27.1.04

Fábula metropolitana

Essa uma história exemplar. Não me pergunte exemplo do que, mas é exemplar.

No último sábado, durante os festejos do aniversário de São Paulo, estava aqui conversando com meu amigo Tomas na entrada de minha casa, que é ao lado do Parque da Aclimação. Como fazia tempo bom e o clima era de feriado, havia bastante gente no parque.

De repente ouvimos na rua uma gritaria. Subindo a rua estava uma sujeito correndo, ou melhor, fugindo na frente e, em seu encalço, um rapaz em uma moto com uma carreta cheia de bujões de gás e um carro prateado de onde se via um braço para for a, apontando um revólver, aparentemente semi-automático, na direção do jovem que tentava fugir.

Alguns segundos depois ouvimos um tiro. Será que o cara atirou? O Tomas, que tem uma curiosidade mais mórbida que a minha, foi para a rua ver o que tinha acontecido. Acabei indo junto.

De longe vimos o cara que estava sendo perseguido no chão. Tá morto? Não, não está mexendo. O tiro foi para cima, supomos. Como nossa curiosidade não era tão mórbida a ponto de nos aproximarmos do cara armado, cada transeunte que passava por nós fornecia alguma informação sobre o incidente.

Enquanto uma mulher ligava para a polícia, o rapaz que entregava bujões de gás, ao deixar o local, contou, achando tudo muito engraçado, que o sujeito tinha roubado o celular de um homem no parque. Ele tinha saído atrás do infrator, assim como o carro com o cara armado. Ele é policial?, perguntei. Acho que é, disse. Enfim, perguntamos, se ele não teve medo de uma bala acertar os bujões e a vizinhança toda explodir. Ele sorriu e disse que não tinha perigo. E foi embora.

Para nossa surpresa o que se sucedeu a seguir foi o seguinte: o homem que acabara de recuperar seu celular, falou que era para deixar o assaltante, que aparentemente estava sob condicional, partir. Ele também foi embora, provavelmente porque não queria passar pelo processo burocrático de ir à delegacia prestar queixas e depois, sei lá, ser alvo da vingança do irmão do assaltante, que talvez seja um membro do PCC.

Durante alguns minutos, ficaram no local o cara da arma e meu vizinho da frente, um homem que pesa uns 200 quilos e que usa um rabo de cavalo prendendo o cabelo. Como o sujeito armado não tinha porte arma, prudentemente resolveu sumir antes que a polícia chegasse. O vizinho, que havia acompanhado tudo de perto, nos deu o relato completo, dizendo ainda que, do jeito que a situação estava, teria de tirar sua arma do armário.

Apesar de termos ouvido as sirenes, a polícia não chegou a aparecer no local.

Enfim, é como se nada tivesse acontecido.

Chez Nigro's - Movimento pela Insanidade Coletiva

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