22.12.02

Natal de 1981 foi o primeiro Natal muito diferente. Dezembro de 1981 contava 9 meses que eu havia incorporado no 2 Batalhão de Policia do Exercito, e assim cumpria o meu serviço militar obrigatório. Num quartel com 500 soldados e outra centena de oficiais e sargentos eu andava por lá já sabendo o nome de boa parte sem precisar olhar para a tarjeta costurada nas fardas.

O quartel já havia me apresentado a muitas pessoas que virariam amigas e que se não fosse a convocação, nossas diferentes origens sociais impediriam. As conversas sempre giravam sobre assuntos pertinentes a todos como namoradas, futebol e família mas tudo de perspectivas completamente diferentes. Mas essa turma, a da 2ª Companhia, era uma moçada muito boa e logo nos demos todos muito bem. Nasceu aquilo que a farda diz ser a única que consegue promover entre homens, o companheirismo.

As festas de fim de ano se aproximavam e a turma seria dividida em duas. Uma parte ficaria de plantão no Natal e outra no Ano Novo. Para cada uma das datas a turma de folga ganharia alguns dias, então era possível planejar uma pequena viagem. Meu numero, 260, foi sorteado para o Natal. Mais adiante viria que minha escala era o de Plantão de Alojamento e ainda por cima o da 2ª hora. O pior é puxar a 2ª hora, pois com três soldados se revezando isso significava que estava escalado das 22.00 às 24.00 e das 04.00 às 06.00. Numa matemática simples esse é o turno que menos dorme. De dia tudo bem, pois com a vida no alojamento o tempo passa, mas depois do toque de recolher os minutos levam horas para passar.
O quartel da Abílio Soares era cercado de prédios. Lá pelas 10 da noite já era possível ver todos os apartamentos iluminados e com o silêncio que imperava, ouvíamos famílias rindo, copos, talheres, e alguns gritos com os champanhes explodindo. As dez da noite, na hora em que todos nós do quartel esperávamos ouvir o toque de recolher o corneteiro no Batalhão, que tocava muito bem, lascou um “Noite Feliz”. Ninguém dentro daquele lugar conseguiu segurar a emoção e das sacadas dos apartamentos pessoas aplaudiram. Minutos depois o sentinela da hora no portão das armas recebia Panetones e frutas que os vizinhos paisanos levavam para lá. Eram presentes pois pelo tamanho de uma tropa de PE, você sabe que lá dentro ninguém passa fome.

22:00 e pego o meu capacete e rendo o plantão que estava antes de mim. O resto da turma já se ajeitava nos triliches, isso mesmo 3 andares. Segundos depois já era possível ouvir os primeiros roncos. Sono no quartel é sagrado e invariavelmente você está morto de cansaço. Coloquei o cacete, no cinto N.A. e comecei a marcar os meus passos pelo alojamento. Entre o alojamento dos soldados e dos sargentos havia um pequeno corredor. Lá havia um telefone e se ele tocasse de madrugada era impossível que a noticia fosse boa.

Lá pelas 23:45 o telefone tocou. Pensei “que merda”. Atendi.

“2ª companhia. 260, Plantão da hora”.
“260!”.
“Sim”.
“260, aqui quem fala é o Roberto”.
“Sim”. Pensei quem é esse cara !.
“260. Olha. No ano passado eu estava de plantão na mesma hora na 2ª Cia e assim fiquei longe de casa na noite de Natal.”.
Fiquei quieto.
“Eu sei quanto isso é difícil. Então estou te ligando para te desejar um Feliz Natal, viu cara. Feliz Natal para você e tua família”.

Foi a primeira vez que realmente senti o que é o Natal. Fiquei muito comovido.

No Natal de 1982, um ano depois, eu fiquei de olho no meu relógio. Lá pelas 23”45 saí da sala aonde a família estava reunida e minha mãe me perguntou :
“Aonde você vai ?”.
“Já volto. Vou até a cozinha pois preciso dar um telefonema".

cerca de 168 horas

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