Grandes Vultos dos Anos 70 -06
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(ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico)
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Filthy McNasty
Desde 2002 no garimpo de pepitas e piritas cotidianas nos blogs brasileiros.
Sistema Copyleft. Sem figurinhas.
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(ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico)
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Filthy McNasty
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Ratapulgo
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30.6.05
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se sara sarar d. saramp.
sara será sereia
p.is sara nã. é feia
emb.ra nã. seja um anj.
merece um s.l. de banj.
chacalog
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Henrique
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24.6.05
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O homem tem um plano ambicioso: inventar um cigarro inócuo, sem tabaco, sem nicotina. "Este não mata", multiplicam outdoors; um autêntico benfeitor da humanidade, ora se não. Ainda hoje ele pode ser visto perambulando, muito compenetrado, fumando matinhos sem nome em quintais alheios. "Minhas pesquisas", é tudo o que diz quando perguntado, virando o rosto antes que se lhe notem o cansaço nas pálpebras.
1 leitor Online
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Henrique
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22.6.05
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o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivarius no grande desastre
aéreo de ontem
dó
ré
mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso
dó
ré
mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three
também temos café e cigarros
Postado por
Henrique
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22.6.05
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- Uau! Que noite...
- Dormiu mal?
- Hum? Não... imagina. Tive um sonho erótico da melhor qualidade... E com o Casagrande... Dá pra acreditar?
- O jogador??
- É! O corintiano... Que coisa que é aquele menino. Nunca tinha reparado... Quem diria?
- Eeei, acorda! Foi um sonho. Eu estou aqui!
- Bobagem mozinho... Vai ter ciúme de sonho?
- ...
- E que sonho! E que noite! Salve o corinthians...
- É... deve ter sido uma noite e tanto mesmo. Uma noite "Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha"!
- Estraga prazeres...
Licor de Marula com Flocos de Milho Acuçarados
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Jan
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12.6.05
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Bateu uma vontade de engasgar ao ouvir "Vento no Litoral". Uma vontade de sentir o coração disparar sem mais nem mais ante a visão de alguma garota imberbe tamaqueando pelas calçadas duma cidade litorânea. De olhar para o mundo à minha volta e morrer de insegurança pelo que ele pensava de mim. De sorrir ante a mínima expressão de espirituosidade. De apagar a luz e botar Waiting for the night, do Depeche Mode, ou Niagara, do Inspiral Carpets, no meio da noite da casa vazia. No máximo volume. Com um travesseiro na cara. De escrever e desenhar um diário. De hesitar ante a pergunta sobre o que eu seria quando crescesse. De ler Ana Karenina recostado no meu travesseiro de solteiro, torcendo pra ninguém lembrar que eu existia pelas horas seguintes. Deu, de repente, uma nostalgia.
Que passa logo, porque a vida insiste.
é por aqui que vai prá lá?
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Jan
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11.6.05
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surto fashion descontrol é você, vendo que não tem uma meia que combine com a produção do dia, não pensar duas vezes antes de esgaçar a soquete rosa 27 a 32 da filha no seu pezinho 38 (torcendo para aquele "Barbie" enooorme no tornozelo ficar devidamente escondido pela barra do jeans) .
kaleidoscópio
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Jan
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11.6.05
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Se estivéssemos em 1982, eu acordaria sem preocupações e ficaria brincando até a hora da escola. Em 1983, inventaria programas e entrevistas e passaria a manhã inteira fazendo gravações com meus irmãos no meu super-gravador-portátil. Em 1984, a manhã seria pequena para ler todos os livros que eu teria trazido da casa do meu avô no domingo.
Em 1985, perderia minutos preciosos de sono chorando na frente de um copo de nescau que eu não queria beber. Em 1986, calçaria um tênis de cor "proibida" pelas regras da escola e planejaria a estratégia para entrar sem ser vista pelo inspetor, como se esta fosse a maior transgressão do universo. Em 1987, correria para o espelho para verificar se o cabelo estava num "dia bom" e passaria lápis azul no olho, porque o ridículo não tem limite nem idade.
Em 1988, daria graças a deus por voltar a estudar à tarde, ficaria lendo, ouvindo música e a chuva seria uma desculpa para não ir ao mercadinho comprar um ingrediente de última hora pro almoço. Em 1989, inventaria histórias para não fazer aula de educação física. Em 1990, amaldiçoaria o despertador e testaria a cada dia sair de casa um minuto mais tarde e andar mais rápido.
Em 1991, teria vinte minutos entre o despertar e o início da primeira aula, e bateria todos os recordes de velocidade conhecidos. Em 1992, pensaria, "mas não levanto da cama com chuva pra ir à aula nem que me paguem". Em 1993, dormiria até a hora do almoço.
De 1994 até 1997, levantaria com cada vez mais esforço e iria me arrastando pro trabalho enquanto tentaria lembrar dos detalhes do fim-de-semana e juraria que nunca mais iria beber.
Em 1998, nem cogitaria levantar cedo pra atravessar a poça com chuva. Em 1999, pensaria se já não era hora, afinal, de comprar um guarda-chuva. Em 2000, não teria tempo de pensar em nada enquanto saía de casa correndo, acumulando trabalhos e sempre atrasada.
Em 2001, sairia para trabalhar com prazer enquanto faria contas e mais contas, descobrindo que montar uma casa não é brincadeira. Em 2002, descobriria que trabalho nem sempre é prazer. Em 2003, não precisaria acordar depois de passar a noite em claro fazendo contas e mais contas e descobrindo que manter uma casa também não é brincadeira (mas é um prazer). Em 2004, voltaria a fazer planos e acordaria com um sorriso no rosto.
Em 2005, acordaria com um telefonema do meu chefe e perguntaria porque, afinal, não podemos ficar em 1982 para sempre.
bocozices
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Jan
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11.6.05
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Talvez o pior legado da música sertaneja não seja as histórias de cornos chorosos, mullets e vozes estridentes, mas algo muito pior.
Sempre que sou apresentado a alguém chamado Leandro ou Leonardo não consigo saber, cinco minutos depois, qual o nome certo dessa pessoa.
cris dias
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Jan
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11.6.05
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Contei para o Pan que as mulheres que posam para a Playboy têm fitas adesivas puxando as dobrinhas a mais e computadores que apagam as celulites e as marquinhas. Para que meu filho não passe a vida inteira em busca de uma mulher perfeita.
Os diários de Marina W.
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Jan
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11.6.05
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[generalizações mode on]
Todo argentino é arrogante. Toda mulher dirige mal. Todo homem é safado. Todo homossexual dá gritinhos. Toda menina usa rosa. Todo cearense tem cabeça chata. Todo baiano é preguiçoso. Todo gaúcho é machista. Todo paraense é ladrão. Toda maçã verde e dura é ácida. A mulher amazonense é fácil. Todo índio fala usando os verbos no infinitivo e gostar de beber cachaça de branco. Todo advogado é inescrupuloso. Toda loira é burra. Preto quando não suja na entrada, suja na saída. Chocolate dá espinha. Parnasianos são vazios. Românticos são irreais. Publicitários são o Roberto Justus. Peito duro é silicone. Macho que é macho não chora, não abraça, cospe no chão e coça o saco. Meninas educadas falam baixo, sentam de perna fechada, batem as pestanas e usam calcinha de algodão. Todo libriano é distraído. Todo morador de periferia ouve som alto na porta de casa. Um menino de 8-10 anos, de bermuda, chinelo, magrinho e moreno tem grandes possibilidades de te assaltar. É preciso "ser alguém" na vida. Todo abacaxi é amarelo e cheiroso. Toda mulher gosta de receber rosas. Franceses não tomam banho, são xenófobos porém bons de cama. Ingleses são pontuais e levemente tristes. Todo evangélico anda com a Bíblia debaixo do braço. Toda evangélica tem dois metros de cabelo. Funcionários públicos passam o dia tomando cafezinho. Mulher bonita é mulher jovem, magra, com a pele firme e o cabelo reluzente, sem um fiozinho apontando pra cima.Sobrancelhas finas e pernas depiladas. Livros bons foram escritos há, pelo menos, quarenta anos. Sexo são duas pessoas entre quatro paredes. Em silêncio, pra não incomodar os vizinhos. Blogueiros são super-cali-fragi-listic-expiali-doce.Roqueiros usam tatuagens e camisas pretas. Costumam ser satanistas e depressivos, também. Pessoas que entendem de música clássica são chatas e cansativas, além de darem sono. Professores são pessoas que não sabem fazer as coisas, portanto resolveram ensinar. Estudantes de Filosofia fumam maconha. Estudantes de Pedagogia são mulheres. Estudantes de Administração não sabiam qual curso escolher. Políticos são corruptos, e a gente escolhe o menos pior. No meu tempo é que era bom. Essa geração está perdida. As mulheres se casam sempre antes dos trinta (se não viraram freiras) e mesmo que não queiram.
[generalizações mode off]
As aventuras da menina prodígio
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Jan
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11.6.05
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Vivemos em voz baixa, recriminando nossos atos, censurando. Quem não se flagrou falando sozinho, a praguejar uma idéia? Quem não teve a mania de se piorar, para gerar pena e complacência? Quem não se exagerou para recuperar a solidão? Apagamos a simplicidade, o sol assanhado lavando a calçada, os pássaros ajudando as árvores a tirar a camisa, os cachorros com o olhar familiar de mendigos, as pequenas delícias de fazer parte do mistério. Não podemos ter vivido tão errado, tão torto, a ponto de não deixar nada. Não acredito em páginas brancas. Alguma coisa está por baixo. Alguma coisa poderá ser lida com o relevo da claridade. Que minha mulher possa se lembrar dos momentos em que não prestava atenção à alegria para ser a alegria. Que ela possa achar graça, sem a minha ajuda, quando procuro desajeitado as contas na gaveta. Que possa se emocionar de preguiça quando levanto de noite para ver se fechei a casa. Que possa se render quando deito no chão de igual para igual com os filhos a brincar de bolinha do banheiro ao quarto. Que a rotina não seja tudo igual, e sim uma maneira silenciosa de ser diferente por dentro. Que não critique a mãe quando ela recordar da minha infância em público e acrescente um detalhe às lembranças. Que ponha semente no chão, não no lixo, a esperar que uma delas venha a me surpreender com a minha altura. Que possa tocar no assunto com volúpia. Se eu fui afetado, ambicioso e irresponsável, que a ternura me devolva o equilíbrio e peça desculpas distraído, beijando a mão do vento. Que meus amigos tenham confiança em mim e fiquem com vontade de beber mais e conviver mais quando meu nome aparecer na conversa. Que tenha sido um leitor dedicado quando amante, com os olhos fechados pela pressão dos lábios. Que algo que tenha dito de carinho venha aparecer ao lado de um palavrão. Que encontre cartas e cartões em meio aos livros e leia como se fosse a primeira vez que estou os recebendo. Que não seja tolerado, que não seja útil, que seja necessário mais do que sou. Que não volte com conversa abatida de que nada dá certo. Que seja corajoso a dizer o que pensava do que a não dizer o que pensava. Que tenha uma religião, mesmo que seja uma coleção de selos, e acredite que o mundo é um complô de Deus para me proteger. Que tenha companhia no trem, a abafar o apito da porta. Que possa viver desapegado do nome e da condição do nome, como um boi que não se envergonha da terra. Que possa aquecer a cama antes da minha mulher entrar. Que possa aquecer meu corpo antes de minha mulher entrar. Que possa aquecer o que já estava esquecido em mim.
.:. Fabricio Carpinejar .:.
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Ratapulgo
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2.6.05
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Quando comentei com meu pai que estava indo me encontrar com uma mulher casada, ele disse apenas:
Mulher casada tem gosto de chumbo.
Eu iria me lembrar disso mais tarde.
(…)
Periclitante Périplo Paulista em Liberal, libertário, libertino
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Ratapulgo
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1.6.05
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Na biblioteca do solar dos Soares Silva, Alexandre está entediado numa poltrona. Veste roupão e chinelos de couro. Na sua frente, em outra poltrona, Voz na Minha Cabeça lê "O Declínio da Civilização Ocidental".
Alexandre levanta e começa a andar pela biblioteca pensativamente. De súbito vê um busto de Cícero na estante e não consegue conter um esgar de desgosto.
Alexandre - Com solenidade declaro que a Antigüidade toda me entedia. Chego a pensar que foi de propósito.
Vnmc - Não, não, que é isso.
Alexandre - Ah, foi sim. Os filósofos pré-socráticos inventavam toda semana um novo elemento do qual o universo supostamente é feito (saliva, pedregulhos, muco, resina de pinheiro) só pra me fazer dormir. Tenho certeza. Cícero fazia discursos de quatro horas sobre o uso de tacapes nas Guerras, sei lá eu, da Panônia, só pra me entediar. No meio do discurso ele se interrompia (até posso vê-lo) pra piscar pra os senadores, que riam dizendo entre si, todos com a cara do Charles Laughton, “Ré ré ré, está chato mesmo. O Alexandre vai dormir". Inventaram as declinações por pura maldade... (campainha toca) Quem bate?
Vnmc – Ninguém bate, foi a campainha. E quem pergunta “quem bate” na vida real, meu Deus?
Alexandre – Sim, sim, a campainha. Tenho andado distraído por causa de informações chocantes que li numa revista científica. Por exemplo, você sabia que é possível quebrar o pinto? Ah, não atenda.
Vnmc – Tenho que atender, para não continuar ouvindo o seu monólogo.
Abre a porta. Mulher da Seicho-no-Iê aparece com folhetos na mão.
Mdsni – Bom dia. Será que vocês têm cinco minutos?
Vnmc – Ele tem, ele tem. Entra...
Alexandre – Eu achava que tinha, mas subitamente me sinto como se estivesse muito ocupado. Tarefas esquecidas oprimem minha mente. (aperta a cabeça, dando sinais de grande dor) Tenho que assistir a RAI hoje para aprender italiano. Oh, meu Deus...
Mdsni – Eu realmente não queria atrapalhar, só queria mostrar estes livrinhos pra vocês...
Alexandre (interrompendo) – São da Antigüidade?
Mdsni – Não.
Alexandre – Discursos de Cícero?
Mdsni – Não. Eu só queria mostrar este livrinho, “Luz da Vida, Esperança no Coração”, que pode passar muita coisa de positiva para vocês...
Alexandre – Uma vez me passaram uma coisa positiva, minha cara, e demorei dois anos para me curar. Mas me deixe ver. (pega o livrinho) Ugly-looking little bugger. Tem certeza que não é um discurso de Cícero? Ah, sabe, eu leria, mas prometi a mim mesmo que nunca mais leria livros impressos em páginas verde muco.
Vnmc (para Mdsni) – Pode deixar, eu compro. Vai ser um prazer ler o livro em voz alta pra ele nas longas noites de inverno.
Mdsni – Obrigada, mas é de graça. Posso perguntar se vocês têm alguma crença?
Alexandre – Ah, muitas. Nossa, como eu sou crédulo.
Vnmc – É sim. O que quer que você diga, ele acredita. Experimenta.
Mdsni – O senhor acredita na Vida?
Alexandre – Se eu acredito na Vida? Eu adoro a Vida! Sou fanático pela Vida! É melhor do que Buffy! Todos os dias puxo aquela poltrona ali para aquela janela, está vendo?, e fico vendo a Vida lá embaixo. Vem ver, vem ver. (arrasta mulher para a janela)
Mdsni – É bonito. Não tem muito acontecendo, né?
Alexandre – É verdade, a Vida é um pouco monótona. Sem contar que as pessoas no ponto de ônibus são feias. Putz, olha a gordinha.
Mdsni – Mas o que eu quero dizer é, vocês acreditam na Energia Vital? Na força do Pensamento Positivo?
Alexandre (subitamente absorto, para Vnmc, ignorando Mdsni) – Mas como eu ia dizendo, é terrível, dá pra quebrar o pinto como se fosse um osso.
Vnmc – Podemos tentar.
Alexandre (para Mdsni) – A senhora sabia que é possível quebrar o pinto como se fosse um osso? Se estiver duro, é claro. Sabe quando a mulher está por cima e ela se joga pra trás? Ah, minha boa mulher, trate bem o pinto do seu marido, é o conselho que lhe dou. Uma vez que um homem quebra o pinto, perde toda a confiança. Para o resto da vida ele vai fazer sexo bem devagarinho, eternamente com medo de ouvir um estalo.
Mdsni – Eu sou viúva.
Alexandre – Claro que é, minha boa mulher, claro que é. Droga, chegou a hora de ligar na RAI. Será terrívelmente indelicado se eu ligar a tevê na RAI? Mas é sempre indelicado ligar a tevê na RAI.
Vnmc – Diz pra ela a expressão mais linda da língua italiana.
Alexandre (ligando a tevê) – Cinque e quarantacinque. Não é lindo? Cinque e quarantacinque. É melhor do que toda a Divina Comédia. Olha, um programa de auditório.
Mdsni – Acho que tenho que ir indo.
Alexandre – Não, não, eu mudo. Eu ponho na HBO e a gente vê um documentário com gente feia fazendo sexo. Mas eu ia dizendo: cinque e quarantacinque é não só a expressão mais linda da língua italiana, mas também a mais linda de todas as línguas. Ah, da próxima vez que for à Itália, vou todos os dias ficar parado no meio da Piazza di Spagna esperando que alguém me pergunte as horas.
Vnmc – Muito chic. Mas e se forem sete da noite?
Alexandre – Direi que são cinque e quarantacinque. Sempre direi que são cinque e quarantacinque. (olha a tevê) Ei, esses são mais feios do que de costume.
Mdsni – Tenho mesmo que...
Vnmc pega um busto de Papa Doc Duvalier em cima da lareira e, depois de alguma hesitação, esmaga cabeça de Mdsni.
(…)
todos os três atos em em Alexandre Soares Silva
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Ratapulgo
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30.5.05
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O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.
Pseudoliteratura, quase-crônicas, e outras pretensões
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DaniCast
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25.5.05
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A religião é um construto humano, que procura substituir a realidade cognoscível pelos anseios do praticante. E como toda invenção humana, não costuma dar muito certo.
Fruto de nossa ignorância infinita, a religião desconversa e usa as lantejoulas de tradição para impressionar os simplórios. O que deveria impressionar muito pouco, já que os Neanderthais também tinham religião, mas não sobrou nenhum pra contar a história.
E apesar de experimentalmente errônea, a religião segue por aí, rebolando e difundindo seu manto de opressão, sob promessas de libertação ou de uma vida futura de prazeres ou serenidade. Ou seja, é mais ou menos como o direito, a medicina, a matemática ou a câmara dos vereadores da minha cidade.
Mas como todas essas superstições são muito mais mortais que a religião, o melhor é ficarmos com ela mesmo. Até porque, quando morre, pelo menos a gente vai pro céu.
dies iræ/a>
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Ratapulgo
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25.5.05
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Ufólogo, segundo consta, é um especialista na observação do céu, só que incapaz de enxergar um palmo adiante. São a espécie mais inofensiva de visionários. Eu, que não entendo nada de alienígenas nem do futuro, não pude deixar de notar que o Anakin está vestido de adolescente afegã num cartaz grandão aqui perto.
(…)
dies iræ
Postado por
Ratapulgo
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20.5.05
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– Moço, leva aí um pouquinho de minha verba de gabinete.
– Não, não posso.
– Ah, vai, moço. E não fecha o vidro do carro, não. Por favor!
– Escuta, deputado, eu prefiro ensinar a fazer uma peixada do que ser cooptado por peixe graúdo, entendeu?
– Mas, moço, veja bem. Eu podia estar gastando em outra coisa. Eu podia estar contratando parentes. Eu podia estar aliciando votos pra base governista. Mas eu estou aqui, só pedindo pro senhor pegar um pouco de minha verba de gabinete. Olha aí. Dois mil reais. Dois e quinhentos. Três mil, pronto! Vai. Pega aí, pra ajudar.
– Ajudar como, deputado?
– Ah, moço. Pegou muito mal a aprovação do último aumento da verba. Até minha filha, que faz pós-graduação de economia na PUC, diz que os colegas ficam jogando moedinhas no chão quando ela passa. Uma vergonha. Pega um pouco aí, vai. Pra pelo menos eu poder olhar minha família de cabeça erguida! Pega aí, moço, pra ajudar em casa!
– Hum. Não sei.
– Seguinte, moço. Quatro mil reais. Pronto. Mais duas vagas no avião da comitiva presidencial! Três! Três vagas!
– Certo. Pra ajudar, então. Mas olha: não acostuma, viu? Amanhã vou passar nesse semáforo aqui e não quero ver o senhor de novo. Certo?
– Sem problemas, moço. Amanhã é quinta – o senhor não vai me ver aqui, nem no Congresso nem em lugar nenhum de Brasília. Valeu!
*********
– Psiu. A porta do seu carro está aberta.
– Imagina, ó musa. Pra você está aberta a porta do meu carro e a do meu coração. Aliás, pra você eu abro, escancaro, dou meu coração em oferenda no altar do auto-sacrifício passional.
– Er… o sinal vai abrir.
– Sim, princesa. Assim como minha alma se abre pra receber você em júbilo, como uma noiva diáfana com as melenas cobertas por flores de laranjeira e aclamada por um coro de querubins.
– Olhaí, o sinal ficou verde.
– Sim, verde como os campos floridos que serão palco de nossa inenarrável cerimônia de conjugação espiritual, qual Teseu e Hipólita numa noite de verão, minha musa. Ouço, ouço agora as buzinas como escuto, com os ouvidos da alma, os sinos bimbalhando, as campânulas anunciando nosso conluio. Vejo pelo retrovisor o motorista de trás emulando em voz alta o tonitruar da bigorna de Vulcano, onde são forjados os relâmpagos que prenunciam a chuva que renova a terra e faz germinar a semente de nosso amor. Vejo a longa fila de carros atrás de nós como um séquito a acentuar o espírito de congraçamento e confraternização. Isso, amada, parta, corra, vá à frente e já prepare nosso recanto, a senda de nosso aconchego, pra que quando eu chegar você já esteja paramentada com o branco da pureza da entrega. Vejo, ó musa, o policial de trânsito que se aproxima como a autoridade cerimonial que irá lavrar nossa união; ele traz o bloco de multa como quem porta o livro sagrado da consumação do… Veja só, é uma policial – como eu não percebi? A austeridade do cargo embotando a graça e o encanto naturais. Boa tarde, policial. Céus: já falaram que seus olhos têm a cor das tamareiras do Peloponeso, e que seus lábios são dois gomos carmim de volúpia e concupiscência? Já?
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– Escuta, esse teu adesivo aí. É verdade?
– Qual adesivo?
– Pregado aí atrás, no seu carro: “Sou Deus, graças aos católicos”.
– Ah, claro. O tal negócio. Eles acabaram me comprometendo sem querer, com aqueles adesivos “Dirigido por mim, guiado por Deus”. Houve dupla interpretação por parte do departamento de trânsito. Queriam que eu tirasse carteira, ou iriam proibir os tais adesivos. Então, quando consegui a habilitação – bombei uma vez, sabe; vivia com o pé na tábua – , resolvi comprar esse Uno Mille. E coloquei o adesivo aí, pra evitar dúvidas.
– Pois é. Esse Detran é fogo.
– Sem dúvida. Ah, abriu. Até mais.
– Até. Ah, e cuidado com aquela pista dupla ali, depois da curva.
– O que tem ela?
– Fazem blitz direto, lá.
– Certo, certo.
Ao Mirante, Nelson!
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Ratapulgo
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20.5.05
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Deitados na cama, muitos beijinhos, abracinhos, cheirinhos e festinhas depois:
- Tu és perfeita, perfeita, perfeita...
- Tu também. Principalmente teus 4,5º de miopia.
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A moça com as pernas e os braços em volta do corpo do moço, diz:
- Ó, sou um koala.
- Hummm, eu também.
- Não, tu é grande demais pra ser koala.
- É?
- Sim, demais.
- Eu sou o quê?
- Um urso pardo.
- Se tu continuares me chamando de gordo, vais virar urso panda em vez de koala.
Megeras Magérrimas
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Ratapulgo
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20.5.05
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