo, "Dos crimes contra a estética". Se me fosse dado escolher, colocaria nela o uso de pochete como crime hediondo, inafiançável. Minha proposta inclui campanhas de despocheteamento: imaginem dezenas de sujeitos vestindo moletom e mocassim caramelo, sem meia, na fila para entregar sua pochete na delegacia mais próxima. Todos seriam, é claro, presos no ato por atentado violento à estética, desacato ao bom gosto e mais uns três ou quatro artigos. É a festa da cidadania. Unha comprida do dedo mindinho também está na minha lista de crimes hediondos. E vocês, o que acham que deveria constar dessa grande reforma estética do Código Penal?
deposite sua sugestão na festa da democracia do puragoiaba
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Ratapulgo
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28.10.04
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27.10.04
OS MACACOS DO MUSEU BRITÂNICO
Aquela conhecida tese proposta por Rutheford, para ilustrar a gratuidade na combinação das idéias que compõem as grandes obras (milhares de macacos, no saguão do Museu Britânico, datilografando ao acaso, acabariam por compor ao longo do tempo a obra completa de Shakespeare), ganha neste blog uma rica exemplificação, com o detalhamento do conteúdo de alguns trabalhos que brotariam desta instigante metáfora simiesca. Sente-se no primeiro galho e aprecie, leitor.
Teríamos, portanto, a peça "MacacBeth", onde o protagonista, ao ficar com a macaca (no caso, Lady MacacBeth), elimina brutalmente quem se puser em seu caminho rumo ao trono da Escócia. Outro destaque seria "Muito Barulho por Bananada", onde, farto de descascar a banana sozinho, Benedict ousadamente convida sua desafeta Beatrice a provar do longilíneo fruto. Teríamos também "A Megera Domesticada", onde Katharina, uma histérica macaca de auditório, é estudada pelo antropólogo Desmond Morris, que acaba se apaixonando e tempos depois publica a erótica obra memorialista "A Macaca Nua". Não podemos nos esquecer também de "Macaco Antônio e Cleópatra" e "Mico Andrônico", entre outras.
Mas não apenas o teatro shakespeariano seria reproduzido pelo staff de símios datilógrafos. A lei das probabilidades mostra que dali poderiam sair também clássicos da literatura ("A Montanha Mágica dos Gorilas", narrando a estadia da primatologista tuberculosa Diane Fossey num jardim zoológico suíço) e roteiros de sucessos do cinema ( "O Último Orangotango em Paris", onde um velho macaco em crise existencial empurra na jovem Maria Schneider uma média de pau com manteiga) e mais, muito mais. São, como o leitor pode ver, exemplos em penca.
Ah, certo. Não procede a insinuação de que o conteúdo deste blog poderia ser reproduzido na experiência do museu britânico. Na verdade ele é já é originariamente redigido lá.
Ao Mirante, Nelson!
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27.10.04
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O Início de Tudo
Tudo começou aos 16 anos, naquela fase de "eu vou mudar o mundo", "por que eu?" e "ninguém me entende" (se bem que esta última ainda esta valendo). Durante um fim de semana planejei tudo; como seria, onde seria, com quem seria e em que local seria. Tinha que preparar o terreno, especulei a minha mãe sobre minha decisão, que, obviamente foi contra, afirmando que ainda era nova, que menina direita e de família não deveria pensar nisso, que era uma coisa muito importante e me marcaria para o resto da minha existência.
Consultei meus amigos, pois aos 16 anos os amigos sempre têm razão, alguns eram a favor, outros completamente contra. O fato é que estava decidida, eu queria e pronto. E quando uma menina de 16 anos põe uma coisa na cabeça...
Lembro como se fosse hoje, foi numa quarta-feira. Menti a minha mãe dizendo que iria estudar na casa de uma amiga. Tirei cópia do RG. da minha irmã, que já contava com a almejada maioridade, e lá fui. Claro que fiquei receosa da dor, alguns falavam que doía muito, outros diziam que dava uma espécie de prazer indescritível. Fui lá, sentei na cadeira e fiz minha primeira tatuagem.
Tati Tatuada no E o Tema é... da outra semana
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Ratapulgo
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27.10.04
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26.10.04
Vó Luíza
A gente chegava na casa da Vó Ada e fugia da Vó Luíza. Mas pelas orelhas, tínhamos que a cumprimentar. Minha bisavó não gostava de tomar banho. Se escondia na hora do banheiro e era até engraçado. Cheirava a velho, com os cabelinhos enroscados num coquinho, dava um trabalhão pra minha avó. Andava pela casa, baixinha e magricela, e, pelo que me lembro, não dizia coisa com coisa. Já peguei a velhinha variando. Mas, quando o crack da bolsa de 29 detonou a fortuna do bisavô e eles ficaram pobres da noite para o dia, foi ela quem sobreviveu ao ataque cardíaco do marido. Sem um puto no bolso, transformou a mansão em pensão para moças de bem e sustentou a filharada toda fazendo comida e servindo na porcelana chique, presente de casamento. Fomos visitá-la num sanatório para velhinhos bem tratados, minha última lembrança dela. Corria pelos corredores fugindo da gente. Acho que quando ela viu que tinha cumprido suas obrigações pensou: agora eu relaxo. Apesar da aparência austera, suas corridas e fugas eram na verdade risadas e gargalhadas. Ela estava era brincando de pegar...
as partes do corpo
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Ratapulgo
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26.10.04
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25.10.04
O Elogio do Tédio
"O problema do homem moderno não é a maldade dele. Ao contrário, ele prefere, no conjunto, por razões práticas, ser bom. Simplesmente, ele detesta se entediar. O tédio o aterroriza embora não exista nada mais construtivo e generoso do que uma boa hora cotidiana de tempo morto, de instantes sacais, de encheção paralisante, sozinho ou acompanhado. Só o tédio permite gozar o presente, mas todo mundo procura o contrário: para não se chatearem, os ocidentais fogem através da televisão, do cinema, da internet, do telefone... Eles nunca estão no que fazem, visam apenas por procuração, como se fosse uma desonra ficar apenas respirando aqui e agora. Quando se está na frente da televisão, ou na frente de um site interativo, ou telefonando pelo celular não se vive.
Como fugir do divertimento? Enfrentando a angústia.
O mundo é irreal exceto quando é sacal." - Frédéric Beigbeder
Com alguma experiência no assunto - ao estar literalmente coçando o saco por sete dez meses ininterruptos - eis que vos intero desse bem-ou-mal que é o tédio. Não o tédio endomingado dos trabalhadores, da falta de programação na televisão, do esgotamento de ingressos do show de sábado, da ausência de som, do olhar vago. Não o tédio adolescente dos que ficaram em casa no final de semana, porque mamãe queria que estudassem Química Orgânica para a prova de segunda-feira. Não o tédio congelado em plano, feito quadro, por um minuto de reflexão. Não o tédio passageiro. O tédio vago. O tédio provocador. O tédio impulso. O tédio magro.
Falarei do tédio induzido, do tédio provocado, do tédio cutucado com vara curta, do tédio longa-metragem, do tédio sem frescura.
Porque é assim que me sinto muitas vezes, querendo sem querer, sentado em minha cama, lendo um livro interrompido, ligando a televisão, me levantando para trocar de canal só para fazer exercício porque deixei o controle-remoto cair debaixo da cama, desligando a televisão, abrindo a porta, mudando de idéia, fechando a porta, abrindo a porta de novo, andando pelo corredor, checando se minha mãe vê televisão no mesmo lugar, se minha irmã janta ao chegar da faculdade sentada na mesma cadeira, voltando para o quarto, sentando na cama, abrindo o livro interrompido.
Com vontade de estourar a cabeça na quina de todos os móveis para ver se algo de novo acontece, se o sangue vai espirrar pela tela da televisão desligada, se a dor será muita, quantos pontos vou levar na testa, quantos analgésicos vou ter de tomar para dormir tranqüilo às duas da manhã. O tédio enclausurado, fechado, enjaulado, enlouquecedor. O tédio meia-noite. O tédio demente.
Uma vez em estado de tédio, difícil recompor-se ao estado normal, é uma injeção de anestesia, a dor lateja, quer gritar, escorrer e não consegue.
Sei que não é muito bom provar do pote, sei que é causa provocada, antes alarmada e, talvez por isso, seja tão perigosa mas, ao mesmo tempo, nos dá o valor exato do divertimento, do tempo-à-toa, sem conta no relógio.
Diria que a vida de vagabundo é doce, melhor do que se imagina e eu a adoro. Nada como dormir às três pensando no que não vou fazer amanhã, ou no que vou deixar para depois de amanhã. Nada como ouvir música na segunda sem pensar no trabalho de terça, na prova de quinta ou no relatório de sexta. Nada como não saber que dia é hoje ou em que mês estamos. Mas não por sete dez meses.
Seria ótimo por uma semana, suficiente por três, mas tedioso por sete dez meses.
Então quero arranjar um trabalho. Na locadora. A locadora é aqui perto, a um quilômetro de casa. Me daria bem na locadora, gosto de filmes, sei dos novos títulos, poderia ler alguma revista importada, decorar o imdb, persuadir os clientes a alugar filmes terríveis. Quem sabe procurar algo nesse negócio que acaba de abrir na minha rua. Deve ser bom trabalhar na rua de casa. Sem gastos com transporte ou almoço. Alguns passos e estaria de volta. E tchum! Meu mundo encolhe trezentos metros a cada dia que passa.
Primeiro era o universo, e o céu não era o limite. Com o sonho arruinado de me tornar astronauta, veio a estratosfera. Ainda era o mundo, com as chances de me tornar Imperador Geral de Todas As Nações, mas veio Bush Jr. Depois era a América com meu talento para a música e a minha aptidão nata para a guitarra e aí veio a realidade. Hoje é o meu quarto.
Amanhã o meu umbigo. Depois o meu fígado, meus rins, minhas tripas, toda a minha carne e devoro-me com verocidade porque nada me resta, nem o infinito, nem a juventude dos meus 18 anos. Só eu, eu mesmo e minhas tripas. Pensamentos jogados ao vento, cacoetes, idéias absurdas, sensação de sede, sudorese, calafrios. Poderia ser catalogado ou identificado como doença psicótica de ordem gravíssima, mas não é nada não, é só tédio.
"A vida é aquilo que nos acontece enquanto estamos ocupados com outros planos." - John Lennon
Thiago Capanema Não vá se perder por aí
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Ratapulgo
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25.10.04
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Sex on the beach
Setecentos quilômetros de BR-116 esburacada e chuva, tudo isso ao som de uma fita do Tears for Fears comprada em posto de gasolina, a única música não sertaneja que encontraram na estrada. Trocavam duas palavras a cada 50 quilômetros –ele, ao volante, atento ao tráfego e remoendo, remoendo; ela, fazendo que dormia no banco de passageiro. Casal moderno e sempre repletos de trabalho, passaram seis meses planejando férias sincronizadas, negociando escalas, horários e prazos com chefes e clientes, apaziguando mães preocupadas, arrumando quem aguasse as plantas, alimentasse os gatos, cuidasse dos apartamentos. Agora, depois de um mês de praia, aquele silêncio todo no carro, enquanto as tias fofinhas repetiam, repetiam, repetiam “these things/ that I’ve/ been told/ can rearrange/ my world/ my doubt/ but inside out...”
O plano secreto dele, no dia da partida, era esperar a última noite das férias e propor que fossem morar juntos (com direito a anel, barato mas honesto). Já ela planejava encontrar, na intimidade do ócio e da praia, um jeito de contar que tinha dormido com outro, em viagem de trabalho, mas que o amava. Enquanto ele meio sonhava e meio temia o casamento, ela meio temia falar sobre o amante (com quem meio sonhava). Alugar o tal “chalé” fora uma idéia de jerico, aliás. “Pertinho da praia”, disse a dona. Dois quilômetros, e de morro, constataram os turistas. Na chuva, o forro vazava; ao sol, o teto fervia. Ele, metido a macho, paulistano, recusou o filtro solar: uma semana de bolhas. Ela, usualmente tarada, descobriu que não conseguia furumfar direito com o namorado, por sentimento de culpa. No passeio de escuna, só tocava É o Tchan. O banana-boat virou. O rango local era ruim e caro. Uísque, só Natu Nobilis.
Os últimos quatro ou cinco dias até que foram bons, os dois ponderaram, acostumados ao desconforto ou nostálgicos com antecedência pelo final das férias. Dois dias antes da volta, ele decidiu que faria, sim, a proposta. Foi naquela noite que ela contou. Ele saiu do chalé, pegou o carro, dirigiu até a praia, jogou o anel no mar. Barato, mas o prejuízo doeu, mesmo assim. Dormiu no Uno. Voltou ao raiar do dia, e encontrou as malas prontas e a namorada de cara inchada depois de uma noite de choro. Esqueceram as fitas no chalé, pararam para encher o tanque e ele comprou o maldito cassete das tias fofinhas. Passados 10 anos, ele ainda range os dentes quando ouve “Working Hour”. Da viagem, só aprendeu* que, ao contrário do que dizem os filósofos de botequim e letristas de MPB, o arrependimento pelo que não se faz é muito melhor do que o arrependimento pelo que se fez. (Também aprendeu que, ao viajar com a namorada, melhor levar um iPod. Just in case.)
* Se ela aprendeu alguma coisa? Aprendeu. NEVER kiss and tell.
Noronha, o meditabundo
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Ratapulgo
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25.10.04
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Salvador, 20 de outubro de 2004, 1h15min
Estava agora mesmo na varanda deste quarto de hotel, olhando o mar discutir com as pedras lá embaixo. Uma briga antiquíssima, anterior à existência de vida na Terra.
Eu poderia agora dizer algo pernóstico como: o mar vence sempre, é o masculino que seduz e aos poucos penetra a terra, fêmea que ao mesmo tempo resiste e cede às investidas do macho impetuoso. Mas como nunca maltrato meus leitores com metáforas burras e pretensiosas (é sempre uma coisa ou outra), digo apenas: enquanto olhava a briga lá embaixo, lembrei da morte. Da minha morte, para ser exato. Eu vou morrer — hoje mesmo, semana que vem, daqui a cinqüenta anos — e nunca mais poderei assistir ao mar quebrando na praia (é bonito, é bonito). Minha morte afetará a meia dúzia de pessoas, talvez nem isso. E as ondas continuarão a chocar-se contra o continente, indiferentes ao fim de mais uma breve existência, e sem saber o quanto eu gostava de ficar de longe, só olhando seu movimento sinuoso.
Poucas vezes me senti tão só.
Marcurélo Jesus, me chicoteia!
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25.10.04
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24.10.04
GATOS, CÃES E PASSARINHOS
Quem cuida de gato ama sua solidão. O felino fica quieto pela casa, como um ruído do osso, um ruído interno do corpo. Enovelado em suas memórias fundas, tão fundas que requer concentração para subi-las. Flor assustada, jardim móvel. Nem com um nome se torna doméstico. Confidente que censura com compaixão, que compreende com piedade. Não é um animal que tosse, no máximo espirra. Seus olhos claros, pirilampos dentro de um pote. A plumagem clara ou escura nasceu como ouvido da noite. Sua superação é beleza.
Quem cuida de cachorros gosta de escapar de sua solidão. Sair para passear, andar com ele com coleira, dividir o cumprimento, o tapete da rua. Cão é gastar sapato, cheirar árvores e grama, descobrir onde há um vento para caçar pássaros, onde há estrelas úmidas, onde há parede para escorrer lagartixa. O cão é dispersivo, late para estar em todos os lugares e não está em nenhum, diferente do gato. Alerta, fala mais do que escuta. Pede conselhos para adormecer intacto em sua dor ou à espera da dor. É leal como um copo de água. Tosse como gente grande. Apaga o retrato no cigarro. Os grandes olhos têm bigodes, feitos para a despedida. Sua retração é verdade.
Quem cuida de passarinhos gosta de vigiar sua solidão, gosta de pousar, não apetece sentar ou permanecer de pé. A gaiola é um aquário de janelas, onde o mundo se reduz a um punhado de alpiste fora da mão. O passarinho rema sua plumagem com um único remo: o bico. Canta com o canto do olho. Não está desesperado, muito menos tranqüilo. Solidão nervosa, que intimida somente com o pulo do trapézio, sem revólver, faca ou punhal. O pássaro é o gomo primogênito, o barulho de uma lâmpada. Um parente que te visita com mala. Cinzas que choram rindo, longamente longe das brasas.
Fabricio Carpinejar
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Ratapulgo
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24.10.04
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23.10.04
MULHERZINHA
Ia escrever um post de ódio às mulherzinhas, mas assim que apertou o primeiro Tab, o esmalte da unha do indicador esquerdo lascou. Saiu para buscar um vidrinho de esmalte no banheiro; enquanto procurava o certo entre tantos outros naquela maldita gaveta, o telefone tocou. Pegou um deles e foi atender: era a secretária da terapeuta querendo desmarcar a consulta da semana. A Dra. Suzana não ia poder estar atendendo por motivo de viagem. Quando desligou, percebeu que já estava retocando a unha com a cor errada. Pegou a acetona e o algodão e começou a retirar o esmalte de todas elas. O telefone tocou novamente: era o namorado, para confirmar o jantarzinho com o casal de amigos. Hoje? Hoje. A promoção, esqueceu? Esqueceu. Não tinha ido ao salão fazer escova, nem hidratação. E as unhas estavam horríveis! A pele estava ressecada e nenhuma roupa ia servir porque, claro, ela estava gorda. Foi escorregando de mansinho na parede até sentar-se no chão. E desatou a chorar.
GO ON AND FOOL ME
Considerando as poucas exceções, pessoas são muito mais interessantes quando desconhecidas. Há graça no imaginado, nas suposições que surgem durante o observar à distância, no criado detalhadamente durante as longas noites de insônia passadas debaixo do edredon - além, claro, dos arrepios que a certeza do mistério proporciona -, algo que se perde totalmente logo ao fim da resposta à pergunta mais banal.
- E como você se chama?
- Valéria.
Nunca daria certo. Para ele, ela sempre teria cara de Priscila.
Garota Urbana em amente.capta
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23.10.04
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Princesa
Não era a mais bela, nem a mais carinhosa. Tinha um olhar terrível, assustador. Gostava de ficar só, assitia tudo de longe, nunca demosntrou fraqueza, nem dor. Era pequenina, uma verdadeira bola. Mesmo assim não miou, não gemeu uma vez sequer quando seus 6 filhotes vieram.
Não é brincadeira, nem exagero. Eu vi 5 deles nascerem e ela continuava firme como sempre. Os dias se passaram e ela parecia a mesma, sem se importar com seus filhotes. (que infelizmente agora são 5) Era só impressão, se você chegasse perto deles, ela surgia com um tiro para protegê-los.
Ela nunca foi de comer, mas com deveres a cumprir a fome sempre aparece. Preparei um belo prato e levei até seu ninho. Os garotinhos estavam lá, dormindo um em cima do outro; ela deveria estar lá na frente de casa tomando um ar puro. Ela adorava fazer isso, ficar em frente de casa bem quieta no lugar mais escuro possível sem mover uma pata sequer.
Quando abri a porta ela não veio ao meu encontro como o de costume. Chamei-a mas não foi preciso repetir o chamado. Eu a vi no meio da rua, deitada. Olhei o suficiente para saber que era um gato, mas você sente quando acontece. Chamei meus pais e eles confirmaram.
Mal pude imaginar que a dor maior viria somente depois: 5 gatinhos de apenas 7 dias miando desesperados atrás da mãe. Quando você se aproxima deles, eles miam para chamar a mãe e esta os protegê-los. Se ela não aparece, eles miam cada vez mais e seus coraçõezinhos batem cada vez mais rápido de medo.
Talvez eles não sobrevivam, disse a veterinária. Tentamos dar mamadeira para eles. No começo eles recusaram, cuspiam tudo, engasgavam. Depois acabaram aceitando, uns mais facilmente que os outros. É indescritível a sensação de vê-los mamar. É algo muito forte e bonito. Você, ao segurar a mamadeira, sente a força de suas sugadas. Sente que eles estão bem, seguros por estarem em seus braços.
Um Ponto Oito
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Ratapulgo
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23.10.04
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Frase do dia (tralvez da semana)
FAMILIA MUDA VENDE SURDO
Chez Nigro's - Movimento pela Insanidade Coletiva
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Ratapulgo
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23.10.04
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22.10.04
Pequeno tratado sobre a mortalidade do amor
Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Morre em uma cama de motel ou em frente à televisão de domingo. Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com gosto de lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez mais concisas, beijos que esfriam aos poucos. Morre da mais completa e letal inanição.
Todos os dias morre um amor. Às vezes com uma explosão, quase sempre com um suspiro. Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir. Porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso. De saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. E esta é a lição: amores morrem.
Todos os dias um amor é assassinado. Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio ensurdecedor depois de uma discussão: todo crime deixa evidências.
Todos nós fomos assassinos um dia. Há aqueles que, feito Lee Harvey Oswald, se refugiam em salas de cinema vazias. Ou preferem se esconder debaixo da cama, ao lado do bicho-papão. Outros confessam sua culpa em altos brados, fazendo de pinico os ouvidos de infelizes garçons. Há aqueles que negam, veementemente, participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de chat ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escrever livros de auto-ajuda com nomes paradoxais como "O Amor Inteligente", ou romances açucarados de banca de jornal, do tipo "A Paixão Tem Olhos Azuis", difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes.
Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia: corcéis feridos.
Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que morreram. São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra teimando em resistir à base de camas separadas, beijos burocráticos, sexo sem tesão. Estes não querem ser sacrificados, e, à semelhança dos zumbis hollywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos, definhando paulatinamente até se tornarem laranjas chupadas.
Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a. série, ou entre fãs que até hoje suspiram em frente a um pôster do Elvis Presley (e, pior, da fase havaiana). Mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor (Bah, isso não é amor. Amor vivido só do pescoço pra cima não é amor).
Existem, por fim, os amores-fênix. Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da TV ligada na mesa-redonda ao final do domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas a cada fim de dia e perduram - teimosos, e belos, e cegos, e intensos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão pura e rara que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas. Mas não quero acreditar nisso.
Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, no jornal.
PROCURA-SE: AMOR-FÊNIX
(ofereço generosa recompensa)
ALEXANDRE INAGAKI
Pensar Enlouquece, Pense Nisso
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Ratapulgo
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22.10.04
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É fácil
É fácil ser um grande escritor, quando se é o Chico Buarque.
Acorde cedo, ainda deitado espreguice. Coce o umbigo, retirando o fiapo de algodão que é gerado alí diariamente, e pense: caralho, eu sou o Chico Buarque. Levante-se. Vá ao banheiro lavar o rosto, veja que belos olhos azuis. Vista um shorts e o tênis de corrida.
No calçadão, ande a vontade. O status de caminharem naturalmente na mesma praia que você impede os pedestres do Leblon de virem te incomodar com pedido de autógrafos. Isso e o fato de que são seis da manhã e a praia está vazia.
De volta ao apartamento, tome o café e um bom banho, que você pode ser imortal, mais ainda sua. Pegue os jornais do dia. Veríssimo, Laerte. Praticamente todo o resto é igual há cinquenta anos, folheie. De almoço, carne, batatas e uma salada qualquer.
Aguarde no sofá o almoço passar. Se necessário, cochile. Sente-se à maquina (que hoje é um computador), coloque os óculos. Releia o que escreveu ontem, acrescente pequenas modificações e mais uma ou duas páginas. Salve.
Ainda na cadeira, aprecie o trabalho do dia. Como o tempo passa rápido, não é não? Faça um lanche leve. Apresente-se para dormir. Essa vida de grande escritor dá um sono.
fserbcombr
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Henrique
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22.10.04
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