28.2.05

Entre amigos

I
- Toma mais uma vodka porque a vesguinha ta vinda na sua direção.
- Nem ferrando, eu zero mas não barango!
- Dizem que ela é campeã de boquete na cidade.
- Manda espremer um limão na vodka.

II
- Vai lá mas não beija
- Ué por que?
- Pra ser campeã tem que ter muito treinamento né?
- Puta, que nojo!

III
- Bebi tanto que eu que fiquei vesgo agora.
- Xii cuidado que vão te confundir com a vesguinha campeã hein?
- Porra mas eu sou homem!
- Ela também!

Versão Simples

23.2.05

Eu não gosto de despir casas…

Eu não gosto de despir casas, desfazer ninhos. Não desmonto móveis, nem esvazio armários ou encaixoto livros. Não acondiciono louças, não empacoto discos, não embalo objetos. Tenho medo da vingança das coisas. Tenho medo dos dias que ficaram perdidos atrás dos armários, medo que eles me agarrem pelo pescoço e perguntem porque não os resgatei. Tenho medo de ver seus rostos negros, seus dentes finos arreganhados nas bocas cheias de um tempo esquecido. Não sei desconstruir história e temo que ela me arranque as tripas, me vire do avesso, me leve de volta à rudeza das impossibilidades, ao gosto metálico dos vazios. Temo a perversa sinfonia do eco entre paredes que não cercam mais nada, réquiem da profanação do que vivi naquele território. Prefiro o discreto abandono dos despojos.


Não Discuto, por Patrícia Antoniete

22.2.05

Sotto Voce

Sentia uma angústia repugnante dentro de si. O que era aquilo? Não importava, desde que consguisse se livrar da sensação incômoda. Insatisfação, impaciência, dor, ansiedade, a mistura de tudo isso, algo inominável, apenas um mal-estar íntimo. Não sabia. Mas um laxante resolveria tudo.

~~o0o~~

Seu sonho mesmo era ser artista. Ator, mais precisamente. O pai o obrigou a fazer faculdade de medicina. Um dia, no trabalho, ouviu um colega falando mal dos atores: "imagina, criar um filho para vê-lo se transformar num ator? Que desgraça! Preferia ter que interná-lo numa clínica de drogados." O sangue ferveu. Olhou para o colega com asco e desabafou com toda a mágoa contida até aquele momento: "Pois saiba que eu vou ser ator. Vou deixar tudo isso, toda essa farsa ridícula de status e dinheiro e ir atrás da minha felicidade", disse, e apontou no nariz do colega para concluir: "E você, seu babaca, ainda vai ouvir falar de mim". No outro dia não apareceu. Largou tudo e foi fazer teatro. Ninguém nunca mais ouviu falar dele...

~~o0o~~

Lembrou de Paulo Coelho. Jamais confessaria isso em público, claro, mas lembrou nitidamente. Fazia dois dias que estava com a maldita música na cabeça. Musiquinha ruim, chata, pobre, ridícula. Mas ali, renitente, dia e noite soando na sua cabeça. E ele não era pessoa de tolerar uma música tão feia daquela ressoando em si mesmo, era como trair-se, mutilar-se. Quando era adolescente leu um livro de Paulo Coelho, em que o mago dava uma fórmula mágica para se livrar de qualquer música que insista em ser lembrada contra a vontade. A solução, segundo ele, era cantar a dita cuja a plenos pulmões, bem vividamente, e a infeliz desapareceria da mente num passe de mágica. Mas cantá-la ali, no meio dos amigos, todos eruditos esnobes e mau humorados? Conteve-se. Mas por pouco tempo, pois a música o incomodava mais que os amigos. Abriu a boca e cantou. Até afinadinho, ele. Mas todos o olharam enviesado, se afastando com gestos reprovadores. A maior vergonha de sua vida. E a música, ai meu Deus, ainda estava no mesmo lugar.

Órbita

18.2.05

Cadeia

A moça lavou a louça. Limpou a casa. Vestiu a roupa. Saiu pra rua. Chamou um taxi. Subiu no taxi. O taxi andou, parou. A moça desceu. O moço saiu na rua. Encontrou a moça. Pegou a bolsa. Roubou a moça e correu. Fugiu da moça. Que chorou.



Ela ligou. Sete horas. Tá tarde. Chovendo. Que merda. Pára de reclamar. Pára você. Não fica assim. Você já viu? Não, nem quero ver. Então tá. Você fala demais. Que merda.


A vida em mensagens de celular: mor jantar hoje 8 passar mercado salgadinhos. em reuniao, combinado. pode pegar criancas no colegio as 6? ok. more a Dani tambem vem, compra bastante salgadinho. ok. amor cade voce? os meninos estao esperando no colegio. mor quando puder liga, preocupada. desculpa estava em reuniao ja vou. estava preocupada, monstro, nao faz + isso. soh salgadinho? vinho se tiver. estou voltando. colegio ligou voce esqueceu criancas. foi mal.

fserb

15.2.05

É GIZ NO TACO

A já célebre partida de sinuca que Inri Cristo ganhou de Cacá Rosset tem tudo para ser, numa leitura óbvia e apressada, um embate entre duas teatralidades, a messiânica e a do tablado. Pulando essa curiosidade semântica, é irresistível tentar repensar o simbolismo com cores um pouco mais bizarras e nem por isso inverossímeis. Imaginem, por um instante, que o barbudão de camisola fosse mesmo o Messias e Cacá – na medida em que sua persona performática o permite – o demônio. Ambos disputando os destinos da humanidade.

Como o diabo é o rei da cizânia e da desunião, Cacá abre o jogo estourando as bolas. Depois de vê-las espalhadas pela mesa ele sussurra a Inri: “Amoleço o jogo se aqui, prostrado, me adorardes”. E Inri, passando o giz no taco: “Perdestes a cabeça? Ambiente de sinuca e eu me ajoelhando à vossa frente? O que o pessoal das outras mesas vai pensar?” E Inri mata a bola dois. Cacá tenta novamente: “Se eu acertar a seis na caçapa do meio, dar-me-eis o Vaticano - incluindo os tapetes, a prataria e as reservas do Banco Ambrosiano ”. O barbudão não se intimida: “Vós sois ímpar”. Cacá, envaidecido: “Pois então, não sou mesmo inimitável?”, e Inri esclarece: “Não, estou dizendo que mato as bolas pares e vós as ímpares.” E mata a doze. Cacá: “Se eu matar a três por tabela, permitireis que eu faça o materialismo marxista triunfar”. Inri: “Se conseguirdes colocar o marxismo em prática, tiro meu quipá.” Mas Cacá erra a bola. Inri mata a oito. Cacá não desiste: “Mato a três e a nove de uma só vez e me concedereis a vida do Papa, cuja saúde já anda mesmo pela bola sete”. E Inri: “Não vedes que ele já morreu assassinado a tiros há vinte e quatro anos, e em seu lugar colocamos um sósia – um contabilista paranaense?” De qualquer forma Cacá acerta as bolas. As do jogador da mesa ao lado, ao fazer o bolão espirrar e acertar as partes baixas do cidadão. Ânimos serenados, ele resiste: “Mato a cinco de olhos fechados e permitireis que eu leve o Ratzinger para o inferno”. Inri pensa um pouco, um sorriso lhe ilumina a face e ele: “Topo!” Mas Cacá acerta acidentalmente o ás e perde. Fim do jogo.

E nós aqui, mal sabendo do que escapamos.

Ao Mirante, Nelson!

O Poder vai Sambar

"Quem não gosta de samba
Companheiro não é
Pêfêlê na cabeça
Pega ele, Josef !"

Entra na Esplanada a escola de samba mais esperada pela platéia que deliiiiiiira: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos dos Três Poderes ! Neste ano, o carnavalesco Zé "Stálin não Morreu" Dirceu, com a generosa ajuda do corretor zoológico Carlinhos Cascatinha, resolveu ousar e explorar temas mais controversos, como o deste ano: "Fome Zero é coisa de rico, pobre gosta é do IBGE". No ano passado, todos estão lembrados, o enredo "Cotas e cocotas: eu quero ver o negro entrar" foi objeto de muita polêmica, principalmente por causa da ala "Vem neguinho, miscigenar é gostosinho", que falava dos trotes cruéis pregados nos estudantes negros pelas sociólogas da PUC. Zé promete que neste ano os carros alegóricos baseados nas metáforas presidenciais ficarão além de tudo que já se viu na Esplanada.


Aqui, uma avaliação que nossos experts fazem da possível pontuação da Unidos dos Três Poderes nos quesitos da Liga das Escolas de Samba de Davos:

Harmonia: são julgados o comportamento da escola, o entrosamento dos integrantes, a coordenação e o sincronismo entre canto, ritmo e a coreografia na avenida. Neste quesito a Unidos não deve pontuar bem, já que as alas da esquerda, da direita e do centro vivem trocando de lugar, confundindo os jurados, o público e os cientistas políticos.

Evolução: trata-se do andamento da dança de acordo com o ritmo do samba-enredo e a bateria. Nesse quesito, não há dúvida de que a escola aprendendeu a dançar conforme a música, abandonando marchinhas antigas como a "do povo, unido, jamais etc.", em prol de arranjos mais modernos, como a da bandinha de música da UDN.

Enredo: os julgadores analisam o argumento do tema central escolhido pela escola. A escola não deve alcançar boas notas, pois o enredo deste ano é confuso e, o que é pior, parece imitar o de carnavais passados.

Alegorias e adereços: concepção plástica do enredo. São julgados originalidade, propriedade, cores, movimento e efeito. Este é o quesito onde a escola tem consistentemente ganho mais pontos, porque os carros alegóricos _ desde o aerodinâmico Aerolula e as Aeromoças do Barulho até o dramático A Luta entre a Fome e a Anorexia no País dos Obesos _ incendeiam a imaginação da platéia.

Fantasias: são julgadas em relação à criatividade, cores, efeito individual e coletivo, variedade e adequação. Como desde o ano passado o carnavalesco tem estimulado os integrantes da escola a rasgarem a fantasia assim que pisam na pista, as notas têm sido baixas, já que sobra pouca fantasia para permitir qualquer avaliação.

Comissão de frente: os julgadores devem levar em consideração o cumprimento da função de saudar o público e apresentar a escola na avenida. Os integrantes têm que estar em perfeita coordenação e harmonia. O interessante é que a escola resolveu inovar criando, além da comissão de frente, as comissões de lado e as comissões de trás. O aumento excessivo de cargos em comissão vem fragilizando as finanças da escola, que por isso, instituiu mais uma comissão, a comissão dez por cento.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: casal que carrega a bandeira da escola. São observados a postura, a elegância, a graça e a leveza da Porta-Bandeira. Já o Mestre-Sala é avaliado na flexibilidade, variedade de passos, cortesia e proteção à bandeira. Aqui a escola vem tendo problemas, já que o Mestre-Sala da Silva não é propriamente flexível e leve, embora seja um mestre em dar bandeira. Já a Porta-Bandeira é mais conhecida pelo prenome, "Porta".

Duração do desfile: O tempo de duração do desfile de cada escola de samba será de, no mínimo, 65 minutos, e, no máximo, 80 minutos. Neste quesito também é provável que a escola ganhe poucos pontos, porque há boatos de que findo o desfile o carnavalesco pretende trazer de novo a escola para a pista, quantas vezes forem necessárias pro povo aprender o samba de uma nota só.

SMART SHADE OF BLUE

Ô, batíria!

No ano em que completaria 16, ele gritou seu “Fico” –enquanto a família toda ia, claro. Feriado era sempre aquela caca –excursões para a praia ou campo, horas de congestionamento, tudo lotado, chuva, tédio. Usando como desculpa a nonna que morava com a família e não viajava por motivos iguaizinhos, ele enfrentou a cara fechada do pai, os resmungos da mãe e começou a passar feriados em Sumpaulo. Um dos motivos principais era o fato de que a capacidade de patrulha da nonna era zero. Nove e meia, se tanto, ela caía dormindo, e bastava estar de volta antes das seis do dia seguinte, quando ela acordava, para escapar de qualquer controle.

Não, não se tratava exatamente de anseio irrefreável por walks on the wild side. Era mais a adultice da coisa –sair sozinho, ou o mais das vezes com outro amigo da catigoria “encostado na vó”, ir ao bar, assistir até a última entrada da última banda, dar uma canja com um dos 15 mil músicos que ele conhecia (sempre sobrava alguém tocando na cidade, em feriado –quem é que vai viajar quando pode fazer show?) Depois, longas caminhadas de volta, ou longas esperas movidas a Thomas Mann, Dostô, Thackeray, pelo ônibus da madrugada, saindo de uma em uma hora do ponto inicial na Praça da República. E havia sempre a perspectiva de que a amiga/major crush tivesse um surto de irredentismo germânico e resolvesse convocá-lo –ela sempre convocava, nunca convidava- para alguma coisa, caso cismasse de não acompanhar os pais teutônicos nas viagens de feriado à casa maravilhosa que tinham em um canto majoritariamente europeu da Riviera de São Lourenço (“argh, parece um Congresso de Nuremberg, lá”, resmungava Beate).

Ele gostava dela, ela sabia, nenhum dos dois tomava uma atitude por medo de funhanhar a amizade, feita daquela mistura de devoção e hostilidade ranheta tão peculiares da adolescência (quando ela e as amigas alemoas caminhavam juntas no colégio, ele sempre saudava a cena assobiando a “cavalgada das vaquinhas”, apelido que logo ganhou uso amplo na ala não ariana da população escolar). Eram amigos, muito a contragosto, por apego comum a determinadas coisas –um certo tipo de rock, qualquer tipo de livro- e por aversão comum a absolutamente tudo mais. Em especial aquilo que ambos, razoavelmente acostumados a passar períodos fora do Bananão, designavam “coisa de brasileiro”.

Das muitas “coisas de brasileiro” que abominavam, a mais disgusting sempre foi o carnaval. A parafernália toda causava engulhos a ambos –o frenesi compulsório, os desfiles interminavelmente bregas, as letras dos sambas, o baticum interminável de tambor (e nada de assar os missionários, comme il faut), o rebolado-de-branco-dizendo-no-pé. No ano do Fico, ele ficou. Ela ficou. E os dois planejaram o evento todo –iam ouvir Béla Bartók, iam ouvir Debussy, iam ouvir o Echo and the Bunnymen novinho que ela gravara do programa do Kid Vinil. E assistiriam a um monte de vídeos. Vídeos cabeça, claro. Porque Steven Spielberg é coisa de brasileiro.

Por medo da fofoca da governanta alemoa -chamada Bertha e tudo-, o QG da operação era a casa dele. (Todo dia, exatamente à meia-noite, toque de recolher dela em feriado, o motorista passaria para apanhá-la.) E tudo ia de acordo com os planos –jovens pretensiosos ouvindo música maravilhosa e trocando opiniões very supercilious sobre livros que eles mal entendiam- até o terceiro dia, quando a nonna decidiu se manter acordada depois do toque de recolher terceira idade, pra ver a Beija-Flor na Sapucaí, o que empatava o vídeo. O filme do dia era Bergman (porque no mundo não tem nada mais clichê do que jovens cabeça), e a solução que ele propôs, acatada com muita piadinha ginasiana de parte a parte, foi montar o aparelho no quarto dos pais, onde ficava a outra TV. Deitaram na cama, very VERY self-conscious, e botaram Det Sjunde Inseglet*.

Contemplar o gênio dos outros em ação é a major turn-on, em qualquer idade. Aos 16, quase abraçados numa cama de adulto e com três dias de blablablá intelectual zunindo nas orêia, não admira que cedessem. Por sorte ou azar, o vídeo enguiçou uns 10 minutos antes da Dança da Morte. O tranco do aparelho os tirou do transe. Os dois pularam da cama, morrendo de vergonha e, enquanto ele tentava “consertar” o vídeo, ela ligou e pediu que o motorista a apanhasse mais cedo. Na terça-feira, entendimento tácito, decidiram ir ao cinema. Assistiram Ghostbusters. E na semana seguinte, de volta às aulas, ele e os outros meninos estavam sentados na mureta que delimitava o pátio quando ela passou com a gangue alemoa. Os cinco assobiaram o trecho mais manjado da cavalgada das vaquinhas.

*O Sétimo Selo

Filthy McNasty

10.2.05

paradóques

chocolate engorda. massa engorda. coca cola engorda. arroz engorda. mas no fim só eu engordo.

viva a saciedade alternativa

30.1.05

Homem é bem semovente

Atendendo a pedidos, aqui vai a pérola da Letícia Maria:

Não existe uma única mulher que se aproxime de outra - que disponha desse cobiçável bem que é um homem - que venha com aquela conversa mole de cerca-lourenço de coração partido, de relacionamento recentemente findo (elas adooooram essa) que não tenha como único e singular objetivo de toda essa chateação catar o homem da outra.
E homem, como todas sabemos, cai na categoria de bem semovente, alguém tem que pegar e puxar pro bem se mover, se a falsa puxar ele não vai poder fazer nada e vai ir, como semovente que é.
Depois morre de vergonha, de ressaca moral, de arrependimento, mas vai.
O que nos diferencia, a nós, mulheres descoladas e superiores, é que o semovente volta, com cara de tacho, mas volta.

Aquela Vaca não me deu a cerveja!

SOLIPSISMO

Depois de me debruçar em estudos obsessivos sobre o solipsismo fui levado a inferir que no mundo só existo mesmo eu, o excelso autor dessas linhas. O ambiente, as demarcações geográficas e o cosmo que me rodeiam não passam de benevolente criação minha. Claro que você também, provável e almejado leitor. Você existe unicamente por me ler; assim que seus olhos se despregarem destas linhas sua existência finda. Lamento: nunca houve um antes em sua vida, como também pode ir esquecendo o depois. Evidentemente você não vai se lembrar de haver desistido da leitura porque quem deixa de ser, salvo engano, não se lembra. Se eu fosse você não pararia de me ler pelo resto da vida – após o “mais” lá embaixo voltaria ali ao “Depois”, e assim por diante. Mas isso, claro, também é uma esperança tola que nem vou insistir em lhe inculcar. O mundo é minha grande invenção; o solipsismo me deu uma razão de viver. Meu psiquiatra comentou ontem que surtei após ler tanto sobre o assunto, mas a psiquiatria é uma invenção que realmente preciso aperfeiçoar um pouco mais.

Ao Mirante, Nelson!

25.1.05

História meio torta

Diana era uma mulher normal. Mediana.

Meio bonita. Meio feia.

Meio legal. Meio chata.

Meio esperta. Meio burra.

Medí­ocre, enfim.

Meio que tentava se dar bem com as pessoas. Meio que conseguia se enturmar.

Meio que era aceita.

Meio que era esquecida.

Então, numa noite meio nublada, Diana cansou.

Enjoou da vidinha meio mais ou menos que levava.

Deitou-se no meio da estrada.

E meio que encontrou o seu caminho.

Num dia de folga

24.1.05

Don Giovanni

É preciso ter um coração de pedra pra não torcer pelo Don Giovanni quando se ouve a ópera de Mozart. É verdade que ele estupra Donna Elvira e mata o pai dela. Também é verdade que ele engana e abandona Donna Elvira. E é preciso admitir que ele seduz a pobre Zerlina no dia do casamento dela. Mas isso são detalhes.

FDR

Sinus news

Na infância não era tão grave, tudo piorou com os outros cinco irmãos que vieram depois e as reuniões de família que aumentavam de acordo com casamentos e mais e mais filhos e mais e mais tias - uma irritação no nariz, às vezes do lado direito, às vezes do esquerdo, doendo perto dos olhos, no rosto todo, na verdade, começando do nariz, dando terríveis enxaquecas e espirros em todos feriados. Telemarketing. Desenvolveu uma voz agradável, porém madura e masculina, aos doze anos de idade, comprou uma casa aos quinze. Mesmo sozinho, não era a era da Internet ainda, tinha de sair às ruas para comprar comida, comprava aos poucos, já conto porque, Porque prendia a respiração perto das pessoas, nas ruas, nos ônibus, não tinha carteira de motorista ainda, em todo lugar, para não sofrer da alergia aos feromônios, que combinados com o próprio causavam uma estranha reação, uma rejeição, na verdade, como um coração - e verde e nojenta. Tentou fazer as compras de três meses todos, de uma vez só, uma vez, e prendeu a respiração perto da caixa do super-mercado e da fila e do gerente e do garoto que ajuda com as sacolas. Estourou uma veia do olho, deixando uma mancha permanente, mas nada muito sério, perto da íris. E passou a comprar poucas coisas, por vez, às vezes, comprando e voltando as estantes vazias do super-mercado, para comprar de novo (alvejantes e sabonetes e perfumes não lhe faziam mal), até não precisar mais sair de casa por um bom tempo, estocando papel higiênico, comprando um pacote a cada ida ao caixa, oito vezes por dia, na sala de estar, perto das revistas e dos livros.
Qualquer traço dos cheiros naturais dos outros, que são combinações de desodorantes, sabonetes, shampoos, sabão em pó e o cheiro próprio do próprio organismo, impossível de existir dois iguais, como flocos de neve, digitais, e etc, etc - uma vez, o zelador veio verificar um estranho cheiro de podre no apartamento, reclamação dos vizinhos - desencandearia uma dolora crise de espirros, que formavam figuras humanas se olhasse pra elas, minie mulheres, às vezes, só os rostos, adoráveis, escorrendo pelo nariz.
E viveu sozinho, tanto quanto pode, telefonando sempre para a mãe, e o pai, mas não visitando ou recebendo e oferecendo um dois dezesseis tipos de refrigerante da casa, e de vez em quando, para os irmãos - que muitos mesmo quando não podiam falar já provocavam uma ligeira dor, perto das sobrancelhas - até se apaixonar e voltar para a fila com trinta e oito caixas de lenços e artigos da drogaria.

Politics is show bussines for ugly people

19.1.05

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

Os dedos batem com certeza no teclado. São os dedos que têm certeza, não é a mente. A mente não tem mais certeza de nada. A solidão em que me encontro, solidão de amigos, não de família - os amigos, não vejo desde o dia primeiro, quase nenhum, a família tenho visto sempre - a solidão em que me encontro e o livro que terminei hoje de ler, um capítulo, um copo d'água, um capítulo, outro copo d'água, outro capítulo, uma ida ao banheiro e outro copo d'água, o último capítulo, me fazem beirar algum tipo de loucura.

Ando lendo os números trocados. Li duas vezes o parágrafo onde havia "vinte e sete meses comendo a mesma merda" e li "vinte e seis". Duas vezes. Os números trocados ocorreram em número maior de oportunidades, no relógio. As confusões faziam parecer que o tempo estava andando pra trás. Quando comecei esse capítulo eram 2:20, agora, que começo este, são 2:14... Confusões assim. Será a loucura?

E eu, sozinho, no balcão do bar do Instituto Goethe, porque chovia muito e eu não podia ir pra casa naquelas condições, comendo chucrute, tomando a cerveja que esquentava na garrafa, pois eu não podia bebê-la toda enquanto ainda estava gelada, por uma questão física, eu pensava em várias coisas, olhava os anúncios, ouvia trechos de conversas das pessoas, olhava para a vela cheirosa - porque o bar tinha estilo e velas cheirosas, e eu jantava chucrute à luz de velas, sozinho.

Mas os dedos não erram, e quando erram, reconhecem e corrigem sozinhos, sem o auxílio dos olhos.

Reticências de um Poeta Morto

"I swallow till I burst"

"Idioteque", do Radiohead. A música fala sobre um navio afundando (me parece). Quando li o nome pela primeira vez, antes de escutar a letra, pensei em várias prateleiras (todas elas de metal polido e muito limpas) fixadas em paredes muito brancas. Nas prateleiras, idiotas. De todos os tipos, organizados por códigos muito simples ("você fica entre aquele de camisa azul e listras brancas e a parede - 'a coisa dura'") para que eles mesmos pudessem lê-los e, assim, permanecer cada qual no seu canto. Não sei qual seria a sua utilidade, mas eu teria algumas vultosas contribuições a fazer. Todos arrumadinhos ali, sem sair do lugar, em silêncio. Sim, claro! Seria essa a sua maior e mais benfazeja utilidade: todos os idiotas em silêncio, quietinhos, dando paz aos outros ouvidos cansados e enfastiados.

Maravilhoso!

A Box

Correio Sentimental: P & B

Suponhamos que ela seja canhota e suponhamos que ele seja filho único. Se acreditarmos que ela gosta de mussarela de búfala, e que ele sabe de cabeça qual é a raiz quadrada de 18496, é possível calcular quantas vezes os dois tomaram coca-cola durante o ano passado. Oh! É extamente o mesmo número! Deve ser um sinal. Então está tudo certo, vão namorar, casar e ter filhos. Um cachorro talvez, apesar de ela gostar de gatos. Os dias passam, a gasolina sobe, o Globo Repórter apresenta um especial sobre a piracema, outro sobre a pororoca. Eles ficam gripados juntos. Parece tudo perfeito. Mas falta algo, talvez um código binário.

Um dia, 792 horas depois que eles se conheceram, ela passou a usar o cabelo de lado e não mais partido no meio. No dia seguinte o celular dele foi clonado. Ele achou que o cabelo deu azar. Ela não conseguiu decorar o número novo. Viraram história. São como páginas rasgadas de um mesmo caderno universitário de 24 matérias. Para que tantas páginas? Tanto espaço para escrever sobre momentos como esse, que com o passar do tempo não passam de fotografias desfocadas.

Ela fala que amou. Ele disse que amou. E feliz aquele que sofreu e sentiu por cinco segundos a intensidade da gota do limão, que caiu certeira no olho, no momento em que ele foi espremido. Foi amor em preto e branco. Mas não mudo. E sim, com o charme cinza azulado dos filmes de antigamente. No final, ela bloqueou ele no MSN. E ao saber desse ato, ele pensou: "Ingrata. Eu coloquei três coraçõezinhos para ela no meu orkut."

Notícias do Mundo de Cá

15.1.05

POST NOIR

Noite chuvosa. Meu blog estava às moscas, como ocorre a todo blogueiro do lado leste de San Francisco nesta época do ano. Eu baixava um MP3 do Wynton Marsalis enviado por Jack Fuinha, o único comentarista de meu blog – quando de repente ela entrou na caixa de comentários: alta, insinuante, cool, toda atitude, as bordas azuis e... ah, certo, eu descrevia a caixa de comentários. Mas então entrou lá aquela loura fantástica. "Meu marido sumiu", disse o comment, complementando: "Agora passa lá no meu fotolog e não esquece de deixar um comentário". Acendi um cigarro e, a bordo do meu mouse cupê 1996, rumei ao fotolog dela. Chegando lá vi as fotos do marido desaparecido. Deixei um comment: "50 dólares a hora, mais despesas". Ela postou um emoticon com uma pequena lágrima, e eu teclei: "Meu coração é mole mas o bolso é duro, boneca. É pegar ou largar". Ela postou um smilie (não sei se por causa da última frase ou do "duro") e voltei então ao meu blog. Encontei o template todo desarrumado, como se o houvessem invadido e revirado. Já saberiam que eu estava no caso? Mandei um MSN a Little Todd, meu fornecedor de código html e de fofocas. Perguntei se ele podia arrumar o template e o que ele saberia do caso. Ele cobrou oito dólares adiantados e passou a dica: o fotolog da loura estava nos Toplinks – ela devia ser do high society da blogosfera. Acendi um cigarro, peguei novamente o cupê 96 e fui até o Google. Digitei o nome do marido desaparecido. No meio da pesquisa meu ICQ foi invadido por uma gang de vírus com sotaque armênio, que ameaçou desconfigurar meu Explorer se eu não desistisse da busca. Acendi um cigarro, arranquei com meu cupê 96, dei um cavalo-de-pau em torno do teclado até clicar no Norton Antivírus que Little Todd disponibilizara em minha máquina. Livre por um fio de mouse da máfia armênia, prossegui até descobrir, via Google: o marido desaparecido havia entrado para uma comunidade hippie no Orkut, e não retornaria mais aos blogs. Acendi um cigarro. Voltei ao fotolog da loura, o qual, para minha surpresa, mostrava fotos dela aos beijos e abraços com... Jack Fuinha. Fora tudo armação dele, vingando-se porque eu nunca respondia a seus comments. Ele na verdade era webmaster, e fora quem providenciara o ataque dos vírus armênios. Sem falar do conluio com a loura fotoblogueira, sua amante. E agora? Eu estava sem um tostão. Minha conexão era discada – quem pagaria pelas incontáveis horas em busca do marido sumido? Jack e a loura enviaram um emoticon risonho e com chifrinho, postando: "Contente-se em saber que o provedor pode desabilitar seu blog antes que a companhia telefônica corte a linha, old pal". Suspirei. Era uma noite chuvosa. Acendi um cigarro e, a bordo de meu cupê 96 – que já dava mostras de falhar a qualquer momento – acessei a página da Organização de Combate ao Enfisema.

Ao Mirante, Boneca!

24.12.04

Os olhos dele eram azuis

Fosse apenas pelos grandes e belos olhos azuis dele, já teria valido a pena. Brinco na orelha esquerda. Magro. Mais ou menos alto. Econômico e elegante nos gestos, nas escolhas, até mesmo no jeito despojado de vestir, calculado tal como o desenho perfeito do cavanhaque. Era uma espécie de garotão grisalho, conjunto que, para ela, estava bem além do agradável.

Nunca haviam se visto antes e, no entanto, ela se sentia bem ali, tomando um café sem a menor pressa, ouvindo e se perguntando como um sujeito podia ser ao mesmo tempo tão adorável e tão odioso. “Você tem seus encantos”, ele falou. “E seus elogios são quase ofensas”, pensou ela, mas nada disse, sorrindo sempre, afundada no sofá da cafeteria, pés cruzados em cima da cadeira à sua frente, à espera de um sinal, qualquer sinal, um gesto, uma frase menos desajeitada, qualquer coisa que espantasse aquele incômodo que era a poeira levantada de tempos em tempos pelos comentários dele, de uma agressividade tão contida quanto indisfarçável.

“Me destestou”, ela imaginava, quando foi interrompida pelo beijo dele. Adorável. Seguido da frase: “Você é algo tangível”. Odioso. Imediatamente, ocorreu-lhe que seria apenas uma mulher acessível, algo como “é só que ele tem ao alcance das mãos”. Ele a detestara, era certeza. “Vamos transar?”, ele perguntou. “Não”, foi a resposta dela, um biombo para seu óbvio desejo. Não iria para a cama com aquele sujeito, isso era definitivo, porque não entendia o que ele não dizia e tinha a impressão de que as palavras que saíam de sua boca eram embaladas por uma violência silenciosa com a qual não sabia lidar, ela e sua cordialidade distante, sua delicadeza domada.

Do nada, ele saiu-se com esta: “Tá vendo aquele casal ali? O que aquela menina tão bonita viu num sujeito feioso daquele? Um bolha, olha o cara. Não tá nem aí com ela. E olha que até eu me apaixonei por ela”. “Vai lá e trepa com ela”, respondeu-lhe, cuspindo cada sílaba em voz baixa e clara. “Não tem nada a ver. Com a gente, é outra coisa, é real. É tangível”, ele disse, levantando-se para pagar os malditos cafés. Tangível eram a mãe dele, a irmã, a filha... Ela não queria ir e tinha raiva de querer ficar, mas conformou-se.

Já na calçada, sem olhar diretamente em seus olhos, ele falou: “Se a gente não transar hoje, acho que não vai rolar nunca mais”. “Chantagem?”, ela perguntou. “Não. Palpite”. Despediram-se com um beijo na boca. Ternura. Não se entendiam com as palavras, talvez se entendessem com os corpos. "Bobagem romântica", ela pensou, rindo. “Vê se não some”, foi a última coisa dita por ele, enquanto ela entrava no carro com pressa de tirar dali a barafunda de atrapalhação, inquietude, medo, raiva e tesão que lhe revirava o estômago e os pensamentos. Desapareceu em segundos na noite da larga avenida.

Ponto, afinal

PARENTAL ADVISORY

E a saga das tosqueiras de natal continua!

Hoje eu fui com a mamãe no shopping comprar o presente de natal da minha amada sobrinha.

A mamãe queria dar uma boneca de presente. Tive de dissuadi-la, por considerar bonecas um tipo de brinquedo tremendamente sem graça. Só dá pra brincar de casinha com elas. Além disso, ela já iria ganhar toneladas de bonecas dos outros parentes.

- Olha que legal, Rafa! Um tapete de amarelinha da "Turma da Mônica".
- Ótimo. Perfeito. Pode levar, a menina vai adorar. É um presente divertido!
- ... Rafael, mas olha só isso aqui... Diz aqui que contém partes pequenas que podem ser engolidas.
- Mãe, isso é só um tapete.
- Como a menina vai engolir um tapete?
- Não subestime a capacidade das pessoas de fazer merda.

Fábrica de Sabão da Rua Paper

23.12.04

A Pergunta

Depois de atravessar oceanos e montanhas, de enfrentar tigres e tempestades, de passar, durante meses, sede, fome, frio e calor, o jornalista chegou finalmente à cabana do homem mais sábio do mundo.

- Mestre! Suplico que me ajude!
- Pergunte qualquer coisa, e obterá a resposta.

O jornalista ajoelhou-se, perguntando com voz trêmula:

- Blog é literatura?
- Ora, vá pra puta que pariu, respondeu o sábio, antes de afundar o cajado na cabeça do sujeito.

FDR