31.8.04

CORDEL IÍDICHE

Ou A Peleja de Freud com o Dono do Céu

Quando nhô Siguimunde esticou as canelas
Foi logo levado às portas do céu
E inda na subida tentou, tagarela,
Psicanalisar o Arcanjo Gabriel

O jagunço alado danou a falar
E quase que acaba saindo do armário
Mas logo interrompeu o bla-bla-blá
Quando nhô Siguimunde cobrou o honorário

E quando chegaram a seu paradeiro
São Pedro não tava, nem apareceu
Gabriel perguntou: "E o santo porteiro?"
E nhô Siguimunde: "É que eu sou judeu..."

Dizendo assim, já foi se aprumando
Pediu pra chamar o coroné do pedaço
"Não preciso de santo intermediando
Minha apresentação eu mesmo faço!"

Nisso Gabriel ao chão se atirou
Pois aí surgiu a Suprema Potestade
Nhô Siguimunde o anjo diagnosticou:
"Que baita complexo de inferioridade!"

Nhô Deus fez "aham", pra impor o respeito
Perguntou: "O que posso fazer por tu?"
Disse Siguimunde (era esperto, o sujeito):
"Shalom aleischem, Adonai Elohinu!"

Nhô Deus, comovido, então gritou: "Vixe!
Uma alma melhor eu não podia ter pego!
Finalmente alguém que domina o iídiche!
Pois pros cabras daqui eu só falo grego!"

Então se sentou com o recém-chegado
E uma proposta arretada ele quis acertar
Nhô Siguimunde ouviu tudo calado
Pois psicanalista é pago pra escutar

Nhô Deus propôs: "Desmentir tu vai
O Complexo de Édipo, pelo amor de Mim
Pois nesse preceito de matar o Pai
Os dialéticos já decretaram o meu fim!"

Nhô Siguimunde aceitou no ato
Dizendo: "Ouve agora minha proposta
Pra gente fechar direito o pacto
Escuta, macho véio, e diz se tu gosta:

Em vez de botar os cabras confessando
E os padres cansando de dar penitência
Pro divã os fiéis tu vai encaminhando
Que aqui é que eu entro com minha ciência!

Tu acaba com as filas na tua igreja
E aumenta a freqüência lá no consultório
Ouvir pecado é o que analista deseja
E ele ainda lucra com o falatório!"

Nhô Deus e Siguimunde apertaram as mãos
E saíram pra beber e comemorar
Viram Gabriel inda prostrado no chão
Gritaram: "Levanta – e vai trabalhar!"

Bebendo e fumando, a dupla se abraça
Festejando assim esse acordo mútuo
Só quando nhô Deus reclamou da fumaça
Siguimunde falou: "Pô, um charuto é um charuto!"

(sobe a moda de viola)

Ao Mirante, Nelson!

O acontecido, o não acontecido

Eram uma possibilidade mas nenhum dos dois sabia disso.

Estavam no mesmo local, ao mesmo tempo, com apenas alguns metros de distância separando-os. Ele ia sentado no banco do ônibus, olhando pela janela, introspectivo. Ela ia em pé, fones de ouvido, mergulhada em pensamentos. Se apenas seus olhares tivessem se cruzado, talvez um sorriso poderia ter nascido. Ela veria os olhos dele, transparentes e castanhos, cheios da bondade do mundo. Ele teria visto uma chama luminosa nos olhos dela, transparentes e oceano. Ele sorriria, ela sorriria. Ela talvez se sentasse ao lado dele. Ele talvez perguntasse onde ela ia. Ela talvez contasse onde estava indo. Talvez, talvez, talvezes.

Se conversassem, ele poderia arriscar-se a perguntar se ela não gostaria de ir passear com ele à beira-mar. Ela diria que adora andar na praia à noite, vendo as luzes do forte e do farol, escutando o oceano rugindo, afundando os pés na areia. Ele diria que adora música eletrônica e industrial, ela riria, porque ela também adora. Ela diria que adora gatos, ele sorriria e contaria da gata que ele teve. Descobririam muitas outras coisas em comum e conversariam, conversariam por horas, dias, semanas. Eles se beijariam em algum momento, o beijo seria inevitável, encantados com o olhar do outro, longamente, profundamente.

Os meses passariam, eles se apoiariam mutuamente, cresceriam juntos. Ela ensinaria ele a ser mais leve, menos introspectivo, a ver como as pessoas gostam dele. Ele ensinaria a ela a bondade e a gentileza. Ela ensinaria ele a acreditar em si mesmo. Ele ensinaria à ela como ela é bonita e corajosa. Descobririam mais e mais sobre o outro, se amariam mais. Ele se veria bonito, ela se veria feliz. Cuidariam um do outro. Poderiam ter uma vida inteira juntos.

Se apenas os olhares se cruzassem.

MadTeaParty - Should we have each other for tea?

a meia

A meia é um negócio importante. Dentro do sapato, em cima da pele do pé. Preta, se o sapato for preto, e bem esticada. Opaca, não deve ser translúcida. Forma, assim, em contraste com a graxa e o brilho do objeto que a envolve, uma composição. Cobre dignamente os dedos compridos e o joanete, enfim, os ossos e músculos que sustentam um corpo no espaço. A base da estrutura. Pode ajudar a definir a consistência de um pé chato, cujas pequenas células ósseas formadoras do colo insistem em tocar o solo. Impulso de agarrar o chão, descer em direção ao centro da Terra que ferve, eternamente. Neutraliza o emaranhado das cores do sangue, da gordura, da unha, dos calos, das dores físicas, do cansaço da tentativa de jogar futebol ou da dança, do salto alto. Silencia as agudezas da alma, que sobem pela coluna e chegam ao pescoço. Tranqüiliza as sinapses dos neurônios. Uma meia preta pode levar à levitação. Uma meia preta no Japão.

Numa peça alemã, as crianças vestidas de rosa, tudo cor de rosa, os sapatos também, só a meia não. A meia preta, sinistra. Já num fulano francês de cabeça raspada, asseado, tudo preto. E a meia também, principalmente. Meias vermelhas existem, no plural, mas são meias de ocasião, de exceção. Não compõem, ao contrário, chamam atenção. Deixam o pé crispado, fazem doer as cutículas. A meia preta não. Esta é apaziguadora, é calmaria do mar em terra firme, é silêncio do vácuo longe da atmosfera. É apolítica, atemporal, irracional sem ser desesperada. É a ausência presente do nada. A meia preta é um abismo possível. Uma abertura, uma falha, uma fenda. Em contato com as partes do corpo, projetadas e desenhadas na planta, canaliza a vida como o braço negro de um rio existente. Sempre existiu e sempre existirá.

as partes do corpo

28.8.04

Contos de Fada para Crianças com Nervos de Aço

Os atletas brasileiros espantam Atenas com sua feiúra sofrida e, para vos distrair de tais visões, quero contar a história do Barão Von Hammer-Purstall, sétimo filho de um sétimo filho; o qual, por um erro trágico de impressão, ia para a floresta nas noites de lua cheia e se transformava num bolo.

Chacais e meninas gordinhas comiam-no durante a noite e, ao nascer do sol, o Barão acordava nu na floresta orvalhada, sem alguma parte do corpo e coberto de formigas. Enquanto seus primos se transformavam em lobos e recebiam nomes apropriados e bacaninhas como O Horror da Renânia ou A Maldição dos Cárpatos, o Barão era chamado de A Delícia Cremosa da Baviera; seus pais o ridicularizavam na mesa do jantar, e muitos foram os camponeses bávaros que acordaram no meio da noite apenas para se deparar, em seus quintais, com a cena triste de um bolo de nozes chorando.

Von Kleist conta a história do trágico fim do Barão Von Hammer-Purstall: desesperado teria se enfiado até a cintura num formigueiro, esperando que a noite caísse enquanto lia a Bíblia. Sua família compungida salvou duas cerejas do formigueiro, que podem ser vistas até hoje no museu da família Hammer-Purstall em Munique.

Alexandre Soares Silva

26.8.04

Seu animal!

- Aquele cego pra quem eu li aquela prova do concurso do Banco do Brasil é totalmente contra esse negócio de cão-guia.
- Sério? Por quê?
- Porque é crueldade com o cachorro, você o força a viver em função de você.
- Oras. O cachorro não faz mais que a obrigação dele. Esses animais estúpidos abaixo da gente na escala evolutiva tem mais é que se dobrar às nossas vontades e seguir nossos desígnios.
- ... (cara de desprezo)

-=-=-=-=-=-
- Tem um homem que passa aqui na rua com uma carroça direto. Eu tenho um ódio dele!
- Ué, vó. Por quê?
- Ele fica chicoteando o cavalo sem parar. O bichinho tá carregando ele, ganhando o pão dele e ele ainda fica maltratando o animal.
- Tá certo ele, pro cavalo saber quem é que manda. Estamos no topo da escala evolutiva, o que nos dá o direito de submeter qualquer animal aos nossos desígnios, e eles têm mais é que obedecer.
- ... (cara de desprezo)

Eu vou anotar essa frase pra usar sempre que me der vontade de irritar alguém. É impressionante como as pessoas se enfurecem quando você diz isso. Experimente.

espancado no Utopia Dilucular

Telefonemas

- Alô?
- Alô! Quem fala?
- É da residência do sr. Anacleto de Souza?
- Sim, sim. Quem deseja falar com ele?
- Meu nome é João Carlos e eu sou gerente da Casa Carapatuás, a número um em poltronas e sofás. Com quem estou falando?
- Regina e sou a esposa dele.
- Boa tarde, dona Regina. Estou ligando prá falar sobre um sofá...
- O senhor me desculpe, seu João Carlos, mas nós não precisamos de sofás novos.
- Eu não estou oferecendo sofás, dona Regina. Eu estou ligado, prá pedir que a senhora compareça à nossa loja prá acertar uma dívida do seu esposo.
- Dívida? Que dívida?
- Bem, dona Regina. Seu marido veio à nossa loja ver um sofá de R$5.000,00.
- Um sofá de R$5.000,00??? Ele comprou um sofá de R$5.000,00???
- Não. Infelizmente ele pôs fogo no sofá.
- Como??? Ele pôs fogo no sofá? Como ele pôs fogo no sofá?
- Com a brasa do cigarro que ele deixou cair no sofá.
- Mas que cigarro? O meu marido não fuma.
- Eu sei que ele não fuma. O cigarro era de um rapaz que levou um tapa do seu marido.
- Um tapa? Meu marido deu um tapa no rapaz?
- Deu. No rosto.
- Meu Deus! Como isso aconteceu?
- Não foi culpa dele. Seu marido estava se debatendo por causa do ataque...
- Ataque??? Que ataque o meu marido teve???
- Seu marido teve um ataque do coração!.
- Ataque do coração??? Minha Santa Aquerupita!!!
- É, foi brabo. A filha dele quase passou mal, de preocupação.
- Filha??? Que filha??? Nós não temos filha.
- Como não têm? A mulatinha que estava com ele não é filha de vocês?
- Que mulatinha???
- Ele me apresentou como filha dele. Aliás, o sobrenome deles é o mesmo. E foi por causa dela que ele teve o ataque do coração.
- Por causa dela? Como assim por causa dela?
- É que quando ele ia efetuar o pagamento do sofá, ela contou que estava grávida e que ele ia ser avô.
- Avô? Do filho da mulatinha???
- Isso mesmo, dona Regina. Parece que ela conheceu um rapaz e engravidou dele. Um tal de Pedro Onofre, um sargento do exército.
- Pedro Onofre? Sargento? O meu filho??? Ela está grávida do meu filho???
- Ele é filho da senhora? Vixi, que enrolação. E o pior ainda está por vir.
- O pior? O que houve??? Seu João Carlos, me responda: o Anacleto morreu??? É isso???
- Não: é que não aceitamos Visa.

Mondo Redondo

MANUAL BOIANÊS DE TRÂNSITO

Elaborado a partir do profundo mergulho de quase duas décadas nesse trânsito de @#$&@#$¨&.  

Preferência : local onde você escolhe se prefere deixar o outro motorista passar ou não.

Cruzamento : faça o sinal da cruz, feche os olhos e enfie o pé no acelerador.

Faixa de pedestre : aquele tapetinho listrado debaixo do semáforo, pra descansar os pneus dianteiros do seu carro. OU, se você for pedestre, aquele enfeite lá no meio da rua, onde é proibido pisar. Desde que você jamais pise nele, atravesse onde quiser, de preferência bem devagar, feito vaca em estrada de terra. Se for mulher e tiver menos de 50, rebole, converse, take your own sweet time, e nem olhe pros lados. Você é gostosa demais pra morrer atropelada. Se for homem, vá gingando, deixe o cabelo na cara e não corra pra calça não subir e você ficar mais de 5 segundos sem mostrar a cueca para o mundo.

Sinal vermelho : só pare se no cruzamento em questão houver uma daquelas maquininhas fotográficas dedo-duro dessa maldita indústria de multas ou se vier ônibus ou caminhão em alta velocidade na transversal. Neste caso, enfie o dedo no nariz, sintonize programa evangélico ou coloque um CD de música sertaneja, brega ou axé-bunda no último volume e fique encarando os motoristas parados ao seu lado. Se estiver de moto, não pare de jeito nenhum. Morra, se for preciso, mas não deixe que uma luzinha colorida à toa ouse mandar em você.

Sinal amarelo : corra, feche os outros carros, vire sem sinalizar, faça o que for preciso, porque obviamente ele não vai ficar verde nunca mais e você vai morrer aí mesmo, de sede, inanição e coberto de teias de aranha.

Sinal verde : ande o mais devagar que puder, de preferência do lado esquerdo da via, até ele ficar amarelo. Nesse momento, acelere e deixe todos que vinham atrás de você parados lá, os bobocas.

Faixas : essa é pra ver se você é bom de equilíbrio : as faixas longitudinais das ruas devem ficar sempre exatamente no centro do seu carro. Mantenha os pneus da esquerda de um lado dela e os da direita do outro. Além de tudo, a rua fica bem mais espaçosa pra você, com dois carros no máximo andando onde poderiam caber três.

Árvores : podem ser usadas como freio ou como sombra. Neste último caso,  sempre que se vir forçado a parar num sinal vermelho, e mesmo que seu carro tenha ar condicionado, pare sempre debaixo de uma árvore para aproveitar a sombra, ainda que o trecho de rua seja pequeno e o carro à sua frente esteja a cinco, seis metros de distância. Os de trás que se virem. Afinal, eles fariam o mesmo se fossem você.

Pisca-alerta : aquela “lamprinha” que fica na traseira. Sempre que o motorista perto de você piscar a dele, acelere e não dê espaço. Ele está querendo mudar de faixa e passar na sua frente, coisa inadmissível. Por motivos óbvios, não use nunca, do contrário quem souber onde você pretende virar também vai fechá-lo.

Carro importado : se você tem, dirija como quiser, ande bem no meio da rua, entre na contra-mão, assuste velhinhas, aterrorize motoqueiros, faça e aconteça. Você pode, e os pobres que se fodam. Se você não tem, ao ver um, pare e deixe que ele se afaste o máximo possível antes de voltar à rua.

Carro velho, batido, com marcas de tiros ou faltando pedaços da lataria :

Você pode agir basicamente da mesma forma que os donos de carro importado. Afinal, se você bater, pouco importa de quem é a culpa, você não vai pagar mesmo.

Ônibus, caminhões : V. carro importado e carro velho, batido etc.

Cyn City

Do sovaco do Cristo: o retorno

Cá estou eu, dez dias depois, morando ao lado de um Cristo Redentor, versão reduzida. Uma imitação de pedra. Olhos de pedra, braços de pedra, sovacos de pedra. Moro debaixo do sovaco direito, o que seria esquerdo para quem sobe a rua e encara de frente o homem. Cidade pequena, uns 6 ou 7 mil habitantes, vivendo a euforia da campanha eleitoral. Carros de som passam berrando por minha porta. Trabalho com tampões de ouvido. Meu consolo é que isso passa. Fora isso, tudo corre bem. O inverno aqui é verão. O quilo do filet mignon custa 8 reais. Posso me queixar? Os mineiros recebem bem seus forasteiros. Me perguntam a toda hora por que troquei o Rio pelo interior de Minas, se no Rio também tem mil cidadezinhas. Tento explicar com lógica o que não tem muita explicação. Eles não entendem. Dizer que a vida me levou não convence muito. Estou pensando numa resposta mais convincente para tranquilizá-los: um dia, na enseada de Botafogo, a Virgem Maria me apareceu e disse: Vá embora daqui que o Rio vai se acabar. Eu fui.

Prosa Caotica

Garçon, desce o revólver,

Nado sincronizado: atleticamente nulo; esteticamente, uma monstruosidade. Paroxismo do mau gosto, da breguice; movimentos robóticos, música horrorenda. Ninguém jamais soube responder por que esteja nas olimpíadas.

Desportos com notas, tsc, tsc, não há um só indício de imparcialidade. Deveriam ser como aqueles concursos de perna mais bonita, que a menina põe um leque à frente do rosto, ou uma máscara idiota mesmo.


Garçon, desce o revólver (ii)

(i) Frases com a palavra "urge"

(ii) Memorandos, gente que escreva memorandos.

(iii) Hinos, bandeiras; pique-bandeira, hinos a bandeiras.

(iv) Paulistas, que nunca foram à praia, e insistem que o correto é maiô.

dies iræ

24.8.04

Páscoa

"Estar morto" depende muito da sua definição sobre estar vivo. Àqueles que acharam a definição simplista: peguem aqui. Duvido que já tenham pensado o conceito desta forma. Babacas.

Digo isso porque, aos seus olhos, devo estar bastante viva, sim. Não digito diretamente de algum caixão subterrâneo na capital do Paraná, impelida pela força da catalepsia. Meus dedos se movem sobre o teclado com a natural desabilidade, o ar entra e sai dos meus pulmões. Os olhos reconhecem os caracteres na tela, sinto na boca o gosto do doce recém-mastigado, sou capaz de identificar os Chemical Brothers tocando "Block Rockin’Beats" saindo da caixa de som. Usei meu discernimento e meu conhecimento para selecionar a música, ou seja, tudo se enquadra na definição de algum intelectual que despreza as dores de dente* "penso, logo existo".

Penso, logo existo, é uma teoria que prova que boa parte da população mundial está morta de direito, mas não de fato. Viver é qualquer coisa que vai além do raciocinar e executar tarefas. Hoje, sou uma dedicada executora de funções – nada muito além, nada muito aquém disso. Chato pacas, desinteressante, repetitivo, cíclico. Quer provar um pouquinho? Vem cá dentro das minhas calças que te mostro o quanto isso é gelado. Não, não. Melhor que te mantenhas fora dela: aqui dentro é quentinho e calor é prova irrefutável de vida.

Te digo que morri porque olho pra trás e vejo pouco, olho pra frente e não enxergo. Porque palpita no meu peito um propulsor de nada, porque as telas que miro estão todas em branco, porque as páginas do meu livro se apagam assim que acabo de escrevê-las. Vamos aguardar o terceiro dia e ver como fica, afinal.

Setecétera

(…)

Eu escrevo algumas coisas porque se não escrevesse seria falta de respeito com, no mínimo, a oportunidade de ter acontecido.

(…)

Nove de Copas

Nossa.

Dormi pouco e acordei de ressaca.
Acordei e chorei por causa de umas paradas que aconteceram na minha vida, no período sóbrio dela, muito erradas. Boto muito a culpa nos meus pais. Principalmente no meu pai. Eu tenho muita raiva deles por nunca terem me incentivado à nada, nunca me incentivaram a estudar, a entrar numa faculdade, a seguir uma carreira, a ter uma profissão. A única coisa que me incetivaram [e me obrigaram] foi a continuar trabalhando nesses empreguinhos horrorosos onde, além de me deixarem doente, apodrecem a minha alma. E sempre me atrapalharam em todas as minhas tentativas de evoluir pra algo diferente disso que eles querem pra mim, se é que quem alguma coisa, pois nunca demonstraram querer nada, e sempre fizeram eu me sentir um fardo a ser carregado.

Agora tá aí o resultado.

E eu não levo uma vida onde eu tenha que me submeter à esse tipo de coisa.
Esse tipo de coisa, só me faz pegar um ódio mortal do meu pai, e querer batizar meu futuro câncer com o nome dele.
Se bem que tem tanta gente na disputa pra batizar meu câncer....

Não quero nem saber de olhar pra cara deles. Estou com raiva, estou enojada deles.
Vou catar minhas coisinhas, vou pra aula de Literatura que eu ganho mil vezes mais. E depois só deus sabe pra onde.

Parece que a relação entre meus pais se esgotou: tipo, eles não tem mais nada a acrescentar na minha vida [minha mãe nunca acrescentou nada, além de desgosto], e eu não tenho nada mais a oferecer à eles, além de desprezo. O momento perfeito que eu tinha pra sair de casa pra sempre, pra sempre, pra sempre.

Só que ainda não tenho condições para isso. Tenho quatro meses pra mudar a minha vida, agora é mais do que nunca! Senão daqui a pouco vou estar limpando o chão dos outros, e meus pais, achando lindo. Porque o meu pai é daquele tipo que você sempre tem que aprender uma lição. E a maior lição que eu tiro de tudo isso é que: honestidade demais anda de mão dadas com a burrice. Esse é um post totalmente amargo.

E não dá pra não ficar com raiva deles.
Com raiva de todo mundo.
Esse final de semana me esqueçam, não vou ficar em casa de jeito nenhum.
Muito menos fazer programinhas familiares com um sorriso falso na cara, eles não me merecem.
E já estou saindo.

é a Maldita Mulher

23.8.04

Hoje me perdi em reflexões sobre a paixão. Procurei no dicionário seu significado. Conversei sobre o assunto. Bobagem!! Percebi que o que comecei a perseguir hoje foi uma paixão. Daí me veio a pergunta: pra que me apaixonar novamente? A resposta veio em uma conversa casual de academia com esse cara sempre tão rico de assuntos: simplesmente, porque é bom. Não posso ter a leviandade de julgar, aliás, subjugar meu futuro a essa triste experiência última. Mas, embora frustrada e unilateral, foi uma grande paixão. Me fez feliz por um tempo. Sinto ainda uma raiva imensa pelas mentiras que vieram macular a brancura dessa estória, mas ao mesmo tempo respiro bem fundo e aliviado por não ter sido por minha causa. Eu vivi. Mas agora quero uma paixão inteira, com uma pessoa inteira, pra ser vivida inteira. Quero reciprocidade até nos sorrisos. Quero olhares que segurem os meus. Quero apaixonar-me-te! E vou, pelo simples fato de que quero. Vou encontrar, pois apaixonado já sou. Essa pra mim não é condição transitória, estado. Pra mim é-se. Compadeço-me sinceramente daqueles que não nasceram assim. Daqueles que crêem, ou se enganam na crença de que paixão é circunstância transitória. Digo que não. Ou nasce-se apaixonado, em uma busca lancinante pelo objeto dessa paixão, ou simplesmente acostuma-se a viver sem o privilégio desse dom que é concedido aos poucos sensíveis que sabem degustá-lo. O problema desses deficientes é acreditar que eles também podem. Digo: entreguem-se aos prazeres da carnalidade pois isso é tudo que obterão de uma vida compartilhada e deixem os apaixonados livres para encontrarem outros iguais e terem seus finais felizes. Não que o encontro seja condição sine qua non para felicidade. Quem sendo apaixonado pode ser infeliz? Mas deixem que a felicidade some-se à outra. Quero encontrar sim, agora mesmo, alguém para destinar minha paixão, que é tão sincera e tão íntegra. Quero também ser objeto de paixão. Como uma coisa tão assustadora pode ser ao mesmo tempo tão boa? Jamais combina com lógica ou qualquer racionalidade, se qualquer desses coisas consegue dobrá-la é porque não era forte o suficiente. Quero que seja forte, fortíssima.

Henry Wotton

Quando o defunto ainda está quente

Às vezes penso que blog também é lugar de desabafo. Já disse, um tipo de Procon oficioso. Um lugar pra dizer péra, vou ali vomitar e já volto. Esse post é um desabafo, que nem o meu cachorro se interessou em ouvir.
A coisa com o namorado acabou há umas 3 semanas. Não vou dizer que foi ruim, também não foi tão bom assim; não sofri, não teve choro nem vela, e cada um foi para o seu lado, sem maiores estragos.
Mas hoje liguei pra saber ‘como estavam as coisas’; Relapso? Sei lá, talvez seja aquela coisa de ‘querer que a separação dê certo (porque há umas que definitivamente não dão).
E daí ele me conta que ‘está saindo com outra pessoa’. Depois ‘não saindo não, estou namorando mesmo’.
Olha, fiquei passé, developé, tombé.
Precisei esclarecer que não estava sofrendo não, peralá.
Mas pô, podia deixar o defunto esfriar mais um pouco, né cara pálida?
Vida que segue.

Café com Leite

Borboletas, a explicação

Pra deixar bem claro. Eu estou apaixonada. Completamente.
Agora pode ler tudo de novo, e vocês vão ver como as coisas fazem sentido (no caso, o sexto sentido da Luciane - que pelo jeito é a visão e/ou audição).
Podem duvidar, mas ele já aprendeu que não vale a pena duvidar de mim quando o assunto é a minha própria loucura.
Distância é sempre ruim, e eu sempre fui uma que desacreditei muito nesse tipo de coisa. E não vou dizer pra começarem a acreditar. Cada um acredita no que precisa acreditar.
Eu, pelo menos, ainda estou meio abobada. E não tenho planos pra desabobar.
Não tem coisa mais brega que gente apaixonada. Mas por ora, deixa eu ser brega em paz.

Forsit

perdi meu tino para blogar. estou transformando esse blog num diarinho. pior, talvez esteja transformando ele num depósito de baboseiras do que eu vejo na internet. olhem bem os posts abaixo. mas olhem bem. eu não escrevia assim, eu não costumava falar sobre essas coisas. estou me transformando num monstro. eu tento voltar, tento blogar de novo. antes era mais fácil, eu tinha minha redinha de amigos blogueiros, a famigerada panelinha alternativa. eu estava atualizado sobre todos os hypes. aí meu computador quebrou. passei mais de dois meses tendo que me adaptar à uma vida semi-paleolítica, sem madrugadas acordado, sem escrever sobre pensamentos fujões, sem sequer jogar paciência. meu cérebro parou. por mais de dois meses meu cérebro parou. encontrei meu refúgio nas drogas. me alcoolizei, me fumei, me malhei, até sertanejo eu escutei. quando meu computador voltou pra casa, passei maus momentos por causa das crises de abstinência. eu me debatia no tapete, me jogava na cama, me escondia sob a mesa. me maltratava durante o banho. meu corpo não aceitava voltar a seu estado de sedentarismo mórbido. mas eu me policiava bastante, e no fim acabei conseguindo cooperação física. o problema agora é meu cérebro que ainda está adormecido. bom, eu preciso voltar pra cá o quanto antes. isso eu sei. preciso da minha criatividade de volta, do meu tino, dos gracejos, e até das caretas. e preciso de um layout novo. porque eu não tenho 21 anos desde quinta-feira.

Fearless

22.8.04

Ontem andei de mãos dadas com meu pai pelo corredor do hospital. Agora o menino é ele.

(...)

30 dias de hospital, 15 deles na UTI.

A palavra que eu mais ouço: paciente.
A que eu mais falo: obrigado.
As que eu mais penso: puta que pariu.

Catarro Verde

Se eu continuar escrevendo desse jeito vou ter que ir à Casa de Cultura tirar uma Licença Poética. Já me informei, parece que tem uma certa burocracia, mas ela muda conforme o tipo de licença que a gente pede. O tipo A é para escritores amadores, se não me engano, basta ser alfabetizado e um pouquinho pretensioso; o tipo B é para escritores profissionais, aí já precisa ter algum talento, uma editora, essas coisas; o tipo C é específico para romancistas, afinal não é fácil manejar todo aquele tamanho; o tipo D é para poetas, pouquíssimas habilitações dessas são concedidas. Parece que há um movimento para incluir blogueiros ali na habilitação de tipo A, sem é claro, o pré-requisito da alfabetização. Vou providenciar.

das profundas dA Caverna da Ogra

21.8.04

Olha que coisa mais linda. Rauzbelito é uma palavra grega que significa o sentimento bacana que uma pessoa tem quando encontra com alguém que amou.

Marina W

20.8.04

Soltei as palavras que me afogavam. As palavras compuseram frases cheias de calor, de sorrisos e abraços e voaram até o destinatário. Sem o peso daquelas palavras presas, que eram palavras de conforto, de amizade, de carinho, a minha alma ficou leve e contente.

Nem todas as despedidas precisam ser tristes, mesmo as definitivas, eu aprendi isso com meu avô.

(...)

O Rafael da Rua Paper deixou a pergunta:
O que foi que o teu avô te ensinou?

Eu vou ter que contar uma historinha pra explicar.

O meu avô, pai da minha mãe, foi um segundo pai pra mim. Desde pequena ele fez com que eu me sentisse muito, muito querida. E ele era assim com todos os netos. Nos aniversários ele nos dava o que chamava de "um dinheirinho", sempre em um envelopinho, dinheiro suficiente para ir a um cinema, tomar um lanche, comprar uma lembrancinha. O meu avô tinha um corcel branco de quatro portas e nos levou uma vez, a mim e meus primos, para tomar soda limonada no alto do edifício Itália, no centro da cidade. O meu avô foi herói na revolução de 1932. Ele gostava de dançar e de ouvir músicas antigas, gostava dos cantores do rádio. Ele era ótimo com eletrônica, montava e desmontava aparelhos. Ele adorava assistir luta livre na TV. Nos almoços de família, que aconteciam nos aniversários e datas especiais do ano, ele sempre dormia depois da refeição. Ele era muito sociável, conversava com todos os vizinhos e tinha uma amiga dele de muitos anos com quem ele ficava horas no telefone sempre que ela telefonava.

O meu avô era maravilhoso.

Um dia, em um domingo, anos após a morte do meu pai, fui na casa dos meus avós e meu avô estava gripado. Ficamos vendo programas de calouros na tv, sentados um ao lado do outro no sofá, de mãos dadas. Nós sempre conversávamos muito. "Minha neta" - ele disse depois de um silêncio - "Estou ficando muito velho e estou cansado de viver".

Dois dias depois, meu avô faleceu.

Meu avô foi enterrado no cemitério do Morumbi, numa tarde de sol. O cemitério simplesmente lotou de pessoas que vieram se despedir dele. Estavam todos tristes pela partida dele, mas na verdade, poucos choravam. A maioria ficou contando histórias de como ele era um homem bom, simpático e algumas pessoas, apesar da tristeza, sorriam ao lembrar dele. Ele era muito amado.

Eu não chorei no funeral do meu avô. Achei que seria injusto com o homem alegre que ele foi. Meu avô tinha me ensinado que morrer não era nada demais, apenas uma seqüência natural da vida, que não devíamos ficar profundamente tristes quando uma pessoa vai embora e sim, lembrar de todas as coisas boas que tivemos com essa pessoa. Eu não chorei no seu funeral, porque não me senti triste com a partida dele. Eu já sabia que um dia ele iria partir e me senti feliz por todos os anos que ele conviveu comigo e por ter sido um avô tão incrível para mim.

Foi isso, Rafael, que meu avô me ensinou: que quando uma pessoa vai embora, por mais que nós amemos essa pessoa, nem sempre devemos nos sentir muito tristes. Porque uma hora as pessoas vão embora e vale mais lembrar as coisas maravilhosas que vivemos com essa pessoa do que chorar sua partida.

Mad Tea Party