28.10.08

B.S.B.

Quando ela descobriu foi uma decepção. Um encontro fortuito, profissional, e um email. Matou um universo e abriu um mar de curiosidade. Quem seria ele, afinal?

Aroldo Jorge Guilherme era platinado, com jeito de galã francês de meia idade. Usava cachecóis e sobretudo, e estava no auge de sua diversificada carreira. Coadjuvava com certo destaque em uma novela popular, dirigia uma peça mediana, e estava escrevendo o roteiro de seu longa. Ainda colhia o sucesso do seu último romance, Onde os poetas nunca morrem, lançado na última primavera. Era reconhecido na rua, tinha fãs, principalmente as mais novas. Mas o livro lhe dera um verniz que agora chamava a atenção das mulheres mais velhas, e até elogios dos críticos.

Por trás das grossas armações dos óculos quadrados moderninhos, ela levantou seu olhar inteligente. A carreira na editora, após passagens por órgãos públicos e multinacionais, estava engrenando. Pensava que estava quase realizada profissionalmente quando a porta de sua sala abriu. Era ele. Aroldo Jorge Guilherme.

Sua paixão secreta. Já o achava bonito desde a última novela das seis, quando ele interpretou um jornalista descolado, que pegava onda e tocava saxofone. Foi duas vezes ver a peça que ele dirigia. Sonhos platônicos. Mas, depois do primeiro livro, Corações do infinito, os sentimentos afloraram. Além de tudo era culto, sensível, brilhante, ela pensou. Almas gêmeas. E agora ele ali, entrando na sua sala.

Trazia um rascunho de seu terceiro livro, com título provisório de Visões d'alvorada. Vestia uma velha bermuda cinza, tênis surrado sem meia, estava despenteado e com os olhos semi-cerrados. Cantou a recepcionista, se jogou na cadeira, sentou de pernas bem abertas, e perguntou mais uma vez seu nome. Ela não acreditava. Ele estava ali.

A manhã seguinte foi silenciosa, lembrando o caloroso aperto de mão que ele lhe dera na despedida, o olhar de sedutor barato com que ele se despediu. Havia algo estranho, mas ela não sabia bem o que era. O artista portava-se como um adolescente tardio. Não parecia ser a mesma pessoa delicada que escrevia livros lindos, cheios de poesia. Tocou o telefone. Era ele. Convidando-a para sair. Taquicardia. Até as oito então.

Foram para um bar movimentado, ele gostava de ser reconhecido, adorava autografar seu nome em qualquer oportunidade que aparecia. Pediu bebidas doces com nomes exóticos, comeu muito e não deixou de olhar nenhuma das mulheres bonitas que passavam ao lado. No caminho para casa, dois beijos e uma tentativa de subir. Ela disse que o apartamento estava uma bagunça, ele quis entrar na bagunça dela, mas amanhã ela teria uma reunião cedíssimo, teria que ficar para uma próxima. Mentira. Não havia reunião. Só uma sensação estranha.

Quatro dias depois ela terminou de ler o terceiro livro. Maravilhoso. Surpreendente. Tocante. Ela enviou-lhe um email confirmando a publicação para o fim do ano. Convidou-o para um outro jantar. Ele agradeceu a publicação e o convite, mas declinou o último. Disse estar envolvido no momento, mas que "sempre haverão oportunidades". Ali seu mundo ruiu e começou novamente. Esse foi o sinal. Ali o mistério. Ele não era o autor dos livros. O verbo haver, no sentido de existir, não flexiona no plural. O autor dos livros jamais erraria isso.

A dúvida se agigantou com os dias, e a certeza da incerteza a enlouquecia. Releu os livros. Investigou a vida de Aroldo. Duvidou do embuste. Até que veio a luz. O revisor. Só podia ser ele. Voou para os livros e procurou ofegante nos créditos. Só constava o nome do revisor da editora. Mas os livros já chegavam corrigidos, sem nenhum erro. Pensou duas coisas. Uma: o revisor da editora estava ganhando sem trabalhar. Duas: teria que descobrir quem escrevia os livros para Aroldo Jorge Guilherme. Mas como? Não poderia ligar para ele e perguntar diretamente. Perderia o cliente.

O email. Aroldo lhe encaminhou o primeiro livro por email. O autor deveria ter mandado a mensagem original. A mão tremia no mouse, a testa suava, e ela não achava o maldito email. Teria apagado? Não. Aqui estava. Desceu a tela angustiada. Achou somente as siglas B.S.B., e um texto escrito em português castiço, denotativo, sem erros. Sem sombra de dúvidas ele era o autor. E ela estava apaixonada por um ghost writer.

vizionarios

o maior erro de todos...

é que sempre acho que é comigo.

eita umbigo!

Mal Secreto

26.10.08

Primeiro parágrafo de um romance apocalíptico (que jamais escreverei)

Não sei exatamente quando tudo começou — isso tudo aconteceu há muito tempo —, mas talvez o primeiro indício de que as coisas iam mesmo degringolar tenha sido quando o Kri virou Crunch. A princípio, ninguém se importou muito com isso, todos andavam ocupados com outras coisas que pensavam ser mais importantes, mas quando — anos depois — o Lollo virou Milky Bar, foi aí que todos viram que a situação não tinha mais volta, e que nada mais seria como antes.


Branco Leone

Qual o melhor carinho para um pisciniano?

A singela "Anjinha do Bem" faz uma pergunta que cuja a resposta, apesar de ser curta, é aplicável a todos os seres do sexo masculino de outros signos do zodiaco.

Pegue no pau dele.

Ele ficará bem contente.



Prazer em servir.

Instantâneos

Rodrigo, sábado, escolhendo comida no restaurante:
- Rô, você quer de qual sushi? Desse com alga em volta?
- Não! Eu quero do sem roupa! (leia-se: quero do que só tem sementes de gergelim e papoula por fora).

Rodrigo, às 7h30 da manhã de domingo, chegando na cozinha de triciclo:
- Olha, mãe! Eu aprendi a andar! Eu estou grande!
- Puxa, filho, é mesmo. Você aprendeu a andar pedalando...
Nisso, Edu acorda e vem comentando:
- Olha, Rodrigo. Você aprendeu a pedalar. Parabéns! Você aprendeu na escola?
- Não, pai. Eu aprendi aqui na cozinha...

E há uns dez dias, eu tinha ido comprar um livro na Livraria Cultura. Então, fui até a seção de Sociologia e pedi para me ajudarem a localizar. Estávamos lá o Edu, eu e o Rô e mais dois atendentes. O moço procurando e me perguntando:
- É Pesquisa...
E eu: - Pesquisa qualitativa.
Então, o Rodrigo escutou algo que pareceu interessante:
- Do Tatit, mamãe? A gente tá procurando livro do Tatit?
O moço ficou lá, dando risada...

Noturnos (Im)perfeitos

22.10.08

Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

Neto, do Updators

13.9.08

Comprei um GPS que eu chamei de Sônia. Sônia é canguinha e passional. Tracei o caminho para Telêmaco Borba e segui. Lá pelas tantas, quando entrei em uma estrada de chão, resolvi perguntar para um caminhoneiro se aquele era o caminho correto. Ele riu pra caramba e disse que até poderia, mas levaria umas doze horas. Sônia só queria andar por caminhos sem pedágio.

Dei meia volta e Sônia berrava:
-Fora da rota. Recalcular. Faça o retorno IMEDIATAMENTE.
E eu berrei de volta:
-Eu vou por onde eu quero, sua imbecil.
Palavra que Sônia ficou quieta por uns 15 minutos e gentilmente disse depois de isso tudo:
-Dirija 11 quilômetros e faça uma curva leve a direita.
Foi uma viagem mais tranqüila.

Na volta para o aeroporto, Sônia me mandou fazer um retorno. E eu dona da razão, disse:
-Não vou fazer não, sua imbecil.
Sônia respondeu:
-Fora de rota. Próximo retorno a 89 quilômetos. (!!!)
Sônia tinha razão e eu perdi o avião.

A anã Sônia que vive naquela caixinha deve ter aberto um espumante e se sentido de alma lavada.

gorduchas gostosas e um gordo ridículo

Atualidades

Acabo de ler: Céu grávida de Halley. Pensei que o cometa ia passar de novo. Mas é novela. Oh god.

Blog da Tina Lopes

9.9.08

I had a dream

Venho aqui, com muita alegria, aceitar a indicação do partido democrata. Venho trazer uma mensagem de esperança aos cidadãos desse grande país. Eu tive um sonho. Sonhei que nesse país as pessoas eram mais julgadas pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter. Sonhei com um país de oportunidades iguais para brancos, negros, amarelos e cinzentos. Nesse sonho as pessoas pareciam ter cabeça de algodão e um chapéu engraçado na cabeça e as nuvens eram feitas de calda de chocolate com amendoim e meio que pingavam no meio da rua deixando tudo melequento. Depois eu ia para um hotel, que não era bem um hotel, era uma espécie de navio. No porão do navio parece que tinha lá umas vacas de escafandro que eram super inteligentes mas ninguém podia entrar lá no porão por causa da radioatividade delas. Daí eu entrava em um salão enorme cheio de gente com bandeirinhas que era a Convenção Democrata e eu pensava: "Damn! É hoje o dia da convenção, eu esqueci de fazer o discurso". De repente eu vi que estava sem calças em frente àquela multidão enorme. Eu tentava me esconder atrás do palanque mas a câmera da Fox News ficava mostrando a minha bunda no telão. Eu olhei para a platéia e vi a Hillary vestida de branca-de-neve, só que com asas de morcego. Nisso eu olhei a minha mão e vi que ela estava toda preta. Daí eu pensei. "Holy shit! I am a f*cking nigger! F*ck! F*ck! Oh F*ck!". Aí chegava a Sarah Palin e começava a atirar em todo mundo na convenção. Era uma carnificina total. Até que a Hillary Clinton dava uma voadora no peito da Palin e comia a cabeça dela com sua vagina dentada.

América, eu tive esse sonho. Sei lá. O que será que significa?

Rata (unpublished)

3.9.08

anotações do domingo

estou aqui refém do meu curso de noivos. Acordei cedo num domingo, mal tomei café e agora estou aqui.

Primeira atividade do dia: ser coagida a cantar e dançar em público de um jeito bem constrangedor. Eu resisto bravamente. O Fazinho se entrega nas coreografias toscas. Ele quer ser aceito pelo grupo. Eu não.

Segunda atividade do dia: palestra sobre DST e afins. Voltei as aulas de ciências da oitava série, quando a professora tentava nos aterrorizar sobre os malefícios do sexo. Muitos estão no celibato até hoje. Minha vontade é pedir para ir ao banheiro. Da minha casa. E ficar por lá. (anotação Fabio: Por isso, querido diário, eu reconheço que sou chata por não gostar de fazer amigos, mas tudo bem... afinal o Fazinho vai me salvar dessa infeliz existência e me fazer completa... Ai, como eu amo o Fazinho!!!) A palestra do médico japinha está começando a afetar os cérebros mais suscetíveis. Olha o início de pane do Fabio...
De acordo com as infos do médico japa, eu sou colérica: de temperamento difícil, com necessidade de ser a líder do relacionamento, com tendência a ser cruel em discussões. Já o Fa é sanguíneo: comunicador, amigo, bonachão, organizado, (não) relaxado, que persevera nas coisas. Ele quer ter todas as qualidades, e nenhum defeito. Ah, ele assumiu que quer fazer n.2.
...

Eu continuo refém do curso de noivos. Com um agravante: o Fa soltando pum do meu lado. A noiva gordinha do lado já está olhando feio. Não sei quanto tempo resistirei sem ar. Pra aumentar o meu suplício, estão ligando os instrumentos de novo. Socorro: mais cantoria nãããããão!!
Um adendo: o médico é homofóbico e tem sérios problemas com roscas queimadas. Uma dúvida existencial: por que eles falam em "contrair" matrimônio? Achei que a gente "contraía" doenças! O mundo me assusta.
(anotação do Fazinho - coisas para a Karina largar mão: de ser esquentadinha) Minha anotação para o Fazinho largar mão: de ser bonzinho.
E agora o médico tá falando em fornos e orifícios. Socorro! (anotação Fabio - aproveito as gargalhadas dos noivos pra soltar pum) Acima, a confissão. Eu disse que ele tava peidando. Ele fica bravo que eu escrevo peidar. Prefere soltar pum. Whatever. Muda o nome, o futum continua. Reparo que o médico parece o Yoda. Fabio pede que Deus me perdoe pela comparação. Eu olho melhor, e acho que ele parece uma tartaruga.

Terceira atividade do dia: café comunitário. Tomamos suco do Chaves. Os gostos e as cores não correspondem. Comemos tanto, que comemos o lanche do casal do lado. Vergonhoso.

Quarta atividade do dia: Mais danças constrangedoras. Eu juro que vou sair correndo. Logo começa outra palestra. O cara fala bem, tem várias piadas prontas. Ele pede pra gente fechar os olhos e rezar. Eu durmo. Acordo com todo mundo com os olhos marejados. espero não ter roncado.

Quinta atividade do dia: Mais musiquinha, mais dancinhas. O menino que canta me olha com cara de mau. Cara feia pra mim é fome. Já passou do meio dia. Quero almoçar. Palestra com diácono. Ele escreve IGEJA na lousa. E não corrije. Eu estou com tanta fome que nem presto atenção em nada.

Sexta atividade do dia: Separam os noivos das noivas. Cada um deles volta depois com uma rosinha nas mãos. O mico agora é fazer uma declaração de amor pública pra noiva. A noiva chora e todo mundo bate palma. São 48 casais. Vai levar tempo. O Fazinho é o quinto ou sexto noivo a entrar na sala. Eu já estou tão xarope que já estou chorando. Ninguém disse que eu era de pedra. Nem deixei ele falar nada. Não precisa.

Missão cumprida: curso de noivos feito.

a vida é cheia de som e fúria

5.8.08

IMBECIL NÃO TEM TÉDIO

Aconteceu realmente na semana passada na rádio TUPI FM 104,1 em São Paulo:

Locutor: - Quem fala?

Ouvinte: - É o Vicente.

Locutor: - De onde, Vicente?

Ouvinte: - Lapa!

Locutor: - Olha aí, Vicente da Lapa! Valendo o kit com camiseta e CD Do Edson e Hudson. Presta atenção! Qual é o país que tem duas sílabas e se pode comer uma delas? Prestou bem atenção? É um país com 2 sílabas e 1 delas é muito boa para se comer. Dez segundos para responder.

Ouvinte: - CU BA!

Locutor: (mudo por alguns segundos e algumas risadas no fundo)

Tá certo, senhor Vicente! Vai levar o prêmio pela criatividade, mas aqui na minha ficha estava escrito JA PÃO...

Japão, evão, caminhão...

27.7.08

Deborah

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso. Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.

Nomes só

18.7.08

Carta de tchau.

Até um dia. Desejo a você um milhão de felicidades, vida inesquecível, dias avassaladores.

Que apareça um grande amor, desses de frio na barriga, calor no corpo, arrepio na espinha. Que tenha muitos beijos, muitos carinhos, muitas noites de ardor incomum. Tomara que ele lhe escreva cartas e mais cartas, que encha você de flores e recheie sua vida de poesia. Que você suspire quando pensa nele, que você o chame de meu, que você tenha certeza da eternidade da relação.

Que você conheça a Europa. Veja de perto um Monet, um Degas, um Van Gogh. Que você divida taças de vinho nacional na Itália, tome champagne nacional na França, faça brindes infinitos. Quando voltar, que você exiba as fotos para as pessoas queridas, envie por e-mail para quem mora longe, convide alguém para a próxima viagem.

Peço que você não fique doente. Se acontecer, que seja algo besta, uma gripe, uma dor de barriga. E que lhe levem uma sopa quentinha na cama, bem juntinho com colo e cafuné de mãe, com olhar de preocupação de pai. Se o assunto é família, que você brigue de vez em quando com o irmão, só para depois lembrar como gosta dele, para se arrepender, pedir desculpas, ganhar um abraço.

Que você vá à praia de vez em quando. Que divida a cerveja com amigos, tire um cochilo na rede, acorde com um beijo. Que você vare a noite numa dessas vezes, veja o sol nascer abraçada e depois compre pão morno na padaria.

Que você leia muitas vezes seu livro preferido. E que descubra algo novo toda vez, que se emocione sempre. Que nesses momentos você escute uma sonata do Chopin, ou o silêncio total, ou o barulho de passarinhos. Se de repente as páginas lhe tocarem, que você escreva as suas próprias, a cameta mesmo, e não mostre para ninguém. Ou mostre para todo mundo que merece.

Que você fique mais linda a cada dia e que tenha muitos admiradores para lhe dizer. Que pare uma festa, deixe um marmanjo de queixo caído, faça carros freiarem para você atravessar.

Oxalá tudo isso e muito mais passe pelos seus anos. E que num minuto, no meio de tanta coisa, você se lembre de mim. Porque não vou me esquecer de você.

Eu comigo mesmo

30.6.08

Eu não amei você

Percebo agora que fui injusta, mas não posso sentir culpa por não ter amado você, apenas não aconteceu, e por isso nunca retribuí o que sentiu por mim.

Não amei você desde o primeiro encontro e você me amou desde então. E fez inúmeras coisas por mim, coisas que somente as pessoas que amam fazem.

Eu não amei você quando assistia a filmes que não gostava só pra me fazer companhia, arrumava coisas no apartamento velho pra eu poder morar melhor ou quando me ouvia cantar desafinada e rouca e achava lindo.

Não amei você em nenhuma das vezes que telefonei de madrugada chorando e você vinha de outra cidade só pra ficar comigo, pra eu não me sentir sozinha, pra me fazer parar de chorar.

Não amei você em nenhuma das vezes que me levou para o hospital quando eu tinha crises de bronquite ou quando me levou pra jantar fora no restaurante caro e bacana para tentar me impressionar.

Não amei você quando me ajudou a carregar a mudança e nem quando me acordava no domingo de manhã com um sorriso enorme e dizia que estava feliz.

Não consegui amar você em nenhuma das vezes que fizemos amor, e foram tantas e boas, mas para mim, sempre sem amor.

Por que não consegui amar você?

Você tem inúmeras qualidades, mas a verdade é que eu nunca prestei atenção nelas, não lhe dei a devida atenção, o devido afeto.

Penso, como você pôde me amar? Por que ainda me ama?

Eu não mereço esse amor, nunca correspondi a ele, nunca nem agradeci tudo o que fez por mim.

Mas tenho de confessar que quando a solidão aperta e a saudade vem eu sinto uma enorme vontade de ter seu amor por perto de novo, mesmo sabendo que não posso oferecer nada a você.

é uma pena eu não ser burra... e ser sincera

24.6.08

Informática Pornográfica

— Filha, vai demorar muito pra tu chegar em casa?
— Mais um pouco... É que tô colocando o PDF no FTP.
— Tá, pode demorar, mas me poupa dos detalhes!

conversas furtadas por Ingrid Müller

5.6.08

Aula de Lógica

Dante ficou noivo aos doze anos.

Ninguém descreveu o inferno tão bem quanto Dante

FDR

21.5.08

Fausto Silva apresenta Goethe

FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no "Domingão"!

(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)

FS - Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude...

JWG, timidamente - O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht...

FS (interrompendo) - Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!

JWG - Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?

FS - Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro...

(O poeta faz "nein-nein" com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)

JWG - "Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn..."

FS - Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!


Pura Goiaba

20.5.08

I'm gonna sit right down and write myself a letter And make believe it came from you

Kslw Blsggb,

Aklsos sceaw lwowow. Qoeiso aosow soaos? Wiqowi woaoxo aso? W qwoxds aosis foisioa sooaiw pwpocis asois. Zasoi sqow!

Qoqw qp qpowie eqwpi qpowi. Qwoieow ewoia qowie Soiqw Hrwo aoias. Aqoiw oriwoc aoosi ao. Aoaiwer tpot tpoasi, powir pokcos atois soitis. Elaks r ro poasi!

T aoop, tqu qoiqwer cklak daoi to asoiasd? Reqosaoi oaiso taoi q apoi tokc clk ackas. Eoia poais tlais tlkasl d laks t tkajs l q qoie sat. Ip aosida dsaoi q apoq pqowier, tkaas taks qeo toias setr ta. Qopz, toaisp dpao saod.

Eopa aspo dao qpoax. Ep poasi paosi tpoa q pa osi esr poiaso.Qopoizxz poias qpo q paois tp xiaiuts t poasi oiioas poic.

Gx poias iaofysdu.

With love,

Xlsyydw

Passarinho Preto

sonho #1.851-3

Um jardim europeu, provavelmente em Viena, mas definitivamente na Holanda. Não que houvessem tulipas, é que sinto uma presença misteriosa do Spinoza no ar. Tudo meio verde-musgo bem escuro, o terreno bastante irregullar. Não era um cemitério, mas alguém andava enterrado por ali. Estou com um livro do Borges chamado El Libro Ilegible, e sigo tentando lê-lo sem sucesso. Entendo que tenho passado todos os dias circulando por esse lugar, com esse mesmo livro, sempre perto do crepúsculo. Vou passando batido por uma fonte onde se levanta uma estátua de Afrodite tão velha quanto a pedra. Neste local encontro Antonin Artaud falando sobre deuses olímpicos e primordiais para um casal de turistas a caráter. Artaud trabalha como guia nesse parque, mas eu nunca paro para escutá-lo. Percebendo que sempre deixo ele pro dia seguinte, já acostumado a vê-lo circulando por ali como eu, resolvo finalmente fechar o Livro Ilegível e tomar parte da visita guiada pelo Momo. Me aproximo e suas palavras são tão doces que nos chegam incompreensíveis. Artaud está falando com as mãos.

Contém Gluten

12.5.08

As Seen On TV

Você só pode se considerar um verdadeiro vencedor na luta contra o peso quando inventar o seu próprio aparelho de ginástica. Ab-Force-Isolator-Max é o nome do meu. Trata-se de uma camisa de força para animais. Não faz perder peso, mas é divertido ver os bichinhos se debatendo.

Loser