25.12.05

Nem tudo está perdido

Um conto de Natal se repete todos os dias em Santa Cruz

Rosana Monteiro é uma jovem veterinária de Campo Grande, nascida e criada em Santa Cruz, onde até hoje residem seus pais, e onde, com a ajuda do marido George e do amigo Artur, alugou uma casinha modesta mas acolhedora. Junto com George, consertou o que precisava ser consertado, conseguindo material de construção e tintas em promoção e descobrindo a mágica de criar novas cores usando pó Xadrez. Percorreu brechós e, com o restinho das economias, comprou dez carteiras escolares. A organização Viva Mais Feliz estava pronta para funcionar.

"Nosso bairro, Santa Cruz, o último do Município do Rio de janeiro, também é o último na lembrança dos nossos governantes", escreveu em seu blog. "Aqui se encontram o CCZ e os maiores conjuntos habitacionais (o que nos faz pensar que aquilo que incomoda deve-se manter distante), gente humilde e gente do bem. Aqui não se encontram cinemas, teatros, eventos culturais, de cidadania ou de meio ambiente --apenas em época de eleições, já que aqui está o maior curral eleitoral do Estado. Quanto ao IDH, Santa Cruz ocupa a 119º posição, em uma lista que vai do 1º ao 126º."

Hoje, as dez carteiras de brechó recebem alunos especiais: adultos e jovens com dificuldades de aprendizado, que não sabem ler nem escrever, e a quem Rosana aos poucos ensina não só as letras, mas a cidadania e o amor às pessoas e aos animais. Seus auxiliares de trabalho são a gata Basted, os cães Nina, Carmessita e Biju, e a galinha Xirley -- todos salvos do CCZ, o Centro de Controle de Zoonoses, ponto final da famigerada carrocinha e da vida de tantos bichos. O seu papel é descontrair o ambiente, interagir com os humanos, dar e receber carinho.

No blog, sob uma foto da salinha de aula, Rosana escreveu:

"Aqui já existe uma turma de alfabetização em evolução. Pessoas do bem que tiveram suas vontades reprimidas, ou porque foram à luta cedo demais, ou porque são pessoas especiais, ou porque ficaram órfãs. Enfim, todos os motivos justificam o nosso desejo em realizar seus maiores sonhos: aprender a ler e conquistar respeito. Aqui não existe vergonha, existe coragem. Aqui todos compreendem o quanto são importantes. Encaram o preconceito como forma de teste. Sabem que ignorantes são aqueles que os desprezam."

-- As pessoas acham que sou maluca, -- me confidenciou Rosana. -- Perguntam por que não abro um consultório e vou ganhar dinheiro, ou por que gasto meu tempo ensinando a adultos, quando é tão mais fácil ensinar crianças. Mas você não imagina a ânsia de aprender que eles têm, como se sentem vitoriosos a cada letra aprendida, a cada sílaba decifrada! Você não imagina como é humilhante para eles carimbarem o dedo em vez de assinar o nome num papel. As dificuldades são enormes, mas não há recompensa maior do que ver as sementes do trabalho germinando. O dia em que o Sebastião apareceu com a carteira de trabalho assinada foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Este dia está, naturalmente, anotado no blog:

"Sebastião, um dos alunos da turminha de alfabetização, estava desempregado... mas não está mais. Todas as portas se fechavam, porque nem seu nome sabia escrever. Mas Sebastião não perdeu as esperanças e nós sempre acreditamos em seu potencial. Aprendeu a assinar seu nome em poucos dias, ainda não sabe ler, mas já vê uma pontinha de luz, a que lhe devolveu a dignidade.

-- Hoje eu assinei uma ficha no emprego!

Sebastião conseguiu.

-- E assinei no banco também!

Ao perguntar como havia se sentido, ele respondeu:

-- Me senti gente.

Todos aplaudiram."

O trabalho de Rosana não fica restrito às quatro paredes da sala de aula. Ela atua junto à comunidade, pregando a posse responsável de animais, vacinando e castrando cães e gatos, conversando um pouco aqui, dando um conselho ali. Às vezes, descobre gente como a dona Sirleidi:

"Catadora de papelão, aceita qualquer coisa que possa ser vendida no ferro velho. Uma senhora mais forte do que o peso que carrega, empurrando seu carrinho por quilômetros, todos os dias. O que Dona Sirleidi espera? Poder alimentar mais de 50 cães de rua que encontra pelo caminho. Alguns a acompanham por todo o percurso.

-- O que tenho todos os dias é demais pra mim, eles é que precisam comer.

Dona Sirleidi não conhece o conforto, não espera mais do que o simples fato de conseguir, diariamente, doações de sucata.

--Tem papelão hoje? Porta velha, telha, garrafa plástica, vergalhão?

A justificativa que já usamos muitas vezes, 'Não faço porque não tenho' ou 'Quando tiver farei', me faz sentir vergonha neste momento, ao conhecer Dona Sirleidi.

-- Se eu não aparecer, eles morrem de fome."

Pois é. Eu achei que, nesta semana de Natal, depois de passar o ano lendo a respeito de tanta gente safada e mal intencionada, vocês gostariam de saber que também existem pessoas como a Rosana e a dona Sirleidi nesta nossa Mui Leal e Heróica. Se quiserem ajudá-las, basta acessar o link.

internETC.

17.12.05

Por que, sinceramente, será que não rola nunca mais alguém fazer outro tipo de outdoor de griffe que não seja com uma tipa deitada e:
a) olhando “sensualmente” pra câmera
b) fazendo cara de quem despreza o mundo e pretende vomitar sobre ele em cinco segundos, quatro, três, dois...
c) com cara de dopada, olhando pro além?

Cyn City

8.12.05

john

lembro como foi. minha mãe e eu estávamos dentro do fusca, ouvindo rádio, quando o locutor falou que john lennon tinha sido morto em nova york. minha mãe ficou triste e eu quis consolar.

- mãe, mas ele não era um cabeludo?

foi a única coisa que me ocorreu no repertório de maldades dos meus 8 anos. minha mãe, que estava com as duas mãos no volantão do fusca, não olhou pra mim e disse:

- jesus cristo também era.

i am jack's complete lack of surprise

6.12.05

Morte ciclista

Eu estava andando por uma praça. Não sei onde era. Pela tranqüilidade das pessoas, pela preguiça das árvores e pelas casas coloridas, deduzo que era uma cidade do interior, e é só. Caminhava com as mãos nos bolsos, Que é onde elas ficam a maior parte do tempo. Um sujeito de bicicleta passou por mim. Pedalava despreocupado, acho até que assoviava.
Quando ia dobrar o canto da praça, porém, quase trombou com outra bicicleta. Era a Morte que vinha em sentido contrário, pedalando furiosamente e brandindo sua foice acima da cabeça. Cruzou com o ciclista e passou-lhe a lâmina no pescoço.
Parei onde estava, sem acreditar no que via. As pessoas ao redor continuavam bestando, e eu lá tentando entender o que acontecia. A Morte veio na minha direção, agora pedalando devagar. Preparei-me para levar com a foice na garganta também, mas ela apenas olhou para mim, sorriu (um sorriso meio cômico, como o dos esqueletos de A Noiva Cadáver) e disse:
— No dia da inauguração do gasômetro eu te pego.
— Que gasômetro — eu perguntei, mas ela já havia sumido.
Olhei em volta, e notei no meio da praça um grupo de operários que trabalhavam em torno de uma espécie de coluna de ferro verde de mais ou menos dois metros de altura, fincada na terra revolvida e com um cilindro na outra extremidade. Deduzi que se tratava de um gasômetro e me aproximei dos trabalhadores.
— Bonito gasômetro.
— Pois é. Pena que demora tanto pra ficar pronto. Estamos trabalhando nisso há anos.
— Há anos, é? Que beleza! Então a inauguração vai demorar?
— Demora nada, moço. Já tá marcada pro mês que vem.
Acordei assustado, convicto de que vou morrer em janeiro.
Preciso parar de dormir de estômago cheio.

Jesus, me chicoteia!

Esse é o seu cheiro

Ao passar pela sala agora, o senti. Não sei de onde veio, mas estava lá, meio diluído, como se estivesse meio perdido. Toda vez que o sinto é impossível não lembrar daquele sábado quando nos conhecemos, você e seus amigos, eu e meu amigo que encontrei horas depois de chegarmos. É impossível não lembrar de você me perguntando se eu me importava com o que você iria fazer e você insistindo na pergunta e eu com aquela cara de tipo: o que você está falando? Até que seu amigo “traduziu” para um bom português e eu disse que a vida era sua... Talvez se não tivesse dito aquilo e tivesse rezado uma ladainha inteira, talvez se eu tivesse mostrado minha insatisfação. Mas acho que não. Você tinha uma personalidade forte, sabia o que queria e sabia que podia, ou pelo menos achava que podia...

Você se foi e me deixou... Deixou-me aqui. Só. Com essas e outras poucas lembranças. E com um questionamento que não me abandona, será que um dia ele também vai embora?

Não, eu não quero jamais te esquecer. Mas quero e preciso continuar a viver! O seu lugar jamais será ocupado, pois o que é nosso ninguém toma. Porém preciso de alguém que divida comigo o trilhar da minha vida, meus desejos e anseios, minhas vitórias e derrotas, meus erros e acertos. Preciso de alguém por quem eu possa suspirar e ter a certeza de que eu vá encontrar, que eu vá tocar. Alguém com quem eu possa sentir a tez macia e quente; pulsante, mesmo que com o seu cheiro ou um outro qualquer.

Thiago de volta para casa...

5.12.05

O dono do mundo quadrado

O novo moço das molduras é um rapaz simpático que até entende o que eu falo. Terminou minha encomenda de quadros antes do prazo. Comentei com ele no telefone que eu ainda ia ter que ver como ia fazer para pegar, porque tinha que agendar um carro da empresa pra ir buscar, uma história triste, triste... e ele:

- Bom, eu posso ir aí entregar pra você... não custa nada!

Cara, meu coraçãozinho até pulou de felicidade! Quando a gente encomendava quadros com o seu Portuga, além de ter que ouvir aquela ladainha durante dias e ficar noites sem dormir com medo dele não entregar porcaria nenhuma, ainda tinha que se virar pra conseguir pegar a encomenda.

Nunca mais quero ver seu Portuga na minha frente. Quero que todas as molduras dele se reproduzam espontaneamente ao infinito dentro da loja e ele morra sufocado que nem o Zé das Medalhas.

NLEP

2.12.05

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE EEEEEEECA

Ontem a Dulce, que tem um celular pula-pula, tava gastando os créditos e me ligou. Disse que o maridão chegou em casa, cansado e suado, depois de um longo dia de trabalho.
O maridão disse que tava com os pés inchados..e a Dulce, que é um amor, foi fazer uma massagem nos pés do queridão. Com segundas E terceiras intenções é óbvio. Não queria perder a noite.
Bom, começou afrouxando o cadarço e tirou o primeiro sapato. O que tinha lá???

Uma barata morta grudada na meia!!!! O cara colocou o sapato e esmagou uma barata. Trabalhou o dia inteiro com o bicho entre os dedos. Que nojo!!!

Não sei quanto a vocês, mas no mínimo dá processo por danos morais. Sem contar que vou acabar perdendo todas minhas amigas desse jeito...Perde-se a amiga, mas não perde-se a piada....

DULCE QUERIDA, NUNCA MAIS PEGO NA TUA MÃO!!!!

GG´s

Tudo que possa ser relacionado ao mar não presta (a não ser Portugal)

O mar é extremamente nojento. É uma pasta orgânica, como atestado em Augusto dos Anjos. Do mar nada presta, a não ser os peixes e crustáceos, que devem ser comidos crus e de palitinho.
O mar, quando quebra na praia, é um lixo. E pior ainda a maresia, e mais pior quando fazem macumbas e comemoram Dia de Ano na beira do mar.
Os piores reveillons do mundo são os do Rio de Janeiro e litoral paulista. Vire o ano numa cabana com Thoreau, Arnaldo Batista e apenas um revólver, mas nunca no Rio ou Cananéia.

Sports náutikos são kents, desde que brazilian wax & bikinis.

Toda literatura que conta histórias do mar deve ser atirada no mar. Todas as histórias em que há baleias, tubarões e polvos gigantes. Mas isso serve apenas para as histórias do mar, não histórias em que o mar apareça incidentalmente ou se faça referência casual a ele. Lolita, por exemplo, tem um mar lá uma hora. Mas é só pra aparecer gente de biquíni e justificar um futuro romance pedófilo na vida do personagem, então vale nesse caso. Mas só nesse e nuns outros casos, dos quais não me ocorre nenhum agora.

Desenhos animados que se passam no fundo do mar são legais e engraçados, mas justamente porque fazem uma caricatura do mar, o que, diga-se de passagem, não é difícil. O mar, essa coisa idiota. Não respeito um planeta em que 2/3 da superfície seja coberta de salmoura, e o resto habitado por uns macacos vestidos de calça jeans. Quando o sol finalmente cozinhar a Terra, sopa é o que não vai faltar, é verdade, ainda que intragável e não recomendada para hipertensos. “Grandes baleias cozidas boiarão suculentas na superfície, mas não poderão comê-las, pois não lhes restará talher e serão demasiado fresquitos para comer com as mãos.”

A melhor coisa que se pode esperar do mar é uma tsunami, antes chamada vagalhão, que aniquila as populações chamadas costeiras e quem mais estiver por ali de passagem. Parabéns, pois, à tsunami, esse importante agente seletor.
Criaturas terríveis saem do mar para atacar a humanidade. Lagartixas gigantes que estupram virgens na praia, monstros marinhos supostamente extintos há milhares de anos, Amyr Klink, Lawrence Wabba, Jacques Cousteau...

Homem que gosta do mar é bicha. Surfista, velejador, triatleta... tudo viado. Esportes à beira mar levam nomes como frescobol e geralmente são praticados por Millôr Fernandes ou alegres rapazes vestidos com neoprene agarradinho. Piratas, esses terríveis lobos do mar, (“üüühhh”), usavam brinco, lencinho na cabeça e uma garrafa de rum sabe-se lá onde. “Hello, sailor” era o grito de terror que assolava os mares. No caso da sua embarcação ter a infelicidade de ser abalroada por piratas, prepare-se para uma noite de Village People e Enrique Iglesias.

Existe coisa mais idiota que um cruzeiro? A pessoa pensa: pego um avião e acordo no destino ou vou 3000 vezes mais devagar, vendo a mesma paisagem entediante todo dia, trancado num espacinho exíguo com 1200 idiotas e shows de cancã às 7 da noite? Ah, claro, show de cancã, pô... Quem não gosta de show de cancã?

Neste artigo, que faz parte da série “Ódio: Motor Imóvel do Universo”, atacamos o mar. No próximo atacaremos a luz, que só não é mais devagar que Rubinho Barrichello, e no seguinte falaremos mal dos hidrocarbonetos e todas as desgraças deles advindas.

Até lá.

Radamanto

1.12.05

Quando o RH de uma empresa te disser "somos uma família", melhor vazar.
Não tem coisa mais complicada do que família.

catarro verde

22.11.05

Escrever cartas

Eu devia escrever cartas. Cartas escritas à mão são mais demoradas, mas são uma prova de dedicação. Têm o cheiro da pessoa ali. Têm os vincos da caneta, feitos pela força dos dedos. Têm o cheiro, da mão deslizando segurando a caneta. Têm o tempo, em que a pessoa parou de fazer as outras coisas que a vida pede. Ver TV, pagar conta, comer uva, transar ferozmente até quebrar todas as ripas do estrado, ela podia estar fazendo tudo isso, mas tirou um tempo e escreveu pra você. Enquanto escrevia, pensou em você. Em falar coisas pra você.

Coisa bonita que é uma carta. Tanto calor, tanta intimidade, tantos protocolos invisíveis (cidade, dia de mês de ano. Querido destinatário: comigo está tudo bem, e você?, gostaria de dizer que, foi tão legal, como seria bom que você estivesse lá também, finalizando gostaria de dizer, volto a escrever mais vezes, aguardo sua resposta com ansiedade, beijos e abraços, Remetente).

E os pê-esses. P.S....Post-scriptum. Aquilo que é escrito depois do escrito. A carta devia ter acabado, mas você volta com mais uma lembrança, mais um beijo, mais uma vez a caneta corre, pois o texto normal não contém você inteiro, e sempre há chance de dar mais pedacinho de si. E você continua, P.S.: diga a alguém que pensei nele, P.S.: Vou resolver o que você me pediu, P.S.: veja no jornal a minha foto.

Os pê-esses são pequenas provas de amor que ficam no fim da declaração de amor que é a carta, mesmo sendo uma carta de notícias, de amigos, de receitas. Os pê-esses são os escritos que vêm após o que já foi escrito, como se já não bastasse tanta entrega, tanta atenção dada ao fazer da carta, e você continua um pouco mais. Como aquele que se afasta e vira pra dar mais um sorriso, o pê-esse faz a despedida ser mais suave. Sim, está acabando, mas eu não quero que acabe, vamos findando aos poucos.

E quando o pê-esse acaba, e ainda tem mais de você pra colocar na carta, você faz o post-post-scriptum. P.P.S. Pê-pê-esse. Coisa mais linda, é praticamente um bombom com duas castanhas dentro. Mais um pedaço de amor, "me deixe ficar mais um pouco com você, pois essa despedida não é da minha vontade, foi esse dia malvado que inventou de ter só 24 horas, e me deixar sem tempo de te escrever".

Preciso escrever cartas de papel, cheias de pê-esses no final, repletas de quem eu sou e de quem eu quero ser. E vou. E vou.

Beijo grande,

Menina Prodígio

21.11.05

“Imagine um mundo de paz. Imagine um mundo de amor. Imagine um mundo onde as pessoas não sabem o que é a violência. Imagine a gente chegando lá e descendo o braço em todo mundo. Pô, eles iam apanhar pra caramba!"

Aran

Está passando agora, na porta da sua casa...

...a maravilhosa, a saborosa, a deliciosa, a inigualável, a fausta, a portentosa, a exuberante, a melíflua, a ululante, a óbvia, a tântrica, a suprema, a insondável, a inebriante, a esguia, a piedosa, a bíblica, a justa, a sábia, a imaculada, a transcendente, a casta, a hipnótica, a malemolente, a mística, a nababesca, a soberba, a magnífica, a verdadeira , a sensata, a pantagruélica, a augusta, a reta, a parcimoniosa, a helênica, a magnânima, a tremenda, a infinita PAMONHA DE PIRACICABA.

A legítima pamonha caseira com receita mineira.

eu nem queria mesmo

C. A. andará em crise

Namorado é queném arranjar trabalho: quando você percebe que não vai conseguir aquele dos sonhos, começa a ter que decidir com qual dos segunda-opções vai ficar.

Claiello

19.11.05

Correntes

Recebi esta corrente pela caixa de correspondência:

(em letra feia, de fôrma, cheeeeia de erros de português)

"SALVE MARIA A NOSSA SENHORA APARECIDA! QUEM ENCONTRAR ESTA CORRENTE DEVE FAZER 04 CÓPIAS TODOS OS DIAS DURANTE 60 DIAS E CONSEGUIRÁ TUDO O QUE PEDIR À NOSSA SENHORA APARECIDA. UM REPRESENTANTE PRECISAVA DE 50.000 MIL REAIS E CONSEGUIU ANTES DOS 60 DIAS, JÁ O DONO DE UM SUPERMERCADO, POR NÃO ACREDITAR, CORTOU A CORRENTE E PERDEU SEU ÚNICO FILHO. NÃO DUVIDE DESTA CORRENTE. GUARDE O ORIGINAL NA CARTEIRA E AS QUE VAI FAZER JOGUE EM CALÇADAS, PONTO DE ÔNIBUS E ORELHÕES. SIGA EM FRENTE E BOA SORTE!"

Como-as-sim? Meu Deus! Que meda! Que coisa macabra! Nossa Senhora é bem nervosinha, hein? "Filho da puta, cadê meus papéis espalhados pelo meio da rua? Ah, vou matar alguém!" Mas também, a criatura precisar de 50.000 mil conto com urgência! Devia tá envolvido com tráfico de armas, sendo ameaçado de morte. Mas nunca saberemos o que ele faz, afinal de contas ele é apenas um REPRESENTANTE! Representante de quê mesmo? Na primeira corrente que fizeram esse representante tinha nome e até endereço - pra coisa parecer mais convincente, não é mesmo? Mas foi-se passando o tempo, e o cara foi rebaixado para "representante".

Mas do mal mesmo é o dono do supermercado que foi burro de não tirar todos os dias, durante sessenta dias, 4 cópias da corrente de Nossa Senhora e perdeu o único filho. Loser! Tsc tsc. Mas o final é maravilhoso: "quando você tiver terminado a palhaçada toda, saia por aí jogando os papéis nas ruas, calçadas, rios. Nossa Senhora vai amar. E o prefeito também".

Circo sem futuro

Preguiça

queria sair daqui, afora, pra respirar um ar seco, pra tomar chá e mordiscar chocolates. mas não dá, não consigo, a música que toca é tão boa, e a mornidão dos headphones, ah.
portanto discorrerei sobre preguiça.
-//-
preguiça, que gostosa a preguiça. ela sempre se aproxima com cuidado e devagar, muda e pesadíssima, e se instala entre as suas juntas sem fazer nenhum barulho, toda mansa. e deita sobre você como um cobertor enorme, um cobertor de pontas além do alcance do braço, e nem por isso incomoda, qual o quê. o bom da preguiça é que ela é toda gentil e agradável, está presente sim mas não fica falando merda. e principalmente, com a ajuda dela vc é capaz de deixar pra trás os seus problemas inteiros.
- só que de superá-los, não, eles vão continuar ali no seu calcanhar, vão continuar incomodando pra sempre!
não, ué, basta ser preguiçoso o suficiente. vai saber o que há com essa gente, será que não vê que só se encrenca com problemas quem estiver disposto a solucioná-los? se todo mundo fosse preguiçoso, no mundo não haveria problemas, haveria apenas sofás. os culpados das imperfeições da vida são essas gentinhas muito tensas, estressadas, predispostas e solícitas demais, esses proletários mentais aí.

Weblogafin

Coisitas fofuchas

Se eu fosse biólogo, além de fresco eu seria obcecado pela idéia de fazer baleinhas de aquário. Sim, baleinhas de aquário. Eu ficaria rico, e inventaria algo 'superfofo'.
Baleinhas de aquário que espirram agüinha na superfície, por aquele furo que elas têm pra respirar. Elas também cantariam daquele jeito lá que as baleias cantam: "Uõõõ, uõõõõõõô".
E dariam uns saltos de vez em quando.
Não dever ser difícil. Eu, se fosse engenheiro genético, começaria por tentar reduzir o tamanho dos genes. Se os genes forem, assim, pequenos, o animal deve ser pequeno também. Por aí. Não é?
Igualmente boa é minha idéia de criar sereinhas. Sim, pequenas sereias de aquário. Elas vêm vestidas com um biquininho e tocam músicas numa harpa pequetita. As músicas que você ensinar, elas aprendem, que nem um papagaio. Além de tocar uma harpinha, elas cantam com umas vozinhas finiiiiiinhas. Superfofo. E de várias cores.

Se eu fosse físico, além de fracassado eu inventaria a mini-bomba nuclear. Uma biriba nuclear, uma bombinha que você joga e ela explode, formando um cogumelo nuclear pequerrucho de, o quê, 5 cm. Bom para matar barata e ver se ela realmente sobrevive ao cataclisma nuclear.

Radamanto

10.11.05

PÉ DA LETRA

PÉ DA LETRA

Vandalismo, policiais feridos, troca de tiros nos subúrbios, veículos queimados, inocentes executados... enfim, uma onda de violência atinge a França e as autoridades locais não têm idéia do que fazer.

Isso que eu chamo de um legítimo Ano do Brasil na França.

Kibe Loco!

7.11.05

Almoçamos maniçoba (delicioso presente da mãe, dele, paraensíssimo), e começamos a conversar. Falamos sobre o Budismo, e ele me disse que "de acordo com o Budismo, Sidarta Buda conseguiu sair da Roda de Samsara. A Roda de Samsara é uma roda, à qual uma pessoa está amarrada. Quando a pessoa fica de cabeça pra baixo, ela sofre; quando fica de cabeça pra cima, se alegra. A vida é feita do movimento da roda, e o centro da roda é o umbigo - então, uma maneira de evitar o sofrimento seria olhar apenas para o próprio umbigo. Buda se libertou da roda, mas não quis ir sozinho - e quando em vez, reencarna para auxiliar a humanidade a sair dessa roda de sofrimento.

E ele prosseguiu:

- De uma maneira muito menor, eu fiz isso. Sabe, na vila onde eu moro, eu me lembro de muita coisa: eu pequeno indo pra escola, eu saindo cheio de malas, voltando da Faculdade carregando um monte de livro, saindo carregando o pôster-resumo do meu projeto de pesquisa, entrando e saindo com amigo, namorada, namorada que virou amiga, de bicleta... E eu sempre via na calçada as mesmas pessoas. Eu era pequeno, e tinha outros meninos que nem eu. Eu fui crescendo, o tempo passando, e agora eu vejo outros meninos na calçada, que são FILHOS dos meus colegas de infância.(pausa) Eu só tenho vinte anos...E eles também! Eu fui o primeiro de lá que passei no vestibular. (pausa) Quando eu tava comemorando, todo sujo de ovo, tinta, farinha, uma das moradoras mais antigas da vila me pegou pelos ombros e falou -"Obrigada. Obrigada por você ter mostrado pras crianças daqui que é possível. Obrigada a você e sua família, por terem provado que quem nasce aqui, não precisa morrer aqui." Tudo por causa da minha mãe e do meu pai. Eu tenho certeza que eles várias vezes abriram mão de fazer as coisas pra eles pra comprar livro pra mim e pro meu irmão. Tenho CERTEZA. E sabe quando foi que eu percebi o valor disso? (pausa) Quando o ônibus onde eu tava saindo da universidade foi assaltado, e quem assaltou foram dois vizinhos meus. Foi aí que eu vi que, se não fosse a minha mãe, eu podia estar fazendo a mesma coisa. Foi aí que eu vi que eu tinha saído daquela roda...aquela roda que continua levando mais e mais gente que podia ser gente boa. (longa pausa) Um dos dois morreu de overdose...e eu não esqueço o dia em que a avó dele foi lá em casa, pedir pra usar nosso telefone e avisar que ela não ia trabalhar "porque o Fulano morreu ainda agora." Sem um traço de emoção. Ela SABIA que ia acontecer, nem se importava mais. E eu não posso deixar isso continuar acontecendo. (sorrindo) Depois que eu passei no vestibular, mais cinco pessoas de lá passaram... (longa e trêmula pausa) E eu me sinto obrigado a fazer QUALQUER COISA que eu possa pra que mais gente saia dessa roda, desse ciclo, dessa porcaria de prisão que se repete no Brasil. Eu me sinto... Eu me sinto com uma dívida (pausa) eu...eu...(pausa para enxugar os olhos) eu vou ser doutor, viu? Vou sim. "

E você nota que aquele cara na sua frente é movido pela mesma coisa que você e o rapaz franciscano.

E você percebe que se precisasse arrancar a própria pele e vender na feira pra que aquele menino moreno fizesse doutorado, você arrancava.

E você vê que tudo está perdido mesmo, o juízo que você pensava que tinha foi pras cucuias, e você está chorando também enquanto lava a louça do almoço, porque esse amor é a coisa mais forte que já aconteceu na sua vida, e nunca mais você vai ser a mesma.

As Aventuras da Menina Prodígio, agora em versão apaixonada

Xadrez (2)

(Se eu reparei nela desde o começo? Claro que eu reparei nela desde o começo. Como sempre, não é a mulher mais bonita que me chama a atenção, mas a bonitinha que senta ali no canto: aquela cujos olhos sorriem ironias enquanto os lábios proferem platitudes, aquela que promete muito, muito menos do que é evidentemente capaz de cumprir.)

Deve existir um manual de etiqueta pra receber moça-bonita-que-não-se-pode-carcá em quarto de hotel, mas eu não li. Dar um jeito no banheiro, recolher a papelada e os livros espalhados, trocar de roupa (e vestir o que, meu são jizuis? Camiseta e carção, god forbid? Calça sociar e camisa de manga comprida? Terno? Meu uniforme do CPOR? Sapato? Não?) Abro a porta de jeans, camisa, tênis, e ela entra de moletom preto, camiseta branca, cabelos úmidos do banho, sorriso tímido, tabuleiro sob o braço. Não sei se beijo o rosto, dou a mão, faço uma mesura. Quando percebo, estamos no terraço, trocando olhares furtivos, esperando o room service e fingindo discutir astronomia (ela não parece muito convencida de que uma constelação que invento traçando linhas arbitrárias com um dedo trêmulo leva mesmo o nome de “Celestial Chicken”).

(É raro encontrar gente que combina racionalidade incisiva e tato suficiente para apontar os buracos no raciocínio alheio sem despertar a ira dos pamonhas. O que ela fez mais ou menos três vezes na primeira e excruciante meia hora de reunião do grupo de trabalho ao qual havíamos sido ambos condenados, até que o pamonha-mor, como sói aos pamonhas, alfinetou a “mocinha” sugerindo que ela provavelmente não compreendia as complexas questões técnicas envolvidas blablablá. E ela elegantemente nem esfregou nas fuças do sujeito o doutorado em engenharia, comunicado ao mala por um flunkey em cochicho urgente. O pamonha pelo menos enrubesceu, ela fez que não viu, quase todo mundo (eu não) tentou esconder a risada. Servindo o café depois do almoço, conversei com ela pela primeira vez, incrédulo diante dos quatro açúcares que dona engenheira despejou na xícara, enquanto o mala, porque Deus castiga, derramava o chá na camisa. “Can’t stop the gods from engineering”, citei. Ela sorriu com uma discreta pitada de malevolência.)

O garçom chega com um carrinho coberto por toalha branca até o chão, a salada dela uma coreografia pictórica de tomates e verduras, minha omelete protegida por uma daquelas coberturas hemisféricas prateadas de filme dos anos 40. Ele me oferece o vinho para aprovação (e eu não tinha pedido vinho, porque até eu sei que vinho com omelete, ugh.) Merlot tacitamente deixado de lado para o torneio de xadrez, percebo dona engenheira estendendo um olho comprido pro meu prato. Ofereço; rachamos. Ela se apanha raspando a travessa com uma fatia de pão, suspende o gesto no ar, pão em freeze frame a meio caminho da boca. Faço aquele gesto universal de “manda bala” que serve a todas as culturas, ela ri, eu rio. “Tô comendo como estivador”, confessa. “Na minha terra, a gente diz comendo como pedreiro”, comento. “Na minha, se diz comendo como um criador de porcos”, ela complementa. “Comer cas mão tem lá seu charme”, proponho. “Use your hands for everything but steering”, ela sorri.

Touché.

Filthy McNasty

2.11.05

Os filmes que eu não vi — Coleção Chico Buarque (3 DVDs)

Depois de anos compondo músicas que ninguém agüenta ouvir, Chico Buarque lançou recentemente um documentário que fala sobre sua vida entediante. O documentário está dividido em três DVDs: “Meu Caro Amigo”, “À Flor da Pele” e “Vai Passar”. Não pude assisti-los porque meu videocassete só aceita fitas Betamax. E mesmo que aceitasse DVDs, eu jamais teria paciência para assistir qualquer história que precise de três volumes pra ser contada. Dei o documentário de presente para Dona Dolores, minha cozinheira. Ela não perde o Linha Direta e, por isso, entende tudo de vídeos que falam da vida dos outros. Acho que ela não gostou.

Analfabeta, Dona Dolores reclamou que não entende o que Chico Buarque diz. Nem eu. Pudera. Não consigo classificar sua obra como música “popular” brasileira. Popular, pra mim, é quem eu consigo compreender. Chico Buarque usa palavras difíceis e construções complicadas. Chamar atenção para a forma é artifício típico de quem não tem nenhum conteúdo. Ouvir música com uma gramática nas mãos é o fim da picada. Chico Buarque brinca com as palavras como criança brincando com a comida. Ou seja, estraga tudo o que escreve.

Dona Dolores é bastante religiosa. Ficou chocada ao ouvir Chico Buarque cantar como se fosse uma moça. Dona Dolores é idosa e garante que “já viu muita coisa nessa vida”, mas nunca esperou ouvir um “moço tão bonito de olhos verdes” cantar coisas como “ah, esse cara tem me consumido” ou “eu sou menina e ele é o meu rapaz”. Dona Dolores acha que aí tem dedo do coisa-ruim. Alguns dizem que Chico entende a alma da mulher. Em Mossoró, chamam isso de outra coisa.

Em tempos tão sombrios para a música brasileira, quando uma Maria Rita da vida lança seu disco impunemente e jovens desempregados semeiam o pânico tocando músicas do Djavan em bares, Chico Buarque se torna uma terrível ameaça. Em suas centenas de milhares de canções existe um verdadeiro arsenal de más influências para nossa juventude. Ouvir Chico Buarque me deixa à flor da pele. Meu consolo é saber que um dia essa modinha vai passar.

Nota: zero.

Ressaca Moral