17.3.06

CECI N’EST PAS UNE DÉCLARATION D’AMOUR

Porque eu te encontrei aos 33 do segundo tempo, quando achava que já não havia esperança de encontrar alguém tão imperfeito para o mundo e tão perfeito pra mim. Porque fomos amigos antes, e de verdade. Porque fechamos muitos bares, só os dois, e amanhecemos conversando, depois que todo mundo já tinha ido embora, e o assunto não acabava. Porque o assunto ainda não acabou. Porque você também sentiu as mesmas coisas, e disfarçou do mesmo jeito, até que os amigos matchmakers desistissem. Porque você havia me conhecido e amado quando eu tinha treze anos e, burra, nem reparei em você. Porque você não se casou com a outra, a fanha, racionalizando que tinha mais de 30 anos e “tava na hora”, como tantos, tantos homens fazem. Porque você nunca foi ciumento, porque gostava de me ver de saia curta quando minhas pernas eram bonitas. Porque você ainda acha minhas pernas bonitas. Porque não se importou de não ter filhos, quando era óbvio que os queria e que seria um pai muito doce e lindo. Porque é tão parecido comigo em certas coisas e tão diferente em outras tantas. Porque deixou de detestar gatos e se apaixonou por eles depois que adotamos a Nina. Porque quis que adotássemos a Nina, mesmo não gostando de gatos, só porque eu gostava. Porque você agüenta que eu corrija o seu inglês e questione sua gramática sem ficar ofendido. Porque você me ama quando eu sou mulherzinha, quando eu sou fodona, quando eu sou criança, quando eu sou chata e porque se afasta discretamente quando eu viro monstra, mas volta logo, e às vezes apressa a minha volta ao normal fazendo palhaçada pra eu rir. Porque mesmo quando você tá deprimido, se eu ficar triste ou assustada você me abraça e diz que tudo vai ficar bem. Porque quando você tá deprimido fica com essa temperatura de febre deliciosa e suporta eu te agarrando o tempo todo. Porque você tem as palmas das mãos e as solas dos pés finas e macias como as de um bebê, muito mais do que as minhas. Porque você é mais sincero e honesto do que qualquer pessoa que eu conheça, em todos os sentidos, e sem ser chato, palmatória do mundo nem santarrão. Porque você é bom de verdade, sem achar que isso vai te dar o céu ou te livrar do inferno numa hipotética vida após a vida. Porque quando criança, você chorava ou criava caso – e apanhava, porque sempre foi de paz - quando humilhavam algum amiguinho seu, em vez de se juntar à gangue dos bullies, como a maioria das crianças faz. Porque você tem tantos talentos e é tão nonchalant com relação a eles que eu só fui descobrir alguns depois de 5 anos juntos. Porque podemos falar de astronomia – nesse caso, você fala e eu escuto -, filosofia, cinema, fofocar sobre astros de Hollywood ou contar piada de pum com a mesma naturalidade e (alto) grau de diversão. Porque você é quase sempre bem-humorado, gentil, educado e fofo. Porque você tem a boca mais delícia e macia e lindinha do mundo, mesmo quando dorme com ela aberta e ronca. Porque você prefere dormir no sofá do que ficar confortável na cama sem me deixar dormir com seu ronco. Porque você não é machista nunca, nem comigo nem com ninguém. Porque às vezes nós somos dois caminhoneiros, grossos com Ç, e mesmo assim você nunca fica horrorizado comigo nem deixa de me tratar como a sua menina. Porque às vezes você me trata como se fosse meu pai, ou meu neném, ou meu melhor amigo, sem nunca deixar de ser meu homem. Porque você nunca deixou de me achar gostosa e demonstrar isso, estivesse eu magra, gorda, imensa ou mais ou menos. Porque você gosta quando eu rio com você mas não se importa, não fica griladinho nem incorpora um Tommy de Vito se eu rio de você. Porque você também me acha engraçada e isso não te ameaça de forma nenhuma. Porque quando eu tô mal, infeliz, doente, triste ou com medo, você me abraça e em vez de mentir ou fazer promessas vazias, você só me diz “Vai passar”, e isso é a única coisa que me acalma. Porque você ama meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meus sobrinhos como se fossem seus também. Porque você às vezes acorda no meio da noite e fica com vontade de me abraçar, mas não abraça pra não me acordar porque sabe o quanto eu gosto de dormir. Porque você não liga que eu não faça depilação todo dia ou semana, as unhas nunca, o cabelo jamais, e não se importa de me beijar e depois sair de batom, por menos que ele combine com seu cavanhaque. Porque você deixa que eu decida se você vai manter ou tirar o cavanhaque, a barba, que roupa você vai vestir, de que tamanho vai ser o seu cabelo. Porque quando eu corto seu cabelo curtinho você vira meu bichinho de pelúcia e eu não consigo parar de te fazer cafuné. Porque pra falar a verdade, eu não consigo nunca tirar as mãos de você. Porque você também não consegue tirar as mãos de mim. Porque até hoje ainda gostamos mais de conversar um com o outro do que com praticamente qualquer outra pessoa, mas não ficamos emburradinhos se um dos dois engata uma longa conversa com outra pessoa. Porque nós dois estamos sempre juntos contra o mundo, mas nunca – ou quase nunca – um contra o outro. Porque nossas brigas são poucas e de curta duração. Porque você me manda emoticons novos e fofos pelo msn. Porque quando eu olho pra você consigo ver a criança que você foi e o velho que vai se tornar, e amo os dois também. Porque você não dá chilique quando eu digo que fulano é bonito, sicrano é interessante e que beltrano “eu pegava”. Porque você confia em mim e merece minha confiança. Porque você tem olhos cor de mel, mas não é por isso que eles são tão doces. Porque por mais que eu escreva coisas aqui, eu nunca vou conseguir chegar a um centésimo das razões pelas quais eu até posso, mas não quero, não quero, não quero nunca nunca nunca viver sem você. É por isso, por tudo isso, que eu não ganhei na mega-sena acumulada, e é por isso que provavelmente nunca vou ganhar nem uma quinazinha ou uma mísera quadra. É porque provavelmente a sorte tem que ser distribuída com alguma justiça entre as pessoas, e afinal, eu já ganhei na loteria faz tempo. Pra ser mais exata, há sete anos, quatro meses e vinte e nove dias.

Cyn City

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