5.4.04

É o lobo! É o lobo! É o lobo!

Os piores dias de insônia são aqueles que acabam às sete da manhã. Até às quatro, tudo bem. Tiro minhas quatro, cinco horas de sono, acordo relativamente cedo e fico em paz. Às sete, não. Às sete meu tempo de sono é reduzido pela metade e eu passo o resto do dia sonada.
Ontem foi assim. Por mais que eu me esforçasse para manter os olhos abertos, tudo parecia um sonho com picos de pesadelo. Para piorar, eu tive que sair da matrix e ir para uma reunião, bem no começo da tarde.
Cheguei na distribuidora e esperei bocejando quarenta e cinco minutos, para a lesada da recepcionista me avisar que o dono (que me deve há meses o valor de uma grande remessa de livros), tinha saído e ela não havia percebido. Eu estava tão embriagada de sono que nem reclamei. Aproveitei que estava perto da casa de uma velha amiga, pedi para usar o telefone por um minuto, fiz uma ligação internacional para um primo querido que mora em Nova Guiné, deixei recado na secretária eletrônica dele e fui embora. Do orelhão, do lado de fora da distribuidora, liguei para minha amiga e combinamos de nos encontrar.

- Alê, quanto tempo! Onde você está?
- Aqui na Freguesia. Pertinho da sua casa.
- Passa aqui. Você almoça comigo e botamos o papo em dia.

Logo depois do almoço, pensei em ir embora - o sono estava apertando. Ela insistiu que eu ficasse e começamos uma maratona de cafezinhos para que eu parasse em pé. Papo vai, papo vem, desenterramos sacos de fotografias e histórias. Eu já estava mais esperta quando, de repente, um barulho de avião irrompeu alto demais para acreditarmos que ele estaria no céu.
Saímos correndo em direção ao quintal. Por puro instinto de sobrevivência, minha primeira reação foi querer me esconder embaixo de uma cama, mas minha curiosidade e sensação de que aquilo poderia ser um pesadelo me arrastaram para o lado de fora da casa.
Ainda no corredor, ouvimos os gritos de uma vizinha...

- Ataque terrorista! Ataque terrorista! Ataque terrorista!

Já minha amiga...

- Puta-que-o-pariu! O avião! O avião! O avião!

Sempre que eu fico muito nervosa, começo a rir e a tremer como uma vara verde. Ver aquele teco-teco atravessar a avenida diante dos nossos olhos, ouvir os gritos da vizinha apavorada como se estivesse no Word Trade Center e ver a minha amiga bancar o Tatu da Ilha da Fantasia, me fez perder o controle sobre os músculos da face e das pernas. Só recuperei meus movimentos porque cismei que aquilo era um sonho e eu precisava ou aproveitar ou despertar.
Espremi os olhos e ergui os braços para voar e nada... Voltei para dentro da casa, fechei e abri os olhos, procurei atrás da porta, e nada de me deparar com o Nicolas Cage... Nem sequer um figurante de capa e máscara preta. Ao constatar que não era sonho, dei uma última saculejada no corpo e voltei para o quintal onde estava a minha amiga. Estarrecidas, abrimos o portão e vimos o monomotor pousar no meio da rua e dar de bico na porta de uma empresa a poucos metros de onde estávamos. De olhos e bocas arregalados, seguimos em direção à nave e vimos o piloto e o co-piloto saírem intactos e olharem para as nossas caras como se fossem o Picard e o Data dando um rolê pelo Holodeck.
Em busca de socorro, minha amiga pegou o celular...

- Fiquem tranqüilos estou ligando para a polícia.
- Que polícia? Que mané polícia o quê! Tem que chamar o bombeiro.
- Mas não tem incêndio!
- É mesmo... Como pode não ter incêndio?
- Ele pousou! Ele pousou! Ele pousou!
- Então chama uma ambulância!
- Qual é o telefone da ambulância?
- Ah, daqui esse telefone que a minha mãe deve saber....

Ao telefone...

- Mãe! Sou eu... Mãe você não vai acreditar! Caiu um avião aqui na rua e...
- Alessandra, você não tem mais o que fazer da sua vida? Está na hora de você crescer e parar com essa palhaçada de primeiro de abril. E vou dizer mais: Sua avó, me contou que você se matou de novo no blog. Quantos anos você pensa que tem? Todo ano é a mesma coisa! Você não...
- Mãe, escuta: eu preciso saber o telefone da ambulância!
- Ah, vá! Como é que você diz mesmo? Lembrei! Escuta só a musiquinha - Tu, tu, tu, tu, tu, tu....

Não acreditei. A estressada desligou o telefone na minha cara, usando a minha técnica de desligar telefone na cara. Me senti o pastor mentiroso da história infantil e me dei conta de que, se dependesse dos meus conhecidos, o lobo estava prestes a devorar as minhas ovelhinhas...

- Alê, a ambulância! E a ambulância?
- Esqueça a ambulância. Não tem ninguém ferido aqui. Eu preciso é de um jornalista e um fotógrafo que não saibam do meu passado e registrem o que eu estou vendo...

E você aí? Está achando que eu inventei essa história é? Vai procurar nos noticiários o que aconteceu com o monomotor que pousou em uma avenida da Freguesia do Ó neste 1º de abril, vai... Vai ver o que é bom pra tosse. E tem mais! Além disso tudo ter acontecido de verdade, eu, logo eu, fui pega no pior primeiro de abril da minha vida. Mas amanhã eu conto o vexame. Agora eu preciso dar um jeito de acordar desse pesadelo ou encontrar de uma vez por todas o Nicolas Cage vestido de zorro atrás de uma porta... Com todo o respeito pelo senhor meu maridon... claro!


Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

3.4.04

AOL - 18:53 - 19/03/2004
As loucas baladas dos paulistinhas endinheirados

Ecstasy, cocaína, maconha, champanhe, sexo grupal e muita arrogância. A reportagem da AOL acompanhou uma balada da "Geração $", formada por filhos da alta sociedade paulistana

Por Rodrigo Brancatelli

A estudante de Administração Nicole*, de 21 anos, estará daqui a algumas horas desmaiada em um quarto do Hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, com a sua calça Gucci suja de vômito e com um cateter na veia por meio do qual ela receberá altas quantidades de glicose para rebater o efeito do excesso de álcool. Nicole mal irá se lembrar de, no espaço de horas, ter fumado dois cigarros de maconha, tomado um ecstasy na forma de coração e outro na forma das orelhas do Mickey Mouse, bebido uma garrafa inteira de champanhe Möet et Chandon e ter feito sexo com dois garotos que nunca viu na vida.

“Comigo tem que ser assim mesmo. Tudo aos extremos”, diz a garota, filha de um conhecido empresário do ramo têxtil. “Gosto de dar para um monte de caras, de misturar Prozac com champanhe, de cheirar cocaína até meu nariz sangrar. E não me importo com a sua opinião moralista, típica da classe média. Tenho dinheiro suficiente para não me preocupar com você ou com mais ninguém. A minha felicidade está na minha conta bancária”, dizia ela ao repórter enquanto se preparava para a balada.

Nicole faz parte de uma geração escancaradamente frívola e preconceituosa, formada por filhos de gente muito rica. É a “Geração $”, como eles gostam de se definir. Têm a vida inteira pela frente e nenhuma preocupação com assuntos que assombram outras pessoas, como falta de dinheiro ou necessidade de escolha de uma profissão para ganhar a vida. 

“Eu sou o tipo de pessoa que os pobres e a classe média odeiam porque posso torrar R$ 5 mil em um vestido para usar apenas uma vez e depois encostá-lo no armário”, diz Nicole ao repórter. “Não consigo ficar assistindo tevê em casa ou trabalhando em algum escritório estúpido na frente de um computador. Estou acima disso tudo. O dinheiro dos meus pais me possibilita curtir a vida sem preocupações e sem falsos moralismos”.

Enquanto fala da vida, Nicole manda o motorista do seu Mercedes preto se apressar. O relógio Armani no pulso, avaliado em R$ 2 mil, avisa que já passa das 23h e todos seus amigos devem estar esperando furiosos na frente da Disco – conhecida como a balada mais cara e restrita de São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, zona Sul da cidade. É sábado à noite, e a noite de São Paulo nem imagina o que Nicole e seus endinheirados colegas vão aprontar.

“Demorei porque a besta da empregada esqueceu de passar a minha calça Gucci”, brinca a garota com os amigos ao descer do carro. “Definitivamente não dá para confiar em pessoas de cabelo pixaim.” Fernanda, filha de um banqueiro que mora no Rio de Janeiro, ri escandalosamente da observação da amiga Nicole. Além de compartilhar da visão do mundo, as duas são fisicamente parecidas. Morenas, baixinhas e superproduzidas. “Empregada é uma droga mesmo”, diz a carioca de 20 anos que largou recentemente a faculdade de Publicidade e ainda não decidiu o quê estudará a seguir. Ela veste um modelito exclusivo assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. “Todas as empregadas são ignorantes. É por isso que elas têm de ganhar salário mínimo.”

Fernanda está acompanhada de mais três meninas que aparentam ter a mesma idade e de dois garotos já mais velhos, com mais ou menos 25 anos. Todos têm pais ilustres – duas são filhas de empresários bem sucedidos, a outra é herdeira de um fazendeiro do interior paulista, o garoto loiro é filho de político. Apenas um deles é uma incógnita. Seu nome é Carlos, e sua origem nunca foi colocada em discussão pelos colegas. “Um dia apareceu do nada em uma balada, dirigindo um Porshe Boxter e com muitos ecstasys no bolso. Não precisou explicar de onde vem para ser incluído na turma” explica Nicole.

A fila na frente da Disco começa a aumentar, mas uma nota R$ 50 na mão do segurança é o suficiente para que Nicole e seus amigos a furem. A entrada custa R$ 70 para homens e R$ 35 para mulheres, mas eles desembolsam mais R$ 100 cada um apenas para ter direito a sentar em uma mesa. “Somos VIP’s, merecemos tratamento diferenciado”, diz Fernanda, enquanto abre uma garrafa de champanhe Möet et Chandon – a primeira de sete que serão consumidas na noitada.

Ali na mesa, fica mais fácil para Carlos disfarçar uma carreira de cocaína que prepara na frente de todo mundo. Os amigos brincam que ele tem o nariz nervoso, não consegue ficar um dia sequer longe do pó. Fernanda percebe o gesto e corre para filar um pouco da droga enquanto Nicole, do outro lado da balada, amassa a roupa cuidadosamente escolhida com um rapaz mais velho que acabara de encontrar. Dias depois, procurada pela reportagem da AOL, a direção da Disco, por meio da assessoria de imprensa, diria que os clientes pegos com drogas no interior da casa são colocados para fora.

Depois de duas horas e R$ 890 gastos em bebidas, o grupo decide deixar a balada e procurar algum outro lugar para terminar a noite. Ou melhor, para começá-la de fato. “Vamos para a minha casa, hoje não tem ninguém lá, meus pais estão viajando”, sugere Fernanda. “Podemos comprar umas bebidas, ligar para uns amigos e fazer a festa lá mesmo. Com quantas pessoas será que eu vou transar hoje?”

A idéia de Fernanda até que foi comportada para os seus padrões. Da última vez que convidou os amigos para ir até a sua casa no Jardim Lusitânia – uma mansão na zona Sul de São Paulo com três salas, sete quartos, duas cozinhas, um pátio que se derrama na parte dos fundos com a piscina, uma edícola destinada aos hóspedes dos donos da casa e, num canto, um canil, abrigo de três cães, dois deles belíssimos huskies siberianos  –, ela pagou três prostitutas e dois garotos de programa para animar a reunião. De outra vez, fez uma vaquinha e comprou 100 gramas de cocaína. Os amigos da garota contam que ela, numa das baladas que deu, fez sexo com três amigos de infância na piscina, ao mesmo tempo, enquanto os vizinhos viam e ouviam tudo.

São quase três horas da madrugada e os carros começam a se enfileirar na porta do número 482. Em pouco tempo, há cerca de 25 jovens no local. Todos da turma são muito parecidos – os garotos vestem camisa de algum estilista famoso e caro, Herchcovitch, Sommer ou Haten, e calça jeans igualmente exclusiva, mas que pareça estar bem suja. Já as meninas só usam preto, sempre de marca estrangeira, e não desgrudam de suas bolsas abarrotadas de maconha e, eventualmente, camisinhas.

Para deixar as meninas mais “soltinhas”, os garotos preparam um drink especial com vodca, suco em pó light e comprimidos de ecstasy picados em pedacinhos microscópicos. Quando elas se derem conta, já estarão dançando coladinhas e dando beijos calientes umas nas outras, no meio da sala decorada com uns poucos móveis antigos, de estilo europeu.

Para a maioria delas, não faz a menor diferença saber se tomaram drogas misturadas à bebida porque a intenção é ficar doidas mesmo. “Essas garotas aí estão loucas para dar”, aponta o estudante de Administração Thomás, de 22 anos, herdeiro de um médico famoso e amigo de longa data de Fernanda. “A única coisa que elas têm para fazer na vida é gastar o dinheiro da família. As mais novas, aliás, são as mais danadas. Eu, por exemplo, transei com muita menininha filha de ‘sei-lá-quem’ dentro do meu Civic ou em banheiros de baladas. Já ‘tracei’ muitas Lolitas Pilles por aí.

Thomás se refere à escritora francesa de 19 anos, que chocou o mundo ao descrever tudo o que se passa no mundinho milionário de Paris no seu livro de estréia, Hell. A tradução em português chegou às livrarias do Brasil no final de 2003 e vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras das livrarias. Nascida em berço de ouro, Lolita Pille passou boa parte de sua vida torrando o dinheiro dos pais, desrespeitando regras de trânsito e dançando até de manhã nas boates.

Quando se cansou da farra, a garota escreveu as 224 páginas do livro. "A 200 km/h pelas ruas de Paris, onde não é bom caminhar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína e cocaína com ecstasy", escreve. "Eu sou um produto da Think Pink Generation. Minha crença: seja bela e consuma. Sou a musa do deus 'Aparência', sob o altar do qual eu queimo alegremente todo mês o equivalente ao seu salário".

Os relatos de Lolita poderiam muito bem ter sido escritos pela paulistana Nicole, pela amiga Fernanda, ou por qualquer uma das meninas que dançam e se beijam sem blusa na sala de estar da casa de piso de mármore claro do bairro paulistano de Jardim Lusitânia. “Entrei numa boate aos 14 anos e nunca mais sai”, confessa a escritora francesa em Hell, numa de suas muitas tiradas infanto-niilistas. “De qualquer maneira, o que fazemos é vergonhoso. (...) E daí? É você quem paga a conta? Enfim, por hora está bom para mim. Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje...”

O uso de drogas na mansão de Fernanda é tão disseminado que até cinzas de cigarro chegam a ser confundidas com cocaína. Num canto da sala, três caras dividem uma pedra de ice, droga sintética, derivada da anfetamina, que parece um cubo de gelo, sem se importar com a presença de um estranho, o repórter da AOL. Noutro, duas adolescentes que não aparentam ter mais de 15 anos cheiram B-25, ou cloreto de metileno, mais conhecido como cola de acrílico. E isso sem falar nas cápsulas de efedrina, de efeito estimulante, oferecidas como se fossem balas de goma.

Nicole, então, já usou e abusou de tudo nesta festa. E mesmo assim ela ainda quer mais. Em uma só tacada, engole dois comprimidos de ecstasy que estavam jogados em cima da bancada americana, plantada no meio da espaçosa cozinha principal, toda equipada com eletrodomésticos em aço inox. Um comprimido é rosa na forma de coração e o outro azul na forma das orelhas do personagem Mickey Mouse. “Tô bem, tô bem, ainda tô sóbria”, balbucia, pouco antes de tropeçar em uma cadeira e cair estatelada no chão.

Dois caras levantam Nicole e carregam o seu corpo praticamente inanimado para uma das suítes do primeiro andar da casa. É o quarto dos pais de Fernanda. Nicole acorda e puxa os dois garotos desconhecidos para a cama, tira as calças e começa a fazer sexo sem se preocupar com os olhares curiosos dos que estão olhando pela porta aberta. O show não dura muito tempo – minutos depois, Nicole levanta correndo e tenta chegar até o banheiro. Em vão. Ela acaba vomitando em cima de um dos garotos, no piso de mármore. Vomita tanto que sai até bile.

“Sério que eu fiz tudo isso mesmo?”, perguntaria Nicole mais tarde, enquanto deixava o quarto do Hospital Alvorada. O braço direito até dóia de tanta glicose que foi injetada na sua veia. Com olheiras enormes, sua amiga Fernanda só tinha forças para responder afirmativamente com a cabeça. “Que saco! Eu sempre apago nos melhores momentos. Mas tudo bem, semana que vem tem mais. Fê, você tem certeza que não foi um plantonistazinho de merda que me atendeu? Porque esses residentes não sabem de nada, ganham uma merreca... Não posso ser atendida por um imbecil qualquer.”

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* Os nomes das pessoas e de alguns locais citados na reportagem foram trocados.

AOL - NOTÍCIAS

1.4.04

Serviço de despertador

Acordei com o telefone tocando.

- Bom dia! O senhor pediu para ser despertado às cinco horas.
- O quê?
- Já são cinco da manhã, senhor.
- Mas que diabo é isso? Quem está falando?
- É da recepção, senhor. Serviço de despertador.

- Você se enganou de quarto.
- Seu quarto não é o 103?
- E daí?
- Está escrito aqui. 103.
- Foda-se que está escrito aí. Eu não pedi para ser acordado.
- O senhor não pediu para ser despertado?
- Nem despertado, nem acordado. Passar bem.
- Espere, senhor!
- Que foi?
- Se o senhor não pediu para ser despertado, quem pediu?
- Como que eu vou saber quem pediu? Que absurdo.
- Você tem que me ajudar!
- Eu tenho que te ajudar?
- Alguém pediu para ser despertado às cinco da manhã, e não vai ser!
- Sorte dele.
- Por favor! Alguém pode perder um compromisso importante, o senhor entende? Eu deveria despertá-lo. Eu! Confiaram em mim.
- Problema seu, meu caro.

Desliguei. O telefone tocou de novo. Eu sabia que não ia conseguir dormir mais. Atendi.

- Que foi?
- Só eu e o senhor estamos despertos agora.
- Não é incrível?
- O senhor tem que me ajudar!
- Como, porra?
- O senhor ouviu alguém dizer que precisava despertar cedo hoje?
- Não.
- Talvez alguém dizer que tinha um compromisso de manhã.
- Eu não conheço ninguém no hotel.
- Poderia ter ouvido algo no elevador. No restaurante.
- Não ouvi porra nenhuma.
- Ai, meu deus. E agora?
- O número do quarto está anotado a mão?
- Sim, senhor.
- Em algarismo?
- Sim, senhor.
- Bem. O número um é parecido com o sete. O zero talvez seja um seis. O três, um oito. Tente primeiro o 108.
- O senhor é um gênio.
- Quem não é às cinco da manhã?
- Não sei como agradecer.
- Nem tente.

Desliguei. Levantei da cama, lavei o rosto e escovei os dentes. Atendi.

- Não deu certo. Acordei alguns hóspedes. Eles ficaram revoltados.
- Continue tentando. Quem sabe o 103 não seja 106? Ou 116. Ou 110. Lembre-se: alguém pode perder um compromisso muito importante. Pode ser questão de vida e morte. E você será o culpado.
- Ai, meu deus.

Desliguei. Tomei banho. Atendi.

- Acordei o hotel inteiro. O hotel inteiro! E ninguém pediu para ser acordado às seis da manhã!
- Às cinco.
- Às cinco! Vários hóspedes juraram que vão me bater!
- Ossos do ofício, meu caro. Às vezes, eles são quebrados.
- Me ajude!

Começou a chorar. Desliguei. Olhei o relógio. Quase seis. Meu deus, eu estava terrivelmente atrasado.

FDR

30.3.04

"A Paixão do Alferes"

A SUPERPRODUÇÃO SANGUINOLENTA
E SEM ANESTESIA DA CONSPIRAÇÃO FILMES

Furo deste blog: aproveitando a celeuma provocada pela obra do Mel Gibson -- e também a proximidade com o 21 de abril – , a Conspiração Filmes está rodando (com trilha sonora da Trama, sua parceira na Holding Paranóica), em ritmo acelerado, uma versão tupiniquim da película, agora passada nas Alterosas: “A Paixão do Alferes”. As últimas doze horas de Tiradentes, com falas em dialeto mineirês setecentista e legendas em português. Serão cenas brutais, com detalhes sanguinolentos da tortura do odontólogo conjurado – onde os algozes, por coincidência ex-pacientes do mártir, vingam-se arrancando com boticão enferrujado um a um seus dentes, sem anestesia nem plano de saúde. O Conselho Regional de Odontologia de Minas entrou com uma moção acusando o filme de “anti-dentista”, mas a produção já se defendeu, alegando que a intenção foi retratar fielmente o episódio da Derrama (“Só se for derrama de sangue”, já alfinetam alguns dentistas críticos de cinema). A Colgate-Palmolive, patrocinadora original da película, retirou a verba com receio da repercussão negativa. Mas a Schinchariol garantiu o patrocínio, exigindo em troca uma cena em que Joaquim Silvério dos Reis, ao entregar Tiradentes, abre uma Brahma e mostra a bolsa cheia de moedas, dizendo: “Meu negócio é vintém e sair de Xerém”. Depois de veementes protestos por parte da InterBev, a cena foi mantida mas a legenda cortada.

A Conspiração aguarda o feriadão enforcado de 21 de abril para estrear a película.

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Comentários:

Cynthia
Adorei, baby. Mas o intérprete de Joaquim Silvério vai ser quem ? É que se o candidato natural trocar sua gravadora pela Trama, ninguém mais fala em outra coisa até o fim do ano, e aí, babau filme.
25.03.04 @ 11:30:47

Flamarion
Vai ter mulher pelada?
25.03.04 @ 11:36:55

Nelson Moraes
Cynthia: até o fechamento desta edição o intérprete seria o Zeca Pagodinho cantando "Judia de mim" -- mas pra evitar acusações de anti-semitismo o título do samba foi trocado pra "Gentia de mim". Beijão.

Flamarion: Na verdade ia ter. A Luma apareceria peladona segurando a mangueira do bombeiro com que ela enforcaria o Tiradentes. Mas o Eike Batista deu uma grana por fora e a cena foi cortada, ficando só as legendas.
25.03.04 @ 11:48:50

Artur
First Lord, soube que Cahiers du Cinéma já encomendou a Décio Pignatari uma resenha. Especula-se que o título será "Patí(bulo) d'Al(feres) - Amariliou na Villa Ryca". Procede?
25.03.04 @ 13:05:43

Nelson Moraes
Lord Artur: procede, por certo. E Pignatari já está resenhando também as duas outras partes da trilogia: "As Duas Forcas" e "O Retorno d´el Rey". Abração.
25.03.04 @ 15:01:14

Hipopótamo Zeno
Maravilhoso, Nersão!! Se me permite uma sugestão de casting, e pra aproveitar uma piada velha da turma do Planeta Diário, proponho o Schwarznegger no papel de Tiradentes, o Danny de Vito no papel de alicate e a Lacraia, aquela do Pocotó, no papel de corda de enforcamento.
25.03.04 @ 15:06:05

Zeno: casting genial! Na última hora eles descobrem que o laço não cabe no pescoção do Schwarzza e amarram na jeba dele. O alicate Danny de Vito corre pra cortar a corda e salvar o amigo. Então perguntam a ele : "Pra que tanta pressa"? E o Danny: "Tou indo tirar o pau da forca!" :-) Abração.

Márcio Guilherme
Nelson, muito bom.

Nelson Moraes
Márcio: bem-vindo sempre, buddy boy. Se você gosta de filmes que deixam um nó na garganta, that´s it. Abração.

Ao Mirante, Nelson!

O mundo está embrutecido demais para compreender que um diário, mesmo público, não passa de um passatempo de criança. E que, nas mãos de um adulto, é só uma tentativa de resgatar sonhos e verdades.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

A neta de sete anos mostra o desenho de uma casa no alto de um morro, e o avô sorri e diz muito alto que o desenho é lindo, onde ela aprendeu a desenhar tão bem? Ao lado dos dois, o neto de quinze revira os olhos com nojo. Deixa de ser puxa-saco, vovô! O vovô olha chocado, não diz nada. O neto de quize está chocado também mas é com a puxa-saquice do avô. Coça a cabeça, perplexo. Caraaaalho, como o vovô é puxa-saco...

Ou cinco visitas sendo apresentadas a um jardim: ah, que belo jardim; quisera eu ter um jardim como esse; puxa, se eu vivesse aqui, vinha ler todas as tardes naquela rede, que coisa linda; o que é aquilo, uma carpa? – até que a quinta visita, sombria até aqui, sombria no meio da grama, grita: “Puta merda, seu jardim até que não é de todo ruim, o que estraga é esse bando de puxa-saco... Eu até viria aqui mais vezes, mas com essa atmosfera não dá! E tem mais, tua filha é vesga e tua mulher é feia de doer! Eu sou muito franco. Passar bem.”

Os francos do mundo. Que charme, que charme. “Cara, você acha que amigo é quem diz o que a gente quer ouvir? Amigo é quem diz as verdades doídas na nossa cara.” Não é não, mas continuemos. “Por exemplo, vou te dizer uma verdade que todo mundo pensa mas ninguém tem coragem de dizer. Eu queria ir pra cama com a tua namorada. Taí, falei. Todos esses caras também querem, mas ninguém fala...”

Em todo grupo humano (macacos, suponho, sendo menos bobos) há um tipo sombrio que detesta todos os outros porque ninguém é, veja, tão sincero quanto ele; ninguém tem sua rudeza quase santificada, sua rudeza pura.

Alexandre Soares Silva

Oração de uma Mulherzinha Insuportável Dois

Quando me deito para dormir,
Rezo por um homem que não seja um horror.
Que seja inteligente, forte e lindo.
Que adore ficar horas conversando.
Que pense antes de falar, e lembre das datas comemorativas.
Que diga que vai ligar, e não me faça esperar...
Que tenha caráter e humildade de reconhecer seus erros.
Que não minta, mentira é algo abominável.
Que seja meigo, e aconchegante.
Que ele tenha um emprego que eu não precise sustentá-lo.
Que me ajude nas tarefas domésticas.
Que aceite não quando for a resposta.
Que puxe para mim a cadeira, e que me abra as portas.
Que curta cinema, teatro e saia comigo para dançar.
Que seja fiel, porque estar com alguém é uma escolha, não imposição.
Que faça massagens nas minhas costas, e transe até eu ficar "morta".
Ah! E rezo também que me mande um homem que saiba amar
E me respeite como ser humano inteligente que sou...
E não só pelos meus belos olhos...
Eu rezo pelo homem que vai me amar até o fim...
Amém.

Dreams of Ameom

Momentos

Há uns anos atrás atendi uma senhora velhinha, de xaile negro que lhe cobria a figura, revelando apenas as mãos e um rosto pequenino. Notei que ambos tinham cicatrizes muito visíveis. A senhora estava completamente confusa e envergonhada. Não sabia ao que vinha nem o que tinha para tratar. Justificou-se:
- É que o meu marido é que tratava disto tudo sabe?
Depois de muito esforço e buscas no arquivo a fim de tentar descobrir o objectivo da sua visita, atrevi-me a perguntar-lhe:
- Mas porque não vem cá o marido da senhora?
- É que ele faleceu no mês passado menina.
Mentalmente castiguei-me – “Didas! Sua estúpida! Já meteste água!” – e tentei remediar, claro. Pedi-lhe desculpa, dei-lhe os sentimentos e rematei com aquela conversa de circunstância:
- Deve ser muito difícil para a senhora estar sozinha...
- Não! – atalhou ela apressada – O filha da puta já devia era ter ido há mais tempo! Batia-me todos os dias e duma vez até me obrigou a entrar no forno de lenha ainda cheio de brasas! Eu só pedia a Deus que ele morresse antes de mim nem que fosse só um dia... para eu poder saber o que é viver com descanso!... E Deus atendeu-me!
A minha surpresa foi tanta que não consegui conter um sorriso. Ela sorriu também e depois rimos as duas muito.
O semblante dela tinha-se alterado completamente e de repente até me pareceu mais alta. Olhei as suas cicatrizes com outros olhos.
Depois de mais algumas buscas e deduções a senhora acabou por sair dali com todos os assuntos burocráticos tratados.
Alguns dias depois apareceu de novo. Trazia uma bolsinha daquelas de crochet com uma fitinha à volta e um sabonete dentro, feita por ela, para me oferecer. Ainda a guardo.

Farinha Amparo

Lembro de quando eu era criança.
As Páscoas da minha infância sempre foram muito agitadas. Família inteira reunida, troca de presentes...
A Páscoa não adquiria nenhum sentido bíblico/católico. Era (e ainda é) um mero feriado sustentado pelas indústrias de chocolates.
Então, numa Páscoa entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, descobri a verdade cruel: o coelhinho da Páscoa não existe.
"O coelhinho não existe, mas o Papai Noel, claro, existe!" - era a verdade que insistíamos em sustentar. E tratávamos o assunto como segredo de estado. Passei a me sentir fazendo parte da elite da família por saber desse segredo. Os primos mais novos não sabiam, e sequer desconfiavam dessa trama maligna. Mas eu não! Era praticamente uma adulta e me sentia guardiã de um segredo sagrado.
Mas, enfim, nunca fui muito tolerante e frequentemente me irritava com meus primos mais novos. Não tinha o costume de bater em ninguém (ainda mais porque sempre fui banana e acabaria apanhando) mas passei a me vingar deles de uma forma cruel. Sem dó nem piedade.
"Você sabia que o coelhinho da Páscoa não existe?" era o que bastava para eu me sentir vingada, ainda mais quando saíam chorando. Destruí muitas infâncias. Como eu adorava aquilo!

Admirável Blog Novo

Agora vcs me dão licença, porque eu vou conversar com a minha mão

Querida mão,

Vc sempre me apoiou, e é exatamente essa a razão que isso é tão difícil. Vc sempre foi meu braço direito, literalmente, por anos e anos. Desde quando eu tive minha primeira e pequenina ejaculação. Vc nunca virou as costas pra mim, e nunca se incomodou quando eu quis ficar em casa de pijamas ouvindo músicas tristes, ao invés de ir ao cinema.

Vc sempre me deu o que eu quis, sem que eu cobrasse verbalmente por isso. Vc sempre foi gentil, e ocasionalmente dura, quando precisava ser. Vc sempre soube o ritmo certo e onde eu gostava de ser tocado.

Havia vezes que vc focava sua atenção em outro lugar, mas vc sempre vinha comigo pra casa. De noite, quando eu não conseguia dormir, vc era melhor que leite quente (ha ha). De manhã, quando eu lhe desejava, mas estava com muita preguiça, vc nunca ficou de cara feia durante o resto do dia. Vc sempre esperou até que eu tivesse tesão.

Nós nunca precisamos usar camisinha, ou preocuparmos com o constrangimento da manhã seguinte. Vc não se importou que eu não gostava de dormir abraçadinho. E nunca se ofendeu quando eu quis tomar banho logo depois do... logo depois. Vc até me perdoou quando eu prefiri usar um brinquedo ao invés de vc.

Nos últimos meses, vc tem sido extremamente útil. Me manteve fora de qualquer encrenca, mas não me repreendeu nas ocasiões que eu procurei por ela. Vc me fez feliz.

Mas agora, infelizmente, eu me cansei de vc. E de todas as coisas que vc pode fazer. Elas não superam mais as coisas que vc não pode fazer.

Apesar de vc sempre estar junto comigo, vc não tem sido suficiente. Vc não pode acariciar minhas costas até que eu adormeça. Vc não pode me abraçar. Vc não pode me amar. Vc apenas pressiona os botões que eu que quero no controle remoto.

Eu nunca tive que buscar-lhe quando seu carro quebrou. Eu nunca tive que conhecer seus pais. Vc não tem histórias para me contar, e nunca responde às minhas.

Eu não posso brigar com vc por beber direto da garrafa. Eu não posso massagear suas costas. Eu não posso fazer um moicano no seu cabelo enquanto tomamos banho.

Vc pode me alimentar, mas vc nunca me levou pra jantar.

Eu gostaria de dizer que a nossa relação é o bastante para mim, mas não é. Quando penso hoje em todas aquelas vezes que eu me senti triste e magoado como alguém, eu chego a conclusão de que, pelo menos, aqueles sentimentos me faziam sentir vivo. Uma vez eu cheguei a pensar que eu jamais sentiria de novo a falta da boca de um homem, da barba cerrada, das discussões, e de um sentimento romântico casual. Isso tudo sempre acaba me chateando, mas agora, eu sinto falta disso mais do que qualquer outra coisa que vc possa me fazer.

As circunstâncias atuais me dizem que eu devo aprender a conviver com vc pelo resto da minha vida, mas saiba que não estou satisfeito só com o prazer que vc me traz. Saiba que meu coração anda procurando por um outro alguém, e que nós dois vamos romper nosso compromisso. O quanto antes, melhor.

Pilo

29.3.04

Sabado à noite no metrô é pura diversão.

Um adolescente troglodita brinca com a máquina de vender livros, apertando números aleatoriamente. Aposto que nem sabia ler. Como disseram na hora, ele deve ter cheirado e lambido a máquina enquanto eu não estava olhando.

Claro que o troglô entra no mesmo vagão que eu. Mas ninguém alimentou o animal.

Duas bichas surdas conversam através de gestos. Bichas. Surdas. Gestos. Mais bizarro do que a família de surdos que encontrei na loja da Claro - porque surdos estariam comprando telefone? - mas isso é outra história.

Uma mulher usava um tênis enfeitado com tiras verde-fosforescente em alto relevo. Parecia que o Hulk tinha vomitado nos seus pés. Era que nem a bunda cabeluda do mecânico e o acidente de trânsito - grotesco, mas você não consegue parar de olhar.

A menina, sozinha, tira um papel da bolsa com um número de telefone e faz uma ligação no celular. Marca o encontro na frente das Sendas. Saltamos na mesma estação e eu, obviamente, fiquei procurando alguém com cara de "estou-esperando-uma-desconhecida-no-sábado-à-noite" na frente do supermercado. So não acompanhei o final da história porque já estava atrasada.

Ser proletária tem lá suas vantagens.

uma dama não comenta

O jornal inglês "The Guardian" publicou uma matéria sobre o polêmico filme "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson, que retrata de forma violenta e realista as últimas 12 horas da vida de Jesus Cristo. Mas na matéria do periódico nada de controvérsias e polêmicas e sim mais uma amostra do refinado e afiado humor inglês: aqui estão algumas frases que os espectadores do filme poderão dizer no cinema em aramaico (o filme é todo falado no antigo dialeto) e impressionar a namorada e os amigos:

-kheeruut re'yaaneyh laa kaaley tsuuraathaa khteepaathaa, ellaa Zaynaa Mqatlaanaa Trayaanaa laytaw!
Pode ser descompromissado no uso liberal de violência gráfica, mas não é um "Máquina Mortífera 2".

Da'ek teleyfoon methta'naanaak, pquud. Guudaapaw!
Por favor, desligue seu telefone celular. É uma blasfêmia.

Shbuuq shuukhaaraa deel. Man ethnaggad udamshaa?
Me desculpe, mas cheguei atrasado. Perdi algum espancamento?

Een, Yuudaayaa naa, ellaa b-haw yawmaa laa hweeth ba-mdeetaa.
Sim, eu sou judeu, mas eu não estava lá aquele dia.

Ma'hed lee qalleel d-Khayey d-Breeyaan, ellaa dlaa gukhkaa.
Meio que me lembra "A Vida de Brian", mas este não é tão engraçado.

Ktaabaa taab hwaa meneyh.
Não é tão bom quando o livro.

Puuee men Preeshey, puuee!
Bu, Fariseus! Buuuu!

Etheeth l-khubeh 'almeenaayaa d-Maaran Yeshu Msheekhaa, ella faasheth metool Moneeqaa Belluushee!
Eu vim pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, mas fiquei por causa da Monica Bellucci.

Feelmaa haanaa tpeelaw! Proo' lee ksef dmaa!
Este filme é horrível. Quero meu dinheiro de volta!

Saggee shapeer! Laa tsaabey naa d-esakkey l-mapaqtaa trayaanaaytaa.
Genial! Mal posso esperar para ver a segunda parte!

Ayleyn enuun Oorqey?
Quais destes são os Orcs?

Lebba deel daaleq, ellaa teezaa deel daamek.
Meu coração está pegando fogo, mas meu traseiro está dormindo.

Laa baakey naa-eeth gelaa b-'ayna deel.
Não estou chorando, é que entrou uma coisa no meu olho.

Peletaa kuullaah da-Qraabay Kawkbey.
É tudo uma alegoria de Star Wars.

Shluukh kleelaa d-kuubayk, pquud. Laa meshkakh naa d-ekhzey l-ketaan tsuur- aathaa.
Você poderia, por favor, tirar sua coroa de espinhos? Não consigo ver a tela.

Baseem, ellaa saabar naa d-etstebeeth yateer b-Lebeh d-Gabaaraa!
Não é ruim, mas eu acho que preferia "Coração Valente".

nhoque

EXPERIMENTA
Eu até queria discutir mais sobre ética e estética, mas, sabe como é, sou publicitário.

spectorama

Boa tarde, Fulano.
- Boa tarde.
- Vamos conversar um pouco?
- Aqui?
- Aqui.
- Infelizmente não será possível. O tipo de conversa que eu teria com você só pode acontecer entre quatro paredes.

*

E Gael. Gael é o terror, minha gente, eu tenho medo de Gael. Gosto não. Ele olha pra você com uma cara de ira que você se mija toda. Todo um histórico de agressividade, já derrubou duas portas, já bateu em todo mundo, pra conter Gael são necessárias quatro pessoas. Ele olha pra mim e fica calado e eu pensando eeeita que é agora. Ontem, depois de ter tido a medicação diminuída, Gael ficou violento de novo e tiveram que conter. Amarra Gael. E Gael tem os poderes de Magáiver, porque Gael se solta. Todo preso lá, braços pernas, ele vai e se solta, só deus sabe como.
E todo mundo chamando Gael de ninja, porque o ninja, porque o ninja. Descubro algum tempo depois que Gael é mestre em tudo que é arte marcial do universo. Avalie. Eu tentava fazer a anamnese e ele falando dos meus peitos. E eu dizendo que não era exatamente esse o assunto em pauta, que existem regras, Gael, e perceba que você está transgredindo. Gael tira o calção e todos vêem os documentos e apetrechos de Gael. Gael, isso não é engraçado. Guarde isso, vá. Chega o psicólogo homem muito macho pra me dar um apoio amigo e tão realmente necessário naquele momento. Gael, se comporte.
Gael senta, olha com aquela cara de vou-te-quebrar-todinha e pede uma massagem.
Ohdeus.
Gael, não tem nenhuma massagista aqui. Você tá num hospital. Gael se irrita e bate na mesa. Grita mais e muito que quer uma massagem.
- E tragam uma médica mais bonita que essa tá fraca demais!

Fico pensando no que raios ele faria se a médica fosse bonita. Valha-me deus.

coisas da Dra. Cris, do mon coeur vomit

Foi chamado de "fofo"? Dureeeeeeza. Como? Tá feliz? Rárárá!
"Fofo" é o xingamento velado que mais se usa por aí.
Quase sempre usa-se para elogiar, mas ele esconde insultos.
Dessas duas, uma:
a) você foi chamado de meigay
b) você foi chamado de gordinho
NUNCA É CHAMADO DE FOFO UM HOMEM QUE NÃO SEJA MEIGAY OU GORDINHO (ou ambos).
Mentira?

eu discordo do gravataí merengue

"O que não é o destino... se o farol não tivesse fechado, eu não a teria visto alí, parada no ponto de ônibus em frente à Cruz Vermelha, linda, linda, como uma criança a espera do escolar. Por que mesmo eu a abandonei? Apertava os olhinhos para enchergar o letreiro dos ônibus que passavam e não a levavam. A pequena bolsa bordô, os cabelos roçando os ombros... por que raios eu não quis esta mulher? O novo namorado saiu de trás da barraca de chocolates, um para ele, um para ela. Chocolates, eu sempre dava a ela chocolates e cartões. A blusa de alcinhas que deixava os seios apetitosos como duas mangas maduras, o jeans apertado, o tênis de zíper. Lembrei! Lembrei por que a enxotei da minha biografia! E não é que a pistoleira ainda não criou vergonha para aprender a amarrar os próprios cadarços?!"

bem vindo ao limbo

De quem é a culpa pela nossa decepção?
De quem nos decepcionou ou da gente, que esperou demais?

No meu caso, é uma decepção dupla, já que a causa sou eu.

passeata solitária

O que é de chupar, chupo, o que é de lamber, lambo, o que é doce, guardo para apeciar no devido momento.
Ela catava chepas de cigarro na sarjeta da vida. Ofereci um da minha carteira. Ela me fumou até o filtro...
Cigarrinho elegante em brasa, ela me empurrou contra a porta de um bar. No escuro dessa noite, os ratos perambulam sobre nossos pés.
Os copos transbordam, as crianças jogam dados, mentem para as mães, bebem cerveja e podem se quiserem, disperdiçar vida.
O que era de chupar, ela chupou, o que era de lamber, ela lambeu, e o doce ela não quis saber de guardar para mais tarde. Compromisso só com o diabo.
Tem novo fôlego a madrugada em tuas mãos.

perfumado na lama

No outono os loucos ficam mais loucos.
Médicos acreditam que seja a fuga dos dias.
As luzes diminuem.

saudade do presidente figueiredo

Furacão, né? Xi. Daí pra vulcão é um pulo.
Mais dois anos teremos atentados terroristas.
Existe pecado do lado de baixo do Equador.

bloggete