14.5.03

DIAS SEM ELA

Como te amo! Às vezes dói, de tanto amor. E ouço a sua voz, escondida. Até o seu silêncio, tanto e tão quente, às vezes eu ouço. O barulho do portão abrindo, os passos, miúdos, leves, pequeninos. É ela! Não. Não é ela. Nunca mais seu riso vai explodir como sinos chamando para uma festa, sem motivo, festejando nada, só a vida, mais a nossas vidas que a sua. Nunca mais suas mãos pequenas, as unhas pintadas de vermelho como gostava, não mãe, passa um clarinho, tá bem,mas eu não gosto, gosto de vermelho, tá bonito assim? Tá lindo, mãe. Nunca mais suas lágrimas sem saber porque, "não sei porque choro em todo aniversário", como se ainda doesse o parto, e seu abraço alegre, com tantas lágrimas nos olhos, quente, nas pontas dos pés, tão pequenina, tão grande. Nunca mais seu útero que nos uniu com sangue e nos fez como fez, nem mais nem menos, apenas nós, com tantos nós, desfeitos. Nunca mais. Nunca mais a doçura do seu colo, consolando da vida quem mal sabia viver e não tinha aprendido a saudade ainda, mas pensou que tivesse.
Doía vê-la frágil como uma peça de cristal trincado, rindo ainda como se não doesse nada, esperando, como se fosse fatal, com os olhos tristes, calados, como se não quisesse nada, tá tudo bem, mãe? tá tudo ótimo, filha, eu sou tão feliz, com vocês todos ao meu lado, como sou feliz! e sem querer chorava, escondido, para que você não visse a dor antecipada.

Eu não queria te livrar da morte, só queria que não doesse. Queria que sua cabeça ficasse no arco dos meus braços e embalar o seu medo, se tivesse medo, nem sei se teve, mais medo tive eu. E você me consolava como se fosse eu que morresse. Pronto, mãe, está acabado. Não precisa mais deste corpo que tanto te fez sofrer. Corre, com suas roupas brancas, por esses campos verdes, sem horizontes, respira, mãe, respira livre e forte, sem cansaço, voa, que não precisa mais de tubos, de oxigênio, de tentar, de tentar, como se fosse preciso não morrer. Espera por mim , que um dia ainda te alcanço nessa corrida. Quem sabe seremos mais felizes do que fomos aqui, do que tanto tentamos aqui. Não quero a eternidade. Só quero o calor do seu abraço e sem querer, soluço, como uma menina órfã, presa, para sempre, no vazio dos meus braços.

Confiteor

Meu cafofo estava quase sendo interditado pela vigilância sanitária , já tinha até um rolo daqueles de fita amarela e preta pronto pra usar ...
Eis que minha mãe resolve chamar Xica !

Pausa para apresentar Xica:
Xica é faxineira oficial da MÃE são anos ,
Xica já foi vista "fazendo pista" na Dutra ,
Xica chora quando chove , quando venta , qd esbarra no controle remoto e o som liga alto e eu berro com ela ... Xica chora por qualquer coisa,
Não sei a idade de Xica ( uns 40 e tal) ,
viúva por opção ( justiça com as próprias mãos disseram!), avó do filho do marido morto .
Em resumo, Xica não é qualquer uma.
Xica é bisonha!

Xica do velório do marido liga pra minha mãe pra dar o número do novo celular ... Ria e dizia: É, ele tinha dinheiro escondido... agora eu tenho um celular...

Acordo no sábado as 6 da manhã com Xica ... cenas de uma sexta a noite divertida , regada a Micheladas no Puebla, permeiam o ato de levantar pra abrir a porta .
Em alguns minutos após a cordialidade viking de alguém que acaba de acordar de mau humor percebo que não vai dar certo :
Xica olha meu cafofo como quem estivesse com pena . (como assim?)
Xica avacalha o meu sabão em pó .
Xica me pede sem sucesso pra fazer café pra ela .
Xica quer dividir uma toalha minha em dois pra fazer pano de chão .
Xica me cobra 50 pratas pra limpar um apê minúsculo.

Não aguento e vou dormir no carro!

L@ra, melhor impossível

O sinal abriu faz uns 10 segundos e você nem percebeu. Estava olhando pro lado, para aquela parede branca sem significado. Alguém apertou a buzina, mas aí já era tarde demais, o sinal havia fechado de novo. Você encostou a cabeça no volante. Foi quando resolveu que não queria mais seguir em frente. De que adiantavam todas aquelas buzinas no seu ouvido, pedindo passagem? Você não estava a fim, porra.

Aí, você encostou a testa no centro do volante, disparando também a sua buzina, participando do coral urbano, ao meio dia, na Avenida Central. E chorou desesperadamente. Um cara desceu do carro e bateu nervoso na sua janela. Mas quando viu as suas lágrimas, falou baixinho, moça, estou atrasado, a senhora poderia encostar o carro por favor. E você falou ainda mais baixo, agora não. As buzinas estavam enlouquecidas. Então ele disse, algum problema, quer conversar? E você saiu, arrastando o carro a toda velocidade para não ter que dizer uma só palavra.

Depois, passou por todos os sinais, implorando para que eles fechassem. Você não estava a fim de seguir em frente. Foi quando o celular tocou e você viu o nome dele no visor. Não atendeu. Ele poderia ter enviado uma mensagem de texto bonitinha, pedindo desculpa, mas você sabe que isso também não ia adiantar. Então você freou o carro e o estacionou numa vaga bem apertada. Só para dizer que era capaz. Aí, sentou no calçadão de sempre e ficou a olhar o mar. A praia estava vazia, perfeita para toda a sua dor. Você comprou um sorvete, algo gelado, só para ver se a dor passava, se ela adormecia.

Foi quando ele chegou, pedindo perdão, dizendo clichês, fazendo uma cena. E puta que pariu, você é péssima atriz. Você e essa sua sinceridade extremada. Vá se foder. Olhou para a rua, os carros passavam, pensou em atravessar correndo para ser atropelada e se livrar de toda aquela situação. Mas você não estava, não estava mais a fim de seguir em frente.

Teorias da Loucura

Existem alguns salta-pocinhas que pensam ou mesmo sugerem, em graus variados de subtileza, que o Excelso Padre que agora lhes dirige a palavra não passa de um redator de apocrifias; mas, creiam, julgo a Verdade tão preciosa, rara e valiosa que por isso mesmo a utilizo com extrema parcimônia - quiçá com tanta parcimônia quanto um Vereador de São Paulo. Eis aqui um relato não só verídico como verdadeiro, e dou fé.

A Noviça Karen trabalha part-time num tele-atendimento de um serviço do Governo que supostamente poupa o tempo do Contribuinte. Trabalho chato e cansativo, principalmente pelo fato de que os que ligam para lá raramente se expressam em português e padecem de cretinismo terminal. Pres'tenção nos diálogos:

- Perde Tempo [O nome do serviço é fictício], Karen, Boa Tarde!
- 'Tarde. Eu queria saber cuméquié que eu faço pra ir pra guerra lá do Iraqui.
- ... Ahn, como assim?
- Prá lutar lá junto com os americano. Prá catá o Sadã.
- (breve momento de estupefação) O senhor tem que ligar pro exército, eu acho...

* * *

- Perde Tempo, Karen, Boa Tarde!
- Quié que eu tenho que levá no Detran prá tirar a Carta?
- Tem que levar (cita os documentos) e uma foto recente colorida três por quatro com fundo branco.
- AH, tá. Mas a foto tem que ser minha?
- (aperta o mute para rir e se recompõe) Sim, tem que ser sua.
- Mas essa foto posso tirar de boné? Pode com camisa regata?

* * *

- Perde Tempo, Karen, Boa Tarde!
- Oi, prá fazer RG precisa do que?
- Precisa (cita os documentos), levar numa delegacia e tirar as impressões digitais lá.
- Mas eu tenho que ir eu mesmo tirar as impressão? É que tem boy aqui. E não dá pra ser pela Internet?

* * *

- Perde Tempo, Karen, Boa Tarde!
- Qual qui é o site do Detran, cê pode me dizer?
- É "www.detran.sp.gov.br"
- Mas num tá faltando uma arroba aí?
- Esse é o endereço do site, não é o endereço do e-mail...
- AHHHN.... Mas até que horas fica aberto o site?

* * *
- Perde Tempo, Karen, Boa Tarde!
- Eu tenho um celular de cartão e o cartão que eu comprei não tá carregando.
- O senhor pode me passar o código de barras do cartão?
- Xavê... Tem duas barra fina, uma grossa, uma média, duas fina de novo - não, peraí, acho que são média; não, é duas fina mesmo-, um espaço, uma fina, outra fina junto com uma média... Peraí, me perdi, vamo de novo. Duas fina, uma grossa...

interurbano do Confessionário do Padre Levedo

13.5.03

As cinzas da vovó

A história a seguir foi completamente inventada por mim. Qualquer semelhança com fatos ou acontecimentos reais é...huh...mera coincidência. É isso aí.

Dona Ioná era uma senhora de idade avançada, mas perfeitamente lúcida. Sentindo que o seu tempo por aqui estava acabando, ela resolveu deixar tudo arranjado para não dar trabalho aos parentes na hora de sua morte. Decidiu que queria ser cremada, por isso foi até o cartório e preencheu todos os papéis referentes à cremação. Fez um testamento bem claro, explicando exatamente onde queria que suas cinzas fossem jogadas. Depois, passou os últimos anos de sua vida etiquetando cada ítem de sua casa com o nome da pessoa que deveria recebê-lo. Dona Ioná era muito metódica, além de mórbida.

Algum tempo depois desse esforço todo, a velhinha finalmente bateu as botas. Ela teria ficado muito satisfeita em saber que tudo correu segundo os planos dela e a cremação foi um sucesso. O único neto ficou encarregado de pegar as cinzas e dar a elas o fim escolhido. Antônio, neto de Dona Ioná, saiu do trabalho, apanhou as cinzas e foi para casa. Estacionou o carro na garagem e deixou a vovó passando a noite no porta-malas.

Na manhã següinte, sua esposa acordou cedo e pegou o carro para levar as crianças à escola. No caminho, começou a ouvir barulho de alguma coisa batendo no porta-malas. Quando chegou em casa, informou ao marido que seu carro estava fazendo barulhos estranhos. Antônio, desesperado, correu até o carro para ver se vovó estava bem, deixando sua esposa plantada no meio da cozinha. Abriu a mala e respirou aliviado ao ver o potinho branco (muito parecido com o de sorvete Kibom, por sinal) intacto na mala. Foi se vestir para o trabalho planejando despejar a vó no caminho.

Quatro dos lugares que Dona Ioná tinha escolhido como descanso final eram de fácil acesso e não seriam problema. Já o quinto era mais complicado: uma casa em que ela tinha morado na juventude, que agora tinha outros moradores. Antônio não se sentia comfortável com a idéia de bater na porta de um estranho e dizer: "Olá, posso jogar um pouquinho da minha vó ali no canto?", mas chegando lá, teve uma idéia que o pouparia desse ridículo. Antônio resolveu simplesmente jogar as cinzas por cima do muro, no jardim, sem que ninguém percebesse. Parou o carro, foi até o muro, abriu o potinho, pegou um punhado de Dona Ioná e lançou. Tudo teria dado certo, se não fosse o pequeno detalhe do vento. Antônio nem se preocupou em checar a direção do vento, que por acaso estava contra ele naquele momento. Uma grande parte de vovó acabou voltando e indo para o trabalho junto com ele. No final das contas, vovó acabou indo parar na máquina de lavar, onde deve estar até hoje, pelo menos em parte.

Moral da história: Nunca faça planos, sempre cheque a direção do vento e mantenha sua máquina de lavar bem limpinha.


Oba Fofia - um alienigena, um camelo e uma colher de pau magica

Coisa de moleque

Nasci e me criei em um bairro de classe média, mas como todos na minha rua, fui criança de pés descalços, jogando bola no asfalto e jogando amêndoas em quem passava na rua. Claro, depois correndo que nem um maluco prá não tomar um cascudo.

Uma vez estávamos jogando bola, deviam ser uns 12 ou 14 garotos no total e tinham alguns fazendo a “de fora”. Eis que um dos mais habilidosos foi chutar a bola e acabou arrebentando a tampa do dedão no asfalto e isolando a bola, que foi cair cheia de quinas no quintal de uma casa próxima e de muro alto. Claro que primeiro nós rimos tudo que podíamos rir e depois fomos ajudar o coitado. Dedão enfaixado, cadê a bola? Vai você buscar, não vou não, vai fulano, vai beltrano, vai que eu não vou, alguém resolveu pular o muro. A bola voltou e nada do moleque voltar. Preocupados, dois pularam o muro prá ver o que tinha acontecido, mas também não voltaram. Então foi mais um: pulou o muro, demorou um tempão e depois, do alto do muro disse prá todos pularem lá prá dentro: Além do muro havia uma laje e, dessa laje tinha-se vista pro quarto dos donos da casa que, nus sobre a cama, faziam com a benção de Deus aquilo que o Diabo gosta.

Oras, sexo explícito de graça? Qualquer moleque quer ter acesso! Pulamos todos, já avisados de que não devíamos fazer barulho ou acabava o espetáculo. E a molecada passou o trinco na boca e, com os olhos arregalados e ouvidos atentos via e ouvia cada movimento, sem perder um detalhe do que ocorria. Mas faltava alguém... faltava o Gordo! E quem vai chamar o Gordo? Vai você, não vou não, vai sim, não vou, alguém decidiu chamar. Quando o moleque subiu no muro viu o Gordo conversando com o Mancada, pessoa que não precisa de apresentações devido ao singelo apelido.

- Psiu, Gordo!!! Vem cá! – disse o moleque, sussurrando.
- Que foi? Por que você está sussurrando? – perguntou o Gordo.
- Sobe aqui que você vai ver. – disse, o moleque, estendendo-lhe a mão.

Então o Gordo e o Mancada pularam o muro e o Gordo, curioso ia perguntar o que estava acontecendo quando foi interrompido.

- Olha lá! Eles estão fudendo! – berrou Mancada.

Aí foi um corre-corre: quando o casal olhou pela janela, deu de cara com a molecada toda de butuca analisando a performance do casal e a mulher cobriu-se o começou a gritar; o marido, com a bunda de fora, abriu a gaveta procurando o revolver. E quem quer esperar ele encontrar? Sebo nas canelas! Correr direto prá casa sem olhar prá trás e depois fingir que nada aconteceu.

Ah, bons tempos que não voltam.

Alea Jacta Est

a vida é tediosa sem inimigos...
e hoje eu cheguei à conclusão que eu acabo de perder um...
a sensação de perder um inimigo é estranha: começa quando pouco a pouco, o sentimento de ódio que você tem dele vai diminuindo, virando raiva, virando antipatia, virando indiferença, virando dó, virando misericórdia...
e o pior é quando a ruína pessoal do seu inimigo não tem um dedo de participação sua (bom... um ou dois dedinhos, mas enfim...) e ele vira motivo de riso e exemplo a não ser seguido de todo o colégio por culpa inteiramente dele...
bom... resumindo, perdi o tesão de não gostar dele... sabe a expressão "chutar cachorro morto"? é mais ou menos por aí...
mais um inimigo perdido...

...ospiordaliga®!

12.5.03

Última recordação...

Segunda-feira passada meu apto foi invadido por um estranho. Deixou marcas suas no tapete da cozinha, em minhas roupas, livros, no parepeito da janela. Levou embora alguns de meus pertences e mais um pouquinho de minha fé no mundo. Não deixou bilhete, recado, aviso, comunicado. Deixou apenas um sentimento de estranheza profunda. Hoje sentei em minha cama e fiquei alguns instantes olhando minhas paredes com os longos trechos transcritos a lápis, admirando as figuras em bricolage, velando à biblioteca - felizmente não carregou nenhum livro, não era dado às vaidades intelectuais, era um homem prático. Queria ser os seus olhos naqueles momentos de euforia atávica ou adestrada frieza quando o pobre diabo invadia com sua estranheza a minha, e usurpava de mim o que nunca foi meu e nem será de ninguém. Algo terá tirado sua atenção de seus objetivos por algum momento? Saberia ler? Alguma frase em minhas paredes ficou trancafiada no seu mundo particular? Queria que ele realmente pudesse ver com os meus olhos o que somente eu poderia ver nos seus. Queria, realmente eu queria, que ele tivesse deixado todos os pertences que levou em troca de um livro de minha biblioteca, em troca de uma fotografia de Drummond, ou um dos cds do Miles. Mas não foi o que ele viu de valor no apto. Levou consigo apenas a carcaça. Alegra-me mais a idéia de um larápio que abandona o furto para ler um par de contos de escolha sua na biblioteca da vítima, do que a realidade de caixeiros-viajantes como este. Mas o mundo é imperfeito e é tal como é, do tamanho de suas imperfeições. Tenho fé no homem. Acredito na fala do personagem de Kevin Spacey no filme K-PAX quando argumenta que qualquer um no universo sabe a diferença entre o "certo" e o "errado". Acredito que o sujeito que invadiu minha casa, como hábil matemático, teve tempo para ponderar os riscos que corria e as escolhas que tinha por opção. Acredito que escolheu mal e que a sua situação o coloca ainda mais distante de uma possível redenção diante de si próprio. Antes de tudo mais, diante de si próprio. Hoje tenho as janelas de minha casa indefinidamente trancadas. Tive que reforçar batentes, acercar barras de aço retorcidas à sua volta, outras travas foram adicionadas à porta e minha casa ficou mais escura e meu coração mais escuro. Ele conhece o meu rosto por meus retratos e eu possivelmente jamais saberei o seu. Talvez seja melhor assim. Um dia vai passar por mim, no mesmo lado da calçada em que eu estiver, vai me ver de longe, mas ao seu aproximar não vai me olhar nos olhos. Quem teria coragem de olhar nos olhos de um cego para o qual tenha feito uma grande maldade? Eu vou guardar de você apenas uma lembrança, as outras, consideravelmente mais tristes, vão expurgadas nesse texto, e a lembrança será a seguinte - um menino correndo descalço num terreno baldio o mais rápido que consegue para pegar antes dos demais a pipa que caiu do céu...

capítulo de recordação no Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

Mães não pensam

Eu estava muito a fim de escrever hoje. Muito mesmo. Mas percebi que tudo o que eu queria escrever esbarrava na minha indignação com a manipulação materna que nos acompanha e nos acompanhará para o resto das nossas vidas ou da delas.

Esbarrava na minha indignação de ser casada há quase uma década e perceber que as pessoas falam, falam, mas, em pleno século vinte e um, elas ainda acham que um casal só é uma família quando tem filhos. A regra é tão subliminar quanto as chantagens de uma mãe: família não pode ser dois, muito menos um, família é no mínimo três.

Minha indignação gritou o dia todo. Gritava pedindo que eu não esquecesse das mães que gastam fortunas para engravidar ignorando qualquer possibilidade de adoção, gritava implorando que eu mandasse pra puta-que-o-pariu esta nova geração de mulheres, hipócritas pra caralho, que bancam as revolucionárias a vida inteira e acabam engolindo suas pregações com o velho e mascarado discurso do "eu vou ter este filho com ou sem você". Era impossível não escrever sobre o desrespeito que essas mulheres têm com a figura paterna. Precisava escrever sobre o egoísmo feminino que nos faz acreditar e agir como se tudo estivesse sempre sob o nosso domínio.

Escreveria sobre a parte que me embrulha o estômago, as tripas, a alma, o corpo todo. Escreveria sobre as mulheres covardes que usam a maternidade para serem alguém na vida, na sociedade, no saldo bancário. E precisava desesperadamente escrever sobre aquelas que fazem dos filhos um escudo de proteção. Escudos que servem para resolver relações amorosas, para amarrar seus homens, para que elas possam ser chamadas de mãe sobre a sombra da sua perversidade. Pretendia escrever sobre manipulação feminina; a maior e mais discreta das formas de poder. Uma grande atuação, com muitas indiretas, poucas palavras e objetividade e com um silêncio repleto de sons.

Eu queria muito escrever. Mas no fim de um dia inteiro pensando sobre essas coisas e sentindo meu pensamento dividido entre as minhas objeções e os agradáveis momentos em família, percebi que não era possível me sentir livre para criticar o intransmutável comportamento materno.

Eu estou contaminada. Contaminada pelo amor que eu sinto pela minha mãe, pela graça de ver minha irmã criando meu sobrinho e de diversos bons exemplos que desfilam muito próximos de mim. Estou contaminada pelas lembranças boas de uma intensa história com pai, mãe, irmãos e mulheres admiráveis. Estou impregnada da força da minha mãe. E raramente isto me incomoda porque ela sempre esteve protegida pela minha certeza de que ela me deu - e ainda me dá - o que há de melhor em uma mãe. Não, não posso condená-la porque ela é como todas as outras mães com a diferença de que ela sou eu e eu sou egocentrada demais para não agradecê-la pela dádiva de estar viva e feliz.

Ser filha me impede de escrever à vontade sobre mães. Mesmo porque, de que adianta condená-las pelo que elas ignoram de maneira tão sublime, há séculos.

Desde criança aprendemos que só devemos julgar quem pode nos tirar a vida e não quem nos oferece, então, não tenho o direito de julgar as entrelinhas maternas. Mães são onipotentes, inquestionáveis... mães não pensam. Se pensassem não precisariam ser mães para se sentirem realizadas.

AMARULA COM SUCRILHOS

Presentes

Lembro-me de uma ou duas ocasiões em que meu pai resolveu fazer uma extravagância quando eu e meus irmãos éramos crianças: Ele nos levava a uma loja de brinquedos e dizia "Vão lá, podem escolher o que quiserem". Claro que não era pra valer, se um de nós viesse com algo absurdo ele obviamente diria "O que quiserem, menos isto", mas valia a aventura de andar entre prateleiras de brinquedos para escolhermos o que bem entendêssemos.
Minutos depois, voltávamos com nossas escolhas. Ana Cristina com uma boneca maior que ela. O equivalente a, sei lá, 150 reais (a moeda da época, lembrem-se, era o cruzeiro. Estamos falando da primeira metade dos anos 80). Roberto com um carrinho todo cheio de firulas. 200 reais.
Marco Aurélio com uma lanterna. 2 reais.
– Marco, mas só isso? Eu falei que pode escolher o que quiser.
– Então. Eu quero uma lanterna.
– Hum... Tá, então você pode escolher outra coisa.
Então eu saía todo feliz, sob o olhar de piedade dos meus pais. E voltava com um Jogo da Memória. 8 reais. Então eles desistiam, e eu era a criança mais feliz do mundo porque tinha ganhado dois presentes.

Jesus, me chicoteia!

Fecho os olhos e consigo sentir o cheiro dos papéis de carta que quando era pequena eram colecionados.
Estudei somente com meninas por anos e o recreio era a hora de exibí-los, fazer trocas. Sentávamos numa roda de 5, 6 meninas e o grande momento era achar um papel de carta perfumado. E' desse cheiro que eu me lembro e se passaram quase 20 anos, como pode ficar impresso na minha cabeça?

Tenho certeza que nunca pedi para meus pais comprarem os papéis de carta. Eu não fazia parte da turma que colecionava mas sabia que era única. Me acontentava em folear as pastas das outras e descobrir em que folha plástica estava o papel perfumado.

Depois de tantos anos eu me lembro disso e penso "por que eu não tinha?"
E acho várias respostas, entre as quais: me bastava ver as pastas das outras. Será que em algum momento eu desejei colecionar? Me pergunto e a resposta, talvez racional demais, mas é a única que eu encontro: que deveria pedir pra alguém me levar à uma papelaria, mas ninguém podia me levar, ninguém, quando podia, me levaria.

Meus objetos de desejo eram lapiseiras japonesas, papéis de carta...
Um dia minha mãe me presenteou um kit, mas a vontade já tinha passado, eu nunca usei, e para mim uma coleção é algo útil somente quando vem usada :)
Ainda sonho aquelas lapiseiras, algumas bobagens eu comprei, depois dos 18 anos e as adoro. Sempre compro uma caneta, uma porcariazinha pra satisfazer minha vontade, mas a verdade é que teria comprado 1000 delas, se pudesse.

Hoje em dia eu coleciono meias, não existem meias brancas, todas são coloridas, sempre com bichinhos, florzinhas, devo ter mais de 40 pares mas nunca conto. Eu sempre peço como presente meias naquele estilo e acabam achando que eu estou querendo baratear o presente, mas não :) é realmente uma coisa que amo.

Não adianta comprar 1000 lapiseiras/canetas, eu continuo me contentando com aquilo que tenho :)

chi:ko:rit:a weblog

11.5.03

Segundo o grande dicionário Larousse da Lingua Portuguesa :

canela s.f.1 = parte anterior da perna , entre o joelho e o pé, 2 = nos equideos e nos ruminantes , osso que separa o joelho e o tarso ( jarrete ) dos dedos (boleto) , 3 = dispositivo para achar móveis no escuro

É incrivel essa 3ª definição de canela , parece que os nossos genes entraram em entropia só para criar uma merda que não faz nada alem de machucar a gente ..... vai tomar no cú , canela filha-da-puta ( eu tenho que culpar algo ou alguem né , pela minha desatenção )

Puta Que Pariu v.42Ø3r42Ø

Ladrão tenta pular muro de presídio, morde PM e é pego pelas pernas

Um ladrão tentou de tudo para não ser preso no presídio do Carumbé, em Cuiabá. Ele tirou a roupa, fez outro preso refém, bateu com uma garrafa térmica na cabeça, escalou um muro de dois metros de altura e até mordeu um policial. Como dizia a música, ele estava descontrolado!

Marco Antônio da Silva foi preso por furto, domingo. Ele estava em uma cela na Delegacia Metropolitana, a chamada "suíte de luxo" (vide notícias anteriores). Ontem, Marco teve a notícia que seria transferido pro Carumbé. Na hora da transferência, deu a louca no preso. Ele se armou com um espeto de madeira, segurou outro companheiro de cela e armou o maior barraco na delegacia. Ele foi desarmado e jogado dentro do camburão. Marco Antônio ficou levemente ferido, segundo a polícia, na hora do desarme. Sei...

Gato e rato

No Carumbé, antes de entrar nas celas, Marco e os outros três presos transferidos deveriam ser revistados. Como não havia luvas e nenhum policial queria colocar as mãos em Marco, porque ele estava ferido e sangrando, o preso teve que ficar nu. Os outros presos, inclusive o que ficou refém, aproveitaram a situação para.. não não é isso que estão pensando.. aproveitaram para dar o troco: chutes e socos pra todo lado.

Os policiais militares e agentes carcerários tiveram que separar a briga e, quando estavam colocando os presos nas celas, Marco pegou as roupas e deu no pé!. Ele correu e conseguiu escalar um muro de dois metros de altura que dá acesso à rua. Os policiais, que tinham perdido o nojo, seguraram Marco pelas pernas. O preso viu aquela como última (ou penúltima) tentativa de fugir do presídio. Deu uma mordida no braço do PM Ruldsomar, mas foi imobilizado.

Sem chance

De volta à revista, Marco aproveitou outro momento de distração dos policiais e correu. Ele se armou com um rodo e uma garrafa térmica! Marco começou a bater com a garrafa na cabeça dizendo que queria morrer. Nesse momento, um policial deu uma rasteira no preso e conseguiram "desarmá-lo". Foi aí que Marco percebeu que para sair de um presídio é preciso ter a força de Hércules, se é que vocês me entendem.

Ele foi preso na ala de triagem do Carumbé e deve aguardar no presídio lá até ser julgado.

Positivo e Operante copia?

10.5.03

Humilhação

Começou a esquentar em Nova York. O que significa ar condicionados ligados, o que, por sua vez, significa frio glacial nos espaços fechados. O ar condicionado na América é a prova definitiva de que, mais do que ter o domínio sobre a natureza, os americanos querem humilhá-la por completo.

AMARAR EM NEW YORK

Eu já acreditei em paixão eterna.
Eu já pensei em me matar.
Eu já pensei em matar.
Eu já planejei meu velório.
Eu já vi disco voador (ei... tinha mais gente comigo!)
Eu já ganhei um campeonato de chopp em metro (tomei três garrafas de cerveja direto, sem parar... hehehehe).
Eu já beijei namorado de amiga minha (hj não faço mais isso).
Eu já mordi até sair sangue.
Eu já dei e recebi muito tapa na cara.
Eu já ri de “tamanho”.
Eu já vomitei na minha cama (eka!!!) e botei a culpa na minha cadelinha.
Eu já ajudei a embebedar a minha avó.
Eu já tomei banho de piscina em um frio de zero graus.
Eu já tomei banho de mar em um frio de zero graus.
Eu já quebrei o dente de um namorado.
Eu já cai da janela do segundo andar (beuda).
Eu já me vesti de vaca.
Eu já me vesti de caixa.
Eu já me vesti de deusa grega.
Eu já fiz uma festa em uma casa abandonada (e os donos apareceram e participaram da festa).
Eu já fiz o Reitor da faculdade pagar um festão pros meus amigos.
Eu já participei de muita festa onde todos os meus professores estavam muito bêbados (e eu tbm!).
Eu já dirigi um carro à 180km/h.
Eu já pensei em bater o carro de propósito.
Eu já andei em um fusca com 9 pessoas dentro.
Eu já abri e liguei o carro errado com a chave do meu carro (só descobri que não era meu carro pq a rádio q estava sintonizada tava tocando música sertaneja).
Eu já andei em um carro conversível com a capota aberta em um temporal.
Eu já roubei placa de trânsito e cone de sinalização.
Eu já ajudei a derrubar uma freira em um poço de tartarugas.
Eu já coloquei bolinha de cinamomo no molho de cachorro quente da festa de São João pq queria ver se o pessoal ia ficar doidão.
Eu já batizei bebida de namorado (que não bebia por ser fraquinho, fraquinho) só pra ele ficar bobo.
Eu já bebi um lance pegando fogo.
Eu já bebi curaçau blue de uma seringa.
Eu já liguei pra uma boate dizendo absurdos sobre o lugar até que eles cederam, de graça, o melhor camarote do lugar e toda bebida que pudéssemos tomar.
Eu já tirei 10 em prova só embromando o professor com minha lábia.
Eu já fui milhares de vezes a secretaria, coordenação e afins.
Eu já tomei porre de absinto (e é o pior de todos).
Eu já cai do telhado brincando de esconder com meu namorado.
Eu já fiz campeonato de martelinho.
Eu já tranquei meu pai na rua (beuda).
Eu já convenci um professor da faculdade que eu estava passada (eu estava rodada de verdade) e que ele havia posto minha nota errado no caderno e ele me passou com nota 9!!!
Eu já ajudei (sem querer) a bater um carro em uma duna de areia.
Eu já andei muito em cemitério de noite.
Eu já participei de festa em cemitério.
Eu já fiz caipirinha em um reco-reco.
Eu já fiquei com uruguaio, americano, português e francês falsificado... mas nunca com um argentino.
Eu já fiquei com um cara que descobri ser casado.
Eu já fiquei com um cara em cima de uma carroça de faroeste.
Eu já tive quadro com a foto do Brizola na parede do meu quarto.
Eu já fiz boca de urna.
Eu já criei uma cobra venenosa.
Eu já criei uma aranha caranguejeira.
Eu já participei de campeonato de caça ao morcego.
Eu já botei sabão líquido (de lavar louça) na bebida de amigos que estavam muito bêbados (e eles nem notaram as bolhinhas estranhas no canto da boca).
Eu já bati feio (quase perda total) o carro (não tava beuda).
Eu já vi um cara apontar uma arma pra mim.
Eu já vi o mesmo filme, no mesmo dia, sete vezes só por causa da bunda de um cara.
Eu já deitei no asfalto de madrugada, na avenida mais movimentada do bairro.
Eu já vi minha mãe apontar uma arma pra uns caras que invadiram nossa casa.
Eu já vi minha mãe apontar uma arma pro dono de uma vaca (ela é boa nisso).
Eu já vi minha mãe tirar a arma de um aluno bandido dela.
Eu já atirei.
Eu já atirei água na cara de um namorado.
Eu já fui a praia (220km de distância), com um namorado só pra comer um “x” que tem lá e é um espetáculo, e voltei de lá uma hora depois.
Eu já queimei a mão de um namorado no fogão.
Eu já fiz um namorado meu cortar a palma da mão com estilete.
Eu já fugi de casa e ninguém deu por falta.
Eu já quebrei uma vassoura na cabeça do meu irmão.
Eu já beijei apaixonada.
Eu já beijei com ódio da pessoa.
Eu já beijei por beijar.
Eu fiz um post no estilo do Eu já e nem coloquei muita coisa sobre sexo (isso que os posts do Eu já são praticamente só sobre sexo!!!)...
Coloquei mais pequenas coisas que fazem parte da minha história, e que dariam um bom livro. E o sexo? Geralmente eu exponho muito mais de mim em meus contos do que em uma pequena coisa como um post. Acho o sexo muito melhor quando é assim: algo misterioso e subjetivo. Vocês não acham? Então experimentem uma venda para os olhos... hum....

Mel

Eu já...

Descontrole

Pela primeira vez na minha vida pensei que ia morrer. Estava triste, a beira da depressão, me tranquei no quarto e comecei a chorar descontroladamente. Deitei na minha cama, e parecia que meu travesseiro ia me sufocar até eu morrer. Não conseguia parar de chorar, até que tb não conseguia respirar, meu nariz e glote simplesmente fecharam, e por pura ironia da natureza, eu que estou mergulhada num mar de ar não conseguia que nenhum chegasse até meus pulmões.
Desci da cama e olhei no meu espelho, estava realmente sufocando, não conseguia gritar por socorro, e mesmo se gritasse, e mesmo que alguém ouvissem, até que arrombassem minha porta poderia ser muito tempo. Peguei o telefone, queria falar com meu melhor amigo antes que algo me acontecesse, mas não conseguia lembrar do número que há tempos tinha decorado.
Não conseguia conter minhas lágrimas, elas se multiplicavam a cada segundo, e como nas tragédias causadas pelas chuvas de verão, tudo em mim havia inundado, não havia espaço pra vida. Me levantei de uma vez do chão que a tempos estava rastejando, desmaiei.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada e sem respirar, quando recuperei a consciência, as lágrimas pararam, deitei na minha cama e dormi.
De manhã meus olhos não abriram, eles estavam fechados como se tivesse apanhado muito, e realmente era assim como eu me sentia, na verdade era isso mesmo o que acontecera, meu subconsciente me surrou, me fez rastejar, me fez implorar pela minha vida. Fui trabalhar e parecia que eu estava parada e o mundo todo passava diante de mim de forma acelerada, mesmo nublado usava meus óculos escuros e tentava me manter o mais invisível possível para que ninguém me perguntasse o pq de estar daquele jeito, sem me dar conta que é por querer que as pessoas não se incomodem comigo que eu quase morri.

Em caso de coma - Me coma!

Histórias reais de homens compreensivos

Eu juuuuro que as duas histórias são reais. Se passaram em duas cidades bem pequenas do interior do Brasil e têm alguma semelhança. Me foram contadas por grandes amigos de grandes amigos meus...

1
Ele se casou com a mulher mais bonita da cidade. Mas até então não sabia que além de beleza, ela tinha fogo. O início do casamento foi maravilhoso. Ele nunca pensou que uma mulher pudesse gostar tanto da coisa. Eis que, meses depois, ele já não conseguia mais viver daquela maneira. De manhã, de tarde, de noite, rapidinhas e demoradas, na cama, em todos os lugares da casa, no carro, na rua...! Ele já não tinha energia para o trabalho e nem para o futebol com os amigos. Foi numa noite dessas de pelada (pelada de bola, não de mulher...) que os amigos comentaram que ele não era o mesmo, que tinha emagrecido, que não jogava mais, que nem conversava mais.

Naquela noite, em casa, ele abriu o jogo com a mulher. O ritmo tinha que reduzir ou ele morreria! Ela compreendeu em parte. Conversaram. Negociaram.

Hoje ele faz o que pode. E o que ele não pode fazer, outros homens da cidade fazem. Com o consentimento do marido. No "regulamento", que ela nunca dê pros amigos dele. De resto, ele aceita. Não precisa nem saber quem são. É possível que sejam felizes para sempre...

2
Ela era louca pra ser mãe. Se casou aos 21, com o homem que amava. Dois anos depois, nada de filhos. E olha que tentavam com afinco...
Foram se consultar num médico da capital. Ele era estéril. Pensaram em adotar crianças, mas ela queria os dela. A tristeza tomou conta da casa. Viviam um impasse dramático e existencial. Ela chorava dia e noite. Ele sofria com a depressão da mulher.

Numa noite qualquer, ele chegou do trabalho e disse a ela que tivesse os filhos tão desejados com outro. Com outro, não. Com outros. Que escolhesse homens saudáveis da cidade e pimba! No "regulamento", que, pra todos os efeitos, aqueles filhos eram dele e pronto.

Hoje eles estão velhos. E ainda casados. Tiveram cinco filhos.

Há quem entenda e há quem não entenda. Mas é fato que uma união feliz passa mesmo por belas negociações e regulamentos...

galhardias de elasporelas

9.5.03

o gato púchkin tem estado com frio! hoje, muito bonitinho, ele entrou num edredom que estava dobrado no pé da minha cama. entrou lá, como se estivesse em seu saco de dormir poderoso para acampamentos na áfrica central! ele é demais. está com cerca de seis quilos, um verdadeiro boizinho. eu fico muito feliz de morar com o púchkin, porque ele grita quando o cocô dele vira uma mina de esterco e porque ele abre o pacote de ração quando percebe que eu esqueci de encher a sua vasilha e que vou demorar a voltar. o púchkin é independente, aprendeu comigo, orgulho da mamãe. :o) ele sai de casa pra namorar, mas sempre volta e me espera na portaria do prédio. ele tem três ou quatro namoradas na rua, é praticante do donjuanismo kierkegaardiano e de uma safadeza jecevaladiana, mas quando é filho a gente acha bonitinho, né? que vida, meu deus.
(...)

o gato da Nibeluga do Cabelo Duro

Rio de Janeiro.

Estava lá no bar, vendo o Jornal Hoje e tomando minha média extra-forte com misto-quente quando chegou o sujeito e pediu um café carioquinha. O atendente foi lá na máquina e voltou com aquele café completamente aguado, mais para marrom do que para preto. O sujeito tomou aquilo com gosto. Na TV a Rosinha e o Garotinho e suas infinitas reuniões e forças-tarefas contra o crime organizado.
Foi então que percebi.
Uma cidade onde se inventou tomar café fraco só pode mesmo viver no caos.

epifania do Desgarrado

Nos últimos dias deslizei-me em caneta sobre papéis. Evidentemente não poderia escrever todas as cartas que prometo e que afirmo com veemência querer. Faço escolhas entre cidades e códigos postais. Escorrego-me então entre linhas que revelam-me muito mais do que o teclado. A caneta é um objeto que despe seu dono. Não há tecla “delete”. A carta sela um texto que não poderei reler, refazer. Depois de enviada, não posso mais rasgá-la. Não posso tirá-la das mãos do destinatário. Por isso, quando exercito-me em caneta sobre o papel, raramente releio. Procuro enfiar o papel dobrado rapidamente no envelope e, sem mais pensar, depositar em uma caixa dos correios. Está feito. Não conto que me arrependo porque nem lembro mais o que foram as linhas que revelei. Sei apenas que abri uma cortina, deixei um raio de luz adentrar um recinto pessoal. Tenho medo de meus deslizamentos porque me sinto muito mais atingível, menos protegida. Adquiro meu tamanho real, minúscula poeira sobre o mundo. E quando sei que o destinatário me descobre assim, estremeço dentro de mim. Mas só quando estou despida posso ter o afeto ou o desafeto sincero. Então arrisco os deslizamentos porque não viveria sem saber como é tocar e ser tocada. Correr riscos é caminhar a vida. Estar vulnerável é estar em um momento de coragem. Absoluta poeira minúscula que provoca a caminhada dos homens vestindo camisa amarela.

palavras empoiradas da Walkwoman