12.2.04

Emulator

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15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?

Prosa Caotica

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