22.7.03

Aí eu vejo uma coisa e me emociono. Um marceneiro vem até o escritório para fazer um orçamento do tampo de uma mesa, que estragou. É uma lâmina de madeira, pelo que eu entendi, que ele vai ter que trocar. Ele diz que vai ter que comprar a peça inteira, que custa para ele noventa reais. Como vai usar somente a metade da peça, vai cobrar cinqüenta reais, com mão de obra e tudo, mais o frete, que sai quinze reais. Total, portanto, de sessenta e cinco.
Eu, que ouvi a conversa da sala ao lado, achei que não tinha entendido direito e fui perguntar para a minha secretária. Era isso mesmo. Ele vai pagar noventa pela peça, dividi-la ao meio, usar a metade e cobrar cinqüenta reais pelo serviço pronto, tudo incluído, fora o frete. E eu perguntei: e o lucro? E a mão de obra? Só de ônibus esse homem vai gastar muito mais do que os cinco reais que “sobraram”. Mas o preço dele é esse. E eu fico pensando como é que essas pessoas comem, trabalhando desse jeito, cobrando assim tão pouco? Não sobra absolutamente nada para ele, até falta, vocês entenderam? Ele vai gastar mais para fazer do que está recebendo. O que é isso?
Aí eu comecei a chorar, de pena do homem. Ou de pena de mim, que não consigo entender essas coisas, que não consigo viver com essa simplicidade, e ainda reclamo que não tenho dinheiro para viajar para Paris. Ou por outro lado consigo entender e não concordo, não me conformo, quero ensinar esse homem a dar valor ao próprio trabalho, quero dizer a ele que ele tem que valorizar o que faz, que com certeza vale muito mais do que ele quer cobrar.
Claro que vamos pagar mais do que sessenta e cinco reais ao homem. Não seria justo, mesmo sendo esse o preço dele.
Existe uma expressão em inglês que eu não consigo traduzir exatamente, que não possui uma correspondente exata em português, mas que se aplica exatamente ao que eu estou sentindo, agora. É o “take for granted”.
O que eu quero dizer é que a vida é tão boa, e muitas vezes tão fácil para quem nunca passou frio nem fome, que a gente take it for granted. Não dá o devido valor. Esquece que nem todos têm essa sorte, esse privilégio. Esquece de agradecer, enfim, pelo que já tem.
Então eu preciso dizer, sempre, muito obrigada, Deus, meu pai, minha mãe, meu irmão, pessoas que eu amo, pela vida maravilhosa que eu tenho.

direto da Funny Valentine

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