22.9.05

MAS QUE FIM LEVARAM OS BENDITOS PIERCINGS?!?

O ex-marido veio apressado do Canadá e ela foi buscá-lo no aeroporto. A conversa seria grave: a ausência da figura paterna na adolescência do filho, os efeitos alarmantes e, claro, que atitude tomar.

– Semana passada eu vi que tava na hora de te chamar – ela disse, apreensiva, enquanto dirigia com a mão esquerda e com a direita abria a bolsa, remexendo lá dentro. – Já tinham me ligado da escola dizendo que ele tava matando aula. Aí aconteceu de eu revirar os bolsos da jaqueta dele pra colocar na máquina de lavar. E achei isso.

Tirou da bolsa o indício e o mostrou. O marido pegou, olhou, abriu, fechou, como se olhar a coisa de todos os ângulos esclarecesse melhor. E perguntou:
– Era para consumo próprio? Será que não é apenas curiosidade, pra ver como é o lance, e tal?
– Acho que não. Tanto que fui mexer na gaveta dele e achei outro.
– Como?!? – ele disse, sacudindo o livro. – Não bastasse O Jardim das Aflições… ele ainda tem outro livro do cara?
– Tem, sim. E no Imbecil Coletivo eu ainda achei parágrafos inteiros sublinhados!

Ele largou o livro no colo e olhou a paisagem lá fora, fingindo conferir trechos da cidade que não via há um certo tempo. Aí falou:
– Nem posso dizer que tenha sido, sei lá, uma grande surpresa. Dia desses eu entrei na página dele no Orkut e vi o perfil que ele se deu.
– E…?!?!? – ela perguntou olhando para ele (e ele sinalizando com a mão “shhht, olha pra frente, olha o trânsito!”)
– Bom – ele continuou –, posso dizer que iria fazer o Zé Guilherme Merquior parecer ativista da Libelu. E as comunidades de que ele faz parte, então? Caramba! Será que não é o caso de começar a se medicar?

Do penúltimo ao último semáforo os dois ficaram em silêncio. Quando pararam novamente no sinal vermelho ela disse:
– Então deixa eu contar o que aconteceu hoje cedo. Eu quis só bater um papo sobre como tava indo o namoro e ele: “Tou me cuidando, mãe”. Então não resisti e, enquanto ele tomava banho, fui olhar na carteira dele e achei lá, toda plastificadinha…
– Ah, menos mal q…
– …uma certificação de filiação à Opus Dei. E com uma cláusula de compromisso de manter-se virgem até o casamento.

Ele afundou-se no banco. Baixou o vidro e acendeu um cigarro. Ela continuou:
– Agora há pouco, antes de sair pra ir te buscar, passei pelo quarto dele e vi ele na cama, ouvindo música no fone de ouvido…
– Bom, pelo menos música ele ainda ouve, né?
– … A Cavalgada das Valquírias. Ainda assim falei que ele podia tirar o fone de ouvido, não precisava se preocupar com volume e tal. Ele tirou o fone e disse: “Ah, sei. E imitar o filho do vizinho fazendo ressoar pela casa inteira aqueles acordes deploráveis de southern nigger music, ou então as patacoadas melódicas do Bob Dylan servindo de trilha pra mobilizações de defesa de direitos civis? Yaaaaaaaawwn…” E olha, ele não só bocejou como pronunciou “ioooooonn”, mesmo!

Ele já não tinha mais como afundar-se no banco. Deu uma tragada e perguntou, soltando devagarinho a fumaça pelo nariz:
– Você falou com o psicólogo?
– Ah, o papo de sempre. Ele só quer chocar. Agredir. Chamar a atenção. A afronta como método de demarcar a personalidade.

Ele se exaltou quase a ponto de deixar a brasa cair no banco, mas conseguiu recapturar o cigarro no ar:
– E custava pôr piercing? Brinco? Tatuagem? Ir em cana por desacatar autoridade? Ser expulso da escola e…
– Já te falei que ele não anda indo à escola. Acha aquilo de uma, como foi mesmo que ele falou?, “homogeneização socializante deplorááável”. Fica é a madrugada inteira na Internet, baixando arquivos com textos do Meira Penna.

Quando viram já tinham chegado. O carro estacionado diante da casa, e dentro dele os dois, olhando um para o outro, sem fazer menção de sair. Foi ela quem falou:
– Vamos entrar. Você começa a conversa.

E ele, acendendo outro cigarro mas parecendo é querer ganhar tempo:
– Er. Escuta. Antes me diz uma coisa.
– Hm?
– Você acha que se a gente tivesse dado outra criação menos, sei lá, tolerante… Se não tivesse percebido que o casamento andava uma bosta e não tivesse se separado… Se, pelo contrário, a gente mantivesse a fachada de família feliz e vivesse uma história cheia de amargor, ressentimento, animosidade camuflada… Se impusesse na educação um monte de dogmas religiosos irracionais e milenares… Ele estaria realizado? Seria uma criança feliz, e não estaria partindo hoje pra esse tipo de atitude? Será que ele não está é pedindo socorro, e…
– Olha – ela falou, tomando o cigarro dos dedos dele e dando uma tragada caprichada. – Não sei se é o caso de ficar agora em punhetação do tipo onde-foi-que-eu-errei. Eu sei que o urgente é ir lá e falar com ele agora.
– Ahn – ele ainda tentou. – E se a gente plantasse um bagulho nas coisas dele, hem? Dentro da apostila? E quando ele negasse a gente retrucasse com “Não, filhão, a gente entende”, e tal? Psicologia reversa! Aí…

Ela devolveu o cigarro e soprou a fumaça quase na cara dele.
– Vai ter uma conversa séria com teu filho AGORA!

Ele saiu do carro, jogou o cigarro no chão, pisou na guimba rodando a ponta do sapato por mais tempo que o necessário e então caminhou até a porta da casa. Lá em cima, o filho, enfurnado no quarto, e ainda com o fone de ouvido, regia de olhos fechados a orquestra imaginária enquanto acompanhava a altissonância wagneriana fazendo baixinho, baixinho, bem baixinho com a boca “pampampampampam, pampampampampam, pampampampampam, pampampampaaaaaaaaaaaaaaaam….”

Ao Mirante, Nelson!

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