30.6.03

Se fosse história inventada

Eles teriam se cruzado quando caminhavam em direções opostas no bar lotado e imediatamente depois olhariam para trás, a cena ficaria em câmera lenta e tudo ao redor deles meio embaçado. Ela então sorriria doce, ele, um tanto tímido. Continuariam se olhando a noite inteira e justamente na hora em que ele tomava coragem para falar com ela, as amigas a puxariam para ir embora. Mais tarde ela estaria tentando tirar o resto de lápis dos olhos enquanto ele tomava a última cerveja. E dormiriam pensando um no outro.

Alguns dias depois, já achando que uma coisas dessas nunca aconteceria de verdade mesmo, ela sairia para passear e acabaria na livraria, como sempre, e se perderia no meio dos livros, e perderia a noção das horas.

No mesmo dia ele, tentando pensar em outra coisa, sairia para pegar um cinema, sozinho porque nunca achava companhia para bons filmes mesmo, e sentaria na última cadeira, e sorriria em cenas que não eram nada demais.

Depois de um bom tempo ela escolheria um livro para levar para casa e sairia da livraria. Enquanto isso, acabava de acabar o filme ao qual ele assistia. Os dois se encontrariam na sorveteria em frente ao cinema, ela pedindo um sorvete de menta com pedaços de chocolate e ele, um de flocos. Se olhariam com surpresa feliz por alguns momentos e então ela perguntaria se ele tinha ido ao cinema. Ele responderia já o nome do filme e ela faria cara de quem tinha gostado um monte.

Conto-de-fadas do sanatoriogeral

Experimentações Gastronômicas: O Diagnostico

A receita demorou cerca de 25 minutos para ser concluída. Os ingredientes usados foram creme de leite, espaguete, bacon, presunto, amido de milho e leite.

A quantidade de molho branco feita foi insuficiente para untar todo o macarrão cozido. O amido de milho deveria ter sido dissolvido antes de ser colocado na frigideira com o leite para evitar a formação de “aglomerados” de amido de milho cru dentro do creme.

O bacon foi cortado em pedaços muito grandes o que produziu um certo embrulho no estômago.

O macarrão ficou cru.

O espaguete ao molho branco ficou com gosto de maisena. Não foi possível comer mais de 3 colheradas que foram suficientes para me causar um mal estar e entupir meu estomago (sensação esta provavelmente causada pelo excesso de maisena).

Conclusão:

Voltar ao estágio anterior na minha escala de gourmet italiano: preparar um miojo.


Receitas cocofônicas no Cacofonia

Ônibus. Um padre senta ao lado de um sujeito completamente bêbado, que tenta, com muita dificuldade, ler o jornal. Com voz empastada, ele pergunta ao padre:

- O senhor sabe o que é artrite?

Irritado, ele responde:

- É uma doença provocada pela vida pecaminosa e desregrada, mulheres, promiscuidade, farras, excesso do consumo de álcool e outras coisas!

O bêbado calou-se e continuou com os olhos fixos no jornal.

Alguns minutos depois, achando que tinha sido muito duro com o bêbado, o padre tenta amenizar:

- O senhor tem artrite?
- Não, o Papa.

Na cabeça que é pra não mancar: BloWg

Carne de soja. Ontem cozinhei uma panela cheia disso. Custa pouco mais de três reais o quilo, e você nem pense em comprar um quilo a não ser que tenha um grande porta-malas no carro. É muito leve, lembra flocos de isopor. Comprei 200 gramas. Hidratei por meia hora, espremi para retirar a água e cozinhei com pomarola. Duas latas. O líquido desapareceu, absorvido pelos flocos esponjosos de soja. Por via das dúvidas acrescentei caldo de carne e a soja chupou também. Meia hora depois, comi uns pedaços cozidos. E compreendi que não precisava ter comprado aquilo. Bastava ter cortado em cubos a esponja de limpeza da cozinha e mandado pra panela. Também não teria sabor, mas ao menos seria coloridinha. Apesar de tudo a panelada de carne de soja está se mostrando útil. Espremi fora o molho de tomate e já limpei o teclado e a privada com as esponjinhas. Ficou tudo brilhando. Agora pretendo comprar carne de soja moída. Deve ser muito boa como recheio de almofadas.

Preparado por Catarro Verde

Jogo de damas

Se eu disser que te quero
Acredite
Se eu disser que é de qualquer maneira
Duvide

Se eu disser que gozei
Acredite
Se eu disser que como nunca
Duvide

Se eu disser que te amo
Acredite
Se eu disser que é para sempre
Duvide

Se eu disser que você é demais
Acredite
Se eu disser que é tudo para mim
Duvide

Se eu disser jamais
Acredite
Se eu disser que te esquecerei
Duvide


despedida em Elas por Elas

velhice

percebeu que estava ficando velho no momento exato em que viu o out-door que desenhara, com tanto capricho, nas cores erradas, todas pelo menos dois tons mais fortes e berrantes do que havia planejado. não, nesse momento percebeu que a gráfica tinha babado o trabalho. não, nesse momento percebeu que algo saíra errado, e só podia ser culpa da gráfica. foi até ela e reclamou, reclamou e reclamou, o cliente, surtando, ligava de dois em dois minutos, apavorado com a cores excessivas. num pedido de tempo, aí sim foi até a gráfica pedir explicações. um dos gráficos, na cozinha - a saber, local onde ficam os computadores - disse que nada haia de errado com as cores, talvez só com a pecinha atrás do mouse. ele, no caso, que estava perto de perceber que estava ficando velho. somando todos os fatores numa progressão simples, lembrou-se que as pessoas enxergam as cores em tons mais suaves conforme vão envelhecendo. conforme ele envelhecia, via os tons mais suaves, e errara tudo no out-door porque envelhecia aos poucos, como eu, tu, e o camundongo que devorou todo o pacote de club social que eu escondi debaixo da cama, e espero que ele morra de congestão. o que fez? largou a criação e migrou, sem rancores, pra literatura. escreveu um livro sobre como envelhecer com dignidade, deu entrevista no jô e comeu uma menininha que o confndiu com o carlos manga.

claro que o livro saiu em cores de tons berrantes, já que ele mesmo fizera o projeto gráfico, capa inclusive.

como assim dois uísque?

29.6.03

Ter uma crise depressiva no meio da semana, usar o pretexto do horário, a fila que não anda, o frio, a chuva ou sal que passou da medida...
Feriado, sem horário, sem fila, aquecida, sem chuva e tempero correto.
Ter crise depressiva sem tormento externo aumenta meu tormento interno.
Dizem que precisamos ouvir mais alto o barulho da rua para calar os próprios gritos.
Com razão espero o recomeço das horas porque meus gritos não se abafam nos silêncios de domingos
Reciclando a própria dor, revertendo o medo de si mesmo em medo dos outros?
Medo é medo e é ele que me corrói por dentro, quando não existe perigo lá fora.
Esse medo infantil ao abrir a porta e encontrar no outro, eu mesma estampada em muitos medos estranhos.

Depressão não enlouquece. Depressão não tem sentido, é um terceiro olho visionário ou a vida sem fantasia.
É a realidade de quem não sabe mais sonhar.

Lembrete: Não ir mais ao cinema para assistir filmes brasileiros com tema social e politicamente (argh) correto. Ver todos os filmes fantasiosos, iluminados, água com acúçar, viajar numa sessão da tarde e só ler pokemóns.

sem saída

Castanho acobreado

Terezinha e eu fomos buscar o bolo do aniversário, e no caminho da volta, ficamos falando em velhice. No meio dos exemplos de bondade e perfeição, veio a vovó Eurice. Eu sempre aceitei muito bem a condição de ter sido filha temporã, de ter nascido tarde, de ser babada como caçula, mas trocaria toda a minha vitalidade de hoje por uns momentos a mais com ela. E se eu tenho esse amor inteiro guardado desde criancinha, imagine o Jonas e a Milena, que conviveram mais com suas manias. Vovó colecionava costumes. Era o santuário do lado direito do quarto, com os santos cujos nomes ela sabia todos. O gato, que era dourado com branco, comia feito um rei e de vez em quando fugia para as redondezas, para o desespero dela, com uma mão apertando o tecido do vestido e a outra pousada na testa. Meu São Luiz Gonzaga, cadê o Chane? As unhas eram sempre pintadas com um esmalte da Risqué chamado Rosa Rei, e os cabelos com uma tinta da Imédia. Nunca vou esquecer das suas sandálias coloridas de ficar em casa, que deixavam escapar o dedo mindinho e ela ia arrastando reclamando da grossura do pé. Nas tardes que passávamos no Romcy Planalto ela dizia: Pegue uma coisa pra você. Se Ritinha reclamar, diga que fui eu que mandei. Na coleção de costumes, estavam também dar Ursinhos Carinhosos nos nossos aniversários, fazer brigadeiro e enrolar com maisena, porque só ela sabia que não gostávamos de chocolate granulado. Colocava-os num pote de margarina lavado e tampado, e mandava por quem fosse. A paçoca era a melhor de todas, e em sua casa tinham os garfos mais lindos do mundo: bem arredondados e com o cabo marfim. Nunca mais os vi. O rádio era preto, as plantas bem cuidadas, a geladeira primeiro era Frigidaire, branca, depois trocou por Cônsul, e era lá que ela guardava seu copo com água até pedrar, para ficar na beira da cama enquanto ela dormia. Não deixava eu beber um gole nunquinha, dizendo, achando graça de mim, que criança não podia beber em copo de velho.

Quando os cabelos foram caindo, deixou de pintar com freqüência, e lembro dos dias em que íamos lá, e, no meio dos bilhetes de loteria que entregava ao papai, para que ele jogasse por ela, reclamava do cabelo. Lembro do pé branco e achava lindo. O mindinho sempre para fora da sandália.

O vestido de festa era branco com uns ramos verde-água e umas rosas azuis com amarelo. Sabe aquele chocolate Surpresa, que vinha com um card estampado com bichos? Pois era com isso que ela me presenteava depois do almoço. As piadas mais pesadas do papai eram sempre uma tentativa de repressão da gargalhada fina e suave. Um desastre, é claro, pois ela sempre soltava a vontade e se ria inteira. Sempre perguntava pelo resultado do jogo do Ceará, acho que muito mais porque queria ver o filho feliz, por propriamente amor ao futebol.

Colecionava costumes.
Ai que saudade horrorosa!

Nostalgia no Faniquito

Mariazinha

Hoje, quando sua mãe ligou para casa e pediu para falar com você chamando-lhe pelo nome diminutivo, senti-me estranhamente próximo a ela, sua mãe. Porque percebi que eu e ela – e só nós dois no mundo todo - sabemos algo muito caro e precioso a quem a ama. É que você jamais deixará de ser um nome diminutivo.

- Alô. A Mariazinha está? – perguntou sua mãe. E eu fiz um silêncio instantâneo, praticamente imperceptível, durante o qual fui tomado por uma luz celeste, destas nas quais você crê e eu não.

- Não. Está trabalhando – respondi. Mas era uma mentira. A Mariazinha com quem ela queria falar (e com a qual eu gostaria de estar naquele momento) não estava no trabalho. Nem no cinema, nem fazendo as unhas, nem jantando, nem em lugar nenhum. A Mariazinha havia desaparecido.

Ou melhor, fora seqüestrada. E eu quis dizer para a sua mãe – e teria dito, se não me sentisse tão culpado – que todo o seqüestro se desenrolou na minha frente. Sem que eu tivesse reação alguma.

Mariazinha acordou e me abraçou como em todas as manhãs e me deu um beijo no pescoço, coisa que ela sabe que eu adoro. Disse bem baixinho, cuidando para não me acordar, ainda que saibamos sempre os dois que já me acordou:

- Vou levantar. Fica dormindo.

Não consigo ficar dormindo quando Mariazinha levanta assim tão linda. Virei-me para vê-la despertando. Ela andou em passos infantis, levantando demais os joelhos, numa simulação caricatural de pressa. Deu uma olhadinha para trás ainda, antes de desaparecer no banheiro.

Foi aqui que surgiu Maria. Eu devo ter pegado no sono, sei lá. Saiu do banheiro num terno preto, toda arrumada. Parecia-se com Mariazinha, mas logicamente era mais velha. Tinha o cabelo amarrado atrás, num rabo-de-cavalo maduro. Semi-desperto, perguntei por Mariazinha, mas a mulher já havia consumido a criança.

- Daqui a pouco Mariazinha deve estar aqui – disse eu à sua mãe. Não era uma promessa, claro. Para tanto, eu dependia da boa-vontade de Maria, que ela jogasse os sapatos de bico quadrado para o alto, tirasse a calça do terninho e ficasse à vontade, correndo de lá para cá, respondendo, quando eu pergunto se ela sabe que eu a amo:

- Eu sabo.


sequestro-relâmpago no Polzonoff

Baby Nóia está deitado na minha cama, e o Eddie Vedder está gritando no meu ouvido, fazia tempo que não ouvia essas porcarias. Depois de ter passado horas gastando a minha Internet, o Nóia está dormindo com a minha touca do Scott Weiland, falando, falando, falando, falando, deve estar começando a dormir, babar e ter delírios com a gostosona aqui. Sério, por quê Baby Nóia, você não fica quietinho quando eu quero estar do teu lado te curtindo? Puta merda! De fé, como esse piá consegue ser tão irritante, e tão lindo, fofo e gostoso em questão de segundos?

Hoje nós fomos no Malhação, e nós nos destruímos, rolou muito roquenrou, violência total. Cara, que viadagem ficar escrevendo sobre namorado em blógue, mas vou dar um desconto, porque o Nóia e eu tivemos uma conversa boa hoje, e eu QUERO ACREDITAR que nós vamos nos entender.

Agora o puto tá me xingando, me atacando a touca, que putão, tendo ataques infantis. Que lazarentinho. Lazarentinho que eu amo. Cocô é o seu cu.

edredom de catavento & montanha russa

28.6.03

Inverteram papéis?

Depois que espalharam os boatos que homem não vale nada, Deus resolveu brincar de Lei da Oferta e Procura.
Tirou o produto do mercado pra ver se valorizava mais.O Diabo, mais esperto, abriu sex shop nas esquinas de cada cidade.
Agora Deus não sabe o que faz com tanto homem estocado e nem o Diabo com tanta mulher satisfeita.

Mais-valia no Casos e Acasos Virtuais

Na época em que Chico morava na periferia tinha uma vizinha de porta estranhíssima. Grandalhona, robusta, de traços grosseiros, chamava-se Nanci. Quando se cruzavam na escada, ela até cumprimentava, às vezes sorria ou acenava, mas ele tinha uma cisma. Uma certa aversão àquela figura.

Certa vez, Nanci bateu à porta de Chico com um olhar manso, diferente do que ele costumava enxergar na moça.

Ela era analfabeta e com muita humildade, pediu para que o rapaz redigisse uma carta de muita importância para ela. Apesar da resistência que tinha a qualquer contato com a estranha, cedeu ao apelo sem insistência:

- Sente aqui e diga: para quem é e o que devo escrever?
- É para o meu namorado, o nome dele é Pablo.
- Namorado?! - Chico não conseguiu esconder o espanto.
- É, namorado. Por quê? Uma moça como eu não pode ter um?
- Claro, que bobagem! Vamos lá então, dite. - disfarçou tentando consertar a indelicadeza, mas ainda pensando em como seria possível alguém em suas condições mentais preservadas namorar um tipo como aquele.

E a moça ditou a carta com tanta emoção, mostrando-se delicada e amorosa que Chico pensou que caso a namorada não fosse Nanci, até gostaria de estar no lugar do tal Pablo.

Muito grata ao préstimo do rapaz, Nanci perguntou o que poderia fazer-lhe em retribuição - lavar e passar suas roupas, por exemplo. Chico apenas negou e ainda agradecendo, ela saiu.

Passada uma semana, Nanci novamente bateu à porta:

- Olá, boa tarde. Seria pedir demais que o moço me escrevesse outra carta?
- Absolutamente. Pablo, não é? - disse Chico sentando-se já com papel e caneta em punhos.
- Não. Desta vez é uma carta dele para mim.
- Como assim uma carta dele? Isso quer dizer que não existe nenhum namorado Pablo?!

Nanci respirou fundo e respondeu com uma voz diferente da que Chico havia ouvido antes:

- Não existe Pablo, nem existe Nanci. E daí? Se te custa muito escrever pra mim, tudo bem, peço a outro.
- Como assim não existe Pablo nem Nanci? - Chico meio perturbado e com os olhos esbugalhados, esperava uma explicação que lhe fizesse acreditar que não estava louco.
- Pois é, eu bem queria que ele existisse, mas não. Será que não é possível que eu seja uma pessoa normal como as outras, tenha um namorado e escreva para ele?
- Ele quem, meu Deus? A senhora não acabou de me dizer que Pablo não existe?
- Não existe, mas é como se existisse, ué. Eu escrevo para ele e ele me responde. Quando peço para que alguém leia para mim as cartas de Pablo, é como se ele existisse e sinto-me leve como uma pluma. Não estou prejudicando ninguém. Que mal pode haver nisso?

Chico finalmente entendeu. Passou a escrever semanalmente cartas de Nanci para Pablo e vice-versa. Às vezes lia algumas para ela, que normalmente chorava, ficava emocionada. Em troca, encontrava sempre suas roupas limpinhas e cheirosas.

Central do Brasil? Não, Anna Maron

— Cara, você viu minha mãe por aí. Faz dias que não a vejo.
— Xi, meu! Você não leu no meu blog. Morreu. Estranhei mesmo que você não estivesse no enterro...
— Mas eu avisei no meu blog que ia viajar por uns dias!
— E eu disse no meu que estava sem tempo de ler os blogs do outros. Sabe como é, dá muito trabalho essa história de ter um blog? Peraí, onde você vai?
— Vou xingar você no meu blog!
— Mas eu já disse que estou sem tempo de ler!

você leu no Chez Nigro's?

O diabo e a cura

Uma mulher tinha em casa um filho que ia morrer.

Ele estava num equipamento que o ajudava a respirar, mas mesmo assim cada vez que aspirava dava para ouvir o peito chiando, como uma mesa de metal sendo arrastada por um chão de pedra. Naquela noite ele arregalava os olhos tentando absorver o ar, e a mulher ia sentindo que ia sufocando também. Uma hora ela não aguentou e teve que ir até o quintal respirar.

Estava lá quando viu um homem escondido entre as orquídeas da estufa. Ela estava tão cansada que não sentiu medo; e da mesma maneira que nos sonhos temos certeza de certas coisas, o cansaço fez com que ela tivesse certeza de que aquele homem era o diabo.

O diabo falava baixo, e tinha um jeito tranqüilo. O diabo disse que ela estava sofrendo porque o filho ia morrer, e depois disse que podia ajudar.

Ninguém tinha dito ainda aquilo, que o filho ia morrer - mas ela sabia que era verdade. Ela perguntou se ele podia curar o filho. Ele disse que não, mas que podia fazer algo quase tão bom quanto isso:

-Posso fazer com que você deixe de amá-lo.

Ela achou a idéia horrível e pensou em xingar o diabo, mas estava tão cansada que não disse nada. O diabo disse:

-Pense bem. Há quantos dias você está nisso? Semanas, já. Ainda se dissesse que a sua preocupação ajuda o seu filho em alguma coisa. Mas você sabe que não é verdade.

Ela disse:

-Vou entrar.

-Se você mudar de idéia, vou estar aqui amanhã de novo.

Durante uma semana ela desceu à noite para o quintal, entrou na estufa e fumou em silêncio na companhia do diabo. Uma noite ele disse:

-O seu amor não adianta nada, só te faz sofrer. Grande coisa. Joga isso fora, joga isso fora, Kátia...

Ele falava de um jeito tão compreensivo, tão bom.

Na oitava noite ela não aguentou mais e disse:

-Está bem.

No escuro da estufa o diabo olhou para ela como se estivesse um pouco surpreso. Depois sorriu.

-É melhor assim, você vai ver.

-Como é que você vai... –ela ia perguntar como ia ser o procedimento, mas o diabo a interrompeu baixinho:

-Já aconteceu.

Ela de fato se sentia diferente. Perguntou ao diabo o que ele ia querer em troca.

-Nada! Está pensando que eu sou como aquele ali? Aquele ali é que só faz as coisas em troca de algo, uma oração, uma caridade, um arrependimento. Eu faço as coisas de graça, porque não suporto ver as pessoas sofrendo. A minha recompensa é ver você sorrindo de novo, Kátia...


psicografado por Alexandre Soares Silva

27.6.03

Se liga:

Quando você começar a receber spams citando um texto de Bill Gates sobre spam, pode pedir pra parar a Internet e descer.

mario av

Pôr-do-sol

Como falar de um pôr-do-sol à beira-mar sem cair naquela malha inarredável de clichês? A lembrança da linguagem do hemisfério boreal de Tlön me traz algumas idéias.

Aquosa ondulação espelhada. Mais adiante, líquida crepitação passadiça. Muito além e acima, ofuscante luminescência incandescente. Algum tempo depois, brilhante auréola amarelada. Já próxima da linha do cume da montanha, intenso círculo laranja-avermelhado. O pôr-do-sol diante da baía norte de Florianópolis é um esplendor. À frente, uma extensa faixa de mar calmo, aprisionado entre o continente e o perfil da ilha. Às minhas costas, calçadão, ciclovia, três largas faixas de rodovias e uma cidade limpa, com grandes prédios de janelas espelhadas e sacadas mirando o mar em reverência, cidade coadjuvante.

Depois que o sol se põem, a água assume uma coloração cobreada, brilhante, quase gelatinosa, um tanto surreal. Talvez algo a ver com a poluição, que envolve esse cenário paradisíaco com um cheiro de esgoto. Aos poucos, a luminosidade vai desaparecendo e a água começa a enegrecer. Atrás, a cidade emerge de sua timidez subalterna e começa a brilhar intensamente em mercúrio e neon.

Não é por acaso que Florianópolis é o sonho de moradia de muitos gaúchos e um destino cada vez mais procurado por aposentados que buscam uma espécie de substituto do paraíso ainda durante sua estada por aqui.

O que, aliás, me remete a outro pensamento: não seria uma atitude das mais recomendáveis procurarmos com mais freqüência pedaços de paraíso por aqui mesmo, de preferência agregando-os à nossa rotina?

Sexta-feira é um bom dia para pensar nisso.


fim de semana nO Jardim do Diabo

Da série: só com muito silicone

Ela tenta me convencer a usar decotes Ligações Perigosas como os dela.
Ela não entende que eu confio muito mais nos meus olhos que nos meus peitos.

Coletânea de Pensamentos Desconexos

Salgadinho

Salgadinho é o "street dog" daqui de casa.Tem pose de pastor alemão, só a pose porque não chega nem a irmão.
Só me faz passar vexame,desde pequeno, quando ainda não sabia direito a sua sexualidade e dava o rabo pros outros cachorros da rua.Depois que cresceu virou garanhão e começou comer toda cachorrada da vizinhança.
Eu saio pra rua, ele foge e já corre atrás do primeiro que vê, querendo avançar e morder , só pressão.
- Filha da mãe, num olha teu cachorro não?
É assim que começa.Eu mando ele embora ele não vai,atiro pedrinhas ele desvia e ainda ri da minha cara e continua me seguindo.Na rua de trás todo mundo conhece o Salgadinho.
- Olha o Salgadinho , Salgadinho vem aqui...
Meu nome ninguém sabe e nem eu sei como sabem o dele, acho que ele mesmo tratou de se apresentar, não tem outra explicação.
Vou no Supermercado e a praga também vem,entra junto,em pouco tempo já tá o guardinha correndo atrás do Salgadinho pra colocar pra fora.
- Moça, esse cachorro é seu?
- Num é não.
Aí o filho da puta pula em mim,parece que faz de propósito, só pra não ser expulso.
Dia desses ele resolveu arrumar um amigo.Aí não era só ele atras de mim. Eram os dois. O Salgadinho e o amigo.
Fui sair com um amigo pela primeira vez, um pretendente a namorado e os dois vieram atrás.
- Porra Débora, precisava trazer o cachorro junto, dois ainda por cima?? (educadíssimo)
- Ah fugiu.Paciência.Educado você hein?
- Não é questão de educação.Como que a gente vai entrar num restaurante com esses dois cachorros atrás, latindo e chorando na porta?? Tão fedendo ainda por cima.Eu tenho alergia, você sabe , eu não vou mais em lugar nenhum também.
- Salgadinhoooo....-
- Ah não, teu cachorro mijou na minha revista você vai me comprar outra e.... pára de rir !!!!(gritou, "furiosa")
- Tchau.
- Onde vc vai?
- Vou embora comer lanche com meus cachorros.São mais educados que você. Estúpido.
Fomos embora os três. Paramos num carrinho de lanche:
- Nossa moça , esse cachorro é seu? Ta sempre por aqui querendo roubar lanche..
- Num é não.
E pularam os dois em mim.

cachorradas em Casos e Acasos Virtuais

uma longa e entediante apresentação

coloquei meu nome na lista da direita. vários novos sub, co-editores num site de copy&paste. me pergunto: "pra que tanta gente pra ficar copiando?" e me lembro do filme o homem que copiava. qual a relação? não sei. não me pergunte. sou cheia de idiossincrasias e adoro esta palavra.

me considero uma velha vanguardista e o pulguento do editor megablaster supermaster ratapulgo copiou a minha idéia e botou no subtitle desse pseudoblog aqui. que infame! a cópia da cópia...

espero poder trazer coisas pra cá. nem sei porque estou aqui. eu leio o c&p, acho alguns blogs interessantes e vou a eles. mas raramente tenho algo interessante pra colocar aqui. quando coloco ainda tem comment: "mas este texto não tem nada a ver com c&p!". eu mereço!

minha vida nos últimos tempos só eu que sei. tenho um blog bem deprê, o [boop it] que de vez em quando vem parar aqui. mas não reclamo: estou colecionando histórias.

poderia dizer que meu blog anda meio sem identidade como a "dona". mas esta é a identidade dele, como da dona, claro.

nas horas vagas, que ultimamente têm sido as oras de ocupação, me interesso por assuntos relativos à ociosidade como psicologia, religião, leitura de blogs, filosofia. não me interesso por política, assuntos internacionais ou economia é igual acompanhar a novela: um monte de drama diário, mas a gente sempre sabe como vai acabar.

venho me dedicando ao que cecília meireles já nomeou bem: "a arte de não fazer nada". nutro uma paixão dessas bem loucas e dramáticas por clarice lispector [é a paixão do momento, pelo menos]. tempos atrás entrei numa busca alucinada pela compreensão do tempo, da vida, do ser humano e de outras coisas menores, mas estou chegando à triste conclusão que o homem precisa mesmo é de pão e circo. coisa tão óbvia, mas só eu que não entendo mesmo. sou burra! confesso...

nesta minha busca cheguei até a ler o calhamaço entediante do thomas mann: a montanha mágica. sabe o que é pior? eu gostei...

acho que não precisa dizer, mas quem não me conhece pensa que sou louca e arrogante. quem me conhece, tem certeza. mas sou gente boa, apesar de tudo. perguntem ao masterblaster, meu amigo pulguento.

agradeço a oportunidade de fazer parte do blog mais original do brasil. é isso!

abs

kk

26.6.03

Seu celular vai escolher o pior lugar para cair do seu bolso

Hoje em dia as meninas estão usando calças cada vez mais apertadas para sair. Chega a dar para ver as veias delas saltando sob o tecido. Pois bem. Uma amiga minha resolveu aderir à moda e comprou uma calça assim. Como bolsa de mão não combina com o figurino, ela colocou o dinheiro junto com a identidade, conseguiu (sabe Deus como) enfiar o celular no bolso de trás e partiu para a balada. Lá pelas tantas, depois de um ou vários drinks, resolveu ir ao banheiro. Fez o que tinha que fazer e quando foi levantar as calças intra-uterinas, escutou um barulho aquático - splash! Antes mesmo de virar para ver o que tinha caído na latrina, pensou: "Cadê meu celular?". Quando virou-se para trás, eis que lá estava ele: seu celular novinho abraçado na "noiva", submerso na água pré-descarga. Ela criou coragem e tirou-o de lá, e resolveu lavá-lo para limpar os resquícios (sim, lavar com água mesmo. Acho que a calça cortou a circulação de sangue para o cérebro dela). Depois daquele incidente, o celular nunca mais foi o mesmo. Não acendia mais as luzes e toda vez que tocava fazia um barulho que parecia uma cotia epilética...

Lei n° 117, Leis de Murphy

passeando de trem

um moço trabalhador sentou ao meu lado na van da orca. estava lendo poemas de florbela espanca.
deu uma olhada no que lia: o que se diz e o que se entende de cecília meireles.
ele me ofereceu biscoito de polvilho uma hora. agradeci. me disse que não estava gostando muito da florbela. que acabou comprando errado. já estava pra mais de metade do livro lido, no entanto.

me perguntou se eu conhecia florbela. disse que nunca tinha lido. falei que talvez ele não estava gostando por ser poema. não. nunca subestime alguém!

pegamos o trem juntos. ele me perguntou ainda na estação se eu conhecia algum bom poeta. ele gosta de poesias, mas achou florbela pesado. pelo que entendi ela deve usar um pouco de vulgaridade em seus versos. sugeri drummond. espero que ele encontre algo legal dele assim baratinho, numa edição da lpm - como a que lia da florbela. e quem disse que o povo precisa só de comida? precisa alimentar sua alma de letras.

ele parece ser daqueles moços românticos, sensíveis, sonhadores. a hora que achar uma namorada legal, vai enchê-la de versos amorosos.

e eu fui pensando nas relações humanas. em como me encontro. as pessoas emanam uma energia, uma "aura". e eu me encontro assim. e gosto disso. hoje quem senta ao meu lado não é um louco, maníaco, obcecado, mauricinho, mas um moço trabalhador que quer alimentar sua alma.

acho mesmo que pessoas em estado de espírito parecido acabam se sintonizando de tal maneira que se reconhecem no meio da cidade. acredito também que hoje estou muito mais ligada ao mundo ao meu redor. não apenas o trânsito, a correria, os afazeres. mas principalmente nas pessoas, na cor e na luz do dia, no ar, na brisa, neste vasto mundo de sentimentos, emoções, dores, alegrias, tristezas: tudo que paira leve na camada atmosférica e que pode ser captada pelas minhas antenas de borboleta.

captado no boop it

A tout asservie, Par délicatesse, J'ai perdu ma vie. Rimbaud

Tenho esperado o telefone tocar, tenho ansiado por olhares e pelo toque desajeitado de mãos. Tenho esperado pelo roçar dos lábios no rosto, a pele fresca. Tenho esperado sorrisos e sextas-feiras como se fossem a saída do labirinto de espelhos. Tenho esperado por um sinal que decifre uma vida inteira. Pelo pouso dos aviões, pela proximidade impessoal dentro dos elevadores, pelas reuniões de última hora e pelas nossas pernas sob a mesa de reuniões, pelos cigarros e cafezinhos e aniversários de colegas e cartas como se espera por uma sentença. Tenho esperado a madrugada, a cerveja, o Bailey's, o hálito quente dele na minha nuca, tenho esperado pelo roçar dos corpos, da mão dele na minha cintura na pista.Tenho esperado pelas palavras dentro das palavras, pelo gesto dentro do gesto, pelo sentido dentro sentido. Um ano que é como um barco à deriva dentro de toda minha vida, o ano que comecei a envelhecer, em que as rugas ao redor dos meus olhos foram fotografadas pela primeira vez, um ano de alegria em alegria, de corpo em corpo, de sono em sono, sem que houvesse qualquer verdade nisso tudo, sem que precisasse haver. Um ano inteiro suspenso por um gesto distraído, por milésimos de segundo.

um anos de Nadas

Estávamos todos conversando animadamente na sala da casa da Catarina quando ela recebeu um telefonema de seu paquera e ficou ainda mais feliz: "Culpa do Santo! Está dando certo! Traz o Tonho! Vamos rezar mais!"

Tudo estava tranqüilo, até a Cathy acender a vela e me passar o livretinho: "Você lê a Oração Preparatória". Eu, que tinha acabado de aprender a Ave Maria, iria comandar a reza na qual também estavam presentes a Vó da Cathy e o Diego... Os três olhando para mim, esperando. "Ai, meu Deus!", pensei. "É melhor eu imaginar uma cena bem trágica, um futuro marido dando beijo na Tininha, porque eu não posso rir de jeito nenhum!" "Não vai começar, não?" E eu comecei: "Meu desvelado e solícito Protetor Santo Antônio...", seriamente. Até que na terceira linha... "para que me alcanceis da Divina Majestade o perdão dos meus pecados, as virtudes cristãs que praticastes em grau tão erótico" e depois que eu disse isso eu nem consegui consertar meu erro, tamanha foi minha vergonha e, simultaneamente, meu nervoso ataque de riso! Todo mundo muito sério na salinha - talvez pensassem na minha falta de respeito com o heróico santo - e eu não conseguia encarar ninguém, nem parar de rir. "Não tem problema rir", o Diego tentou amenizar a situação, "se você tiver fé". E eu fui obrigada a continuar. Mas depois deste ato falho, como dizer seriamente, dez linhas depois, "que enfim tenha a dita de o amar e gozar em vossa companhia, na glória" ou "conservai-nos o uso perfeito dos sentidos do corpo"... Muito difícil. Mesmo pensando na Tininha.

Foi assim a oração inteira. Quanto mais eu rezava, mais eu pecava. Até que, no final, a Vó da Cathy comentou muito brava que eu não sabia rezar. "Eu tentei", respondi, "mas confesso que realmente não consegui...". "Por quê?", ela perguntou mais brava ainda. Eu só tinha uma resposta possível: "Acho, Dona Mara, que é porque eu sou filha do Alan."

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(só pra você entender melhor este texto, saiba que meu pai conseguiu desviar metade de uma procissão imensa na Semana Santa, em Perdões! Ele e um amigo, cada qual numa fila da procissão, seguravam velas e fingiam rezar baixinho... Até que o Padre virou à direita, comandando a procissão, e meu pai e o amigo viraram à esquerda, só pra bagunçar. Todos atrás, muito concentrados, rezando, nem repararam e seguiram os hereges. Os dois fizeram milhares de pessoas passear por um monte de ruas, até encontrar o Padre, muito depois, cara a cara. O começo da procissão deu de cara com a outra metade, por obra de meu pai, que passou semanas se gabando deste feito! E este é só um dos exemplos que comprovam que eu não poderia mesmo ter nascido beata...)

heresia em Despropósitos

A Arte da Guerra


É assim: enfie a faca sempre abaixo do peito, três ou quatro dedos abaixo do centro. É nesse ponto que fica o diafragma. É o ponto mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar um objeto perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer quem tem muita força no braço, porque senão corre o risco da faca ficar presa no esterno, e pra tirar não é fácil. Mesma coisa nas laterais: acontece muito com baionetas. Se você enfia a baioneta no flanco de um sujeito, tem que ser abaixo das costelas, na região dos rins. Caso contrário, a ponta da baioneta fica presa na carcaça do morto e você tem duas opções: ou deixa a arma onde está e corre o risco de uma corte marcial por deserção ou comportamento covarde em batalha (faziam isso muito na França, na época da Primeira Guerra) ou tenta retirar à força e morre tentando, porque logo vem um compatriota do cadáver e enfia a baioneta nas suas costelas. E aí começa tudo de novo.
Entendeu? Enfie a faca sempre, mas sempre abaixo do peito. O cara vai sofrer, e não vai morrer na hora. Mas sem ar ele não tem força, e vai ficar incapacitado. Aí é só terminar o serviço com calma. E limpeza, que é fundamental.
Entendeu tudo mesmo? Então pode ir. E não me volte aqui sem a cabeça daquele filho da puta.

mais instruções no Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa

Parada Gay na TV. Aquelas drags lindas, montadíssimas, de mãos dadas com as mãezinhas, umas velhinhas fofas de cabelinhos brancos. Minha mãe vira pra mim e manda:
- Minha filha, eu adoro o seu irmão, você sabe. Mas felicidade mesmo é ser mãe de viado. Olha que glória!

materno Drops da Fal

tia Sandra

Foi minha professora de natação por uma data, uns oito anos. Lá no colégio, o das freirinhas. As freirinhas que, reza a lenda, todas iam tomar banho na piscina lá do colégio aos domingos. Fora a irmã Clorofila, que tinha o cabelo verde de tanto nadar, era atleta, e assim tava sempre na piscina lá pelas madrugadas.

Mas tia Sandra era das melhores criaturas. Era, porque eu soube hoje que ela morreu, vítima da loucura das células que querem ser imortais. :(

As melhores lembranças, eu tenho dela. Sempre lá com aquele bonézinho, dizendo pra gente ir, ir, ir, tirando uma com a minha cara e me chamando de tomatinho porque minhas bochechas ficavam vermelhas quando era prova de velocidade com reloginho, o ponteiro no sessenta e a gente saía nadando feito uma bando de doidos. mas eu gostava, eu gostava muito. E tia Sandra que me ensinou o antídoto para as cãimbras, que de vez em quando me pegavam. Levanta os dedinhos do pé com o joelho flexionado que passa. É um santo remédio, sim, depois a gente descobre que é porque os gastrocnêmios relaxam quando se faz isso, mas eu achava ali no início que era mágica de tia Sandra.

E ela disse que eu devia mudar pra um Clube, pra ser nadadora profissional, competições, medalhas, uhh, mas é claro que eu não quis, deusquemelivre, tia Sandra! aqueles revólveres que eu odeio? eu não!, e fiquei lá nadando com ela e com os pivetinhos até não poder mais (um dia você conclui o segundo grau, é).

Minha mãe soube da notícia e chorou tanto, e eu chorei porque minha mãe tava chorando e a gente lembra daquelas terças-feiras loucas, quando eu saía às pressas da natação e tinha 10 minutos pra vestir a roupa do balé, veja que complicado, meias e tutus e coques e redinhas, enfim, eu saía toda torta da natação e toda desmantelada, porque em 10 minutos era impossível vestir aquela meia e ficava então impossível pra minha mãe fazer um coque direito, porque eu me mexia e pulava e me enroscava, e quando a gente saía correndo do vestiário, tia Sandra sempre dava risada.

Tão filhadaputa isso das células ficarem loucas e as boas pessoas morrerem assim tão cedo.

Minoria de Dois

25.6.03

Não tô afim de escrever aqui hoje.
Gastarei minha noite fazendo o trabalho de química e lendo o Romeu e Julieta que adquiri por míseros dérreal pela editora LPM.
Eu só vi o Romeu e Julieta versão Turma da Mônica. Eu realmente duvido muito que os dois morram no final. Porque o Mônica Capuleto e o Romeu Montéquio Cebolinha ficavam juntos no final cantando uma musiquinha muito brega mais ou menos assim:
"O amor pode estar perto de você sem que você perceba nada / Olhe em volta e você verá / Tem gente agora olhando pro seu lado com um jeito interessado / Olhe em volta e você verá / Só o amor pode transformar o mundo / Você vai ver que os seus dias cinzentos vão ganhar mais cor!"
Querer que eu me lembre de todos os versos seria exigir demais da minha parca memória.
Mas é isso aí. A Julieta não morre.
Se morrer, ninguém avise.

Mistérios da literatura inglesa no Kobe's

Outra história...
Quando tinha 20 anos, fazia estágio na CVM (comissão de Valores Mobiliários) e posso dizer com toda certeza foi uma época inesquecível na minha vida! As pessoas que me relacionava eram ótimas, tinha um nível cultural diferente das que eu conhecia, eram pessoas formadas, abertas a novas experiências, claro, haviam excessões, mas não importava... Eu amava aquele lugar... Me sentia bem com as pessoas e com tudo que aprendia, tanto profissonalmente quanto no lado pessoal.
Tinha uma secretária na sessão que trabalhava que se chamava Célia. Ela era uma mulher alegre, profissional e muito esotérica. Foi há Índia duas vezes, andava com roupas indianas, acendia incensos de sândalo e tinha fotos e Jesus Cristo, Buda, Shiva e Sai Baba atrás da sua mesa. Mas não fazia o estilo paz e amor não. Era na dela.
Um belo dia, uma senhor que trabalhava em outro andar, chegou perto da mesa dela e olhou, olhou e fez a pergunta fatal:
- Porque vc tem uma foto da Aracy de Almeida na sua mesa?

Foi decretada e 3ª Guerra mundial!!

- Você tem que respeitar a religião dos outros!!! Eu nunca brinquei com você assim!!! Respeito é bom e eu gosto!!! (Célia)

- Ué! Mas porque você cultua Aracy de Almeida? Até agora não entendi!!! (o senhor)

Nisso eu tive uma crise de risos e tive que sair de perto, mas analisnado friamente, até que parece... Com todo respeito!!!

Por Bla bla bla da Vida...

"Não são os tempos mais alegres que deixam as melhores lembranças, mas os tempos mais intensos." - Antônio Callado.

"Do you miss me, Miss Misery, like you say you do?" - Elliott Smith.


O professor de inglês

Por trás do vidro fumê adivinho o que eles vêem. Nada, atrás de nada. Sinto que desse jeito não vai. Trabalho, uma pilha pra corrigir, mas não consigo. Um terço da manhã pensando na cidade vazia essa época do ano. Como é que devia estar, doceira na praça à noite ainda? Os mais novos rodando, rodando aquela roda onde nada acontece, e os velhos sentados nos bancos de cimento que a prefeitura dá de presente. Nunca se faz nada por aquele lugar. E aqui é tudo espelhado.

- Fabiano, Fabiano... vai aonde todo bonito?

E me deu um beijo na cabeça. Muito diferente, nunca tinha me dado beijo, nem no rosto, nunca nenhum, só um puxão no braço uma vez, subindo o morro, pra eu não pisar na merda.

- Estudou pra prova?
- Que prova? - Ela vivia esquecendo e eu, que era de outra série, decorava o calendário colado na porta da sala de aula. Eu cobrava. Era minha coisa superior.
- Inglês.
- Eu sei tudo de inglês, não preciso estudar. Leio revista americana. Meu primo trouxe. - Ela tinha esse tal de primo de São Paulo, aparecia pra passar lá o Natal. Chegava cheio de novidade.

- Burra, revista não é aula.
- É muito melhor, palhação.

Burra, palhaço. A gente cresce e se torna cada vez mais o que é. Só que ela nunca foi muito burra.

- Nem agradeceu o elogio.

Sacudi a cabeça porque palhação não era elogio.

- Bonito.
- Que que é bonito?
- Você, eu cheguei e disse que você tava bonito.

Meu silêncio.

No dia do morro e do cocô, me deu um puxão e eu aproveitei pra encostar nela. Fez que não sentiu. Uns dias depois me beijou no alto da cabeça. Eu não sabia se estava cheiroso, mas como ela não disse nada, nem que cheirava bem nem que fedia, eu também não perguntei. Só disse que eu era bonito. Cada vez mais maluca, cada vez mais maluca, era o jeito de São Paulo que pegava com o primo, eu achava o cara besta. Sabe dois vinténs de uma coisa e se garante nisso o resto da vida.

- Vontade de comer jabuticaba. - Todas as minhas camisas manchadas de roxo, de jabuticaba, de sacolé de uva. Comia muita besteira roxa. Tinha açúcar e manchava, eu queria.

- Pega no pé, ué.
- Tá com marimbondo, seu Bill avisou.
- pffff... seu Bill não sabe de nada, não sai daquele bar.

Vai dizer que nunca pensou sair daqui? Ela no portão, já com peitos e pêlos, e essa janela aí, que parece que não tem ninguém dentro e quase não se vê o lado de fora. Eu acho que as pessoas lá fora tinham o direito de me ver aqui dentro vendo muito mal elas lá fora, querendo tudo ao contrário que eu quis quando eu só pensava em fruta. Comecei a pensar bastante nela. Foi na primeira viagem que fez pra São Paulo. Ia ficar na casa do primo, 15 anos, ela, ele, eu pequeno, invisível. passou um mês lá, as férias quase todas, eu sozinho, sozinho, quase não saía com os meninos. Ficava sozinho de noite no quintal bebendo vinho tinto que eu comprava com a mesada, era muito barato e muito tinto, manchava tudo, quando bebia e quando vomitava

uáááááá,

- Tá diferente, emagrecida.
- Você também tá diferente, agora tá tudo diferente. Eu não quero mais ir pra São Paulo não.
- Mas só vivia falando em São Paulo. Ia pra lá, queria fazer faculdade lá...
- Agora eu quero ir pro Rio, Fabiano, São Paulo não tem praia. A gente passou dois dias no Rio no carnaval e tem praia à beça, eu fiquei o tempo todo de biquíni. A praia é enorme, tem um monte de gente e a água é quentinha.
- E onde tem faculdade melhor?
- É tudo igual, garoto, mas a do Rio é a maior.
- Você vai fazer concurso?
- Só quero isso. E você, vai fazer o que da vida?

Toda noite eu bebia meu vinho, ela vinha. Fabiano, vai acabar que nem seu Bill! Fabiano, vai acabar com o fígado! Mas não achava mal de verdade, bebia um pouquinho também. A gente ficava rindo alto, às vezes dormia mesmo no quintal, na minha casa ninguém reparava e na casa dela ninguém sabia. Trazia revista, a gente lia com dicionário.

Lá todo mundo bebe o dia inteiro. Ela trazia livros que comprou em São Paulo, as férias acabando, os últimos diazinhos. Vimos e revimos as fotos do Rio, de biquíni o dia inteiro. São Paulo me parecia mais perto porque eu já tinha ouvido falar muito mais que do Rio. Rio quase não existia. Só passou a existir naqueles dias antes de voltar pro colégio. Só passou a existir naquelas fotos. Fiquei com uma, de biquíni. Ela me deu.

- Não vai fazer besteira com a minha foto.
- Besteira, que besteira? Vou botar na gaveta.
- Ah, pra botar na gaveta eu não dou.
- Boto no porta-retrato então.
- Aí tá.
- Mas vão dizer que você é minha namorada.
- Vão dizer quem? Só quem vai no seu quarto é a sua mãe e a sua tia.
E eu com a camisa manchada de vinho. Ela ficou mais perto, eu vi um risco de luz na mecha de cabelo dela perto e perto a gente foi ficando um tempo, até hoje, eu não sei quanto. Eu não queria entender, ela do lado de fora podia ver como eu estava do lado de dentro? Eu achava - thought - thththththth língua entre os dentes - que não precisava agarrar logo, eu queria, mas não sabia se era certo, eu com 11 anos tinha muito mais vontade, mas o jeito que eu fui criado - eu tinha a mãe, a tia e o seu bill, seu bill nunca disse nada que prestasse e eu achava que o que ele dizia era sujo. Ela saw-via o que eu via, uma mecha? Eu achei que vi uma luz verde saindo do sutian dela, mas eu estava bêbado. Uma vez ela falou sobre a cor dos chacras que ela viu numa revista e o chacra cardíaco era verde e era o chacra do amor. Eu nunca tinha sentido gosto de vinho na boca de outra pessoa, whine wine não era como o gosto de vinho na minha boca. Não sei por que fico pensando aqui, a janela me distrai, esse vidro fumê que me reflete um pouco. Queria vir pro Rio, passei a aceitar o Rio, a achar o Rio... melhor que lá em casa, melhor que qualquer coisa, ela ia me convencendo. No meu quintal ninguém ficava de biquíni... ficamos nus debaixo de árvore com ou sem marimbondo mas butt de biquíni ninguém, não tinha sol também que não fosse filtrado pelas folhas do pomar. Era tanta folha que não dava pra bronzear a gente direito, ia acabar malhado igual cow.
Como é que tá o céu hoje lá? Pequena, pequena sempre, a vida toda a cidade vai continuar diminuta, invisível? Eu não vou ver se ela encolhe mais ou se pára no tempo ou se dão mais que banco de cimento pra praça, eu só vou saber por carta e eles lá quase não ligam pra escrever, preferem telefonema, e no telefone ninguém diz muito bem o que acontece lá, só querem saber do que acontece aqui. Quando dá pra abrir a janela, eu vejo melhor o céu e os prédios, ainda perco os olhos no morro e tiro um pouco a cabeça de lá. Mas depois de um tempo até o morro me lembra. Tem gente que não devia mudar de lugar. Aqui o ar-condicionado fica ligado o dia todo, quase não posso abrir a janela. Pergunto sempre se alguém sabe dela mas lá eles só querem falar de mim, eu nunca encontrei ela na praia, a foto na gaveta aqui. Corrigir pilha de prova, mas desse jeito não vai. Aprende dois vinténs de uma coisa na vida e só sobra isso.

mais (entre parênteses)

... e o silêncio como um envelope enfiado debaixo da porta, shhh, shhhh...


(entre parênteses)

Acordei me sentindo meio estranho hoje. Talvez fosse porque eu estava transformado em um Ogro de três cabeças, o que tem lá suas compensações. Por exemplo, se eu ensaiar um pouco, vou poder cantar "Besame Mucho" na versão do Ray Coniff, sozinho.

Claro que nem tudo é essa maravilha toda. Acordar transformado em um Ogro de três cabeças pode ser um pouco chato, principalmente quando você acordou mais cedo com o ronco da cabeça da direita. Também pode se tornar uma complicação enorme nas estatísticas de renda per capita do país.

Vim trabalhar mesmo com as três cabeças e, na hora do almoço, depois de alguma discussão, acabamos indo a um rodízio de empadinhas. O dono do restaurante quis cobrar o triplo, argumentando que eu tinha três cabeças. Tive que explicar que, com um só estômago, não estava levando nenhuma vantagem em levar três cabeças ao rodízio, exceto pelo fato de eu poder falar e comer ao mesmo tempo sem passar por mal-educado. Chegamos a um acordo: aceitei que ele cobrasse três rodízios contanto que eu pudesse levar o triplo de balinhas na saída.

Estou indo agora pedir um aumento pro chefe. Vou explicar que agora que tenho três cabeças minhas despesas ficaram muito maiores. Tenho que comprar o triplo de xampu e condicionador. Ainda mais agora que a cabeça do meio diz que precisa mudar de óculos e a da direita quer um chapéu da guarda inglesa, igual ao da cabeça da esquerda.

cabeçadas de uma vida + ou -

Era ruim antes. Era muito ruim.
Era ruim não saber qual a sensação de segurar suas mãozinhas pequenininhas nessas minhas mãos alongadas, desajeitadas e feias e não saber como era sentir você dentro do meu abraço.
Era ruim desconhecer seu beijo.
Era ruim não conseguir sincronizar sua voz com sua boca, seus trejeitos e suas expressões faciais.
Era ruim não ter na memória, ao fechar os olhos, uma figura sua de corpo inteiro e o brilho desses seus lindos olhos castanhos.
Era ruim não fazer idéia de onde você batia em mim.
Era ruim não saber qual a textura, o cheiro e a cor dos seus cabelos.
Era ruim nunca ter visto você fazendo bico, porque você faz mesmo.

Era ruim sentir saudades suas sem nunca ter te conhecido de verdade.

Agora eu te conheço de verdade.
E sinto falta das suas mãos nas minhas, dos seus olhos nos meus, dos seus beijos, do cheiro e da textura dos seus cabelos, da sua voz sincronizada com sua boca, dos seus trejeitos, da sua risada, do seu sorriso, do seu abraço...
E quer saber?

Ainda é ruim pra caralho.

Mas antes era muito pior. Eu acho.

pura Utopia Dilucular

24.6.03

Se falar da minha mãe...

Dizem que um homem é feito basicamente na infância, até por fim cristalizar-se na idade adulta. Quando olho para trás e penso nos anos corridos, atitude pouco condizente à dinâmica dos tempos modernos, mas da qual me recuso a desfazer-me por completo, por apego à nostalgia, recordo-me de várias situações. No geral, vejo um menino assustado, tímido e com a cabeça fervilhando de sonhos.

Dentre as inúmeras passagens de que me recordo, há uma que me marcou particularmente. Num dia como outro qualquer, fui à escola portando a lancheira a tira-colo que minha mãe preparava diariamente. Naquele dia ela havia feito uma modificação no menu e, ao invés do trivial misto frio, preparara-me um saquinho repleto de bolinhas de chocolate. Convém esclarecer que, como a maioria dos mortais, mas em maior intensidade que esta, sempre fui um ardoroso apreciador do doce amarronzado. Quando chegou o esperado momento, que eu já era ansioso à época, um garoto maldoso, metido a gostosão, desses que proliferam aos montes nesta idade sarcástica, onde mocinhos e bandidos não se definiram por completo, deu-me um empurrão ou algo do tipo, do qual tentei esquivar-me. Neste jogo de empurra-empurra, as bolinhas, que nada tinham com a contenda, irromperam o frágil saco e ganharam o solo imundo em questão de segundos. Instantaneamente, ouviam-se gargalhadas não só de meu desafeto, como também de todos ao seu redor. Chego a sentir na pele o ódio que me tomou à ocasião. Uma cena típica de incrível Hulk, com a diferença da mutação para o vermelho - explodi, entre ofegante e aos prantos, em cima do meu ofensor, em golpes desordenados, até que o inspetor me detivesse.

A cena, ao invés de alçar-me à posição de corajoso, rendeu-me a infamante alcunha de demônio. Isto porque minha reação teria sido desproporcional, segundo meus colegas, típica de uma tragédia grega, afora a vermelhidão da face. Mas, o que aquelas crianças não compreendiam, era o simbolismo por trás das pequenas bolinhas. Não me refiro ao desperdício do chocolate, que certamente tem seu peso, mas sim à forma carinhosa e especial com que minha mãe havia preparado o lanche.

Homens crescidos xingam mutuamente as respectivas mães com certa freqüência. Nem por isso se fazem cavalos de batalha. É claro que tais injúrias não passam despercebidas mas, certamente não têm o mesmo impacto que se tem na infância, onde a figura materna representa grande parte do mundo de uma criança.

No entanto, ao crescermos, outros simbolismos substituem as mães, com igual importância. Vivemos situações as mais variadas no decorrer de nossa existência e, eventualmente, nos machucamos. É como se abríssemos pequenas feridas que às vezes levam algum tempo a cicatrizar. E, tal como na infância, sempre haverá a possibilidade de uma mente tacanha ir lá cutucá-la, pelo simples prazer de espezinhar.

Felizmente, contudo, nos é dada a alternativa de aprendermos com as situações mais adversas. Diante de um fato destes, descobrimos em quem podemos confiar, quem são os leais amigos, os perenes. O ponto a que quero chegar é: com certas coisas, não se mexe, nem entre os piores inimigos. São como cláusulas pétreas, intocáveis. Trata-se, senão de uma questão de respeito, ao menos de uma questão de classe, devendo-se manter uma consideração mínima, uma aura de cortesia, ainda que falsa, sem jamais tocar na ferida. Aliás, quem gosta de boxe, sabe que existe um código de honra virtual por trás de toda a pancadaria. Uma espécie de admiração pelo adversário, que não admite golpes baixos à revelia do árbitro. Quando surge um Mike Tyson a mordiscar a orelha do rival, trata-se da exceção, da mente mesquinha que, como tal, cai no descrédito.

O energúmeno que me privou do lanche maternal já foi esquecido. Em pouco tempo, ganhou o terreno eficaz da indiferença. Sua ingenuidade, própria da idade, levou-me inclusive a perdoá-lo. Pessoas adultas, no entanto, não merecem o mesmo benefício. Não lhes é mais permitida a escusa da inocência. Sabem o que fazem, o que torna seus atos mais desumanos. Com pessoas assim, que ignoram tais regras, simplesmente não se perde tempo.

Telequetes e mães no LIVRE ARBÍTRIO

Eu poderia perfeitamente ficar sentado aqui, admirando meu rotundo umbigo e imaginando tramas rocambolescas para um novíssimo conto-que-revolucionaria-a-literatura-nacional.

Eu poderia, neste momento, acariciar o prepúcio e escrever um poema curto que deixasse o leitor 'ferido de mortal beleza'.

Eu poderia, igualmente, não fazer nada disso, telefonar para o lupanar mais próximo e saborear massa ao sugo olhando, vez por outra, para baixo, onde uma rapariga (em flor, sempre) cuidaria, por mim, do meu prepúcio (desconfio que eu era o sinhozinho da nega fulô).

Oh, fulô! Oh, fulô!

Oh, Tédio domingueiro!

Coronelices do Aquém da Imaginação

Toalha Higiênica

Desde pequena minha avó faz meu enxoval, ja contei isso aqui.
Pois então, eu sempre achei uma gracinha aquelas toalhinhas pequenininhas e eu queria uma pra mim, mas vovó não deixava, dizia que era só pra quando eu casasse.
Eu não sabia pra que servia aquilo e ela não ia me explicar, claro que não.
- Isso é só pra quando você casar. Coisa de casado, num te interessa agora.
- Ah tá.

Uma empregada em casa que escutou a conversa , esperou minha avó sair e disse assim:
- Essa toalhinha é pra passar na "brachola" depois de fazer "as coisas" com seu marido entendeu? Por isso chama toalha higiênica.
- E porque que eu tenho que passar a toalha na "brachola" depois de fazer "as coisas" com meu marido?
- Ah ja ta querendo saber demais.

E nunca ninguém explicou as coisas direito pra mim.Cresci assim, meio traumatizada com a situação e não entendendo até agora , porque é que eu tenho que usar as benditas toalhas higiênicas que pra mim de higiênico não tem nada.
Faz "as coisas" e depois passa a toalhinha?
Poxa..alguém poderia ter me explicado isso melhor, custava falar?
Parece até que não existia língua na época.

Casos e acasos da vó da Fafa

Quanto estou estressado, triste ou apreensivo faço uma coisa bem legal, mas que todo mundo vai achar idiota:

— Apago todas as luzes do apartamento (isso tem que ser feito à noite);
— Abro bem a janela da sala;
— Prostro-me a um metro do vão aberto da janela;
— Invoco o mantra da reverberação extenuante;
— Respiro fundo;
— Reúno todo o ar, força, poder e energia do meu corpo e libero um urro que pode ser ouvido há quilômetros.

Sim, grito como um desesperado suicida que acaba de se jogar do último andar e se arrependeu no meio do caminho. E é daqueles urros que deixam a garganta doendo por uns 5 minutos.

É claro que toda a vizinhança sai na janela para ver o que está acontecendo.

Daí como não sou macaco, dirijo-me ao meu quarto, acendo a luz, coloco o cabeção para fora e, com ar de cínico, comento com os vizinhos de baixo e de cima, sobre essa coisa sem graça que alguém, de algum apartamento, vive aprontando. Auto-flagelação. Auto-reprimenda. Auto-crítica.

Mas que é bom, isso é.

cuca cheia de ÓPIO

23.6.03

Tinha a vontade fraca. Não era anemia, nem verminose. Faltava-lhe vocação para o fazer. Murcho. A cabeça também não ajudava muito. Servia só para negar. Mas de que serve o não? Por que no fundo tudo se resume a realizar. E era o que não podia. O outro lado da moeda é a distância. Supunha que não existe algo como unir-se. Talvez tocar, de leve, quase como o vento. Um fio de cabelo fino e quebradiço que enlaça as pontas de dois dedos. Gostar é mais quimera ainda. Sabores se misturam e depois evanescem, rápido, rápido. Coisas do corpo, que atropelam a si mesmas, que se enfileiram na mecanicidade do hábito. Um corpo é um copo, cheio de uma substância que reage ao ambiente e pronto. Um caldo biológico. Triste. Mas a vida não. "So keep your high hopes". Regurgitando ar.

diagnóstido direto da Bolha de Sabão

A enfermeira entrou no quarto com o pequeno embrulho azul em seus braços e uma cara de quem comeu e não gostou.
A nova mamãe fez uma careta ainda pior ao ver que a portadora parecia não ir com a cara de seu pimpolho. Onde já se viu? Todos nascem com cara de joelho, pra que fazer boca de nojo?
Pegou o menino Danilo dos braços da mulher com delicadeza suficiente para não machucar o bebê, mas com determinação para que a enfermeira notasse seu desgosto.
Abriu o pacotinho para ver melhor o rosto do recém-nascido e viu a pelota.

- Ahhh!! O que é isso no olho do meu filhinho?
- É, minha senhora, um pequeno probleminha....
- O quê? Meu Deus! O quê?
- Tersol.
- Mas como pode um bebê nascer com tersol!!??
- Ah, poder pode tudo, né dona? Vai entender a providência divina...
- Não tem nada a ver com providência divina, eu quero é um médico aqui já!

O diagnóstico foi tersol de nascença. Do tipo que não sai com água boricada nem com aliança quente. Fica lá pra sempre. Pareceu muito grande só até o menino crescer. Depois, naturalmente, não cobria mais seu olho inteiro.
O pequeno Danilo foi um felizardo, porque pôde ver o mundo com outros olhos. Ou melhor, o enxergava em outro formato. Tudo era coberto parcialmente pelo tersol, que deixava as imagens côncavas no lado superior direito. Para enxergar aquilo que estava coberto, ele erguia o rosto. Logo, tinha curiosidade para ver o que mais estava coberto e o erguia mais ainda. Conseqüentemente caiu muito durante sua infância, por viver caminhando com a cabeça erguida, quase tombada para trás.
Com isso viu mais coisas que todos os meninos e meninas que conheceu. Cresceu observando tudo que o cercava com uma curiosidade infantil.
Ninguém nunca o entendeu muito bem. Mesmo adulto, continuava caminhando fazendo rotações com a cabeça e registrando em sua memória a cor do teto, o formato da nuvem, o ninho do pássaro.
Um dia conheceu Guida, a menina por quem se apaixonou. Antes do noivado ela fez uma simpatia, umas bruxarias, para ver se aquela coisa sumiria do olho de seu amado (tinha uma profunda aflição daquilo). Deu certo, e ele acordou sem o tersol. Viu o seu quarto com os dois olhos bem abertos, e de repente, tudo havia perdido a graça – inclusive Guida, que agora lhe parecia feia, mais por dentro que por fora.
Danilo terminou o namoro e fez um curso de bruxaria especializando-se em tersol. Colocaria um no olho de cada pessoa que não entendesse nada da vida, e Guida foi a primeira.

histórias macabras en el Salón Comedor

Símbolos

- E a bússola?
- É sobre a bússola mesmo que eu queria falar com você.
- Gostou, né? Idéia genial, modéstia a parte.
- Bem, desculpe lá, mas eu achei simplória.
- Simplória?
- É, a comparação da bússola com a personagem principal, a metáfora de aquilo ser um rumo pra vida dela, em busca de norte que não existia. Dela estar perdida, confusa. Achei ingênuo, entendi o significado logo no segundo paragráfo. Me senti até logrado.
- Norte? Confusa a vida dela? Não! A personagem tem um foco e um objetivo definido em todo decorrer da história! Não é por que ela encontra uma ou outra dificuldade pela frente que pode-se deduzir que ela está perdida, de forma alguma! Seu “norte” está muito bem indicado!
- Mas eu pensei que...
- A bússola aparece com um símblo para quem domina a vida dela. É para mostrar que ela não comanda nada, que todos os seus passos são marcados em busca de um só fim, e que todo esse fim é regido por uma “força”, uma entidade muito maior que a gente.
- Como Deus?
- Ou como você quiser chamar. Marialva não se perdeu nehuma vez, só era levada por vontades maiores que a dela, como uma agulha a balançar, para no fim fazer sempre as vontades de um “campo magnético”, tornando-se como uma bússola. Entendeu?
- Agora sim! Mas teu livro tinha que vir com notas, com um manual para o leitor leigo como eu. Dizendo assim eu entendo a relação da Marialva com a... Genial! Mas que metáfora!
- Foi boa, não? Uma em mil.
- Em dez mil! E logo depois do capítulo da bússola, quando as pernas cruzadas mostram ao leitor o verdadeiro significado do amor! A receita definitiva para um bom relacionamento enter um homem e uma mulher. Que maravilha!
- Verdadeiro significado do amor? Aonde?
- Logo depois da bússola, quando eles conversam no bar. Que díalogos, que cruzada de pernas simbolicamente costurada! Pensei em mil coisas nas entrelinhas com ela arrumando a saia, realçando as coxas e dizendo “Mais um chopp então?”. É o arquétipo feminino como causa da desintegração dos adjetivos andrógenos culturamente incravados na sociedade.
- Não tem simbolismo nessa cena não. Só a descrição das perna da Marialva.
- Só? Nem uma metáfora?
- Nenhuma. Só um belo par de coxas mesmo. Um tesão não?
- E não? Até fechei o livro nessa hora e fui tomar um banho frio.

teoria da literatura by Zazoeira

Hunting High And Low

Hoje em dia a garotada tem de tudo: computadores superpotentes, lambretinhas envenenadas, videogames em 3D e mais um monte de porcarias que todo adolescente deseja. Mas os meninos de século XXI pecaram ao eleger o techno como o ritmo do momento e acabaram perdendo uma das melhores coisas que as gerações anteriores curtiram muito na adolescência: a música lenta. Ok, eles podem achar careta todo mundo juntinho ao som dos discos de vinil. Mas eu que usei All Star posso dizer: era muito mais legal do que hoje. Hoje em dia o cara olha prá moça, a moça olha pro cara, eles se beijam e vai cada um pro seu lado, vomitar em seu canto. Nos tempos das camisas da AIPA as coisas eram bem diferentes: era na música lenta que as coisas aconteciam.

Quando a agulha alcançava a faixa da música lenta, o rapaz ia até a moça e a convidava prá dançar, mas quem acha que se ela topasse a coisa estava encaminhada, se enganou redondamente: dançar agarradinho era uma operação delicadíssima, onde qualquer movimento brusco significava passar a noite sentado em um banco bebendo guaraná e comendo salgadinho. Prá começar, havia uma certa distância que deveria ser mantida entre o casal; tentar um sarro era pedir prá tomar um tapa na cara e ser banido das festas. Outra: as mãos só ajudavam quem mantivesse o limite entre a nuca e o início da lombar (na vertical) e entre as extremidades das escápulas (na horizontal). Mais do que isso era pedir prá ser chamado de babaca e virar gozação do resto da molecada na hora do recreio. E quem fizesse tudo bonitinho até aí tinha que enfrentar a pior parte: conseguir um beijo da moça, antes do fim da música. Quem assistia Pirata do Espaço lembra muito bem como era desesperador esse momento, onde podia-se mudar de maioral prá bunda mole em menos de um segundo. Quem nunca sentiu esse frio na barriga que atire o primeiro Atari.

Sedução. Havia sedução naqueles tempos. Hoje em dia é só bate-estaca, bolinhas e pocotó. Onde foi que erramos? Será que devíamos ter dado mais ou menos cascudos nessa molecada?

Tocado por Márcio Silva no seu Alea Jacta Est

Emprego

Estou uma semana atrasado. Cheguei no escritório, pendurei meu paletó nas costas da cadeira segunda-feira passada, saí para tomar um café e voltei hoje. Ainda em ritmo funcionário público, não me acostumei a trabalhar em empresas multinacionais como essa. O chefe entendeu, mas como castigo, o salário esse mês não tem aumento: continua Zero rublos. Não é muito, mas dá pra pagar o ar que eu respiro, a paisagem que eu vejo e dois ou três drinques pra Luana Piovani, em sonho.

Ainda não sei o que fazer aqui. Tem um manual em cima da minha mesa, com mais de 5000 páginas, em letrinha miúda e em inglês. Não sei falar essa língua não, mas além do plano dentário, vale-refeição e vale-transporte, a empresa paga duas aulas semanais de inglês para mim. No livrinho estão todos os métodos, artimanhas, macetes, trapaças e jogos sujos dessa grande instituição que é o Copy&Paste; só o FAQ tem mais de 3000 perguntas. Ainda Não li... e nem vou ler. Quando as reclamações chegarem, boto a culpa no estagiário, na D. Rosalva (a secretária) ou no decote da D. Rosalava - que desconcentra qualquer funcionário filho de Deus, não deixando o serviço render nem os ânimos acalmarem.

De obrigação mesmo, tenho que me apresentar. My name are Henrique...
- Is!
- What?
- My name IS Henrique.
- O seu também? Somos xará então. Xará, you mean? Brother, friend, mano!
- That’s gonna be a long class...

Escrevo periodicamente no Zazoeira, janto as vezes em boa companhia em cantinas da Bela Vista*, estudo, trabalho, lavo, passo, cozinho, sou repleto de vastas emoções e pensamentos imperfeitos e plagio vez ou outra o Rubem Fonseca sem citar a fonte.

Acho que era isso. Deixa eu continuar aqui que a pilha de “Entradas” está infinitamente maior que a de saídas, visto que não assinei nada! Qualquer coisa, o email esta na coluna da esquerda!

- Go!
- Cuma?
- Say it!

Ah é, o professor de inglês mandou eu terminar assim:

“That’s all, folks!”

Abraços,

Henrique



* - Proibido o uso de piadas internas nesse blogui! Essa será a primeira e última vez, esteja de sobreaviso!

Esta noite nao tem sido diferente das tantas outras noites dessa minha existencia. Nao posso me queixar da vida, nao mesmo. Apesar de, de vez em quando, me deparar com gente muito ruim, gente pilantra, tenho o prazer de conhecer uma monte de gente legal. Tenho o prazer de dizer que tenho, pelo menos, 10 amigos daqueles que, numa briga, ja entram com a voadora, sabe? Tenho o prazer de dizer que li tres livros perfeitos e eles mudaram minha vida... os outros todos sao ate legais, mas nao precisava, os tres bastavam... tenho o prazer de dizer que tenho um emprego, que tenho dinheiro, que tenho tempo, que tenho quem me queira bem e tenho a quem querer bem...
mas eu nao sei porque uma expressao nao sai do meu rosto, nao sei mesmo... vai ver que, depois de tanto tempo, ela se cristalizou por aqui e tira-la, so quando meu filho nascer...

there´s a message inside this bottle!!!

22.6.03

Ensaio de bolso – um parágrafo para cada bolso:

“Tenho, confesso, medo de metafísica. Esse é o termo, medo; e desde criança, depois de ler duas ou três páginas de algum metafísico alemão, sinto que a nitidez do mundo vai se borrando, e a realidade some.

Em criança criei uma heresia, acreditei que todo pensamento abstrato é um pecado. Tenho certeza que filósofos podem me provar o absurdo dessa idéia, mas ainda sinto esse medo da metafísica; e depois de algumas páginas de filosofia, tenho que sair, e me concentrar em detalhes concretos, na maioria visuais: a luz do sol na grama, o reflexo do sol na janela de um edifício, etc. A filosofia não explica a realidade, ela destrói a realidade.”

miniensaio em Alexandre Soares Silva

Videotexto (Post XV)

O casal do videotexto

(...)

- Uma festa? Mas fotografar a festa ou vocês?
- Nós e a festa.
- Explica melhor.
- É uma festa de amigos, amigos muito próximos. Pensamos em presenteá-los com as suas fotos. Olha, eu não tenho certeza, mas acho que você vai adorar essa nossa turma. Por favor, aceite.
- Claro. É que, por conta do meu trabalho na Teletel, sinto que estou um pouco enferrujada para fotografar eventos. E, pra ser sincera, eu odeio fotografar festas. Vou fazer porque vocês que estão pedindo, mas não acostumem.

Fui sincera, sorrindo pra não parecer mal educada, mas era a mais pura realidade.

- Festa é jeito de falar, Ale. Será uma reunião de amigos muito íntimos, não pense neste encontro como quem pensa em uma festa de casamento. Não terá vestido de noiva, só o bolo. Considere que os nossos amigos serão, certamente, seus amigos porque eu tenho certeza de que todos irão adorá-la.
- Está certo. Quando e a que horas?

A casa era um desbunde! Uma fortaleza cercada por um lado pela cidade, por outro pela Serra da Cantareira. Dois seguranças na porta pediram minha identidade, conferiram os dados e pediram que eu encontrasse com os demais convidados no saguão da casa. Um deles, estranhamente me encarava, mas fingi que não era comigo e dei-lhe as costas.
Logo na entrada encontrei o casal . Apresentaram-me os anfitriões e todos os convidados que esbarrávamos. Musica boa, vinho bom, gente bonita e de repente um cara que mais parecia o Michel Jackson assumiu o controle dos equipamentos de som e luzes e transformou o ambiente sóbrio em uma discoteca. Não me pareceu numa primeira impressão, mas depois percebi que tudo tinha sido preparado para aquele momento. As bebidas ficaram mais fortes, o jogo de luzes na casa ficou muito mais intimista e ritmado e as músicas faziam todos dançar. Não sei se por intuição ou sabe-se lá o quê, mas havia uma grande pulga atrás da minha orelha. Tinha algo no ar que me escapava... Minhas fichas só começaram a cair quando eu quase tropecei em um casal transando peladão em um canto da sala. Olhei para os lados, ingenuamente, tentando alertá-los de que eles estavam sendo vistos. Olhei para os lados, arregalei os olhos e...

- Caraca! Tá todo mundo trepando!

------>> Continua

não perca o próximo capítulo de AMARULA COM SUCRILHOS

Espumando
Existem no mundo um grupo de arquitetos e decoradores unidos para estragar nossa vida. Em meio às excentricidades, há a nova moda de aproveitar ao máximo os espaços, de modo que um banheiro de um por um, pareça um loft. O que os donos de casas com lavabos pequenos tem de entender é que lavado é apertado mesmo, que não há por que chamar o arquiteto maravilhoso, que usa um anel no mindinho e promete fazer milagres.
O que projetou (ou quase isso, porque do jeito que ele fez até o Matheus fazia) o lavado da Larissinha, inventou de colocar o papel higiênico na frente do vaso sanitário, pensando que, se colocasse ao lado direito, ia bater de lado com a torneirinha, ou se colocasse ao lado esquerdo, ia ficar apertado, ou difícil para os destros. O problema é que o conceito de largura média de braço para ele é mais de um e meio. E um e meio tem eu! O fato é que ficar descolado do vaso, com o joelho meio dobrado, querendo brigar com a caixa de metal onde se guarda o rolo não seria tão horrorosamente vergonhoso se, do lado do espelho, não tivesse um adesivo escrito: Sorria, você está sendo filmado.
E eu tenho dito que há arquitetos com juízo, contratantes com noção, e há o oposto disso tudo. Eu vivo isso.

Informações sobre financiamento no Faniquito


21.6.03

Bom humor

Eu adoro quando eu saio de casa atrasada para o trabalho, vejo na porta do meu hotel uma grande fila de táxis novinhos e limpinhos cujos motoristas eu já conheço (tem um de sessenta e tantos anos que está estudando para ser diácono, outro dia eu conto isso) e que já sabem onde eu trabalho, e descubro que o primeiro táxi da fila, sim, o que eu serei obrigada a tomar, é um calhambeque imundo com os bancos carcomidos por bundas banquívoras de passageiros pretéritos, um verdadeiro museu de todas as quinquilharias jamais inventadas para adornar táxis, desde o ridículo bloquinho de anotações preso ao painel, até o saquinho de lixo nas costas do banco do carona, passando pelo cachorrinho que balança a cabeça que me desperta ímpetos assassinos.

Eu adoro, também, quando, apesar de eu pedir para ir ao prédio da Academia Brasileira de Letras, o motorista com pelos na orelha conclui, por alguma divina obra de seu cérebro (não duvidem, ele possui um), que eu sou atendente do CVV, e começa a me contar todos os seus ploblemas, fazendo questão de saber a minha opinião sobre o assunto. Claro, moço, claro que vai dar tudo certo assim que a sua esposa passar no curso de instrumentadora cirúrgica da Santa Casa e um vulcão derramar uma enorme quantidade de lava sobre a sua casa e esse seu calhambeque com capinha de bolotas no volante, depilando, inclusive, de uma vez por todas, esses pelos repugnantes que saem de dentro da sua orelha, porque a orelha é, de fato, uma coisa feita para o som entrar, e não para os pelos sairem, entendeu? Entrar, bom. Sair, não bom.

E como eu adoro quando o motorista, além de me achar com cara de psicanalista, me acha também com cara de atleta e resolve me deixar do outro lado da rua, aquela grande avenida sem sinal onde eu já vi uma kombi realizar o sonho de um homem, fazendo-o voar como o super-herói americano - ele caiu morto cinco metros adiante, mas isso não vem ao caso. E, me deixando no lugar errado, tem a desfaçatez de desejar que eu "tenha um bom dia de trabalho". Ora, senhor motorista cheio de ploblemas e dono do cãozinho de cabeça de mola, tenha um bom dia de trabalho o senhor também, nesse seu táxi imundo e fétido.

E eu adoro quando eu acordo de bom humor.

have a nice day, Epinion

Fui infiel à mim mesma, e de madrugada um raio cortou a linha telefônica. Sentei com um pacote de bolachas e café, e tentei de novo. Então funcionou. Os farelos caíram um a um sobre o tapete, pequenos flocos em slow motion, e nenhuma lembrança. Sensibilidade é o avesso do avesso. Mesmo despedaçada. Não sei ficar sem o afeto dos livros de cabeceira e nem sem Márcia cantando. E há também as trilhas antigas de pequenas ruas, conversas baixas ao pé do fogo, quando trocamos segredos ancestrais e nomes cifrados.

A moça da barraca do pastel me deu o de calabresa, que eu havia pedido, e perguntou: — não tem trocado? Nem sempre temos.

O Diário Lilás de Karim Blair

Bom, tem uma fulaninha que jura ter visto meu nome na lista fatal... Mas a dona do pub até agora nada me disse e essa semana tenho trabalhado como previsto.
Pode ser terrorismo da galera mas pode ser verdade, afinal estou nesse pub há tempos. Não é dos lugares mais organizados e justos mas é bom de fazer de dinheiro, tem uma localizaçao central, shifts com poucas horas e já sei onde estou pisando. Emfim, é coveniente. Por segurança, já foi fazer audição para uma agência que faz strip pubs e clubs fora de Londres.

Meu plano era passar julho trabalhando na Grécia mas até agora não recebi a confirmação da agência norueguesa que fez o contato nem do club grego. E mais com essa incerteza do que vai rolar aqui. Esse momentos de o-que-será-que-vai-acontecer me deixam ansiosa.

Naked Emotions

20.6.03

Química, infeliz, química...

Ok, ele é meu amigo de infância. Ok, ele foi morar longe dos pais e dos amigos, por causa de um bom emprego. Ok, o cara acorda cedo todo santo dia e vai dormir tarde, casado do trabalho em uma empresa de mineração. Mas vocês acham que eu vou aliviar o lado dele e não sacaneá-lo por trabalhar em uma firma de extração de cobre?

Sacaneio sim: se ele tem casa, comida e dinheiro, é graças ao Cu!

Cursinho Alea Jacta Est


Neguinha

Fui ao oculista ontem. Fiquei impressionada com o exame minuscioso que o cara fez no meu Urso Polar e resolvi ir ver qualé. Ainda mais porque de uns tempos pra cá venho sentindo uma dor de cabeça insistente, localizada predominantemente por trás - por cima, por baixo, ao lado etc - do meu olho direito. Achei que poderia ser o excesso de idiomas, estresse, saudade etc. Mas ficou provado que minhas dores de cabeça não são, como diria herr Freud, meros reflexos de minha mente levemente histérica.

Além de um grausinho mixuruca de astigmatismo (- 0,75 em cada olho), desenvolvi uma hipermetropiazinha chata (+0,75 grau) apenas no olho direito, o que me deixa maluca às vezes. Meus óculos, feitos em 1998, já não dão mais conta. Encomendei uma armação linda, imitando tartaruga (meus óculos são esses aí da foto), só que no estilo sueco, com lentes menores. O engraçado foi o "argumento" que o oculista usou pra me convencer de que a armação que escolhi era mesmo a melhor. Ele disse: "Você é tão escura que a armação realça um pouco".

Ainda não sei se foi um elogio ou não, mas acho que foi. Isso porque esse povo vive se metendo em camas de luz para garantir uma corzinha durante os longos invernos de dias escuros. Todos ficam meio amarelados, com exceção da pele ao redor dos olhos, que continua branca por conta do protetor usado. Eu nunca vou me sujeitar a isso, ainda mais porque mesmo sem o tal banho de luz já estou tomada de sardas. O engraçado é que no Brasil sou branquelérrima. Mas aqui, por conta do cabelo e dos olhos castanhos, já posso responder à pergunta do Caetano: sim, eu sou neguinha! :cDDD

Por Montanha Russa

Que fim levou a chilena?

Já que o assunto é entrevista coletiva, vou desencavar uma história do fundo do baú e mostrar como sou velho.

Meu debut como jornalista aconteceu no Rock In Rio, em 1985. De certa forma foi algo inédito para toda a imprensa brasileira e latino-americana, pois nunca tivemos tantos artistas de peso ao mesmo tempo. Por conta disso, as entrevistas coletivas, todas no Hotel Rio Palace, foram concorridíssimas. Perguntou-se (e respondeu-se) muita besteira, mas uma personagem ficou na memória de todos: uma jornalista chilena cujo nome estava em algum cluster queimado do meu HD cerebral.

De qualquer forma, a chilena tinha uma missão espinhosa. Mais que fazer perguntas, ela tinha que divulgar o festival de Viña Del Mar e fazer com que os artistas falassem sobre o Chile. O problema é que o país vivia ainda a brutal ditadura do general Pinochet (que ele morra lentamente e reencarne como couro de repinique num sábado de Carnaval), e qualquer menção à situação política lá seria censurada.

A diversão começou logo no primeiro dia, na entrevista do Whitesnake:

Chilena: Vocês conhecem algo sobre o Chile que não seja política?
David Coverdale (fazendo cachinhos nas pontas da cabeleira): não.

Foi aquele silêncio constrangedor...

Logo em seguida entrou na sala George Benson, e lá foi ela de novo:

Chilena: Você está a par do grande festival que vai acontecer em Viña Del Mar, no Chile?
George: Não.

Dessa vez um ou outro não conseguimos segurar um risinho.

Mas o melhor do dia ficou por conta de Nina Hagen:

Chilena: Você conhece algo sobre o Chile que...
Nina (sem nem esperar a tradução e num espanhol impecável): É uma ditadura fascista e assassina.
Chilena (quase tendo um filho): Não, algo que não seja política.
Nina: É só o que me interessa.

Assim os dias se passaram, com a chilena repetindo suas perguntas e recebendo variações mais ou menos gentis de “não”, até que chegou o ponto alto, na entrevista do Iron Maiden.

É preciso dizer que essa entrevista em particular foi um desastre, pois o tradutor era extremamente ruim. Para se ter uma idéia, um coleguinha perguntou qual era a melhor coisa no Iron Maiden. O infeliz traduziu primeiro como “qual o melhor disco do Iron Maiden” e depois como “quem é o melhor no Iron Maiden”. Foi preciso que um dos jornalistas traduzisse corretamente a pergunta para que a banda respondesse serem os shows.

Mas, voltemos a nossa heroína...

Quando ela perguntou se eles conheciam algo sobre o Chile, o tradutor mandou “what do you think about Chile”, numa pronúncia apavorante.

Confundido pela pronúncia, o baterista Nicko McBrain abriu um sorriso de respondeu: “Adoro chili com feijões.”

Pra quê? A mulher se ofendeu e começou a berrar que exigia respeito com o país dela etc. Nicko (simpático como a maioria dos bateristas) pediu mil e uma desculpas e a paz pareceu voltar.

Só que aí o assunto passou para Eddie, o cadáver-mascote do grupo, o que motivou o seguinte diálogo:

Chilena: Vocês não acham que as crianças de assustam com Eddie?
Bruce Dickinson: Não. É como o monstro de Frankenstein, foi concebido para ser assustador, mas as crianças gostam dele.
Chilena: Mas os meus filhos se impressionam com o Eddie.
Bruce Dickinson: Olha, minha senhora, criança quando é bem educada não fica se impressionando à toa.

A gargalhada geral que se seguiu marcou o fim da participação da chilena no festival. Não sei se ela prestava como jornalista, mas foi uma das melhores comediantes que já vi.

Espírito de porco

19.6.03

As estradas eram feitas de olhos. Ao passar, eles piscavam de dor. Era tudo que podiam fazer. Um kamikaze desceu pela esquerda, explodindo-se com seu avião. Nulo efeito, já que errou o alvo. Inhô sabia que o alvo era ele. Sabia que novos kamikazes não tardariam a chegar.

Era por isso que Inhô corria pela estrada de olhos, agarrado à sacola, sentindo o precioso volume lá dentro - volume que finalmente voltava às suas mãos, depois do assalto à sua casa, na calada da noite passada; depois da busca frenética, mais frenética que a do Polanski; depois de encontrar o volume nas mãos de Igaraô, o demônio de um olho só; depois da luta sangrenta com Igaraô; depois da morte ainda mais sangrenta de Igaraô; depois da fuga do castelo do Igaraô (ele tem um castelo, falou?); e depois do ataque idiota do kamikaze.

Inhô estava quase em casa. Fecharia o portão tetra-dimensional e estaria salvo. Poderia dormir.

Ao chegar no portão, Igaraô-San - o filho bastardo mais amado por Igaraô (o pai) - o esperava. Outra batalha sangrenta o esperava. Sua cama o esperava.

Na entrada do portão os dois mundos se mesclavam. Inhô apertou a mochila contra o peito e rezou ao deus dos contos curtos e idiotas, William Wilson, para matar Igaraô-San com alguma explosão nuclear ou outro absurdo qualquer que encurtasse a história. William Wilson acatou bondosamente a súplica de sua fiel criação e matou Igaraô-San com uma cusparada no monitor do computador, exatamente sobre o nome dele.

Segundos depois, Inhô atravessou e fechou o portão, tirou seu ursinho de pelúcia - o Teddy - da mochila e pôde dormir em paz.

conto de fadas básico do MegaZona

máquinas que eu queria ter inventado

O Supremo Contador . é só você encostar o polegar no sensor e o Supremo Contador calcula com absoluta precisão quantos grãos de arroz você já comeu na vida, quando litros de cuspe já produziu, quantas vezes pronunciou a palavra "que", em quantas formigas já pisou involuntariamente, quantos sonhos passados em estacionamentos de aeroporto você já teve, etc. O problema deste aparelho é seu grande potencial para virar entretenimento de salão.

O Exímio Leitor de Embaraços . é só você encostar o polegar no sensor, pedir um minutim pro seu interlocutor, e ELE traduz com objetividade e clareza aquele raciocínio que você simplesmente não consegue desatar. O problema deste aparelho é não garantir que o outro vá entender o resultado.

O Indiscutível Cefezbem . é só você encostar o polegar no sensor, visualizar o dilema que você porcamente acabou de resolver, e o Indiscutível sentencia se você fez bem ou se você fez mal. O problema deste aparelho é que só funciona depois da cagada já feita.

Patenteadas por Nervocalm gotas há algum tempo

SEDE NÃO É NADA, "NORDESTINIDAD" É TUDO

A Goiaba's Enterprises tem três projetos para aproveitar a onda Nordeste is cool e, quem sabe, conseguir subsídio do governo. Quero saber qual desses projetos é o mais viável, na opinião de vocês. 1) A rave "Jegue Hypado", que levará astros do tecno para três dias de great fun, sem água nem comida, no sertão piauiense. Apresentações conjuntas de Clemilda e Prodigy, Sandro Becker e Chemical Brothers e por aí vai. 2) A banda Rapadura Elétrica, intrigante mistura de forró universotário e psicodelia sessentista, cabelinhos empastados à britpop e sandálias de couro cru, pífanos de Caruaru e samples dos White Stripes. 3) Uma tese de mestrado, "A importância da farinha com LSD na alimentação do nordestino e sua influência na obra de Zé Ramalho [autor do imortal verso 'os meus gametas se agrupam em meu som']". Tenho para mim que a tese será o mais divertido desses três. O que vocês acham?

refrigerantes PuraGoiaba

Ah, sim, me agradaria que Deus deixasse a sala. É chato ter de falar sobre essas coisas na presença dele, além do mais fico constrangida só de pensar em ter de falar baixinho na minha própria casa. Não que ele seja mais sensível do que os outros. Nem que esteja particularmente interessado na minha conversa. O fato é que nos conhecemos praticamente agora, e não sou afeita a intimidades logo de cara. Admito manifestações mais ardentes na juventude, não ficaria bem, na minha idade, me expor assim, como o filho dele fez, por exemplo. Podia estar coberto de boas intenções, vá lá, mas foi um bocado tolo e exibicionista. A humildade pomposa dos profetas chega a parecer arrogância. Você não acha? Bem, a verdade é que toda aquela história já não nos interessa. Sabia que o filho do homem costuma me visitar sempre à tardinha? Tomamos chá com biscoitos. Ouvimos um pouco de música, ele não gosta dos clássicos. Fez cara feia quando ameacei um canto gregoriano. Mas, no geral, pelo que pude notar, ele não mudou nada. Cheguei a estremecer quando desandou a expor os mesmos princípios de sempre. Sem qualquer alteração. Disfarcei, para não bocejar, servi mais um pouco de chá e desviei a conversa para plantas. Sinto-me mais reconfortada assim. Confesso que ainda hoje perco o fôlego ao lembrar-me de cruzes, chagas, pecados, milagres e, que horror, a tal da ressurreição. Sabe como é, as mulheres não esquecem com facilidade. Já os homens, eles são tão pragmáticos. No fundo, confundem trabalho com calvário. Quanto a mim, sei que minha vida pode parecer um pouco sem propósito, é o que ele sempre me diz. Mas que propósitos teriam propósito? Ele disfarça, serve-se de mais chá e desvia a mão para os biscoitos. Às vezes me acho desprezível. Nestas horas faço longas caminhadas até meus pés cobrirem-se de bolhas. Não chega a ser um flagelo, mas uma forma de espairecer. Como fazem agora nossos três cães no jardim. Reparou como eles cresceram?

stigmatas da Prosa Caotica

Hoje eu e mais dois amigos vamos fazer um programa mais que nacionalista - um programa ESTADISTA.
Depois de 23 anos e 5 meses, eu finalmente vou ver de perto o Cristo Redentor. Tal fato nem seria tão relevante assim, se não existisse o DETALHE IRÔNICO de que a quase 1 mês eu viajei para Minas e vi o Cristo de lá.
Aí eu me pergunto: como pode isso? Uma carioca que sai do Rio de Janeiro para ir à Minas Gerais só para ver, entre outras coisas, uma réplica - majestosa, mas ainda assim uma réplica - de algo que existe no Rio, a no máximo 1 hora de casa.
O lado bom da coisa é que lá pelo menos a entrada é franca, ou seja, eu gastei apenas os R$ 220,00 da excursão, enquanto aqui no Rio me custaria a FORTUNA de R$ 13,00, com apresentação do comprovante de residência!
Claro que valeu a pena. Claro Que Valeu A Pena. CLARO QUE VALEU A PENA. CLA-RO QUE VA-LEU A PE-NA. C-L-A-R-O Q-U-E V-A-L-E-U A P-E-N-A.
É... Acho que ainda preciso trabalhar a questão do convencimento... :p

Diário da Daninha

O monge e o escorpião

Monge e discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o animal na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Decidido, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados.

- Mestre, deve estar doendo muito! Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda! Picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão!

O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu:

- Pois é! Que uó que eu sou.

inter:urbanos

Spam do Herbalife:

"Nossos hábitos alimentares comprometem o perfeito funcionamento das nossas células".

Nossos? O cacete. Alto lá, cara-pálida. Não sabe dos meus hábitos e vem bostejar no meu computador? O único hábito alimentar comprometedor que eu tinha era comer a mãe do dono da Herbalife. Mas parei faz tempo, a velha era muito arrombada. De tanto beber Herbalife, afrouxou as células anais.

expelido por Catarro verde

18.6.03

Câmara Municipal de São Paulo
Gabinete da Vereadora Dra. Angélica Freitas

Projeto de lei n.º 34762384234284/2003

Dispõe sobre o veto à expressão "dantesco/dantesca" e dá outras providências.

A CÂMARA MUNICIPAL DECRETA:

Art. 1.º Ficam proibidos de usar a expressão "dantesco/dantesca" em artigos, reportagens sensacionalistas, bulas de remédio e mesmo entrevistas a publicações femininas aqueles que não tiverem lido a obra de Dante.

Art. 2.º Quem desobedecer ficará sujeito à leitura completa da obra do poeta italiano e a 200 horas de trabalho de telemarketing para organizações não-governamentais, sem poder empregar o gerúndio (ex.: "Você vai poder estar preenchendo nosso formulário na internet" e "Nós vamos estar enviando o boleto bancário".)

Art. 3.º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

São Paulo, 17 de junho de 2003.

Dra. Angélica Freitas
Vereadora

faça lobby e Tome uma Xícara de Chá

Na ida pra SP, segunda de manhã: eu, uma poltrona vazia, uma senhora, o corredor e o Antonio Fagundes, lendo "Stupid White Men".

Sinceramente? Ele não é lá nenhuma brastemp.

Esperando minha "malinha" em Congonhas, na mesma manhã: chegando do Rio na ponte aérea, Olivier Anquier, caindo de charme.

Aahh! Ele, sim, é uma brastemp, uma electrolux, uma prosdócimo... e põe na cônsul!

lista de noivas do Vita Brevis

A saga do primeiro beijo (Post VII)

- Te peguei!
- Tira a mão de mim!
- Você está presa.
- Eu sei. Pode deixar que eu sei o caminho da cadeia.
- Não... espera. Quis dizer que você está presa no meu coração.

Meninos apaixonados perdem a noção de ridículo. Que papo era aquele? Que o Murilo era o garoto mais mulherengo do bairro, isto eu sabia, mas daí para se tornar o Don Juan da breguice era um pouco demais! Mais brega que isto só se eu caísse naquele papo... E foi exatamente isto que aconteceu! Fiquei toda derretida. Convenhamos, ouvir aquilo aos treze anos de idade de um garotinho lindo de olhos azuis era pra derrubar qualquer adolescente de primeira viagem. Perdi a voz, a respiração e desatei a gaguejar:

- Ma-ma-ma...
- Ale, quer namorar comigo? - Ele era rápido e, naquela época, se pedia em namoro.
- E-e-eu? Eu não.

Eu sei, eu sei. Eu sempre fui uma anta indecisa e confusa, mas pensam que é fácil tomar uma decisão dessas? No meu caso, era humanamente impossível. O "não" saiu antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa. Mas, diante do olhar tristonho do Murilo, eu ganhei forças para tentar balbuciar outras palavras:

- Calma, espera. Não é um "não". Quer dizer, não é um "não" pra sempre. É um "não" mais ou menos. Um "não" do tipo "preciso pensar", sabe?
- Bem que o Ivo me disse que você era meio maluquinha...
- O que?
- Maluquinha. Você é um pouco maluca, mas eu gosto de meninas malucas. Maluca no bom sentido, não maluca de lelé.

Nunca entendi o porquê, mas desde que eu me entendo por gente sinto que as pessoas se sentem atraídas por pessoas que possuem um leve grau de desequilíbrio. Na dúvida, deixei que ele acreditasse no queria. Era melhor do que deixá-lo ciente de que minha forma confusa de expressão, não passava de insegurança. Sorri um sorriso de reprovação e deixei que ele falasse por mim já que dos meus lábios quaisquer sons saíam picotados.

- Você quer um tempo?
- Anh?
- Um tempo pra pensar, quer?
- Que-ro! Quero sim...
- Quantos dias?

Pode parecer ridículo, mas o tempo para dar a resposta a um pedido de namoro determinava se a garota era fácil ou não. Uma bobagem que, só de lembrar, me faz querer morrer de catapora preta.

* Dizer "sim" na hora: galinha
* No dia seguinte: garota fácil
* De dois a três dias: mulher pra casar e ter filhos
* Até cinco dias: menina difícil.
Mais do que isto, achei eu, deveriam ser dias suficientes para fazê-lo partir pra outra...

- Uma semana!
- Uma semana? Por que tanto tempo?
- Porque sim!

Olhou-me fixamente, suspirou e ...

- Ok, uma semana.

Nevou dentro de mim naquele instante. Eu tinha sete dias pra pensar no que fazer. Sete dias pra aprender a beijar na boca... Mas, antes que ele percebesse a minha aflição, encerramos o assunto e voltamos a brincar de polícia e ladrão.

----------> Continua

pré-ósculo do AMARULA COM SUCRILHOS