27.7.08

Deborah

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso. Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.

Nomes só

18.7.08

Carta de tchau.

Até um dia. Desejo a você um milhão de felicidades, vida inesquecível, dias avassaladores.

Que apareça um grande amor, desses de frio na barriga, calor no corpo, arrepio na espinha. Que tenha muitos beijos, muitos carinhos, muitas noites de ardor incomum. Tomara que ele lhe escreva cartas e mais cartas, que encha você de flores e recheie sua vida de poesia. Que você suspire quando pensa nele, que você o chame de meu, que você tenha certeza da eternidade da relação.

Que você conheça a Europa. Veja de perto um Monet, um Degas, um Van Gogh. Que você divida taças de vinho nacional na Itália, tome champagne nacional na França, faça brindes infinitos. Quando voltar, que você exiba as fotos para as pessoas queridas, envie por e-mail para quem mora longe, convide alguém para a próxima viagem.

Peço que você não fique doente. Se acontecer, que seja algo besta, uma gripe, uma dor de barriga. E que lhe levem uma sopa quentinha na cama, bem juntinho com colo e cafuné de mãe, com olhar de preocupação de pai. Se o assunto é família, que você brigue de vez em quando com o irmão, só para depois lembrar como gosta dele, para se arrepender, pedir desculpas, ganhar um abraço.

Que você vá à praia de vez em quando. Que divida a cerveja com amigos, tire um cochilo na rede, acorde com um beijo. Que você vare a noite numa dessas vezes, veja o sol nascer abraçada e depois compre pão morno na padaria.

Que você leia muitas vezes seu livro preferido. E que descubra algo novo toda vez, que se emocione sempre. Que nesses momentos você escute uma sonata do Chopin, ou o silêncio total, ou o barulho de passarinhos. Se de repente as páginas lhe tocarem, que você escreva as suas próprias, a cameta mesmo, e não mostre para ninguém. Ou mostre para todo mundo que merece.

Que você fique mais linda a cada dia e que tenha muitos admiradores para lhe dizer. Que pare uma festa, deixe um marmanjo de queixo caído, faça carros freiarem para você atravessar.

Oxalá tudo isso e muito mais passe pelos seus anos. E que num minuto, no meio de tanta coisa, você se lembre de mim. Porque não vou me esquecer de você.

Eu comigo mesmo

30.6.08

Eu não amei você

Percebo agora que fui injusta, mas não posso sentir culpa por não ter amado você, apenas não aconteceu, e por isso nunca retribuí o que sentiu por mim.

Não amei você desde o primeiro encontro e você me amou desde então. E fez inúmeras coisas por mim, coisas que somente as pessoas que amam fazem.

Eu não amei você quando assistia a filmes que não gostava só pra me fazer companhia, arrumava coisas no apartamento velho pra eu poder morar melhor ou quando me ouvia cantar desafinada e rouca e achava lindo.

Não amei você em nenhuma das vezes que telefonei de madrugada chorando e você vinha de outra cidade só pra ficar comigo, pra eu não me sentir sozinha, pra me fazer parar de chorar.

Não amei você em nenhuma das vezes que me levou para o hospital quando eu tinha crises de bronquite ou quando me levou pra jantar fora no restaurante caro e bacana para tentar me impressionar.

Não amei você quando me ajudou a carregar a mudança e nem quando me acordava no domingo de manhã com um sorriso enorme e dizia que estava feliz.

Não consegui amar você em nenhuma das vezes que fizemos amor, e foram tantas e boas, mas para mim, sempre sem amor.

Por que não consegui amar você?

Você tem inúmeras qualidades, mas a verdade é que eu nunca prestei atenção nelas, não lhe dei a devida atenção, o devido afeto.

Penso, como você pôde me amar? Por que ainda me ama?

Eu não mereço esse amor, nunca correspondi a ele, nunca nem agradeci tudo o que fez por mim.

Mas tenho de confessar que quando a solidão aperta e a saudade vem eu sinto uma enorme vontade de ter seu amor por perto de novo, mesmo sabendo que não posso oferecer nada a você.

é uma pena eu não ser burra... e ser sincera

24.6.08

Informática Pornográfica

— Filha, vai demorar muito pra tu chegar em casa?
— Mais um pouco... É que tô colocando o PDF no FTP.
— Tá, pode demorar, mas me poupa dos detalhes!

conversas furtadas por Ingrid Müller

5.6.08

Aula de Lógica

Dante ficou noivo aos doze anos.

Ninguém descreveu o inferno tão bem quanto Dante

FDR

21.5.08

Fausto Silva apresenta Goethe

FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no "Domingão"!

(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)

FS - Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude...

JWG, timidamente - O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht...

FS (interrompendo) - Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!

JWG - Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?

FS - Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro...

(O poeta faz "nein-nein" com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)

JWG - "Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn..."

FS - Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!


Pura Goiaba

20.5.08

I'm gonna sit right down and write myself a letter And make believe it came from you

Kslw Blsggb,

Aklsos sceaw lwowow. Qoeiso aosow soaos? Wiqowi woaoxo aso? W qwoxds aosis foisioa sooaiw pwpocis asois. Zasoi sqow!

Qoqw qp qpowie eqwpi qpowi. Qwoieow ewoia qowie Soiqw Hrwo aoias. Aqoiw oriwoc aoosi ao. Aoaiwer tpot tpoasi, powir pokcos atois soitis. Elaks r ro poasi!

T aoop, tqu qoiqwer cklak daoi to asoiasd? Reqosaoi oaiso taoi q apoi tokc clk ackas. Eoia poais tlais tlkasl d laks t tkajs l q qoie sat. Ip aosida dsaoi q apoq pqowier, tkaas taks qeo toias setr ta. Qopz, toaisp dpao saod.

Eopa aspo dao qpoax. Ep poasi paosi tpoa q pa osi esr poiaso.Qopoizxz poias qpo q paois tp xiaiuts t poasi oiioas poic.

Gx poias iaofysdu.

With love,

Xlsyydw

Passarinho Preto

sonho #1.851-3

Um jardim europeu, provavelmente em Viena, mas definitivamente na Holanda. Não que houvessem tulipas, é que sinto uma presença misteriosa do Spinoza no ar. Tudo meio verde-musgo bem escuro, o terreno bastante irregullar. Não era um cemitério, mas alguém andava enterrado por ali. Estou com um livro do Borges chamado El Libro Ilegible, e sigo tentando lê-lo sem sucesso. Entendo que tenho passado todos os dias circulando por esse lugar, com esse mesmo livro, sempre perto do crepúsculo. Vou passando batido por uma fonte onde se levanta uma estátua de Afrodite tão velha quanto a pedra. Neste local encontro Antonin Artaud falando sobre deuses olímpicos e primordiais para um casal de turistas a caráter. Artaud trabalha como guia nesse parque, mas eu nunca paro para escutá-lo. Percebendo que sempre deixo ele pro dia seguinte, já acostumado a vê-lo circulando por ali como eu, resolvo finalmente fechar o Livro Ilegível e tomar parte da visita guiada pelo Momo. Me aproximo e suas palavras são tão doces que nos chegam incompreensíveis. Artaud está falando com as mãos.

Contém Gluten

12.5.08

As Seen On TV

Você só pode se considerar um verdadeiro vencedor na luta contra o peso quando inventar o seu próprio aparelho de ginástica. Ab-Force-Isolator-Max é o nome do meu. Trata-se de uma camisa de força para animais. Não faz perder peso, mas é divertido ver os bichinhos se debatendo.

Loser

Então é assim:

Vc já tentou levar as camisas do seu marido na lavanderia com uma criança de 3 anos e uma outra de 3 semanas?
Uau!Demora mais tirar as crias do carro do que deixar as camisas no balcão.

Vc já usou sutian normal, lindo, que deixas seus peitos lindos naquela blusa, só que na vida real vc está amamentando e pra tirar as peitolas pra fora é um malabarismo só?
Buuuuurra!!

Vc já tentou sair faltando uma hora antes do seu compromisso com a próle toda?
Impossível!

Quando um dorme o outro pula na cama. Quando o outro dorme é hora de dar de mamar.
Enquanto um mama virando o zóio o outro quer que vc escove os dentes, ou amarre o tênis, ou que simplesmente limpe a bunda.

Palavra chave: Paciência e muita calma nessa hora.

A casa de manhã e de dar vergonha. Principalmente depois do café.
Detesto aquele mundo de sementinhas de mamão papaia na pia, copo sujo pra tudo quanto é lado, manteiga, cream cheese, maionese, queijo, presunto tudo pela mesa derretendo aguardando a vez de ir cada um pro canto certo.

Minha mãe foi embora. Vinte dias. Que merda é essa?????
Quem é que vem lá do Brasil pra "ajudar" a recém parida e fica 20 dias e vai embora????
Prefiro não comentar.

Pelo retrovisor eu olho os dois sentadinhos nas cadeirinhas e não acredito. Que coisa mais linda desse mundo. Meus filhos. Plural.
Eu tô me achando, sabia?
Tô orgulhosa, tô feliz, tô satisfeita, aliás, que filhos lindos esses meus!

Plural? Uh, baby!

a máfia...

a máfia japonesa chamam de yakusa. a máfia napolitana chamam de camorra. a máfia russa chamam de máfia vermelha. a máfia brasileira chamam de governo.

Pérolas da Rainha

7.5.08

Itaipu?

Eu quero uma escrava paraguaia. Uma não, duas. Duas velhas, porque mocinhas e el embrujo de sus canciones, perto dos meus homens, jamais. A primeira velha eu porei na lida doméstica; a segunda, enfeitando a sala (quem sabe segurando uns charutos). A primeira chamarei de Carmela, porque tenho muita vontade de irritar meus vizinhos gritando “Ô Carméééééla!” o dia inteiro. A segunda chamarei de Ypacaraí, porque a quero plácida e silenciosa como uma lagoa.

Jodinélson Júnior adverte que não devo deixar dinheiro nas mãos delas. Nunca, nem um centavo. Diz o capetinha que a visão da grana desperta os anseios de liberdade.


Paraguay, Paris, Pinheiros...

2.3.08

Cansei.

catarro verde

7.2.08

Conclamo, contudo, a ciência deste mundo a encontrar uma vacina contra a "depressão pós férias"!

e, afinal, é ou não é por aqui que vai prá lá?

O que eu [não] tenho em comum com Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Carlos Drummond de Andrade

É que, assim como eles, eu também sou vítima de textos apócrifos creditados a mim. Sim, sim, vejam a minha importância.

Um amigo outro dia me perguntou se escrevi um poema chamado "Jesus pintou com a mão". Uéu, não sou muito dado a poemas desde a adolescência, quando, aliás, a temática religiosa não era muito recorrente.

Fiquei todo pimpão (como esse mesmo amigo costuma dizer). Estão creditando a mim textos alheios pra eles terem mais visibilidade, serem mais lidos, serem emoldurados com anjinhos e florzinhas e distribuídos por aí em apresentações de powerpoint.Uau, é quase uma realização artística.

Aí ele me mandou o arquivo, em mp3. Trata-se de um poema do tipo seresteiro, com uma viola tocando ao fundo e declamado cheio de emoção parnasiana.

Enfim, nada de atribuição indevida a mim. Deve ser só um caso de homonímia. Afinal de contas, se existe um Marco Brasil narrador de rodeio, bem pode ter um seresteiro também, uai.

é por aqui que vai prá lá?

Careca, enfim

Na manhã de uma quarta-feira, exatos quinze dias após a quimio, eu descobri que não gastaria dinheiro com cabeleireiro por algum tempo. Durante o banho matinal, no banheiro do hospital, passei as mãos na cabeça e uns vinte fios vieram enroscados nos dedos. “Ô ôu”. Levei as mãos mais uma vez à cabeça e outra porção veio junto. Fechei os olhos e busquei um restinho de pensamento positivo que pudesse estar guardado em algum canto da mente. Não encontrei. Terminei o banho o mais rápido que pude e voltei para a cama. Quando o enfermeiro entrou, um rapaz com menos de trinta anos, contei que estava me despedindo dos meus cabelos. “Pelo menos os seus vão voltar a crescer. E os meus, heim?” respondeu, mostrando sua careca em estágio avançado. E agora, Daniela? Engoli meu beicinho e desfiz a cara de coitada.

O que o enfermeiro não sabia era que aquele comentário foi o equivalente a quatro sessões de terapia condensadas em cinco segundos. Talvez eu supervalorize um pouquinho os meus problemas - ok, ok, eu SEI que supervalorizo na maioria das vezes - mas também sei reconhecer o drama alheio. E o problema capilar dele era, definitivamente, mais sério que o meu. Além disso, a queda dos cabelos era o primeiro efeito colateral da quimioterapia que não vinha acompanhado de dor, enjôo, febre ou qualquer outro desconforto físico. O único inconveniente era a minha repulsa a cabelos que se soltam da cabeça. Era fio de cabelo nos ombros, nos braços, na cama, no travesseiro, no chão… um pesadelo. Para resolver esse problema, com o namorido a mais de 400 quilômetros de distância, liguei para o meu amigo gay. “O que você vai fazer hoje à noite?”. “Tenho aula. Por quê?”. “Duvido você vir passar a máquina no meu cabelo”. Marco Aurélio não só topou faltar à aula na faculdade como ainda atravessaria a cidade duas vezes para ir em casa buscar sua máquina de cortar cabelo. Mas todos temos nossos carmas e não há nada que se possa fazer a respeito, certo?

Até a chegada do meu cabeleireiro particular, eu ainda teria que esperar pelo menos dez horas. Para me poupar do sofrimento de passar o dia recolhendo longos fios de cabelos soltos pelo corpo - ou para se distrair, não importa - minha mãe resolveu cortar meus cabelos bem curtinhos. “Essa tesourinha de costura vai resolver, Dani, senta aqui”. Duas horas depois, o resultado foi um corte tão pavoroso que eu desejei que todos os fios de cabelo caíssem imediatamente. Infelizmente, o jeito era esperar.

Quando entrou no quarto, Marco parecia tenso. Provavelmente apreensivo pelo que estava por vir, esperando uma cena típica de novela das oito, com muito choro e música do Kenny G ao fundo. A minha ansiedade era tamanha que mal o cumprimentei. “Vamos consertar logo essa tragédia que a minha mãe fez, por favor”. Assim que pegou a tesoura, Marco Aurélio foi tomado pelo espírito de algum cabeleireiro gay que vagava pelo hospital. Mostrou incrível habilidade e uma inesperada afetação na voz enquanto acertava o estrago feito pela tesourinha de costura. Depois, lamentando por ter que destruir sua obra de arte, eliminou o que restava de cabelo com a máquina. Ao olhar minha nova imagem no espelho, confesso que notei um certo charme naquele visual. Enfiei-me embaixo do chuveiro para espantar qualquer sinal de desânimo e vestígio da tosa. Sentir a água batendo diretamente no couro cabeludo é, no mínimo, diferente, assim como encostar a cabeça no travesseiro frio. Na primeira noite, em pleno inverno, eu levantei para ir ao banheiro. Sonolenta, lembrei que estava careca quando abri a porta do banheiro e senti o vento gelar minha cabeça. Uma tristeza repentina ameaçou se instalar. Afastei-a pensando no enfermeiro e sua falta de perspectiva. E, principalmente, na minha cura.

Resumindo, perder os cabelos durante um tratamento contra o câncer é como entregar a bolsa a um assaltante armado: “Toma, leva tudo mas me deixa viva”.

lições reais em enzimas virtuais

Donw again

Eu sei, eu sei que freqüentemente eu me comporto feito uma plasta covarde, que deixo oportunidades passarem por falta de empenho, que não vou atrás do que quero e/ou preciso quando deveria, que não sou “proativa” (pausa para vômitos. Meus. É que jargãozinho de auto-ajuda, seja da variante empresarial ou da esfera privada, sempre me provoca essa reação) e o mundo hoje – e sempre ? - é destes insuportáveis seres semi-robotizados, ultra-enérgicos, overachievers e saltitantes. Eu sei que é estranha essa apatia toda vinda de alguém que sempre incentiva os outros a buscarem o que querem, muitas vezes dizendo a eles a platitude – óbvia porém verdadeira, como a maioria delas – “o pior que pode acontecer é você ouvir uma recusa delicada”. Mas aí é que tá: é que pra mim, em certos momentos, o pior que pode acontecer é ouvir uma recusa delicada. Mesmo.

cyn city

Impressionante

O que mais me impressiona é que ainda tem gente que lê o que eu escrevo, ao menos aqui. Que coisa!

branco leone

2.2.08

O tempora, o mores

O tempo passa, a vida muda, a gente muda. Quase sempre para pior.

Tinha eu meus 16 anos quando assisti aquele filme "N0ve Semanas e Meia de Am0r". Achei sensualíssim0! Principalmente a cena em que os dois estão na cozinha, na frente da geladeira, se lambuzando com mel, chocolate, morangos e quetais. Muito sécsi...

Cerca de outros 16 anos se passaram e eu, já dona-de-casa-mãe-de-família-que-trabalha-fora, passava as noites em claro, embalando um bebê que não queria dormir. Certa madrugada, resolvo ligar a tv na sessão corujão e estava passando justamente esse filme, justamente nessa cena.
Meu único pensamento: "quem é que vai lavar o chão dessa cozinha no dia seguinte?"

Mesa de bar

1.2.08

Gostaria de poder incendiar - com os donos dentro, evidentemente - pet shops e clínicas veterinárias que têm nomes-trocadilho com cão, tipo: Gatos & Cãopanhia, Cão Peão, Cãopanheiro, Cãopanhia das Raçôes, Cãofusão e Cia, Amicão, Amorecão, Bem Locão, Cãopany, 18 Kilatem, Cãobuí Pet, Pousada do Cãoboy, Cãocun Pet, Pet Shop Cãomarada, Fofocão, Kãomilão, Cão de Estrelas, Cãosagrado, Cão de Mel, e por aí vai. Os nomes são reais. E quando você pensa que já viu tudo, vem esta aberração: Pronto Zoocorro. Aí já é caso de empalamento...

catarro verde