12.1.06

Carta aberta de Caetano Veloso ao Ministro Gilberto Gil

De Edson Aran

Minha preta divina e maravilhosa,

Tô muito magoado com tu. Com tu mais Leitão. Com tu mais Lula. Eu pensei que tu ia ser o coração tropicalista olodúnico desse governo petista. Mas não. Tu até foi no comecinho, quando financiou tradução da obra do grande Wally Salomão para o sânscrito e o aramaico. Pensei que depois vinha verba para antropólogos desconstruírem Djavan, fonoaudiólogos estudarem Gal, cubistas redesenharem Bethânia, sociólogos decifrarem Carla Perez, zoólogos estudarem axé music. Mas não. Tu largou o tropicalismo e se juntou ao petismo. Tu trocou a geléia geral pelo lamaçal geral. Entendo não, Preta. Populismo por populismo, o nosso era mais autêntico. Ilusionismo por ilusionismo, o nosso tinha mais swing. Embuste por embuste, o nosso era mais limpinho.
Minha única explicação, Preta, é saudade do Chacrinha. Tu devia estar nostálgico de se apresentar no Velho Guerreiro e aí, como o governo Lula é direitinho o programa do Chacrinha, tu aderiu. Só pode de ser isso.
Tô muito decepcionado com tu. Tu era meu chiclete e eu era tua banana. Tu era meu atabaque e eu era teu agogô. Tu era meu dodô e eu era teu osmar. Tu era minha cheila morena e eu era tua cheila loira. Mas não. Tu agora prefere é chafurdar com o Sá Leitão. Tu prefere ancinavar essa nação.
Não sei o motivo da briga tua com Ferreira Gullar. Só sei que tem dinheiro no meio e não me amarro a dinheiro não. Tudo que sei é que tu não escreve, tu não telefona, tu não manda flores. Tu não manda nem e-mail, descarado. Ordinário. Cafajeste. Aproveitador. Tá pensando o quê? Eu sou jovem ainda, acha que vou te esperar pra sempre?! Acha?!
Opa, desculpa, meu rei, me empolguei no debate cultural.
O que eu tenho a dizer pra tu é o seguinte: ou tu manda e-mail ainda hoje, ou tô de mal de tu e é pra sempre.
Bilim belém, nunca mais fica de bem.

Caetano Veloso

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E-mail aberto do Ministro Gilberto Gil a Caetano Veloso

De Castelo

Meu leãozinho:

Magoe, não, meu bichim. Ói teu e-mail aí, viste? Respondi!
Se quiser venha comer um abará mais a gente aqui no ministério que repito a ti de viva-voz tudim. E em si-bemol sustenido.
O que, na verdade, eu proponho é fazermos juntos um ritual olodúnico-dessacralizante com o Leitão.
Chamamos Ferreira Gullar, Dona Canô, Gal, Bethânia, Daniela e o Carlito Marrom num terreiro. Ali pedimos ao Caboclo Cocada Branca pra baixar o Bispo Sardinha e comemos o Leitão simbolicamente. Melhor: oswaldianamente.
Como diria o Wally: uma festa cage-duchampiana com pitadas do uivo primodial de ginsberg.
Ou seria uma festa duchamp-ginsberguiana com pitadas do uivo primordial de cage?
Sei lá, porra. Poesia é excrescência, cada dia me convenço mais disso.
A idéia principal é estancarmos essa polêmica arretada, meu parabolicamarada.
O Gullar fica feliz e o Leitão fica no cargo.
E vamos cuidar de nossas propostas histórico-baianizantes. Tu escrevendo música pra trilha de filme em italiano, francês, servo-croata e querendo ser o João Gilberto. E eu tocando embolada em Paris para Kofi Annan.
Quer política cultural melhor que essa, meu rei?
A Bahia já nos deu régua e compasso e agora está dando euro.
Nós podemos retomar os ideais pagão-caymmicos, misturá-los com a poesia dos irmãos Campos e às letras do Peninha e fazer showmícios pelo mundo, agora com o apoio do Minc, do Bndes e das Casas Bahia.
Vamos nos pegar em público pra quê, meu Caê? Só se for pra retomar aquele nosso lance nos doces bárbaros. Mas, dessa vez, sem aquele trio elétrico enorme atrás da gente.
Tu sabes ao que estou me referindo. Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo. Mas cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também, serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar.
Agora, se não quiseres topar minha proposta de calçar as alpercatas da humildade e paz, tu já ouviu falar da pílula de alho? É uma pílula amarela. Cê toma uma daquela nem sabe o que é que sente, mas a dor-de-cotovelo já era.

Aquele abraço,

G.Gil

Blônicas

Um comentário:

Fabricio disse...

Poderia até ser engraçado como peça de humor. Mas nem isso. Ingenuo, pretencioso e mal feito.