23.1.04

A verdade e as formas jurídicas
(pra você, Sol)

- Let, será que eles vão te xingar?

Então, vamos começar do começo.

Batida sem seguro pra cobrir. Arrombamento que danificou a porta para todo o sempre. Falta de gasolina no alto de uma pirambeira em plena madrugada etílica (até já virou post, isso). Pneu furado no meio da BR 040 - e eu sozinha no carro, como não poderia deixar de ser. Roubo com direito a corrida dessa distinta proprietária que vos fala, em estado nem tão distinto assim (a bem da verdade eu esperneei e perdi completamente a compostura quando vi um ser desconhecido sentado ao MEU volante), atrás de ladrão e carro. Devolução do veículo então roubado com batidas na frente, atrás e na lateral, abandonado no meio da rua obstruindo o trânsito das dezoito horas de uma quarta-feira.

Pronto. Pra quem não conhece, Charlene é meu querido veículo automotor - e essas situações aí em cima formam, em conjunto, uma amostra do que significou pra mim ser a responsável por ela nos últimos três anos: alguma dor de cabeça e muitos prejuízos. Mas tudo bem, nunca foi e não há de ser por causa de um carro, muito menos da Charlene, que vou passar a vida reclamando dessaalguma dor de cabeça, sinceramente acho que sair pra comprar pão, leite e jornal pode ser uma atividade muito mais intensa, viva e estressante (além de mais limpinha) do que ter que parar um caminhão na BR pra perguntar como é que se usa um macaco.

Então, à Charlene. Como se não bastassem todos os episódios bizarros que esse automóvel já me obrigou a protagonizar, ontem ele se deixou ser singelamente substituído por um adesivo amarelo feio pra burro com os dizeres "o veículo de placa tal foi removido, maiores informações ligue 3277-6500". Ótimo. Era mesmo o que me faltava, principalmente considerando-se que, no momento em que meu veículo foi removido (eufemismo bhtrânsico para “rebocado e largado num pátio ermo e distante em meio a um sem número de forrecas, carros roubados, kombis não legalizadas, caminhões com placas clonadas e o escambau”), naquele exato instante, eu estava na fila do DETRAN renovando minha carteira de motorista. Ótimo. Tudo por causa de uma faixa-azul adulterada.

- Let, será que eles vão te xingar? – foi o que a Sol perguntou quando eu contei essa minha epopéia.
- Como assim, Sol? – eu, só pensando que amo demais essa menina e nunca vou conhecer ninguém nesse mundo com tamanha pureza, doçura e quase inocência para escolher palavras em algumas situações.
- Ah, sei lá, na hora em que você for buscar o carro, será que eles vão te xingar?

Pois bem, Sol, aqui vai a resposta: sim, eles me xingaram. Xingaram e da melhor forma que sabem fazer, eles, os seres e entidades que, juntos, formam o tal do Estado: entregaram-me um boleto bancário pra pagar uma conta astronômica pela estadia (ó, céus, a BHTrans é de fato a princesa dos eufemismos) da Charlene naquele pátio entre os monstros da contravenção e ilegalidade automobilística, o que implicou que eu ficasse numa fila de banco quilométrica e pensasse cento e noventa e sete vezes: "Sim, Sr. Estado, já entendi. Eu preciso mesmo de seu aval para ir e vir, não sei nem o que seria de mim sem o senhor. Prometo ser sempre uma moça direita para com as suas leis. Salve, salve, Sr. Estado!..."

Argh.

Pra mim, Sol, foi castigo suficiente.
Acho até que nem meu pai me daria sermão tão eficaz!

Da Estrangeiridade

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