12.12.03

O ônibus soltou um guincho. Animal ferido, luzes apagadas. Um grupo de meninos negros desce fazendo algazarra. São meninos, mas para quem os vê assim em bando, são sobretudo negros. As mulheres disfarçadamente (ou não) apertam as bolsas contra a peitaria, enquanto os homens (velhos, em maioria) lançam olhares de esguelha. Fiel aos meus pré-conceitos aperto a bolsa também. Um dos meninos passa por mim e sorri. Sorrio para ele, de canto, de terror (sou infinitamente covarde) e recebo como resposta a frase-chavetia, a gente só robá de boy. Descubro segundos depois que não se trata apenas de retórica. Na direção contrária um menino, talvez da mesma idade, talvez até do mesmo bairro, segue em direção ao grupo. Branco de medo, sem trocadilho. Cercam-no e ele ainda tem tempo de explicar que não tem dinheiro, que está saindo do trabalho e. Um tapa explode na sua nuca e vejo o menino do sorriso com a carteira do outro na mão. Não fiz nada, nada disse, nada pensei enquanto o menino roubado passou por mim contendo as lágrimas. Definitivamente não existem vencedores, só vencidos.

Mulherzices

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