31.7.03

- O amor é intenso -- disse ela -- é essa mistura de olhares, de cheiros, é esse toque que congela nosso sangue e faz explodir nosso coração, é esse anseio pela chegada do amado, é essa entrega de si próprio ao seu corpo e ao do outro, é o suor e as lágrimas...

Parou, interrompida pelo voar de um pombo que pousou sobre o telhado do café.

- Não existe o amor -- disse ele -- existem pessoas que amam e, por isso, existem apenas formas de amar. O amor é exatamente o que você fizer dele, nem um pouco mais, nem um pouco menos.

Os dois conversam numa mesa de café, um frente ao outro. Suas mãos, sobre a mesa, não se tocam.


uma página do Joseph Kern's diary

No que tange o quesito sexo e muitos dos seus assuntos correlatos, nunca fui precoce. Muito pelo contrário. O primeiro beijo, a primeira transa, a descoberta de novos desejos, tudo teve um ritmo lento, quase angustiante. Se na adolescência isso me incomodava, hoje acho que foi bom assim. Sempre fui intenso e ansioso — combinação meio perigosa —, mas aprendi a explorar, a tocar e ser tocado. Tive que aprender a canalizar o fogo que me arde para poder aproveitá-lo — nasci com hormônios demais. Sexo para mim se tornou, então, um aprendizado constante e sem fim, pois cada parceiro(a) tem seu timing, temperatura, tensão, uma química que reage e me faz reagir diferentemente. Eu não consigo enxergar o meu prazer sexual como algo dissociado do prazer sexual da outra pessoa. Sinto-me inteiramente dedicado e, no relacionamento, fiel. Acho que não há nada mais frustrante do que — baixando o nível — comer ou ser comido feito um pedaço de carne. Ponto.

Mas isso não me parece ser a regra. Não condeno o sexo casual, sem compromisso — se há tesão, por que não dar vazão, por que não deixar que a energia flua por esse canal? Acho, inclusive, que se é possível ter um amigo(a) de foda e isso se dá sem grilos, então vá fundo! Sexo também é uma forma — e muito saudável — de carinho.

E aí chegamos ao ponto. Eu não entendo sexo sem carinho. Posso ter conhecido você numa festa, mal sei seu nome, mas o tesão que surgiu entre nós — algo do momento, da vontade, uma coisa animal, dose cavalar de libido e volúpia — é tanto que mal podemos conversar e vamos pra cama, saímos do mundo. Mas a partir daí o que ocorre é pura comunicação. Minha mão sussurra em sua orelha que meu pé gostou muito do seu. E você diz, sofregamente, à minha nuca que sua língua tem fome. Quando minha barriga geme você entende que tenho calor e me refresca.

No fim, após o fim, meus dedos brincam com seus cabelos, não os prendem. Você não é meu e eu sei disso, nem quis ali que fosse. Mas é inevitável e aconselhável que eles digam adeus enquanto pensam distraidamente no mundo lá fora. Então não tenha medo do meu toque. É a minha maneira de dizer "estou feliz" e o meu desejo que você também esteja. A não ser, talvez, que seus cabelos tenham medo de se prender nos meus. Ou que seus olhos tenham medo da escuridão que encerram, ou da chama dos meus. Mas aí também não tem por que me perguntar se estou carente, não é mesmo? Melhor seria perguntar que bicho te mordeu. Esse, não fui eu.

Bravíssmo Bravo Fígaro

De: Fafa
Para: Henrique

Depois que lí seu e-mail liguei correndo pro meu analista e ele teve que me atender as pressas. Veio correndo, eu estava prestes a tomar todo o vidro de diazepan com café e pinga.

- Tudo! Tudo nessa vida, menos a não presença do Henrique no meu aniversário..
Eu falava insistentemente, com as mãos trêmulas e balançando na cadeira:
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
As vezes escorria baba pelo canto da boca, o analista, preocupado, achou que fosse algum ritual de candomblé.
- Quem está nesse corpo?
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
Acendeu um charuto, soltou fumaça na minha cara:
- Misifia vai dizer quem ta ai?
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
Foi então que ele realmente partiu pra apelação, tirou a camisa,desabotoou a calça e disse:
- Se falar o que está acontecendo, esse corpinho é todo seu..
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
- Além do corpinho, te dou o que pedir, até um carro...você não pode acabar assim com a minha carreira, um diagnóstico que eu não identifiquei? É o fundo do poço..
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
- Corpinho sarado, use e abuse, carro importado e uma pensão por mês..
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
- Pelo amor de Freud Mulher , o que você tem. o que você quer? Fala que eu te dou...
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
- Onde eu encontro Zazoeira?
- Lá no blogspot
- Onde?
- Zazoeira, zazoeira, zazoeira...
Blogspot? Não sei onde é, mas vou atrás, é na cidade pelo menos?
- Vai, busca Zazoeira pra mim, mas antes deita aqui, promessa é dívida.

Zazoeira, zazoeira, zazoeira...

30.7.03

Não estou falando com você. Estou falando com Deus. Literalmente. O beijo da morte foi praticamente perfeito e agora só lembro do fade out. O Criador está na minha frente e eu estou na frente dele. Como me fora prometido, fui recebido em festa por anjas ajoelhadas prontas para rezar. Mas não foi nada comparado a agora. O Homem existe e, ó, está aqui comigo.

Sento-me assustado em um confortável sofá vermelho enquanto o velho com mãos de pedreiro e ombros de nadador me fita com inesperada inocência. Sorrindo, dispara: "Bem-vindo, menino. Tenho uma história para você. Escute.".

Ele abaixa o som e começa. "Eu também já sofri por alguém. Era a mulher que eu pedi a mim. Só havia um problema mortal: ela era uma mortal.". Dando um gole camarada num conhaque, dos bons, Ele continua: "Eu estava completamente apaixonado e, como naquela época bebia muito, em todos os cantos de todos os bares eu a sentia. Ela era uma filha minha, o que aumentava o pecado e diminua as chances de eu me perdoar. Porém, era perfeita e encantadora a ponto de eu esquecer de tudo. Fiquei tão cego que involuntariamente criei um parceiro para ela. E quando naturalmente ela abdicou de mim por ele, meu mundo caiu. Pode um deus ser fraco e ter os seus próprios sentimentos? Eu não sabia. No dia do casamento, ela rezou a mim para abençoar a união. Eu gritei e gritei. Gritei para mim e para todos os demônios, até o nome do Lu eu tomei em vão. Mas o fiz. E, sozinho, tive que voltar a ser Eu. Entende, menino? Você só pode tornar-se grande novamente sozinho.".

Embasbacado, eu ouvi o fim daquela bárbara e incompleta história. Então, o homem mais homem do mundo me deu um beijo na testa e indicou o caminho de volta. Eu tinha sido o único dos mortais a ter esta chance de voltar e recomeçar de onde havia parado. Já ao longe, o Tal acenava. Uma gota salgada caia de seus olhos e Ele inutilmente tentava esconder. "Fique tranqüilo, Pai, não vou contar pra ninguém.".

Nenhuma trombeta tocou quando eu acordei do coma profundo. Uma voz qualquer ao lado do leito gritou: "Graças a Deus!"

É, é isso aí.

mega zona

Nesse sábado eu e o Sapo fomos até Rio Pomba afim de marcar nosso ponto no baile dos Vinhos e Queijos, outra festa do estilo Pague 15 Reais e Beba Até Perder o Controle das Funções Motoras.

Como a grana anda curta e a passagem de ônibus muito cara, resolvemos tentar pegar uma caroninha. Então fomo-nos para o trevo às 8 da matina e ficamos balançando o dedo para todo carro que passava. Duas horas depois começamos a desconfiar de nosso método de mendicância e o Sapo observou que para que o pedido de carona surtisse um efeito melhor ele deveria ser feito com um sorriso no rosto e inclinando-se levemente o corpo em direção à rua.

Esse upgrade melhorou um pouco as coisas. As pessoas passaram a sinalizar desculpas esfarrapadas.

Foi então que um carro parou. Agradecemos à Deus e fomos correndo, felizes e saltitantes em direção à nossa carona, então um sujeito enfiou a cabeça pra fora do carro e gritou Amanhã eu passo aeeeeee e o carro acelerou deixando a gente puto e indignado pra trás.

Então resolvemos ir até um buteco e beber uma cervejinha pra relaxar. Depois de devidamente relaxados retornamos até o nosso lugar de pedir carona. Tempinho depois acabamos conseguindo a carona.

Chegando em Rio Pomba compramos uma outra cervejinha e fomos beber na pracinha. Uma velhinha se aproximou da gente pedindo alguma colaboração.

Eu dei dois reais e depois fomos num mercadinho e compramos alguns legumes e verduras pra ela. Oitenta e sete anos, ela tinha. Morava no Fomento, um bairro no alto do porro e longe pra caralho de onde estávamos. Morava sozinha com um filho doente mental. Perguntei pra ela se ela achava bom viver. Ela deu uma risada e disse que sim.

Mais mensagens encriptadas de Deus pra mim.

sinais com Cacofonia do além

Não, a boca que me beija não é mais a tua. Não tem teus dentes, tua língua, o cheiro dos teus lábios, a consistência da tua pele, o gosto triste da tua saliva. A boca que me beija é terna e mansa, às vezes me morde e me esfola, mas não me devora. A boca que me beija não me reduz a zero entre o nada e o lugar nenhum, não deixa que eu me esvaia, não me possui, não me condena à anti-matéria, não causa uma corporragia de mim mesma. A boca que me beija me acaricia, me nutre, me gosta, me ama, mas não me desmantela, não me expurga, não me cospe, não me usa. A boca que me beija não me reinventa, não me ressuscita, não me envergonha, não me põe de joelhos, não me faz implorar e não vomita estrelas na minha. A boca que me beija me acolhe, me embala e me consola, por não ser mais a tua boca que me beija.

não discuto nem bato boca

Há tempos que queria contar essa. Na minha formatura, na aula de encerramento, uma paciente do Hospital Universitário fez uma apresentação. O CEON (Centro de Oncologia) é conhecido por ter bem vivo o propósito da cura pelas terapias alternativas. A maioria dos pacientes, grande parte deles são crianças, tem aula de música e pintura. E uma delas foi cantar na nossa cerimônia. Ela é cega, anda com dificuldade, e nos deu uma grande lição. Sentou num banquinho e com a ajuda de dois meninos da minha sala cantou uma música. Famosa, conhecida, mas que acho que deve passar batido por muitos ouvidos. Deve ser daquelas que a gente cantarola no trânsito, no banho, mas nunca pára pra refletir sobre elas. Não gosto muito de postar músicas inteiras, mas essa vai.

Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar, dizer que aprendi
Que na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.


Queria ter destacado algumas partes, mas nem isso consegui. Ela estaria agora toda em negrito. Eu via ali na minha frente uma menina que soube o que é sofrimento. Que travou grandes batalhas. Que lutou por sua vida. Olhei pra trás nessa hora e vi Déa ao lado dos meus pais. Ela que também lutou para estar ali. E foi a única hora que chorei. E foi preciso acontecer isso para eu abrir meus olhos. Porque, pelo menos até agora, eu sei que estou no grupo dos que riem. Senti-me mal pelas vezes que me considerei uma sofredora. E há uns poucos dias, uma amiga linda, entre lágrimas, pediu-me pra eu agradecer todos os dias por tudo o que tenho. E eu, chorando mais ainda, dizia que agradecia todo dia. Mentira. Das grandes. Mas a partir daquele dia eu comecei a fazer isso. E um monte de mudanças teve início nesse mesmo momento.

Tomou? Sorriso Lexotan

29.7.03

Eu nunca, nunca, nunca mais vou dormir. Nunca mais...nunca, nunca. Ai, pelo menos eu queria ser uma insone gloriosa, e arrastar meu corpão, languidamente, numa camisola transparente, bebendo martinis. Infelizmente "corpão" no meu caso é corpão mesmo, não eufemismo, eu tou bebendo água, dentro duma mudinha xadrez, nada gloriosa. Numa hora dessas, queria morar num filme americano (ok, e em outras horas tb), e ter um amigo engraçado pra telefonar, alguém superior a essa pobreza de levantar às seis pra trabalhar, que me contasse causos, me fizesse rir e se inebriasse com meu humor e minha pronúncia em francês.
Rá.

E já que estamos sonhando, eu tb queria um cavalo, uma casa na árvore e uma pintinha bem aqui.


um drops da fal

Cabelos, pêlos e suor - apenas isso

Minha cabeça latejava, deitada no meu sofá preferido olhava pro teto.
-Olha isso Traks! Eu com um homem desses!
Era a minha prima que estava assistindo a novela das sete onde tem um ator (que sinceramente eu não sei o nome mas que só trabalha sem camisa) que ela acha a sétima maravilha do mundo.
-Pra quê você quer um cara cheio de pêlos desse jeito?
Eu só pensava na minha dor de cabeça, ou melhor nem pensava porque ela não me permitia fazer isso.
-Que nada! Isso é que é homem! Cara de homem, peito de homem!
-Mas eu tive um namorado que era igualzinho a ele e não tinha a menor graça.
-A PODEROSA, vai dizer que teve um desses e dispensou!
Não sei de onde tirei paciência mas fui procurar nas minhas caixas velhas, entre as minhas velhas lembranças, uma foto que ele tinha me dado na época em ficávamos. Comecei viajar entre cartões, borrachas cheirosas e bilhetinhos de pessoas que não me lembro mais quem eram que falavam que nossa amizade seria eterna. Vi então aquela cena, eu na escadaria do cursinho com meu vestidinho florido e minha mochila de retalhos, ele subia ajeitando os óculos com sus músculos à mostra me dando uma foto de quando tinha virado faixa preta no judô, e como se vendia bem, fazia parecer ser o único homem que valeria à pena na face da Terra. E isso seria verdade se vivêssemos na época das cavernas onde a força bruta era essencial pra caça e os pêlos protegiam contra o frio do inverno.
Na primeira semana em que estávamos juntos, era maravilhoso andar com um monumento daqueles ao meu lado, na verdade sempre fui fascinada pelos bonitões que sempre namoravam comigo e depois me fazia de matriz da muitas filiais de seu harém. Depois de pouco tempo, todos aqueles pêlos, músculos e virilidade, me fazia vê-lo como uma pessoa frágil, porque essas características somem com o tempo e as que realmente ficam, a verdadeira beleza eu não conseguia ver, era uma carcaça cheia de si, e que no futuro quando se visse no espelho, naquela época em que só vemos o que temos na alma, seria igual a um vampiro, sem alma e sem conteúdo, sobrariam apenas as fotos que estariam em alguma caixa velha cheia de velhas lembranças.
-ACHEI!
-TRAKS onde vc deixou esse homem todo?
-Onde vc está vendo, dentro dessa caixa!

na caixinha de pandora de em caso de coma, me coma

para tudo!!
nao, vcs nao tao entendendo...
nao é xilique de besha alterada nao!!
é para parar zuuuuuzo!!!
larga o vibrador japa que to looooooca!!!
tudo comecou qdo eu estava tristinha aqui em casa.... ai liguei para pedrita e fomos conversar e se entorpecer..
enfim.....
coversamso litros, hectares e kilowatts .... adoooorei... rimos horrores...
foi bom para me distrair...
ai fomos tomar um sundae no mac donnalds... ainda bem q nao tinha muita besha la...
pois é..
ai fui deixar pedrita em casa.....
qdo estavamos no sinal (eu, pedrita e bia pratê) para um carro do lado com um bofe q eu sempre idealizo:
grande sem ser forte demais, str8 de toquinha, ouvindo rap, com uma camisa q nao é colada mas sim na medida ideal para mostrar o poder do bofe sem ficar how ou agarradinha... e muito gatinho...
o bofe comeca a olhar horrorez... eu tava detoquinha tb e falando de mulher com pedrita....
ninguem merece , parecia str8 ....
ai o bofe olhou horrorez e o sinal abriu...
no outro sinal encontramos denovo (agora eu fumando um cigarro looooooca no bofe)
ele continuou olhando horrerez e pediu o fogo...
COMO ASSIM VC NAO VAI LEVAR ESSA CALCA COMO COMO ASSIM?
como assim ele pediu fogo sendo q no carro dele tem acendedor...
mas sinal abriu e nos encontramos bem mais a frete..
pedrita, boba q nao é , pergutou: "ainda quer o fogo"
nao é o bofe desceu no meio do sinal e pedrita tb e deu o fogo pra ele....
ai o sinal abriu ... ele deu seta e entrou no posto mas eu nao tive coragem de entrar e fui embora com pedrita...
fiquei com medo. sei la....
o q vcs acham?? no minimo estranho ne?? mas o bofe era zaaaaaaaao str8 q dava medo ate de olhar , mesmo ele olhando horrorez....
enfim... voltei para casa... agora to aqui com a mao no mouse imaginando estar com a mao em outra coisa...
num xeggbaconsalada viu... nao pensem besteiras d mim...
bom, contos eroticos a parte, deixe me ir dormir q amanha tem facu...
kisses nas lelecas e um special para a leleca loira e depilada (espero eu) da japa!!

absolutely friends forever

Cai o Pano.

Se tudo correu bem, este é o meu último post (paradoxal, essa declaração, nào?). Um post póstumo. Está sendo publicado por um conhecido, o advogado a quem deixei esta e outas incumbências.

Não deixo nenhum legado moral. Não fiz de meu blog um levante anti-tabagista, nem foi esta a minha intenção. Quis apenas contar meus últimos dias, minhas últimas impressões (e foi mais barato do que fazer análise). Agradeço a todos que aqui estiveram, por se interessarem, e se importarem, mesmo sabendo de que nada adiantaria (é, não adiantou mesmo, pois se isso está sendo publicado, é sinal de que morri.)

Não tive nenhuma epifania no momento da morte (se tivesse, contaria para vocês). Provavelmente não terei visto Deus, anjos, ou outras palhaçadas deste tipo, porque nunca acreditei nisso. Findou-se a chama, apagou-se a vela, e a única coisa que restou foram essas palavras, meu gato, e meus filhos. De minha morte estes só herdarão o material, nada de mim, realmente. Eles abdicaram disso há muito tempo, e até o computador de onde eu escrevia será (ou já foi) formatado. O gato deve estar ainda no apartamento, não sei qual será seu fim.

Propositalmente, os comments também foram retirados, a meu pedido. Não quero que fiquem digladiando aqui depois de minha morte, mesmo não podendo ler. Acabou, morri, e foi só. Carpe Diem.


é o fim do canceroso

28.7.03

É claro que o tamanho dos posts é diretamente proporcional ao tempo de ausência do chefe no escritório. Ninguém aqui fez absolutamente nada hoje. Nada. Acho ótimo.

Verdades do escritório de uma Pacamanca

Glax, o Supimpa

Nenhum mistério é grande demais para Glax, simplesmente Glax, detetive número um do Sumatra. Nem mesmo o seqüestro do inspetor.

Ninguém conseguia encontrar o inspetor. Quer dizer, não encontraram o inspetor inteiro, mas encontraram uma das orelhas do inspetor que fora enviada pelo correio junto com uma carta ameaçadora e um folheto de cartão de crédito.

Alguém sugeriu que chamassem Glax. Mas não foi necessario. Ele já sabia que seria chamado e chegou antes mesmo que pegassem o telefone. Entrou na sala dizendo:

- Já tenho a solução.

- Oh!!! Quem foi o seqüestrador, então?

- Foi o próprio inspetor. Ele se seqüestrou para desviar a atenção dos outros crimes hediondos que havia cometido recentemente.

- Céus! Tudo se encaixa! Mas como você descobriu?

- Eu li na bandeija do McDonald's. Vocês sabem. Um detetive precisa estar sempre antenado, prestando atenção em cada detalhe.

- E a orelha?

- A orelha não é do inspetor.

- Macacos me mordam, Glax!

- Sim. A orelha que foi mandada pelo correio pertencia a um tatu-bola. Eu percebi pelo brinco esdrúxulo que tinha nela.

Mais uma vez, o Sumatra poderia dormir em paz.

Glax, tão-somente Glax. Detetive número um do Sumatra.


mais Glax em vida + ou -

Tão pequena que meu peito é o dobro da cabeça dela. A coisa mais linda que já vi na minha vida toda, esse pacotinho rosado e cabeludo que não tem nem três quilos. Minha filha, uma bonequinha de olhos negros. Estou boba. Babando. Minha filha. Escrevo, ou tento escrever, com uma só mão. Parece que estou usando um só lado do cérebro. Agora vai ter que ser assim, vou ter que aprender a fazer tudo com uma só mão.

Minha filha, Catarina Averbuck Schenberg, nome e cara de princesa. Gerada numa lua de mel, só podia mesmo ser doce. Nove meses na minha barriga, sendo chamada de Beanie porque não queríamos saber o sexo e não tínhamos nenhum nome. Nove meses na minha barriga e agora, de repente, aqui no meu colo, mamando, minha gatinha Catarina. Nascida aqui mesmo, nesta cama, neste quarto, na minha casa, pelas mãos mágicas da Vilma. Sem médicos, sem anestesia, sem medo. Tudo correu maravilhosamente bem e mesmo assim insistem em tratar como sorte, acaso. Correu bem porque tinha que correr bem. Quando tem que dar certo, nada fica no caminho.

Qualquer coisa que eu diga vai ser pouco. Nada é capaz de descrever o sentimento de finalmente ser mãe, depois de toda aquela espera, depois de toda aquela dor. Porque dói, dói muito, dói, sangra, arregaça, vira do avesso, mas a vida é assim mesmo. Dor e alegria sempre vêm de mãos dadas e eu é que não vou me meter no meio das duas. A vida não tem anestesia. Eu pari, eu senti dor, eu fiz força, eu gritei e urrei, nada de deixar a responsabilidade para os outros. Porque é a minha filha e eu quero sentir tudo.

E isso é só a estréia. Ela ainda vai crescer. Falar. Andar. Cair. Me dar sustos. Me xingar. Xingar o pai. Menstruar. Brigar na escola. Arrumar um namorado bundão. Fazer alguma coisa linda que me deixe com lágrimas nos olhos. Me dar um abraço que me fará esquecer tudo de ruim. A minha vida agora não é mais minha, só metade, porque a outra metade é dela, Catarina, minha filha, que nasceu dia 15, terça-feira, naquele frio, às 9’25 da manhã. Os vizinhos devem ter adorado meus urros. Devem ter entendido só depois que ela chorou, e ela nem chorou muito, só deu uma resmungadinha.

gestado pela brazileira preta

Sou corajoso e destemido o suficiente para ver o Mauricio Kubrusly na TV sem sair sem sair correndo da sala. Mas nunca tive peito de comer Jack Stick, aquele bastão de carne suspeita, mais enrugado do que o Serginho Groisman. Pois hoje aconteceu a primeira vez. Uma demonstradora se aproximou de mim no supermercado com uma bandeja do produto – e também com uns peitões, uma bela bunda, cabelos ruivos e olhos azuis, mas isso não influiu, absolutamente, na minha concordância em provar o Jack Stick. Comi uns pedaços, que meu cérebro associou na hora com Tutankamon ou Ramsés II, não lembro direito, e fiquei conversando com a moça. O diálogo é verdadeiro, juro por Deus:

– Já provou nosso produto?
– Nunca tive coragem...
– Ué, por que?!
– Porque parece uma pica de cachorro mumificada
– Hahahahahahaha! Mas é delicioso!
– Pode ser, mas me assusta...
– Temos o original e o sabor churrasco!
– Como vocês fazem pra dar gosto de churrasco?
– Ah, são os continentos!
– O quê?
– Os continentos! Homem não entende disso, né?
– Eu nunca ouvi falar de continentos...
– Ah, continentos são os temperinhos... Entendeu?
– Entendi. Vou até anotar pra não esquecer.
– Conte para os amigos sobre o nosso produto!
– Não tenha dúvida, eu vou contar pra muita gente...


sabor catarro verde

27.7.03

To Danada
Queria sair mas acabei de trabalhar muito tarde e depois que voltei das compras, ja' tinha perdido a vontade. Meu marido, pra' nao precisar dizer que nao queria sair, tomou banho, botou a samba-cançao e se sentou no seu buraco no sofa' perguntando que filme tinha hoje.
Olhem as opçoes de divertimento sabado à noite:
1) ir comer uma pizza com cerveja na mesmissima pizzeria que vamos tem uns 10 anos... Com direito a escolher: ou senta dentro e suporta o ventilador e o cheiro de fritto di mare que te acompanha até em casa, ou entao senta fora e aguenta os pernilongos e as mariposas que caem dentro da cerveja;
2) ir na festa dos comunistas comer... fritto de mare e depois do café com aniz sentar no banquinho e ver os velhos dançarem;
3) perai que eu to procurando outra... ah! essa seria agradavel: ir na cervejaria pra sentir frio. Tem um restaurantezinho perto da fabrica de cervejas e fica num vale delicioso. Do lado de fora tem uma gruta (cheia de morcegos) e uma cascatinha natural (até no inverno é legal, a cascata congela);
4) ir na festa dos soldados alpinos comer sanduiche de linguiça na chapa com vinho branco. Depois do café com aniz, sentar no banquinho e ver os velhos dançarem (dèja-vu).

Tem outros lugares? Onde? Nao quero ir.
Eu fiz um sanduiche de galinha defumada, tomei um pinico de vinho branco e...

Fiquei Feliz!!!
Minha amiga-clone chegou. Eu fui la' ver ela e os meninos dela. Ta' pretinha, a danada. A gente fica até triste quando volta de casa, mas depois a gente tem mesmo é que levar a vida pra' frente e é melhor fazer com alegria.

Ela me trouxe FARINHA DA BAHIA (uau!), bem branquinha e fininha, uma latinha de goiabada, um pacote de caldo Knorr sabor galinha caipira, um pedaço de carne seca, outro pedaço de carne seca diferente, um pedaço de doce de coco,
uma lata de leite moça, umas balinhas baianas e, pra Juliana, duas camisetas com a bandeira do Brasil, uma é linda feita em batik, muito maravilhosa. Acho que vou passar fome uns dias pra' poder entrar nela e roubar da Ju.

Ok, no's estavamos comentando as sensaçoes de quando voltamos em casa, depois de 12 anos entao... Aconteceu comigo que surtei nos primeiros dias. Nao parava de falar e enchi o saco de todo mundo, ainda bem que eu fiquei sem voz no terceiro dia. Nao conseguia sentir emoçoes e odiei isto, porque ficava com a sensaçao de nao estar vivendo aqueles momentos e pior, me sentia deslocada e com medo que as pessoas me achassem fria. Ela também se espantou com as efusoes da parentada e me disse que ficava ali parada enquanto ou outros pulavam de alegria por reve-la.
Outra coisa irritante é esquecer as palavras ou soltar uma frase em italiano com alguém. Se te pedem pra' repetir, repete em italiano, ta'?
Olha, é claro que depois de viver tantos anos em um lugar, voce acaba fazendo parte dele o do seu astral. No nosso caso, que nao vivemos em Napoles (que tem o "clima" parecido com o Brasil), bem ou mal nos transformamos em "gente daqui". Aqui, ninguém grita. Nunca. Aqui, se encontramos uma pessoa que adoramos no meio da rua, fazemos um sorriso e, no maximo, um polido abraço. Aqui, ninguém faz festa em casa pra' nao pertubar o vizinho. Aqui, ninguém fala com o vizinho de uma janela pra' outra. Eu so' sei o sobrenome do meu vizinho, nunca entrei na casa de nenhum vizinho. Aqui, quando voce bate com o carro, desce em silencio (se nao morreu) e vai olhar o prejuizo ja' com os papeis do seguro na mao (ta' bom, se o estrago é grande, gritam e gesticulam, porrada é mais dificil). Aqui, quem é muito exuberante, as pessoas evitam.
Aqui é assim e nao é um defeito, é assim e so'. As pessoas se divertem em maneira composta e eu nunca vi sair uma briga em festa. Nao é o paraiso dos bens-educados mas acho que as pessoas se controlam mais.
Ai' voce imagina, depois de uma vida, chegar no Brasil e ja' encontrar um pedaço da bateria da Portela no Aeroporto, nao consegue mais pensar em se largar como antes. Fica ali, dura, olhando pros lados com medo que os outros "reparem"...
Ai' passa um mes. Na ultima semana voce ja' retomou posse do balanço das cadeiras, ja' ta' tomando caldo de cana com pastel de queijo sem olhar pro copo embaçado, ja' ficou bebada em Santa Teresa às 3 da manha, ja' viu um ladrao correr em zig-zag na Presidente Vargas, virou brasileira de novo mas tem que voltar pra' casa. Logo agora que tava ficando bom.
Chega aqui, ve o marido no Aeroporto e corre pra' abarçar balançando os braços e dando gritinhos. Ele: "Te pedi pra nao beber no aviao. Olha so' como tu ta' alegrinha, tao te olhando...".

raccontato da Farofa na neve

Ajudando na arrumação de um armário, encontrei uma cesta de vime, muito grande e antiga.

- Era a sua cesta – disse minha avó. Sua mãe costumava levar você dentro dela quando você era bebê. E seus primos menores também usaram muito esta cesta – disse ela, sorrindo.

Sorri de volta e coloquei a cesta dentro do armário, jurando que meus filhos nunca seriam confundidos com um piquenique.

alea jacta est

26.7.03

Diga as coisas para o vento e eu não vou dar atenção, mesmo que entre elas saia o meu nome.
Porque você está falando com o vento, e não comigo. E se você não fala comigo, eu não tenho nada que me meter no seu diálogo monologado com o ar em movimento.

Resmungue o quanto quiser e eu não vou te perguntar qual o problema, mesmo que eu perceba um olhar em minha direção.
Porque você está falando consigo, não comigo. E se você não fala comigo, eu não tenho nada que me meter nas suas lamúrias e reclamações.

Grite o quanto quiser e eu não vou te interromper ou te dizer pra não fazer isso, a menos que os gritos sejam pra mim.
Porque, se não forem pra mim, são seus gritos, e você pode liberar seus fantasmas pro alto junto com seus decibéis em demasia o tanto que quiser.

Solte indiretas e olhares e eu vou fingir que nem é comigo.
Porque se você quer que eu saiba algo, vai olhar no meu olho e dizer o que precisa ser dito, de forma direta e clara.

Não gosto de cutucões.
Quer falar comigo? Use todas as letras. Mas fale pra mim.
PRA MIM!

PRA MIM!

Espero ter sido suficientemente claro.

utopia dilucular

Vou contar uma historinha.

Era uma vez uma menininha. Certo dia, ela estava andando pela rua quando encontrou um diário e ficou interessada pelas coisas que leu, tanto que resolveu procurar pelo dono daquelas palavras. E eis que era um menininho. Quando se conheceram, eles não deram muita atenção um ao outro. Passou-se um ano ou quase, e tudo que eles diziam ao se verem era oi, e tchau. "De repente, não mais que de repente", tudo mudou. Eles passaram a conversar por horas a fio, trocaram opiniões sobre diversos assuntos, e o menininho começou a despertar o interesse da menininha, mas ela era muito retraída pra dizer qualquer coisa. Aí, um belo dia, o menininho meio que se declarou pra menininha, a seu grosso modo. Ela lutou contra aquilo, porque sabia que ia se magoar e tudo o mais, mas ele era tão perfeito, aquilo parecia tão bom, que ela se rendeu. A menininha e o menininho moram muito, muito longe um do outro, mas ele disse a ela para esperá-lo, disse o que iria acontecer quando eles finalmente estivessem cara a cara, e a menininha, achando que valia à pena, esperou. Esperou e esperou.

Até que, finalmente, aconteceu. Ele foi visitá-la e tudo aconteceu exatamente como ele havia dito. A menininha não cabia em si de felicidade, achando que agora, sim, as coisas iam dar pé. Ela começou a criar as mais mágicas espectativas em torno daquele relacionamento, dando-se conta de que amava o menininho com todas as suas forças, e que ela estava disposta a encarar todas e todas as dificuldades que aparecessem, desde que isso significasse ficar com ele no final em que todos eram felizes para sempre.

Infelizmente, ele teve de voltar para sua terra longínqua e a menininha ficou só novamente. O que a fazia acordar todos os dias era saber que havia alguém que a amava de volta, mesmo que a vários quilômetros de distância, alguém com quem contar, alguém a quem esperar.

E ela voltou a esperar, sim. Enquanto eu tô digitando, ela ainda está sentada esperando por ele. Esperando e esperando.

Só que, "não mais que de repente", tudo começou a mudar. O menininho se tornou frio, frio. E os vários quilômetros de distância começaram a aumentar, aumentar. A pobre e insegura menininha tornou-se cada vez mais aflita, sem saber se havia perdido o afeto daquela criatura que ela ama mais que tudo. O menininho dizia e repetia que nada havia mudado, mas por mais tola que seja, a menininha sabia que alguma coisa havia mudado, lendo os sinais, cada vez mais flagrantes, de que aquilo que eles tinham estava sumindo, ou já havia sumido de vez.

A menininha começou a ficar cansada de esperar, estática. E talvez, dia desses, a menininha se levante e vá viver, mesmo com medo do que pode encontrar, mesmo sabendo que o amor que ela tem a esse menininho é mais forte, maior que ela mesma e ela não vai simplesmente esquecer dele, mesmo sabendo que vai doer hor-ro-res. Porque ela também sabe que tudo passa, tudo passará.

Ela já aprendeu que a dúvida nem sempre é benefício. Não sei que lição o menininho reserva agora pra menininha, e não sei se quero saber.

Só sei que não quero ver essa menininha sofrer porque eu gosto muito dela, apesar de tudo. Alguém tem que gostar, afinal.

the trick is to keep breathing

Madrugada...

Tudo deveria estar em silêncio, mas não está.
Eu ouço gritos de pessoas correndo lá embaixo - uns dando gargalhadas, outros fugindo dos perigos das ruas;
Eu escuto lá de longe freadas bruscas, dos cruzamentos de avenidas - são motoristas e acompanhantes apressados (correndo antes que amanheça, depois de tantas farras);
Eu ouço sirenes (não sei, se de ambulâncias ou de polícia).
A madrugada é o silêncio dos oprimidos e é o barulho dos que festejam;
A madrugada é a solidão dos esquecidos ou dos que esqueceram de sonhar;
A madrugada é o (des)encontro dos que se amam;
A madrugada tem cheiro forte de travesseiro;
Mas o que mais incomoda é o silêncio interno em que me escondo neste décimo andar;

solilóquio no interlóquio

25.7.03

No Mesmo Lugar

Ela esconde seus dedos entre meus cabelos, terra negra de grãos grosseiros, armadilhas de teias construídas de segredos, rede física para meus pensamentos.

Ela derrama sensações esquecidas entre meus beijos, abismos tornados planícies pela erosão de minhas defesas. Caminha leve por minhas esquinas, transformando becos sem saída em avenidas, água parada em correnteza.

Ela me abraça delicada nas pontas dos pés descalços, os lábios como papel de seda, mas sempre acorda o amante em mim.

Porque qualquer sentimento se intenso beira o material, ganha carne e escorre sangue, molha com a chuva, voa com o vento. Qualquer sentimento se imenso ocupa lugar no espaço, e dois corpos não podem coexistir no mesmo lugar.

E por isso, meu amor, o lanço entre nós dois, para que nos ligue indefinidamente como atalho entre o que sentimos e o que urgentemente precisamos no meio da noite nos falar.


taquicardia do Cardiotopia

Os brócolos e o brocolossauro

Como brócolos como se comesse árvores na savana africana.
É uma mania de infância que ainda não abandonei inteiramente, para desgosto de quem me acompanha às refeições.
Inúmeras pessoas já se levantaram e se retiraram da mesa, sem mais delongas, quando ao ruminar uma dessas arvorezinhas, ergo o pescoço em pose brontossaurística e faço ggggnnhéeee!!!!!!

E existe algo mais poético do que Farinha Láctea?
É como tomar uma porção de estrelas no café da manhã. E uma porção tão generosa que cada uma é apenas um grãozinho dançando pelo bizarro universo branco à sua volta. Algumas rodelas de banana, e lá estão meus planetinhas, descrevendo orbitinhas sapecas na tigela.


P R E T Z E L S do Mauro

Eu estava numa festa. Não lembro muito bem dos detalhes, mas era uma festa do meu curso da universidade. A luz lá já não é lá essas coisa.. Também ninguem se preocupa muito com isso pois as aulas normalmente são no período da manhã e tarde. Lá pelo final da festa, eu estava dentro de uma das salas de aulas. Uma das poucas que tem ar condicionado e a mais mofada de todas. Normalmente as apresentações de trabalhos de graduação é feita lá, e nos dias de festa era usada pra guardar as tranqueiras do povo.
Como sempre, estava sozinho e triste por estar assim. A Amanda estava linda e bêbada. Ela estava la no canto da arquitetura, em frente a sala 4 (do lado da sala em que eu estava). Sentada no chao com um cara. Ela estava com alguma roupa meio branca. Estava chovendo e sendo de noite dava pra se ver sua silhueta, quase transparente. Realmente sexy. Sentei do lado dela (que estava do lado do cara). Assim que sentei, os dois se levantaram. Fiquei magoado mas não tinha o que fazer. Ela jogando todo o seu olhar sedutor (que só ela sabe fazer e normalmente só faz quando está realmente bêbada) pra ele e ele nao tava muito dando atenção. Entao ela pegou uma pistola-isqueiro e ficou bricando em atirar no povo e deu pra ele e ele foi embora.
Eu já disse que estava morta de bebada? Chamei pra perto de mim. Ambos sentados naquele chão imundo... Ela simplesmente deitou no meu colo... Meu interesse era puramente proteje-la dos imbecis pois estava muito bebada. Foi quando ela falou:
- Porque eu nao estou com ninguem nesta festa?
Fiz cara de que nao sabia o motivo. E ela completa:
- O seu sonho era ficar comigo né?
- Sempre foi. - e dei um beijo nela... O momento de excitação! Bom dimais! Fui no ceu e só voltei porque nem o eterno é para sempre...
Entre um beijo e outro ela fala:
- O meu acabou hoje. - e volta a beijar
- Qual era? - tento dar um beijo mais enlinguado e infelizmente acordo!

Essa foi uma das raras vezes que registrei um sonho escrevendo-o num pedaço de papel... Aconteceu em 27 de agosto de 2000

sozinho na multidão

Minha mãe tem uma estranha atração por discursos, mesmo não tendo o menor talento para isso. Vira e mexe, ela liga no escritório onde eu trabalho para discorrer sobre os rendimentos em aplicações financeiras remuneradas de acordo com a variação cambial, o clima em Budapeste, as qualidades térmicas e isolantes do meu saco de dormir, o melhor itinerário para o pico das Agulhas Negras, diversas teorias da conspiração praticadas pela Teresinha (minha empregada há mais de três anos), o quociente de inteligência emocianal dos meus cachorros e a imperfeição das leis trabalhistas, entre outros assuntos interessantíssimos. Quando falo que preciso desligar porque o trabalho me espera ou que o discurso dela será devidamente ouvido em casa, ela bate o telefone na minha cara e fica sem me dirigir a palavra pelo período mínimo de três dias.

Eu gosto da minha mãe, sério. Só queria que ela fosse mais parecida com a mãe de propagandas de margarina.

tudo vai ser DiFeReNtE

24.7.03

FALTA DE TROCO É FOGO

Este blog costuma desprezar os acontecimentos -mas, quando resolve ser jornalístico, é para detonar a concorrência. Só aqui você lê, em primeiríssima mão, a justificativa do doutor Paulo para a sua detenção em Paris: "É um absurdo! Eu queria comprar um croissant e um café e eles não tinham troco para US$ 1,46 milhão. Fui ao banco e me detiveram. Uma arbitrariedade. Nem adiantou explicar que o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel são obra de Maluf".

paulada de puragoiaba

Estou com saudade. É, saudade. Aquela saudade que dói... Macera o meu timo, o pobrezinho, que já parece um maracujá velho que alguém pôs na gaveta por engano há muitos, muitos anos atrás. Me faz quase sucumbir ao desejo tresloucado de montar o salto, carregar as pálpebras de cinza e pólvora e sair por aí, em lugares que sempre fui sem nunca ter estado antes. Saudade daquele bafo quente de enxofre, com seu vapor amarelo lixo tóxico, lambendo sexualmente a minha nuca em processo de descarnamento. Saudade do ataque de bichice público, sabe, aquele não-doméstico que acabam em promessas de crime passional e tragédia na família, só aqueles entre egos-titãs, os verdadeiros combates que valem um ataque de bichice brutal e ediondo, sem contar as verborragias que provocam a minha já aposentada língua ceifadora.
Ah.
(suspiro profundamente extenso.)
Humf.
(suspiro de frustração e desgosto até o fim dos tempos.)
Saudade.
Saudade daquilo que ainda não fui um dia.
Pissa. (porque o Word não mantém o cedilha)
Não tenho bem certeza se quero casar, acho melhor eu comprar um apê de dois quartos e um jipe a diesel.
Saudade do tempo que eu acreditava conseguir isso sozinha e que amor é, definitivamente, um troço que não combina.

(...)

Com licença, não quero incomodá-la, mas você está pisando no meu coração. Será que poderia? Oh, sim, mas é claro, foi sem intenção, sabe, não costumo sair por aí pisoteando os sentimentos alheios e. Não, tudo bem. Isso sempre acontece. Ahhhh....

certas mulherzices

Apagando o fogo

Eu estava conversando com um amigo e ele me fez lembrar que eu já me encontrei com um bombeiro,namoradinho virtual.
Não, não é um fetiche no estilo mecânico, eletrecista, policial (ui) , lenhador (ai) entre outros.
Nos falávamos sempre, ô voz, estremecia até o dedão do pé.
Mas tudo começou na sala de chat, o apelido dele era Batman (ai esses Batmans), depois no telefone até que finamente resolvemos nos encontrar.
Ele queria coisa séria, namorar de verdade.Aproveitamos um encontro da sala e marcamos.
Cheguei, era internauta pra cá, filhos e netos de internautas pra lá, eu frequentava a sala + de 30 e o pessoal naquela época levava isso a sério mesmo,parecia encontro de terceira idade.
Estávamos em uma choperia. O Batman chegou atrasado, o pneu da Variant Marrom dele tinha furado e demorou pra trocar.
Quando eu olhei aquele homem eu pensei: - Meu Deus, o que eu fiz de errado dessa vez?
Tudo bem, eu não costumo achar as pessoas feias, mas olhar de longe com jeito de tarado e ficar passando a lingua nos labios,de uma extremidade à outra toda vez que olhava na minha cara , insinuando sei la o que, era demais pra mim.
Eu queria me esconder embaixo da mesa, esquecer que tinha marcado especificamente com ele, embora fosse um encontro generalizado.
- Vamos la fora um pouquinho,quero te mostrar uma coisa, ele me disse.
E eu podia dizer que não? Eu fiz o sujeito viajar mais de 150 kilometros pra me ver e agora ia dizer o que???
- Mostrar o que? Ta frio la fora, mostra aqui mesmo. (com um sorrisinho simpatico.)
- Tá no carro..
Fui la fora ver o que o Batman-Bombeiro me reservava em seu Bat Variant Móvel e Imóvel.
Realmente ele tinha uma coisa imensa pra me dar, fiquei surpresa com o tamanho e pensando onde é que eu ia enfiar tudo aquilo..
- São pra você, sinal do meu afeto..
Eram dois vasos de flores , DOIS VASOS DE FLORES, não bouquets ou violetinhas.
Como que eu ia entrar no restaurante de novo com aqueles vasos imensos, um em cada braço, mais o cartão , minha bolsa e ainda paquerar o outro sujeitinho que eu já estava de olho?
- Posso te levar pra casa?
- Já tenho carona, obrigada...
- Acho que você não gostou de mim.
- Claro que gostei...é que fiquei surpresa com os vasos, são lindos...(falsa), já tenho carona mesmo, obrigada..vamos entrar????
- Nossa gracinha, não vai rolar nem um beijo?
E a lingua dele saiu pra fora e ele repetiu de novo aquele "balançar lingual erótico broxante" , eu disse que era muito cedo pra um beijo(??) que era melhor esperarmos mais...
Mas foi o fim, o encontro terminou ali, com aquelas begônias cemiteriais nos braços eu entrei e ainda ouvi um Uníssono: - Hummmmmmmm...que demora la fora hein?
Coloquei os vasos na mesa ao lado mas nada mais adiantaria, a língua dele não parava de se mexer pra mim de longe , todos perceberam a intenção fálica do gesto,seria até excitante se nao fosse irritante fora a semelhança dele com um Gnomo da Floresta Nórdica.
Juntou o Minha Nossa com o Santo Daime numa pessoa só e apelidado de Batman.
Com aquela língua , ele realmente conseguiu apagar meu fogo na base do trauma, puta bombeiro

labaredads extintas nos casos e acasos virtuais

23.7.03

São Paulo

A cidade inteira é feia - como uma pedra de rim num vidrinho. Imagine, um ao lado do outro, quarenta milhões de vidrinhos contendo pedras de rim. Agora imagine que um exército de demônios recebeu a ordem de construir prédios e pontes e ruas e calçadas rachadas com essas pedrinhas de rim ainda molhadas de álcool.

Eis a cidade de São Paulo.

Ah, lembro que achava a cidade tão feia que, ao sair de carro, me afundava no banco traseiro e não tirava os olhos do teto. Se via a cidade – especialmente o centro – ficava deprimido. Isso aos seis, sete. Estou contando vantagem da minha sensibilidade mórbida.

Mas esta é a vantagem de crescer numa cidade feia: você não cresce na cidade, você cresce em casa; mais especificamente, cresce na biblioteca do seu pai. Se fosse carioca, teria crescido na praia, jogado pelada com imbecis de nomes pitorescos como Joelhada ou Canguru. A cidade estaria ocupando a sua mente toda – já reparou que cariocas não têm outro assunto senão a cidade em que vivem? Cidades bonitas como o Rio ou Paris são âncoras: nenhum escritor que nasce nelas pode escrever sobre outra coisa: são escritores realistas que escrevem sobre seis ou sete esquinas. Numa cidade feia você está livre para pensar em qualquer coisa, escrever sobre qualquer coisa: especialmente vários tipos de céus e de infernos.


a cidade de alexandre soares silva

Ainda me atormenta a idéia de que o que de melhor me acontece vem daquilo que não sou mas baixa em mim de vez em quando. A idéia de que não sei fazer de outro jeito, não posso, não consigo, e portanto, fora uma ou outra cena que me escape o roteiro, será tudo, sempre, da mesma maneira. A idéia de que, à exceção de uns minutinhos que se sobrepõem ao Tempo, o tempo todo é esse escorrer de oportunidades que teimo em ver simplesmente como situações e por isso deixo passar, que passem, o melhor de mim não é mesmo o que fica, é o que passa. Ainda me atormenta essa idéia, isso é fato, me atormenta muito. Mas confesso que não me atormenta nem irrita mais do que a lembrança do seu rosto no exato segundo em que era ela o que eu te dizia e tudo o que você falou foi aqui, rapidinho, aquele quadro ali tá tão torto, tá me dando aflição, posso ajeitar?

daestrangeiridade

E BERGMAN SE REVIROU NA COVA

Lendo o último post do Fábio, me lembrei de um episódio que meu namorado me contou (e, como ele não tem blog, vira post no meu). Ele foi à locadora, e depois de muito procurar e não encontrar, virou para a dona e perguntou:

- Vocês têm o filme Gritos e Sussurros?
- É pornô?

locadora dAMenteCapta

22.7.03

Reinações de Ricardinho
Benê e filhote saindo do banho.
Filhote olhando o próprio umbigo. Mamãe diz:
- Filhinho, você viu o tamanho do umbigo do papai?
- Não, ele não tem umbigo!
- Não tem???? O que é aquilo na barriga dele então?
- É um vulcão!

o peixinho da Maré

Aí eu vejo uma coisa e me emociono. Um marceneiro vem até o escritório para fazer um orçamento do tampo de uma mesa, que estragou. É uma lâmina de madeira, pelo que eu entendi, que ele vai ter que trocar. Ele diz que vai ter que comprar a peça inteira, que custa para ele noventa reais. Como vai usar somente a metade da peça, vai cobrar cinqüenta reais, com mão de obra e tudo, mais o frete, que sai quinze reais. Total, portanto, de sessenta e cinco.
Eu, que ouvi a conversa da sala ao lado, achei que não tinha entendido direito e fui perguntar para a minha secretária. Era isso mesmo. Ele vai pagar noventa pela peça, dividi-la ao meio, usar a metade e cobrar cinqüenta reais pelo serviço pronto, tudo incluído, fora o frete. E eu perguntei: e o lucro? E a mão de obra? Só de ônibus esse homem vai gastar muito mais do que os cinco reais que “sobraram”. Mas o preço dele é esse. E eu fico pensando como é que essas pessoas comem, trabalhando desse jeito, cobrando assim tão pouco? Não sobra absolutamente nada para ele, até falta, vocês entenderam? Ele vai gastar mais para fazer do que está recebendo. O que é isso?
Aí eu comecei a chorar, de pena do homem. Ou de pena de mim, que não consigo entender essas coisas, que não consigo viver com essa simplicidade, e ainda reclamo que não tenho dinheiro para viajar para Paris. Ou por outro lado consigo entender e não concordo, não me conformo, quero ensinar esse homem a dar valor ao próprio trabalho, quero dizer a ele que ele tem que valorizar o que faz, que com certeza vale muito mais do que ele quer cobrar.
Claro que vamos pagar mais do que sessenta e cinco reais ao homem. Não seria justo, mesmo sendo esse o preço dele.
Existe uma expressão em inglês que eu não consigo traduzir exatamente, que não possui uma correspondente exata em português, mas que se aplica exatamente ao que eu estou sentindo, agora. É o “take for granted”.
O que eu quero dizer é que a vida é tão boa, e muitas vezes tão fácil para quem nunca passou frio nem fome, que a gente take it for granted. Não dá o devido valor. Esquece que nem todos têm essa sorte, esse privilégio. Esquece de agradecer, enfim, pelo que já tem.
Então eu preciso dizer, sempre, muito obrigada, Deus, meu pai, minha mãe, meu irmão, pessoas que eu amo, pela vida maravilhosa que eu tenho.

direto da Funny Valentine

Genésio

Acordei cedo naquela manhã de sábado ensolarado. Cheguei na noite anterior à casa de meus avós, no interior do estado. A casa é grande, tem uns 5 quartos, inteira de madeira. Um terreno imenso, arborizado e com um gramado digno de campo oficial de futebol. Meu avô já estava lá fora, na grande e espaçosa garagem de pé direito alto, dando ordens ao Genésio.

O Genésio é um cara realmente entranho: Ele é descendentes de escravos, tem a pele muito escura, digna de senegalês. De idade avançada, faltam-lhe dentes. Trabalha por dia e recebe honorários de acordo com sua labuta. Ele é tímido e não olha nos olhos. Você pode contar-lhe a piada mais retardada do mundo, que ele quase tem espasmos de tanto rir. Ele é engraçado.

Curioso como sou, resolvi descobrir mais do homem:

— Diz aí Genésio, o que você fazia antes de virar o capataz aqui da fazenda? — referindo à casa de meu avô.

Depois de cinco minutos de risadas incontidas ele falou, sem dar muita bola:

— eu era matador da fazenda do patrãozim... é. — (Todas as falas do Genésio terminam com um "... é".)

Meu avô intercedeu na conversa. Contou-me que Genésio trabalhou muito tempo em uma fazenda de um amicíssimo dele, há tempos atrás, em uma região chamada "Fundão". Fundão era uma terra violenta, onde um revólver na cintura era o equivalente à um celular na cidade, ou seja, primordial.

Genésio era imcumbido de proteger a fazenda. Ele matava assaltantes e ladrões de gado. Matou "arguns par de bandido". A fazenda tinha índices baixíssimos de perda de contingentes eqüinos, bovinos e ovinos. Por outro lado, o cemitério do fundão começou a crescer, situado em uma descaída no extremo da fazenda. Existe até hoje, e é freqüentado atualmente pelos finados moradores da pequena vila instaurada ali.

Fiquei completamente interessado na figura de Genésio. Um cara completamente alienado ao sistema. Ele gosta de trabalhar, gosta de receber ordens. Trepa em árvores altas e poda galhos distantes.

Meu avô retirou-se, foi fazer alguma coisa na baiúca dele. Eu queria saber mais das metodologias para afugentar meliantes:

— Veja, dotôzinho: Voismecê (sim, ele fala voismecê!) têm que assustar o bandido. Primeiro mira o revórve, depois dá um tiro na cabeça e dois na caixa do corpo.

— Mas assim ele não "periga" morrer?!

— A grande maioria sim, mas tem uns que se assustam e não voltam mais!

O Genésio assustava mortalmente suas vítimas!

No final da tarde, depois de ter podado as 10 árvores da casa da minha avó, estava pronto para ir embora. Pegou seus inúmeros pertences, roupas e tranqueiras diversas e colocou dentro de uma malinha velha, que por infortuno, rasgou, deixando cair tudo no gramado. Tentou ajeitar rapidamente, mas não deu jeito: a malinha ficou impraticável.

— E agora Genésio? — perguntei-lhe.

— Não liga não dotôzinho. Eu pego umas sacolinhas de mercado e guardo tudo.

— Venha aqui Genésio, vou te mostrar uma coisa.

Levei-o a um antigo depósito de tranqueiras familiares, donde retirei uma mochila velha de lona, com uma estrutura tubular de aluminio. Aquela mochila foi companheira minha de muitas aventuras e incursões pelo mato afora. Nunca mais a usei.

— Pegue Genésio, presente pra você.

Ele riu compulsivamente. Achou que era brincadeira. Fiquei olhando-o sério. Parou de rir.

— O dotôzinho está dando mesmo de presente essa malinha?

— Sim, pegue que é presente de graça. E pegue rápido, antes que eu mude de idéia.

Ele guardou seus pertences dentro. Vestiu a mochila nas costas. Ensinei a regular as alças. Ele sorriu. Foi embora feliz. Ganhou seus dez reais em jardinagem.

Eu, ah, eu ganhei o dia com um fato sem precedentes.

plantado no ópio

A medicina está acabando com a poesia. Hoje o sujeito sente os tormentos da alma e toma um antidepressivo. Na euforia, receitam-lhe um zepan qualquer. E o cara volta à merdiocridade que não produz nada, exceto dinheiro para o patrão e os impostos. Fernando Pessoa, se vivesse nos dias de hoje, não legaria nada à humanidade. Em qualquer farmácia vagabunda encontraria pelo menos dez remédios para cada heterônimo. O mesmo se aplica às demais artes, mas não vai dar tempo de escrever a respeito. Acabei de tomar um diazepan e não lembro onde foi que deixei meu senso crítico.

expectorado por catarro verde

21.7.03

Alariás
Eu era uma Mágica super poderosa e tinha um assistente eficiente e carismático: o meu basset de origem nobre, Bob Catraca de Aragão. Um lorde.
Catraca de Aragão era especializado em fazer sumir todas as ecas nutritivas que a Mãe Dedicada obrigava a Grande Ilusionista a comer, principalmente mamão e fígado. Enfim, o cão era uma sumidade.

Dedo de Moça e seus ilusionismos

Uma vez eu experimentei a tal da comida japonesa. Não é que seja ruim, mas eu acho que era o caso de jogar um ovo frito em cima para dar um gosto.

Experimentos gastronômicos do Renato Telles: Filósofo! Esteta! Comerciário!

20.7.03

“ACARINHAI AS VOSSAS FODAS”, Jo (3:11)

“A thing of beauty is a joy forever”, escreveu certo rabeta ingês. Uma vez que a generalidade dos meus leitores percebe tanto de línguas estrangeiras como eu de apanhar nos entrefolhos do cu, vejo-me obrigado a traduzir. Quer isto dizer, vertido no nosso idioma: “Uma rica foda é um tesourinho que dura como o caralho”. Fez bem Keats em colocar este belo pensamento em forma de verso. Porque uma berlaitada bem arrefinfada, realmente, apega-se à memória como os chatos aos colhões. E recordar fodas é dá-las novamente. É por isso que sabe tão bem passar por uma ex-namorada e gritar-lhe, do outro lado da rua: “Eu ainda me lembro de como essas tetas chocalham! Ainda ontem esgalhei duas sarapitolas a pensar nisso...”

Penso que vale a pena recolhermo-nos dentro de nós mesmos durante uns minutos, afastados do bulício do dia a dia, para reflectir nesta questão, caralho.

JMC pegou no meu pipi

Meu primeiro dia de trabalho.
Meu primeiro dia de trabalho não poderia ter sido diferente.
É, não podia, não podia ter deixado de sair tudo errado, não podia.
Não podia simplesmente pelo fato que de que se não tivesse saído tudo errado, não seria o MEU primeiro dia de trabalho.
Estava aqui a pensar com minhas caraminholas, e.. Um grande foda-se ao primeiro beijo e ao primeiro namorado, o que marca mesmo é um dia de camelo, o primeiro dia de trabalho, esse sim ficará eternamente intrínseco em meus pesadelos mais sórdidos.

Eu sou uma privilegiada, primeiro ano, primeira entrevista, primeiro emprego, claro que sou, foi esse o pensamento, o mantra que repeti durante todo o dia para manutenção da minha paciência um tanto quanto finita.
E vocês devem estar pensando que eu sou uma patricinha fresca que nunca trabalhou na vida e agora só sabe reclamar, pra vocês que pensam assim, o meu segundo foda-se do post. O blog é meu, o dia de cão foi meu, as bolhas nos pés são minhas, portanto vou reclamar até quando me sentir ressarcida de meus danos psicológicos.
Contando agora é engraçado, aliás, tudo que vira história pra contar tende a ser engraçado, minha família rolou de rir, meu pai gargalhava as minhas custas. Ok, ok.

Cheguei no escritório, primeiro diálogo do dia D:
- Boa tarde Laila.
- Boa tarde Dra.
*Blábláblá*
- Então, você vai no Fórum faz isso, isso e isso, depois passa naquele prédio, aquele sabe, assim, assim assado, depois paga isso, isso e isso e pega recibo disso, disso, disso, pede pra assinarem isso, isso e isso, entendeu?
- Claramente. (aquele sorriso de quem não sabe nem o que dizer)

Abaixei a cabeça e voltei a pensar com minhas argolas, eu não sei porque fiquei decepcionada, eu sabia que seria assim, eu sei que estagiários de Direito não passam de meros office-boys de luxo, não desmerecendo essa profissão (?), claro, aliás eu até começo a achar que são eles que fazem o mundo girar, mas enfim, cá estou. Seria ingenuidade demais pensar que seria diferente comigo? É, seria. Mas a esperança é a última que morre, e eu as tinha até ter botado meus pés naquele escritório hoje pouco mais cedo. - Assassinos.

Na volta da minha primeira batalha burocrática, quase, eu disse quase chegando no prédio em que eu agora trabalho, Seu Pedro lá de cima, me pega pra Cristo e me manda um pé d'água como eu não via fazia alguns bons dias. Se não fosse pelo processo de tamanho significativo que eu possuía em minhas mãos eu juro que não teria ligado. É só nessas horas que um guarda-chuva faz falta, diga-se de passagem eu odeio esta geringonça, mas assumo, hoje eu quis um com todas as forças do meu ser. Se bem que.. pensando bem de nada adiantaria. Mas voltando, a única coisa em que eu pensei foi: Se esta merda molhar, eu estou na rua.

Olhei para o outro lado da rua e vi um mercado. Nunca achei um mercado tão atraente, chamativo. Mercado-sacola-sacola-mercado. Isso, garota.

- Moça, será que você podia me dar uma sa..
- Não, não posso não, porque nosso proced..
- Ok, ok.

Entrei por onde sai, sabe? Naqueles caixas de mercado? Então, por ali.
Entrei correndo, olhei em volta, peguei a primeira coisa que vi na frente, me acalmei e disse:

- Oi, continuando. Um tic-tac e duas sacolas por favor.

Ela riu, e eu não vi graça nenhuma.
Foram as sacolas mais caras da minha vida, de pensar que a gavetinha da lavanderia está cuspindo essas pra fora. Mas enfim.
Saímos de lá, eu, o processo, e as duas sacolas.
Ao menos ele chegou inteiro e a minha 'chefa' quase me deu um beijo na testa por isso, coisa que dispensei.

Nessa altura do campeonato, nem no sofá eu podia mais sentar, afinal era o sofá da Dra., e eu não teria a audácia de sentar com a poupança encharcada no sofá 'chic-no-úrtimo' dela. Ao menos não por enquanto.
Fiquei em pé ouvindo quais seriam as próximas ordens.

*Blábláblá*
- Na Barão do Rio Branco?
- É, ali na Barão, aqui pertinho.

E eu pensando comigo que devo rever meu conceito de distância.

- Ah tá, eu vou lá sim.
- Então (ela olha para fora e faz uma cara de preocupação, para meu alívio temporário), tá chovendinho, né? (chovendinho?)
- Heh. Pois é.
- Mas não tem problema, você vai pelos cantinhos, pelas beiradinhas que quase não se molha.

Sinceramente? Nessa hora eu tive vontade de gargalhar, sair gritando pelo prédio nua e descontrolada.
Cantinhos? Beiradinhas?

E lá fui eu atravessar o passeio Público procurando os malditos cantinhos e as malditas beiradinhas, com a chuva caindo na minha cabeça, martelando essa idéia imbecil.

(...)

a via-crucis continua em blogarelando

Perfeição é harmonia entre qualidades e DEFEITOS, inexistindo qualquer juízo maniqueísta. No dicionário, a idéia de perfeição está ligada à idéia de completude.

A falsa perfeição, a Perfeição George Lucas Pós Retorno De Jedi, em pessoas não existe (nem de modo falso) e só serve para destruir (o contrário de construir), assim como os cupins estragam uma porta.

a definição perfeita de douglas dickel

19.7.03

Requiem para o Gatinho Benny

Ontem à noite, tive um gatinho por alguns instantes. Pequenino, não devia ter mais de quarenta dias. Infelizmente, quando chegou às minhas mãos, já estava totalmente desnutrido e desidratado.

Levei-o à clínica, fiz o possível para chegar a tempo. O quadro era muito grave, choque hipovolêmico. Ele foi colocado no soro e no oxigênio, mas não resistiu.

Pelo menos ele ganhou um nome: Benny. E um dono disposto a amá-lo - só que o dono chegou tarde, muito tarde. Ele lutou bravamente por duas horas, mas já não lhe restavam forças.

Requiem aeternam dona eis, Domine;
et lux perpetua luceat eis.


O que mais me incomoda é a forma como ele morreu: de frio, fome e sede. Ele teria sido um gato lindo, bem peludo, preto e branco. Nos últimos instantes ele mexeu as patinhas, tentou miar, parecia que ele queria se segurar de qualquer maneira. De alguma maneira, tenho certeza de que ele soube que não estava mais sozinho. Pelo menos quero muito acreditar nisso.

Lux aeterna luceat eis, Domine,
cum sanctis tuis in aeternam;
quia pius es.
Requiem aeternam dona eis, Domine,
et lux perpetua luceat eis.


Pelo menos ele teve carinho e calor nas suas últimas horas, e dignidade na hora da morte. Os seus últimos dias devem ter sido de muito sofrimento e agonia, mas também de muita nobreza. Mais um inocente pagou o preço da nossa ignorância e negligência!

Nós somos pó, e ao pó voltaremos. Gatos são Luz, e à Luz sempre voltam.

Enterrei-o hoje cedo, perto do IMPA, ao lado de um rio, no meio da mata. É um lugar privilegiado, de Natureza e Harmonia - longe da maldade e da insensatez.

O Benny parou de sofrer e deve estar agora nas Pradarias Celestes, ao lado do Grande Gato Branco, brincando com muitos outros gatinhos que morreram de frio, de fome, de sede, de maus tratos, de superstições e de abandono por terem tido o azar de nascerem no seio da nossa humanidade desumana.

"Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo dos animais. Nesse dia um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade."
- Leonardo da Vinci

"A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana."
- Charles Darwin

"A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser julgados pela maneira como os seus animais são tratados."
- Gandhi

"Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração as condições dos animais."
- Abraham Lincoln

"Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor."
- Ptah-Go-Ra

"Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma."
- Ptah-Go-Ra

"Todas as coisas da criação são filhos do Pai e irmãos do homem... Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito a ser protegida."
- São Francisco de Assis

"Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante."
- Albert Schweitzer

"A compaixão pelos animais está íntimamente ligada a bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem."
- Arthur Schopenhauer


Benny (06/2003 - 18/07/2003 +), descanse em paz. Você não está mais sozinho. Nunca mais estará.

Requiescat in Pace, Amen.

descansa no portal Claudio Tellez

Olho ao redor e realmente estou no lugar errado; não estou onde queria estar. Alguém está?
Mas, se eu pensar bem, estou exatamente onde queria estar, quando imaginava exatamente a mesma coisa, tempos atrás. Deu pra entender?
Um ano atrás eu pensava: quero estar num lugar assim, assado, com pessoas x e y, etc,etc. Agora cá estou eu. Exatamente onde eu queria estar. E agora acho que estou no lugar errado, sei lá. Inquietação de sagitariano? Fogo no cu insatisfeito? Ansiedade particular e somente minha?
Eu sei lá. Sempre estou vendo além. Sempre quero algo que não está aqui. E não me venham com churumelas do tipo “ser feliz está em observar a simplicidade de vida” e o caralho a 4. Minha felicidade está em ser assim, insatisfeita e inquieta. Em não acreditar em nada e, no fundo, acreditar em uma coisa só minha. Contraditório deveria ter minha foto no dicionário. Eu adoro ser assim. E nunca vou estar satisfeita. Pq a beleza da minha existência está em questionar tudo. Até aquilo que concordo. Pq quem fica parado é poste.
E sem verdades absolutas.
Depois de tudo isso, preciso ir comer muitos doces ou bater em alguém. Sai.

uma pedra no sapato

Espelhos

Artur, o filho de minha quase-irmã e portanto meu quase-sobrinho, mira-se no espelho e o que vê é um estranho que lhe parece tão interessante quanto tudo mais que existe no universo ao seu redor, e assim começa o ciclo. A moça mira-se no espelho e o que vê é um nariz que não é o que está na capa da revista, uns olhos que não parecem misteriosos como o do cartaz do cinema e uma boca que num frêmito disse eu te amo sem ter a menor idéia do que isso significava. O homem mira-se no espelho do quarto na noite em que sua esposa chora, trancada no banheiro, e o que vê são as marcas no seu rosto daqueles lábios tenros e delicados da menina de olhos assustados que não sai de seu pensamento. A mulher mira-se no espelho para verificar se carrega no rosto a maquiagem adequada para o casamento de seu filho e o que vê é aquela que não via há décadas, aquela que havia abandonado seu pai para viver o amor da sua vida, aquela que morreu sozinha numa pequena cabana na beira-mar, os mesmos traços que não escondem o cansaço e a solidão. O homem alisa com as mãos cabelos que não mais estão aí enquanto vê, no espelho, um reflexo pálido atrás de si, e sorri pensando que, de alguma forma, ainda valia a pena. Finalmente, um pequeno espelho reflete, por puro acaso, um gesto de despedida perdido na multidão da rua agitada, enquanto lábios vermelhos são retocados, e é depois fechado e guardado numa bolsa, e não mais verá a luz desse mesmo dia.

reflexões no joseph kern's diary

18.7.03

Hoje, só uma coisa está me fazendo feliz: esse raio de sol que está batendo no meu pé esquerdo, descalço.

a moveable feast

Minha madrinha Anna me revelou há algum tempo atrás que eu quando tinha lá meus 5 anos ia a uma psicóloga porque tinha medo de tudo.

Quando ia à casa das outras pessoas eu ficava agarrada na saia da minha mãe ou na dela o tempo todo. Se eu ouvisse o barulho de um carro na rua já ia me esconder e quando chovia e trovejava eu me encolhia na cama, tampava os dois ouvidos e ficava cantalorando lalala's. Eu tinha medo de tudo mesmo, de papai noel, de coelhinho da páscoa, de palhaço. Deveria ser a criança mais chata do parquinho.

Eu nunca me divertia nas festas das minhas amiguinhas e nas minhas nunca teve um palhaço se quer. Sempre tive poucos amiguinhos e não me importava com isso.

Cresci, e agora com dezesseis anos na cara continuo a mesma, não sei fazer sala, tenho medo de raios e trovões, chega visita e eu me enfio no meu quarto, odeio o papai Noel, o coelhinho da páscoa, quero que todos os palhaços morram e sinto um temor imensurável por esses caras que se fantasiam de telletubies em festas de crianças. Conto meus amigos na minha mão direita e continuo não me importando com porcaria nenhuma.

Quando te disserem que 'as coisas mudam quando você cresce', é tudo mentira.

its my blog and I'll cry if I want to

Fim

Pararam as obras. Tá tudo parado. O trânsito está congestionado.
Pararam as ampliações. Lacraram as portas. Colocaram um cadeado no lugar.
Pararam as máquinas. Ficou um silêncio. Pararam as doações de sangue.

Um coração parou.

Parou no meio da linha, a caneta com a tinta seca. Parou entre duas bocas o último beijo, a última saliva de um amor amargo, prestes a acabar. Tardou. Parou. Tudo. Apagaram as luzes, esvaziaram as garrafas, a tinta descascou, e até o porteiro, com suas luvas de lã e cachecol azul, se foi, sem ao menos ser questionado se queria sair, se queria ficar.

E por ali, ficaram aqueles restos e sobras de uma construção que nunca foi concluída, que nunca foi aceita, que ficou no papel perfeita, na maquete, reluzente, mas no concreto, interminada. Pararam tudo, interditaram o pipoqueiro, e também os banheiros, afastaram todo e qualquer tipo de vida que estava por ali. Chamaram o controle de pragas, para acabar com as possíveis baratas e insetos que por ventura viessem aparecer depois do fim, e acabaram espantando para longe não só as serpentes, pulgas e ratos piolhentos, mas também o casalzinho de joão-de-barro, que feliz, se aninhavam por ali.

Fecharam tudo, bateram as portas, apagaram as luzes, enxotaram vidas, calaram o silêncio, varreram as cinzas e purpurinas, tomaram o último gole, até o vazio, deram um jeito de esconder. Acabou-se o asfalto onde a gente estava acostumado a andar.

oldstyle

E o problema é...

ser normal. Normal demais. Não é extremamente legal, e nem insuportavelmente chato. Não me faz rir sem parar, e também não pega no meu pé, nem me pentelha até que eu fique possessa de raiva. Não é muito feio, mas também não me atrai a ponto de eu não conseguir desviar o olhar. Não se veste muito bem, mas também não se veste mal me fazendo ter vontade de contar que bermuda laranja e verde limão não combina com uma camiseta da seleção italiana . Não concordo com todas suas palavras, porém seu ponto de vista não faz com que cada conversa seja interessante, mesmo que um pouco hostil. Não tem uma personalidade que me surpreenda e me entretenha, embora também não aja e pense de uma maneira que cause conflitos, que me irrite, enfim, que faça com que todos meus pensamentos sejam relacionados a ele. Não tem um estilo parecido com o meu e não pode-se dizer que é a "Fernanda de calças compridas", entretanto não distoa completamente na multidão. Não tem nem de longe os mesmos gostos ou hábitos que eu, mas também não tem atitude suficiente pra se opor ao que eu digo. Não me cobre de elogios, nem faz com que eu me sinta a pessoa mais importante, mas de maneira alguma me trata com indiferença ou se mostra despreocupado comigo. E apesar de já ter feito e passado por coisas completamente absurdas, não consegue fazer com que qualquer momento relacionado a mim seja menos normal.

I have no idea where it came from

17.7.03

muito pânico nessa hora

Comecei a namorar uma embalagem de biscoito Passatempo recheado. Aí, vi a recomendação, na lateral do pacotinho, mais ou menos nos seguintes termos: tenha sempre um passatempo por perto. Com um biscoito você repõe as energias de 25 minutos de corrida.

Uia, que meda. Quase atirei o pacotinho. Não tenho condições de correr por cinco horas seguidas.


uma pérola perolada

Uma professora muito bacana, mas que vive completamente no mundo da lua, estava ao telefone com uma amiga quando a filha pequena veio e disse (e tudo isso ela contou na sala de aula):

- Mãe, a professora mandou eu procurar no dicionário duas palavras, uma que comece com E, e outra que comece com H...

- Sei.

E a professora lá, falando com a fulana. Quando se deu conta de que a filha estava lá, ainda, esperando, virou e disse, sem nem pensar:

- Exegese e hermenêutica.

E a coitadinha da menina ficou com aquela cara de interrogação, sem saber como escrever, nem qual começava com qual.

Sua mente capta?

Porque eu não sabia o quanto doía, embora soubesse da dor. Porque seus gritos me paralisavam de medo. Porque eu nunca aprendi a perder. Porque eu nunca soube ganhar. Porque você me deu a chave de casa quando ainda era muito cedo pra isso com o aviso "faça o que quiser, vá pra onde quiser, mas todo dia, às seis da manhã, eu tiro você da cama pra escola". Porque você comprava biscoitinhos recheados de chocolate e dizia "Bi, vem cá, comprei os Olímpicos". Porque você chamava a despensa da casa de "special reserve". Porque você cantava a música do baile na gafieira pra mim, e a dos sapatos de Iracema e aquela em italiano, sobre o comunismo e a liberdade. Porque você me ensinou a amar música cubana. Porque eu não passo 24 horas sem pensar em você. Porque eu amava o Alexandre e quando você o conheceu, você o amou também. E aí, meu amor por ele aumentou. Porque você me levou para viajar pra tudo quanto foi lado, e viajar com você era andar com o melhor guia turístico do mundo. Porque uma vez, em Lisboa, você me disse : "Civilização, é isso aqui, digam o que disserem. O mundo é melhor em Portugal, Bi". Porque até os motoristas de táxi da Alfama te conheciam. Porque você sabia dos gregos, dos romanos, dos fenícios, dos visigodos. Porque as suas malhas tinham um cheiro bom. Porque ninguém podia usar seus chinelos ou mexer no seu umbigo. Porque no dia da formatura do Pedrão, ele ali no palco, você me disse "seu irmão foi a melhor coisa que eu já fiz na vida" e eu fiquei triste e feliz ao mesmo tempo. Porque agora, seu globo terrestre é meu. Porque você botou a Setembrina nas nossas vidas, e agora eu tenho pesadelos horríveis com ela, e acordo chorando. Porque sua mãe tinha olhos azuis e me chamava de "cariño". Porque você botou a Lola na minha vida, e isso não tem preço. Porque eu queria um pai, não um amigo. Porque nós não fomos nem amigos. Porque você andava a cavalo como um Huno, e eu tinha tanto orgulho que achava que ia desmaiar. Porque eu nunca vi mãos tão belas quanto as suas. Porque você é meu pai, e ninguém tira isso de mim. Porque as palavras duras nunca paravam na sua garganta e sempre paravam na minha. Porque você se deitava no chão do meu quarto, pegava na minha mão e cantava "se essa rua fosse minha" com a voz mais doce do mundo. Porque você, mais que ninguém, me ensinou que ostentar tudo, de carro novo a conhecimento, é a coisa mais execrável que se pode fazer. Porque o Alexandre vive dizendo "se o Nelsinho estivesse aqui...". Porque você me ensinou a andar de bicicleta. Porque você sabia como me magoar. Porque você cantava no banho. Porque seu pai foi a pessoa que mais me amou nessa vida. Porque você nadava tão bem, pulava tão lindo do trampolim. Porque eu subia nos móveis e gritava "madeeeeeeeiraaaaa!"e você corria pra me apanhar. Porque você me mandou pro Rio, pra ver o Bolshoi no Municipal. Porque você nos contava as historinhas do Bingo. Não, Pingo. Bingo. Pingo. Ai, pai, decide, como é o nome do indiozinho? Porque você passava o tempo todo fazendo média pra arquibancada, e só a gente sacava. E agora, pagamos o preço pelo seu teatro... e isso não é justo. Porque seus carros tinham nomes engraçados como "Roberta Close", "Juvenal Alfafa", "Viatura". Porque a vida sem você é tão ruim, que muitos dias eu não consigo nem sair da cama. Porque você nunca disse que eu era bonita. Porque você dissecava peixes, asas de galinha, galinhas inteiras, até uma cobra que você atropelou, pra explicar como os bichos funcionavam e uma vez na feira, (lembra?), a mamãe comprou um filhote de tubarão e foi a maior aula da minha vida. Porque você dava aulas de astronomia também, com lanternas e laranjas, e depois nos levava ao Planetário. Porque eu nunca fui capaz de ser o que você queria que eu fosse. Porque você amava meus cabelos. Porque você me ensinava o que havia de mais invocado em genética, e eu adorava. Porque você tinha enciclopédias genias, e agora elas estão aqui. Porque eu tenho uma foto sua com uma flor na boca. Porque na primeira vez que eu me vesti de "mulherzinha", você tirou os tamancos plataforma dos meus pés no meio da rua, e jogou num tereno baldio, e eu não me lembro de humilhação maior. Porque 12 horas antes de morrer, você estava preocupado com a minha gripe. Porque eu nunca amei tanto alguém. Porque eu nunca odiei tanto alguém. Porque você fazia "ovos no inferno" e tostex, e nós ríamos na cozinha. Porque você se cercava de gente de décima categoria, pai, sempre. Porque você adorava as cantinas do Bexiga, e comia fussili e perna de cabrito. Porque você tinha a gargalhada mais gostosa e mais rara, e o que eu mais desejava na vida era fazer você rir. Porque hoje é seu aniversário e você não está aqui. Mas eu estou. Então, você está aqui, em mim.

Drops da Fal, no aniversário do pai dela.

Gravação Eletrônica do Instituto de Saúde Mental

"Obrigado por chamar o Instituto de Saúde Mental, a companhia mais saudável em seus momentos de maior loucura.

Se você é obsessivo compulsivo, tecle repetidamente 1.

Se você é co-dependente, peça a alguém que tecle 2 por você.

Se você tem múltiplas personalidades, tecle 3, 4, 5 e 6.

Se você é paranóico, nós sabemos quem é você, sabemos o que faz e sabemos o que quer. Espere na linha enquanto rastreamos a sua chamada.

Se você sofre de alucinações, tecle 7 e sua chamada será transferida para o Departamento de Elefantes Cor-de-rosa.

Se você é esquizofrênico, escute atentamente... uma vozinha lhe dirá que número pressionar.

Se você é depressivo, não importa que número escolha, ninguém irá lhe responder.

Se você sofre de amnésia, tecle 8 e diga em voz alta seu nome, endereço, telefone, número da identidade, data de nascimento, estado civil e o nome de solteira de sua mãe.

Se você sofre de indecisão, deixe sua mensagem logo que escutar o sinal... ou antes do sinal...ou depois do sinal...ou durante o sinal. De qualquer maneira, aguarde o sinal...

Se você sofre de perda de memória a curto prazo, tecle 9.
Se você sofre de perda de memória a curto prazo, tecle 9.
Se você sofre de perda de memória a curto prazo, tecle 9.
Se você sofre de perda de memória a curto prazo, tecle 9.
Se você sofre de perda de memória a curto prazo, tecle 9.

Se você tem baixa auto-estima, por favor aguarde.
Todas as nossas telefonistas estão ocupadas atendendo pessoas mais importantes.

Obrigado.

um espírito de porco (via Isabel)

– Oi, Pedrinho!
– Meu nome é Pedro.
– Eu sei, Pedrinho. Então, como você tá?
– Eu tô bem, mas fico melhor se você NÃO me chamar de Pedrinho.
– Tá bom, Pedrinho. Então, tá chegando seu aniversário.
– É PEDRO, caralho! Porra, não tem assunto melhor pra falar, não?
– Melhor do que o seu aniversário, Pedrinho?
– Meu nome é PEDRO, porra! É. Existem zilhares de assuntos melhores que o meu aniversário. Até a descrição fiel de um tratamento de canal sem anestesia é mais divertida que falar dessa porra.
– Ah, Pedrinho, como você é desagradável. Ei, vai ter festinha?
– NÃO! E MEU NOME É PEDRO!
– Poxa, Pedrinho. Festinha, bolinho, parabéns-pra-você. Ia ser tão legal. Vou ligar pra sua mãe pra gente fazer uma em sua homenagem.
– Você não ouve porra nenhuma do que eu falo, né?
– Pssst. O filme tá começando, Pedrinho.
– ...

Cara, conversar com a Marcela é angustiante.

um pedrinho nunes básico

Mais danos do que perdas

- Você deveria ter me avisado.
- Como avisar algo que nem eu sei.
- Sabe sim. Como não sabe?
- Eu não planejei nada. Aconteceu.
- Você pensa que eu sou idiota. Isso não é o tipo de coisa que simplesmente acontece. Tinha que ter espaço pra isso.
- Não, eu juro. Foi tudo muito casual.
- Imbecil, idiota, canalha.
- Por favor, não leve as coisas pra esse lado.
- Olhe bem na minha cara. Eu pareço idiota? Tenho jeito de idiota? Não estamos mais numa época em que as coisas simplesmente acontecem. Pelo amor de Deus.
- Tá, tudo bem. Vamos dizer que eu colaborei um pouco pra que isso acontecesse.
- A sua colaboração foi definitiva. Do princípio ao fim, você agiu com a determinação necessária pra que isso tudo fosse exatamente como aconteceu.
- Me perdoe.
- Não. Eu não te perdôo. E quero que você olhe bem pra minha cara.
- Eu te amo.
- Ama porra nenhuma. Ama o caralho. Você não ama ninguém.
- Não, não é verdade. Eu amo você.
- À merda com este amor. Olhe bem pra mim. Vamos, olhe!
- Eu te amo.
- Esta é a última vez que você está me vendo. Sente o meu cheiro?
- Eu te amo.
- Sinta o cheiro dessa pele. Você nunca mais vai me ver. Nunca mais vai me tocar.
- Me perdoe, eu amo você.
- A partir de agora, eu vou ser apenas uma lembrança. Não, melhor. Vou ser uma presença.
- Eu te amo.
- Uma presença equivocada na sua vida, que você nunca mais vai ter notícia. Esqueça que eu existo, esqueça meu nome, esqueça meu telefone. Esqueça também o meu endereço. Nem no seu pensamento eu quero estar presente.
- Eu te amo.
- Ama porra nenhuma. E pare com essa chantagem emocional barata e mesquinha.
- Não me deixe.
- Já deixei. Se você não está entendendo, eu explico. Estou saindo agora por essa porta. E a partir de hoje, eu não conheço mais você. Entendeu? Eu não conheço mais você.
- Não me abandone.
- Verme. Pústula. Canalha. Como pôde fazer isso comigo? Você deveria ter me avisado.
- Eu te amo.
- Você deveria ter me avisado.

o mundo paralelo de João Bernardo, via Dani

16.7.03

O CAMINHÃO DE LIXO

Ah! Os caminhões de lixo. Eu lembro que ainda quando criança era fascinado pela quantidade de lixo, esgoto e porcaria que o automóvel mais famoso do mundo conseguia engolir. Na antiga rua em que morava, quando criança ainda e sem desconfiar do futuro trabalho, me juntava aos colegas da turma e parávamos diante do apito estrondoso que o caminhão dava quando se aproximava dos locais de recolhimento. Aquele chorume, o líquido pastoso que ele despejava pelo caminho, o número de janelas que ele conseguia fazer fechar. Era um filme comovente, produção de luxo. O sonho infantil era ter um brinquedo do caminhão de lixo. Fascinante. Na verdade eu queria era trabalhar nele, recolhendo, carregando e levando a lixaria municipal. Mas infelizmente a escola me tirou esse sonho, pondo-me com um diploma na mão e me negando o caminho de ser recolhedor de lixo. Agora eu sei porquê as pessoas matam os outros por aí. Talvez elas queriam ser recolhedores de lixo e não puderam.

Frustrações d'O HERÓI

Eu, um astronauta e um cubo estávamos numa mesa de bar. Como é óbvio, a conversa foi longe, passando por planos de vida, desígnios amorosos, família, política, tudo de que um bêbado é capaz de falar. Mas, por algum motivo, o papo enveredou para Teoria da Comunicação. Foi mais ou menos aí que alguém atrás de mim disse 'oi'.

Silêncio na mesa.

O Cubo - Oi.

Silêncio.

Eu, voltando-me e vendo alguma coisa do sexo feminino num estado pior que o nosso, na outra mesa - Sim?

Silêncio.

A coisa do sexo feminino - Eu sou... socióloga... tô fazendo uma pesquisa de campo.

Longo silêncio.

O Cubo - E?

Silêncio.

Mais silêncio. O Astronauta olhava para o nada com uma cara de 'aimeudeusdocéu'...

A coisa do sexo feminino - Eu me interessei pelo assunto de vocês...

Silêncio. A coisa do sexo feminino sorria um sorriso stephenkingniano.

Eu - Há quanto tempo tu tá aí? Não cheguei a perceber...

Silêncio.

A coisa do sexo feminino - Ah... recém cheguei... o tempo de tomar uma Coca.

Eu - Mas pegou a conversa em que ponto?

Silêncio.

A coisa do sexo feminino - Ah, só o final...

Silêncio. A coisa do sexo feminino continuava com aquele sorriso assustador. Nós ficamos calados. O Astronauta continuava olhando para o nada. Eu e o Cubo meio que nos comunicávamos por olhares, mas não nos entendíamos. Acabamos falando sobre cigarros, ou cerveja, não sei bem. O fato é que ninguém queria mais beber e, realmente, já estava na hora de ir embora. Mas ainda pudemos ouvir.

A coisa do sexo feminino, com desdém - Três gatões desses... Pesquisa de campo. Há!

(Não lembro se as palavras foram essas mesmo, mas se foram, não confiem no julgamento estético da coisa...)

direto das Garras do Ornitorrinco

Cliente é recepcionado por ladrões em posto de combustível

Inovação. O atendimento dos assaltantes agora está personalizado, com muito mais qualidade. Agora, ao abastecer o carro em um posto de combustível, você não corre o risco de ser surpreendido por assaltantes. Por quê? Porque o frentista é o assaltante. Foi o que aconteceu com Rafael Moura de Paula (20).

Rafael, o cliente, parou o carro no Posto Realeza, na avenida Fernando Corrêa, tirou a chave do contato, estendeu o braço para fora da janela e pediu: "Põe 20 reais". O frentista com um sorriso maroto no rosto, pegou a chave e disse "põe 100 reais". Rafael não entendeu e o frentista completou a frase. "Põe 100 reais no meu bolso que é um assalto".

Umbigo no chão

O cliente foi obrigado a descer do carro. Aí ele pôde ver o revólver e a pistola que o falso frentista e o companheiro dele de roubo estavam carregando. Com uma olhadela mais apurada ele pôde ver também a nova decoração do posto: um tapete humano. Funcionários e clientes que haviam sido rendidos foram obrigados a ficar deitados, perfilados, no chão do posto.

Os ladrões roubaram R$ 140, documentos, cartões de banco e 30 vales-transporte de Rafael. Outro cliente não teve a mesma sorte, pois além de dinheiro e objetos pessoais, a vítima teve o automóvel Santana, cor vinho, roubado. Foi no automóvel do cliente que os ladrões fugiram.

Há muito dizem que quando paramos nos postos de combustíveis de Cuiabá, olhamos para a bomba e nos sentimos assaltados. Mas Rafael não poderia imaginar que a situação fosse levada ao pé da letra algum dia.

positivo e operante, copia?

Coisas que mudam 

Com a gravidez eu larguei tantos maus hábitos :)

Não mudei radicalmente a minha vida, mas agora eu tomo café da manhã, inédito!

E não fumo. Um pouco é pelo desprazer de ter fumaça em volta, e é mais por sentimento de culpa, se algo desse errado eu me sentiria um monstro e não me perdoaria nunca. Parei e não sinto falta.

O vinho, oh my, eu achei que era melhor evitar o primeiro gole, mas quando provei a tomar vinho percebi que depois do segundo gole eu já estou farta, e então não me sinto privada do prazer de beber. Ano que vem eu volto a beber normalmente, depois de amamentar, claro.

Eu tenho espinhas e acho tudo uma coisa boa, não fico me achando um bagulho feio, olho pra mim e vejo um rosto com umas espinhas mas penso que não é um castigo.

Não tenho uma calça que feche o botão... por enquanto ainda subo o ziper, não engordei nos quadris (só faltava) mas estou barrigudinha, nunca tive a barriga enxuta mas agora tá com cara de gravidez, sim. Isso é lindo, quem falou que eu vou esconder? Mas é uma realidade: estou sem roupas pra ir trabalhar. E tudo isso é lindo lindo lindo.

gestado pela chi:ko:rit:a

DENUNCIA DE ROUBO

'...no presente dia, por volta das 3:30 hs da manha me encontravo nesta, Praça da Repubblica, e depois de ter acompanhado um meu amigo, ao despedir-me do mesmo deixava minha mochila sobre o meu motorino, e mi distanciei, passados 10 minutos retorno e constatavo que desconhecidos a haviam roubado...
Tal mochila sintética de cor azul claro marca Nike com ziper continha minha carteira com dentro os seguintes documentos todos intestados a mim:
-carteira de identidade emitida da prefeitura de Florença
-codigo fiscal
-permesso di soggiorno emitido a policia federal de Florença com vencimento Dezembro 2003
-passaporte emitido pelo governo brasileiro
-carteira de identidade brasileira
-carta Visa Electron emitida pelo Banco do Brasil
-carteirinha universitaria da faculdade de psicologia
-libretto universitario com relativa foto, lista de exames e documentaçao de identificaçao universitaria
-carteirinha do restaurante universitario
-libretto de poupança emitido pela Cassa di Risparmio di Firenze agencia Via Nazionale
-portadocumentos com dentro seguro do meu motorino de placa 8YL9G, no momento desconheço o n° do chassi, se trata de um scooter Piaggio Free de cor azul
-um celular Ericsson T20 de cor cinza com SIM TIM/WIND
-a quantia de €20
-carta fidelidade azul TAM
-carta fidelidade supermercado Esselunga
-um livro chamado Psicologia e Psicopatologia do Comportamento Sexual
-oculos de grau com lentes formato retangular/oval
-um chaveiro com 4 chaves
-cartoes de menor importancia.'


...quero desaparecer pra nao ter que enfrentar isso...

Denunciado por Mezzo mozzarella, mezzo peperoni

15.7.03

Esse é o lado bom de ter fama de cachaceiro, pensei que não houvesse: quando você fica a noite toda chorando com a cara afogada no travesseiro ao ponto dos seus olhos incharem e ficarem do tamanho de duas sementes de melancia, e seus colegas de trampo começam a te questionar, porque raios teus olhos e tua cara tão desse jeito, você resume tudo com uma simples palavra que dá fim ao possível início de conversa: ressaca!

lacrimejado no cata vento & montanha russa

Um convite ao olhar

Ser Olavo de Carvalho &/ou simpatizante no Rio de Janeiro é burrice. E cegueira. No mínimo miopia. Com uma pitada inequívoca de mau-caratismo. Ser Olavo de Carvalho no Rio de Janeiro é mostrar toda a incapacidade diante do generoso ato cotidiano do olhar. Olavo de Carvalho é como aquele adesivo preto que se cola aos vidros dos carros: o insul-film do intelecto. Ser Olavo de Carvalho no Rio de Janeiro é perder toda a chance de redenção, seja ela intelectual ou espiritual, numa cidade que as oferece aos borbotões, todos os dias, em todas as esquinas.

Fui e continuo sendo um crítico da estética da miséria, que tem desdobramentos em outros campos do pensamento brasileiro. Os subúrbios me fascinam, sempre fascinaram, e toda a moral própria que rege estes lugares me fascinaram, ainda que eu insista em vê-los criticamente. Também me fascina a miséria, as possibilidades da miséria, mas insistirei e não fazer da manutenção da miséria a minha bandeira. Não vejo com bons olhos grupos de que espécie forem, religiosos, sexuais, raciais e políticos. Enfim, quando olho para mim, dentro do ônibus, percebo que sou eu ainda sacolejando ao lado de um mulato de olhos vermelhos demais para o meu gosto.

Alguma coisa, porém, acontece quando, na Praia de Botafogo, em frente ao tráfego intenso das seis da tarde, sob um pôr-do-sol que já vai longe, vermelho como só o inverno pode proporcionar,um mendigo defeca. O gesto extremado de dignidade negativa talvez faça com que o gentleman, educado nos melhores colégios ingleses, vire o rosto e pense numa frase espirituosa. Ao redor deles, há meia-dúzia que aplaudirá. No banco da frente do mesmo ônibus, um estudante de filosofia provavelmente cite Kant para explicar a cor barrenta da dignidade esvaindo-se do homem. Lá atrás, tão deplorável quanto, um homem vestido de vermelho vivo, trajando boné, foice e martelo, rasga com os dentes travados uma nota de um real, maldizendo de si para si o capitalismo.

Pode parecer escatológica e de fato é a imagem de um mendigo defecando no meio de uma cidade de sete milhões de habitantes. Seria realmente um recurso retórico baixo, não fosse por um detalhe: é real. Não é matéria de ficção de subliterato comunista tardio, nem gracejo político de presidente sem dedo, muito menos fruto de uma mente exageradamente engajada de cineasta uspiano. Você escolhe: pode fechar os olhos, virar para o lado, concentrar-se num verso de Bruno Tolentino, rezar o terço, rir, chorar, tirar uma foto e mandar para o Ministro da Fazenda, sonhar com um mundo sem classes, tocar no bolso para se certificar que tem dinheiro para chegar em casa ou ainda ser indiferente. Meu convite é para que apenas olhe. Não use insul-film na alma.

(...)

Os vidros do carro estão fechados e o ar-condicionado no máximo. Conversa-se amenidade. A validade da crítica ao socialismo de George Orwell, em A Revolução dos Bichos. Talvez. O sinal fecha. O menino repete o gesto há algumas horas já: puxa o carrinho de lixeiro para o meio da faixa de pedestres, nele sobe, faz o sinal da cruz e joga três bolinhas de tênis usadas para cima. Por que faz o sinal da cruz, não sei. Parece cronometrado: poucos segundos antes de o sinal abrir, ele desce do carrinho de lixeiro que afasta rapidamente para o meio-fio e desfila entre os carros, pedindo moedas. Faz isso diariamente. E quase sempre dá de cara nos insul-films.

É uma situação absolutamente insolúvel. Não será, não!, a revolução comunista a salvação para o menino malabarista. Nem tampouco o liberalismo ortodoxo, muito menos lições de Charles Murray para índio ler. Tudo isso é bonito de se mostrar numa festa, bebendo-se espumante ou Chivas, comendo queijo suíço ou gorgonzola, entre muitos homens que têm o mesmo tique nervoso: limpam os óculos de tempos em tempos na manga da camisa. O que embaça a vista dos homens, contudo, não é o hálito das marés.

A mim me assusta constatar que Olavo de Carvalho e seu séquito de míopes, cegos e de caráteres duvidosos evoquem, em nome de sua causa, a voz de Cristo. Não entendem, eles, o significado da palavra piedade, que acompanha o discurso cristão pelos últimos séculos. O único sentido para a existência de um discurso asqueirosamente limitado como o de Olavo de Carvalho na imprensa brasileira e no meio de círculos intelectuais influentes é o da lição do engano. Por este sentido, Olavo de Carvalho funcionaria como uma espécie de catalisador de nossas maldades e mesquinharias diárias, justamente estas que nos impede de olhar. Simplesmente olhar.

com os óculos do Polzonoff