31.5.04

Marquei com o John Atoshman para ele me buscar na faculdade as 21:00. Ali pelas 22:40 ele apareceu junto com o Portela, e de lá partimos para a sua casa, onde rolaria uma bebedeira seguida de violões.
Ao se dirigir para a casa do John, em seu carro, com o som lacrado numa música de metal fodido (porque o John e o Portela são metaleiros) um estranho barulho começou a ocorrer.
-- Cara, que bateria zoada!
-- Não é bateria não.
-- Acho que furou um pneu.
Diminuímos o volume do som e constatamos que o barulho vinha do lado de fora do carro. Paramos e descemos para checar os pneus. Tudo certo. Nada errado. Voltamos para o interior do carro e seguimos viagem, mas o barulho voltou a aparecer.
Paramos o carro denovo. Desta vez descemos e fomos olhar embaixo do carro. Confesso que nessa hora eu achei que o John tivesse atropelado um veado campestre e ele estava enrroscado nos pneus, ou algo assim.
-- Cara, o escapamento tá no chão.
-- Como?
-- O escapamento. Quebrou.
Pois é, o escapamento estava solto, no chão, arrastando.
Não conheço muito essa parte mecânica dos automóveis. Pra falar a verdade não conheço nenhuma parte de um automóvel. Mas não foi preciso ser um grande conhecedor de mecânica para constatar que aquela peça ali não devia estar no chão.
-- Essa coisa aí não deveria estar presa no carro?
-- Claro que sim, moskito.
-- Pô, então porque ela tá arrastando no chão?
Percebi que o John e o Portela não gostaram da minha pergunta e se negaram a responde-la. O Portela se encarregou de dar chutes no escapamento afim dele cair por completo, pois ainda estava semi pendurado na parte debaixo do carro. Enquanto isso o John ficava falando: "Meu pai vai me matar! Meu pai vai me matar!" repetidamente.
Eu, estava um pouco mais calmo e observando tudo atento, só conseguia pensar numa coisa:
Prá que serve um escapamento de carro?
Pô, o carro até ficou mais bonito sem aquele cano ali atrás. Se não fosse um amassado no parachoque traseiro causado por um chute sem pontaria do Portela, o carro teria ficado perfeito. Aquele cano tirava todo o carisma do carro.
Colocamos o escapamento dentro do porta-malas e seguimos viagem. O ronco do carro até tinha ficado mais legal. Os mano na rua ficavam todos olhando pra aquele Escort roncando forte na avenida. E nós três, John, Portela e eu, ali dentro, curtindo um hardmetal afudê.
Até que enfim tinhamos estilo e todos olhavam para nós. Abaixamos os vidros e lacramos o volume do som. O John fazia o carro roncar bonito cada vez que passava por alguém na rua. E a playboyzada toda ia ao delírio. Estiloso, fera.
Então pensei ainda mais: "Pra que serve a porra do escapamento?" Tudo parece tão legal sem aquele cano feioso. Porque então o carro tinha aquilo pendurado?
No meio de um bairro barra pesada e deserto da cidade o carro resolve apagar e não mais ligar. Não tinhamos telefone algum para tentar contato com o mundo exterior. Apenas alguns meninos com cachimbos na boca circulavam por aquela rua, por isso resolvemos não pedir ajuda e ficar por ali mesmo.
Frio, escuridão e fome. Decidimos empurrar o carro até um beco e dormirmos por ali mesmo. Os três metaleiros dormindo dentro de um Escort.
Claro que não conseguiamos dormir e mantinhamos os olhos bem abertos com preocupação. Ali pelas duas da matina uma coisa apavorante aconteceu: Um morcego louco que ficava perambulando em volta do carro, achou bonito nos assustar, e pra isso batia-se contra o para-brisa. Era assustador.
Hoje pela manhã quando acordamos, caminhamos alguns kilometros até acharmos um telefone público. Chamamos um guincho e fomos para a casa do John explicar tudo para o pai dele que, por sua vez, não acreditou em nada que dissemos, lógico.
"Que história idiota!" disse o pai do John.
Eu também achei uma história deveras idiota. Mas o que eu posso fazer? Foi verdade e, além do mais, ainda nem aprendi pra que serve o maldito escapamento de um automóvel.

alguém aí pode esclarecer para o moskito, do ¿de que jeito?

Vi na farmácia. Cápsulas de berinjela. É que para muita gente, berinjela é uma coisa difícil de engolir. Podiam então fazer cápsulas de:
Saudade
Tristeza
Choro
Sapo
Desaforo

catarro verde

25.5.04

Solidão? Baixa auto-estima? Aquele sentimento indigesto com um gostinho amargo de abandono? Sensação de que você não faz diferença para o mundo?

A solução para o seu problema é muito simples. Siga a receita.
INGREDIENTES:
- Uma assinatura do Jornal do Brasil.
- Um pouco de bom senso pra perceber que o jornal está muito fraco e não é mais o que era antes.
- Pouco dinheiro na carteira pra gastar com assinatura de jornal que está muito fraco e não é mais o que era antes.

MODO DE PREPARO:
Leia o jornal por muito tempo. Encha o saco da falta de informação. Critique sempre, fazendo do seu café da manhã uma espécie de mesa redonda sobre a cultura no novo milênio. Misture o bom senso com a falta de dinheiro e mexa bem. Ao receber o novo carnê de pagamento, ignore como se sua vida dependesse disso. Finja que o carnê é um daqueles vizinhos chatos que faz com que você desvie o caminho. Rasgue, esconda, jogue fora, faça o que quiser, mas não pague em hipótese nenhuma. Não pague!
Essa receita rende três semanas de ligações telefônicas de simpáticos atendentes de telemarketing muito interessados em saber o motivo que te levou a não renovar a sua preciosa assinatura.
Mesmo dando sempre a mesma resposta, eles te ligam de novo. E de novo.
É melhor que CVV.

uma dama não comenta

As três formas didáticas ou caminhos humanos para o entendimento: você explicar, você ilustrar, você bater até a pessoa entender.
Uma deformação no terceiro caminho, caminho chamado hodiernamente de zen, é quando o aluno em vez de aprender gosta da surra ou quando o professor abandona a didática pelo vale-tudo.
Aí, em vez de zen, recebe o nome de civilização ocidental, e estamos diante do terceiro e meio caminho.
...
Fulano morava quase sozinho, dividia a habitação com uma gatinha malhada e quatro Prousts. Um parecia mesmo o escritor, outro até dava ré, o terceiro escrevia de forma incompreensível e enrolada os menores recados de geladeira e o último passava o dia e a noite na cama.

saudade do presidente figueiredo

Uma questão séria.

Qual é o tão terrível problema em usar a seta do carro para sinalizar que você vai entrar numa rua e/ou garagem?
Será que ninguém percebe que este é um facilitador da vida ou a minha paciência que está atingindo limites do intolerável?

hmpf.

acredite ou não

Por que não acredito nos médiuns

Trecho de um texto escrito por Raul Seixas aos 13 anos de idade:
"Cirilo conta coisas engraçadas: hoje entrou contando que seu colega de sala morreu com massa de modelar no nariz. Falta de ar (sabe como são essas coisas...).
Dei-lhe uns trocados e ele me cuspiu. Mamãe rosnou na cozinha. Fingi que chorei para ela morder Cirilo.
Ninguém ligou.
...
Tomei o ônibus na esquina. Estava cheio de gente, gente com cara de viajar de ônibus. Caras sérias, porque em ônibus só se viaja sério; é o normal, é o certo."

Agora um trecho supostamente ditado pelo mesmo Raul Seixas a um tal Nelson Moraes, médium, em março de 2002:
"Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes a verdadeira finalidade da vida, conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros. Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação em que, alguns casos, podem se prolongar durante séculos.
Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: você mesmo!"

Eu quero ver quem é que me convence que alguém que aos treze anos escrevia tão bem, com idéias originais e uma percepção irônica do mundo, tornou-se um cuspidor de clichês semianalfabeto depois de morto. E o caso do Raul Seixas é só um exemplo. Pelo que percebo dessas tão populares obras psicografadas, ou das tais pinturas feitas por espíritos, a morte é mesmo um treco horrível: além de nos tirar a vida, arranca-nos totalmente o talento. Coisa triste.

Jesus, me chicoteia!

24.5.04

Uma das piores coisas que acontecem quando crescemos é ver a palavra "aventura" degradada por toda parte. “A aventura de aprender”, “a aventura da matemática”, “a aventura de comer jiló”. “A aventura de ir no dentista e ser um bom menino.” “A aventura da vida!”

Aventura uma ova. A única aventura que conheço é ser perseguido por sepóis numa selva malaia e levar um tiro na bunda. Todo o resto é no máximo Esforço.

Alexandre Soares Silva

Estou postando direto de um engarrafamento. Não chega a ser um prazer escrever em telefone, mas a verdade é que, com o tempo, pelo menos fica mais rápido. Quem sabe um dia eu não fico boa nisso? Tem uma garotada aí que tecla à velocidade da luz...

internETC

A solidão dói milhares de ratos a roer o avesso da pele e cheira um mofo de cantos há anos sem sol. Brotam verdes e estranhos azuis no corpo que vai se tatuando de abandono e se entrevando cada vez mais e mais encolhido buscando o próprio colo e um ventre de nascer pra dentro. A solidão vigia com olhos escancarados minhas noites em claro, bebe meus medos na taça da minha boca deserta, suga meus lábios tristes da mesma saliva e dói nos meus braços vazios a dor de um abraço oco.

não discuto

Se você está perdido numa dessas megalojas, cansou de comprar eletrodomésticos e achou que seria bacana levar um livrinho para casa, mas não sabia qual, siga as recomendações listadas abaixo.

1) Dê uma boa fuçada nas estantes de auto-ajuda. Não, você não leu errado. É só contar com o analfabetismo funcional do pessoal que as organiza. Como já escrevi aqui, podem-se encontrar os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" entre os Japachiques e o último livro da Lya Luftal (copyright de Alexandra, a Nibelunga). Há também "A Montanha Mágica", história do sucesso de um rapaz alemão na luta contra a tuberculose, e "Lolita", lindo livro que mostra que as diferenças de idade não são obstáculo para o amor.

2) Evite comprar livros da Conrad. Se saiu por essa editora, não pode ser bom -é como água e azeite, Ingmar Bergman e Paulo César Pereio, livros da Brasiliense nos anos 80 e boa literatura, essas substâncias que nunca se misturam. Vá por mim. O mesmo vale para qualquer coisa publicada pela Fundação Perseu Abramo.

3) Fuja, correndo e gritando, de livros-escritos-por-gente-que-tem-blogue. Pelo amor de Deus. As pessoas só têm blogues porque são analfabetas, disléxicas ou as duas coisas juntas (como é meu caso). Blogueiros que publicam livros somam a chatice a essas duas qualidades -e dá-lhe spam, banner, autopromoção desenfreada e o cazzo-a-quatro para que você compre o maldito livro. Na cabecinha dos "escritores de internet", "escrever livros" confere um status social superior a "escrever em blogue" e ainda ajuda a disfarçar a caspa e o mau hálito. Ora, francamente. (Eu ia dizer que há exceções. Não vou. Assim é mais divertido.)

4) Por último, mas importantíssimo: jamais compre livros de escritores que se deixem fotografar descalços. Está cientificamente provado: em 100% desses casos, não há hipótese de o livro não ser uma caca. Você já viu alguma foto de James Joyce descalço? William Butler Yeats na banheira, com os pés para cima? Jorge Luis Borges exibindo seus joanetes? Claro que não. Então, amigo escritor, trate de calçar os sapatos se quiser que eu compre algum livro seu. Não, nada de sandálias Havaianas: sapatos, s'il vous plaît. Poupe-nos da visão grotesca das suas extremidades inferiores.

pura goiaba

déco é gordo. déco nunca teve nada de importante a dizer, nunca elaborou raciocínio algum ao qual alguém já não tivesse chegado, lendo ou pensando, nuncas colaborou nas discussões em aula sobre o assunto que fosse, nunca gravou um vídeo amador e vendeu para alguma tevê, nunca fotografou nenhuma celebridade em trajes íntimos ou em pêlo, nunca foi célebre, nunca jogou na megasena, nunca torceu pelo mocinho, sequer pelo bandido, nada.

déco levava sua vidinha, tirava a nota média, sentava no banco que estivesse vazio, respeitava as filas e nelas entrava onde indicado, pagava as contas em dia, não era nada especial. déco não poderia sequer aspirar ao reconhecimento, dado que este, em tempos remotos, era dado apenas aos que o mereciam, de alguma forma, e não por apenas terem seus rostinhos aparecendo em algum meio. déco tinha azia de vez em quando, uma diarréia ocasional por ter misturado comidas propícias a tal, tinha dores de cabeça esporadicamente e agradecia à existência da farmacêutica, da qual não tinha o menor conhecimento, e vivia sua vida ali sentado no banco, na fila, no banheiro, arrotando amargo, fazendo a barba.

mas déco tinha um segredo. assistira certa vez a um filme, numa das vezes em que esperava o momento ideal em que sentiria sono e dormiria para recomçear a vida que nunca tinha começado de verdade. não gostava muito de filmes, normalmente não levava deles aprendizado algum, quando muito o tempo de entretenimento que o suporte oferecia. o filme era estranho, mais estranho do que déco podia conceber, mas ainda assim não conseguia largar dele, seus dedos não conseguiam fugir do canal que exibia a obra, e ele entendia. conseguia elaborar toda a história em torno do filme, toda a relação de significados ali contida, todo o universo narrativo e implicações imbricadas na película telecinada. e déco entendia tudo.

no dia seguinte, já no ônibus, ao lado do colega de trablho de que sempre pegava a mesma linha três paradas adiante, déco comentou o explicou todo o filme nos pormenores que lhe tinham relevância. o colega, depois de muito ouvir e acusando o momento da descida deles do coletivo, respondeu.

"que nada, nem vem que ninguém entende david lynch".

como assim 2 uísque?

EM PORTUGAL

Anda meio país, auto-intitulado culturalizado, indignadíssimo com o erro ortográfico que escreve benvindos ao invés de bem-vindos. É claro que o restante da frase “ao Rock in Rio” lhes passa ao lado.

No Arame

Moro há 8 anos aqui no prédio e conheço poucas pessoas pelo nome, acho que só o síndico e duas vizinhas daqui do andar, portanto temos uma forma peculiar de chamar alguns moradores daqui:
1. Coelhinho - um garoto que quando era mais novo, eu estava no elevador com ele e mais uma moça e essa moça disse que ele estava muito bonito fantasiado de coelhinho e o garoto muito bravo disse que a fantasia era de índio. Coitado. Ficou sendo o coelhinho.
2. Soldadinho de Chumbo - um cara que é da PM, chato e arrogante. Guarda uma vaga para o carro dele com uma moto que atrapalha a garagem.
3. Beatle - uma cara certa vez viu um CD dos Beatles na minha mão, disse que adorava e iria mandar convites para assistirmos um show de uma banda cover. Estamos esperando até hoje.
4. Louca - uma mulher insegura que certa vez estava saindo para ir buscar lanche do Mac Donalds para o "filhinho" de 19 anos.
5. Doido - Filho único da Louca, cara é um safado, fuma todas e vive metido em encrenca. Tem um carro com neon azul por baixo, horrível.

Como diz meu pai: bom mesmo só nós :o)

Post It

Há prazer com a nebulosidade, as dezenas de hipóteses, a falsa confirmação das coisas. A verdade nos frusta, quase sempre.

Bricabraque

20.5.04

Fazia tempo que eu não via o dia amanhecer por uma causa tão nobre. Tenho comigo o eucalipto que balança e parece cheirar mais de manhã, o azul-avermelhado (meu Deus, tão extremas colores) do céu, tenho um piado ou dois, de um passarinho ou dois, que caminham aos pulos sobre o telhado da padaria fechada, que era em frente.
Daqui a pouco chega o jornal. Não sei a que horas os porteiros se trocam, passam um para o outro o plantão, contam o que viram durante o expediente e vão ao banheiro tirar a farda e caminhar na rua, libertos.
Daqui a pouco chega o entregador de pão na bicicleta, para o morador do prédio que acordou mais cedo. Parece que os mais velhos acordam mais cedo. Isso é paradoxal demais.
Em uma hora, minha irmã acorda. Escova os dentes, toma banho, veste a farda engomada e vai trabalhar. Em uma hora. E quando chega para o almoço ainda estou dormindo, ou saí, ou nada, mas não nos falamos direito. Grunhimos. Hum, hum. E ela responde: hum.
Em três horas devo estar na faculdade, e, se não for capaz de levantar, devo estar na cama com dor na coluna, porque compraram um travesseiro novo no Bompreço e me deram o velho. Eu não suporto travesseiros.
Em vinte minutos minha cabeça estará descansando da madrugada movimentada, das notícias na televisão, das conversas sozinha, das conversas com os outros. Não jantei.
Faz tempo que não janto direito, a não ser quando há porcarias no armário. Se não há pipocas, farinha láctea, mel ou sucrilhos, não janto.
Estou com fome.
Tenho agora mais de três passarinhos, ou quatro, com três ou quatro piados que devem estar despertando algum sono leve que esqueceu a janela aberta. Um bem-te-vi. De vez em quando, a esta hora, sai algum bicho estranho do Parque do Cocó. Uma vez, antes de sete horas, no ponto do ônibus, tinha um gato-do-mato, baixinho e bicudo, perdido e choroso na esquina. Depois parece que deu por si, enxergou sua casona verde, atravessou a rua correndo e sumiu mata adentro.
Fui saber depois que era um gato-do-mato, numa enciclopédia. Primeiro cheguei perto para ver se tinha cheiro ruim. Não tinha. Então não era gambá. Eu e meus silogismos as sete horas da manhã.
A praça deve estar em polvorosa. Uma série de caminhantes descaroçando seus terços de madeira enquanto contam suas ave-marias e suas voltas em torno dos bancos e da quadra de futebol. Sempre em sentido anti-horário, dando tchauzinho para os vizinhos que vêm em sentido horário.
Na volta, compram o jornal, uns poucos pães. Chegam a casa, acordam quem ficou dormindo, alegando que já está tarde. Deve ser o consorte. Esposas que acordaram cedo sacodem seus maridos, e eles, se forem os espertos, sacodem-nas.
Passam o café, ou o café já está passado, abrem o pão quente, que recebe a manteiga ávido por derretê-la, dão uma mordida que barulha em um negócio parecido com croc, crec, não sei. Lêem o jornal. Meio dia já têm feito cousas proporcionais à metade do dia. Enquanto eu estarei zumbi em algum lugar da zona sul da cidade, depois de ter passado a madrugada inteira pensando e inquietando.
Meio dia não tenho feito nada a não ser estar ainda dormente. Às vezes dou conta de mim às dez, mas é raro.
São cinco e trinta e três. Hora bonita essa. Não vou vestir minha calça e meu tênis, não vou caminhar e acenar para os vizinhos, nem esperar o jornal, nem comprar um pão fresco e comer com manteiga e café. Não tenho filtro solar, não acordo mais de dia forte, só de dia quase desnascendo. Quase não acordo mais.
Um barulho de trinco. Papai, será? Mais um que espera o jornal enquanto mede as colheres de sopa do pó de café, bem cedo, mesmo com a preguicinha de de manhã. Ele sorri pelos cantos da boca e eu. Eu tenho só uma certeza de que eu. Eu preciso, logo, envelhecer.

Brusk nao fala frances

18.5.04

EU SOU DONO DA VERDADE
E tenho a nota fiscal para provar. Paguei por ela durante quase 34 anos, em nada suaves prestações. Troco-a, de ótimo grado, por mentiras simpáticas ou por um Monza 86 com menos de 70 mil quilômetros. Alguém chame a Granero e leve essa verdade para bem longe daqui.

Pura Goiaba

Que o amor não mais me pese, que não me acorrente, nem me traga amarras mesmo que de cetim. Que não me amiúde, não me escravize, não me ponha cabresto ou arreio e que também não venha por pena de mim. Que o amor me chegue manso como um cachorro ferido e se aconchegue aos meus pés numa réstia de sol e me lamba as mãos como se reconhecesse seu dono. Que venha decidido a ficar para sempre, mesmo que logo ali mude de idéia, que me deixe na boca sempre um gosto de véspera de estréia, um inaugurar de outono. Que o amor de mim se aperceba e me escolha, que me veja entre as multidões e aos seus olhos eu seja diferente e depois me queira e me proponha: me ama simplesmente.

Não Discuto, indiscutível.

15.5.04

Vocês quase me perderam. Além do servidor onde o meu blog está hospedado ter ido pro espaço por 17 dias, o sistema aqui do blogger cismou que eu não existia. Foi por um triz que vocês não ficaram sem chá. Essa passou perto...

Dani, de volta à ativa

A partir de hoje serei a alma da escória humana, enquanto houver maldade eu viverei, pois eu serei a pedra no teu sapato, a paçoca grudada no céu da boca, a tia chata do fim de semana, a hipocrisia, o ódio, a sede de vingança, a podridão que habita a mente humana, eu serei seus piores pesadelos, e não terei piedade em lhe castigar, farei você sofrer até implorar e quando isso acontecer, irei te torturar até a morte! Simplesmente por que eu sou uma MALVADA anoniMÁ.

A.M.A. - Amigos dos Malvados Anônimos

14.5.04

O PIAUÍ É A ESCÓCIA DO BRASIL

Minha querida titia, por ocasião do meu aniversário de dez anos, presenteou-me com um belo álbum contendo as melhores histórias do Tio Patinhas. Era uma edição comemorativa, creio, dos vinte anos do surgimento do Pato Muquirana aqui em Pindorama. Um volume de capa dura, vistoso, cosa muy linda. Fiquei hipnotizado com aqueles quadrinhos em formato A4, pois só conhecia até então os gibis.

Uma das histórias - eram sete, se não me engano - leva Patinhas e agregados para a Escócia, onde são recebidos num castelo enevoado por um simpático velhinho de saia que lhes serve haggis. Huguinho pergunta pro velho: do que é feito isso? E o velho responde: Ah, um bocadinho disso, um bocadinho daquilo... e é uma delícia! (chlep!)

Na ocasião não compreendi o porquê do pudor de Disney em revelar o que era exatamente o haggis. Está bem, quadrinhos não são livros de receita, mas esse mistério gastronômico perdurou alguns instantes na minha mente de molecote e depois foi sepultado no subconsciente.

Até que...

Sábado passado estava assistindo ao Pica-pau. Não ao Pica-pau clássico, aquele dadaísta de perna grossa e dois inesperados dentões no bico[1], mas uma versão menos anárquica - e mais chata - do pássaro psicopata. Num determinado ponto da trama, o bichinho, que encarna um escocês piloto de rally, se vê frente a uma placa onde lê-se: "FREE HAGGIS". Claro que a placa era falsa, plantada solertemente pelo urubu safado que é o tradicional desafeto do Pica-pau.

Este fato, que poderia muito bem passar despercebido por uma mente menos atenta, provocou-me um curto-circuito sináptico e trouxe à tona do oceano dos meus pensamentos aquela dúvida adormecida: QUE DIABOS É HAGGIS?

Interrogando São Google, finalmente soube o que é isso, e não me privarei de compartilhar esta importantíssima, quiçá vital, informação com o meu Rebanho.

RECEITA TRADICIONAL DE HAGGIS

Para doze pessoas

- 1 estômago de ovelha
- 1 pulmão de ovelha
- 1 coração de ovelha
- 1 fígado de ovelha
- meio quilo de graxa de rim de ovelha
- 1 quilo de farinha grossa de aveia (não a Quaker, mané, farinha de aveia escocesa!)
- 2 cebolas
- pimenta-do-reino branca e preta moída na hora
- noz-moscada
- sal

Vire do avesso o estômago de ovelha, lave bem, esfregue sal, lave de novo, raspe com uma faca e deixe de molho na água com sal de um dia para o outro.
Num panelão, coloque o coração, o fígado e o pulmão para cozer. Coloque a traquéia para fora da panela, pois o pulmão vai expelir algumas
impurezas. É bom colocar um recipiente para recolher o que vai sair dele. Cozinhe
por uma hora e meia. Retire as vísceras e pique tudo bem picadinho com a
cebola. Numa frigideira, doure a aveia até ficar levemente marrom. Misture todos os
ingredientes, acrescentando o caldo do cozimento das vísceras até que a massa adquira uma consistência firme. Estufe o estômago da ovelha com essa massa até dois terços do seu volume. Aperte para que não sobre ar lá dentro.
Amarre com um barbante grosso as pontas do estômago e fure-o em alguns pontos com uma agulha grossa, pois a aveia vai inchar quando absorver o líquido e o estômago pode estourar. No panelão, coloque um prato no fundo e ponha o haggis para cozinhar na água por umas quatro horas. Aí é só servir, tradicionalmente acompanhado de "tatties" (batatas) e "neeps" (nabos) amassados. Bon apetit!

Agora, me digam: isso daí, com pouquíssimas modificações, é ou não é uma buchada de bode?

Padre Levedo

13.5.04

Tem umas coisas que só acontecem comigo.
Em cima da loja tem dois flats, o vizinho de cima está reformando a cozinha, hoje cheguei na loja, abri e fiquei alguns minutos paralisado até entender o que estava acontecendo: metade do teto caiu, teve um vazamento enorme de água, a prateleira do meio da loja virou uma piscina, só vi a testa do Baden Powell fora da agua, ou então o Humberto Gessinger dentro da piscina sentado no sofá na capa do Tchau Radar, eu acho. Deve ter uns mil e quinhentos CD's imersos ali.
Vim para casa buscar minha câmera fotográfica e enviar um e-mail para meu chefe que está no México.
Vou lá salvar os músicos, que nem todos devem saber nadar...
Phoda.

The Nowhere Man

12.5.04

- Ai, que legal o Comida di Buteco!!!

Não, Comida di Buteco não é legal.

Primeiramente vou explicar do que se trata a aqueles que não residem em Belo Horizonte, ou o fazem porém acabaram de sair de um coma de 5 anos. Comida di Buteco é um festival organizado por Deus sabe quem, com a finalidade de eleger o melhor boteco da cidade em quatro quesitos diferentes, prato servido, atendimento, a cerveja mais gelada e o mais higiênico.

Devo ressaltar que o festival fere o princípio do bom boteco em 3 dos 4 quesitos, pois boteco que é boteco o atendimento é péssimo (haja vista que os garçons são mal remunerados e preguiçosos, e a patroa brigou com o dono do estabelecimento e o largou sozinho no balcão), a cerveja é quente (pois a eletricidade chega através de um “gato” mal feito e a tampa do freezer está com a borracha estragada) e o banheiro é um lixo (pois clientes de botecos são pessoas bêbadas que, eventualmente, fazem suas necessidades fora do vaso sanitário, e ninguém se dispõe a limpar aquilo, considerando-se que os garçons são mal remunerados e preguiçosos e o dono do boteco está sozinho no balcão; convenhamos, se o boteco tem um faxineiro, automaticamente perde o título de boteco). Continuando, o júri é composto por empresários da noite e pessoas bem abastadas, ou seja, não são freqüentadores assíduos de botecos, haja vista que usam garfo e faca para levar o alimento até a boca, são pessoas acostumadas a beber vinhos franceses e comer foie gras no Taste Vin. Outro dia, no MGTV, vi um jurado comentando um determinado prato, “as ervas dão um sabor leve e requintado que contrastam com a carne vermelha”, se o dono de um autêntico boteco vê um sujeito falando isso da comida dele, daria um tapa na mesa e o tocaria dali de vassoura em punho, agora digo como deveria ser a coisa, “o cabelo na comida confere uma oleosidade e uma cor única em contraste com o branco do prato”.

Boa parte dos botecos que participam do festival não são, de fato, botecos. E é aí que entra o grande desfavor, os poucos botecos autênticos que participam do festival se desbotequizam (se me permitem o neologismo, se não permitem que usem três palavras pra explicar isso), entendam, você vai num boteco próximo à sua casa em que a cerveja custa R$2,30 e o tira-gosto (que ainda nem era chamado de “prato”) sai por R$5,00, na semana seguinte à indicação do pardieiro, a cerveja passa a custar R$3,00 (mais os 10%, antes inexistentes, uma vez que você mesmo ia buscá-la no balcão) e o agora dito “prato”, que só deixou de vir numa vasilha velha, suja e engordurada, custa nada menos que R$13,90. E pior, o lugar em que antes você sentava praticamente só, apenas na companhia de meia dúzia de fregueses, agora é um dos metros quadrados mais disputados da cidade. O que o Comida di Buteco pretende promover é o anti-boteco, e todos batem palma como se isso fosse o máximo da programação cultural, haja paciência. Minininho do Feyenoord neles.

E por fim, que tipo de gente frouxa vai em boteco pra comer?

Escuro Com Sol Dentro

10.5.04

A solidão não me é prazerosa. Não me basto como companhia, preciso dos meus silêncios tanto quanto preciso dos silêncios dos outros a fazer eco dos meus. Eu não basto a mim mesma porque minha matéria não cabe em mim. Vivo de transbordamentos e avalanches e preciso em quem transbordar. Vivo de entregas, vivo enquanto me dou de presente, me ofereço. Vivo para extrapolar minhas fronteiras e me imiscuir em terra estrangeira. Vivo enquanto exploro e fecundo, vivo enquanto tomo outros territórios, enquanto me aproprio, possuo e sou possuída. Minha fome não se aplaca em autofagia, preciso da carne de outros, do sangue de outros, dos olhos de outros.

Não Discuto

A garotinha está sentada no colo do avô, no sofá da sala com capa cinza clara – o mesmo que está lá até hoje – e o avô olha no fundo dos olhos dela e diz que são olhos de jabuticaba. Só mesmo amor de avô para ver qualquer graça em olhos castanhos como a maioria. A garotinha ri e eles cantam juntos: “Cabooooocla, seu olhar está me dizendo/que você está me quereeeeendo/que você gosta de miiiiiiiiim”. Ele é o seu Nelson Gonçalves e ela é a sua cabocla. A avó entra na sala e acena para a garotinha com a encomenda pronta: um copinho de plástico cor-de-rosa, com uma família de coelhinhos desenhados. A coelha mãe veste um vestidinho azul. A garotinha pula do colo do avô e agarra o copinho. Aquela é quase uma rotina dos dias de férias na casa dos avós. A rotina que ela adora. Dentro do copinho, ela sabe, água e detergente esperam para, com a ajuda de um canudinho pequeno, ser transformados, magicamente, em bolinhas de sabão que vão voar pela vila e se espatifar num dos paralelepípedos enormes, enquanto a garotinha observa tudo, curiosa, sentada no degrauzinho de mármore branco da casa.

A garotinha, é claro, sou eu. E, de repente, a saudade dos meus avós me deu vontade de encolher na cama e ser ela de novo.

Epinion

– Pai, o que é Orkut?
– Você não devia estar fazendo sua tarefa?
– Por que quando eu pergunto alguma coisa que você não sabe responder é sempre assim: “Você não devia estar fazendo sua tarefa?” Igual quando eu perguntei sobre camisinha.
– Tá, tá certo. Então. Você não devia estar me perguntando sobre camisinha?
– Eu não quero saber sobre camisinha. Eu quero saber o que é Orkut.
– Mm. Sei. Orkut. Bom. É, hã, uma espécie de associação. Onde as pessoas se reúnem e conversam, e encontram pontos em comum.
– Ah, sei. Igual àquela associação que a mamãe freqüenta, pra parar de beber? E que ela finge que vai – mas vira o carro na última esquina pra ir jogar pôquer na casa da tia Selma?
– O quê?!? Ela faz isso?? Vai pra casa da Selma???
– Só que ela pediu pra eu não te contar. Mas e aí? Vai responder ou não?
– Mmmmm. Tá, filho, tá. O Orkut é um modo de reunir na rede, várias pessoas interessantes, e...
– Ah, igual ao tio Flávio, lá na chácara, quando disse que a empregada e a cunhada dela eram muito interessantes e foram os três pelados pra rede, na varanda dos fundos?
– Quêêêêê?!? Quando foi isso?!?
– Sábado. Mas ele pediu pra não te contar.
– Hã. Hum. Bem. Hã. Bom, Orkut, meu filho, é um mecanismo que permite que você deixe sua ficha, sua foto, seus dados, e...
– Ah. Igual o Júnior fez na delegacia, semana passada, quando foi preso fumando maconha?
– O quêê?!? Seu irmão foi... preso? C... com maconha?
– Foi. Só que tem uma coisa...
– Tá, tá. Ele disse pra não me contar nada.
– Arrã.
– Hã. Mmm. Pfff. Ahhhh. Hm. Olha, meu filho. Orkut é uma invenção de dois carinhas, um russo e um americano, que encheram o rabo de dinheiro com o tal do Google e agora criaram essa coisa aí pra todo mundo se viciar, esquecer o trabalho e ficar horas e horas gastando pulso na internet! Faz o seguinte: vai lá na farmácia agora e compra uma camisinha que eu te explico direitinho como colocar ela!
– Colocar? Mas eu só tenho oito anos, pai!
– Não tem problema. A gente usa uma banana. Pelo menos conversar sobre camisinha vai ser muito menos desgastante pra mim do que falar sobre o Orkut!

Ao Mirante, Nelson!

Ouço Tim Maia, o que me alivia a dor nas costas conquistada em duas horas de treino. Não há nada de esotérico em Tim Maia. É só a distração da dor. Dores são facilmente distraídas com banalidades pop. Ou então com eventos da natureza. Mesmo as dores mais fortes são ludibriadas com artifícios ao acaso. Ao menos por alguns instantes. Hoje à tarde, por exemplo, meu coração rasgava sufocante. Foi então que caiu uma chuva fora de hora sobre a camada sem forma de São Paulo. E não sei se foi a temperatura, a súbita mudança estética ou o cheiro que subiu do Parque molhado lá embaixo. Não sei bem da onde, mas uma súbita paz tomou conta de tudo. Durou adoráveis poucos minutos. Mas garantiu todo o início da noite.

AMARAR

3.5.04

respeitável público,
estou de férias.
volto em breve, tá?

abraços e beijos pra vocês
(conforme o gosto de cada um)

Ratapulgo Cansado