10.2.04

Mas como eu ia dizendo, resolvi brincar de pessoa saudável e entrar para a "acadimia", aquela mesmo, a da hipermetropia, lembram? Então. Ontem foi o primeiro dia. Sempre fico nervosa no primeiro dia que eu vou numa acadimia, fico com aquela sensação de que as pessoas vão sair correndo atrás de mim me jogando anilhas e gritando: "Fora, sua gorda! Rua daqui, flácida sedentária!" e coisas do gênero, mas não, nunca aconteceu. Sempre vem um/a instrutor/a todo/a malhado/a e gostoso/a me atender muito gentilmente. O moço que veio me atender ontem era um instrutor sem bunda, mas tudo bem, paciência, não se pode ter tudo, dizem.

Ontem fizemos a primeira parte do treino, hoje é a segunda. O chato é que eu fui bem naquele horário planeta dos macacos, sabe, aquele horário que só tem aqueles caras enormes, que parecem grandes gorilas depilados. Eu olhava com o cantinho do olho para ver se nenhum deles ia de um aparelho ao outro usando as mãos como apoio, mas não, não, a semelhança com o elo perdido é mera coincidência. Sei lá porque aqueles caras resolvem ficar daquele tamanho, vamos combinar: um cara todo gostosinho, malhadinho, é bonito, mas tem limite, quando até a cara da criatura começa a ficar musculosa é porque alguma coisa está errada, não, não, não curto. E aquelas figuras que fazem esteira dando soquinhos o ar?! Por favor...

Mas o panorama, o panorama é bom, não dá para reclamar, tem uns que ainda não chegaram no ponto planeta dos macacos e são uma gracinha. Mas bati o olho e fiquei foi num magrinho de óculos (não, eu não tenho cura!) que, logo descobri, é o professor de wingtsun (e que diabo é isso?!?!?). Aí fiquei lá assistindo o bonitinho dar aula de artes marciais. Tããão gracinha, já tava até vendo o moço na frente de um computador cercado de livros de filosofia e poesia oriental (alguém me salve, por favor!!!).

Hoje volto lá para fazer o treino de membros inferiores. Vou ter que voltar no horário planeta dos macacos, porque é o horário do instrutor-sem-bunda, mas vou ver se descubro o horário dos pelancudos para poder me juntar a eles... mas aí perco a aula do bonitinho... hummm, não sei, vou meditar sobre isso.

* * * * * *

O rei do Planeta dos Macacos, sim, o MAIOR cara da academia, o próprio macho alfa, o cara é enorme, totalmente ASSUSTADOR! Mas, como eu ia dizendo, o rei do planeta dos macacos está que é só sorrisos e gentilezas comigo. Ontem arrumou o aparelho para eu usar; hoje, como eu não conseguia encontrar meu cartão para passar na roleta da entrada, ele, que já estava do lado de dentro, pegou o próprio cartão e passou para liberar a roleta e depois fez uma revêrencia para mim.
SO-COR-RO!!!

* * * * * *

- Comi dez bananas, cara, dez!
- Bá, cara, e eu que um dia desses comi doze! Doze bananas, cara!

Diálogo verídico, senhoras e senhores, entre Macho Alfa e outro membro do Planeta dos Macacos.

* * * * * *

- Isso. Assim. Vai. Beleza. Assim, assim. Abre. Assim. Isso. Isso. Aí. Beleza.

O instrutor-sem-bunda me "ajudando" com os exercícios de peitoral.

A Caverna da Ogra

8.2.04

Era pra ser só dengo, mas...

Sabem aquelas caras e bocas que as mocinhas dos filmes fazem quando morrem no final? Pois é, sempre que eu vou parar no hospital me dá uma crise daquelas. Por melhor que seja o quadro médico, sempre que tem alguém por perto eu me faço de "prestes a morrer". Eu acho romântico, oras! Vou fazer o quê? E é romântico. Uma vez cheguei até a fingir que a respiração parou. Interrompi a frase no meio, deixei a cabeça despencar para o lado, fiz uma boca mole, fechei os olhos repentinamente e engoli o ar. O namoradinho da vez quase teve um ataque. Pena que durou pouco. Na primeira sacudida que ele me deu eu descambei de rir. Se eu tivesse conseguido segurar o riso só mais um pouquinho, talvez ele tivesse chorado ou chamado os médicos. Teria sido mais divertido. Não entendo como ele não se separou de mim naquele dia.
Enfim, até ontem achei que fosse gripe, mas eu estava cada vez pior. Tudo bem que qualquer dorzinha me deixa de quarentena, mas dessa vez o babado parecia sério. Como a febre não baixava, dramaticamente, a contra gosto, fui levada ao hospital. E já que estava lá... tchãran! Caras e bocas de prestes a morrer. É incontrolável.
Horas depois, quarto de hospital, maridon segurando minha mão e eu ainda com ares de despedida (ninguém vai levar a sério a minha morte no dia que ela acontecer de verdade). Aproveitei para tratar de assuntos do meu interesse pós morte...

- Se eu morrer você vai casar de novo?
- Vou.

Maridon nunca soube brincar. Está escolado dos meus dramas mexicanos. Sorri, um sorriso de hospital e não desisti de vivenciar a melhor parte de uma internação...

- E você vai gostar mais dela do que gostou de mim?
- Isto é impossível.

Que bonitinho... Está vendo como funciona? Todo mundo se abre como mala velha no leito de morte. Mesmo quando já está esperto. E olha que era pra ser só a gripe da galinha preta, mas aí o médico entrou no quarto e...

- É dona Alessandra, a senhora pode estar com dengue.

Eu deveria ter ficado assustada, mas me acabei de rir. De todos os males que podem levar alguém para um hospital, a dengue é a menos romântica. Não dá pra fazer tipo com dengue. A palavra dengue por si só já é ridícula. Maldito fim de semana na praia. Bah! Devo ter sido picada por um dos trezentos milhões de mosquitos daquele lugar e estou com dengue.

Amarula com Sucrilhos

7.2.04

(SEM TÍTULO)

Há livros cujo título já justificaria sua simples existência. Livros que nem precisariam ser escritos, pois o título é uma obra-prima por si só. Por exemplo, "No Ventre da Besta", que apesar do excelente título, é um livro chatíssimo onde Jack Henry Abbott, um presidiário problemático, desfia sua filosofia capenga em cartas endereçadas a Norman Mailer. Todos ganhariam se o livro jamais fosse escrito, se apenas subsistisse seu título, como mera sugestão para uma obra maior. Na contramão dessa teoria, existem verdadeiras maravilhas da Grande Literatura sob títulos prosaicos ou muitas vezes enigmáticos, como "O Processo". Os english-speakers têm inclusive um ditado - nem sempre aplicado à literatura - que faz alusão a este fenômeno. É "you can´t judge a book by the cover", que pode ser usado, por exemplo, para explicar os verdadeiros motivos que levam um cidadão a casar com uma mulher de minguados atributos físicos, se é que me faço claro. Mas devido à Natureza Humana, sempre julgamos os livros pela capa, e as mulheres pela bunda. Sad, but true.

Pois o fato é que tenho tudo para ser um escritor bem-sucedido: sou culto, ateu, criativo e muito mentiroso. Mas me falta o essencial. Não consigo batizar adequadamente meus textos. Idéias, as tenho às mancheias (mancheias? contenha-se, Levedo!). Mas e os títulos, rapaz? É esse o caroço da questã, como diria o Analista de Bagé.

Você pode não conseguir concatenar uma frase na outra, mas, se tiver um talento excepcional para criar bons títulos, é muito mais que meio caminho andado.

Por exemplo, esses dias fui fulminado por uma idéia brilhante em pleno trânsito. Na verdade, nem era tão brilhante assim, pois o George Simenon já explorou algo vagamente parecido num dos seus romances. Mas também, sobre o quê esse belga safado não escreveu? A idéia era a seguinte: um homem e uma mulher vivem juntos e se amam doidamente, mas não suportam conversar um com o outro. Ambos tem uma personalidade fortíssima, e não admitem ser contrariados. Como são personagens de ficção e, por conseguinte, não precisam ter qualquer semelhança com pessoas do mundo real, se dão conta disso e muito lucidamente decidem não sacrificar o belo amor que sentem um pelo outro. Continuam a viver juntos, mas sem trocar uma palavra sequer. Sabem que a opinião que eles tem sobre o mundo, sobre a culinária japonesa, sobre religião e sobre a pintura expressionista é irrelevante diante do imenso afeto que nutrem um pelo outro. E optam pelo silêncio, como meio mais eficaz de evitar conflitos. E vivem juntos e na mais perfeita harmonia, em completa incomunicabilidade. Até que o homem adquire um saxofone e a mulher, transtornada pelo que ela imagina serem mensagens cifradas nos longos solos de jazz do marido, o mata com uma chave de fenda, e logo em seguida comete suicídio utilizando uma máquina de costura portátil.

Só o que me falta para colocar essa história fabulosa no papel é um título. Meu reino por um título!

Padre Levedo

6.2.04

Dia desses, minha secretária contou, via intra-mail, que havia encontrado um papel na rua. Nele estava escrito em letras garrafais: "ODONTOLOGIA DENTAL". Respondi ao e-mail imediatamente: "Já pensou se estivesse escrito GINECOLOGIA VAGINAL"?

Consegui ouvir as risadas da Caru (minha secretária) da minha sala. A Léo, secretária do meu chefe, que estava acompanhando a troca de mensagens perguntou se eu era louca.

Finalizei respondendo: "Segundo meu psiquiatra mental, sim, eu sou um pouco louca".

Pra vocês verem que o sistema de intra-mail do meu escritório tem funções mui importantes, sendo essencial à manutenção do bom humor em meio ao stress cotidiano.

.tudo vai ser DiFeReNtE.

5.2.04

É curioso notar como as formas de atender ao telefone variam, mesmo que praticamente inexistam variações nas palavras utilizadas. Interessante também é perceber que cada pessoa cria sua identidade-atendicional-telefônica e invariavelmente usa a mesma palavra, sempre com a mesma entonação.

O "alô" tradicional muitas vezes ganha contornos musicais, ou então se alonga além do tempo previsto para uma palavra tão curta. E eis que encontramos também uma prosaica utilização das acentuações tônica, aguda, circunflexa e tílica: "álô", "aló", "àlô", "âlo","ãnlô?", "aaaalô", "alôôô", "alou", e até mesmo "hálo" pipocam lá e cá, soando ou ressoando através de vozes esganiçadas, grossas, sutis, sorumbáticas, rasgantes, sensuais, frágeis, taciturnas ou fanhas.

Tem também o "pronto" e pronto. Curto e grosso. E também "ois" e "hmns" e outros grunhidos esquisitos.

Ao celular então sobram metidos que, com seus identificadores de chamada, não hesitam em alardear um "fala, Genivaldo", mesmo quando o Genivaldo em questão não está do outro lado da linha porque emprestou o aparelho pro amigo gozador responder "não tá vendo que não é o Genivaldo, seu mané?".

De qualquer maneira, mesmo tornando-se automáticas, nossas respostas telefônicas ainda guardam uma certa autenticidade que, nas empresas, já se perdeu por completo, restando apenas uma gravação tosca que muitos ainda acreditam se tratar de uma recepcionista de carne e osso: "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor", "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor", "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor".

Mas o mais incrível de tudo isso é perceber o quanto eu consegui me alongar diante de um assunto tão bobo. Logo eu, que não consigo falar mais do que um minuto e meio ao telefone.

alô? é da megazona

Pelas barbas de Netuno! Com mil gigawatts! Cortaram a minha luz. Bom, na verdade, já estava cortada há tempos. Esqueço de pagar. Acontece que religuei o gato algumas vezes, daí os caras vieram com reforços e arrancaram o medidor. Tudo bem, liguei meus cabos nos medidores de dois apartamentos vizinhos. É o terceiro setor, certo? Quem tem energia sobrando reparte com quem não tem nenhuma, no caso eu. O que custa ceder, ainda que involuntariamente, meia dúzia de watts? Rolou tudo muito bem. É igual mulher dos outros, você vai comendo até o marido descobrir, então você pára. Ontem o zelador descobriu. Desligou os fios. Na madruga liguei de novo. Hoje acordei sem luz, já nem estranho mais, fui sonolento verificar e encontrei um cadeado deeesse tamanho na porta de ferro do quadro elétrico! Um troço inarrombável. De maneira que por isso estou aqui vivendo este momento lindo, pagando para blogar na Cyber. Tudo bem. Hoje vou acertar meus débitos, pedir religação de urgência e aguardar o momento da vingança. Depois da luz ligada e tudo bacaninha, injeto Super-bonder naquele cadeado. Não vai ter zelador na face da Terra que abra aquilo. Só fazendo como fizeram no cu da síndica: arrombando.

catarro verde no escuro

Folia de Reis. Uma bela manisfestação folclórica nacional, né?
Porra nenhuma.

Dia desses minha mãe avisou que viria uma folia de reis na casa do vizinho. O que ela disse é que ia começar umas 10 da noite e durar umas duas horas. Sem problema, aturar barulho até meia noite é tranqüilo.

Pois bem, a tal folia veio ontem. Eu tava crente que era algo que ia fazer só um pouco de barulho, mas os caras trouxeram uma BANDA MARCIAL completa pra cá. O barulho daquela merda superava fácil o de um Concorde decolando em meio a um desfile de escola de samba. Parecia que aquela maldita banda tava tocando dentro da minha cabeça.

E ainda tinha mais. Uns caras esquisitos começaram a fazer umas rimas meio estilo repentista. Mas eram rimas terrivelmente ruins, daquelas que rimam sorte, morte e forte. E um dos caras tinha um repertório de uns 8 versos, que ele combinava e repetia o tempo todo. Machucava os ouvidos.

Por último, os malditos chegaram às 11 da noite, e foram embora às 5 da manhã. 5 da manhã. E eu tinha que acordar às 7, pra ir fazer a prova da UERJ. Aqueles filhos da puta me deram duas míseras horas de sono.

Da próxima vez que eu ouvi falar em folia de reis, compro uma pistola. Urgentemente.

Pessoal e Intransferivel (sem acento)

4.2.04

Nunca imaginei ter a idade que tenho e ver minha geração freqüentando lugar de adulto, bares da moda, cinemas de filme e fila indianos. Aceitam qualquer um.

Mais da metade dos meus amigos descobriu-se homossexual, depressivo, artista ou esquerdista. Um quarto toma chá de cogumelo. Preferem maconha e videogame a espiar a vizinha tomando banho.

Desagradável encontrar alguém da sua idade que diz “ah, esse autor eu não conheço” e não tem vergonha dessa ignorância.

Existe uma desculpa de tribos, de cada um ter a sua opinião e seus gostos. Gosto e opinião se formam pela experiência, até onde sei. E tribo é coisa de índio.

saudade do presidente figueiredo

É impossível ser contra o livre-mercado sem ser abjetamente autoritário.

FDR

Certo. Você lava as roupas, as meias, as blusinhas, enfim, as roupas, você as lava todas, mas aí não tem lugar pra estender, porque as roupas que as outras pessoas lavaram há 5 dias continuam molhadas.
Vamos todos praticar o naturismo doméstico.

continua chovendo às quinze prás seis

Secos e molhados - ou - o lojinha que tem de um tudo e mais un poco

Dia sim, dia não, vou na quitanda aqui na frente comprar Coca light pro pequeno e vinho para mim. Ha semanas que vou todos os dias, no fim da tarde, la pelas 6 e meia, 7 horas so para ficar papeando com Abdel. Mas as coisas nem sempre foram assim. No inicio, quando mudamos para estas bandas, mal o cumprimentava em virtude do mal que me acomete, e que agora todos vocês têm ciência, a bloqueadora timidez. Fui indo de mansansinho e aos poucos fui arriscando uma conversa. Costumo confiar no meu no meu sexto sentido para fazer amigos e eu sabia que o senhor la da quitanda era uma cara bem legal, e desta feita não custava nada dar um sorriso acompanhado de um bonjour e claro, conforme as condições meteorológicas reclamar do frio ou do calor, como todo mundo faz quando não se tem muito a dizer, mas alguma vontade de estabelcer contato.

E, confirmando minhas suspeitas, descobri que o moço da quitanda é um poço de simpatia com qualquer um que chegue la e nem precisou estudar marketing para saber como cativar a clientela. Fora isso tem o excelente fato de abrir todos os dias, inclusive sabado, domingo e feriado, so fazendo uma breve pausa para a siesta, como é costume aqui nas redondezas.

Sei que daqui a uns tempos vamos ter que nos mudar de novo. Não, não por agora, mas isto ja é questão pacifica e consolidada, pois sabemos que quando tivermos rebentos teremos que deixar nosso amplo quarto e sala e por tabela, Abdel. Nem gosto muito de pensar nisso. Ficar longe do meu anjo da guarda que me vende o vinho baratinha num dia e me da, assim mesmo, de gratis, a aspirina no dia seguinte.

Alto lá, cara pálida!

Num entendo uma palavra do que meu marcineiro diz. Ele é espanhol e desenvolveu um portunhol esquisitíssimo. Parece que ele engoliu o Nelson Gonçalves e virou um Nelson Gonçalves catalão. E tentei falar em espanhol com ele, mas ele se desculpou e me contou que esqueceu o espanhol e não aprendeu português. Coitadinho. Enfim, não entendi nada, para pela cara contente dele e por meio de gestos, acho que a reforma vai ficar legal. Jesus.

¡Drops da Fal!

3.2.04

Quero falar do que vejo nessa pessoa triste que é você. Do que odeio em você.
Me enoja essa tua imbecilidade, esse teu medo e dificuldade inexplicável que encontra em abrir a boca e se relacionar, crescer, fazer o desconhecido, abrir as asas como sempre quis e nunca conseguiu. Sinto pena desse teu cansaço - que é claro nessas tuas olheiras fundas - de viver em função dos outros e esquecer de si mesma.
Você, essa criança que amadureceu à força, feito um abacate envolto numa folha de jornal atrás da geladeira, deveria ter brincado de Barbie sem se importar com os problemas em casa. Quem sabe, assim, hoje não tivesse tanto medo de sair desse maldito restolho de infância em que vive e pôr de uma vez por todas os dois pés na maturidade.
Sabe o quê? Vai, covarde, continua aí. Fica só na vontade de abrir as asas e voar comigo para os lugares lindos e divertidos que EU conheço - aqueles que vejo no fundo dos teus olhos, onde ficam teus sonhos. Já cansei de te convidar e ver que você sempre está muito ocupada organizando o alheio, planejando o teu e retocando a maquiagem.
...
Me avisa quando estiver pronta pra largar tudo isso, que eu passo aí pra te buscar.

eu diria que...

A família dos outros
(ou Mais uma sobre os vãos do meu edifício)

A mãe, perfeita dona-de-casa, vive um monólogo desbotado que se passa no Brasil dos anos 50. O filho mais velho, engenheiro bem sucedido louro e esguio, é coadjuvante de uma dessas ficções científicas impecáveis em seu artificialismo. A menina, ainda pequena, passa os dias docemente cantarolando um musical estilo A Noviça Rebelde. O pai, por fim, protagoniza um thriller psicológico cheio de amantes, drogas, bebida e personagens desconhecidas do resto da família.

Somando tudo isto não me resta a menor dúvida de que vivem, solitariamente juntos debaixo do teto do 704, um belo, melancólico e interminável filme mudo em preto e branco.

Da Estrangeiridade

A QUEIMA

-- Arnaldo, queima todos os meus escritos.

-- Que escritos, Vanderley?

-- Aqueles, inéditos, ali, do lado do guarda-roupa. Cof.

-- Como assim, aqueles inéditos, Vanderley? Claro que são inéditos. Você nunca publicou nada!

-- Sem detalhismos acadêmicos, Arnaldo. Pega aqueles meus escritos ali. Isso. Escuta. Quero que você jogue todos na lareira. Sem vacilar. Sem pensar no que a história, com agá maiúsculo, vai registrar. Diz que eu pedi veementemente pra que você fizesse isso, diz que...

-- Lareira, Vanderley? Lareira? Desde quando esse teu dois quartos tem lareira?

-- Você pormenoriza demais, Arnaldo. Faz o seguinte. Pega então esses fósforos aqui e queima os escritos lá na varanda. Enquanto o sol da tarde inunda de um soturno vermelho a sala -- guarda bem a cena na memória, pra quando você for contar a história -- , aí você...

-- Tá doido, Vanderley? Na janela? Vai voar papel queimado e entrar fumaça em tudo que é janela do prédio! Quer que os vizinhos chamem o síndico?

-- OK, OK, Arnaldo. Põe no microondas, então! Enfia os escritos no microondas, programa pra cinqüenta minutos e deixa os papéis lá. Uma hora eles pegam fogo! Cof.

--Tá, eu ligo o bendito microondas. E não precisa ficar me pedindo café, a garrafa térmica tá aí do teu lado -- se serve sozinho, pomba! E ainda pedindo em inglês. Que frescura.

-- Como assim, Arnaldo?

-- Essa babaquice de "coffee", "coffee", toda hora. Soa pedante. E chato.

-- Eu não tou pedindo café, Arnaldo. Isso é tosse.

-- Ah... é "cofe", então? Mm. Sei. Pois soou falso, sabe.

-- É tosse de moribundo, Arnaldo.

-- Que moribundo, Vanderley? Você pegou um resfriadozinho.

-- Não seja frívolo, Arnaldo. Tou morrendo. E foi por isso que te chamei aqui. Pra atender a um último pedido: queimar meus escritos inéditos. Espera eu morrer e queima tudo, sem dó nem piedade.

-- Mas você não tá morrendo, Vanderley. Você só...

-- Não adianta tentar me consolar, Arnaldo. E tem mais. Tem mais. Chega aqui. Como você é o meu melhor amigo, eu vou te pedir ainda um outro favor. Um favor especial.

-- Eu não sou teu melhor amigo, Vanderley. Eu sou teu colega de escritório. E que favor especial é esse?

-- Cof. Seguinte, Arnaldo: se na hora de tacar fogo você hesitar, não fica na dúvida: hesita, sim. Se você achar melhor não queimar, não queima. Mantém tudo intacto! Publica! Mas ó: não diz que eu pedi esse favor especial! Na hora de contar a história, vai só até o ponto em que eu te pedi pra queimar. Viu? Diz que você não queimou por decisão sua! E após a publicação, espalha pra todo mundo que por um triz a História ficaria sem conhecer meus escritos!

-- Ah, quer saber, Vanderley? Chega. Eu tava com a Célia e as crianças no clube, tomando minha cervejinha, aí você me liga no celular, diz que tem algo urgente pra dizer, caso de vida ou morte, pá, pá, pá, me faz vir correndo -- pra pedir pra eu queimar... esses escritos aqui?

-- O que você quer dizer com esses escritos aqui?

-- Agora é que eu tou vendo: isso aqui o balanço contábil do escritório, Vanderley! O balanço que você fez! Que história é essa de pedir pra eu fingir que vou queimar e na última hora acabar não queimando? Eles vão ser publicados no jornal, na seção de balanços anuais, de qualquer forma!

-- Você não entende, Arnaldo? Eles vão ser publicados, sim -- mas se você contar que no leito de morte eu pedi pra que você queimasse tudo, e ainda assim você publicou por teimosia, eles vão adquirir uma aura literária! Vamos elevar a escrita contábil a um status nunca sequer sonhado! Vamos fazer história! Vou ficar famoso depois de morto, você vai ser meu Max Brod -- ei, aonde você vai, Arnaldo?

-- Vanderley. Seguinte. Acho que vou deixar você descansar -- esse resfriado deve ter mexido com teus miolos. Vou voltar lá pro clube que eu ganho mais. Ah, e por que você não aproveita?

-- Aproveitar o quê, Arnaldo? Cof.

-- Aproveita que eu liguei o microondas e requenta esse café aí. Ele tá uma bosta.

Praia do Nelson

2.2.04

Ela achava que ia morrer de velha, mas uma noite encontrou um professor de ética numa rua escura.

Alexandre Soares Silva

Certidão de Nascimento

É, você vai mesmo morrer. Mas calma. Antes muita coisa vai acontecer com você. Você vai sofrer. Você vai chorar. Vai se sentir só. Muito só. E até esquecido. Você vai ficar perdido, sem saber para onde ir. Vai correr, cair e esfolar o joelho. Vai tentar escalar uma árvore. E não vai conseguir. Vai comer uma fruta estragada. Vai ficar sem fome. Você vai se decepcionar. E vai decepcionar os outros. Vai contar mentiras pequenas, médias e grandes. E vai ser enganado também. Vai amar quem não te ama. Vai ser amado por quem você não ama. Vai errar uma questão. Entrar na rua errada. Conhecer pessoas chatas. Ser demitido. Ter o carro roubado. Deixar o sorvete cair todo no chão. Perder amigos queridos. Ganhar peso. Esquecer o aniversário de alguém. É, você vai ter que passar por muitas situações difíceis. Mas, para cada tristeza, vai encontrar dez alegrias. Para cada dor, vai experimentar dez prazeres. Toda lágrima vai ser seguida de muitos sorrisos. Porque você vai morrer muitas vezes durante sua vida. E vai renascer. E isso não será exclusividade sua. Mais cedo ou mais tarde, acontece com todo mundo. Mas antes essa gente toda vai viver. Vai você também. Vai viver, vai.

Lúcio Lasca o Léxico

Quando eu morrer, já decidi, não vão me enterrar num vão de terra, num vão de ar, não vão me depositar numa caixa grande de pedra fria, não vão me incinerar e me encerrar numa urna, nem me soltar ao vento, nem no mar. Quando eu morrer não vou ter túmulo, jazigo perpétuo, lápide, epitáfio. Nada dessas coisas com nome de remédio para azia. Quando eu morrer não vou ter velório, funeral, missa de corpo presente, lírio e cravos, não vou ter placa de bronze com estrela e cruz, datas para lembrar, foto de moça, vaso de flor. Quando eu morrer, no meu lugar fica uma folha vazia e eu me reduzo enfim à essência do que fui: verbo e vou habitar o céu, das bocas.

Não Discuto

Soníferócito de Sonhol

Como você pode ver eu estou no auge da minha forma física : pernas quebradas, lábios inchados, braço com pinos, tronco remendado. Este é o máximo que eu posso atingir agora. Mas pode ser que não também! Eu posso muito bem dormir com essas pílulas que o doutor está me dando e num sonho mais agitado cair dessa cama e estatelar o pouco que não está estatelado em mim. E esses sonhos agitados que me incomodam, porque desde que estive aqui tenho dormido muito pouco, e o pouco que eu durmo eu tenho um sono irrequieto, onde sonho com livros criando asas e vindo em minha direção cortar minha cabeça. Guidons de bicicleta que giram sozinhos no ar e me impedem a passagem ou até mesmo uma cama que se abre e o buraco me joga na escuridão se fim. Mas ainda bem que é tudo um sonho. Péssimo mas é. E pensar que desde o dia fatídico nunca mais sonhei.

Toda esta história de sono exagerado começou desde que eu me tenho por gente. Na escola eu já passava a maior parte do tempo dormindo, e não raro, me trancavam lá dentro e de deixavam com as pálpebras fechadas. No outro dia quando abriam a porta eu ainda estava ali, na mesma posição, e só a insistência da minha professora fazia me acordar. Meus pais achavam normal, e tão normal que eles me acompanhavam na ida e na volta do colégio, porque eu corria o risco de dormir no meio da rua e ser atropelado. É, eu também dormia em pé. Mas não só em pé como em qualquer outra posição menos honrosa e agradável para dormir. Só que eu passei desta fase do colégio, e veio a pior : a vida adulta.

Foi aí que, como diria o sambista, "O barraco desabou", e eu no caso estava dentro desse barraco... Dormindo como sempre. No trabalho não faltavam risos quando o motoboy vinha me entregar a papelada e se deparava com eu dormindo ali, no sono mais profundo. Até assoviava de prazer por estar dormindo. A maioria dos meus colegas de trabalho diziam que era até engraçado tudo aquilo que acontecia, porque as vezes, eu parecia realmente um morto-vivo, um zumbi; claro que bem menos morto e bem menos fedido. Mas eu ficava ali, imóvel, com os dedos na caneta a posição de assinar um cheque, e aí ele vinha. O maldito, as minhas pálpebras pesavam, e eu sabia que ia dormir ali mesmo, gritava para mim mesmo por um fósforo, um pedaço de madeira, ou qualquer objeto pequeno que quando colocasse entre as pálpebras, as deixasse sempre alertas. Mas não, e eu dormia. O cliente é claro não entendia nada do que acontecia, e os meus colegas começavam a galhofa. Chegavam inclusive a por cartazes em minha mesa do tipo "Gênio pensando" ou "O trabalhador do mês". Eu percebi isso, e então comecei a contra-atacar. Dormia com um olho, e ficava vigiando com o outro, assim esses meus colegas fanfarrões não poderiam me pregar peças. E deu certo, porque nunca mais eles colaram coisas na minha mesa. Mas às bocas pequenas a tiração de sarro de sempre, rolava solta.

Mas o pior fato que aconteceu comigo, devido à esse sono imparcial, foi quando eu estava voltando do trabalho na véspera do Natal. Estava eu no ponto de ônibus meu estado habitual, de sono, e então eu dormi. Isto lá pelas 7 da noite. O motorista, nem o cobrador, devem ter me visto ali atrás do banco mais alto do ônibus, e por isso me deixaram ali. Mas começou a soar uma sirene e acordei. Do nada apareceu um monte de policiais por ali, pensando que havia um ladrão na garagem dos ônibus. Que o quê... era só o pobre eu aqui. E acredita que eles não aceitaram minha explicações? Tive que chamar minha mãe lá do cárcere, e ela veio explicar o meu problema para os policiais. Aí sim fui liberado.

No dia do Natal, dia 25 (porque muitos pensam que Natal é no dia 24 e dão felicidades nesse dia), tivemos uma pequena festinha, e nesta eu encontrei uma moçoila de muito bom grado. Me acariciei com ela e resolvi que deveríamos ir para o apartamento dela. No caminho já dava sinais de cansaço, ia dormir a qualquer momento. E quando cheguei lá, e fomos nos deitando na cama... Eu dormi. No outro dia ela não estava lá, mas deixou um bilhete "Você é muito bom de cama ..." eu sem saber de nada que havia acontecido no dia anterior, fiquei lisonjeado. Mas quando fui por o bilhete no criado mudo, o inverti, e vi que havia alguma outra coisa escrita "... dormiu como um anjinho. E nem ronca". Eu não sabia aonde por a cara, a mulher era chegada dos meus colegas de trabalho. Imagina se a notícia se espalha? Deu calafrios em mim só de pensar. Mas eu me vesti e sai na rua.

Quando estava atravessando uma avenida bem movimentada, ele veio de novo. Meus olhos fecharam e fiquei imóvel ali no meio. Acordei na ambulância, e peso até hoje por minha mãe e meu pai não terem me acompanhado nessa travessia de avenida. Mas nem é a dor física que me incomoda. e sim esta falta de sono. Um sono bom e pesado, como o que eu tinha.

Antropóide Misantrópico

Pra tudo se acabar na quarta-feira!

Já viajamos juntos, já fomos ao parque, 'a praça, ao clube. Já montamos e desmontamos árvore de natal, já viramos o ano. Já fomos 'a capital, ao interior, ao sítio. Deram comida 'as galinhas, pegaram bicho de pé. Já estiveram com os avós, os primos, com os amigos da mãe e os do pai. Abusamos das nossas mães e tias. Já fizeram ARTI, já representaram peças e apresentaram números musicais. Já viram toda a programação infantil da tv, sabem de cor os horários. E quase todos os filmes em cartaz no cinema (ah: a trilha de Rugrats e Thornberrys é ótima). Já se entediaram, brigaram, gritaram. Já foram 'a nova pediatra, já foram 'a dentista. Nina aprendeu a fazer mousse com a tia. E a olhar as horas em relógio analógico, graças ao vô. Ele ensinou também coisas "erradas" e engraçadíssimas, que continuam fazendo a família rir. Gabi aprendeu uns golpes e carinhos novos, para extravazar sua energia de quatro anos. Já separamos todo o material escolar, só falta encapar os cadernos. Tá, foi lindo.
De uns dias pra cá, elas têm perguntado de manhã:
_Hoje tem aula?
E eu respondo com um sorriso (que é mais pra mim do que pra elas):
_Está perto, meu amor. Só faltam 5 dias : )

Mothern