30.4.04

Da convivência com mulheres, uma irritação: ô grupo friorento.

bricabraque

A escuridão, bem diferente da que fazia eu me espremer de covardia na cama, era toda afago. Sentei ao lado de minha tia (qual? Me eximo de usar a cínica desculpa de que estava escuro; não lembro qual tia mesmo) e o cheiro de bala de menta se acomodava ao breu dando a certeza de que o preto era uma cor com fragrância, e doce. Até hoje, quando chamo de volta a experiência, aspiro com a alma aquela essência de menta – sinônimo ancestral de escuro de cinema. Mas eu ia dizendo: o retângulo lá na frente explodiu silencioso; minha retina acolheu o clarão como a escuridão havia me recebido: com familiar surpresa. No meio da tela (era tudo em sépia, pois que o sépia é o preto e o branco com saudade das outras cores) estava ela, cabelo roçando os ombros, e sentada debaixo de uma árvore, sobre uma estampa de folhas finas, alegres, quase desenhadas. Suas pernas estavam encolhidas sob a saia espraiada, o que eu via dela acabava na borda arredondada do tecido – a partir dali, só folhas. Meus olhos, representados dignamente pela câmera, circundaram a árvore, a saia, os chuviscos do sol que furavam a copa da árvore e acendiam de leve, aqui, ali, ali e ali, o sépia das folhas no chão. E o rosto, o rosto dela, o queixo levantado quase nadinha, o suficiente para deixar exalar o aspecto de quem se sabe presente na remota memória de alguém, de quem se imagina acariciada pela lembrança que extrapola a lente de uma câmera. Aí começou a música.

Eu tinha cinco, seis anos. Foi minha primeira vez. Nunca soube que filme foi esse, quem ela era. Acho que vejo filmes compulsivamente – o que faz muitos desavisados me confundirem com um cinéfilo – para, um dia, por acidente, dar com essa cena: ir reconhecendo-a aos pedaços, cair em mim ao identificá-la por completo e ver trinta e tantos anos se dissolvendo em meio à essência de menta. Então acho que as coisas – todas – deverão começar a fazer algum sentido, caramba.

ao mirante, nelson

29.4.04

Em uma certa manhã ou tarde ou noite da adolescência as pessoas decidem o que vão ser – em um minuto. O garoto, visitando o quarto do vizinho que sabe alemão e conhece diferentes aberturas no xadrez, se sente humilhado pelas fotos do vizinho de smoking, jantando num hotel escandinavo com uma garota linda de vestido de noite. “Quer saber, eu sou vulgarzão mesmo, com orgulho”, ele pensa.

E pronto. Cinco minutos antes não era, mais agora vai ser. Chegando em casa se olha no espelho e sorri: “Eu sou vulgar, vulgarzão”. Faz pose de vulgarzão.

Dez dias depois cria um blog que ele mesmo chama de tosco, e deixa comentários elogiando outros blogs por serem toscos: ae supertosco o seu blog huahuahuahuahua. Na escola faz sucesso ao escarrar na própria coca-cola e depois beber - enquanto seus amigos sorriem e fazem cara de vômito, andando pela quadra de vôlei recurvados como se tivessem levado com um taco de beisebol no estômago e gritando “Deus! Deus!”. Repete a façanha sempre que pedem. Dois anos depois está lendo Bukowsky...

Às vezes volta atrás na decisão, é verdade; usa o uniforme de vulgarzão durante uma semana e depois devolve para a loja porque pinica, ou fede, ou solta bolinha. Eu mesmo, acreditem (mostra-se encantadoramente confiante que as pessoas ficarão espantadas) já me disse vulgar, vulgarzão, numa certa tarde do início da década de oitenta. Mas meu conceito de vulgar era o das pessoas pintadas por Frans Hals – você sabe, pessoas de bochechas vermelhas que riem batendo nas coxas e são francas, essas coisas todas. “Eu sou vulgar”, eu disse com orgulho – o caso mais patético de má compreensão de si mesmo desde que Henry James achou que podia escrever peças e Michael Jackson achou que era bad. Usei essa roupa de vulgar durante três dias e desisti. Mas outros, oh, os outros (eu me desespero muito dos outros) persistem, e ficam fazendo desenhinhos de pôneis fumando baseados gigantes nas costas dos cadernos alheios.

Candidamente lhes proponho que todas as pessoas que se dizem toscas (com orgulho) passaram na juventude por um momento de embaraço social e decidiram recuar - para o cantinho mal-iluminado em que Bukowsky eternamente come comida que caiu no chão, sob o olhar vigilante de duas prostitutas paraguaias que riem huahuahuahuahua.


alexandre soares silva

27.4.04

Toda mãe tem que entender e ser paciente.

Meu filho:
-Mãe, cadê aqueles cds que estavam no quartinho de som?
Eu:
- Que cds?
Meu filho:
- Aqueles mãe! Uns pretos!
Eu:
-Cds pretos, filho? Eu nunca vi cds pretos no quartinho de som, tem uns aqui perto do Computador que seu pai gravou umas musicas, seriam esses?
Meu filho:
- Não mãnhêêêe! Uns grandões com um buraco pequeno no meio.
Eu:
- Ahhhh? Filho, aquilo são (ELEPÊS), discos de vinil. Seu pai levou pra guardar na firma....
Meu filho:
- Ah tááá

Nestas horas que eu olho para o céu e penso:
Como o tempo passa rápido.

Bambam e Pedrita - Proibido para menores de 18

26.4.04

POEMA REPUBLICANO

Um bar diante do cu de bronze
do cavalo do Marechal Deodoro,
que, à guisa de enigma, fica
na praça Princesa Isabel:
Isto faz-me sentir tão inadequado
quanto o brônzeo ânus desse
quadrúpede, afinal que faço
eu num boteco no centro da
cidade, alvejado por perdigotos
discursados pelos bêbados?
No entanto o não-caber no mundo
move e se cumpre, ocupando
tudo: eu, cascos de cerveja, o Ceará
dono do bar e até mesmo o cu
do eqüino, buraco negro e cego,
como uma galáxia prestes
a nos engolir sobremaneira.
E entre mugidos ou seja lá quais
impropérios assoprem cus de
estátuas eqüestres, nos dissolvemos,
Mal. Deodoro, Princesa Isabel, praças,
bêbados, você e eu:
sob o vasto merdaçal de pombas
sob a penumbra onde já não vejo gestos
sob asas que não deixam rastros nem sombras
sob a mira da merda de bronze que certamente
uma hora soltará o brioco desse cavalo.

HOTEL HELL

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Casos e Acasos da trifase

O homem do balão

Sabe quando alguém vira pra você e diz: "joga nas mãos de Deus"? Pois é, voar de balão é isso. É se jogar em um cesto de Deus. Um dia antes de lançar minha sogra ao vento, o homem do balão me liga. Uma voz grossa, fria e direta:

- Estou ligando pra cancelar o vôo do sábado. Teremos que agendar para o feriado que cairá na próxima quarta-feira.
- Mas assim? Em cima da hora?
- Desculpa, mas as previsões não são nada boas...

Como é que alguém, sendo o "Senhor Balão", diz uma coisa dessas pra um passageiro de primeira viagem? Pensei: "Vixe! Esse negócio não deve ser seguro. Além de se arriscar em um cesto de vime tamanho família, ainda é necessário acreditar nas previsões do homem do tempo e na sanidade do homem do balão".

- Ô moço, me diz uma coisa: alguém já morreu "andando" de balão?
- Comigo no comando, não.
- Claro! Se tivesse morrido, você também não estaria aqui pra contar a história.
- Engano seu. Dificilmente morreriam todos os tripulantes. Já vi gente ser arrastada em pousos forçados e outros saírem intactos. Vi um rapaz que ficou grudado em uma cerca de arame farpado e outros que não se seguraram direito na hora da descida e foram arremessados pra fora do balão. Alguns chegaram até a sofrer fraturas expostas, mas outros nem sentiram o pouso. Soube de uma mulher que...
- Pára, pára, pára! Tenha dó, meu senhor! Minha sogra vai andar nesse treco em poucos dias e o senhor vem me contar histórias como estas? Agora vou dizer o quê pra ela?
- Perguntou por que, se não estava preparada para ouvir?
- Para o senhor me tranqüilizar, dizer que o passeio é só serenidade, omitir detalhes trágicos... Eu sou mulher, meu querido! Não fui preparada para ouvir a verdade.
- Você acha que atravessar a rua é seguro?
- Anh? E o que tem a ver o loló com as calças?
- Acha ou não acha?
- Acho. Claro que acho...
- Minha mãe morreu atravessando a rua.
- Conversa!
- O sonho da sua sogra não é andar de balão?
- É, mas...
- Então diga pra ela não atravessar a rua antes do feriado. Viver é correr riscos.

Silêncio dos dois lados da linha...

- Lá, lá! Falou bonito, hein moço?

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Dor que dói no peito

- Eu não tenho mais a certeza de que você é a pessoa certa pra mim.

- Ainda existem coisas inacabadas para decidir, e não posso continuar com você enquanto meu coração não for livre.

- Falei com minhas amigas, elas me deram uma força, afinal não é assim que funciona. Preciso de um tempo pra pensar.

- Pelo menos teremos uma boa história pra lembrar.

- É muito complicado eu ter de falar isso pra você, acontece que...

- De início pensei que o problema fosse comigo, muito trabalho, esse tipo de coisa. Mas não. O problema é com a gente.

- Ele veio falar comigo, me lembrou de coisas que ainda marcam...

- No começo eu ainda relevei por causa das crianças. Só que hoje, nessa situação, não dá mais.

- Tentei imaginar a vida sem você, e não foi assim tão difícil.

- Depois desse mês percebi que a nossa situação se tornou insustentável.

- A gente não precisa terminar agora. Ficamos juntos, e esperamos a relação se dissolver naturalmente. Talvez seja mais fácil assim pra você.

Zazoeira

Nem mulher, nem rato. Eu sou é piolho .



1. pegue o livro mais próximo de você
2. abra o livro na página 23
3. ache a quinta frase
4. poste o texto em seu blog junto com estas instruções

"Quais invejosos e implacáveis demônios espalharam sobre ti a intemperança de sua sobriedade, que loucos e odiosos Prócios acenderam a tocha nupcial?"

Em Baudolino, Umberto Eco, Editora Record, 2001.
E foda-se o ISBN.

Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!

Confesso ao nada o que de mim duvido e aos meus ouvidos, grito. Da garganta vem um soluço torto, um choro incerto entre lamento e pranto. Vai ver desaprendi tanto de lágrimas e choro goles de palavras aos pedaços, engulo minha tristeza e vomito uma dor tamanha que te traz mais perto. Tu, que não sabes ser ninho, nem porto, tu que fiz tão longe. Entre nós plantei deserto, pus abismo, cerca de espinho, mas quando choro esse choro de certo desatino, busco tuas sobras, os restos do nosso destino e embalo nos braços um filho morto.

Não Discuto

21.4.04

Com o velho:

– Pai, você tá apertado com aqueles convites lá pro show do Pão de Açúcar?
– Tô. Por quê?
– Porque eu queria mais ums...
– Quantos?
– Dois.
– Eu acho que consigo mais um. Tá foda, filhote. Todo mundo tem um amigo que também quer ir, todo mundo pede vários.
– Pô, mas eu te vi ligar pra uma porrada de gente oferecendo convites.
– Eu liguei pro pessoal do marketing do Banco do Brasil e pra alguns pareceristas do Ministério da Cultura.
– Ah, tá. Só pra galera que apóia o show.
– É, pô. Assim eles continuam do lado dos projetos.
– Pai.
– Oi?
– Você suborna as pessoas!
– Não suborno, meu filho, mas as pessoas que estão envolvidas com o projeto recebem por isso.
– Hm.
– Entendeu.
– Você suborna as pessoas!
– Tá, eu suborno.
– E com o dinheiro do Abílio Diniz ainda! Pior do que o cara que saca grana do próprio bolso e compra alguém é você, que saca grana do bolso alheio!
– É isso aí.
– Seu pilantrão!

Laboratório Secreto

Crônicas do Amor Possível
by sérgio p torres

I - A Cervejinha Gelada

A noite, já deitados, o casal combina as tarefas para o dia seguinte:

- Amanhã tenho uma reunião da diretoria. Vamos acertar o cronograma para o 2º semestre. Você leva as crianças para a escola?
- Claro, meu bem...
- A casa tá cheia de pó.
- Tá, amor, eu arrumo...
- A pia tá cheia de louça.
- Eu lavo...
- Vou trazer uns colegas pra almoçar.
- Quantos?
- Três. Capricha na comida.
- Você podia ter avisado antes...
- Decidi agora. Tá faltando alguma coisa?
- Não sei...
- Você nunca sabe nada. Bem, qualquer coisa você passa no supermercado depois que deixar as crianças na escola.
- Tudo bem. Não esquece de deixar o dinheiro.
- Puxa, você só me dá despesa. Vê se pelo menos não esquece de botar a minha cervejinha pra gelar, tá?
- Tá, não esqueço...
- Não deixa congelar.
- Tudo bem...
- Amanhã vai ser puxado. E de tarde, o que você vai fazer?
- Não sei ainda, acho que vou ao shopping...
- Shopping!? Por que você não arruma um emprego, nem que seja de meio expediente?
- Tá difícil, amor...
- Você só sabe torrar o meu dinheiro. Também, quem mandou largar os estudos? Não viu a fila de candidatos pra gari? Tinha gente até com curso superior!
- Eu sei...
- Sabe, mas não faz nada, não é? Ninguém merece. Esse negócio de ficar em casa sem fazer NADA não tem cabimento.
- Desculpa, amor. Mas é muita coisa pra uma pessoa só fazer...tem que levar as crianças pra escola, ir ao supermercado, banco, costureira, lavanderia, o almoço, a louça, a casa, a cervejinha gelada...
- Alôôôuuuuuu...quem é que rala todos os dias e sustenta você, as crianças e a casa?
- É você, Marisa...
- Então, Haroldo, vê se pelo menos não reclama tanto.
E apaga a luz que eu quero dormir.

decadência urbana

20.4.04

Se esparrama com delicadeza, dá um sorriso (discreto) de canto de boca, espia pelo buraco da fechadura sem nenhum pudor.
Dá marcha a ré menor sem charmeur, segue pelo caminho mais comprido dando um adeus dramático e nada mais.
Suspira com impaciência resignada.
(não basta um grande amor para escrever poemas.)

Carbon Monoxide

Estava no saguão do prédio esperando o elevador, eu tinha uns 5 anos. Chegaram dois garotos que deviam ter a idade que eu tenho hoje, falaram de trauma. Um deles já tinha se encontrado com a porta de vidro daquele saguão, de bicicleta, e se cortado todo. Mostrou uma cicatriz no braço e outra na perna, apertou o botão do elevador e ficou esperando como eu. Foi nesse dia que eu aprendi o significado da palavra "trauma". Tive medo do trauma.

Sempre achei que eu era uma pessoa sem traumas, bem resolvido. Eu penso reto, simplifico as coisas e tudo parece até ser fácil... E os outros parecem pensar que eu tenho soluções. Eu só observo os ombros das meninas que vêm de camiseta reluzindo as lâmpadas frias da sala de aula. Meus ombros não andam erguidos, meus traumas devem estar tão intrínsecos que não consigo detectá-los. Não consigo dizer de onde os meus medos vêm.

Eu só encontro esse som que vem e me amarra por dentro, me carrega, me faz voar, cair no mar e me afogar, subir à tona secar na superfície do sol, queimar, congelar. E eu estou dentro de casa. Estou aqui querendo estar longe. Eu quero ir para longe, quero trocar alguns amigos, quero deixar de gostar de algumas pessoas. Gostaria de parar de discriminar os feios e acreditar na honestidade das meninas dos ombros bonitos, me sentir feliz assim e fazer uma serenata.

Para no dia seguinte acordar e encontrar as penas do travesseiro ao meu lado... E vem esse som que minha cabeça-rádio capta no ar e tenho medo de passar todas as minhas tardes assim... Preciso alcançar o coelho nas luzes do carro. Andar a pé na areia da práia, numa tempestade, de madrugada, ao lado de alguém. Minha respiração... já está... ficando... devagar... denovo.


Reticências de Um Poeta Morto

Sonhos são

Três fortes batidas numa porta imaginária. Abro como num ensaio de uma peça de teatro, alguém aparece de cabelos quase raspados; pele branca, alto, magro, olhos grandes e marrons.
Trazia em uma das mãos um coração sangrando e ainda pulsando; o sangue escorria sobre a sua pele clara pelo braço até o cotovelo. Não identifico o sexo. Me olha severamente como que me repreendendo por algo que fiz um dia qualquer. Examino minha consciência, minha vida toda passa como um filme em Rewind e um sorriso surge por trás dos seus lábios finos e rosados.
As sobrancelhas antes arqueadas ficam leves. Seus traços me fazem lembrar carinhosamente alguém.
Me abraça com tanta ternura... diz que eu continue como sou. Caio no choro.
Abre a porta invisível e vai embora sem olhar para trás.
Eu sento na cama, pego uma fita de vídeo e vejo partes da minha vida em preto e branco e colorido.

Acontecível

E para não dizer que não falei de “flores”...

Eu adoro meninos que me ligam e me dão atenção. Eu adoro meninos que me convidam para ir ao cinema nos domingos de chuva. Eu adoro meninos que abrem portas para mim. Eu adoro meninos que são bonitinhos mesmo quando eu não estou mais sob efeito do álcool e fazem a barba e usam Fahrenheit. Eu adoro meninos que insistem em me levar em casa, que fica perto do fim do mundo, que vão até lá dirigindo civilizadamente e quando chegam dizem: “agora eu sei aonde tu mora...”. Eu adoro meninos que me ligam meia hora depois de ter me deixado em casa para dizer que acharam o caminho de volta para suas próprias casas e que dizem que gostariam muito de me ver no feriado próximo.

Perigo.

Deep Cuts

Ok. Então alguém avise a pessoa de que ela não tem mais quinze anos, por mais que ela ainda queira acreditar nisso, e que não pode beber das seis da tarde às três da manhã impunemente. Porque no dia seguinte a pessoa está imprestável, completamente imprestável. Fora os amigos da pessoa que têm que agüentá-la pulando no sofá e dizendo absurdos sobre Teresa De Lauretis e as novas instalações do vestiário do Beira Rio. Alguém ajude a pessoa. Meu domingo foi inteiramente desperdiçado debruçada sobre a pia (que esse negócio de se abraçar na privada, desculpe, mas não é para mim, essa mulher de classe que só eu sei ser, ho, ho, ho). Não, ninguém merece. Tô com dores no corpo até agora. E não sei onde pus minha correntinha de pedra da lua, que eu me lembro que guardei em algum lugar pensando "vou guardar aqui bem escondidinha para não perder" e agora não faço a mais pálida idéia de onde é. Rá. Mas, enfim, ressucitei. E nem levou três dias.

A Caverna da Ogra

18.4.04

Devorado Por Formigas Verdes Enquanto Lia Ulysses

Era um bom homem, relacionava-se bem com as pessoas da vizinhança, tinha mulher prendada e filhos por criar. Aí começou a fazer o que Deus desaprova, e morreu. Sem misericórdia.

Não dá futuro ir contra a natureza: a Natureza é sábia, não hesita, sempre paga pra ver. E um papagaio me disse certa vez da existência de uma tal natureza humana.

Não é curioso ser mais provável que um ditador, ou um terrorista, diga algo que faça sentido a respeito do mundo, e não um chefe de governo eleito? É um dado interessante; é claro, isso acontece por, em geral, referirem-se a um sistema do qual não façam parte.

dies iræ

A Diferença Entre as Mulheres que Você Come e as que Você Não Come
Por Alexandre Cruz Almeida

Joana foi minha amante e uma de minhas melhores amigas. Ela terminou comigo há poucos meses porque estava voltando para o seu homem de direito. Apoiei sua decisão, claro: nos divertimos muito juntos, mas o futuro dela é com ele, não comigo. Ainda somos amigos, mas não tanto quanto éramos. Ainda tenho tesão por ela, mas não tanto quanto tinha. Ainda a amo, mas não tanto quanto amava.

Hoje, nos encontramos em um evento. No salão, antes que eu pudesse chegar até ela, duas pessoas vieram falar comigo, uma depois da outra, e me ocuparam por uns quinze minutos. Quando finalmente cheguei até Joana, ela virou a cara pra mim. O que foi?, perguntei. E ela, em um tom de voz ofendidíssimo, apontando com olhos para sua melhor amiga que estava conversando com ela: a fulana veio direto falar comigo, não parou pra falar com ninguém antes.

Sabem qual é a grande diferença (além da óbvia) entre as mulheres que você come e as mulheres que você não come? É que você não precisa ouvir esse tipo de coisa das mulheres que você não come. Virei as costas e fui embora.

Joana é linda, inteligente, independente, mas tem um grande defeito: é mulherzinha. Não sei se dá pra explicar. Mas é justamente isso: só uma mulher muito mulherzinha falaria uma coisa dessas. Ela é o tipo de mulher que, quando eu ligo pra ela, ao invés de ficar feliz porque eu liguei, contabiliza há quanto tempo eu não ligo: puxa, estava morrendo de saudades, eu digo. É, sei, ela retruca, em tom mezzo-escárnio mezzo-ofendida, recebi suas dezenas de recados na minha secretária.

Ou então: puxa, estava mesmo querendo falar com você. E ela: se quisesse mesmo, não ficava sem me ligar desde terça.
Ou então, ou então, e essa é a minha preferida: oi, tentei te ligar, mas você não atendeu o celular. E ela: humpft, se quisesse mesmo falar comigo não teria me ligado logo na hora que sabe que não posso atender. Você queria é que eu visse que ligou, não falar comigo.

E como eu vou explicar que nunca me dei ao trabalho de decorar os horários dela? Sou totalmente espontâneo, ela sabe disso, ou deveria saber: ligo pra quem quero na hora que me dá vontade de falar com aquela pessoa. Ponto. Esse negócio de ligar pra alguém na hora em que você sabe que a pessoa não pode atender só pra deixar um recado na secretária, caramba, isso é tão não-eu que eu mal consigo apreender o conceito.

E eu explico: olha só, assim como a medida de distância é o metro, digamos que a medida do não-ligar seja, por exemplo, narjaras-turetas. E digamos, mais ainda, que eu tenha não-ligado pra você uma quantidade de 15,58 narjaras-turetas na semana passada. Isso quer dizer que você também não-ligou pra mim na exata mesma quantidade de 15,58 narjaras-turetas. A mesma reclamação que ela me faz de forma tão insuportavelmente deselegante (se quisesse mesmo falar comigo, não ficava sem ligar desde terça-feira!) eu também poderia fazer pra ela. Ou então, melhor ainda, ela mesma poderia se fazer essa reclamação diante do espelho e nos poupar a todos o perrengue. Que tal?

Não sei vocês, mas quando alguém que eu gosto e com quem não falo há algum tempo me liga, eu fico tão feliz que só consigo mesmo curtir aquela felicidade. Além do que, eu sei que se ela não me ligou, eu também não liguei pra ela, e então empatou tudo, não se fala mais nisso.

Estou ficando velho, minha vida, cada vez mais complicada e eu, cada vez mais louco, livre e seletivo. Cada vez tenho menos tempo pra gente que acho que não vale a pena. Quando ligo pra alguém, é um ato de amor mesmo, é porque quero muito falar com essa pessoa. Qualquer um que eu ligue (tirando a minha mãe, porque essa não tem jeito e mãe é assim mesmo) e me receba com esse tipo de cobrança, pode ficar certo que não vai receber outra ligação minha tão cedo. Talvez nunca.
A não ser, claro, que seja a mulher com quem estou transando.

Eu devo ser muito poliana mesmo, ou então vocês vão me achar muito cínico, muito as-uvas-estão-verdes, mas quando ouvi esse comentário pequeno hoje à tarde, eu fiquei até feliz.

Porque pensei: caralho, que delícia não precisar mais ouvir isso!

Fui muito feliz ao lado da Joana, mas comentários como esse quase me levaram à loucura durante meses. Saber que não preciso mais me rebaixar ao ponto de explicar que liguei na hora em que ela estava ocupada porque não sabia os horários dela, não porque não queria falar com ela, etc etc, hmmm, gente, eu juro, isso é uma delícia também.

Cada coisa na sua hora, claro, mas poder virar às costas pra alguém que faz um comentário desses é tão bom quanto sexo.

Elas por Elas

Coisas para se dizer a uma garota quando você fecha
a porta do carro na orelha dela na saída do cinema
(Baseado numa história real)

- Desculpa.

- Eu tenho mal parkinson, e minha mão tremeu ao segurar a porta.

- Do país de onde eu venho, esse gesto significa "Tenha boa sorte na vida, e que seus filhos sejam grandes e fortes"

- Da próxima vez você vai dirigindo, abre a porta pra mim e desconta.

- Sou sádico, e essa sempre foi uma tara minha. Amanhã brincaremos no porta-malas.

- Pense pelo lado positivo. Se isso fosse um caminhão, nessa hora você teria traumatismo craniano.

- Ainda bem que seu brinco gigante de argolas amorteceu um pouco do impacto.

- Eu fazia isso sempre com minha ex-esposa e ela nunca reclamava. Que Deus a tenha.

- Trabalho num curral, foi força do hábito.

- Éssa é minha habilidade e percepção para fechar portas. Você precisa me ver ao volante.

Zazoeira