6.10.04

Ele não tinha nada. Não tinha casa, não tinha carro, não tinha filhos nem mulher, não tinha mãe, nunca teve pai, não tinha idéias, vontades, aspirações, curiosidades, desejos, metas, medos.
Era a sua maneira livre de levar a vida, sem amarras, que o fazia sorrir todas as manhãs no elevador, como se fosse o homem mais feliz daquele lugar. Às vezes, quando eu chegava a pé depois de uma caminhada, o via vigiando os arredores. E sempre quando terminava, dava tapinhas no muro do prédio como fazemos nas costas de um amigo quando queremos dizer "é isso aí", ou "você vai longe". Aquele gesto que transmite ao mesmo tempo carinho, orgulho e estímulo.
Zelou por alguns anos ainda, depois que o conheci. Quando faleceu, limparam o seu quartinho modesto e lá encontraram uma única posse, pequena, que foi enterrada ao lado da árvore mais próxima à guarita, para que ninguém mais conhecesse o segredo de sua alegria.

Salón Comedor - Você tem fome de quê?

Ultimamente ele tem estado preocupado comigo.
- Você tá bem ?
- Estou cansada, só isso.

Frequentemente ele tem aparecido para me buscar nos cursos.
- Ficou feliz em me ver ?
- Claro que sim.
- Vamos tomar um sorvete ?
- Estou cansada, quero ir pra casa.

E a melhor foi minha mãe ontem.
- Se arruma, vamos sair.
- Pra onde ?
- Você vai ver.

Por dez minutos eu tive a reles esperança que ela fosse me dar um presente.

- É aqui.
- Ah não mãe, de novo não.
E pimba, lá estou eu na psicóloga de novo.


BooBlog

nyc esta tão triste. cinzenta, um pouco fria, estranha. hoje peguei ônibus errado. toda vez que volto para esta cidade me acontece isso, pelo menos uma vez. fui parar numa vizinhando feia, cheia de co-ops, embaixo da Manhattan Bridge. não é longe daqui, mas me deu medo. bobeira.

vim andando, pensando nas outras pessoas, o que elas estariam fazendo atrás de todas essas portas, janelas, as luzes acesas e apagadas. é tão díficil perceber que tem um mundo ai, paralelo ao nosso, cheio de vidas e dramas e amores e tristezas e doenças e nascimentos e casamentos e filhos e jantares em família. eu queria ser o vento, para visitar todos e rouber um pouquinho destes momentos, levar comigo mensagens como o vento carreja perfumes. ah. me senti totalmente desconectada do meu corpo físico -um estorvo essa carcassa- e por meio segundo me senti livre.

eu não entendo e nunca vou entender, mas não consigo parar de perguntar.

s t r i p p e d

Eleições 2004, o rescaldo

Adaptação de sugestão mandada pela Inês

1. "Graças a Deus, terminou o horário político!"

2. Cidades imundas - panfletos, faixas, outdoors...

3. TRE informa: os candidatos têm 30 dias para retirar o material de propaganda.

4. Prisões, com liberações rápidas, em função de boca-de-urna.

5. "Ah! Meu candidato não ganhou!"

6. "Vamos procurar apoio dos demais partidos" (dos sobreviventes pra 2º turno)

7. "Não apoiarei ninguém pessoalmente, mas fecharei com o partido" (dos candidatos derrotados, onde haverá 2º turno)

8. E no 2º turno? "Voto útil!"


Bônus 1: cobertura jornalística

1. "A cada ano, diminui o volume de problemas com urnas eletrônicas."

2. "O canditado Abc chegou cedo para votar. Acompanhado da filha, levou 35 segundos para digitar o seu voto e saiu fazendo o 'V' da vitória. 'Agradeço a confiança de quem votou em mim e estou certo de que vamos para o segundo turno!', disse o candidato. "

3. Dona Maria tem 85 anos e nem precisava votar, mas fez questão de exercer o seu direito.


Bônus 2: "cientistas políticos"

1. O eleitor está querendo um prefeito que seja um administrador, um gestor da coisa pública.

Homem Chavão

3.10.04

Esse domingo, pra quem quiser me encontrar, estarei de 7:00hs às 18:00hs presidindo uma das seções eleitorais da Escola Municipal Pedro I, na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Desde 1994 (a última eleição de papel), tenho sido mesário. Voluntário.

Gosto de dizer isso pras pessoas. Não pra me gabar, mas porque quero encontrar alguém que não me olhe como se eu tivesse acabado de dizer quer gosto de comer merda.

(...)

continua a libertinagem em "With the past no longer shedding light on the future, the mind advances in darkness." Tocqueville

AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

- Eugeninho, sua mãe, sua professora e todos os seus coleguinhas disseram que você é um garotinho muito inteligente, um verdadeiro prodígio...

- Ossô é zênio, bobão.

- Sei, sei... então por que é que você não respondeu a nenhuma das perguntas do tio ?

- Puque num gosto docê. Cê é bobo, feio, xujo e cagão.

- Mas você sabia as respostas ?

- Cara de mamão, cabexa de pudim, pei-dor-rei-ro !!

- Se você não sabe, talvez não seja tão inteligente assim, né ?

- Ossô sim, você que é um cocô-xixi-bunda, hahahaha...

- Seu vocabulário não é um bocadinho restrito para um gênio, Eugeninho ?

- Phpthbrllllll !!!

- Cuspir não vale, Eugênio.

- Você é bundudo, seu pai é careca e sua mãe é gooordaaaa !! Sua tia tem caspa, seu irmão é punheteiro e sua irmã come meleecaaaa !

- Eugênio Augusto, pára com isso, não faz xixi na avenca do tio... ah, peraí. Amália, por favor, leva esse moleque daqui e entrega pra mãe dele.

- Mas então, viu só como ele é especial ? Ele não é um gênio ?!

- Não sei, achei a capacidade de concentração e o poder de argumentação dele um tantinho limitados...

- Imagina, doutor !! O lindinho fala baixaria fluentemente em quatro línguas vivas - e duas mortas !!

Cyn City - UOL Blog

1.10.04

Ménage à trois: uma espécie de Monstro do Loch Ness do sexo -dizem que existe, todo mundo escreve a respeito mas só aparece quando não tem ninguém olhando (você incluído(a)).

Noronha, o meditabundo

faz tanto tempo que estou neste quarto fechado que não saberia dizer se ainda é noite ou se já é dia. estou trancada. fui eu mesma que me tranquei. ninguém mais. estou presa porque tenho medo. medo de ir na sala. medo de sair. não quero vê-los. tenho medo do frio que faz lá fora, do outro lado, que é para onde não quero ir. podem pensar que estou exagerando mas mal consigo escrever. a luz do quarto está apagada e só a tela do monitor ilumina à minha volta. acendo um cigarro após o outro e pressiono as teclas freneticamente. meu corpo treme. e gela. tenho medo. medo porque eu vi. só eu vi. elas estavam se mexendo. as formas. formas medonhas. duas, três, quatro. e estão lá na sala. ainda as ouço, arrastando os pés no chão, esbarrando nos móveis. o que querem? querem a mim? vieram buscar o quê? o que lhes falta, eu não sei. estou chorando, as mãos suadas, e ninguém pode me ajudar. não tenho telefone comigo. coloquei uma estante de livros na frente da porta para eles não entrarem. não posso sair. minha janela fica no sétimo andar. como posso sair? os ruídos pararam agora. não os ouço mais. estão quietos. estarão me ouvindo, prestando atenção nos meus sons, o som das teclas, minha respiração. paro de respirar. como tudo começou eu posso lhe contar se for rápido. estava na sala lendo um livro, sentada no sofá, calmamente. fiquei tonta, ergui a cabeça e os vi. de repente. assim. de repente como tudo o que acontece de importante na vida. sobre a mesinha de centro a máquina fotográfica que sempre me acompanha. é o meu trabalho. eles continuavam lá, a uns dois metros de distância, na frente da parede vazia, me olhavam e gemiam. me olhavam com olhos que eu não via. peguei a câmera e bati a foto. eles saltaram na minha direção ao ouvirem o clique da máquina. pulei do sofá e corri pro meu quarto. bati a porta e arrastei a estante. o tempo todo eles gritando e gemendo. não entendi o que diziam. sons sem sentido. guturais. não lembro de palavras para descrever. não lembro de nada. nem se sei escrever. mas preciso escrever. alguém precisa saber. escrevo para me acalmar. sentir que tenho alguém ao meu lado. a mim mesma. eu tenho a mim mesma, sim, é isso. eles não podem me levar. me fazer algum mal. não acredito em espíritos. para mim são formas. pode ser a minha imaginação. mas, não. eu os vejo na foto. não é imaginação. qualquer um pode ver que não é mentira. quanto tempo ainda vou ficar aqui? o telefone está tocando na sala. não posso atender. uma, duas, três vezes. parou. não sei quem pode estar ligando. seja quem for, não vai poder me ajudar. ninguém pode. porque ninguém sabe que estou aqui sozinha neste quarto trancado ouvindo vozes de um apartamento vazio. eu gostaria de lembrar de alguma coisa, de uma história qualquer, de uma piada velha, uma canção. mas não consigo. tento lembrar de rostos conhecidos mas parece que me esqueci de tudo. nada me vem à cabeça. ouço agora o ruído do que parecem mãos esfregando as paredes. um som contínuo, abafado e áspero. mais gemidos e lamentos. baixinho. estão cantando. sim, estão cantando uma canção antiga que conheço. minha mãe costumava cantá-la para mim. estou cansada e não sei quanto tempo mais suportarei ficar aqui. preciso parar com isso. preciso sair. ouço o meu nome. alguém me chama. estou confusa. parece o som do meu nome. isto está ficando ridículo. não sei o que pensar e vou escrevendo, teclando, teclando, para poder não ver minhas mãos que tremem. como sou covarde. tenho de parar com isso. espíritos não existem. devo estar ficando, ficando não, devo já estar maluca. vou desligar a merda do computador, acender as luzes e sair do quarto. é isso o que vou fazer. nada vai me impedir agora. nada. nem almas do outro mundo, nem vozes do além. vamos, abra a porta. anda, abre, o que está esperando? abra a porta. por que não quer abrir a porta? eu estou pedindo, por favor. você não vê que precisamos sair daqui?

Prosa Caotica

30.9.04

Uma grande invenção

Dia desses, estava eu na casa da minha mãe perto da hora do almoço quando o telefone tocou. Meu pai, com sua voz saída diretamente de uma tumba qualquer, atendeu (não imaginem nenhuma delicadeza nas linhas a seguir):

”Aloooou. Quer falar com quem? Eduardo? (meu irmão) O Eduardo está trabalhando, quem é que quer falar com ele? (engrossando ainda mais a voz) PRISCILA DA ONDE E SOBRE QUAL ASSUNTO??? (veias saltando pelo rosto, já aos brados) NÃO, ELE NÃO ESTÁ E ELE NÃO TEM NADA COM O UNIBANCO, ELE JÁ TEM OUTRO BANCO E NÃO ESTÁ INTERESSADO EM PORQUEIRA NENHUMA DE UNIBANCO!!! E EU NÃO ESTOU AUTORIZADO A DAR O TELEFONE DO TRABALHO DELE!!!”

Pum. Telefone devidamente enfiado no gancho com toda a fúria do planeta. Ele vira-se para mim, que estou de olhos esbugalhados de pavor, e explica, ainda revoltado:

“É essa merda o dia inteiro, tudo o que é banco, pra mim, pro seu irmão, pra sua mãe, pra sua irmã, o dia inteiro! Aqui não tem essa não!”

Meu pai é aposentado. Passa dias, noites e madrugadas inteiras sentado no mesmo lugar do sofá, que já tem o buraco marcado com a bunda dele, divisórias e tudo. Na mesinha de canto logo ao lado, dois telefones sem fio, com as duas linhas da casa. Que tocam o dia todo, claro. E eis que o aposentado, que achou que teria uma vida inteira de sossego pela frente para ler o seu jornalzinho em paz, virou telefonista.

E ali, olhando para ele, para aquele talento em estado bruto, criei uma nova profissão, atualmente exercida somente pelo meu pai, mas que, aposto, em breve vai virar uma coqueluche: o atendente de atendente de telemarketing.

“Pai, seguinte, que tal ganhar um dinheirinho fácil sem fazer muito esforço?”

“Hein?”

“Estou te propondo um trabalho. Você vai ser meu atendente de atendente de telemarketing.”

“Como assim?”

“Simples: das 9 às 18h você passa a ficar sentado no sofá da minha casa, atendendo a todos os telefonemas. Com carta branca para se livrar das atendentes de telemarketing insistentes.

“E o salário?”

“Pago tudo em balas de tamarindo.”

“Nada feito, aqui na casa da sua mãe tem mingau de cremogema.”

Depois de negociarmos por meia hora, não houve jeito: meu pai se convenceu de que ele estava muito bem empregado, obrigado. E eu? Bem, eu precisava de um atendente de atendente de telemarketing. Então, coloquei um anúncio no jornalzinho da Urca:

“Procura-se aposentado rabugento, mal-humorado e sem um pingo de delicadeza para exercer cargo de confiança em empresa doméstica.”

Dois dias depois, o telefone tocou.

“Alô.”

“É daí que estão procurando um aposentado para trabalhar?”

“É sim, o senhor se enquadra nos pré-requisitos?”

“Escute aqui, pegue esses esses seus pré-requisitos e enfie no...”

“Ótimo, o trabalho é seu.”

Seu Oscar apareceu aqui em casa para seu primeiro dia de trabalho ontem. Segunda-feira, dia de começos. Ou, como diria seu Oscar, segunda-feira de cu é rola. Um doce de velhinho.

Saí para trabalhar tranqüila, com a certeza de que meus telefonemas estariam, dali em diante, recebendo a devida atenção. Veremos.

Epinion - mau humor, mentiras e fé patológica

29.9.04

Persela, a vesga,
uma novela capaz de prender sua buzanfa na poltrona até que nossas mensagens subliminares terminem

capítulo trêzimo

Você viu no último capítulo: você não viu nada porque tinha acabado a luz.

Capítulo de hoje:

Persela descobre que está grávida:

- Mas como? Eu sou virgem!

Tony Johnny reconhece a criança para evitar falação. Jamile Cristina revolta-se, coloca um piercing na língua e pinta o cabelo de rosa choque. Pega o uniforme da escola e amarra a camisa deixando aparecer uma tatuagem do Marilyn Manson ao lado do umbigo.

Manoel Alberto arranca os cabelos e deserda Persela. Valquíria Clara tem uma crise de choro. Corta de repente para Gabriel Monteiro dando uma gargalhada malvada. Volta para Persela, andando pelas ruas desolada, triste, deprimida e um pouco aborrecida. Tony Johnny a procura em seu patinete por todo lado, mas não a encontra.

O cara malvado da escola, Péricles Ariosvaldo, curte de montes o visual de Jamile Cristina. Ela sai pra dar um rolê na moto possante dele, e madre Teodora, vendo aquilo, leva as mãos à cabeça de forma teatral.

Por fim, aparece o Dr. Kildare com ar preocupado no meio da rua. Persela o vê, deitada sob um papelão que um mendigo lhe descolou. Ela se levanta e pergunta:

- Dr. por que tanta preocupação, o que aconteceu, o que o senhor faz aqui?
- Ah, oi, Persela. Não é nada, eu estava preocupado é com os nematelmintos tuberculosos da Antártida Setentrional. Se você visse todas aquelas criaturas sofrendo... Bom, a propósito, refiz os exames e tenho uma coisa para te dizer. Você não está grávida!
- Oh, doutor! - Persela arregala os olhos, cada um para um lado. - Sim. Descobri que sua gravidez era...

Sobe a música, momentos de tensão. Corta para o engimático personagem sem nome. Ele agora está passando em frente a uma floricultura quando uma senhora deixa cair a sombrinha. Ele se abaixa de forma enigmática e pega a sombrinha para a senhora. Volta para o Dr.:

- Eu quero dizer, Persela, que sua gravidez era piscológica!

Tudo volta ao normal. Tony Johnny retira a proposta de casamento, a contragosto, Jamile tira o piercing, pinta o cabelo e cobre o umbigo, além de dar um fora no Péricles, mas Manoel Alberto não aceita mais Persela em casa.

- Só nessas horas sem você em casa eu percebi, Persela, que você é um atraso na nossa vida! Eu não consigo emprego por sua causa! Você atrai má sorte para nós! Adeus, Persela! Adeus para sempre!

Valquíria Clara tem uma crise de choro.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Finalmente aparece a Bozolina! Papal Informal morre de hipertensão. Silvio Santos reconhece que usa peruca. Hebe Camargo trava numa apresentação, solta faíscas e todos vêm que há trinta anos ela não passa de um robô. Arnold Schwarzenegger revela sua plataforma política: "Megamass na faixa para a população carente que fala com sotaque".

ERNESTINHO E SUAS MULATAS BESUNTADAS

Mutumbilelê - uma odiosa lenda à brasileira / Dennis D.

Sempre que chovia na floresta, Mutumbilelê, o passarinho da cabeça grande, ficava escondido nos afundados do cipó-titica. "Ai, que medo!", ele pensava, "Ai, ai, que medo da Mamãe Naná!".

Toda ave da espécie de Mutumbilelê, assim que lhe crescem as penas negras da cauda - e antes mesmo de se aventurar no primeiro vôo curto, entre os galhos da majagumbeira florida - recebe a grave advertência de Aimacurum-nini, o espírito protetor dos bichos emplumados: "Quando o mijo cristalino de Tupã-tutu cai em forma de chuvarada, Mamãe Naná, a deusa das poças d'água, aparece em toda parte. Nenhum passarinho de cabeça grande deve olhar nos olhos molhados de Mamãe Naná... se quiser continuar vivo e criar família."

Mutumbilelê queria continuar vivo, bem vivo, e criar família numerosa, por isso temia os dias em que Tupã-tutu mijava na floresta. Entretanto, esse temor de Mutumbilelê não lhe amainava a curiosidade. "Como serão os olhos molhados de Mamãe Naná?" - ele se perguntava, cada vez mais intrigado - "Serão belos como as flores azuis da majagumbeira ou assustadores como os olhos amarelos da impiedosa cobra corutuarana-do-rabo-fino?"

Num dia de chuvarada, bem ao final do verão, Mutumbilelê foi vencido pela própria curiosidade. Emergiu dos afundados do cipó-titica e pôs-se a procurar os olhos molhados de Mamãe Naná. Logo adiante, o passarinho da cabeça grande se deparou com uma poça d'água redonda e rasa.

"É ela, sim, é ela!", exclamou em piados tremidos, misturando medo com valentia e prazer. Passinhos curtos, cuidadosos, foi entrando na poça até chegar ao centro. Parou. Olhou para baixo a buscar os olhos de Mamãe Naná, mas o que viu? Nada! Só havia água de chuva, simples, boba, sem graça, molhada como a água do riachinho ou da lagoinha. "Mamãe Naná? Pois sim!"

Desencantou-se o Mutumbilelê. Soltou uma titica verdolenga e resolveu mudar de religião.

Dennis D.

28.9.04

Engasgos

.: Param-pam. Param-pam. Pa-pa-pa-pam-pa-ram-pa-pam.
.: Ainda não inventaram um mecanismo decente de transcrição musical. Partituras são complexas e ineficientes. E chatas. E bobas e feias.
.: Nublo. Nublos. Bento louco. Lluba.
.: Voltando ao caldo e à inépcia de montar frases. Abu. Gagaga.
.: Yeow!
.: Fuém fóin fã fã faram.
.: Hamletis, de William Shakespeare

(resumido e reescrito por Mussum)
Fantamis: Buuuuss!
Hamletis: Papais?!
Fantamis: Sim, filhus. Teu tius e tua mãezis não vale nadis.
Hamletis: Estou alucinandis? Será verdadis ou não serázis? Devo ser vingativus ou não ser? Vou fingir de doidis pra ver o que acontecis...
Morris todo mundis.
FINZIS

. : B e r e t e a n d o , ano 1 : .

Quatro dias enfiado numa pretinha sueca 

Feriado no Rio. Cidade suja e em estado de sítio, mas os cariocas fazem cara de paisagem para a violência como fizeram para a ditadura. É hereditário. Me resta o prazer de rever os olhos azuis/verdes que eu adoro, embora eu ache que ela seja ainda mais instigante fora dessa confraria de late teens que se reúne para falar de prole.

Chega de reclamar, afinal quem esta apaixonado não pode ficar se lamentando pelos cantos. E essa paixão que me proporcionou tanto prazer foi uma pretinha sueca com quem passei o final de semana. Grande, mas não muito, bonita demais, estilosa, muito sexy mesmo. Bebe bem a moça. O curioso é que era uma sueca preta. Forte, mas atlética. E já estou com saudade, vamos nos despedir hoje. E ela ainda gostou da minha filha, o que a torna uma figura especial na minha vida. Essa sueca é a Volvo V50. Um brinquedo de R$176.000,00 que me injetou doses cavalares de endorfina misturada com serotonina.

O acabamento é impecável, o console central é a peça mais bonita e funcional hoje em produção, o conforto para todos os passageiros é superb e as cadeirinhas infantis embutidas no assento traseiro, um sucesso com a filhota.

(…)

Passamos 1200 km juntos, e descobri uma brincadeira muito divertida. Na estrada, a 140 no cruise control, incautos ao volante de Audis A3 colam na sua traseira e piscam os faróis. Na certa eles esperam que o tiozinho na perua vá colocar a seta e ir para a direita. Não. Smash the right pedal on the floor e coloque no rosto o seu melhor sorriso. É essa imagem que vai ficar registrada na memória do ex-perseguidor. Os 220 cv da V50 são tão bem balanceados que você esquece que esta num carro com tração dianteira.

(…)

Na volta para o São Paulo, estrada vazia, deu para fazer várias passagens a 215/220 km/h. Controle total. Frenagem espetacular. E agora o jogo gostoso de irritar donos de A3 Turbo também funcionava com donos de Golf e outras coisinhas tunadas. E eu com minha pretinha stealth, carro do tio...

Muitos sorrisos e varias passagens deliciosas com o turbo soprando me entregaram ao final da Rodovia Ayrton Senna.

Quase chegando à marginal, mais um par de faróis de luz branca voltou a me provocar. Ok. Mas havia algo de estranho no ar. Eram 02h10 da manhã, a silhueta do carro era baixa e o som...nossa...a música de um V8 com 400cv. Ferrari 360 Modena. Visão mágica coroando o final de uma viagem ótima. Oportunidade única. Quando ele colou, eu acelerei. Nos regimes médios, o turbo cheio, deu para fugir da 360. O piso da marginal também era melhor negociado pela suspensão da Volvo.

Mas o cara provou que era um dono de Ferrari. Partiu para a briga. Não iria tomar pau de perua. Os dois trafegando na Marginal a 210km/h. Redução para a Ponte das Bandeiras. O câmbio automático segurando o ímpeto do câmbio F1 sendo usado na ponta dos dedos.

Cheguei primeiro à Av.Tiradentes. Dois faróis na frente. No terceiro, o rugido da fera. 8000 rpm gritando na madrugada. Partimos juntos, mas a diferença de 180cv apareceu. Minha última visão foi a traseira da 360 gritando sua música metálica no Túnel da 23. Eu estava a 215 km/h. Ele eu não sei. Mas me senti em Mônaco.

Fui para a casa com um sorriso que nunca mais vai me largar. É o mesmo sorriso de quem já nadou com um great white, de quem já viu uma jubarte e sua cria nadando, de quem já viu um Ovni. Um momento único e especial, coroando essa jornada deliciosa com a minha pretinha sueca.

L'ENCRE INVISIBLE

AO ESTILO DE FERNANDO PESSOA, SE ESTE FOSSE CHEGADO

Me perguntam se eu realmente acredito em astrologia. Tenho a declarar que, disparado, conhecer rudimentos de astrologia me permitiu comer muito mais gente do que, por exemplo, conhecer rudimentos de cálculo diferencial: num bastante breve período descobri que meninas não se interessavam por quimeras exatas.

Portanto, afirmo que acredito muito mais na astrologia do que no cálculo diferencial.

Padre Levedo

eu me candidato

Procurava um tema de romance e encontrei na FNAC o livro do Garry Mulholland This Is Uncool: The 500 Greatest Singles Since Punk and Disco.

Havia um tipo de estagnação nos anos 80 que não existe mais. Havia um clima e uma alegria e uma tristeza que não existem mais.

E havia raiva e fúria.

Não foram bons os anos 80, estive lá pela maior parte dos anos. É como uma festa, a companhia era ruim, nada era divertido, mas a música prestava.

Não vou escrever que me sinto tecnicamente morto. Ao contrário, sinto que o resto da humanidade morreu. Ou veio de outro planeta, são de outra espécie. Onde está a alma das gentes?

É estranho ter idade para perceber que um mundo não existe mais. Os anos 80 começaram por volta de 76 e terminaram em 92, ainda que estivesse nas últimas já em 89.

Há algum bom romance que fale dos anos 80?

saudade do presidente Figueiredo

27.9.04

ENTRE A DESCULPA E O PERDÃO

Eu já pedi tantas desculpas. Na infância, os pais, a professora e os irmãos forçavam desculpas a toda hora. Não compreendia como uma palavra me liberava a dizer palavrão depois. Uma palavra me salvava de crespar no castigo. Uma palavra e estava limpo novamente, de banho tomado na linguagem. Não era fácil dizê-la, algo como esmolar. Nunca o foi, pois o rosto de quem a espera lembra o último camafeu em uma bandeja. Eu a falava para dentro, com beiço, esperando o anúncio de um abraço ou beijo para aliviar a carga dramática. Se as desculpas são difíceis, pedir perdão é um tormento. Como diferenciar o perdão da desculpa, qual é o momento adequado para um e outro? Com perdão, os olhos devem estar fechados e a boca atenta como um ouvido. No perdão, percebo que viver não nos dá tudo, muitas vezes nos tira. Que uma voz não é sorte, que não é para ser temida, que até Deus fica nervoso durante a missa, que a morte é apenas o desequilíbrio entre o medo e o desejo, que até a humildade tem pressa. No perdão, a lealdade não precisa perguntar e a luz que me deixa ver é também paisagem. Com o perdão, percebo que se a mulher com que vivo e amo não existisse, ainda a amaria igual, amaria sua ausência com ritual e zelo, em cada objeto da casa. Que uma ave não canta a mesma música, sua memória é a árvore. A ave é a mão musicada da árvore. Perdoar é se dar conta de que o amor protege mais do que evita, que nem o mar encontrou sua transparência e o vento não chega porque se esqueceu em seu corpo. Perdoar é escoar, desculpa é recuo. Como mexer o açúcar com os dedos é diferente de mexer o sal. Perdoar é reparar que não olho tanto minha mulher para assim imaginá-la e não envelhecê-la. Que o meu melhor tempo é o tempo alheio. Que o ritmo de meus passos obedece o espaço exíguo de meu quarto. Que há lembranças que somente podem ser dançadas, nunca repetidas. Desculpas acontece quando queremos nos libertar do outro, nos redimir. Perdão não se importa com a projeção, é libertação de si próprio.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

Quando as portas dos desesperados se abrirem

O senhor do escuro aparecerá como é: no finalzinho, e comendo todo mundo.

Devo dizer que não vi grandes vantagem no reinado de Aragorn; mas quem sou eu para discutir história, que mal entendo potenciação -- o suficiente, porém, para não ser pego por analfabetismos ou truques linguísticos baratos.

Meus amigos, que não entendem nem de potenciação, quanto mais de logaritmo ou taxas de juros, vivem a dizer bobagem sobre estado forte, estado mínimo, estado de sítio, estado não-sei-quê. Só burrada.

Se querem saber, pra mim o estado forte do comunismo é uma falácia. Não tem nada de forte, na verdade ele é grande e gordo, veste um daqueles maiôs vermelhos do telecatch, e se der bobeira ele se atira em cima de você lá das cordas.

E o tal do estado mínimo, na cabeça dos liberais é o lutador sarado, magro porém forte, ágil quando necessário; mas o estado mínimo não passa de um nanico esquálido e com umas gordurinhas localizadas. Se pintar o cabelo de verde, fica igual àqueles oompa-loompas. Com a desvatagem de que, se aparecer um outro por perto, em vez de ajudar, só vai tocar o barco pra trás.

O fascismo é a cara de Mussolini. Anarquia me lembra Adam West dançando, vestido de homem-morcego. O Rei Arthur e a terra eram um. Luís XIV também, sobretudo depois que resolveu seguir os conselhos dos médicos e parou sete palmos abaixo da superfície. Ecologistas, hippies e demais ativistas, eu não vou comentar.

E uma velha piada, de e-mails repassados que só agora leio.

Teoria do Estado, evolução histórica:

- O Estado sou eu. (Luís XIV)

- O Estado somos nós. (Lênin)

- O Estado somos eu. (presidente Lula)

dies iræ

23.9.04

Quando se fala de literatura, a Academia sempre chega depois, pois isso faz parte de sua natureza. Não são clínicos, são legistas. Como em qualquer outra coisa, e às vezes é preciso chamar a atenção para o óbvio, isso traz vantagens e desvantagens.

Não me parece adequado equiparar transgressão à ditadura dos sentidos e do imediato. Isso seria trocar uma tirania por outra. Prefiro pensar em nem tanto, nem tão pouco. Saber o que se está fazendo me parece essencial: sem o excesso anal-retentivo de controle que engessa a criatividade, nem a falta absoluta de controle que engendra o niilismo. Acredito que a chave do humano na literatura está no equilíbrio entre a assepsia do objetivo e o lodaçal do subjetivo, que implica em saber quando e o quê transgredir.

Não abraçar o cânone por completo, o que seria pura submissão, nem rejeitá-lo completamente, o que seria infantil. Conhecê-lo, antes de tudo. Tirar dele o que tem de melhor, rejeitar o que não mais é adequado, e seguir em frente. Ninguém escreve sozinho.

PERHAPPINESS

No Morrão

Aproveitei minha hora do almoço para subir ao Morrão. Engraçado: tanto tempo sem mais nada para fazer, e nunca me ocorrera subir até lá. É verdade que a total vadiagem me constrangia, impedindo-me de desfrutar totalmente do ócio. Mas agora trabalho, passo o tempo lidando com grandes questões, então na hora do almoço eu tenho o direito de ser totalmente vagabundo. Assim sendo, subi ao Morrão.
O Morrão fica na rua de cima, e não se chama Morrão, é claro: chama-se Praça Maestro Assis Republicano. Nome bonito para um lugar que é só uma elevação com uma rua embaixo, uma rua em cima e uma escada no meio para unir as duas; enfim, um morrão, como bem o chamamos por aqui. Subi, pois, o escadão imenso ("imenso" é um pouco demais, mas eu subi de dois em dois degraus e ao chegar lá em cima mal me agüentava em pé) e me sentei num dos bancos, um livro nas mãos, para passar meia horinha de ócio.
Quando eu e meus irmãos éramos crianças, vez em quando meu pai subia conosco ao morrão. Lá de cima mostrava os pontos interessantes daqui de perto (a escola, a fábrica da Seven Boys, a igreja) e lá de longe (o prédio do Banespa, as antenas da Paulista). Chegando lá em cima hoje, me dei conta de que era minha primeira visita ao Morrão desde aquela época. Está diferente: a rua foi asfaltada há anos, e agora há bancos em cima e um playground e um campinho de futebol lá embaixo, enfim, Dona Marta resolveu transformar o Morrão em praça de verdade.
Eu sei, eu sei: este já é o terceiro parágrafo e a história ainda não começou. Eu tenho esse problema, sei muito bem. Mas prometo que a história começa no próximo parágrafo. Querem ver?
Estava eu lá meio lendo, meio olhando a paisagem, quando um menino de uns cinco anos veio se aproximando. Trazia nas mãos uma bola verde, grande, de borracha.
(Viram? Começou a história).
O menino veio vindo e eu já sabia que ia falar comigo. Crianças sempre falam comigo.
— Eu sei chutar essa bola, sabia?
— É mesmo?
— É!
— Sabe nada...
— Sei sim, ô!
— Quero ver — botei o livro de lado. — Só não vá chutar a bola lá pra baixo.
Todo mundo conhece o efeito de um "não" sobre a mente infantil: foi justamente lá pra baixo que ele chutou a bola.
— Te avisei... E agora, hein?
— Hum... Agora eu vou chamar meu pai pra ir lá pegar.
Saiu correndo para casa, e eu fiquei rindo sozinho da esperteza do moleque. Voltou acompanhado da irmã pouco mais velha, que se dispôs a descer o escadão para buscar a bola do caçula. Já ia começar a descer quando aquela voz grave, meio rouca, chamou:
— ÁGATA! Aonde você vai?
Era a mãe dos dois. Ah, a mãe dos dois! Morena alta enfiada num shortinho branco que contrastava com as coxas bronzeadas e mais do que surgeria o formato e firmeza da bunda que lutava por esconder. Os peitinhos miúdos estavam soltos dentro de um top que era pouco mais que uma fita branca envolvendo-lhe o busto, como se ela estivesse embrulhada para presente. Ante aquela visão eu tomei a atitude de sempre: voltei a enfiar o nariz no livro, encabuladíssimo pela presença da mãe das crianças.
Ao final de uma pequena discussão, a morena autorizou a filha mais velha a descer. Então ficou em pé perto de mim, de costas, orientando a menina lá embaixo. Aquela bunda atraía meus olhos, e eu não conseguia pensar em nada para falar com a morena. Nem um "Crianças!", tão propício à ocasião, nada. Ela acabou voltando para dentro. Fiquei por ali ainda um tempo, entretido com o menino que agora me chamava de amigo e me mostrava como conseguia jogar pedras para acertar as pessoas lá embaixo. Eu tinha que voltar ao trabalho, porém, então me despedi dele e desci o escadão.
Não acredito até agora que tão perto de minha casa mora a mulher que anda seminua. Amanhã eu volto.



— Sexista!
— Hum?
— Sexista! CHAUVINISTA!
— Que foi que eu fiz, minha senhora?
— É só assim que você sabe descrever uma mulher? Peitos, bunda, mais nada?
— Peraí, olha a injustiça! Falei em coxas também, e até dei um jeito de enfiar um "busto" no texto.
— PORCO! Você acha que aquela mãe de família é um pedaço de carne, não é?
— É, é. Mas olha: é um BAITA PEDAÇÃO...


Jesus, me chicoteia!

Hoje o menino — chama-se Rubens — veio me mostrar sua bicicleta. Disse que deu cinco reais "pro ôme", e ele lhe deu a bike. Estava toda quebrada, o pai consertou. Sentada no banco ao lado estava uma senhora de uns setenta anos. Claro que a velha puxou assunto comigo, velhos gostam de mim:
— Esse menino é doido! Olha como corre com a bicicleta, é perigoso ser atropelado, ou cair lá embaixo. A mãe não cuida, tá lá dentro, deitada. Só véve deitada.
— A senhora é avó dele?
— Sou sim.
— E a mãe dele é sua filha?
— É não. — aqui ela tapou a boca com a mão esquerda para dizer em tom de confidência: — Ela é amigada. Mora com... — Levantou dois dedos da outra mão. Entendi que a morena tem dois homens. Achei justo: queria ver quem é que dava conta daquilo tudo sozinho.
— Ah...
— Então eu fico aqui cuidando dos meninos... Ó lá a irmã dele chegando. Tadinhas dessas crianças...
Nisso o moleque já estava dando voltas de bicicleta pela calçada. Enquanto ele pedalava, parando às vezes para me explicar por que sua bicicleta é tão veloz, a avó continuava:
— Um dia eu ainda dou uma paulada na canela dela, quebro-lhe a perna.
— Sei... — assustado.
O garoto perdeu o controle e bateu num arbusto florido. Chorou um pouco, depois veio trazendo uma flor feia.
— É pra minha mãe.
— Essa aí tá murcha — disse a avó, levantando-se para pegar outra. Enquanto escolhia uma flor mais vistosa, continuou: — Quando eles vieram pra cá fizeram de tudo pra gente ir embora. Mas eu não vou, ora! Aqui é minha casa. Sabe? Logo que eles chegaram esse homem que mora com ela quis bater no meu marido.
— Nossa.
— Pois é. Mas eu não deixei. Deixei nada! E venha ele me encher o saco pra ver o que acontece. Pego assim — fez o gesto de quem destronca a cabeça de um frango — torço o pescoço dele e jogo aqui do barranco.
— Hum.
— Eu não sou daqui, sabe? Sou daqui não. Sou de Guaratinguetá. Vixe, ali é o povo mais ruim que existe, o mais ruim! E eu nasci lá. Aprendi a ser assim também, né?
— Pois é.
— Torço o pescoço e jogo do barranco. Vem ele mexer comigo, quero ver!
— É... Olha, eu vou ali. Preciso trabalhar.
— Ah. Trabalha onde?
— Trabalho em casa.
— Ah, assim que é bom. Vá com Deus, meu filho.
— A-Amém.
Voltei pra casa com medo da velha. Mas amanhã eu volto, é claro.

Ainda no Jesus, me chicoteia!