O Natal foi um fiascão. A ceia chegou 11 da noite - porque famílias normais comemoram à meia-noite. Nós, às nove. Muito bem, meus filhos sairam antes do rango chegar. Pra passar a outra metade na casa do pai. Já começou por aí. Segundo: ninguém gostava de bacalhau (só a Bel) e meu irmão não gosta de presunto. Ele não gosta de comida de Natal. Umas onze e pouco chega o resto da minha família: tia, prima, marido da prima, etc, no total de oito pessoas. Atenção: que já tinham jan-ta-do. Resumindo, a festa foi uma zona, e eu tinha bolado tudo arrumadinho. De repente já tinha caçamba de gelo na mesa, coca-cola quente, falta de lugar para sentar, e virou Homer total. Natal dos Simpsons. Se eu soubesse dirigir eu levaria a comida para os sem-teto, é muita, não tenho condições de comer, nem de guardar tudo. E ia ser uma festona pra eles. O bacalhau estava delicioso - sim, eu como, porque não considero peixe, por ninguém nunca ter visto sua cabeça.
Mas ficou uma bagunça só. Não sei como minha prima consegue fazer um Natal tão perfeito. Tudo de prata, louças maravilhosas, árvore enorme, guardanapos de linho, mil sobremesas. Acho que é um dom, saber fazer uma festa onde a coca esteja sempre gelada, muito gelo, mesa de doces. Só tinha rabanada, que eu comprei na padaria da esquina. Não é para me gabar, mas o Davi Moraes toma café da manhã no balcão. Sacou? Quando eu cheguei lá, putzgrilo. Fila que não anda. Uma mulher ficou uma hora e meia na fila, te juro, fila pequena mas que não anda. Com senha e horário marcado. Quis fazer uma rebelião, mas uma senhora me olhou com rabo de olho desaprovando. E ninguém comeu rabanada nenhuma e a ceia ficou lá, vou te contar. A gente ficou vendo os dvds das crianças pequenas, por isso quase não conversamos. Na verdade minha familia deu um pulinho aqui, por causa do meu tio de cama, etc, etc. E eu comprei brindes para os adultos (sabonetes deliciosos ) e para as "crianças", moedas de chocolate. Festa meia-bomba e eu falando "Espírito natalino! Espírito natalino!", feito uma louca.
Acho que o Natal anda meio desacreditado.
blowg
25.12.06
3.12.06
Escoteiros
Sempre achei que eles fizessem parte do folclore. Sei lá, pra mim, escoteiros eram uma alucinação coletiva, ou alguma coisa do tipo que assusta de tão bizarra, sabe?. Mas, não, eles existem. E como são chatos!
Desde a semana passada, eu trabalho com um escoteiro. Carioca. Com o pior dos sotaques. E ele é chato demais.
Ele é solícito. O mais solícito. Só ele quer ser solícito no mundo todo.
Ele tem cabelo tigelinha. Comprido. E franja.
Ele fala das crianças que ele cuida (ensina, brinca, tutela, come, sei lá...). O tempo todo. Só disso.
Ele fala. Muito. O dia inteiro.
Ele está a um passo de mim. Oito horas por dia. Cinco dias por semana.
Folclore por folclore, podiam ter contratado a Mula-sem-cabeça. Pelo menos ela não fala.
Update:
Ele fala ao celular no viva-voz. Numa sala onde mais quatro pessoas estão trabalhando. Diz bye bye quando desliga.
Ele diz que vai "papá" quando sai pra almoçar. Todo dia.
calaboca que eu tô falando!
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Jan
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3.12.06
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Procurando rostos no desembarque
Para aqueles que vivem sozinhos, difícil não é partir,
mas chegar.
vizionarios
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Jan
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3.12.06
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1.12.06
Descobertas
Sinto o seu corpo ainda, de quando mal sabíamos o que era um corpo. O mundo tinha esse brilho bobo das coisas que acabam de nascer. Descobertas que engolíamos sem ver, sentir o gosto ou explicar: por que a fome não terminaria nunca? Nem ousaríamos perguntar. Talvez devêssemos?
Agora não, já não importa mais. E na memória as nossas pernas não se entrelaçaram tanto, nem estreitamos tanto os nossos braços, nem respiramos o mesmo ar impregnado de suor, saliva, instintos e ternura. E fica essa impressão de que mal chegamos a nos conhecer; de que o toque era somente o reconhecimento de onde terminava um e se inventava o outro.
O que talvez seja exatamente o que se passou.
Ah, minha amiga, mas com quanta alma nos iludíamos sobre isso tudo!
diferença nenhuma
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Jan
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1.12.06
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Encontro
"Acaso já nã te vi?"
Não, você nunca me viu. Nunca estive aqui, nem nunca fui quem eu sou agora. Se ilude se pensa que o garoto da foto antiga, o adolescente que sentava ao seu lado, o motorista esperando no sinal vermelho são a mesma pessoa que eu hoje, não sou mais, tenho outros planos, outros sonhos, outras cicatrizes. O que importa se meu rosto ainda se assemelha ao que era antes, se tudo dentro de mim é novo? Não se iluda, você também não é o mesmo, apenas acostumou-se a pensar que é. Porque não aproveita que é novo, e faz o que, quem você era, nunca faria?
souvenirs do inferno
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Jan
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1.12.06
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16.11.06
O Amor que Move Estrelas
É preciso bastante otimismo pra imaginar que só conseguiremos destruir um planeta.
Só É Morto Quem Quer
Quarenta minutos antes do Nada (Fla-Flu), já buscavam os Neanderthais a imortalidade -- mas acho que a extinção fala por si só. Felizmente, com o advento da globalização e da banda larga, hoje a imortalidade está ao alcance de todos, pode ser encontrada em qualquer banca do centrão. E dentre os métodos mais populares contamos:
- Pedra Filosofal
- Esconder a Idade
- Horcruxes
- Consultar o médico se persistirem os sintomas
- blogs
A fonte da juventude secou na crise de energia. A arte morreu com a paulicéia desvairada. E tanto o teleporte clássico quanto a clonagem de embriões de bode foram revogados pela administração Bush. Mas acho que estamos bem servidos - no sentido de que aumenta a taxa de obesidade.
Resolvido, portanto, o problema do Big Crunch, agora que alcançamos a imortalidade só nos resta uma questão: e aí, vai fazer o que com ela?
Fazer beicinho, assim como eleger políticos vagabundos, sempre traz alguma emoção, mas é muito pouco. Unir-se ao Pink e tentar dominar o mundo é uma idéia. O ócio criativo, não -- ou assim sugerem pesquisas sem valor científico. É uma situação complicada;
Mas graças a Brasil Xinique, filósofo e contraventor, talvez tenhamos a solução do problema. Num imortal, cacareja o professor, a crise de meia-idade só acontece no infinito. Então sejamos sábios e vamos deixar isso pra amanhã.
Mozart dies irae
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Ratapulgo
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15.11.06
Quem quer ser meu estagiário?
Não é para o Cocadaboa. É para a outra parada que eu faço.
Requisitos:
- Ser minimamente antenado para saber qual a outra parada que eu faço.
- Ter a noção de que não é para me procurar pelo email do Cocadaboa, mas pelo meu email do lugar onde trabalho. E ser safo para achar esse email. Quem me procurar pelo email do Cocadaboa será imediatamente rotulado como "não safo".
- Quero saber "o que o candidato faz de bacana", e não ler o seu currículo. E daí que você estudou em um colégio caro e fez inglês na Cultura Inglesa? Eu não. Aliás, o simples fato de você já ter um currículo pronto em Word já te desqualifica um pouco para o cargo. (…)
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Ratapulgo
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15.11.06
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11.11.06
Onde se ilustra a sobrevivência dos mais aptos
Eu mato as pessoas.
Mas não como todo mundo, usando as mãos, armas ou palavras.
Eu sou diferente. Eu só preciso pensar.
Esse dom surgiu aos poucos, e só me dei conta dele pela primeira vez na escola. Talvez por eu ser muito magrinho e míope, muitos garotos zoavam de mim. Até que um dia o Carlinhos não veio mais à escola. O Carlinhos era o fortão da turma e era o que mais caçoava de mim. Um dia eu tomei coragem e perguntei para a professora o que havia acontecido com o Carlinhos. Ela olhou para mim com uma cara de tonta e perguntou:
_ Que Carlinhos?
Depois de mais alguns desaparecimentos, eu comecei a perceber que as coisas estavam relacionadas. As pessoas que eu queria que desaparecessem desapareciam, e não apenas deixavam de existir: era como se nunca tivessem existido. As outras pessoas simplesmente deixavam de se lembrar delas. Só eu me lembrava delas.
No início eu achei que isso era um dom. Poder remover do meu caminho todos aqueles de quem eu não gostava, como se estala os dedos. Só que com o tempo descobri que a gente não consegue gostar o tempo todo de uma pessoa. E comecei a perceber que mesmo as pessoas de quem eu gostava a maior parte do tempo de repente sumiam, só porque um dia ou outro eu brigava com elas, e era difícil controlar os pensamentos e deixar de pensar: "suma daqui!". Como resultado, eu quase nunca tinha amigos, nem namoradas. Especialmente as namoradas desapareciam bem rápido, o que era triste, porque eu era muito magrelo e feinho e era difícil uma menina gostar de mim.
E isso acabou me deixando muito triste e deprimido. Eu já quase não saía de casa. Minha mãe percebeu isso e hoje de manhã entrou em meu quarto para uma conversa.
Ela entrou, sentou na beirada da cama, olhou bem para meu rosto e disparou:
_ Meu filho, você é gay?
Ela podia ter perguntado isso, ou se eu queria ser padre, ou se eu votava no PFL. Tanto faz. Eu só sei que fiquei com muita raiva dela por ela ter pena de mim. E ela sumiu.
***
E é por isso que eu quero mor
O Hermenauta
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Ratapulgo
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11.11.06
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29.10.06
Feriado
Tédio. Cansaço. Desânimo. E não sei o que é pior. Se ficar em casa ou ir pro escritório. Porque quando estou em casa, quero ir pro escritório e quando estou no escritório quero vir prá casa, então acho que devia ir pr'outro lugar qualquer que eu também não sei aonde é. Parecido com vontade de comer alguma coisa sem saber o quê.
Além disso, o trabalho ultimamente tem parecido uma bicicleta ergométrica.
Não tem servido para nada, nem chegado a lugar nenhum.
E o Zé fica me perguntando porque é que eu não o amo mais.
Tenho preguiça até de dizer que amo. Então sorrio.
O que já me custa um esforço demasiado.
e já era hora da pausa para o cigarro
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Jan
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29.10.06
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Não tenho mais idade para:
1. chorar em qualquer filme
2. jogar capoeira
3. paixão platônica
4. ter o cabelo quase raspado
5. culpa
6. roubadas em geral
7. ter vergonha de minhas pernas
8. brigar com meus pais
9. ou com meus irmãos
10. usar aparelho
11. usar substâncias ilícitas
12. mudar de profissão de novo
13. usar sapato de plástico
14. cuidar de neném
15. me achar baixinha demais
16. alisar o cabelo
17. ficar calada
18. topar qualquer coisa
19. virar noite trabalhando
20. trabalhar em agência
21. usar tic-tac no cabelo
22. ir a shows onde se fica em pé
23. viajar 10 horas seguidas de ônibus
24. tomar vinho ruim e não ter ressaca
25. não gozar
26. achar que sou uma farsa
27. usar minissaia
28. usar coturno
29. beber e querer beijar todo mundo
30. ficar contando minha vida em blog
31. passar vexame por causa de filho
32. querer ser outra pessoa
33. acampar
34. me deslumbrar com blogs
35. me levar muito a sério
36. estudar feito estudante
37. achar que não tenho mais idade para.
mothern
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Jan
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29.10.06
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Eu fico maravilhada quando alguém me diz que nunca leu um livro na vida. Porque eu penso que bom que você não precisou. Fico querendo ouvir a respeito. Seu coração não dói, como é isso? As coisas não apertam tanto dentro de você?
por mary w, citada em bocozices
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Jan
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29.10.06
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Desperate house-hubby & wife
Minha empregada tá de férias.
Pediu quinze dias pra “estar preparando” – eu juro que ela falou des’jeitim – o aniversário do filho. Fiquei imaginando que tipo de festa de aniversário vai ser essa, pra precisar de duas semanas de preparação tão intensa a ponto de a moça, que só trabalha autodeterminadas 4 horas por dia, precisar de tooodas as suas horas de vigília pra isso. Deve ser um festão, periga até sair na Caras. Mas como isso não é da minha conta, paguei as férias e calei a boca. Até aí, tudo bem. Achei que quinze dias passariam rápido, a gente daria conta das tarefas de casa, chatinhas porém simples, e logo ela estaria de volta. Hah. A primeira semana mal acabou e já estamos exaustos. Gatim, de lavar chão e louça. Eu, de cozinhar e lavar roupa – na verdade, estender no varal, porque lavar é fácil quando se tem um sistema como o meu (separar por cor, jogar dentro da máquina, escolher o programa, ligar e sair de perto). Além do mais, é claaaro que nesta exata semana, a pia da cozinha começou a vazar, o feijão congelado tá acabando (e eu morro de medo de panela de pressão), uma caixinha de leite longa vida surtou, fermentou, inflou e vazou um líquido viscoso e abundante que impregnou as outras caixas, o armariozinho de madeira onde ela estava, as latinhas de refrigerante da prateleira abaixo, enfim, toda a área de serviço, a cozinha e parte da sala e do corredor com um futum indescritível (mas que se eu fosse tentar descrever, diria que parecia que um bacalhau com cê-cê, sofrendo de chulé terminal e hálito de tigre louco havia morrido e apodrecido em cima de uma montanha de queijo Limburger com cebola e restos de cerveja choca deixados no sol por uma semana dentro de uma sacola feita de bucho de bode . E isso é só uma pobre tentativa, a realidade foi muito pior.). Por outro lado, desde que a moça saiu de férias, nossos almoços, feitos por mim, andam bem mais gostosos e bem temperados, o vaso do meu banheiro parou de entupir – talvez porque os quilos de cabelos que caem da minha cabeça todo dia agora vão parar no lixo, e não porcelana abaixo – e meus chocolates diet (que custam o triplo dos normais), os únicos que eu posso comer, pararam de sumir por milagre. Mas o mais triste foi que eu descobri, por acaso, por sorte (?) minha e descuido dela, que não eram só chocolates e sabonetes perfumados e bonitinhos da Natura que vinham sumindo, não. Na pressa de sair, ela esqueceu num potinho na área de serviço todos os seus balangandãs – brincos, colar, pulseiras, relógio e um anel de prata, diferente, lindo, caro pros padrões dela, e... inconfundível e irrefutavelmente meu. Que eu não usava há algum tempo, mas sabia muito bem onde estava – ou melhor, onde deveria estar, e não era ali. Quer dizer, a moça em quem confiamos nossa casa e tudo o que temos por mais de um ano, a quem adiantamos todos os vales que ela pediu, demos todas as folgas que ela quis e liberamos de todos os sábados; cujas faltas, prejuízos, coisas quebradas e voracidades específicas relevamos nos rouba, e provavelmente não começou agora. Portanto, além da chateação e do trabalho, ainda teremos um gasto extra : quando ela voltar, vamos ter que torrar uma boa (pra nós, pobrecitos) grana de acerto, inclusive com a multa de dispensa do aviso prévio, porque na minha casa ela não fica mais um dia. E mais a despesa pra trocar as fechaduras, porque quando nós perdemos a confiança, perdemos pra valer. Mas o pior mesmo é imaginar como fazer pra substituí-la. Parece fácil, não somos assim tão exigentes : só o que queremos mesmo é alguém que não seja porca, que não nos roube e que goste de gatas siamesas malucas e levemente histéricas. Mas não tá fácil. Além de não ter muita gente a fim de trabalhar com serviço doméstico – e juro que eu entendo isso de todo coração, esse trabalho é um porre mesmo - , nós também estamos meio ariscos, com a fé no "cerumano" abalada, e vai ser difícil voltarmos a deixar nossa casa inteiramente entregue a alguém de novo sem sofrer. Mas graças a nossas bravas e virginianas mães, sondagens estão sendo feitas, pauzinhos estão sendo mexidos, e se Zeus (e principalmente Hera) quiser, em breve teremos alguém pra manter a casa apresentável e a Nina um pouco menos carente. Meu voto é pela moça crente que atualmente trabalha na casa de um travesti e anda pensando em sair. Se não for por mais nada, porque eu sei que - depois do que já deve ter visto por lá - ela provavelmente não vai ficar escandalizada com as heresias do gatim, nem tentada por minhas pobres bijuterias de tamanho discreto, nem encantada com meus sapatos 37, quase todos pretos, sem brocal nem plataforma.
Tomara que dê certo.
cyn city
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Jan
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29.10.06
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Bestiário (2)
Ela tinha longos cabelos negros e morava numa vila. Quando cresceu, cresceram-lhe também dois grandes peitos que ela, brincando, passou a chamar de grândulas, enquanto as amigas a chamavam de analfabeta. Certo dia, apareceu-lhe um namorado português que, cheio de pacífica ternura, deu-lhe um cravo como prova de seu amor. O pai dela, salazarista, meteu dois tiros na cara do namorado porque detestava trocadilhos, mais ainda os de fundo político.
Branco Leone: um blog sem conteúdo
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Ratapulgo
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29.10.06
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Realejando
E lá eu deixei a menina racional. Em baixo do vão, debaixo de arte, no tapete vermelho da cidade. O papelzinho do realejo na mão, o espanto estampado na cara. Agora a vida tinha um roteiro, escrito sabe-se lá por quem e entregue às mãos da atriz principal pelo bico de um papagaio velhinho, que demorou a escolher um bilhetinho bem amassadinho e amarelinho no meio de outros tantos verdes, azuis e vermelhos. De todos os desenganos restava sempre a esperança com verniz de certeza de que o futuro era aquele mesmo e que mais cedo ou mais tarde o papagaio provaria saber mais da minha vida do que eu mesma. Só que agora o futuro já está passado e nem há mais a chance de voltar e pegar o bichinho de jeito.
Sealvia
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Ratapulgo
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29.10.06
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A Mansão Foster Para Amigos Imaginários
Sala de espera. Meu deus, eu não deveria, mas vou te dar um conselho: NÃO FIQUE FALANDO DE DOENÇA EM SALA DE ESPERAAAA. TENHA MODOOOOS!!! Ao meu lado as senhouras "Meu-genro-é-médico" e "Sofri-onze-intervenções-cirurgicas" discutiram TODAS as especialidades médicas, com descrições muito vivas de tumores do tamanho de bolas de futebol, tumores cabeludos em pernas (eu juro que ouvi isso), baldes de água purulenta sendo retiradas de estômagos, cistos de seis centímetros nas trompas mais variadas, tosses catarrentas, bicos de papagaio, olhos de peixes de água doce e salgada, abscessos que explodem nos lugares mais incríveis, fístulas repugnantes, pústulas cabeludinhas, úlceras sangrentas, visagens, tonteiras, ataques fulminantes e coágulos inoperáveis. Puta merda. Quando numa sala de espera, meu bem, não dê trela pros mórbidos de plantão - enfie a cara num livro, depois vc reclama que não tem tempo de ler - mas, se for conversar, fale de flores, do penteado do Geraaaaaldo, do tempo, das cotovias. Mas não fale de doenças, pelo amor de deus. Já me mata gente que faz do blog um diário íntimo e sempre atualizado de mazelas, acho nojenta essa gente que fica "hoje fui ao médico e ele disse....e aí eu fiz um exame....", pelo amor de deus. Mas enfim, o blog é seu, se eu não gosto eu não leio. Mas ao vivo e a cores? Poupe o mundo da sua inebriante vida pessoal e da sua assombrosa ficha médica. É dum mau gosto indescritível.
(não, não tou falando de contar um ou outro fato isolado, mas tem blog que.... ah, vc sabem, o cara descreve a cor do xixi, santa maria mãe de deus)
De qualquer forma eu tou sentindo tudo que elas descreveram, até minha próstata dói, caras.
*
O Sistema Caiu
Parece nome de livro de economista.
Que sistema?
Como assim "o sistema"?
Quem é “o sistema”.
É Sistema, sistema?
É o sistema solar?
É o sistema Anhangüera-Bandeirantes?
É um sistema operacional?
É um sistema que adota políticas descentralizadoras?
É um sistema que auxilia a preparação e a composição de alternativas às soluções ortodoxas?
O sistema que oprime?
O sistema militar?
É o Sistema Único de Saúde?
Ou é “Senhor Sistema para você – sabe com qual Sistema tá falando?”
Cai-cai-cai-cai, que eu não vou te levantar.
The Sistema left the biulding.
O sistema subiu no telhado.
O sistema já foi tarde.
O sistema era tão moço, tão bom filho.
Se o sistema caiu, ele que aprenda a levantar.
“Ama, com fé e orgulho a conectividade em que nasceste! Criança! Não verás
nenhum sistema como este! Olha que servidores! Que aplicativos! Que bancos de dados! Que links!”
O sistema caiu.
Machucou?
Fez dodói?
Quando o sistema casar, sara.
Quebrou algum osso?
Alguém acudiu?
O sistema caiu de maduro.
O sistema descansou.
O sistema foi em paz.
O sistema parecia tão sereno, parecia estar dormindo.
Cai, cai, sistema, cai, cai sistema, aqui na minha mão.
O sistema é solar?
É neurológico?
É nervoso, coitado?
Cai onde, como foi?
Escorregou no xixi do gato, caiu, bateu a cabeça?
Torceu o pé no estacionamento do Carrefour e ficou engessado 50 dias ?
Foi mordido por um cachorro furioso, caiu e teve que reconstituir o tendão?
Se estabacou no banheiro, entalou no box, tiveram que chamar a vizinha do 403 pra levar o sistema ao pronto socorro?
O Sistema caiu, quebrou os dentinhos da frente, mas tudo bem, eram dentes de leite?
O Sistema caiu lamentavelmente nas mais recentes avaliações do pessoal?
Despencou do oitavo andar?
Caiu na rede? É peixe?
Caiu no meu conceito?
Caiu em si?
Caiu em desgraça?
Caiu na boca do povo?
Caiu no crime?
Caiu como uma luva?
Caiu na gandaia?
Caiu na real?
Caiu na malha fina do imposto de renda?
Ele que levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima
*
Eu, que nunca soube o nome da dor. Eu, que não semeei os campos, que não colhi os frutos, que não mantive o passo, que não errei, que não soube quando errei, que perdi o pé, que trinquei a taça, que sobrevivi ao império, aos meus filhos, ao vento noroeste, que não sobrevivi. Eu, que não escutei a voz da razão, que sabotei a lei das probabilidades, eu que matei, que surgi, que desapareci confinada que fui às visões românticas do colonizador, que refiz pegadas, que apaguei traços, que me enfureci e sacudi lapelas. Eu, que apontei dedos acusadores, eu que não sabia coisa alguma, eu que tinha tantas certezas, eu que sorria para a multidão que atirava rosas, eu que dava tchauzinho de miss. Eu, que respeitava o nosso gentil patrocinador. Eu, que tive medo e coragem, que amei e odiei na mesma frase, no mesmo segundo, no mesmo toque. Eu, que estabeleci motivos para a guerra e assinei tratados e capturei os chefes das outras tribos e cortei tendões dos inimigos e que não fiz prisioneiros. Eu, que embalei crianças mortas, lutei por causas perdidas, rendi-me a cada lugar comum, ou clichê, ou armadura brilhante, ou cão de ataque. Eu, que consultei os astros e os sábios da cabala, que entendi os mapas, que tracei as rotas, que tirei conclusões, que reuni a tropa, que segui os relatos dos vitoriosos. Eu, que patrocinada pela rainha, lancei-me e aos meus ao mar, enfrentando monstros, chacinando sereias, despencando de bordas e perecendo sem laranjas. Eu, que quis laços cor-de-rosa e chuteiras, tortas de maçã e cervejas, doença e guerra, instâncias individuais e direitos intactos, jujubas e drama, água potável e fontes decorativas. Eu, que enterrei os que partilharam de minha juventude, escolhi ignorar o óbvio, que preferi não notar o desmoronamento do improvável, que vaguei sem rumo, que temi o inexato e cantei durante o verão. EU, que grito das janelas ignorando os vestígios do impacto, chegando a extremos, capitulando, chegando a extremos, capitulando, chegando a extremos. Eu, que reuni fragmentos. Eu, que não pude ver os dizimados pelas armas e que, dizimada, não quis acreditar. Que, que não me identifiquei com os vencidos, que não tive culhões para ser o vencedor e nem caráter para apenas observar. Eu, que nunca soube o nome da dor.
Três, sem tirar de dentro, do ¡Drops da Fal!
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Ratapulgo
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29.10.06
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23.10.06
Lendo atingi bom senso
Vontade de ter uma livraria só pra ofender os autores. E o leitor também, claro.
Nada de organização por tema e ordem alfabética. Agruparia livros em estantes assim:
Véio broxa
Morreu virgem
Recebeu bolsa-família
Analfabeto funcional
Ele era mãe
Carecas de bigode
Nem parece peruca
Olavetes de Chevette
Conservadores que dizem cu
Passou a vara em Che
Controla o calendário sem utilizar as mãos
Pega na teta do titio
Tá com pena? Leva pra casa
Cigano Igor já leu
Livros que o Tiririca não gosta
Comi muito
===============================================
Leitor: - Onde eu acho Machado de Assis?
Vendedor: - Na prateleira Carecas de Bigode.
Leitor: - Mas o Machado não era careca!
Vendedor: - Percebo que o sr. não conhece muito Machado de Assis.
Leitor: - Como não?! Já li praticamente tudo dele!
Vendedor: - E não percebeu a calvície? Tsc, tsc...
Leitor: - O sr. está ofendendo um clássico da literatura MUNDIAL!
Vendedor: - Daqui a pouco o senhor vai me dizer que os clássicos não envelhecem.
Leitor: - Mas é isso mesmo: eles nunca envelhecem!
Vendedor: - Envelhecem e ficam carecas. Só um cego pra não perceber a calvície de Machado de Assis.
Leitor: - O Machado tinha cabelo e até topete! Não era careca.
Vendedor: - Tá certo, não era careca. Qual a próxima barbaridade que senhor vai me dizer a respeito do Machado de Assis? Que não tinha bigode?
Leitor: - Bigode tinha. Careca eu não admito!
Vendedor: Tá bom, não vamos mais discutir, o cliente tem sempre razão. Vou mudar o Machado de Assis para a prateleira Nem Parece Peruca, ok?
Colorina
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Ratapulgo
às
23.10.06
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22.10.06
Fernando Rodrigues
O debate do SBT flopou – sejamos francos: foi um nada eleitoral esse debate de ontem à noite no SBT entre Lula e Alckmin. Hoje, as repercussões de cada um dizendo que venceu, que foi melhor, que apresentou mais dados... Baboseira pura.
Como era previsível, o tucano baixou o tom. Lula ficou naquela cantilena de números e números de seu governo. Nenhum dos dois explicou, de maneira convincente, o mais importante: como faria para que o Brasil cresça mais do que os níveis atuais.
E no final? Aquele bando de áulicos dos dois candidatos louvando a iniciativa maravilhosa e democrática do canal de TV que promoveu o encontro... No fundo, o maior ganhador é só a TV, que pode dizer com orgulho que rebocou os dois políticos para seu estúdio.
A maior contribuição do SBT foi oferecer um elemento extra para confirmar a falência do modelo em vigor desse tipo de debate. No primeiro turno, há aquela regra demencial de ter nanicos presentes. A pretexto de produzir democracia, a exigência é mero democratismo sem sentido. No segundo turno, todas as emissoras de TV querem fazer debate com regras complicadas que inviabilizam o verdadeiro embate entre os políticos.
“Candidato, o tema é educação. O sr. tem dois minutos”, diz o (a) moderador (a). Dois minutos para falar de educação?? Em seguida, o candidato fala sobre o que bem entende...
Por que não ter apenas uma única regra? “Candidatos, o srs. têm uma hora e meia para debater sobre o que quiserem. Podem começar. E cada module o seu tempo como quiser”.
Ah, mas daí seria uma carnificina, dirão os adoradores de regras e leis. Hummm, pode ser. Mas ficaria mais fácil saber quem é quem nesse deserto de idéias que se transformou a política. Até porque, falar sobre educação ou infra-estrutura em dois minutos com mais um minuto de tréplica é obviamente uma insanidade.
Fernando Rodrigues
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Ratapulgo
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22.10.06
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20.10.06
...
eu gosto de gente que faz e de gente que pensa.
se você pensa e não faz, não serve.
se você faz e não pensa, também não.
Todaperplexa
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Henrique
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20.10.06
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18.10.06
Intervalos da navegação
Entrei na era da mp3. Downloads de graça. (Quantos desavisados não chegarão aqui pelo google por conta dessas palavras mágicas?) Alguém perguntou se a minha consciência não pesava. Por quê? Não pesa. E não é porque o CD está muito caro (e está) ou porque no fim das contas os artistas ganham uma porcentagem muito pequena da venda de CDs (e ganham). Os que me conhecem de outros tempos sabem que meus motivos não seriam jamais tão mundanos assim. Deverão supor que minha consciência está limpa por motivos puramente metafísicos, e estarão redondamente certos. Pois bem, a conveniente metafísica da vez é:
VOCÊ É O QUE VOCÊ COMPARTILHA (PONTO)
Como não haveria um amplo terreno do céu reservado à boa alma que acaba de compartilhar comigo um CD do Miles Davis? E que monstro seria capaz de censurar um dos gestos mais nobres que o século XXI é capaz de testemunhar? Eu respondo! Aquele mesmo canalha que acabou de repassar um e-mail com um texto lindo do Manuel Bandeira que o próprio Bandeira nunca teria a indelicadeza de escrever.
diferença nenhuma
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Jan
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18.10.06
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Faça Você Mesmo: Ministério de Notáveis
Ministro da Saúde: Paulo Cintura
Ministro da Defesa: Júnior Baiano
Ministério das Relações Exteriores: Jane Mary Corner
dies iræ
Postado por
Ratapulgo
às
18.10.06
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