22.4.03

AUTOBIOGRAFIA

Mesmo sob a geléia sonora que sufoca meus pensamentos aqui nesta boate vermelha, posso ouvir os gemidos do casal, deitado sob a cama redonda do motel barato. O ranger da porta, abafado pela canção que o rádio, 50 centavos por hora, tocava. Penso num tapete, daqueles que auxiliam aos iniciantes na arte da dança, os pés e setas desenhados didaticamente num padrão conhecido. Nesse tapete eu poderia definir meus próprios passos adentrando aquele quarto úmido, com o casal copulando sobre os lençóis surrados de porra e joelhos. Por um tempo incomensurável pus-me estático espectador do casal-máquina. Via o vapor, as engrenagens, o ritmo industrial da humanidade...
Não, moça, espere um pouco que minha memória está funcionando depois de muito tempo estancada num ponto só. Da última vez, pude apenas recordar até o som do rádio. Que música tocava? Não sei porque não ouço músicas. Românticas, amargas, não sei diferenciar. Posso sentir o ritmo, e sei que o casal fodia com base nele. Veja, moça, a questão não é porque eu estava lá, parado, observando o casal, mas sim porque não tenho o direito de recordar do sentimento que tive naqueles momentos todos que agora formam um álbum em minha mente e que parasitam minha consciência. Por dois anos, aproximadamente, vaguei de quarto em quarto de zonas e motéis baratos à procura daquele cenário. Mais de uma vez encontrei rádios idênticos, ou camas idênticas, ou paredes, contrapisos, lâmpadas, abajures, cortinas... Quantos sósias terá você neste mundo? Pense num número. Diga. Certo. Tenho três, conheço todos eles. Vê comigo o casal, na cama? O homem ali parece-se comigo. A mulher parece-se com você. Não sei se você é inteligente, preciso pronunciar porquês? Obrigado. A partir daqui, alcanço somente uma recordação: a sensação de um gelo metálico em minhas mãos. Talvez você possa me ajudar com isso. Tome essa arma e veja se é gelada o suficiente.

genérico incolor

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