14.10.03

Ih, veja só, o dia das crianças passou e eu nem vi.
Acontece que o dia doze de Outubro é infernal, ninguém quer saber por quê.
Enfim, me toquei hoje e fui perguntar pro meu pai porque ele não me desejou um feliz dia e nem me deu nada como ele sempre faz. Recebi a resposta de que agora sou adulta. Adulta uma ova. Eu não quero crescer. Mas crescer é preciso, e se não fosse agora seria mais tarde, me disse o Gustavo no Domingo à noite.
Por que? Quem estipulou esse lance? Houve algum tipo de convenção aí que eu não fiquei sabendo? Não consta, não consta. Eu não acho certo, não acho legal falar da minha infância como se ela já tivesse passado, como se eu já estivesse pronta pra cair no mundo carregando essa coisa - a infância - de bagagem. Sei lá, não pesa muito, não.
Eu sempre fui feliz, do tipo de criança travessa e apoquentada que nunca consegue ficar triste ou chateada por mais de cinco minutos. A garota que não anda com o grupinho das meninas, bate em todos os meninos porque eles não deixam ela brincar com eles e no fim ficava sozinha desenhando amigos coloridos no papel.
Meu avô morreu quando eu tinha quatro anos, mas a maioria das lembranças, as mais nítidas que tenho, são dele. De como ele me levava nas costas, do cheiro das teclas velhas e amareladas do piano quando ele tocava comigo no colo e do cheiro do charuto que me fazia franzir o nariz, da voz rouca, da risada alta, da barba mal feita, dos óculos que turvavam minha visão demais quando eu brincava com eles, de tudo tudo tudo. Um dia ele não tava mais lá e eu não entendi por que ele não queria mais brincar comigo, ou por que se fazia um silêncio estranho quando eu perguntava onde ele estava. Não entendi e senti saudades.
Depois eu descobri que meu avô era mais que isso, só conheci a pessoa maravilhosa que ele era quando ele não estava mais aqui pra eu poder abraçar e dizer as coisas que eu sempre senti. Um cara que morreu por amor, mesmo. Por não querer acordar a esposa no meio da noite mesmo tendo um ataque cardíaco, por saber que a mente parca da minha avó não aguentava mais vê-lo sofrer. Porque ele tinha câncer nas cordas vocais e achava que dava trabalho em excesso. Não posso dizer o quanto eu admiro essa atitude, a maneira como ele lidava com diplomacia com os problemas financeiros, a forma como ele criou os filhos (dois deles são as pessoas mais sensacionais que eu conheço), o jeito como ele aguentou todas as adversidades e transformou tudo em risos e alegria.
Agora eu cresci. Agora eu entendo que ele era mais do que os meus sentidos identificavam quando eu era menor.
Como foi que, ao "crescer", tendo esse e outros tantos exemplos de como um ser humano digno deve ser, eu me tornei o que eu sou? Quando foi que eu deixei de estar satisfeita com o que eu tenho? Será que isso é crescer?
Se for, não vale a pena. Ou talvez valha e eu não saiba apreciar, sei lá. Alguma coisa saiu errada no processo, e não dá pra começar tudo de novo. Consertar? Não sei, não.
Ignorar, Repetir, Abortar.

The real folk blues

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