15.12.07

ao velho batuta

Querido Papai Noel,

Gostaria de ganhar uma namorada de presente. Ela precisa ser bonita, gostosa e charmosa; ser cool sem ter o ar muito blasé; quero uma guria que goste de bons sons, não faço exigências de estilos, precisa ter bom gosto musical; quero muito que ela goste dos meus amigos e que entenda que beber faz parte da confraternização; precisa ler mais que eu, o que não é difícil de se encontrar tendo em vista que eu não estou lendo ultimamente, alguém que leia para mim e me ensine o que eu ainda não sei [o sr Noel sabe também que não é qualquer leitura, né? tem que saber o que ler, que eu leio pouco, mas eu tenho amigos que conhecem literatura e eles me dão uma base do que é bacana e o que não é]; obviamente se trata de uma menina inteligente; esta namorada precisa falar no mínimo uma segunda língua, se a primeira for português, que ela saiba falar ao menos o inglês para que possamos passar um ano juntos em Londres depois que eu me formar e ela possa conversar de boa com todos meus amigos que por lá encontrar; quero uma mulher que saiba cozinhar e que goste de alho nos temperos; não ligo para idade, mas geralmente as mulheres balzaquianas preenchem melhor estes pré-requisitos; eu quero uma namorada para me acompanhar nos shows e nos botecos, no cinema eu não ligo de ir sozinho, mas ela precisa gostar de cinema, de filmes alternativos, precisa gostar e conhecer mais o cinema europeu do que o roliúdiano; se ela tiver uma casa bacana também ajuda, que ainda vai levar um tempo para eu ter a minha; ela não precisa ter um home-cinema na sala dela, não sou tão exigente assim.
Acho que é isso.

Mas se tiver difícil de encontrar este presente, pode ser um sapato novo, mesmo.

Grato.
Atenciosamente,

The Nowhere man

3.12.07

um post offline

eu sou o tim maia da literatura.

adios lounge

26.11.07

Lá fui eu novamente para o ponto lotado da Consolação com a Paulista. Peguei o Jardim Macedônia, lotado, abarrotado, craudeado. Fiquei um pouco na parte da frente, já que passando a catraca tava show de horror, todo mundo grudado um no outro.
Quando estava chegando perto da minha casa (faltavam uns 4 pontos) resolvi passar. Passei e fiquei grudada na catraca. Na minha frente havia uma moça interativa, ela olhou para mim e disse: ônibus lotado e a gente ainda têm que agüentar isso!
Eu pensei: isso o quê?
Quando vi tinha um bêbado bem ao meu lado. O cara tava mals gente, falava cuspindo, todo inchado e pelos movimentos dos olhos percebia-se que tudo rodava. Ele tava bem perto mesmo de mim, quase encostado, fedia cachaça.
Assim que percebi a existência do maldito ele começou a fazer movimentos estranhos (alguém aqui já viu um gato vomitar? Se viu sabe, ele estava fazendo esses movimentos).
Pela posição do homem o jato de vomito não só cairia em mim como direto na minha cara. Entrei em pânico e comecei, em vão, tentar sair do lugar que eu estava, mas tava difícil não tinha para onde correr.
De repente, o cara faz uma cara de alivio e notei que não havia vomito. GENTE, O CARA SE CAGOU TODO EM PLENO JARDIM MACEDÔNIA, LOTADO, ÀS 6:30 DA TARDE.
Vocês não fazem idéia de como o pessoal achou lugar rapidinho, parecia que haviam dado um tiro dentro do ônibus, todo mundo começou a se apertar para o fundo e gritar. Um moça bem baixinha que estava próxima de mim colocou o rosto nas axilas de outro moço, eles não se conheciam.
Uma outra, que tinha cara de ser uma pessoa divertida, gritava e colocava a mão na boca e dizia com sotaque nordestino: ai gente, não posso com essa caatinga acho que vou vomitar. Uma senhora, coitada, que estava bem ao lado do moço no momento do alívio não teve dúvidas, pegou sua bolsa e agrediu o homem na cabeça diversas vezes. E dizia: rá simbora seu bebo, tu tá é fedeno que nem um porco.
Era o inferno de Dante em Plena Rebouças. Pessoas desesperadas, uma coisa horrível.
O motorista percebeu o motim, abriu a porta do ônibus no meio da avenida e o homem começou a passar pelas pessoas para chegar até a porta, nessa hora a gritaria foi geral, algumas se penduraram, outras sentaram no colo de quem estava nas cadeiras e o moço desceu e caiu coitado.
Nessa hora fiquei até com dó, o cara caído no chão todo cagado, que situação né! Mas o que eu podia fazer? Ajudar ele? Sou até que uma pessoa bacana, mas ajudar esse sujeito era demais!
Enfim, não consegui comer mais nada durante aquele dia e nem me esquecer daqueles momentos de horror.

gente, foi horrível!

23.11.07

reflexões de fim de ano

Voltando para casa, com as luzes das árvores natalinas piscando em minha memória, comecei a pensar sobre o que estou realmente fazendo neste mundo, vasto mundo, em que fecho os vidros do carro e me escondo atrás do insulfime, em que recebo e-mails quase diários sobre "como se proteger do falso telefonema de sequestro", o "golpe do flanelinha que some com o rádio do seu carro", os "meninos dos faróis que esguicham ácido na sua cara", e por aí vai. As ruas e avenidas que atravesso em São Paulo não lembram exatamente o morro tomado pelo BOPE e seu Capitão Nascimento... mas não pude evitar o pensamento de que tiros ecoam na periferia paulista, no centro da cidade, em arrastões nos condomínios do Morumbi, tão rápido como as primeiras luzes de Natal.

daqui prá frente tudo vai ser diferente

Grandes questões da humanidade

Alguém sabe por que não existem animadores infantis homens? E por que os Paquitos foram um grande fracasso? Eu te digo: é por causa da altura das crianças. É, isso mesmo. Porque se você perceber, essas pequenas e agitadas criaturinhas ficam EXATAMENTE na altura do seu saco. Dançar ilariê, brincar de pega-vareta, andar de patinete, qualquer uma dessas inocentes atividades pode ser fatal. É só a criança fazer qualquer movimento que... uau, vai de encontro direto aos seus bagos. E enquanto você se debate no chão, como um salmão fora do rio, o desgraçado fica lá, orgulhoso de si mesmo e se achando uma merda de Power Ranger.

lições do loser

22.11.07

Ontem tive meu próprio momento proustiano

Encontrei no supermercado petits pains suédois, que são pãezinhos cortados ao meio e torrados. Lembrei que gostava deles, fiquei toda alegrinha e comprei um pacote.
Cheguei em casa e já fui experimentando um. Hm, crocante e nutty. Mas fiquei meio decepcionada, porque não parecia a mesma coisa. Deixei o pacote pra lá e fui fazer outra coisa.

Mais tarde, fui tirar os queijos da geladeira pra fazer fondue, que era o jantar programado. Gruyère, emmental, e comecei a ralar. No finzinho do emmental, me deu um clique e pensei : hm, isso deve ficar bom com um dos petits pains. Cortei um pedacinho dele e comi com uma das torradinhas suecas.

Era isso! A combinação de sabores me emocionou, e de repente lembrei o porquê : foi a primeira coisa que comi em Paris, na minha primeira vez na cidade, há mais de dez anos. Um fato que eu tinha esquecido completamente, encoberto por tantos outros que se seguiram nesse tempo todo. Mas que, pelo visto, nunca deixou de ter importância.

Em 96, fui a Paris pela primeira vez, para fazer um curso de verão na Sorbonne - Langue et Civilisation Française. As residências estudantis já estavam todas ocupadas, mas consegui alugar um apartamento normal no 7ème através de um anúncio pregado não lembro onde. Cheguei na cidade num domingo, e fui pegar a chave com o administrador, um senhor brasileiro muito tranquilo. Ele foi comigo me mostrar o apartamento e como funcionavam as aparelhagens, código da porta, etc.

Fiquei pasma, porque o lugar que aluguei sem ver era um apê grande, lindo, com quarto, sala, cozinha equipada e banheiro - na verdade poderia ser dividido com mais gente, mas consegui alugá-lo sozinha. Das janelas se via a Torre Eiffel, e a rua tinha a mistura exata de movimento e calma. Não podia querer mais nada.

O administrador então se despediu e explicou que, por ser domingo à noite, ele previu que seria difícil eu conseguir comprar comida naquele horário - e deixou umas coisinhas pra que eu não ficasse sem nada.

Abri a geladeira e encontrei - sim, um pedaço de emmental e um pacote de petits pains suédois. Fiquei comovida com o cuidado inesperado, e senti que aquele período ia ser um dos mais felizes da minha vida.

E assim, na minha primeira noite de verão em Paris, sozinha frente às janelas abertas mostrando a Torre iluminada contra o céu escuro, consciente da minha tremenda sorte de estar ali, tocada pela beleza e gentileza, comi queijo suiço, pão sueco e água - e nada pareceria mais gostoso.

annix

Credo in card, monster card

Quase 25 anos de profissão, centenas (ou milhares, sei lá) de campanhas bem-sucedidas feitas por mim ou com a minha colaboração, milhões ou bilhões de campanhas muito mais criativas e vendedoras que as minhas feitas por anunciantes nacionais e internacionais provando o contrário, e até hoje eu ainda sou obrigada a ouvir de clientes e curiosos - e até do ocasional profissional da área, por increça que parível - que não se deve usar a palavra "não" ou outras igualmente negativas, tais como "nunca", "jamais" e outras desse tipo em propaganda.
Sim, até hoje, a esta altura, em que até as pedras sabem, ou deveriam saber, que isso é uma bobagem, uma palhaçada, uma picaretagem de neurolingüística mal-costurada ou de auto-ajuda empresarial de 8ª categoria, ainda tem quem diga, repita e defenda isso.
Se acontecer de novo, não sei o que eu faço :
se finjo um ataque de nervos e saio gritando e arrancando os cabelos ou se faço o papagaio que repetiu essa besteira engolir, sem cortar e sem dobrar, meu exemplar de domingo da F*lha (não dá pra não ler – wow, a double negative !) ou meu Am*rican Express (não saio de casa sem ele).
Pensando bem, melhor que seja meu Cre*iCard MC. Porque o prazer que isso vai me dar... não tem preço.

cyn city

20.11.07

Procrastinadores do mundo, uni-vos!

Mas não agora, OK?
Me deixem dormir mais um pouco...

puragoiaba e go to heaven

19.11.07

Kátia

Se há um momento de dor ou de riso, uma empadinha vai bem. Uma forma de empadinhas. Ou um pote de sorvete. Se há uma espera, uma coca-cola. Um medo, um sanduíche. Uma angústia, mingau.
O sim, o não, o frio, o escuro, nada é maior que um prato de miojo, não existe mal incurável frente à uma fatia de torta de limão.
Que a comida invada e preencha e ilumine e anestesie e defenda e justifique e traduza.
Que ela defenda a coragem, que é pouca.
Que ela embale o calor, que não há.
E invente um amor que não existe, nunca existiu.

nomes só

18.11.07

Um último olhar sobre a cidade

Malas prontas, depois de ter jogado tanta coisa fora. Dez anos não se apagam fácil... Nem é questão de apagá-los, afinal, tanto a dor quanto a delícia de um dia ter estado aqui partem comigo para o sul do mundo, independente do que for levado. Mas sempre a sensação de algo incompleto - será que alguma vez estamos prontos...?

Ficou-me esta lembrança, quase uma sensação, de uma noite de chuva no banco de trás de um carro, numa carona para casa: uma menina, com quem eu procurava reatar o namoro, escreveu no vidro embaçado da janela, letra a letra, enquanto eu esperava uma declaração de amor:

Você está ciente do que já é mágoa?

E eu acho até que estava. Ainda que esperasse uma declaração de amor. Eu sempre tive essa mania besta de querer por souvenir mais do que mágoa.

E agora eu me pergunto, honestamente ingênuo: responder bastava?

(Mas não cabia na janela nem mais uma palavra.)

diferença nenhuma

13.11.07

A seqüência lógica dos fatos

Há umas três semanas.

Arrombam o carro da minha namorada e roubam, entre outras coisas, meu computador, minha agenda e umas besteiras mais. Duas horas depois, chego ao aeroporto e descubro que o vôo foi cancelado. A TAM paga o hotel em que fico, mas no dia seguinte, logo cedo, me acordam avisando que uma amiga morreu. Chego ao aeroporto e descubro que o avião em que vou viajar é um Fokker 100 -- o único avião no mundo que me mete medo. Pouso no Rio e, não mais que de repente como num soneto de Vinícius, chove em um dia o que deveria ter chovido em um mês.

Agora eu vivo com medo de que finalmente descubram que foi por minha culpa que o Rebouças foi soterrado.

rafael galvão

Duríssimo

Tive um namoro que acabou por excesso de Junior. Ela gostava do Fabio Junior, do Sandyjunior e do Amaury Junior.
Aí é jogo duro...

catarro verde

12.11.07

sonhando

Encantamento ao te ver ali a sorver-me os caldos, sou a provedora que te sacia, a presa que te mata a fome, banquete e banqueteada, nosso festim de ais e silêncios, tua boca a desvendar-me os sabores todos - amor e lágrimas comovidas-, em reverência e posse te debruças e me entrego mansa. Tua língua a abrir caminhos que eu sigo tonta, lucidez e desejo escorrendo rio caudaloso em que me lavo e te banho, soçobramos juntos, à tona voltamos para mergulhar em beijo úmido porque eu quero em mim o meu gosto em ti; água, azeite, mesclados mas ainda sou eu e é você, e nessa hora, nós.

leftovers

Mini 91

Dobrou o papel bem no meio e manteve-o assim por um segundo, só para ver a perfeição fugaz da dobra, feita apenas para marcar a linha do meio. A partir daí, dobra após dobra, construiu mais um avião. Como com os outros, o pôs de lado, sem tentar fazê-lo voar. Partiu para o próximo. Dobra, desdobra, dobra de novo, formando o primeiro triângulo, depois o outro, simétrico, espelhado, depois o seguinte, mais estreito, sobreposto ao primeiro, então seu gêmeo cis-trans e, de dobra em dobra, mais uma nave. Colocou-a delicadamente sobre as outras e começou o trabalho novamente, cada jatinho mais perfeito que o outro. Já havia um pequeno monte deles sobre o chão, dando forma, a sábia esquadra, à sua medida edificante: para cada aeronave a mais, um poema a menos. Até o nascer do sol estaria livre daquele peso.

dito assim parece à toa

Ontem à noite descolori e pintei o cabelo.
Dizque laranja é a cor deste verão. Pois então.

reverberações

8.11.07

acho super legal as pessoas rezarem e cantarem e louvarem.
só queria que fizessem isso em silêncio. ou que as músicas fossem do nível do 'mudança de hábito'.

objeto abjeto

5.11.07

Noite dessas tava andando pelo Bixiga na chuva, passo por uns dez neguinhos de rua sentados na calçada embaixo de uma marquise, ao redor de uma pizza. Um dos farrapinhos, magrelo e molhado, pedaço de pizza na mão, me olha nos olhos e manda:

- Tá servido, moço?

Às vezes o ser humano me comove. Mas passa logo.

catarro verde

28.10.07

Da vida tudo se leva

Chega. Chega de folhear revistas de celebridades para ver que fulano passou por um ataque cardíaco quase fatal e, ao convalescer, se deu conta do "valor das pequenas coisas", da "importância de fazer tudo sem pressa" e, oh, ignomínia, de que "da vida nada se leva". Quero abrir agora uma revista de anônimos e saber que seu Altair, aposentado, 67, que todos os dias pega o jornal no portão, ainda de pijama, teve um belo piripaque no peito (os cadernos do jornal se espalharam pela rua, ele machucou a careca na queda; dona Isaurinha quase morre junto) e, durante a recuperação, na enfermaria do hospital São Francisco das Chagas, acordou para a vida: viu o valor das grandes coisas (aquela viajona para Búzios no verão custou o mesmo que o fim de semana em Poços de Caldas, é, bebé?), se tocou que sem pressa tudo desanda (deixa para registrar o palpite da Mega Sena lá na lotérica do Djalma na quarta depois das seis, deixa) e que da vida tudo se leva (o lance é carregar no caixão a grana do pé-de-meia: deixar dinheiro para a Suely e o picareta do Batista? Aqui, ó). Hoje seu Altair continua pegando o jornal (mas dá prioridade ao caderno de economia, onde tem devaneios faraônicos e longas ereções quando lê o Mercado Futuro de Ações), usando o mesmo pijama e com um risinho encruado. Da vida tudo se leva, não vê quem não quer. Dona Isaurinha viu e – há quanto tempo! – gostou.

ao mirante, nelson

24.10.07

Mocó de homem solteiro

Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas - sem cabo - encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio vintage.

E quando a fofa, toda fina e fresca, nova costela, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o seu mancebo... e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual (aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista Wallpaper).

Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele quadro caríssimo –artista contemporâneo, tendêeencia!- numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?! Um desastre.

A fofa, toda metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe - sim, ela está doida e perdidinha - com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos - como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no Fantástico das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.

Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.

Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana... A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme. Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.

Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware - aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...

Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”
“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.

o carapuceiro

21.10.07

Ensaio sobre a completude humana

água + terra = Lama => vai pro fogo => Barro => sopro divino (ar) = é nóis na fita, mano

dies iræ

8.10.07

O mito da criação sob a perspectiva de um pinto

No princípio era a Vagina. E Deus disse:
— Faça-se a penetração.
Mas o pinto não se mexeu. E, cabisbaixo, perguntou:
— Aquilo não tem dente?
E Deus, em sua eterna sabedoria, deu uma mãozinha a ele. E, após trocar cinco dedos de prosa com o Senhor, o pinto levantou-se, triunfante. Mas, como só tem um olho, complicou-se e acabou entrando na porta errada. E o pinto disse:
— Tá tudo escuro aqui!
E Deus replicou:
— Faça-se a luz!
Então o pinto pôde enxergar. E achou ruim.
— Pô, mas isso aqui é uma merda!
E Deus, em sua infinita paciência, falou:
— Não tá gostando, abilolado?
— É muito sujo.
— Ha! Você precisa ver quando eu criar o Congresso brasileiro.
— Além disso, fede, é quente, mal-iluminado...
— Espere só até conhecer o Recife.
— ... e apertado demais.
— Apertado! O que não é a falta de parâmetros. Tente passar o mês com um salário mínimo no futuro Brasil.
— Além do mais, dói pra entrar.
— Que é que você queria? Qual seria a graça caso não houvesse dor pra, depois, se alcançar o prazer? Olha... isso dá até uma bela teologia, hein? Taí, você me deu uma idéia. Vou inspirar um livro nesse sentido. Mas peraí, dói? Onde é que você... Burronaldo! Você tá no lugar errado! Seu jumentildo! Sai já daí!

E Deus sacou o pinto e, como não tivesse onde lavá-lo, separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. E o pinto pairou sobre a face das águas. E Deus disse:
— Ui! — e se arrepiou todo, pois a água estava gelada.
Em seguida — porque, apesar de não ter subconsciente, é seguidor de Freud —, o Senhor colocou o pinto no lugar psicanaliticamente correto.
E o pinto achou bom:
— Que maravilha! Quanta diferença! Obrigado, Senhor.
E Deus replicou:
— Isso, vai se divertindo. Quero ver daqui a nove meses.
E o pinto continuou:
— Devo admitir que, tirando a cueca samba-canção, essa foi Sua melhor invenção até agora, Pai.
E Deus não disse nada mas, em sua sempiterna bondade, começou a trabalhar num primeiro esboço de doença venérea. E, para reprimir ainda mais a sexualidade humana, imaginou o casamento como forma de punição.

marconi leal

4.10.07

Casal sai atrasado de casa ao tentar a democracia

O homem nasceu para o halterofilismo.
Levantar a moral da mulher.
É como se o marido fosse obrigado a dizer aquilo.
Mas se ele não declarasse, o que aconteceria?
Mulher não confia na sugestão do marido, confia na observação de outra mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião ao marido.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Como abarrotada?
- Parece um saco.
- Tá me chamando de cimento?
- Não, pediu para que a ajudasse, pode colocar algo que deixa a bundinha mais arrepiada.
- Tá falando que minha bunda caiu?
- Não....

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Qualquer comentário surgindo de uma boca feminina, não agrediria.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião a uma amiga.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Também acho, lembra um saco.
- Pois é, pode tentar algo para valorizar as curvas.
- Boa idéia, nunca gostei mesmo desse jeans. Usei pouquíssimo.

Homem não é espelho de mulher, nem dele mesmo.
A mulher tem independência e domínio no gosto, ela o deixa assistir, apenas isso.
Quando confia no acerto, não desistirá da roupa, ainda que seja um parangolé.
Quando não gosta de um detalhe ou uma peça, nada a demoverá. Nada. Nem o Tratado Lógico-filosófico, de Wittgenstein.
É uma coerência secreta.
O homem não está ali para concordar ou discordar, apesar do pedido ter sido esse.
O homem está ali para amá-la.
Do jeito que vier.

Fabricio Carpinejar

29.9.07

Tempo, tempo, mano velho

Entre sete e meia e oito da manhã, meia hora tem a duração de três piscadas de olhos.
Entre cinco e meia e seis da tarde, a de dois dias inteiros.

Duas Fridas

Já aconteceu de você se sentir ofendido por alguma coisa que alguém te fez, só que você simplesmente não consegue expressar em palavras exatamente o que foi ofensivo naquele ato, naquela atitude?

Já aconteceu de você ter convicção de que está com a razão, só que você não consegue explicar nem pra você mesmo os motivos de toda essa certeza?

Já aconteceu de você achar toda uma determinada situação extremamente enervante, só que você não consegue identificar o que te deixa assim tão alterado?

Já aconteceu de você querer que tudo fosse completamente diferente, só que você não tem idéia de como poderia ser melhor do que, de fato, é?

Já aconteceu de você ver que não tem saída fácil e indolor, só que você se questiona o porquê de estar cogitando a rota de fuga, pois, na verdade, onde você está é confortável, seguro e bom?

É a mãe!

25.9.07

Transporte coletivo

Eu sei que andei sumida, mas é que eu passei esses dias ocupada. Ocupada andando de ônibus. Morar no extremo norte da cidade e estudar no sul é privilégio de poucos. Valeu, Jesus! Outro dia eu tava esperando o ônibus no Terminal de Integração. Ninguém gosta de andar de ônibus, mas basta o bendito entrar pelo Terminal que as pessoas esquecem de onde vieram e pra onde vão. São 70 pessoas e só há 50 assentos. Os cálculos são feitos em silêncio, as pessoas se entreolham. A adrenalina sobe. O clima esquenta... O único intuito delas é conseguir algum lugar no ônibus e isso se torna uma disputa incrível. Os milagres de Cristo podem ser vistos claramente através das manifestações do povo. Pra pegar o ônibus o cego vê, o aleijado anda e a mulher grávida corre. Leis da Física são quebradas. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar? Não no Terminal de Integração de João Pessoa. Eu já vi duas mulheres entrarem no ônibus e se tornarem três lá dentro. Eu tou em tom de brincadeira, mas eu confesso que tenho medo às vezes. É incrível a força que uma mulher de 80 anos pode ter quando quer andar sentada no ônibus. Elas arremessam seus filhos coletivo adentro, dão cotoveladas e, em última instância, gritam. Um grito aborígine, sabe... AAHHH LULULU! E somem ônibus adentro. Eu, branquela amedrontada, criada à base de Leite Ninho, ainda tremo o queixo de medo quando o ônibus se aproxima. Motorista e cobrador têm que andar armados se não quiserem perder o lugar. Enfim, é a visão do inferno que eu dou testemunho diariamente. Mas apesar disso, é legal andar de ônibus.

circo sem futuro

18.9.07

BOIÂNIA E A PRIMAVERA

Abril pode ser o mais cruel dos meses, dezembro o mais chato, agosto o mais infeliz, mas pelo menos aqui em Boiás, setembro é o mais infernal. A umidade do ar tá tão baixa que, no zoológico, o camelo foi surpreendido tentando se disfarçar de hipopótamo pra poder ficar dentro d'água; em Brasília, o mar de lama secou e virou o oceano do pó vermelho, o que é extremamente prático : por mais enlameadas que suas excelências estivessem (hipoteticamente, claro), bastaria parar de chafurdar um instante, se levantar, dar uns tapinhas no Armani pra chacoalhar a poeira e dar a volta por cima, imediatamente imaculados, prontos pra (várias) outra(s). Em todo o Centro-Oeste, as roupas secam antes que você acabe de pendurá-las no varal, e não importa quanto hidratante se use, abaixo dos joelhos, toda canela é em pó. A cor verde só existe nos semáforos e placas de estrada, e se continuar assim por muito tempo, periga até eles ficarem cor de ouro velho e mais enrugados que uma mulher normal de 40 anos em comparação com uma perua hollywoodiana - ou carioca da Barra - de 68. Você pode se fechar numa salinha com o ar condicionado programado pra 17 graus, que a sensação térmica ainda assim será de, na melhor das hipóteses, 27. O estado físico das coisas muda, de sólido pra pastoso, de líquido pra gel, de vapor pra pura memória; o estado de espírito dos seres - relativamente - vivos entra em slow-motion permanente : o chocolate não quebra, se rasga; a manteiga não se espalha, se entranha; o sangue não corre, se arrasta; o coração não bate, belisca; o suor não encharca, evapora; os pulmões não se enchem, se enervam; as lágrimas não escorrem, empoçam; o trabalho não anda, engatinha; as gatas não miam, gemem; e as blogueiras não escrevem, postam qualquer besteira só pra fazer de conta que atualizaram. E acreditem, até isso já é trabalho demais.

Cyn City

30.8.07

Nunca me satisfaço com o sexo que assisto, seja na tv, no cinema, na internet.
Ou é pudico demais, suprimindo o essencial, ou é desnecessariamente explícito, o close tão close que você até esquece que na outra ponta tem gente.
Então acontece que só diante de cenas de sexo tenho rompantes de cineasta: fico mentalmente dirigindo atores, imaginando outros ângulos, selecionando trilha sonora e, claro, gritando com o roteirista pra melhorar o enredo.
Não, eu não vejo filme pornô. Mas só porque até hoje não gostei de nenhum.

duas fridas

7.8.07

Mudança de Hábito

Resolvi parar de usar “viado” como xingamento. Primeiro porque não vejo no que a sexualidade de uma pessoa – a não ser que seja pedófila, o que é horroroso em qualquer circunstância, mas, convenhamos, muito longo e elaborado pra se gritar pro energúmeno que acaba de nos dar uma fechada no trânsito - seja intrinsecamente má, ou da minha conta, pra dizer o mínimo. Segundo porque tenho medo de que algum dos meus amigos e conhecidos ache isso ruim, apesar de acreditar que eles saibam que no caso a intenção de xingar é o que vale, e não significado da palavra. Quanto a gente tá realmente revoltada com alguém, até "lindinho da titia" dito com a entonação certa vale por uns dez "fiadaputas", mas enfim, é melhor não arriscar. Em terceiro lugar, porque - como outras pessoas já disseram antes, e bem melhor que eu - nossos xingamentos clássicos andam mesmo um bocado ultrapassados, usando definições que não são mais ofensa nem motivo de opróbrio (palavrão é isso, o resto é elogio) pra ninguém, tá aí a tal "escritora" escorpiana que não me deixa mentir. E em último, porém não menos importante, porque eu sou preguiçosa e “viado” (ou será “veado” ?) é o xingamento bobo e defasado mais fácil de abandonar. Por exemplo: eu sei que existem ascendências bem piores e mais dignas de vergonha do que puta e charreteiro, mas não sei se consigo lembrar de gritar “seu filho de uma apresentadora de TV com deputado” pro moleque que quase arranca meu retrovisor com sua moto antes que ele saia do meu campo de visão; estou bem consciente de que tem muita gente, dos dois sexos, que não só aprecia bastante ir tomar no cu como também chega a recomendar a prática aos amigos e amigas, assim como quem ensina uma nova e deliciosa receita de salada de berinjela, e acho que cada um tem mais é que fazer o que lhe agrada. Mas mesmo que isso faça de mim uma conservadora preconceituosa, ainda me parece uma coisa suficientemente dolorosa e desagradável pra funcionar como ofensa, e além disso é bem mais fácil do que resmungar, pra perua que fura a fila no supermercado e entra com seu carrinho com 854 itens na fila especial pra quem só leva 20, a excelente e muito mais apropriada sugestão da jornalista Milly Lacombe, a realmente tenebrosa “Vá fazer um exame ginecológico completo”. Poderia até acrescentar "e com o espéculo gelado", mas acho que aí também já é crueldade demais. Eu também acho – apesar do que afirma meu lindo gatim, que diz que a culpa SEMPRE é do homem – que ninguém tem culpa de ser traído pelo cônjuge. E sei que é maldade chamar alguém de hipodotado, ou impotente, ou feio, ou malcheiroso (principalmente se for tudo verdade), mas também peraê, não se pode abrir mão de antigos xingamentos favoritos assim, sem mais aquela e sem nada igualmente fácil, rápido e curto pra botar no lugar. É por isso que, apesar de eu não chamar mais meus desafetos, sejam eles antigos e fiéis ou momentâneos de “viados”, sei que isso não vai me tornar um ser humano melhor, nem mais evoluído, e que nem meus pais vão ficar satisfeitos e mais orgulhosos de mim. É que eu me conheço e sei que a cada vez que eu deixar de chamar de viado um motorista barbeiro, um playboyzinho folgado ou um monstrinho malcriado e seu pai pitburro, meu mecanismo de compensação do hábito suprimido vai entrar em ação... e eu vou acabar chamando o quem-é excomungado de corno seboso, escroto e broxa, de pau pequeno e filho de uma vaca sifilítica com um cachorro manco.

Cyn City

19.7.07

As alegrias que o Google me dá (XXX)

simpatias para quem te fez sofrer
Um murro no olho. Um pontapé na boca no estômago. São as únicas simpatias em que posso pensar. E isso porque eu sou uma pessoa boa. Se eu fosse mau, sei de uns métodos de tortura bastante eficientes.

videos curtos de mulheres fazendo um boquete
Ou "vídeos de mulheres pagando um boquete em um moço com ejaculação precoce".

por que o brasileiro não reconhece suas qualidades
Porque passa tanto tempo sem ver as coitadas, sem ligar para elas, sem nem saber que existem, que quando as encontra por acaso na rua não sabe mais quem são.

manual do suicídio
Juro que se tivesse um eu te dava. Te mandava por Sedex, até entregava pessoalmente. Porque se até para se matar você precisa de um manual, a coisa está realmente feia e você não tem mais jeito.

frases no preterito mais que perfeito
O pretérito mais que perfeito é um absurdo da língua portuguesa que deveria ser imediatamente extinto. Porque não existe um passado perfeito, muito menos um "mais que perfeito": todos eles são imperfeitos, em todos mudaríamos alguma coisa, de todos nos arrependemos.

significados de tamanho não é documento
Só um: desculpa. Talvez mais outros dois: consolo barato e auto-engano.


videos de homens q chupam o proprio penis

Procure pelo filme "O Anão Superdotado e Corcundinha", que fez um certo sucesso em 1988 com trilha sonora de Nelson Ned.

pensamentos eu te quero
Nada tão triste como um amor não correspondido. Você quer ter pensamentos, mas eles não querem você.


mulheres casadas com 40 anos apaixonadas por menino de 20 que fazer?

Comer os bichinhos. Se as coroas não comem os garotos, quem vai comer? Por isso, minha amiga, se jogue. Imagino que seu marido tenha lá seus 50 anos. Não funciona mais como funcionava antigamente -- isso se a senhora teve sorte e ele funcionou algum dia. Então, no seu caso o garoto de 20 anos vai representar um sopro de vida -- essa vida que é doce, mas é dura -- no seu cotidiano sexual. Talvez ele ainda precise ser burilado, mas do alto dos seus 40 anos a senhora deve ter aprendido alguma coisa e poderá guiar o garoto ingênuo e ansioso. Portanto, minha senhora apaixonada, deixe-se amar. Deixe-se levar pelo sentimento que lhe inunda o coração e lhe torna a vida rósea. E coma o rapaz com gosto, coma bem comido até perder o fôlego, até esfolar o moço, porque em 20 anos você vai ser só rugas e pelancas e aí o meninão vai lhe trocar por duas de 30.

fatos da historia capitoes da arei que comprovem o periodo moderno
É nisso que dá. O menino passa o dia ouvindo Linkin' Park e Slipknot, batendo punheta e tentando sem sucesso comer as amigas através do MSN. Aí, quando chega a hora da prova, passa uma vergonha dessas. Vai fazer algo de útil da sua vida, vagabundo.

simpatia para separar o namorado dos amigos
Aí está ela, em todo o seu esplendor. A louca. A mulher que elevou a insegurança e o ciúme ao nível máximo, que deixaria o namorado trancado em casa, se pudesse. A mulher insensata que destrói a vida do seu namorado sem saber que destrói também a sua. Ah, triste sina a do namorado dessa moça.

putaria com velho
A única putaria que se pode fazer com velho é tirar a roupa na frente dele e cantar: "A pipa do vovô não sobe mais..."

casais liberais e maridos que gostem de ver sua mulheres fudendo com outros machos gauchos
Casais liberais são fáceis de achar no Rio Grande do Sul. Difícil é achar um macho gaúcho.


anatomia da vagina da cachorra

Não basta ser zoófilo. Tem que se dedicar. É preciso saber onde se está entrando. O zoófilo consciente faz assim: estuda a vagina da cachorra porque não é só ele que deve ter prazer. Cachorras também gozam. E zoófilos legais gozam por último.

imagens gays dando o rabinho para gays
Taí. Eu nunca vi uma frase tão bonitinha, tão doce, tão pueril. Fofa, fofa. Eu só faço uma pergunta, que essa independe de orientação sexual: por que "rabinho"? O que você, meu caro, tem contra um rabão daqueles que param o trânsito? Alguns valores, eu não canso de repetir, não podem ser deixados de lado jamais.

porque a saliva é branca?
Porque ela não engoliu.

Rafael Galvão

11.7.07

Dar Tempo ao Tempo

Waldir Peres; Zé Maria, Orlando Fumaça, Rondinelli e Wladimir; Chicão, Caçapava, Biro-Biro e Batista; Nílton Batata e Serginho Chulapa.

Segundo o professor Dunga, esta é a seleção que teria vencido a Copa de 82.

Fantasma do Maracanã

6.7.07

Imperfeitas emoções, pensamentos idiotas e perguntas vãs

Como é que hoje em dia, neste admirável mundo novo em que até bebês tomam prozac, ritalin e outras drogas com prescrição médica, alguém ainda sabe se está deprimido e precisa encher o rabo de remédios ou se só está triste, com montes de razões palpáveis, de motivos bem fundamentados e perfeitamente saudáveis pra estar fodidamente triste?

Essa imbecilização absurda e crescente da população brasileira está tomando conta só das classes menos favorecidas ou é geral ? E se for geral, como parece, daqui a uns dez anos, quem vai tratar dos doentes, projetar estradas e pontes, controlar o tráfego, programar os computadores e dar manutenção nas máquinas?


cyn city

15.6.07

Você ainda vem aqui?

catarro verde

14.6.07

Marcha para Jesus

Tem um bando de gente desocupada fazendo uma mega algazarra aqui dentro da minha casa. Eles berram em alto-falantes, cantam hinos, gritam "Jesus, Jesus, Jesus" o tempo inteiro, buzinam e apitam. Tudo isso dentro da minha casa!
Tá, não é deeeentro da minha casa. É na esquina. Mas a gente mal sente a diferença. Juro.

Além dos desocupados na terra, temos os desocupados do ar: helicópteros que sobrevoam a minha casa bem baixinho com a desculpa de estarem acompanhando a falta do que fazer dessa gente toda. Não, não é UM helicóptero. São pelo menos três.

Obviamente, eu acordei com essa putaria dos infernos.

Agora, com tanta gente chamando, eu fico imaginando o humor de Jesus quando conseguirem acordá-lo.
Só espero que seja logo.
Ô bichinho pra dormir pesado...

CALABOCA que eu tô falando!

Eu estava aqui em casa, com uma crise no ar,
o outro lado da crise sentada no sofá e eu no computador.
Eis que toca o interfone. Eu atendo.
"Floricultura para a Srta!"
Fiquei puta. Então ele achava que era assim que se resolvia as coisas, depois de me encher o saco a semana inteira? Nem olhei pra ele ali no sofá e mandei:
"Ah, não quero"
Bati o interfone na cara do pobre entregador de flores.
Não disse mais nada. Achei que o moço sentado no sofá, que evidentemente tinha mandado as flores, tinha sacado. Mas ele não disse nada. Nem esboçou reação.
Aí eu falei, né.
"Porra, me mandando flores? Eu já disse que..."
"Que flores? Não mandei flores. Não mandei nada."

:|

Alguém me mandou flores.
E eu mandei as flores embora achando que vinham da pessoa errada.
E agora eu nunca vou saber quem foi.

Adiós Lounge

Pterodactylus Blues

Quanto mais eu olho em volta – e olha que eu evito ao máximo : nunca vejo TV aberta, não leio jornal nem revistas há mais de um mês, só leio blogs de gente que pensa e escreve mais ou menos igual a mim e só sei (pouco) do que acontece no mundo quando vejo, quase sempre sem querer, as inevitáveis chamadas na página de abertura do UOL – e percebo quais são os valores, comportamentos, interesses e “virtudes” valorizadas no mundo de hoje, seja em termos profissionais, morais, políticos ou o cazzo alato, sabe como eu me sinto ? Como uma excelente, talentosa, capacitada, bem-treinada, virtuose, insubstituível, inigualável e imbatível... fabricante de agulhas de gramofone.

cyn city

4.6.07

Na Paulista

Eu gosto tanto da avenida Paulista que, quando vou pra Consolação, chego a descer na Brigadeiro só pra poder andar a pé pela avenida e não perder nada do panorama. Vou como sempre, mão no bolso, periscópio ligado, absorvendo o espaço pelos olhos, nariz e ouvidos, sentindo perfumes nacionais e estrangeiros, observando as moças se equilibrarem nos saltos finos sobre as pedras irregulares do calçamento, parando nos camelôs e entristecendo-me por não usar relógio (cada Rolex lindo por 15 pratas!), por não gostar de música popular (dvds da banda Calypso por 7!), por não precisar de uma multi-lanterna-sirene-bússola-cantil (por 12!).
Por isso tudo, venho sorrindo — ou quase isso — e, ao chegar ao Masp, vejo pessoas de branco, dezenas, centenas de pessoas de branco como num congresso de pais-de-santo, mas de estetoscópios no pescoço — pescoçoscópios —, entristeço-me novamente ao perceber que haveria mais pretos se fosse mesmo um congresso de pais-de-santo, e vou olhando a meninada em baixo do Masp, ao lado do Masp, por cima do Masp (são mesmo muitos), e as faixas a oferecer saúde, previna-se, cuide dela, é uma campanha pela boa saúde promovida por uma universidade particular — e por isso há tão poucos pretos —, meça sua pressão gratuitamente, avalie seus níveis glicêmicos, mesmo que não saiba o que é isso, e a meninada de pescoçoscópio em punho — punhoscópio? — a pescar passantes, a laçar reses distraídas, a medir suas pressões, a assustá-los um pouquinho, e eu sorrio enquanto ensaio o não, obrigado, minha pressão é uma merda mesmo, e vou passando por dois, cinco, quinze moças e rapazes de branco, vinte, mas eles, trinta, ao contrário dos bêbados — que têm por mim uma atração quase mágica — ignoram-me, e cem pessoas de branco deixam-me passar sem moléstia, como se fosse invisível, como se não estivesse ali.
Das duas, uma: ou transpareço saúde, ou já estou visivelmente desenganado.

Branco Leone, um blog sem conteúdo

31.5.07

a day in the life

Este mundão é bem mais que um grande pão com manteiga, café e com leite.
E sete é um número pequeno para as maravilhas, não é não?

o som nosso de cada dia

19.5.07

Enquanto isso, no ICQ

Estou me cadastrando aqui no site da magazine luiza pra comprar um aspirador.
Aí tem uma pergunta escrota: “Como você gosta de ser chamado(a):” - minha resposta: ‘mestre supremo do universo’.

PS: Sim… tem gente que ainda usa ICQ…

cris dias

- Gente, sem música não dá pra trabalhar. Não dá pra pôr alguma coisa aí?
- Péra, vou ligar o MP3 na caixa de som.
- Que tem aí?
- Ah, tem um monte de música daquele barbudo esquisto, sabe?
- Barbudo esquisito?
- Aquele que morreu.
- O Enéas?

CALABOCA que eu to falando!

Cinco frases para não desistir ainda

5. Nóis trupica ma num cai – alguns autores colocam esta frase na categoria oposta, “frases para cair fora imediatamente”, mas geralmente a consideram no contexto original e ouvida em alguma festa em que fomos parar por um mero acaso.

4. Deus não permitiria que eu chegasse até aqui para morrer desse jeito – ou qualquer coisa assim que o Ben-Hur tenha dito, não ia ver o filme inteiro só por causa desta frase. De qualquer jeito, duvido que as legendas apresentem versões muito melhores, e na dublagem o cara é capaz de dizer exatamente o contrário.

3. No fim, tudo dá certo – tive que incluir esta pela popularidade. Mas me recuso a escrever o resto. Todo o mundo sabe. E me dá um arrepio só de pensar em todas as vezes que uma pessoa disse isso e outra resolveu completar. Parece jogral.

2. Se não güenta, por que veio? – vale mais como pergunta retórica, e depende absolutamente da resposta. Freqüentemente descamba para o “é mesmo, o que é que eu estou fazendo aqui?!”, ou para o “não vim, fui trazido algemado”. De modo que é sempre bom usá-la logo de cara: pode nos poupar de todo o resto.

1. Quem monta num tigre não pode apear – grosso modo, é só uma versão oriental do nosso “nada é tão ruim que não possa piorar” – que não incluí na lista justamente porque as versões orientais são sempre mais profundas. Esta, por exemplo, ainda pode sofrer as mesmas restrições da frase anterior, no sentido de que nem sempre o indivíduo estará montado num tigre por sua livre e espontânea vontade. Mas mesmo neste caso devemos concordar que ela ganha da outra de longe, porque não estar montado num tigre por livre e espontânea vontade é sinal de que, no mínimo, você ainda pode acreditar na sua própria sanidade.

diferença nenhuma

11.5.07

As alegrias que o Google me dá (XXIX)

fotos de bebes saindo da vagina
Moleza. Agora quero ver você achando fotos de bebês saindo do cu.

simpatias para homem ser só seu
Arranje um homem feio, burro e pobre. Você deve ser do tipo que prefere comer um prato de bofe sozinha a dividir uma porção de caviar.

pensamentos pequenos
É.

você precisava ver como ela tremia
Pois é. É nisso que dá comer velhinhas com Mal de Parkinson.

omenagem amae
O melhor presente que você pode dar a sua mãe neste Dia das Mães é tão simples, meu filho: um diploma do Mobral. Ela vai chorar de emoção, você vai ver.

se vc pensa que é um derrotado você será um derrotado se não pensar quer a qualquer custo não conseguirá nada mesmo que você queira vencer mas pensa que não vai conseguir a vitoria não sorrirá para você
Ou "Pérolas do Curso Sylvester Stallone de Auto-Ajuda".

pesquisar sobre a igreja católica em especial sobre coroinhas e suas vestes
O moço aí quer ser coroinha, é? Então deixa isso aí de lado. O importante, mesmo, é saber agradar o padre. Fazer um chazinho de boldo pra ele, massagem nas costas, carinhos e beijinhos sem ter fim.... A Igreja Católica tem avançado muito e os padres estão ficando mais exigentes em relação aos coroinhas que os servem. Chega de sexo pelo sexo. Eles agora querem carinho, também.


basicamente o que é o racismo brasileiro

Basicamente é o seguinte: branco sacaneando preto. E se você não percebe nem isso, você está basicamente com um sério problema.

motivos para a revoluçao russa
Homens passando fome? Mulheres revoltadas porque só a família real recebia o portento do Rasputin? Ah, quem vai saber uma coisa boba dessas?

quero saber amelhor posse de sexo que o homem gosta
A pose que, no Kama Sutra, está sob o título "dando para ele".

flagras de civis sem calcinha e fazendo sexo
Tempo demais na caserna dá nisso. O sujeito abandona a sentinela e vai descascar uma nos computadores do Exército. Depois ele deflagra a III Guerra Mundial e ninguém vai saber por que foi.


menina que fazem sexo por mixaria
Aí, não. Sexo é coisa séria. Ou você faz de graça, ou então cobra caro. Não há meio termo. Fazer por mixaria é um desrepeito às colegas e desvalorização da saliência.

tem homem bonito em goiania?
Tem, mas quando não é viado, é michê.


posição sexual melhor para mulher gorda

No escuro.

como a igreja católica pensa sobre o uso de preservativos?
Ela pensa que camisinha é coisa do diabo e que, por ter uma no bolso, você vai imediatamente se tornar uma máquina de fazer sexo, e as mulheres vão cair aos seus pés, e você vai passar o resto da vida em uma orgia infindável. Compra duas dúzias ali para mim, por favor.


tecnicas japonesa para aumentar o penis

Me diz uma coisa, você está mesmo falando sério? Técnicas japonesas para aumentar o pinto? Ô, amiguinho... Daqui a pouco você vai estar pedindo aula de português a analfabeto.

quando um homem faz punheta para onde ele esporra?
Em qualquer lugar, menos onde ele queria.

teste para saber se sou ninfomaniaca
Olha, eu atendo a partir das 15 horas, tá?

significados do nome jarlene
Significa que o seu pai é um escroto que merecia uma porrada por fazer uma sacanagem dessas com a própria filha.

na giria dos torturadores dos anos 70 o que significava omelete
Não sei, mas pelo nome acabou de me dar uma dor esquisita no baixo ventre.

tudo sobre abelardo e heloisa
As cartas de Heloísa para Abelardo estão entre as mais belas páginas da literatura mundial. São mais bonitas até do que os sonetos de Elizabeth Barrett Browning. O que pouca gente sabe é que, diante das respostas um tanto frias de Abelardo, que àquela altura tinha um pequeno problema de produção de testosterona, Heloísa escreveu uma última carta, em forma de poema, que os antologistas preferem deixar de fora. Este blog publica, pela primeira vez em língua portuguesa, essa carta perdida:

Abelardo, meu grande amor
Que tragédia aconteceu!
Meu tio castrou você
Bebé, você se fodeu.

Ele acabou com nosso amor
Que eu não quero homem capado:
Esse negócio de dedo e língua
Pra mim é papo furado.

Quando lembro nossas noites
Não sabes a saudade que sinto
Mas isso fica na lembrança
Porque você perdeu o pinto

Me lastimo dia e noite, Bebé,
Como é triste, esta minha sina
Mas admito que pior é a sua
Com esse vazio sob a batina

E assim seguimos nossas vidas
Tu aí com tua filosofia
E eu, rezando no convento
Fico pensando em putaria

Você não faz idéia, ó meu Bebé
De como têm sido meus serões
Aturando freiras chatas
Quase todas sapatões

Mas me consolo lembrando
Que pior foi o seu destino
Virou brinquedo dos padres
E está falando fino.



Rafael Galvão

19.4.07

O Universo Numa Casca de Melancia

Li numa revista que dormir faz bem à saúde. Tem coisa mais importante que a saúde?

No caso feminino, a vaidade, concordo.

E tenho outras doutrinas futilitárias por aqui pra quem quiser escutar.

Exemplo: eu vi o povo e o odeio. Já escutei também, mas o fato é que basta cheirar. Portanto, se o povo é ruim, o bem-comum ensina que será boa ou acertada a decisão que promova o mal do povo.

Precisa matar? Claro que não. Basta incomodar o suficiente pra que ele se retire.

Ingresso a 50 reais costuma dar conta. Mas picinão é outra idéia.

dies iræ

Mapas

(Marca semi-elíptica no dorso da mão direita, acompanhando o arco formado por polegar e indicador.) “Que foi, cê mandou apagar uma tatuagem de gangue?” Ela ri, semicerrando a mão e fazendo com que a marca se arredonde. “Não. Eu tinha nove anos. Minha irmã encontrou um cachorro com uma lasca de madeira na pata. A ‘veterinária’ pediu para a ‘enfermeira’ –tonta- segurar o bicho enquanto ela removia a lasca. Quando voltamos do hospital com meu pai, minha mãe tinha dado o cachorro”.

(Perna esquerda. Curta cicatriz na lateral do joelho. O casco de mil feridas sobrepostas na pele que recobre a rótula. Cicatriz vertical de meio palmo tornozelo abaixo.) “Você era o que, gladiador?” Ele ergue a perna, faz uma pausa para pensar. “Foram os anos Evel Knievel, dos sete aos 14. Não lembro direito a ordem, mas aí tem salto mortal de bicicleta que terminou em nocaute contra um Fusca, queda do telhado, encontro infortunado com a chuteira do zagueiro adversário, e duas mil partidas de hóquei-sobre-a-lajota-molhada com os meus primos. Os cientistas ainda não tinham descoberto a coordenação motora”.

(Círculo esbranquiçado na nuca, logo abaixo da linha do cabelo.) “Achei sinais de chifre vestigial aqui”. Ele beija a marca. “Essa eu não vou contar. É nojenta”. Ele beija mais um pouco. “Tá bom, tá bom, já que você insiste... Primeiro ano de faculdade, cresceu uma verruga horrorosa aí, de um dia para o outro. Preta, peluda. Quando vi no espelho da cabeleireira quase desmaiei. O interno da cínica universitária que decepou a monstruosidade era bonitinho. Pediu meu telefone. Fiquei com vergonha e não dei”.

(Linha branca áspera no couro cabeludo, como que uma risca invisível por sob o cabelo.) “Benhê, cê precisa usar condicionador”. Ele dá um tapa nada convicto na mão com que ela faz cafuné. “Foi uma garrafada. Tentando separar uma briga de bar. Eu lembro do meu pai rindo no pronto socorro, comentando com o dono do bar que, da próxima vez que eu me interpusesse entre dois caras que estão trocando socos, eu lembraria de começar nocauteando um deles. Ou os dois”.

(Linha branca um pouco mais clara que a pele, na palma da mão esquerda.) “Cortando tomate enquanto ouvia J. Geils. Burra”. (Uma trilha de pele espessa semioculta sob a sobrancelha esquerda.) “Briga perdida. Uma das duas. Ainda quero revanche”. (Marca de incisão de uns cinco centímetros, na base do triângulo invertido que termina onde tudo começa.) Pausa. Então: “Passo”. (Ela enumera e acaricia as cicatrizes restantes no corpo dele. Ele sorri sem responder.) “Casei com o Frankenstein, credo”. (Ele segura os braços dela pelos pulsos, a imobiliza contra o colchão, ameaça uma mordida canastrona em seu pescoço e pronuncia, em péssima imitação de Darth Vader:) “Renda-se, terráquea”. (Ela faz que não com a cabeça, em um gesto exagerado:) “Never!”

Filthy McNasty

16.4.07

A chegada do “alemão”

- Nós estamos casados há 52 anos! Lembro-me de tudo!

- 53! Mas não direto!

- É! Não direto. Casamo-nos em 1955...

- 1954! E nos separamos oito meses depois.

- Isso mesmo. Aí, eu me mudei para a Bahia.

- Pernambuco!

- Ah! É! Pernambuco!




- Morei lá durante seis anos e quatro meses.

- Quatro anos e seis meses.

- Ou isso! Um dia, fui a uma festa, no Rio e a encontrei com uma amiga.

- Foi em São Paulo. Eu estava com meu marido e ele com uma amiga.

- É mesmo. Ela se separou e começamos, novamente, a nos ver.

- Ele se separou. Eu fiquei viúva!

- Dá no mesmo. Depois de seis meses, tornamos a nos casar.

- Foram quatro meses.

- Não faz diferença. Tivemos dois filhos...

- Um filho e uma filha.

- O que eu disse? E vivemos felizes, desde então.

- Tornamos a nos separar depois de sete anos.

- Isso.

- Voltamos a nos casar três anos depois...

- Foram dois anos.

- Pois é. E vivemos felizes desde então.

- Separamo-nos mais duas vezes.

- É. Mas o que importa, é que eu estou perfeitamente bem, Doutor.

- Mija na cama toda noite!

- Não é bem assim. A Gilda é que é cismada.

- Hilda!

Antes feio, o blog!

12.4.07

Devolver com a delicadeza

Trata-se do meu clássico assalto. O moço que me assaltou, disse: "Rápido, rápido, passe toda a grana que eu saí da cadeia e tô varado de fome". Daí, eu revirei a bolsa todinha, mas só achei duas notas de cinco reais. Estendi-lhe o dinheiro e disse: "Ixi, eu só tenho isso, acho que não vai dar nem para você comprar um lanchinho..." O moço olhou para mim com uma baita estranheza e perguntou: "Você tem dinheiro pra voltar pra casa?" (Perceba o ladrão preocupado comigo, eu preocupada com ele e nós dois tentando cuidar um do outro, cada um à sua maneira). Eu disse: "Não, mas pode ficar!". Ele respondeu: "Não! Não é porque a gente é maluco que tem de ser egoísta! Cinco reais para mim e cinco para você!" Eu voltei para casa tão feliz! E acho que ele foi comprar um salgado e (meio) pingado, feliz da vida também :-)

Rita Apoena

26.3.07

i really am this shallow

Ontem foi o primeiro dia da Oficina de Vídeo Documentário. Rolou uma entrevista.
Diferente do semestre passado, a sala estava lotada. Acho que havia umas trintas pessoas sentadas formando um círculo. Um por um se apresentava e dizia qual a intenção ou o que esperava da Oficina. Em alguns momentos parecia um grupo de apoio à qualquer coisa, saca? Esta coisa de ficar em círculo e começar a falar da vida para estranhos, eu não sei... Fiquei um pouco constrangido com a situação.

Como cheguei atrasado, fui um dos últimos a falar. O coordenador já me conhecia, mas pediu para que eu me apresentasse para o grupo. "Meu nome é Fábio, tenho 29 anos, amo cinema e como estou solteiro e extremamente carente, procurei esta oficina para ver se encontro alguma menina para resolver os meus problemas." Senti que demorou mais que um segundo para o povo achar isso engraçadoe, neste quase um segundo, temi não ser compreendido.

No final das apresentações, fui cumprimentar os amigos e, enquanto procurava um contato no meu celular, chega uma criatura do meu lado, pede meu telefone e pergunta o que é que eu faço. Antes de dar meu número, olhei para o caderno de notas dela e quis saber se ela estava fazendo uma lista do grupo ou algo do gênero.
"Não, não estou fazendo lista nenhuma, é que você disse que está solteiro..."
Ri de nervoso, disse que ela era engraçada e passei o número.
"Eu te ligo!", disse convicta.
(MEDO!)
Eu quis brincar de About a Boy (ou "Um Grande Garoto", na nossa língua), mas não sei se foi uma boa idéia...

O som nosso de cada dia

13.3.07

Profilaxias da vida

Duas mocinhas na minha frente, numa fila de papelaria.

-E aí, estás gostando?
-Ai, amei.
-Mesmo?
-Sim, ele é tão querido, conversa comigo, faz tudo a seu tempo, com cuidado. Ainda diz que, se começar a doer, é pra eu gemer que ele pára. Não é fofo?
-Ah, eu já prefiro mais quando não fala muito e termina logo o serviço. Não gosto de conversadores nesta hora, até porque, a gente com aquela coisa na boca, nem consegue responder.

A moça do caixa levanta os olhos com cara de pavor.

-Mas distrai, poxa.
-Na-na-ni-na-não. Comigo tem que ser pá e pum! E, de mais a mais, este negócio de doer é assim mesmo, tem que doer, ninguém vai morrer por causa de uma dorzinha.

O segurança na porta, dá um sorrisinho desavergonhado.

-Dorzinha pra você, que está acostumada! Eu tenho verdadeiro horror de sentir dor.

Todos na fila fingem seriedade. Uma senhora ordena aos berros que o filho pequeno vá procurar a caixa de lápis de cor faltou na cestinha. "Mas, mãããe, a gente pegou os lápis de cor, esqueceste??" "Este não serve, vai trocar que eu tô mandando!"

-Tu és fresca, minha filha. (em voz alta)
-Sou mesmo, se tem uma coisa que me apavora é dentista.

C A F E I N A

POR QUE SERÁ ?

ou FALANDO SOZINHA - E CAÇANDO BRIGA COMIGO MESMA

Disclaimer nº 1:
QUEM TEM PREGUIÇA DE LER, LEIA SÓ OS NEGRITOS EM VERMELHO (vermelhitos, será ?), QUE JÁ É O SUFICIENTE PRA ENTENDER O QUE EU TÔ QUERENDO DIZER...

Disclaimer nº 2:
...MAS EU ACHO QUE O MELHOR (sempre) ESTÁ NOS DETALHES.

Perguntinha, provavelmente retórica :
Cês acham que eu preciso de um copidesque ? Dito isso, vamos ao post :

Por que será que justamente as pessoas que fazem questão de ser as mais virulentas, furibundas, iracundas, estentóreas e outros palavrões escrotos ao criticar o que (e/ou quem também, claro, seja por tabela, direto nas fuças ou por triangulação, afinal, todo “que” sempre vem de um “quem”, né ? Não, eu não tô defendendo o criacionismo. Sim, eu acho que Darwin rules. Não, eu não preciso e nem quero ser coerente o tempo todo. Sim, caros espelho, superego, personalidade nº 4 e grilo falante, vão pra puta que os pariu e me deixem terminar o raciocínio logo e seguir com a frase, que este provavelmente já é o mais longo parêntese de toda a história dos blogs brasileiros. Claro, e o mais cansativo também. Concordo com você, Jiminy: o parêntese tá mesmo comprido e chato feito uma tênia, e tão difícil de matar quanto. Peraí. Pá. Pá, pá, pá. Pronto. Nah, deixa ele aí. Depois alguém recolhe. Acho que morreu, sim, né possível. Se ainda se mexer, a gente joga um albendazol em cima. Ou sal. Sei lá, funciona com lesma, uai. Então. Podemos ? Valeu, hem. Tem certeza ? Mais nada a dizer ? Ótimo. Prossigamos, pois.) quer que seja, são justamente as que não suportam nem a mais leve, gentil, comedida, educada e cuidadosa das críticas, mesmo que tenham pedido por ela ? Ai, meu Zeus, lá vêm eles de novo. Hem ? Como é ? Eu também sou assim ? Hmmm, xopensar. Sim, sim, é possível. Mas deixem que eu diga, em minha defesa, que quando quero esculhambar alguém eu não mordo e assopro, não mando recado, não falo alto pro vizinho ouvir, não uso pseudônimo nem ataco de anônima. Ou eu digo o que quero e assino embaixo, ou eu cifro muito e muito cuidadosamente, que é pra poder desabafar sem que o alvo se reconheça. Muitas vezes, se a indignação nem é tão grande assim que necessariamente exija que eu use algum tipo de válvula de escape, recolho-me à minha insignificância e, por difícil que seja, reconheço que minha humilde opinião é só a minha opinião, não um axioma universal ou Lei, assim mesmo, com maiúscula, gravada a fogo divino sobre placas de pedra do Monte Sinai. Porque, por mais que não pareça, eu sei, aceito e nunca, jamais, em tempo algum, me esqueço do fato de que não sou a dona absoluta e única da verdade. Nem sócia. Nem acionista minoritária. Porra, nem chego a ser locatária dessa merda.

cyncity

4.3.07

Viver e morrer em Bagdá

Sábado, 3 de fevereiro / Um dia sangrento
Um dos dias mais sangrentos em Bagdá. Um caminhão explodiu na área de Al Sadriya. Mais de 150 pessoas inocentes morreram e 250 ficaram feridas. Um dos funcionários da biblioteca foi ferido, outro perdeu seu primo.

Domingo, 4 / Outro dia ruim
Às 11h15 uma explosão fez nosso edifício tremer. Tivemos de esperar um pouco até que nos deram permissão para abandonar a biblioteca. Ao sair, vimos uma chacina e alguns carros totalmente destruídos.

Segunda-feira, 5 / Corte de luz
Fui ao Ministério da Energia para tentar convencê-los de excluir a Biblioteca Nacional do programa de racionamento (estabelece um máximo de duas a três horas de eletricidade por dia). Reuni-me com o diretor-geral do departamento de distribuição e lhe pedi o favor de nos dar seis horas de eletricidade por dia. Ele me disse que não pode ser. Bem, agora não tenho outro remédio senão pressionar o Ministério da Cultura para que conserte nosso gerador elétrico...

Na metade da manhã soube que o irmão do senhor K. (do departamento de catalogação) morreu. Às 14hs, um grupo de homens armados atacou a área onde eu moro. Houve muitos feridos e mortos: civis, inocentes... Mais tarde visitei meu primo, que foi atingido há duas semanas. Foi um dia triste...

Terça-feira, 6 / Nenhuma explosão
Não houve nenhuma explosão nem tiros. Repassei a lista de ausências da biblioteca e percebi que o senhor M. estava desaparecido desde a explosão de sábado... Hoje me visitou um ator conhecido que quer que lhe emprestemos nosso teatro para filmar várias obras. Eu lhe prometi que o cederia de graça porque concordamos que é preciso continuar promovendo as atividades culturais nestes tempos difíceis.

Quarta-feira, 7 / Sem notícias do senhor M.
Fui ao Ministério da Cultura para uma reunião. Nos arredores, todas as estradas e pontes estavam fechadas. Às 14hs terminou o encontro. Abandonamos rapidamente o edifício. Ainda sem notícias do senhor M. Começamos a pensar que pode ter morrido no atentado de sábado e que seu corpo tenha ficado enterrados sob os escombros.

Quinta-feira, 8 / Jornada "negra"
Dois de nossos bibliotecários (um sunita e outro xiita) se ofereceram para buscar o senhor M. Eu disse que não imediatamente. É perigoso demais.

Infelizmente, não me deram atenção e deixaram o edifício sem dizer nada. Depois de uma hora a senhora B. entrou em meu escritório chorando. Desconhecidos telefonaram para dizer que seqüestraram um deles na zona do atentado de sábado e perguntaram se era xiita.

Em pouco tempo comprovamos que o outro bibliotecário estava com ele. O caos se apoderou da biblioteca. Eu fui criado nessa área, a de Al Sadriya, e conheço muita gente lá. Então telefonei para um líder xiita do bairro e lhe perguntei se sabia alguma coisa. Garantiu-me que seus homens não o seqüestraram, mas que um grupo sunita muito ativo na área pode tê-lo feito.

Logo percebi que alguma coisa ia mal.

Trinta minutos depois apareceu um dos bibliotecários, o sunita. Ele explicou que o libertaram quando comprovaram que era sunita, mas que seu colega continuava seqüestrado... Não sabia onde... Logo eu percebi que não havia tempo suficiente para salvar sua vida. Contatei pessoas que têm influência nessa área. Mas no fundo do coração já sabia que era tarde demais. Uma hora depois um contato me informou que o bibliotecário tinha sido executado e que seu corpo fora abandonado em um beco.

Nesta noite meu irmão me telefonou de Londres para perguntar, como sempre, se minha família e eu estamos bem. Como sempre, disse-lhe que sim. Ele é muito otimista em relação ao novo plano de segurança para Bagdá. Creio que esse plano representa a última oportunidade para nós, e que se falhar será o final de um país e a escalada de uma guerra civil sem precedentes.

Sábado, 10 / O ser humano perfeito
Não há mais notícias sobre a execução do bibliotecário nem o outro companheiro desaparecido. Decidi criar um comitê especial para investigar o caso. Cada vez mais percebo que hoje em Bagdá o ser humano perfeito seria aquele capaz de desconectar todos os seus sentidos. Estar cego e surdo já não é uma maldição neste país, mas uma bênção.


Diary of Saad Eskander, Director of the Iraq National Library and Archive

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves - UOL

26.2.07

Coleção Grandes Pensadores

Da Wikipedia:

Abílio Diniz (São Paulo, Brasil, 1936), filósofo brasileiro conhecido por afirmações como "qualidade de vida exige método e disciplina" e "não adianta guardar ressentimento. É bola pra frente e vamos que vamos". Estudou em Heidelberg sob a tutela do grande filósofo neotomista Jacques Maritain, que teria ficado impressionado com a afirmação casual de seu aluno de que "a natação é o esporte mais completo" e "quem fica parado é poste". Diniz recusou a cadeira de filosofia em Heildelberg alegando que "não conseguia ficar parado" e abriu uma rede de mercearias no Brasil para sobreviver. "A filosofia já não me apresentava nenhum desafio, e sou um homem movido exclusivamente à base de desafios" (Diniz, "Recordações de Maritain e Etienne Gilson", 1974). Só voltou à filosofia em 2004, com "Caminhos e Escolhas - O Equilíbrio para uma Vida Mais Feliz" (considerado por Nuno Cobra como o "Tractatus Logico-Philosophicus brasileiro"). Teve grande influência em Quine, Rorty e Habermas. Habermas afirmou no seu livro Theorie des kommunikativen Handelns que "a filosofia nunca mais foi a mesma depois do insight de Abílio Diniz de que "quem fica parado é poste". Esse terrível aforisma ecoa no pensamento europeu com a mesma intensidade fatídica do "Deus está morto" nietzscheano". (Ao ouvir a frase de Nietzsche, aparentemente pela primeira vez, o neotomista brasileiro teria dito, "Ô, que coisa, que é isso" - o que fez com que Habermas replicasse: "Que fofo!". Ver Dennet, Daniel, "Great Philosophical Conversations of Our Times").

Citações

* "O homem é o lobo do homem", quer dizer, tem muita gente querendo fazer treta por aí. Olho vivo nesse pessoal. ("Hobbes para Gerentes", Capítulo V.)

* Quando a gente olha pro abismo, o abismo às vezes olha pra você e fica aquele clima ruim. Não olha pro abismo não.

* Os grandes maitres à penser Jacques Maritain e Nuno Cobra foram as influências intelectuais da minha vida - com o Dráuzio Varella, Içami Tiba e o Dr. Ermírio chegando perto. Aquela menina, a Luciana Gimenez, também é mais inteligente do que parece. (...) Acho que todo mundo tem alguma coisa pra nos ensinar nesta vida, menos a Angélica e o Luciano Huck. (da série "Palestras em Powerpoint".)

* Eu não costumo falar com faxineiros porque esse pessoal todo é muito chucro, mas talvez devesse porque às vezes essa gente diz umas coisas que você fica até bobo. Estava falando com a Dona Magali, que é a caixa numa das nossas unidades aqui da Mooca, e ela dizendo que foi baleada por traficante, destruíram o barracão dela. (...) E eu perguntei se ela não tinha raiva, e ela disse: "Ah, Dr. Diniz, eu acho que a melhor vingança é viver bem, né?". E ripa na xulipa! Foi uma lição de vida que aquela mulher burra de doer acabou me dando.

* Muitas pessoas ficam obcecadas em atingir um padrão de beleza imposto pela mídia. O importante é a gente estar bem com a gente mesmo.

* Vais ver as mulheres? Ah, que bom, faz bem.

* Então eu digo pra vocês: eu fiz Heidelberg, mas o que eu queria fazer mesmo era a escola da vida. Então eu larguei Heidelberg e fui fazer a escola da vida. Fui procurar o Dr. Antônio Ermírio que pra mim era o mestre disso tudo aí (da escola da vida). Ele me recebeu numa saleta e perguntou: "Abílio, você consegue quebrar isso?". E me deu um lápis, que eu quebrei. "Agora vê se você consegue quebrar isso", ele disse, e me deu uns quinze lápis, com aquele sorriso sabido dele. E eu fiquei com vergonha de dizer pra ele que aquele truque era muito manjado. Então a primeira coisa que eu queria passar pra vocês é isso, que velho só fala merda.

* Nietzsche disse "Aquilo que não me mata, só me fortalece". Mas nós do Pão de Açúcar resolvemos tirar isso à prova. Então um belo dia fechamos o supermercado e começamos a ver quantas coisas nem matavam nem fortaleciam. (...) Nenhum produto do setor de papelaria matava ou fortalecia, com exceção da tesoura e da cola, que podiam matar mas também não fortaleciam. Durex não mata nem fortalece, papel timbrado Tilibra não mata nem fortalece. É difícil matar com uma régua... (...) No setor de produtos de limpeza, fizemos um vendedor beber meio litro de pinho sol mas ele não morreu nem ficou mais forte (muito pelo contrário, até hoje não está muito bem). Essa frase do Nietzsche só se aplica ao setor de hortifrutigranjeiros e laticínios, e mais uns poucos produtos, do tipo bolacha Calipso. Então essa é a segunda coisa que eu queria passar pra vocês, que Nietzsche só fala merda.

Alexandre Soares Silva

18.2.07

Enquanto isso, na Sala da Justiça...

- Ô, tia! Pode sentar aqui, tia. Vai, tia.

Depois de tantos "tia", olho pra trás. Um rapaz atlético e bonitão, elegantérrimo no seu terno escuro, dava seu lugar pra uma senhora, deixando que o resto do vagão inteiro soubesse disso.

- Não, meu filho. Pode ficar à vontade.
- Ô, tia, senta. Não faz assim, não. Sentaê, tia.
- Obrigada, meu filho.
- Quéisso, tia. Bátima que agradece...

Eu ouvi isso?
Ouvi, claro. O Bátima agradece...

- Esse vucu-vucu não é bom pra senhora, não. O metrô tá fogo, né?

Odeio "vucu-vucu", e quem fala "vucu-vucu".

- É, mas faz tempo. Você não anda de metrô, né? Pega ônibus?
- Não, eu ando no batimóvel. Mas tô tendo que usar o batimetrô hoje.

Céus, alguém me tira daqui.

- É uma tristeza, meu filho. Eu, normalmente, não sento, não, sabe? É que eu machuquei o braço e tá custando pra sarar.
- É mesmo? A tia caiu, né?
- Nãããão. Foi acidente de carro. É porque eu trabalho no hospital, sabe?
- Aaahhhh!
- Eu trabalho na ambulância...

Olhei pra trás de novo pra conferir se quem falava era a velhinha de duzentos e sete anos que eu havia visto. Era. Ela trabalha na ambulância...

- ... e teve um acidente num dos meus plantões.
- Vixe, tia! Eu vi issaê, hein! Eu trabalho de batipatrulha e vi issaê.

...ele trabalha na batipatrulha...

- É?
- Quando foi isso? Não foi no fim de dezembro?
- Não, meu filho, foi em junho.
- Isso! Junho. Confundi. Não tinha uma paciente atrás, na ambulância?
- Não, não. Tava vazio. Eu, que sempre vou atrás quando tem gente, tava na frente.
- Ah, é!
- É que teve outro acidente logo em seguida, desse jeito aí.
- ISSO! É que a batimemória já não tá funcionando direito, sabe, tia?

- Bem que podia ser a batibôca, sussurra o rapaz sentado ao meu lado.

calaboca que eu tô falando!

Depois de dois meses de férias, eis que minha vida acadêmica retorna nesta semana. Junto com ela, minha vida de escrava no Arquivo. Eu até que tava com saudade do arquivo, sabiam? Entrei lá, coloquei a bata, a máscara e o jugo e fui trabalhar. O NDIHR, meu local de trabalho, é um lugar sombrio, com muitas salas e poucos funcionários. Marinalva diz que ele precisa de uma reforminha porque "com esse piso velho eu num tenho nem vontade de vir trabalhar". Ela diz que não se sente estimulada, sabe. Agora tá explicado porque funcionários públicos de instituições antigas não trabalham: o problema é o piso...
Eu vou confessar que estava com saudade de Marinalva. Mas só até ela entrar pela porta de vidro do NDIHR e eu lembrar do que ela me faz passar. Na última semana antes das férias, Marinalva entrou na sala que eu estava e disse que o sutiã dela a estava machucando e queria que eu desse conta do problema. Mas ela disse isso tão alto que acho que o reitor, lá do outro lado da universidade imaginou que fosse com ele o pedido de ajuda. Já fiquei vermelha daí, porque o secretário do NDIRH estava no recinto ao lado. Como eu não estava conseguindo ajudá-la, a doida resolveu o caso de maneira bastante sutil: baixou a blusa, tirou o sutiã e ficou com os peitos de fora. Quase que eu caio pra trás de susto. O detalhe é que os peitos de Marinalva devem pesar 70kg cada, e, quando ela tirou o sutiã, veio aquela avalanche de peito na minha direção. Eu corri o máximo que pude e me joguei debaixo da mesa procurando abrigo. Na verdade, quando eu vi aquilo eu fiquei feito uma barata tonta dentro da sala sem saber o que fazer. Não sabia se jogava uma toalha, se fechava a porta, se gritava, se saia correndo. Aí eu fui fechar a porta. Só que a porta é de vidro. Iêi. E Marinalva lá, naquela calma, como se estivesse no banheiro da própria casa.
Saí do NDIHR nesse dia em estado de choque. E, desde então, rezo todo santo dia agradecendo a Deus, Nosso Senhor, pelo incômodo de Marinalva ter sido no sutiã, e não na calcinha.

circo sem futuro

Orkut

"Sorte de hoje:
A felicidade está no horizonte da sua vida."

RÁRÁRÁ!
Alguém já conseguiu chegar no horizonte?

claraverbuck

Sensibilidades masculinas

Quando tinha 14 anos, esperava ter, algum dia, uma namorada.

Quando tinha 16 tive uma, mas não havia paixão. Então decidi que necessitava de uma mulher apaixonada, com vontade de viver.

Na escola saí com uma mulher apaixonada, mas era demasiado emocional. Era tudo urgente, era a rainha dos dramas, chorava todo o tempo e ameaçava suicidar-se. Então decidi que necessitava de uma mulher estável.

Quando tinha 25 anos encontrei uma mulher muito estável, mas aborrecida. Era totalmente previsível e nunca se excitava com nada. A vida tornou-se tão chata que decidi que necessitava de uma mulher mais emocionante.

Aos 28 encontrei uma mulher excitante, mas não conseguia acompanhar o seu ritmo. Ela andava de um lado para o outro sem que nada a detivesse. Fazia coisas impetuosas e flertava com qualquer um com quem se cruzasse. Fez-me tão miserável como feliz. De início foi divertido e enérgico, mas sem futuro. Então decidi procurar uma mulher com alguma ambição...

Quando cheguei aos 31, finalmente encontrei uma mulher inteligente, ambiciosa e com os pés no chão. Decidi então casar-me. Mas ela era tão ambiciosa que me pediu o divórcio e ficou com tudo o que eu tinha.

Agora, com 44 anos, almejo uma mulher com seios grandes.

obvious

17.2.07

Se.

Se você quiser ser meu namorado eu prometo ser eu mesma. Prometo amar da maneira maior e mais bonita que eu sou capaz, me doar na medida dessa mesma capacidade e ser leal e fiel de acordo com aquilo que eu acredito. Não prometo mais nada, (in)felizmente. Qualquer outra coisa está bem além do meu alcance, saiba desde agora. Essa aqui que gostaria muito de ser sua namorada foi quem eu consegui me tornar depois desse tempo todo de vida. É possível que eu melhore um pouco, mas não muito. O fundamental, essencial, estrutural, é esse aqui mesmo. O mais provável, no entanto, é que eu até piore com o tempo, mas espero, sinceramente, que as rabujentices possam parecer para você, assim como acho que as suas vão parecer para mim, muito mais charmosas do que atrapalhativas à medida que o tempo passe e a gente vá se conhecendo cada vez mais e se amando cada dia mais um pouquinho. Prometo, ainda, não fazer promessas vãs, incrumpríveis e demagógicas com o único intuito de fazer com que você seja e/ou continue sendo meu namorado. Prometo também continuar sendo sua namorada até bem depois de nossos netos estarem crescidos, mesmo quando já puder parecer um tanto ridículo – para os outros – dois velhinhos em atitude libidinosa no banco do parque, quando já não lembrarmos nem de longe o menino que guardava sorrisos nos bolsos e a menina que tinha estrelas nos olhos.

Ticcia, Mme. Mean

10.2.07

Tonitruei, pronto.

(…)

O caráter é como aquele velho restaurante que nunca é reformado mas sempre tem um ranguinho confiável: ele nunca entra na moda.

O Hermenauta

30.1.07

EXEMPLAR COMPÊNDIO SOBRE A FALTA DE TEMPO

Roma não se fez em um dia: foram doze horas corridas, sem intervalo para o almoço. A pressa foi tanta que até hoje você vê o Coliseu, lá, incompleto. O paraíso foi criado em cinco dias, em vez dos quatro bilhões de anos regulamentares, que incluiriam licitação, sub-empreitas e acabamento – e aí ele acabou entregue sem a nascente do Nilo. Os dias que abalaram o mundo foram só dez porque o John Reed tinha gasto todo o adiantamento da editora e precisava mandar os originais logo. Já eu tenho que entregar seis campanhas atrasadíssimas e não anda me sobrando tempo para postar. Ei, idéia para post: parodiando H. G. Wells, A Máquina da Falta do Tempo. Cientista ocupadíssimo é contratado por uma megacorp nipo-americana para desenvolver em tempo recorde um

Ao Mirante, Nelson!

Onesome

Cedo demais para acordar e ainda assim tarde demais para me despedir dela antes que saia para a escola: começo inauspicioso para o fim de semana. Traços discretos revelam a pressa matinal –duas peças de roupa jogadas na cadeira, o banheiro ainda úmido, a toalha pendurada apressadamente que caiu do gancho na parede, a máquina de espresso ligada. A essa altura ela está no trem, provavelmente tentando tirar um cochilo (a não ser que haja alguém sentado logo ao seu lado, porque ela jamais conseguiria cochilar com um desconhecido no assento ao lado). Ms. M. odeia essa convenção ferroviária de pares de assentos voltados um para o outro –a obrigação de desviar o olhar, de sorrir idiotamente quando o desvio não funciona-, e odeia a paisagem suburbana (da cidade para o campus, subúrbio sucede subúrbio, a desolação de marts, condomínios, casas isoladas enfeitadas por desenxabidas e desbotadas bandeiras). Ela poderia adiantar a lição de casa e ler sobre o Magma 3, Dogma 5, Zeugma 9, mas aposto –com certo sentimento de culpa- que o sono não vai deixar.

Tomo café, apanho o jornal. A bicicleta me olha com repreensão estampada nos pedais, mas tá uma chuva besta lá fora, composta, tenho certeza, por aquelas gotas geladas e espessas capazes de encontrar caminho gola abaixo não importa quantas camadas de roupa o mano vista. Me acomodo no sofá do escritório com um livro, mas meu encontro com Messrs. Walker & Sons na noite de ontem impede que eu dedique a concentração necessária às peripécias da economia nazista tais como brilhantemente descritas pelo Dr. Tooze. Leio um pedaço do jornal, penso nela mais um pouco –meio litro de café por hora de aula, estimo, rindo- e decido sair. Dizem que tem 15 milhões de pessoas na região metropolitana -e mais ou menos 14 milhões delas estão fazendo compras no mesmo horário que eu, aparentemente-, mas 15 milhões menos uma igual a zero: cidade fantasma e, em cada loja, em cada rua, a vontade irresistível de sacar o intimorato Blackie do borso e comentar alguma coisa com ela.

Depois de almoçar com amigo ainda mais melancólico do que me sinto –hair of the dog, wha’?- e de comprar mais coisas de que não preciso e presentes propiciatórios, descubro que tempo e perambulação conspiraram para me levar à gare, marromenos meia hora antes do horário em que o trem dela deve chegar. Compro flores, amasso as pobres das flores por conta do excesso de pacotes, alugo armário, confiro horário e plataforma (as câmeras de segurança com certeza já me catalogaram como ameaça). O celular chilreia. Ela, avisando do horário de chegada e perguntando se estou em casa. Sorrio. Compro meu 19° café. Me escondo por trás de uma coluna e das flores amarfanhadas na plataforma de desembarque. Ela desembarca, elegantemente envolta em um casaco que parece um pufe de napa. Deixo o abrigo, aceno. Ela pára. Franze os olhos. Abre aquele sorriso que demole cidades fantasmas. Corre que nem menina pela plataforma, e se lança em meus braços. Eu derrubo as flores, mas consigo dizer “tava morrendo de saudade” uma fração de segundo antes dela.


Filthy McNasty

26.1.07

Hay Kai? Soy contra

A poesia fede, a poesia quer ficar rica, dizia o poeta, com conhecimento de causa. Ou ele dizia outra coisa? Não sei, procuro não prestar atenção em poeta senão o sujeito não sai da minha mesa até eu comprar o incenso. Caso sério.

O problema com a poesia é que ela está ao alcance de todos, e como se sabe, a democracia não funciona em nenhuma área, com a possível exceção das eleições para presidente do Vasco, em que um perfeito exemplar da espécie é sempre escolhido. Democracia representativa é isso aí.

Mas falávamos de poesia, e de como, uma vez alfabetizada, qualquer pessoa pode entrar na brincadeira. E o principal problema é que a poesia, em mãos erradas, tem poder de destruição muito maior do que o das outras artes. Alguns acham que a o caso música é mais grave, porque é capaz de juntar o pior de dois mundos, mas acredito que na música a poesia ruim pode se diluir na melodia ruim e perder nossa atenção facilmente. Ou se a música é muito intrusiva, como grindcore ou Axl Rose, uma anular a outra pela estridência.

Mas de poesia é impossível fugir. Você pode ignorar um músico em um bar, mas seria mais fácil conseguir um visto de saída do Gueto de Varsóvia do que receber o mesmo indulto de um poeta. Ele põe os olhos sobre você, e o silêncio constrangedor em torno faz o resto. Você fica paralisado como um sapo sob o facho de luz.

Quem já esteve diante de um bom orador sabe o poder inspirador que as palavras têm, mas só um mau poeta para dar a dimensão exata de sua capacidade emburrecedora. Experimente encontrar palavras para comentar um livro da Bruna Lombardi. Elas nunca vão fazer justiça às profundezas da ruindade do objeto em questão. Você se sentirá analfabeto de pai e mãe.

Platão, em um texto famoso, disse que os poetas seriam expulsos da sua hipotética República. Eu me contentaria se eles fossem expulsos do recinto.

Arnaldo Branco Mau Humor na Bizz

22.1.07

2007

Decidi que vou investir tudo no meu quarto. Vou comprar um ar condicionado split, três metros de chita colorida suficiente para cobrir uma parede inteira, talvez uma cama nova, ou pelo menos o colchão – porque o atual está me matando – uma mesa de cabeceira com gaveta para guardar o livro que vou ler até o sono chegar. Depois apago a luminária super legal que também providenciarei. E fotos. Fotos espalhadas por toda parte em molduras que eu mesma farei. Aí, no dia que estiver tudo pronto, mudo a minha vida toda lá para dentro. E lá será o meu reino, onde todas as coisas aconteçam exatamente como eu acho que elas devem acontecer. Viverei sozinha lá dentro. Talvez algumas visitas uma vez ou outra, mas coisa rápida, para o lugar não perder nem um pouco da minha cara que não será a que vejo no espelho agora.

bem aqui assim

Tomografia computadorizada - R$ 808,64
Diária de internação - R$ 373,20
Optiray 50 Ml Injetável (santo remédio) - R$ 477,00
Ter uma cólica renal na frente da sua gerente de banco, enquanto você solicita um novo talão com lágrimas nos olhos - Não tem preço

Existem coisas que o dinheiro compra. Para todas as outras existe Whaddafuck?!

Fotografias

Há quem se desfaça de velhas fotos. Eu não. Guardo até um álbum do meu avô, que faleceu há mais de dez anos. Meu avô quando jovem, meus tios brincando no quintal de casa, gente que eu não faço idéia de quem seja. Estão lá, literalmente no fundo de um baú. Para quando eu quiser ver. E de vez em quando eu quero.
Hoje, por exemplo. Revisando essas e outras fotos, encontrei umas quatro ou cinco ex-namoradas (a dúvida numérica diz respeito às "namoradas"; as meninas eram cinco). E tentei me lembrar do tempo que passei com elas... Como, quando foi? O tempo se dobra sem tocar as pontas. Uma foto é só uma foto - nada se resgata. Mas em algum lugar eu sou o mesmo que um dia a olhou pela primeira vez.
E é como guardar um livro. Sabe-se as palavras, mas os sentidos são outros ao longo do tempo. Assim mesmo: Heráclito na veia. Só que num instante eternizado.

será que não faz diferença nenhuma?

19.1.07

Que a terra lhe seja leve

Morto sob 38 metros de terra no desabamento da estação Pinheiros do metrô, o motorista de caminhão Francisco Sabino Torres, 47, transportava 30 mil kg de terra todos os dias no caminhão Mercedes-Benz 2638 que pilotava a serviço do Consórcio Via Amarela. Ele teve de enfrentar a terra de novo na hora do enterro.

Velório realizado em sua casa, na rua Santa Terezinha, Vila Guilherme, bairro de Francisco Morato, Grande São Paulo, o féretro estava marcado para sair ontem às 9h em direção ao cemitério da Alegria. Não deu.

Nessa hora, sob chuva, a rua de terra era lama intransitável. O carro da funerária desistiu. Cerca de 20 operários do consórcio, que foram ao enterro, ofereceram-se para carregar o caixão nas costas -ladeira acima, 200 metros até o asfalto.

Câmeras de TVs ao vivo, a prefeita Andréa Pelizari (PSDB) mandou um trator jogar brita para estabilizar o terreno. O carro funerário conseguiu sair às 11h, sob aplausos de colegas, vizinhos e familiares.

No cemitério, outro problema: os jazigos foram construídos na medida padrão das urnas mortuárias populares. O caixão do motorista Torres era especial, de luxo, pago pelo Consórcio Via Amarela. Resultado: não cabia no retângulo concretado. Demorou. A solução foi enfiá-lo de lado.

O secretário estadual de Justiça, Luiz Antonio Marrey, que fora levar conforto aos familiares, não esperou. O corpo ainda estava encalacrado e o helicóptero da PM com Marrey a bordo sobrevoou o campo santo, voltando para São Paulo.

Pais de três filhos (Kelly, 19, Adilson, 16, e Danilo, 15), marido de Maria Sinhazinha Torres, o motorista era líder comunitário. Passou os últimos 20 anos, tempo de moradia em Francisco Morato, lutando por asfalto. Não deu tempo. Francisco Morato, 200 mil habitantes, só uma indústria instalada, é cidade-dormitório dona dos piores indicadores sociais do Estado. De 1.500 ruas, apenas 400 são pavimentadas. O resto é terra.

LAURA CAPRIGLIONE Folha de S.Paulo - 19/01/2007

Ordem e progresso

Inspirado na triologia das cores de Kieslowski lembrada no último post, comecei a redigir o roteiro de uma bi-logia das cores: verde e amarelo. Os nomes dos filmes serão "Verde" e - adivinhe - "Amarelo". Quando traduzidos para o francês, o russo e o suahili, os títulos poderão ser renomeados para "A ordem é verde" e "O progresso é amarelo".

O primeiro contará a história de um inglês que chega ao Brasil e tenta implantar sem sucesso seus ideais de ordem e método. Para dar a coloração verde que a fita requer, algumas cenas serão feitas num bananal no vale do Ribeira. Como o bananal entra na história é algo que ainda estou definindo. No fim, ele desiste e volta pra Europa.

O segundo filme narrará a vinda de um sul-coreano interessado em abrir uma fábrica de componentes eletrônicos no Brasil que, premido pela absurda carga tributária, pelos ridículos encargos sobre a folha de pagamento, pelos achaques sindicais, pela falta de infra-estrutura e, sobretudo, pela falta de cachorros sem vermes para comer, ele pica a mula de volta pra Coréia no final. A coloração amarela do filme será garantida por figurantes com febre amarela.

Antes de escrever a primeira linha dos roteiros, contudo, redigi meu discurso de agradecimento pelo Oscar que certamente há de vir. Tem seis laudas em frente e verso, tem tudo pra ser lembrado pelo resto da vida da minha mãe.

é por aqui que vai pra lá?

O inapto e o pneu

Na noite de segunda-feira eu descobri que sei trocar pneu.
...
Que foi? Que que tem? Vocês acham que todo homem vem de fábrica com os genes de trocar pneus, abrir jarros e matar baratas? Pois eu só vim com o dos jarros. Matar baratas foi uma habilidade que eu adquiri com o tempo, e trocar pneu foi algo que surgiu com a necessidade. Conto.
Depois da saga que foi obter minha carteira de motorista aos 30 anos de idade, e de enfiar um carro no poste, achei que já tivesse passado pelo batismo da direção. O negócio começou a mudar, porém, quando recebi minha primeira notificação de multa, há uma semana. Quatro pontos na carteira por andar a estonteantes QUARENTA E OITO QUILÔMETROS POR HORA (o limite era quarenta). E então, na segunda-feira, o pneu.
Vinha eu feliz pela Marginal Tietê após deixar a namorada em casa. Havíamos saído para comemorar o aniversário de dois anos de namoro (vejam só que mulher paciente). Pensando no quanto o trânsito estava livre, e que ia chegar em casa rápido, peguei a alça que leva à avenida Governador Carvalho Pinto, via pública com baixo índice de acidentes e alto índice de trocadilhos. No meio da curva, a oitenta por hora (o limite é sessenta; vem me pegar, CET!), um estrondo e o carro fica manco de repente. Quase me enfio na lateral do viaduto. Consegui controlar o carro, porém, e percebi que o pneu dianteiro esquerdo havia estourado.
O que fazer? Eu não tinha idéia. Liguei o pisca-alerta e me pus a pensar. Por pouco tempo: as buzinas atrás de mim (todos os carros surgem do nada quando você está parado na faixa da esquerda de um viaduto com o pisca-alerta ligado) me fizeram perceber que, caso ficasse ali, seria abalroado (vixe mãe) em breve. Então fui conduzindo o carro para a direita, fazendo sinais frenéticos e meio abichalados para que me deixassem passar.
Já do lado direito, outro problema: estava no meio da favela do Boi Lambão Malhado (sei lá o nome da favela). Não sei quanto a vocês, mas eu não ando muito com vontade de morrer, então fui dirigindo o Corsa capenga até passar a favela do Macaco Leproso. O que não adiantou muito: enfiei o carro numa travessa logo do lado da favela do Sapo Pilantra. Os moradores da comunidade (eu estava no meio do território dos caras, melhor ter respeito) estavam todos reunidos num bar ali perto, dançando ao som de um rock retardado qualquer. Capital Inicial, essas coisas. Um sujeito de bicicleta passou três vezes olhando para o carro e para minha cara de babaca.
Sim, leitores, eu tinha medo. Mas ali estava meu meio carro (a outra metade ainda é do meu pai; alguém tem 11 mil reais pra me emprestar?) de pneu furado, e eu precisava solucionar aquele problema. E o pior: estava de calça nova. Se pelo menos estivesse de minissaia, era possível que algum rapaz bondoso parasse para me ajudar. Como não estava, botei mãos à obra: abri o porta-malas, retirei o estepe, o macaco e a chave de roda (não tinha triângulo, nem zabumba, quanto menos sanfona), e resolvi tentar trocar o pneu.
Eu lhes digo: a troca de um pneu parece tarefa corriqueira, mas não é. Ah, não é mesmo! Trata-se de uma ciência hermética, uma arte para iniciados. Aposto com vocês que o teste para chegar a Grão-Mestre da Maçonaria é trocar um pneu. Pois vejam: para começar, não conseguia fazer com que o macaco executasse seu trabalho. Enfiei o safado sob o carro, imaginei onde seria um ponto de apoio decente na lataria, e comecei a rodar aquela joça. O diabo da alavanca ficava batendo no asfalto, e o carro subia um pouco e logo caía. Algo errado. Hora de ler o manual do carro. Consultando o importante documento, descobri que estava usando a ferramenta de cabeça para baixo.
Com o macaco devidamente posicionado, erguer o carro foi moleza. Aí veio o outro desafio: tirar o pneu. Afrouxei o primeiro parafuso sem grande dificuldade, mas os outros não cediam nem a pau. Depois de muito tentar, aceitei a derrota e fiz o que qualquer mocinha faria no meu lugar: liguei para o seguro.
O rapaz que me atendeu deve ter achado graça na minha incapacidade, mas garantiu que o socorro chegaria em meia hora. Provavelmente um negão que me olharia com desdém e tiraria os três parafusos usando apenas dois dedos. Que se fodesse: no que me dizia respeito, o problema estava resolvido. Mais tranqüilo, saí para procurar um lugar onde pudesse comprar uma coca-cola. Logo na frente do bar, um trailer de cachorro-quente me surgiu como um oásis. Pedi minha coca-cola, conversei um pouco com os presentes sobre assalto a banco e notas marcadas (eu fico interativo quando estou nervoso, mesmo com o menos recomendável dos públicos), e voltei ao meu posto ao lado do pobre carro manquitola.
Meus amigos, levou menos de cinco minutos. Olhando para o carro ali tão vulnerável, já com os apetrechos jogados de volta no porta-malas, tive uma revelação: se erguido no ar, o pneu girava um pouco a cada golpe; firmemente plantado no chão, ofereceria um ponto de apoio muito melhor à chave de roda. Senti meu QI aumentar uns cinco pontos, abri novamente o porta-malas e dei início à Opareção Troca de Pneu 2.0.
Mais inteligente como estava, deduzi rapidamente que retirar todos os parafusos poderia trazer efeitos indesejados, como receber o peso do carro sobre o pé. Então apenas afrouxei os danados, agora com a maior facilidade, e levantei novamente o carro. Depois disso foi só terminar de desrosquear os parafusos e tirar o pneu furado. Ao tentar botar o estepe, porém, outro problema foi apresentado à minha poderosíssima inteligência: o eixo, ou seja lá como for o nome daquela porra onde se enfia o pneu, estava muito baixo para o encaixe. "Este pneu é muito grande", pensei eu. Botei o danado ao lado de seu colega ferido, e de fato ele estava uns 10 centímetros maior. E eis que o gênio se manifesta novamente: os dois eram do mesmo tamanho, só que um estava furado e o outro não. Bastaria subir o carro um pouco mais e estaria feito. Pronto: com essa genial dedução final, terminei a troca do pneu, liguei para o seguro cancelando o chamado (atendido por uma moça, dessa vez) e voltei para casa.
A lição que aprendi e agora repasso a vocês: o bom mesmo é nascer mulher. Não que essa lição vá me servir para alguma coisa.

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