9.1.09

Onde andará o H?

Não desejo retomar contato, mas tenho curiosidade. Convivemos dois meses num apartamento em Düsseldorf, com dois outros bolsistas de uma fundação para jornalistas de países em desenvolvimento. H. vinha do Benin. Tinha um metro e sessenta, era magro, um palito de fósforo. Tinha uma cicatriz de uns cinco centímetros em diagonal sobre o nariz, mas desconversava quando perguntávamos como a havia adquirido. H. havia estudado filosofia, gostava de Nietzsche e Camus. Um dia me emprestou O Mito de Sísifo. Isso foi um pouco antes de ele grudar em mim feito cocô em tamanco.

Começou uma noite, bem tarde. Eu estava lendo na cama e me deu vontade de tomar chá. Fui até a cozinha, de pijama mesmo, todos deveriam estar dormindo. Mas H. estava sem sono, e um pouco antes havia decidido ler na mesa da cozinha. Ele ficou muito feliz ao me ver com aquela camiseta surrada, que denunciava a falta de sutiã. A partir desse momento, H. falaria exclusivamente às minhas tetas.

H. estava na Alemanha havia mais tempo e, segundo nossa coordenadora, o desespero já havia tomado conta dele. As garotas, alemãs or otherwise, não lhe davam bola. Ainda segundo a coordenadora, H. tinha muita sorte com as mulheres em seu país porque era jornalista.

Me esquivava de H. como podia. Logo eu, cara? Olha pra mim.

Um dia, na rua, ele tentou pegar a minha mão. Queria andar de mãos dadas. Eu já estava tão cheia que pensava fazer o que minha educação, naquela época, não me permitia: dizer a verdade. O arco-íris de neon na minha testa não estava funcionando com o H.

Daí fomos viajar, todos os bolsistas. Uma semana em Weimar. Chegamos ao hotel e a coordenadora anunciou: havia uma sauna. Os alemães faziam sauna pelados, era a coisa mais normal e saudável. Ela estava muito empolgada com a ideia, insistia, vamos experimentar a sauna. Num momento a sós, lhe contei sobre H. Ela concordou que o melhor, no meu caso, seria manter as roupas.

Não demorou para H. ir ao meu quarto. Ele havia escrito um acróstico para mim. Em francês. Conversamos um pouco, ele cada vez mais romântico. Eu finalmente disse o grande deixa disso.

"Mas você me daria um beijo?", ele regateou. Eu disse que não, não e não e já fui abrindo a porta. Ele foi embora sorrindo.

Depois veio o check-out. Estava arrumando minha mochila quando H. bateu na porta. Esbaforido. Durante a semana, ele havia visto uns filmes na televisão, mas não sabia que eram cobrados. Vários filmes. Desses com mulheres. Em alguns minutos, a coordenadora descobriria tudo: que vergonha para os jovens jornalistas do Benin.

Perguntei se ele tinha trazido o cartão de débito. Fomos à recepção e pagamos a conta antes que a coordenadora chegasse. H. agradeceu, até me olhou no rosto. "You are a real friend." E foi isso.

No caminho a Düsseldorf, me depositaram, mala e cuia, em Bochum, onde ficaria dois meses, faria um estágio no jornal mais importante do vale do Ruhr e teria uma mosca de estimação, a Germanita.

Nunca mais tive notícias do H. Deve estar no Benin, cheio de livros do Nietzsche e do Camus, cheio de garotas. Não deve me googlar.

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