31.10.03

Jogando búzios
Por Bia Jagger

Há semanas atrás vocês lembram, eu tive ímpetos de atirar meu telefone pela janela porque percebi que estava em casa, de repente em uma espécie de plantão inconfesso, mais uma vez esperando e esperando aquele telefonema que nem sei se aconteceu. Não fiquei pra saber e se tocou jamais admitirá, o crápula digo, não o telefone.

Aqui no Rio tem uma hora que a praia pinta e em um dia especial que é a partida do inverno e a largada do verão. Isto é claro acontece sempre durante a primavera. Como num sinal cabalístico secreto, todo mundo larga tudo e se move em bandos como lemingues para o point. Quem perder a largada na segunda-feira será facilmente reconhecido pela cor destoante.

Todos adquirem aquela cor de cobre que é a meta final de meses de preparo dos bumbuns e culotinhos para caberem naquele biquíni novo, propositadamente comprado no número abaixo. Os telefones só tocam o mesmo convite : praia!

Eu para racionalizar minha fossa eminente, pensava que era melhor mesmo que eu estivesse só nesta época e que merecia curtir esta minha nova e duramente conquistada liberdade, em um primeiro verão de muitos que passei tentando agradar e sendo em troca agredida.

- É isto aí amiga! Vamos abrir a temporada em grande estilo! Alugamos uma casinha em Búzios que é uma gracinha e vai sair baratinho já que somos 5 com você 6. Todas livres leve e soltas, prontas para torturar quantos Argentinos apareçam em João Fernandes. À noitinha vamos desfilar o bronze na Rua das Pedras comer e beber bem!

Este foi o segundo de outros tantos convites que surgiram assim, pufff e assim decidi também, puff e eis-nos em Búzios. Vocês lembram que eu comentei na volta, só não sabem é o que rolou por lá.

Fortalecida com toda esta liberdade em doses para hipopótamo, pude enfrentar e resistir galhardamente à Lúcia chorando em uma rede na varanda da casa, desde o minuto que desfez as malas até sua volta no dia seguinte mesmo, de manhã e antes do café. Um horror de fossa!

Motivo: tinha acabado com o namoro e não era coisa muito antiga. Que boboca não? Como é que pode, por causa de homem! Eu hein! Tesconjuro e praia!

Eu encontrei no mesmo dia na praia, um velho amigo com quem eu sempre nutri um certo clima no passado jurássico e voltamos a nos ver de noite. Saímos mais cedo do Chez Michou e como eu estava com a chave da casa, resolvemos ir para lá por uma sugestão dele.

Ficamos sós, abrimos um bom vinho e escutamos todos os discos de jazz que levamos conosco. Eu estava no clima, mas ele não. Não me deu nem um beijo, nem de despedida! Eu tomei o lugar da Lúcia na rede, depois que ele se foi e chorei tudo o que tinha, até de manhã.

Não sei o que foi pior, se enfrentar meu poço profundo ou ter que fingir o resto do fim de semana para ficar dentro do meu script de linda leve e solta! Rindo muito sempre eu desejava lá no fundo que todo o capim do mundo secasse e meus homens todos, morressem de inanição.

Nestes 3 dias, comi como uma anta, bebi como uma lontra e tomei todo o sol do Geribá.

Voltei negra! Por dentro também. Meu coração está descascando até agora e dentro de um peito, nada proposital, um número menor!

chefe & cia.

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