12.8.04

Velório

Você alimenta um sentimento, ou a outra pessoa alimenta um sentimento por você, ou, com muita sorte, vocês o fazem simultaneamente. Não importa: todos os amores vão para o caralho, e um dia esse de vocês também irá. E isso nem é pior: que um sentimento morra, tudo bem, estamos acostumados. O ruim mesmo é agüentar o velório.
Porque aí não há mais possibilidade de convivência normal entre você e o outro. Vocês até tentam emendar uma conversa qualquer, mas o sujeito deitado no meio da sala com algodão nas narinas os impede com o peso de sua presença defunta. Você tenta dizer algo casual e besta, mas é forçado a se interromper no meio da frase, porque o finado começa a cheirar mal, o maior dos embaraços. E você tem que tapar o nariz e exclamar "Que horror!".
Até que o morto é enfim levado para sua sepultura, as janelas são abertas e o chão, varrido. Você olha para a outra pessoa e vê em seus olhos o mesmo alívio que você experimenta. "Quer café?", você pergunta, e vão para a cozinha, já conversando animadamente sobre o tempo, ou fofocando a respeito da vizinha gorda, ou contando piadinhas. Porque, sem a presença opressiva daquele amor que morreu, vocês enfim são livres.
Sentimentos morrem todos os dias: são assassinados, suicidam-se, morrem de velhice ou nalgum acidente estúpido. Vem o velório em seguida, e esta é a pior parte. E é uma sensação e tanto quando ele acaba, e nos vemos livres daquele cadáver atravancando a sala.

Jesus, me chicoteia!

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