28.11.08

Em tempos de festas de confraternização, é quase uma epidemia.

Hoje venho comentar sobre uma espécie conhecida de todas nós: a INHA

Sally, o que é a "inha"? A INHA, cara leitora, é aquela amiga do seu namorado que tem fotos de gosto bem duvidoso no Orkut e o trata com tanta intimidade que beira a falta de educação e a vulgaridade. Pode ser a Renatinha, a Regininha ou a Carolzinha. Tanto faz. É sempre uma INHA.

Não sou uma pessoa doentiamente ciumenta, meus exs podem vir aqui confirmar isso. Aliás, no caso das INHAS, arrisco dizer que nem se trata de ciúmes, e sim de falta de respeito. O que me irrita e me tira do sério é a falta de respeito delas (e deles, em alguns casos). Será que algumas mulheres não se dão conta que quando um amigo começa a namorar algumas atitudes tem que ser repensadas? Ou será que elas fazem isso de propósito, para se sentirem poderosas?

Geralmente os atos das INHAS nem são o maior dos problemas. O grande problema vem da reação do Zé Ruela aos atos das inhas. Cabe a eles colocar as INHAS no seu lugar, entenda-se, lugar de amiga. Homem bonito até que costuma cortar as INHAS, mas os feios e os mais ou menos... são um problema! Acho que são meio deslumbrados, porque nunca mulher nenhuma deu em cima deles e quando uma dá, ficam tão maravilhados que não conseguem cortar.

O namoro só perde com esse estresse: a namorada se aborrece, o namorado acha que a namorada está enchendo o saco. Que tal cortal o mal pela raiz, Amigo Cueca, assim você nos poupa (e se poupa também) de aborrecimentos?

E como eles nunca sabem o que vai chatear suas namoradas, pois parecem sempre ter sido pegos de surpresa pelas nossas reclamações, segue aqui uma lista de coisas que aborrecem a maior parte das mulheres. Acabou a era do "eu não sabia". Quem mandou não entrar em um blog sobre carro ou sobre futebol, Amigo Cueca? Seu álibi de desconhecimento já era...

DESFAVOR INHA 1 - "EU TE AMO"

CENA: Você vê nos scraps dele o seguinte texto:

"Oi LiNdu! SaUdAdJiX di Vc GaTu! SoNhEi c Vc! KKKKKKKKKKKKK
Ti Amoooooooooooo Mto!!!!!!!!! bjux "

A foto da autora deste desfavor à língua portuguesa é uma menina com um decote daqueles que você pode ver os pêlos pubianos, chupando um picolé de forma vulgar, enquanto pisca um dos olhos, com a câmera na mão, tirando a foto em um espelho.

Minha opinião: Eu sei que no Orkut, MSN e similares o tom das conversas é mais informal. Mesmo assim, mulheres não gostam de ver outras mulheres dizendo que amam seu homem. É desagradável. É humilhante. Não é insegurança, ok? Pode ser uma gorda de 300kg, sem dentes e com um olho de vidro, ainda assim, é falta de respeito, mesmo que a mulher tenha a certeza de que nunca, jamais, em tempo algum, vai ser trocada pela Jubarte. Estampar em um lugar público um "eu te amo", ou pior ainda "Ti AmU miGuuuuuu!" (além de vadia, analfabeta) é um desfavor. VOCÊ, Amigo Cueca, ficar inerte a isso é um desfavor maior ainda. Tudo bem, o simples fato de uma pessoa sem noção deixar um "eu te amo" não é motivo para briga, eu já recebi declarações de amor pelo Orkut de pessoas que nem conhecia, ninguém está livre disso. O grande problema é você, Cueca, ficar inerte a isso e não colocar limites. Comigo é delete + bloqueado, mas isso vai de cada um, cada um impõe limites como quer.

Mas Sally... É só amizade...
Amizade é meu cu cheio de purpurina. Mesmo que seja só amizade da SUA parte, Amigo Cueca, você não pode ter certeza se é amizade só da parte dela. E mesmo que seja só amizade, se os termos dessa amizade magoam tanto sua namorada, não custa fazer umas alterações. Ninguém está pedindo para que você vire as costas para a sua amiga, apenas para que converse e esclareça que você não acha essa atitude adequada.

Mas Sally... Eu não sei ser grosso...
Quem disse que precisa ser grosso? Fale na maior educação. E cá entre nós, Amigo Cueca, você SABE SIM ser grosso. Ou por acaso quando passam a mão na bunda da sua mulher você entrega flores ao autor da gracinha? O problema é que você só é grosso com aqueles que TE despertam raiva. Se o sofrimento for da sua mulher tudo bem, né?

Mas Sally... Nada a ver, ela tem namorado!
Pior ainda, está faltando com o respeito ao namorado dela e à sua namorada. Desde quando quem tem namorado impede de dar em cima de outras pessoas? E mesmo que ela não esteja dando em cima de você, custa evitar esse tipo de coisa para não magoar sua mulher?

Mas Sally... Eu não entendo porque isso incomoda!
Eu também não entendo porque vocês se descontrolam vendo jogo de futebol, porque tratam carro como filho ou ficam lendo o jornal enquanto cagam. No entanto, mesmo sem entender, consigo aceitar e respeitar, sabendo que é importante para vocês. Para respeitar é preciso entender? Não basta saber que vai causar um sofrimento para a sua amada para tentar evitar o desfavor?

Mas Sally... Se eu falar isso, mesmo com jeito, minha amiga vai ficar magoada...
Então, meu Amigo Cueca, você vai ter que escolher entre magoar a sua amiga ou magoar a sua namorada, porque se ficar recebendo "eu te amo", "sonhei com você" e "saudades de você, Lindo!" e se mantiver nessa inércia contemplativa, vai magoar sua namorada. Tenha em mente que a sua amiguINHA pediu por isso: quão sem noção tem que ser uma mulher para deixar esse tipo de recado para um homem que sabe estar namorando? Passarinho que come pedra sabe o cu que tem.

DESFAVOR INHA 2 - CONTATO FÍSICO EXCESSIVO

CENA: Você está em um bar com seus amigos. Do nada escuta um grito estridente:

"AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!"

Você pensa que é um assalto ou uma barata, mas não é, é a INHA. Ela se pendura no pescoço do seu namorado gritando:

"FULANINHOOOOOOO!!! QUE SAUDAAAAAADEEEESSSS!"

Ela ignora você e conversa com ele pegando-o e apertando-o e depois ainda senta no colo dele.

Minha opinião: Não contente com as manifestações no mundo virtual, a INHA muitas vezes abusa no mundo real também. E elas adoram um contato físico excessivo: sentar no colo, longos abraços, segredinhos ao pé do ouvido, e algumas mais sem noção arriscam tapas na bunda. Na bunda do namorado. Supondo que a namorada seja uma santa, ela não dá na cara da INHA na hora por consideração e te poupa do barraco, mas pode ter certeza que ela está de olho na sua atitude esperando que você faça algo. Incomoda de forma dupla esse tipo de abuso: primeiro, porque tem alguém mexendo do que é seu (foda-se se ela é feia, se é amiga, se é traveco ou se é o Papa Bento XVI, tá mexendo no que é meu). Tá me achando ciumenta? Pense no contrário: um homem dando tapinhas na bunda da sua mulher e você do lado, de espectador. Incomoda também pelo mal estar social que causa, sua namorada protagoniza um puta papel de corna/idiota/babaca na frente de todo mundo. Por isso, é de bom tom dar um corte na hora. Abuso de forma pública? Corte de forma pública. Passarinho... pedra... você sabe.

Mas Sally... minha namorada sabe que eu amo ela, porque ela se importa?
Porque isso configura FALTA DE RESPEITO. E quando nos sentimos desrespeitadas ficamos muito chateadas. Você amar sua namorada não te dá carta branca para sair por aí fazendo coisas que magoem ela. Faz diferença porque ela se importa? O grande diferencial aqui é: estou informando que magoa. Você quer vê-la magoada? Quem é você para dizer o que magoa e o que não magoa?

Mas Sally... Chatão dar um corte na frente de todo mundo, né?
É sim. É chatão. Da mesma forma que é chatão sua amiguINHA fazer um desfavor desses na frente de todo mundo. Tá zero a zero.

Mas Sally... Foi de brincadeira!
Existem coisas que mesmo sem intenção, magoam. Essas coisas devem ser evitadas. Só porque não foi mal intencionado não quer dizer que é festa e tá tudo liberado. Tudo bem, tem algumas INHAS que tem a piranhagem tão enraizada no âmago do seu ser que nem percebem que estão sendo inconvenientes, mas isso não é motivo para não cortar. Tem coisas com as quais não se brincam, sobretudo as que magoam.

Mas Sally... Eu não fico com essa minha amiga!
Só faltava, né? Além dela fazer essas inconveniências em público, você ficar com ela. Não pense que é grandes bosta você não ficar com ela, você não faz mais que sua obrigação. E só porque não fica com ela, isso não quer dizer que você tenha carta branca para esse tipo de coisa.

Mas Sally... Ela sempre agiu assim comigo...
Eu sempre caguei na fralda até que um dia aprendi a usar a privada. Ela tem que entender que a sua situação fática mudou, agora você está namorando e isso pede uma nova postura. Não precisa deixar de falar com ela, mas também não se pode pretender que ela continue beliscando sua bunda e sentando no seu colo.

DESFAVOR INHA 3 - AMIZADE FORÇADA

CENA: A INHA que você já detesta, em função dos outros dois desfavores anteriores, começa a puxar papo com você. Ela sempre te ignorou, mas hoje está cheia de amores. Você, para não parecer antipática, conversa por educação:

INHA: "Menina, eu a-do-ro vestido tomara-que-caia! Você gosta?"

Você: "Ahãn"

INHA: "Então feeeechouuuu! Vamos combinar de ir juntas no shopping comprar vestiiiidooo! Pode ser no sábado?"

Você: ... (cara de bunda)

Minha opinião: Quem escolhe meus amigos sou eu. Justo, não? Pois é. Mas tem umas INHAS que se acham espertas e começam a querer forçar uma amizade com a namorada do amigo. Não sei bem porque elas fazem isso, se é para poder continuar piranhando em paz, se é deboche ou se tem titica de sabiá amarelo na cabeça mesmo. O fato é que não tem nada mais desagradável do que aquela INHA que você detesta (leva poucos segundos para odiar uma INHA) toda se querendo para cima de você. Começa a pagar de amiguinha, na sensacional estratégia dela e já te chama logo para ir ao shopping ou ao cinema. Você acha aquela pessoa ordinária e burra. Você não quer contato. Mas se você recusar, a INHA se faz de vítima para o seu namorado "Eu tentei me aproximar dela, mas acho que ela não gosta de mim, Fulano. Poxa, eu tô fazendo de tudo para ser amiga dela...". Adivinha quem sai como a mocréia? Você. Periga até seu namorado fazer um discurso conciliador pedindo para você dar uma chance à INHA e dizer "O que foi que a menina te fez?". Você pensa "nasceu", mas não pode responder, porque a safada te deixou em uma situação complicada. Entendam: mulher não é homem, que se junta com qualquer homem e já joga uma pelada e toma um chopp falando besteira. Nossa amizade é mais profunda. A gente se abre com as amigas (Somir depravado, nem ouse fazer um trocadilho). Não podemos ser amigas nem colegas de qualquer uma, não é uma questão de esforço, precisamos de afinidade. Por isso, respeite nosso sagrado direito de não querer ser amiga da INHA.

Mas Sally... A menina tá na maior boa vontade, precisa ser grossa?
Quem aqui está sendo grossa? Você desconhece o que é ser grossa. Ser grossa é cuspir na cara dela e gritar "Que amizade o que! Amizade de cu é rola, sua piranha!". Se um amigo meu gay chama meu namorado para ir ao cinema, eu entendo se ele recusar, porque não vai ter a menor afinidade. Espera-se que seja respeitada nossa recusa em confraternizar com a INHA.

Mas Sally... Não custa nada...
Alto lá! Não custaria nada PARA VOCÊ, mas você não pode medir o nosso sacrifício pelo seu. Para mulher custa sim. É um cu. Mulheres falam muito, por isso só aturamos outras mulheres com as quais a gente tenha afinidade. Procure ficar do lado de uma pessoa que fala muito e que não tenha nada a ver com você, sem a possibilidade de fazer sexo, e constate por você mesmo como é chato.

Mas Sally... Isso vai magoar a INHA...
Já falei mas vou repetir: ocorrerão situações onde você vai ter que escolher se magoa a namorada ou a INHA. Essa mania escrotamente diplomática que homem tem de querer sair bem com todo mundo me soa covarde.

Mas Sally... a menina é um amor...
Dá licença que outras pessoas achem ela um cu sujo e mal lavado? Obrigada.

Mas Sally... o que eu digo para ela?
Não diz nada. Quando a INHA chamar sua namorada para sair, ela vai dar o fora que achar mais conveniente. Se a INHA te perguntar alguma coisa, você manda ela perguntar para sua namorada. E nunca diga para a INHA que a namorada não gosta dela, isso dá uma alegria enorme às INHAS e nos deixa mal pra caralho. Não dê armas para a INHA se vitimizar. Diga que sim, que sua namorada gosta muito dela e deixe a própria namorada explicar porque não vai sair com ela.

DESFAVOR INHA 4 - EXCLUIR VOCÊ

CENA: Vocês estão em um aniversário. Infelizmente a INHA está lá. Ela é "amiga" de todo mundo, e por amiga, entenda-se, ela dá para geral por isso é mantida por perto. Alguém fala em acampamento. Você é uma criatura urbana que preza pelo conforto e se recusa a limpar o cu com folha de árvore. Você responde, em nome do casal, que não, muito obrigada, vocês não tem interesse em acampar. A INHA se manifesta:

"Imagiiinaaaa! O Fulano sempre acampava antes de te conhecer! Ele gosta siiiim! Fulano, vai deixar de acampar só porque está namorando? (e faz sinal com as mão simulando uma coleira no pescoço do seu namorado) Claro que não, né? Vem com a gente!"

As mais abusadas ainda dizem para a namorada, no caso, você:

"Ahhh... você não gosta, né? Deixa ele ir, vai... Me empresta o teu namorado só neste fim de semana então, te devolvo ele na segunda-feita inteirinho, prometo! hi hi hi..."

Minha opinião: Muitas INHAS armam programas onde acabam excluindo as namoradas, por um motivo ou por outro. Isso é um desfavor, mas o grande desfavor mesmo acontece quando seu namorado topa isso. Não precisa ser uma coisa maldosa. Por exemplo, uma INHA sabe que você odeia futebol. O que ela faz? Arma dela ir ver um jogo de futebol com o seu namorado. Ainda que não sejam só eles dois, é uma situação muito desconfortável que vai te incomodar profundamente. Você pode ir, mesmo odiando cada segundo do programa, só para marcar presença, pode se opor à ida dele ficando como chata mocréia e insegura ou pode ainda adotar uma postura blasé e ficar em casa espetando um bonequeinho vudu da INHA. Tudo uma merda. Por isso é que se pede encarecidamente aos Cuecas que recusem sair sem a sua namorada com aquela INHA que ela detesta, como um ato de carinho para com a sua namorada.

Mas Sally... vou a um lugar público, nem que eu quisesse poderia ficar com ela!
Meu Amigo Cueca, se a sua namorada tivesse alguma dúvida de que você poderia ficar com ela, nem estaria mais com você. O que nos incomoda basicamente não é o medo de você ficar com ela. É alguém mexendo no que é nosso. Mesmo tendo total garantia de que você não vai ficar com ela, incomoda, por si só, o fato de saber (ou achar) que tem uma mulher dando em cima do nosso namorado. Não é falta de confiança, é a falta de respeito dela de dar em cima de você o que incomoda.

Mas Sally... como assim "mexer no que é meu"? Eu não sou propriedade de ninguém!
Então tá, Hare Krishna. Vai morar em uma comunidade hippie e faz sexo com todo mundo. Evidente que o homem não é propriedade da mulher, mas em um relacionamento monogâmico estável temos o direito de cobrar exclusividade em algumas condutas: você só beija a namorada, você só faz sexo com a namorada... ao menos oficialmente. Então, quando você socializa essas condutas que deveriam ser exclusivas da sua namorada (e ela paga um ônus caro por essa exclusividade), dá a sensação de que tem alguém mexendo no que é dela. É quase uma quebra de contrato. E se você for casado, é de fato uma quebra de contrato. Sim, casamento é um contrato. Românticos, suicidem-se.

Mas Sally... Eu não vou poder mais sair sozinho com amigos agora?
Boa tentativa de se fazer de vítima, mas não colou. Pode sair sozinho com amigos sim, só com essas INHAs é que a coisa desanda. Não se trata de "não poder", ninguém manda em ninguém, só estamos cientificando você, Amigo Cueca, do sofrimento que você vai nos proporcionar se sair sozinho com ela. E esperamos que você nunca nos provoque um sofrimento do qual foi previamente avisado. Se você tivesse cortado a INHA em suas inconveniências desde o princípio, não haveria essa animosidade. Logo, você está colhendo o que você plantou. Não faça parecer um sacrifício. Sua falta de postura está dando frutos.

Mas Sally... confiança é a base de uma relação!
Concordo! E a confiança da sua namorada em você está abalada, justamente pela sua inércia contemplativa de deixar a INHA correr solta e fazer todo tipo de desfavor. Se você tivesse colocado limites, a confiança estaria 100% e você poderia sair com ela. E veja bem, quando digo que a confiança não está 100%, não quero dizer que sua namorada ache que você vai ficar com a INHA. Na verdade, quero dizer que sua namorada não tem 100% de certeza de que você vai dar um corte em condutas inconvenientes dessa criatura.

Mas Sally... se não confia, porque não termina?
Não é que ela não confie em você. Ela não confia na INHA. Também não confia na sua capacidade de detectar e/ou cortar atitudes inconvenientes. Isso não basta para terminar. Uma pessoa pode não cortar por diversos fatores: porque não percebe, por exemplo, que por sinal, é a desculpa favorita de vocês. Agora, se sua namorada acha que você pode efetivamente vir a ficar com a INHA um dia, concordo com você, Amigo Cueca. Tem mais é que te dar um fora mesmo.


DESFAVOR INHA 5 - PROVOCAR A NAMORADA ABERTAMENTE

CENA: Vocês estão em algum evento, onde a INHA, para variar, bebeu muito e está emendando um desfavor no outro. Ela já mandou beijinho pro seu namorado de longe, já dançou estilo pole dance perto dele e quando ela vai sentar no colo dele pela milésima vez, você fecha a cara e bufa. Ela olha e grita:

"O QUE QUE ÉÉÉÉÉ??? HEEEIIIN? FULANO, ESSA SUA NAMORADA É MUITO CHATA, VIUUU? VIVE DE CARA AMARRADA! SOU MAIS EU HEEEEINNN? HAHAHAHA" - e dá um beijo no pescoço dele. Ele te olha apavorado, sem saber o que fazer, com olhar de "pelamordedeusnãodêumbarraco"

Minha opinião: Não sei se chega a ser um desfavor, porque depois dessa você tem permissão social para estancar a porrada em cima dessa filha da puta. Mas de qualquer forma, nunca é bom sair no tapa por aí. Sobretudo quando a INHA é maior que você. Infelizmente, isso acontece. Algumas INHAS partem para a provocação direta em determinado ponto do namoro. É lucro para elas, afinal, vai te deixar com fama de barraqueira. Algumas o fazem longe dos olhos do namorado e depois negam. Outras o fazem na frente de meio mundo em tom de desafio. Quando isso ocorre, você pode ter certeza que o conflito já é antigo. O ideal é que você tome o lado da sua namorada, mesmo que ela não tenha razão. Não tome o lado da INHA publicamente, mesmo que no fundo ache que ela está certa. Homem que toma as dores da INHA publicamente acaba mal. Além de perder sua namorada, você também pode perder seu bilau.

Mas Sally... Custa ser superior e ignorar?
Custa. Custa muito. Custa pra caralho. Custa você ser superior quando passam a mão na nossa bunda? Custa você ser superior quando toma uma falta desleal no futebol? Custa você ser superior quando xingam sua mãe? Pois é, cada um sabe onde aperta o calo. Se ela não ignorou, era porque para ela seria impossível fazê-lo.

Mas Sally... porrada de mulher é tão feio...
Há controvérsias. Eu acho qualquer porrada feia, um horror, um desfavor. Mas, infelizmente o ser humano é uma merda e algumas vezes só a porrada resolve. Culpa sua, Amigo Cueca, que deixou o barco correr solto até chegar a esse ponto. Tivesse colocado limites na INHA ou tivesse terminado seu namoro. Peidou? Agora cheira!

Mas Sally...Não tinha necessidade disso!
Falou a voz da razão. Quem você pensa que é para dizer o que nós temos necessidade de fazer ou não? Tudo bem, o certo é dar um pé na bunda de homem que não coloca limites na INHA, mas quem disse que a gente sempre consegue fazer o que é certo? Sempre fica aquela esperança babaca que vocês percebam que ela não presta.

Mas Sally... Ela não fez isso para provocar!
Não, né? Foi sem querer... Ok. Mesmo que a pessoa tenha feito uma coisa sem querer, a outra tem todo o direito de se ofender. Se não fez de propósito, NO MÍNIMO não parou para pensar nas consequências dos atos, não parou para pensar em quem ela poderia magoar. E vendo a mágoa, não se desculpou. Assumiu o risco.

Mas Sally... uma das duas está apanhando feio, devo me meter?
Depende: se for a INHA, não.

....

Meu Amigo Cueca, SE poupe de tudo isso e NOS poupe também. Coloque limites na INHA desde o começo. Seja honesto, você não ia gostar se houvesse um ÃO no seu caminho: Jorjão, Paulão, Serjão...

Me pergunto se no fundo, no fundo, eles não deixam a INHA deitar e rolar por pura vaidade. Será que eles não gostam de ver a nossa reação? Será que eles não gostam de ter uma mulher sempre dando em cima deles?

Dedico esta potagem para Juliana, que sugeriu o tema via e-mail. Juliana, espero que o cu dessa INHA que te inferniza pegue fogo e apaguem com um tamanco.

dicas certeiras da Sally Surtada em desfavor

24.11.08

Gado

Não foi fácil chegar ao Brasil. Não foi fácil sequer sair do aeroporto. As instalações da Portela estão infestadas de pessoas de ambos os sexos que nos olham com desconfiança como se tivéssemos escrito na cara, a denunciar-nos, um historial de declarados ou potenciais terroristas. A estas pessoas chamam-lhes “seguranças”, o que é bastante contraditório porque, por experiência própria e tanto quanto pude perceber ao redor, os pobres viajantes não sentem nem sombra de segurança na sua presença. O primeiro problema tivemo-lo na inspecção da bagagem de mão. Ainda no rescaldo da doença de que padeci e de que felizmente me venho restabelecendo, devo tomar com regularidade, de duas em duas semanas, um medicamento que, em caso de passagem por um aeroporto, necessita ir acompanhado de declaração médica. Apresentámos essa declaração, carimbada e assinada como mandam os regulamentos, pensando que em menos de um minuto teríamos licença de seguir. Não sucedeu assim. O papel foi laboriosamente soletrado pela “segurança” (era uma mulher), que não achou melhor que chamar um superior, o qual leu a declaração de sobrolho carregado, talvez à espera de uma revelação que lhe fosse sugerida pelas entrelinhas. Começou então um jogo de empurra. A “segurança”, que já tinha, por duas ou três vezes, pronunciado esta frase inquietante: “Temos de verificar”, recebeu logo o apoio do seu chefe que as repetiu, não duas ou três vezes, mas cinco ou seis. O que havia para verificar estava ali diante dos olhos, um papel e um medicamento, não havia mais que ver. A discussão foi acesa e só terminou quando eu, impaciente, irritado, disse: “Pois se tem que verificar, verifique, e acabemos com isto”. O chefe abanou a cabeça e respondeu: “Já verifiquei, mas este frasco tem de ficar”. O frasco, se podemos dar tal nome a uma garrafinha de plástico com iogurte, foi juntar-se a outros perigosos explosivos antes apreendidos. Quando nos retirávamos não pude deixar de pensar que a segurança do aeroporto, por este andar, ainda acabará por ser entregue à benemérita corporação dos porteiros de discoteca…

O pior, porém, ainda estava para vir. Durante mais de meia hora, não sei quantas dezenas de passageiros estivemos apinhados, apertados como sardinhas em barrica, dentro do autocarro que deveria levar-nos ao avião. Mais de meia hora sem quase nos podermos mexer, com as portas abertas para que o ar frio da manhã pudesse circular à vontade. Sem uma explicação, sem uma palavra de desculpa. Fomos tratados como gado. Se o avião tivesse caído, bem se poderia dizer que havíamos sido levados ao matadouro.


O caderno de José Saramago

18.11.08

Afinal de contas, o Brasil é ou não é um país racista?

Não é preciso muitos dados e gráficos.
Se você chega numa cadeia ou no fórum, e todos os juízes e advogados são brancos, e todos os réus são negros; se você chega num hospital, e todos os médicos são brancos, mas todos os faxineiros são negros; se você chega numa empresa e toda a diretoria é branca, mas a moça do café e o rapaz da xerox e o ascensorista são negros; então esse é um país racista.

liberal libertário libertino

11.11.08

Ali pelas 3 da manhã, olhamos pela janela e vimos, à distância, alguma coisa (grande) pegando fogo, no Setor Universitário ou perto dele. Chamamos os bombeiros, que nos disseram que já haviam sido comunicados, e realmente, dali a poucos minutos os caminhões vermelhos passaram pela marginal, e depois de mais alguns instantes o fogo sumiu. Ficamos preocupados - "será que foi grave? será que houve vítimas?", esse tipo de coisa - mas apesar de podermos saber, com uma dúzia de tecladas ou menos, tudo sobre o carro-bomba que explodiu na Espanha, as últimas notícias da campanha presidencial norte-americana ou (se estivéssemos minimamente interessados) sobre a anoréxica parasita de jogador de futebol que vai correr uma maratona (com que músculos, nem Zeus sabe), a gravidez malsucedida da cantora chata ou o divórcio de outra, mais coroa e mais chata ainda, como não vimos o telejornal local hoje e o impresso já devia estar fechado àquela hora, não conseguimos saber NADA sobre um incêndio acontecido logo ali, na nossa cidade e ao alcance da nossa vista... Weird times.

cyn city

Após assistir ao noticiário

— Povo burro!
— É.
— Têm que morrer.
— Tinha que ter vestibular para viver.
— Hahahah!
— É. Tipo, de dez em dez anos, você faz uma prova. Se não passar, morre.
— Dez anos é muito tempo.
— Tá, cinco. De acordo com a idade.
— Um prova teórica, tipo vestibular, e outra prática, tipo uma gincana. Em uma ilha. Quem ganhar volta de helicóptero. Quem perder, volta a nado.
— Hahaha!
— "Se eu ficar eu morro, se eu for eu morro. Vou tentar!", isso se pensar antes de sair nadando.
— Perigoso. Os que perdem podem desenvolver uma civilização na ilha, procriar e tal...
— Nem. Duvido fazerem irrigação, plantar, etc...
— Acho que conseguem, sim.
— Tu conseguiria?
— Tá dizendo que eu ficaria na ilha?
— Você comeria o quê?
— Coco.
— Você morreria. E irrigação?
— Tô numa ilha, pô. Tem água pra caralho na volta.
— Salgada.
— Hahahaha!
— Sim.
— Sim o quê?
— Você ficaria na ilha.
— Hahaha!
— ...
— Foi assim que criaram Manhattan?

conversas furtadas

10.11.08

Na lavanderia

Como ter certeza de que a sua roupa era realmente muito curta - ato único.

Você entrega um vestido no balcão da lavanderia e o cara te cobra a lavagem de uma blusa.

Não comenta?

Reforma Ortográfica

Não sei não.

Talvez a nova "tranquilidade" seja mais "tranquila" do que a velha "tranqüilidade". Mas tenho a leve impressão de que "voo" não nos trará a mesma sensação de "vôo", assim, sem o pássaro por cima da palavra.

E tem outras coisas que ainda estou em dúvida se vieram mesmo pra facilitar...

aymberê

7.11.08

Cerveja, por favor!

Não sei quem inventou que velho tem que andar com velho? Essas excursões da “melhor idade” me apavoram e me deprimem. Detesto ter que esperar as “amigas” que a cada dois passos, param para “tomar um arzinho”. Acho “o” fim, aquelas que não podem ver uma planta bonita e já querem pegar um muda. Se não cuidei de criança, lá vou cuidar de uma avenca?! Quando me aparecem com suco ralo e sem açúcar na hora do almoço, peço para morrer. Eu tomo é cerveja! E nem adianta me dizer qual é “o” segredo dessa torta de camarão com palmito. De-tes-to essa mania de cozinhar.

Sete Linhas

28.10.08

B.S.B.

Quando ela descobriu foi uma decepção. Um encontro fortuito, profissional, e um email. Matou um universo e abriu um mar de curiosidade. Quem seria ele, afinal?

Aroldo Jorge Guilherme era platinado, com jeito de galã francês de meia idade. Usava cachecóis e sobretudo, e estava no auge de sua diversificada carreira. Coadjuvava com certo destaque em uma novela popular, dirigia uma peça mediana, e estava escrevendo o roteiro de seu longa. Ainda colhia o sucesso do seu último romance, Onde os poetas nunca morrem, lançado na última primavera. Era reconhecido na rua, tinha fãs, principalmente as mais novas. Mas o livro lhe dera um verniz que agora chamava a atenção das mulheres mais velhas, e até elogios dos críticos.

Por trás das grossas armações dos óculos quadrados moderninhos, ela levantou seu olhar inteligente. A carreira na editora, após passagens por órgãos públicos e multinacionais, estava engrenando. Pensava que estava quase realizada profissionalmente quando a porta de sua sala abriu. Era ele. Aroldo Jorge Guilherme.

Sua paixão secreta. Já o achava bonito desde a última novela das seis, quando ele interpretou um jornalista descolado, que pegava onda e tocava saxofone. Foi duas vezes ver a peça que ele dirigia. Sonhos platônicos. Mas, depois do primeiro livro, Corações do infinito, os sentimentos afloraram. Além de tudo era culto, sensível, brilhante, ela pensou. Almas gêmeas. E agora ele ali, entrando na sua sala.

Trazia um rascunho de seu terceiro livro, com título provisório de Visões d'alvorada. Vestia uma velha bermuda cinza, tênis surrado sem meia, estava despenteado e com os olhos semi-cerrados. Cantou a recepcionista, se jogou na cadeira, sentou de pernas bem abertas, e perguntou mais uma vez seu nome. Ela não acreditava. Ele estava ali.

A manhã seguinte foi silenciosa, lembrando o caloroso aperto de mão que ele lhe dera na despedida, o olhar de sedutor barato com que ele se despediu. Havia algo estranho, mas ela não sabia bem o que era. O artista portava-se como um adolescente tardio. Não parecia ser a mesma pessoa delicada que escrevia livros lindos, cheios de poesia. Tocou o telefone. Era ele. Convidando-a para sair. Taquicardia. Até as oito então.

Foram para um bar movimentado, ele gostava de ser reconhecido, adorava autografar seu nome em qualquer oportunidade que aparecia. Pediu bebidas doces com nomes exóticos, comeu muito e não deixou de olhar nenhuma das mulheres bonitas que passavam ao lado. No caminho para casa, dois beijos e uma tentativa de subir. Ela disse que o apartamento estava uma bagunça, ele quis entrar na bagunça dela, mas amanhã ela teria uma reunião cedíssimo, teria que ficar para uma próxima. Mentira. Não havia reunião. Só uma sensação estranha.

Quatro dias depois ela terminou de ler o terceiro livro. Maravilhoso. Surpreendente. Tocante. Ela enviou-lhe um email confirmando a publicação para o fim do ano. Convidou-o para um outro jantar. Ele agradeceu a publicação e o convite, mas declinou o último. Disse estar envolvido no momento, mas que "sempre haverão oportunidades". Ali seu mundo ruiu e começou novamente. Esse foi o sinal. Ali o mistério. Ele não era o autor dos livros. O verbo haver, no sentido de existir, não flexiona no plural. O autor dos livros jamais erraria isso.

A dúvida se agigantou com os dias, e a certeza da incerteza a enlouquecia. Releu os livros. Investigou a vida de Aroldo. Duvidou do embuste. Até que veio a luz. O revisor. Só podia ser ele. Voou para os livros e procurou ofegante nos créditos. Só constava o nome do revisor da editora. Mas os livros já chegavam corrigidos, sem nenhum erro. Pensou duas coisas. Uma: o revisor da editora estava ganhando sem trabalhar. Duas: teria que descobrir quem escrevia os livros para Aroldo Jorge Guilherme. Mas como? Não poderia ligar para ele e perguntar diretamente. Perderia o cliente.

O email. Aroldo lhe encaminhou o primeiro livro por email. O autor deveria ter mandado a mensagem original. A mão tremia no mouse, a testa suava, e ela não achava o maldito email. Teria apagado? Não. Aqui estava. Desceu a tela angustiada. Achou somente as siglas B.S.B., e um texto escrito em português castiço, denotativo, sem erros. Sem sombra de dúvidas ele era o autor. E ela estava apaixonada por um ghost writer.

vizionarios

o maior erro de todos...

é que sempre acho que é comigo.

eita umbigo!

Mal Secreto

26.10.08

Primeiro parágrafo de um romance apocalíptico (que jamais escreverei)

Não sei exatamente quando tudo começou — isso tudo aconteceu há muito tempo —, mas talvez o primeiro indício de que as coisas iam mesmo degringolar tenha sido quando o Kri virou Crunch. A princípio, ninguém se importou muito com isso, todos andavam ocupados com outras coisas que pensavam ser mais importantes, mas quando — anos depois — o Lollo virou Milky Bar, foi aí que todos viram que a situação não tinha mais volta, e que nada mais seria como antes.


Branco Leone

Qual o melhor carinho para um pisciniano?

A singela "Anjinha do Bem" faz uma pergunta que cuja a resposta, apesar de ser curta, é aplicável a todos os seres do sexo masculino de outros signos do zodiaco.

Pegue no pau dele.

Ele ficará bem contente.



Prazer em servir.

Instantâneos

Rodrigo, sábado, escolhendo comida no restaurante:
- Rô, você quer de qual sushi? Desse com alga em volta?
- Não! Eu quero do sem roupa! (leia-se: quero do que só tem sementes de gergelim e papoula por fora).

Rodrigo, às 7h30 da manhã de domingo, chegando na cozinha de triciclo:
- Olha, mãe! Eu aprendi a andar! Eu estou grande!
- Puxa, filho, é mesmo. Você aprendeu a andar pedalando...
Nisso, Edu acorda e vem comentando:
- Olha, Rodrigo. Você aprendeu a pedalar. Parabéns! Você aprendeu na escola?
- Não, pai. Eu aprendi aqui na cozinha...

E há uns dez dias, eu tinha ido comprar um livro na Livraria Cultura. Então, fui até a seção de Sociologia e pedi para me ajudarem a localizar. Estávamos lá o Edu, eu e o Rô e mais dois atendentes. O moço procurando e me perguntando:
- É Pesquisa...
E eu: - Pesquisa qualitativa.
Então, o Rodrigo escutou algo que pareceu interessante:
- Do Tatit, mamãe? A gente tá procurando livro do Tatit?
O moço ficou lá, dando risada...

Noturnos (Im)perfeitos

22.10.08

Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

Neto, do Updators

13.9.08

Comprei um GPS que eu chamei de Sônia. Sônia é canguinha e passional. Tracei o caminho para Telêmaco Borba e segui. Lá pelas tantas, quando entrei em uma estrada de chão, resolvi perguntar para um caminhoneiro se aquele era o caminho correto. Ele riu pra caramba e disse que até poderia, mas levaria umas doze horas. Sônia só queria andar por caminhos sem pedágio.

Dei meia volta e Sônia berrava:
-Fora da rota. Recalcular. Faça o retorno IMEDIATAMENTE.
E eu berrei de volta:
-Eu vou por onde eu quero, sua imbecil.
Palavra que Sônia ficou quieta por uns 15 minutos e gentilmente disse depois de isso tudo:
-Dirija 11 quilômetros e faça uma curva leve a direita.
Foi uma viagem mais tranqüila.

Na volta para o aeroporto, Sônia me mandou fazer um retorno. E eu dona da razão, disse:
-Não vou fazer não, sua imbecil.
Sônia respondeu:
-Fora de rota. Próximo retorno a 89 quilômetos. (!!!)
Sônia tinha razão e eu perdi o avião.

A anã Sônia que vive naquela caixinha deve ter aberto um espumante e se sentido de alma lavada.

gorduchas gostosas e um gordo ridículo

Atualidades

Acabo de ler: Céu grávida de Halley. Pensei que o cometa ia passar de novo. Mas é novela. Oh god.

Blog da Tina Lopes

9.9.08

I had a dream

Venho aqui, com muita alegria, aceitar a indicação do partido democrata. Venho trazer uma mensagem de esperança aos cidadãos desse grande país. Eu tive um sonho. Sonhei que nesse país as pessoas eram mais julgadas pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter. Sonhei com um país de oportunidades iguais para brancos, negros, amarelos e cinzentos. Nesse sonho as pessoas pareciam ter cabeça de algodão e um chapéu engraçado na cabeça e as nuvens eram feitas de calda de chocolate com amendoim e meio que pingavam no meio da rua deixando tudo melequento. Depois eu ia para um hotel, que não era bem um hotel, era uma espécie de navio. No porão do navio parece que tinha lá umas vacas de escafandro que eram super inteligentes mas ninguém podia entrar lá no porão por causa da radioatividade delas. Daí eu entrava em um salão enorme cheio de gente com bandeirinhas que era a Convenção Democrata e eu pensava: "Damn! É hoje o dia da convenção, eu esqueci de fazer o discurso". De repente eu vi que estava sem calças em frente àquela multidão enorme. Eu tentava me esconder atrás do palanque mas a câmera da Fox News ficava mostrando a minha bunda no telão. Eu olhei para a platéia e vi a Hillary vestida de branca-de-neve, só que com asas de morcego. Nisso eu olhei a minha mão e vi que ela estava toda preta. Daí eu pensei. "Holy shit! I am a f*cking nigger! F*ck! F*ck! Oh F*ck!". Aí chegava a Sarah Palin e começava a atirar em todo mundo na convenção. Era uma carnificina total. Até que a Hillary Clinton dava uma voadora no peito da Palin e comia a cabeça dela com sua vagina dentada.

América, eu tive esse sonho. Sei lá. O que será que significa?

Rata (unpublished)

3.9.08

anotações do domingo

estou aqui refém do meu curso de noivos. Acordei cedo num domingo, mal tomei café e agora estou aqui.

Primeira atividade do dia: ser coagida a cantar e dançar em público de um jeito bem constrangedor. Eu resisto bravamente. O Fazinho se entrega nas coreografias toscas. Ele quer ser aceito pelo grupo. Eu não.

Segunda atividade do dia: palestra sobre DST e afins. Voltei as aulas de ciências da oitava série, quando a professora tentava nos aterrorizar sobre os malefícios do sexo. Muitos estão no celibato até hoje. Minha vontade é pedir para ir ao banheiro. Da minha casa. E ficar por lá. (anotação Fabio: Por isso, querido diário, eu reconheço que sou chata por não gostar de fazer amigos, mas tudo bem... afinal o Fazinho vai me salvar dessa infeliz existência e me fazer completa... Ai, como eu amo o Fazinho!!!) A palestra do médico japinha está começando a afetar os cérebros mais suscetíveis. Olha o início de pane do Fabio...
De acordo com as infos do médico japa, eu sou colérica: de temperamento difícil, com necessidade de ser a líder do relacionamento, com tendência a ser cruel em discussões. Já o Fa é sanguíneo: comunicador, amigo, bonachão, organizado, (não) relaxado, que persevera nas coisas. Ele quer ter todas as qualidades, e nenhum defeito. Ah, ele assumiu que quer fazer n.2.
...

Eu continuo refém do curso de noivos. Com um agravante: o Fa soltando pum do meu lado. A noiva gordinha do lado já está olhando feio. Não sei quanto tempo resistirei sem ar. Pra aumentar o meu suplício, estão ligando os instrumentos de novo. Socorro: mais cantoria nãããããão!!
Um adendo: o médico é homofóbico e tem sérios problemas com roscas queimadas. Uma dúvida existencial: por que eles falam em "contrair" matrimônio? Achei que a gente "contraía" doenças! O mundo me assusta.
(anotação do Fazinho - coisas para a Karina largar mão: de ser esquentadinha) Minha anotação para o Fazinho largar mão: de ser bonzinho.
E agora o médico tá falando em fornos e orifícios. Socorro! (anotação Fabio - aproveito as gargalhadas dos noivos pra soltar pum) Acima, a confissão. Eu disse que ele tava peidando. Ele fica bravo que eu escrevo peidar. Prefere soltar pum. Whatever. Muda o nome, o futum continua. Reparo que o médico parece o Yoda. Fabio pede que Deus me perdoe pela comparação. Eu olho melhor, e acho que ele parece uma tartaruga.

Terceira atividade do dia: café comunitário. Tomamos suco do Chaves. Os gostos e as cores não correspondem. Comemos tanto, que comemos o lanche do casal do lado. Vergonhoso.

Quarta atividade do dia: Mais danças constrangedoras. Eu juro que vou sair correndo. Logo começa outra palestra. O cara fala bem, tem várias piadas prontas. Ele pede pra gente fechar os olhos e rezar. Eu durmo. Acordo com todo mundo com os olhos marejados. espero não ter roncado.

Quinta atividade do dia: Mais musiquinha, mais dancinhas. O menino que canta me olha com cara de mau. Cara feia pra mim é fome. Já passou do meio dia. Quero almoçar. Palestra com diácono. Ele escreve IGEJA na lousa. E não corrije. Eu estou com tanta fome que nem presto atenção em nada.

Sexta atividade do dia: Separam os noivos das noivas. Cada um deles volta depois com uma rosinha nas mãos. O mico agora é fazer uma declaração de amor pública pra noiva. A noiva chora e todo mundo bate palma. São 48 casais. Vai levar tempo. O Fazinho é o quinto ou sexto noivo a entrar na sala. Eu já estou tão xarope que já estou chorando. Ninguém disse que eu era de pedra. Nem deixei ele falar nada. Não precisa.

Missão cumprida: curso de noivos feito.

a vida é cheia de som e fúria

5.8.08

IMBECIL NÃO TEM TÉDIO

Aconteceu realmente na semana passada na rádio TUPI FM 104,1 em São Paulo:

Locutor: - Quem fala?

Ouvinte: - É o Vicente.

Locutor: - De onde, Vicente?

Ouvinte: - Lapa!

Locutor: - Olha aí, Vicente da Lapa! Valendo o kit com camiseta e CD Do Edson e Hudson. Presta atenção! Qual é o país que tem duas sílabas e se pode comer uma delas? Prestou bem atenção? É um país com 2 sílabas e 1 delas é muito boa para se comer. Dez segundos para responder.

Ouvinte: - CU BA!

Locutor: (mudo por alguns segundos e algumas risadas no fundo)

Tá certo, senhor Vicente! Vai levar o prêmio pela criatividade, mas aqui na minha ficha estava escrito JA PÃO...

Japão, evão, caminhão...

27.7.08

Deborah

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso. Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.

Nomes só

18.7.08

Carta de tchau.

Até um dia. Desejo a você um milhão de felicidades, vida inesquecível, dias avassaladores.

Que apareça um grande amor, desses de frio na barriga, calor no corpo, arrepio na espinha. Que tenha muitos beijos, muitos carinhos, muitas noites de ardor incomum. Tomara que ele lhe escreva cartas e mais cartas, que encha você de flores e recheie sua vida de poesia. Que você suspire quando pensa nele, que você o chame de meu, que você tenha certeza da eternidade da relação.

Que você conheça a Europa. Veja de perto um Monet, um Degas, um Van Gogh. Que você divida taças de vinho nacional na Itália, tome champagne nacional na França, faça brindes infinitos. Quando voltar, que você exiba as fotos para as pessoas queridas, envie por e-mail para quem mora longe, convide alguém para a próxima viagem.

Peço que você não fique doente. Se acontecer, que seja algo besta, uma gripe, uma dor de barriga. E que lhe levem uma sopa quentinha na cama, bem juntinho com colo e cafuné de mãe, com olhar de preocupação de pai. Se o assunto é família, que você brigue de vez em quando com o irmão, só para depois lembrar como gosta dele, para se arrepender, pedir desculpas, ganhar um abraço.

Que você vá à praia de vez em quando. Que divida a cerveja com amigos, tire um cochilo na rede, acorde com um beijo. Que você vare a noite numa dessas vezes, veja o sol nascer abraçada e depois compre pão morno na padaria.

Que você leia muitas vezes seu livro preferido. E que descubra algo novo toda vez, que se emocione sempre. Que nesses momentos você escute uma sonata do Chopin, ou o silêncio total, ou o barulho de passarinhos. Se de repente as páginas lhe tocarem, que você escreva as suas próprias, a cameta mesmo, e não mostre para ninguém. Ou mostre para todo mundo que merece.

Que você fique mais linda a cada dia e que tenha muitos admiradores para lhe dizer. Que pare uma festa, deixe um marmanjo de queixo caído, faça carros freiarem para você atravessar.

Oxalá tudo isso e muito mais passe pelos seus anos. E que num minuto, no meio de tanta coisa, você se lembre de mim. Porque não vou me esquecer de você.

Eu comigo mesmo

30.6.08

Eu não amei você

Percebo agora que fui injusta, mas não posso sentir culpa por não ter amado você, apenas não aconteceu, e por isso nunca retribuí o que sentiu por mim.

Não amei você desde o primeiro encontro e você me amou desde então. E fez inúmeras coisas por mim, coisas que somente as pessoas que amam fazem.

Eu não amei você quando assistia a filmes que não gostava só pra me fazer companhia, arrumava coisas no apartamento velho pra eu poder morar melhor ou quando me ouvia cantar desafinada e rouca e achava lindo.

Não amei você em nenhuma das vezes que telefonei de madrugada chorando e você vinha de outra cidade só pra ficar comigo, pra eu não me sentir sozinha, pra me fazer parar de chorar.

Não amei você em nenhuma das vezes que me levou para o hospital quando eu tinha crises de bronquite ou quando me levou pra jantar fora no restaurante caro e bacana para tentar me impressionar.

Não amei você quando me ajudou a carregar a mudança e nem quando me acordava no domingo de manhã com um sorriso enorme e dizia que estava feliz.

Não consegui amar você em nenhuma das vezes que fizemos amor, e foram tantas e boas, mas para mim, sempre sem amor.

Por que não consegui amar você?

Você tem inúmeras qualidades, mas a verdade é que eu nunca prestei atenção nelas, não lhe dei a devida atenção, o devido afeto.

Penso, como você pôde me amar? Por que ainda me ama?

Eu não mereço esse amor, nunca correspondi a ele, nunca nem agradeci tudo o que fez por mim.

Mas tenho de confessar que quando a solidão aperta e a saudade vem eu sinto uma enorme vontade de ter seu amor por perto de novo, mesmo sabendo que não posso oferecer nada a você.

é uma pena eu não ser burra... e ser sincera

24.6.08

Informática Pornográfica

— Filha, vai demorar muito pra tu chegar em casa?
— Mais um pouco... É que tô colocando o PDF no FTP.
— Tá, pode demorar, mas me poupa dos detalhes!

conversas furtadas por Ingrid Müller

5.6.08

Aula de Lógica

Dante ficou noivo aos doze anos.

Ninguém descreveu o inferno tão bem quanto Dante

FDR

21.5.08

Fausto Silva apresenta Goethe

FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no "Domingão"!

(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)

FS - Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude...

JWG, timidamente - O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht...

FS (interrompendo) - Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!

JWG - Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?

FS - Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro...

(O poeta faz "nein-nein" com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)

JWG - "Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn..."

FS - Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!


Pura Goiaba

20.5.08

I'm gonna sit right down and write myself a letter And make believe it came from you

Kslw Blsggb,

Aklsos sceaw lwowow. Qoeiso aosow soaos? Wiqowi woaoxo aso? W qwoxds aosis foisioa sooaiw pwpocis asois. Zasoi sqow!

Qoqw qp qpowie eqwpi qpowi. Qwoieow ewoia qowie Soiqw Hrwo aoias. Aqoiw oriwoc aoosi ao. Aoaiwer tpot tpoasi, powir pokcos atois soitis. Elaks r ro poasi!

T aoop, tqu qoiqwer cklak daoi to asoiasd? Reqosaoi oaiso taoi q apoi tokc clk ackas. Eoia poais tlais tlkasl d laks t tkajs l q qoie sat. Ip aosida dsaoi q apoq pqowier, tkaas taks qeo toias setr ta. Qopz, toaisp dpao saod.

Eopa aspo dao qpoax. Ep poasi paosi tpoa q pa osi esr poiaso.Qopoizxz poias qpo q paois tp xiaiuts t poasi oiioas poic.

Gx poias iaofysdu.

With love,

Xlsyydw

Passarinho Preto

sonho #1.851-3

Um jardim europeu, provavelmente em Viena, mas definitivamente na Holanda. Não que houvessem tulipas, é que sinto uma presença misteriosa do Spinoza no ar. Tudo meio verde-musgo bem escuro, o terreno bastante irregullar. Não era um cemitério, mas alguém andava enterrado por ali. Estou com um livro do Borges chamado El Libro Ilegible, e sigo tentando lê-lo sem sucesso. Entendo que tenho passado todos os dias circulando por esse lugar, com esse mesmo livro, sempre perto do crepúsculo. Vou passando batido por uma fonte onde se levanta uma estátua de Afrodite tão velha quanto a pedra. Neste local encontro Antonin Artaud falando sobre deuses olímpicos e primordiais para um casal de turistas a caráter. Artaud trabalha como guia nesse parque, mas eu nunca paro para escutá-lo. Percebendo que sempre deixo ele pro dia seguinte, já acostumado a vê-lo circulando por ali como eu, resolvo finalmente fechar o Livro Ilegível e tomar parte da visita guiada pelo Momo. Me aproximo e suas palavras são tão doces que nos chegam incompreensíveis. Artaud está falando com as mãos.

Contém Gluten

12.5.08

As Seen On TV

Você só pode se considerar um verdadeiro vencedor na luta contra o peso quando inventar o seu próprio aparelho de ginástica. Ab-Force-Isolator-Max é o nome do meu. Trata-se de uma camisa de força para animais. Não faz perder peso, mas é divertido ver os bichinhos se debatendo.

Loser

Então é assim:

Vc já tentou levar as camisas do seu marido na lavanderia com uma criança de 3 anos e uma outra de 3 semanas?
Uau!Demora mais tirar as crias do carro do que deixar as camisas no balcão.

Vc já usou sutian normal, lindo, que deixas seus peitos lindos naquela blusa, só que na vida real vc está amamentando e pra tirar as peitolas pra fora é um malabarismo só?
Buuuuurra!!

Vc já tentou sair faltando uma hora antes do seu compromisso com a próle toda?
Impossível!

Quando um dorme o outro pula na cama. Quando o outro dorme é hora de dar de mamar.
Enquanto um mama virando o zóio o outro quer que vc escove os dentes, ou amarre o tênis, ou que simplesmente limpe a bunda.

Palavra chave: Paciência e muita calma nessa hora.

A casa de manhã e de dar vergonha. Principalmente depois do café.
Detesto aquele mundo de sementinhas de mamão papaia na pia, copo sujo pra tudo quanto é lado, manteiga, cream cheese, maionese, queijo, presunto tudo pela mesa derretendo aguardando a vez de ir cada um pro canto certo.

Minha mãe foi embora. Vinte dias. Que merda é essa?????
Quem é que vem lá do Brasil pra "ajudar" a recém parida e fica 20 dias e vai embora????
Prefiro não comentar.

Pelo retrovisor eu olho os dois sentadinhos nas cadeirinhas e não acredito. Que coisa mais linda desse mundo. Meus filhos. Plural.
Eu tô me achando, sabia?
Tô orgulhosa, tô feliz, tô satisfeita, aliás, que filhos lindos esses meus!

Plural? Uh, baby!

a máfia...

a máfia japonesa chamam de yakusa. a máfia napolitana chamam de camorra. a máfia russa chamam de máfia vermelha. a máfia brasileira chamam de governo.

Pérolas da Rainha

7.5.08

Itaipu?

Eu quero uma escrava paraguaia. Uma não, duas. Duas velhas, porque mocinhas e el embrujo de sus canciones, perto dos meus homens, jamais. A primeira velha eu porei na lida doméstica; a segunda, enfeitando a sala (quem sabe segurando uns charutos). A primeira chamarei de Carmela, porque tenho muita vontade de irritar meus vizinhos gritando “Ô Carméééééla!” o dia inteiro. A segunda chamarei de Ypacaraí, porque a quero plácida e silenciosa como uma lagoa.

Jodinélson Júnior adverte que não devo deixar dinheiro nas mãos delas. Nunca, nem um centavo. Diz o capetinha que a visão da grana desperta os anseios de liberdade.


Paraguay, Paris, Pinheiros...

2.3.08

Cansei.

catarro verde

7.2.08

Conclamo, contudo, a ciência deste mundo a encontrar uma vacina contra a "depressão pós férias"!

e, afinal, é ou não é por aqui que vai prá lá?

O que eu [não] tenho em comum com Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Carlos Drummond de Andrade

É que, assim como eles, eu também sou vítima de textos apócrifos creditados a mim. Sim, sim, vejam a minha importância.

Um amigo outro dia me perguntou se escrevi um poema chamado "Jesus pintou com a mão". Uéu, não sou muito dado a poemas desde a adolescência, quando, aliás, a temática religiosa não era muito recorrente.

Fiquei todo pimpão (como esse mesmo amigo costuma dizer). Estão creditando a mim textos alheios pra eles terem mais visibilidade, serem mais lidos, serem emoldurados com anjinhos e florzinhas e distribuídos por aí em apresentações de powerpoint.Uau, é quase uma realização artística.

Aí ele me mandou o arquivo, em mp3. Trata-se de um poema do tipo seresteiro, com uma viola tocando ao fundo e declamado cheio de emoção parnasiana.

Enfim, nada de atribuição indevida a mim. Deve ser só um caso de homonímia. Afinal de contas, se existe um Marco Brasil narrador de rodeio, bem pode ter um seresteiro também, uai.

é por aqui que vai prá lá?

Careca, enfim

Na manhã de uma quarta-feira, exatos quinze dias após a quimio, eu descobri que não gastaria dinheiro com cabeleireiro por algum tempo. Durante o banho matinal, no banheiro do hospital, passei as mãos na cabeça e uns vinte fios vieram enroscados nos dedos. “Ô ôu”. Levei as mãos mais uma vez à cabeça e outra porção veio junto. Fechei os olhos e busquei um restinho de pensamento positivo que pudesse estar guardado em algum canto da mente. Não encontrei. Terminei o banho o mais rápido que pude e voltei para a cama. Quando o enfermeiro entrou, um rapaz com menos de trinta anos, contei que estava me despedindo dos meus cabelos. “Pelo menos os seus vão voltar a crescer. E os meus, heim?” respondeu, mostrando sua careca em estágio avançado. E agora, Daniela? Engoli meu beicinho e desfiz a cara de coitada.

O que o enfermeiro não sabia era que aquele comentário foi o equivalente a quatro sessões de terapia condensadas em cinco segundos. Talvez eu supervalorize um pouquinho os meus problemas - ok, ok, eu SEI que supervalorizo na maioria das vezes - mas também sei reconhecer o drama alheio. E o problema capilar dele era, definitivamente, mais sério que o meu. Além disso, a queda dos cabelos era o primeiro efeito colateral da quimioterapia que não vinha acompanhado de dor, enjôo, febre ou qualquer outro desconforto físico. O único inconveniente era a minha repulsa a cabelos que se soltam da cabeça. Era fio de cabelo nos ombros, nos braços, na cama, no travesseiro, no chão… um pesadelo. Para resolver esse problema, com o namorido a mais de 400 quilômetros de distância, liguei para o meu amigo gay. “O que você vai fazer hoje à noite?”. “Tenho aula. Por quê?”. “Duvido você vir passar a máquina no meu cabelo”. Marco Aurélio não só topou faltar à aula na faculdade como ainda atravessaria a cidade duas vezes para ir em casa buscar sua máquina de cortar cabelo. Mas todos temos nossos carmas e não há nada que se possa fazer a respeito, certo?

Até a chegada do meu cabeleireiro particular, eu ainda teria que esperar pelo menos dez horas. Para me poupar do sofrimento de passar o dia recolhendo longos fios de cabelos soltos pelo corpo - ou para se distrair, não importa - minha mãe resolveu cortar meus cabelos bem curtinhos. “Essa tesourinha de costura vai resolver, Dani, senta aqui”. Duas horas depois, o resultado foi um corte tão pavoroso que eu desejei que todos os fios de cabelo caíssem imediatamente. Infelizmente, o jeito era esperar.

Quando entrou no quarto, Marco parecia tenso. Provavelmente apreensivo pelo que estava por vir, esperando uma cena típica de novela das oito, com muito choro e música do Kenny G ao fundo. A minha ansiedade era tamanha que mal o cumprimentei. “Vamos consertar logo essa tragédia que a minha mãe fez, por favor”. Assim que pegou a tesoura, Marco Aurélio foi tomado pelo espírito de algum cabeleireiro gay que vagava pelo hospital. Mostrou incrível habilidade e uma inesperada afetação na voz enquanto acertava o estrago feito pela tesourinha de costura. Depois, lamentando por ter que destruir sua obra de arte, eliminou o que restava de cabelo com a máquina. Ao olhar minha nova imagem no espelho, confesso que notei um certo charme naquele visual. Enfiei-me embaixo do chuveiro para espantar qualquer sinal de desânimo e vestígio da tosa. Sentir a água batendo diretamente no couro cabeludo é, no mínimo, diferente, assim como encostar a cabeça no travesseiro frio. Na primeira noite, em pleno inverno, eu levantei para ir ao banheiro. Sonolenta, lembrei que estava careca quando abri a porta do banheiro e senti o vento gelar minha cabeça. Uma tristeza repentina ameaçou se instalar. Afastei-a pensando no enfermeiro e sua falta de perspectiva. E, principalmente, na minha cura.

Resumindo, perder os cabelos durante um tratamento contra o câncer é como entregar a bolsa a um assaltante armado: “Toma, leva tudo mas me deixa viva”.

lições reais em enzimas virtuais

Donw again

Eu sei, eu sei que freqüentemente eu me comporto feito uma plasta covarde, que deixo oportunidades passarem por falta de empenho, que não vou atrás do que quero e/ou preciso quando deveria, que não sou “proativa” (pausa para vômitos. Meus. É que jargãozinho de auto-ajuda, seja da variante empresarial ou da esfera privada, sempre me provoca essa reação) e o mundo hoje – e sempre ? - é destes insuportáveis seres semi-robotizados, ultra-enérgicos, overachievers e saltitantes. Eu sei que é estranha essa apatia toda vinda de alguém que sempre incentiva os outros a buscarem o que querem, muitas vezes dizendo a eles a platitude – óbvia porém verdadeira, como a maioria delas – “o pior que pode acontecer é você ouvir uma recusa delicada”. Mas aí é que tá: é que pra mim, em certos momentos, o pior que pode acontecer é ouvir uma recusa delicada. Mesmo.

cyn city

Impressionante

O que mais me impressiona é que ainda tem gente que lê o que eu escrevo, ao menos aqui. Que coisa!

branco leone

2.2.08

O tempora, o mores

O tempo passa, a vida muda, a gente muda. Quase sempre para pior.

Tinha eu meus 16 anos quando assisti aquele filme "N0ve Semanas e Meia de Am0r". Achei sensualíssim0! Principalmente a cena em que os dois estão na cozinha, na frente da geladeira, se lambuzando com mel, chocolate, morangos e quetais. Muito sécsi...

Cerca de outros 16 anos se passaram e eu, já dona-de-casa-mãe-de-família-que-trabalha-fora, passava as noites em claro, embalando um bebê que não queria dormir. Certa madrugada, resolvo ligar a tv na sessão corujão e estava passando justamente esse filme, justamente nessa cena.
Meu único pensamento: "quem é que vai lavar o chão dessa cozinha no dia seguinte?"

Mesa de bar

1.2.08

Gostaria de poder incendiar - com os donos dentro, evidentemente - pet shops e clínicas veterinárias que têm nomes-trocadilho com cão, tipo: Gatos & Cãopanhia, Cão Peão, Cãopanheiro, Cãopanhia das Raçôes, Cãofusão e Cia, Amicão, Amorecão, Bem Locão, Cãopany, 18 Kilatem, Cãobuí Pet, Pousada do Cãoboy, Cãocun Pet, Pet Shop Cãomarada, Fofocão, Kãomilão, Cão de Estrelas, Cãosagrado, Cão de Mel, e por aí vai. Os nomes são reais. E quando você pensa que já viu tudo, vem esta aberração: Pronto Zoocorro. Aí já é caso de empalamento...

catarro verde

25.1.08

O mundo acabou numa terça, às 4 e 20 da tarde. A caneta tinha tinta mas faltou o bloco, ela me disse para ser feliz e eu quase ia sendo. O mundo acabou numa terça, chovia em São Paulo. Na mão esquerda a unha com esmalte lascado e o anel de sempre, e eu precisava cortar o cabelo. Não consegui decifrar o olhar da mocinha no meu decote nem as máscaras encharcadas na vitrine, o samba dissonando da conversa dos encasacados na fila do cinema. O mundo acabou numa terça.
Apesar do saco plástico que eu conscientemente recusei no caixa, apesar das lágrimas da namorada traída na mesa em frente, da sopa com gengibre em pleno janeiro, da vendedora que mandou dar novalgina ao neto que tinha febre. Apesar do CD ainda lacrado na minha bolsa roxa, o mundo acabou, 2 minutos antes de eu descer as escadas e sumir na estação do metrô.

:: kaleidoscópio ::

Renata

São seis horas e ele não vai ligar. Renata sabe que ele não vai ligar. Ela é mulher, ela já nasceu sabendo. São seis horas e quarenta e dois minutos. Ele estava num boteco com amigos quando atendeu o celular, foi muito simpático e disse que ligaria assim que chegasse em casa. Mas ele não vai ligar, Renata tem certeza. São sete horas e vinte minutos e, ciente de que ele não vai ligar, Renata faz seu miojo com o telefone sem fio ao lado, só para garantir. Ele não vai ligar porque quando ele chegar em casa já vai estar tarde. São oito horas e oito minutos. Renata pendura as roupas no varal com o telefone no bolso, por via das dúvidas. Ele não vai ligar porque assim que ele fechou o celular naquele boteco esfumaçado, ele se esqueceu de que havia falado com ela. São oito horas e quarenta e nove minutos. Renata assiste uns enlatados americanos e uns pedacinhos do Fantástico e ele não liga. Claro que não. Ele não vai ligar porque ele é um homem. E homem e mulheres, quando olham para um telefone, vêem o mesmo objeto, mas não vêem a mesma coisa. São nove horas e vinte e sete minutos. E Renata, veterana de muitos e muitos não-telefonemas, sabe que ele não vai ligar. Ela sabe, mas anda com o telefone pela casa. São nove horas e cinqüenta e quatro minutos e ele não liga enquanto Renata, com o telefone em cima da pia, faz xixi, toma banho, seca o cabelo e passa todos os cremes. São dez horas e vinte e um minutos e quando o telefone toca Renata dá um pulinho e sente dor no estômago mesmo sabendo que não é ele. A certeza de que não é ele ligando, estranhamente aumenta a esperança. Renata atende, conversa um pouquinho com sua mãe e libera a linha. Mas ele não liga. São dez horas e cinqüenta e três minutos. Ele não vai ligar porque vai chegar tarde do boteco, meio bêbado, vai estacionar o carro torto na vaga, vai demorar para acertar a chave na fechadura, vai tropeçar no viradinho do tapete, vai largar a camisa amassada no corredor e vai se jogar na cama de calça e sapatos. Renata sabe muito bem que ele não vai ligar, porque homens e mulheres quando dizem que vão ligar, usam as mesmas palavras, mas querem dizer coisas diferentes. São onze horas e treze minutos. Ele não liga, mas Renata dorme com o telefone ao seu lado, a gata preta aos seus pés, um sono bobo, um sono leve,um sono que não acredita em nada, um sono que acredita em tudo. São onze horas e quarenta e dois minutos.

nomes só

20.1.08

Comunicado Interno

Chefinho Rata,

O que você acha de uma reunião do conselho diretor? Todo mundo que está ai na direita?

Pra relembrar os velhos tempos, tomar um chopp, escrever um livro, plantar uma árvore e... pára por aí.

No aguardo de um memorando, abraço,

Henrique.

P.S.: Você pode me dar um vale de 10 rublos? Dívidas do natal, você sabe...

18.1.08

Anúncios de absorventes

Qual o problema dos anúncios de absorventes? São sempre mulheres limpas, relaxadas, sorridentes, rolando em lençóis macios. Todas achando a maior graça em menstruar. Não faz sentido. Fico me perguntando por que eles não fazem bons anúncios de menstruação... Anúncios-verdade, com câmera tremida e as mulheres ensangüentadas, deixando rastros de sangue no chão? Elas iam ter problemas hormonais, puxariam o cabelo umas das outras e ficariam deprimidas, vendo novela e se entupindo de Leite Moça.

loser

17.1.08

Homem é que nem roupa

Outro dia estava conversando com Nat e Maffalda, duas moças muito queridas, e chegamos à conclusão de que homem é que nem roupa. E quer assunto mais caro às mulheres do que homem e roupa?! Não existe!

O tipo mais comum por aí é o Falsificado: acha que é um Valentino, mas está mais para vestido da Renner; no máximo é uma cópia barata feita em Hong Kong. No fundo, se trata daquele Hélio do qual tanto falamos por aqui.

Existem também os de grife: são lindos, vestem bem e toda mulher sonha em ter um. Os clássicos caem bem no corpo por uma vida inteirinha. Mas esses aí, meu bem, não é qualquer uma que põe a mão, não...

Alguns são até roupinhas honestas, que valem o preço cobrado - apesar de não serem, assim, um Armani. Em alguns casos, é preciso fazer alguns ajustes. Mas alguma de vocês ainda tem paciência pra ajustes? Porque eu conheço poucas que têm. É bom dizer que nem sempre estes consertos ficam 100%. Algumas vezes, corre um fio, a pence fica mal feita e aí já era.

E sempre há a roupa emprestada. A peça nem é sua, mas você faz de tudo para devolvê-la linda, cheirosa e sem nenhum fio puxado. Em alguns (pouquíssimos) casos, a roupa fica tão bem em você que você acaba não devolvendo. Só que o mais comum é nos apegarmos à peça e sofrermos muito ao devolvê-la. E me respondam uma coisa: é mesmo sensato dispender tanto esforço com uma coisa que nem é sua?!

De qualquer forma, a conclusão é a seguinte: não importa se a peça é de camelô ou de grife, o importante é se apaixonar por ela. Uma vez que isso aconteça, é capaz de você ir para o Baile do Copacabana Palace com roupinha de feira e achar que está abalando. Afinal, bom senso não vende em farmácia...

Soletiras? No Rio de Janeiro?!?

27.12.07

o que eu ia dizer é que é tanto tudo o tempo todo
que às vezes só mesmo um banho de mar...


:: kaleidoscópio ::

26.12.07

Ho Ho Ho

Entediado na portaria esperando sua carona? Dentro do carro enfrentando quarenta minutos de trânsito até a casa da sogra? Mofando no ponto de ônibus? O joguinho do natal funciona assim:

Cinco pontos pra cada velhinha carregando uma bandeja de comida, cinco pontos pra cada moçoila carregando um vasinho de flor, quinze pontos pra cada criança berrando e dez pontos pra cada marido com cara de saco cheio.

Boa sorte.

uma dama não comenta

Caderno de anotações

Não consigo dormir porque tem um bailão aqui do lado. Dá pra imaginar pessoas animadas?! Dançando?! Se Nietzsche conhecesse o que se dança hoje, só acreditaria em um Deus que conseguisse dormir.

diferença nenhuma

18.12.07

A epidemia volta

Dezembrite: é esse o nome que, já há alguns anos, dei a essa sensação meio indefinida que nos acomete -- a alguns mais intensamente, a outros de forma mais amena -- todos os anos, quando seu fim se aproxima.

A dezembrite tem sintomas que são comuns a todos os enfermos, outros que variam de caso para caso. Uma forma leve de depressão, que faz com que uma típica irritabilidade e um banzo indefinido tornem os dias mais arrastados e o atrito com a superfície do relógio mais intenso, parece ser largamente descrita por quem investiga a moléstia. Uma repentina falta de saco inicia-se lá pela última sexta-feira de novembro, paralisa a todos, faz com que a freqüência das visitas aos blogues caia pela metade e tem como compensação uma compulsão à idéia de compras, presentes, lembranças.

Alguns dos contaminados apresentam reações autoimunes bastante perigosas. Por exemplo, há uma alergia aguda a qualquer som que apresente o timbre de uma harpa paraguaia. A combinação de notas musicais que venha a compor qualquer coisa parecida com "hoje a noite é bela" traz tremores involuntários, sudorese e, em certos casos, queda de cabelo -- de resto, também verificada por origem mecânica, pela ação de mãos em fúria pela inutilidade de levá-las aos ouvidos.

Sininhos, imitações de neve feitas de qualquer material, garrafas que se assemelhem à de champanha, de espumante, de cidra Sereser, tudo isso provoca reações semelhantes. Com isso, há uma queda brutal de produtividade, o país, já em crise crônica, sofre com o choque surdo, apenas disfarçado pela explosão do consumo de presentes, espécie de Prozac ou Pamelor da dezembrite.

Qual a solução? Não há. Pensei em propor ao parlamento, ao Lula ou ao Renato Aragão -- o rei das criancinhas pobres do mundo -- que se dividisse o país em 12 e cada grupo resultante dessa divisão comemorasse seus Natais em um mês do ano. Desisti: se uma das causas da dezembrite é o barulho, a doença se tornaria uma epidemia crônica, com um Natal permanente, mesmo que segmentado. Outra idéia, mais radical, seria espalhar boatos sobre o Papai Noel. Não seria difícil fazer pespegar-lhe a suspeita de pedofilia ou mesmo de zoofilia, com aquelas bundas de rena balouçando à sua frente o tempo todo. Considerando o número de chaminés pelo planeta, quem negaria que o outrora bom velhinho estaria vendendo preferências, cobrando propina de famílias mais abastadas para visitá-las com hora marcada? "Papai Noel desceu exatamente à meia-noite pela chaminé dos Melo Peixoto da Silveira Dantas", espalhariam os agentes bem treinados pelos heróicos detratores do insistente Nicolau. Mais simples e mais barato seria distribuir adesivos para carro com os dizeres "Natal é coisa de viado". Mas a chance de um justo processo por discriminação afastaria os eventuais patrocinadores.

Como se vê, dezembrite é como dente do siso. É inexorável, e arrancar dói. Portanto, resta procurar alguma resignação. Neste ano, penso em tentar uma hibernação. A idéia é dormir no dia 21, uma sexta-feira, e colocar o despertador para as 7 da manhã do dia 3 de janeiro. Será que funciona?

dito assim parece à toa

17.12.07

Papai Noel

Papai Noel é aquele bom velhinho pedófilo, que você põe o seu filhinho sentado no pau duro dele, todos os anos, no shopping. E ainda fotografa.

Feliz Catarro Verde Natal.

15.12.07

ao velho batuta

Querido Papai Noel,

Gostaria de ganhar uma namorada de presente. Ela precisa ser bonita, gostosa e charmosa; ser cool sem ter o ar muito blasé; quero uma guria que goste de bons sons, não faço exigências de estilos, precisa ter bom gosto musical; quero muito que ela goste dos meus amigos e que entenda que beber faz parte da confraternização; precisa ler mais que eu, o que não é difícil de se encontrar tendo em vista que eu não estou lendo ultimamente, alguém que leia para mim e me ensine o que eu ainda não sei [o sr Noel sabe também que não é qualquer leitura, né? tem que saber o que ler, que eu leio pouco, mas eu tenho amigos que conhecem literatura e eles me dão uma base do que é bacana e o que não é]; obviamente se trata de uma menina inteligente; esta namorada precisa falar no mínimo uma segunda língua, se a primeira for português, que ela saiba falar ao menos o inglês para que possamos passar um ano juntos em Londres depois que eu me formar e ela possa conversar de boa com todos meus amigos que por lá encontrar; quero uma mulher que saiba cozinhar e que goste de alho nos temperos; não ligo para idade, mas geralmente as mulheres balzaquianas preenchem melhor estes pré-requisitos; eu quero uma namorada para me acompanhar nos shows e nos botecos, no cinema eu não ligo de ir sozinho, mas ela precisa gostar de cinema, de filmes alternativos, precisa gostar e conhecer mais o cinema europeu do que o roliúdiano; se ela tiver uma casa bacana também ajuda, que ainda vai levar um tempo para eu ter a minha; ela não precisa ter um home-cinema na sala dela, não sou tão exigente assim.
Acho que é isso.

Mas se tiver difícil de encontrar este presente, pode ser um sapato novo, mesmo.

Grato.
Atenciosamente,

The Nowhere man

3.12.07

um post offline

eu sou o tim maia da literatura.

adios lounge

26.11.07

Lá fui eu novamente para o ponto lotado da Consolação com a Paulista. Peguei o Jardim Macedônia, lotado, abarrotado, craudeado. Fiquei um pouco na parte da frente, já que passando a catraca tava show de horror, todo mundo grudado um no outro.
Quando estava chegando perto da minha casa (faltavam uns 4 pontos) resolvi passar. Passei e fiquei grudada na catraca. Na minha frente havia uma moça interativa, ela olhou para mim e disse: ônibus lotado e a gente ainda têm que agüentar isso!
Eu pensei: isso o quê?
Quando vi tinha um bêbado bem ao meu lado. O cara tava mals gente, falava cuspindo, todo inchado e pelos movimentos dos olhos percebia-se que tudo rodava. Ele tava bem perto mesmo de mim, quase encostado, fedia cachaça.
Assim que percebi a existência do maldito ele começou a fazer movimentos estranhos (alguém aqui já viu um gato vomitar? Se viu sabe, ele estava fazendo esses movimentos).
Pela posição do homem o jato de vomito não só cairia em mim como direto na minha cara. Entrei em pânico e comecei, em vão, tentar sair do lugar que eu estava, mas tava difícil não tinha para onde correr.
De repente, o cara faz uma cara de alivio e notei que não havia vomito. GENTE, O CARA SE CAGOU TODO EM PLENO JARDIM MACEDÔNIA, LOTADO, ÀS 6:30 DA TARDE.
Vocês não fazem idéia de como o pessoal achou lugar rapidinho, parecia que haviam dado um tiro dentro do ônibus, todo mundo começou a se apertar para o fundo e gritar. Um moça bem baixinha que estava próxima de mim colocou o rosto nas axilas de outro moço, eles não se conheciam.
Uma outra, que tinha cara de ser uma pessoa divertida, gritava e colocava a mão na boca e dizia com sotaque nordestino: ai gente, não posso com essa caatinga acho que vou vomitar. Uma senhora, coitada, que estava bem ao lado do moço no momento do alívio não teve dúvidas, pegou sua bolsa e agrediu o homem na cabeça diversas vezes. E dizia: rá simbora seu bebo, tu tá é fedeno que nem um porco.
Era o inferno de Dante em Plena Rebouças. Pessoas desesperadas, uma coisa horrível.
O motorista percebeu o motim, abriu a porta do ônibus no meio da avenida e o homem começou a passar pelas pessoas para chegar até a porta, nessa hora a gritaria foi geral, algumas se penduraram, outras sentaram no colo de quem estava nas cadeiras e o moço desceu e caiu coitado.
Nessa hora fiquei até com dó, o cara caído no chão todo cagado, que situação né! Mas o que eu podia fazer? Ajudar ele? Sou até que uma pessoa bacana, mas ajudar esse sujeito era demais!
Enfim, não consegui comer mais nada durante aquele dia e nem me esquecer daqueles momentos de horror.

gente, foi horrível!

23.11.07

reflexões de fim de ano

Voltando para casa, com as luzes das árvores natalinas piscando em minha memória, comecei a pensar sobre o que estou realmente fazendo neste mundo, vasto mundo, em que fecho os vidros do carro e me escondo atrás do insulfime, em que recebo e-mails quase diários sobre "como se proteger do falso telefonema de sequestro", o "golpe do flanelinha que some com o rádio do seu carro", os "meninos dos faróis que esguicham ácido na sua cara", e por aí vai. As ruas e avenidas que atravesso em São Paulo não lembram exatamente o morro tomado pelo BOPE e seu Capitão Nascimento... mas não pude evitar o pensamento de que tiros ecoam na periferia paulista, no centro da cidade, em arrastões nos condomínios do Morumbi, tão rápido como as primeiras luzes de Natal.

daqui prá frente tudo vai ser diferente

Grandes questões da humanidade

Alguém sabe por que não existem animadores infantis homens? E por que os Paquitos foram um grande fracasso? Eu te digo: é por causa da altura das crianças. É, isso mesmo. Porque se você perceber, essas pequenas e agitadas criaturinhas ficam EXATAMENTE na altura do seu saco. Dançar ilariê, brincar de pega-vareta, andar de patinete, qualquer uma dessas inocentes atividades pode ser fatal. É só a criança fazer qualquer movimento que... uau, vai de encontro direto aos seus bagos. E enquanto você se debate no chão, como um salmão fora do rio, o desgraçado fica lá, orgulhoso de si mesmo e se achando uma merda de Power Ranger.

lições do loser

22.11.07

Ontem tive meu próprio momento proustiano

Encontrei no supermercado petits pains suédois, que são pãezinhos cortados ao meio e torrados. Lembrei que gostava deles, fiquei toda alegrinha e comprei um pacote.
Cheguei em casa e já fui experimentando um. Hm, crocante e nutty. Mas fiquei meio decepcionada, porque não parecia a mesma coisa. Deixei o pacote pra lá e fui fazer outra coisa.

Mais tarde, fui tirar os queijos da geladeira pra fazer fondue, que era o jantar programado. Gruyère, emmental, e comecei a ralar. No finzinho do emmental, me deu um clique e pensei : hm, isso deve ficar bom com um dos petits pains. Cortei um pedacinho dele e comi com uma das torradinhas suecas.

Era isso! A combinação de sabores me emocionou, e de repente lembrei o porquê : foi a primeira coisa que comi em Paris, na minha primeira vez na cidade, há mais de dez anos. Um fato que eu tinha esquecido completamente, encoberto por tantos outros que se seguiram nesse tempo todo. Mas que, pelo visto, nunca deixou de ter importância.

Em 96, fui a Paris pela primeira vez, para fazer um curso de verão na Sorbonne - Langue et Civilisation Française. As residências estudantis já estavam todas ocupadas, mas consegui alugar um apartamento normal no 7ème através de um anúncio pregado não lembro onde. Cheguei na cidade num domingo, e fui pegar a chave com o administrador, um senhor brasileiro muito tranquilo. Ele foi comigo me mostrar o apartamento e como funcionavam as aparelhagens, código da porta, etc.

Fiquei pasma, porque o lugar que aluguei sem ver era um apê grande, lindo, com quarto, sala, cozinha equipada e banheiro - na verdade poderia ser dividido com mais gente, mas consegui alugá-lo sozinha. Das janelas se via a Torre Eiffel, e a rua tinha a mistura exata de movimento e calma. Não podia querer mais nada.

O administrador então se despediu e explicou que, por ser domingo à noite, ele previu que seria difícil eu conseguir comprar comida naquele horário - e deixou umas coisinhas pra que eu não ficasse sem nada.

Abri a geladeira e encontrei - sim, um pedaço de emmental e um pacote de petits pains suédois. Fiquei comovida com o cuidado inesperado, e senti que aquele período ia ser um dos mais felizes da minha vida.

E assim, na minha primeira noite de verão em Paris, sozinha frente às janelas abertas mostrando a Torre iluminada contra o céu escuro, consciente da minha tremenda sorte de estar ali, tocada pela beleza e gentileza, comi queijo suiço, pão sueco e água - e nada pareceria mais gostoso.

annix

Credo in card, monster card

Quase 25 anos de profissão, centenas (ou milhares, sei lá) de campanhas bem-sucedidas feitas por mim ou com a minha colaboração, milhões ou bilhões de campanhas muito mais criativas e vendedoras que as minhas feitas por anunciantes nacionais e internacionais provando o contrário, e até hoje eu ainda sou obrigada a ouvir de clientes e curiosos - e até do ocasional profissional da área, por increça que parível - que não se deve usar a palavra "não" ou outras igualmente negativas, tais como "nunca", "jamais" e outras desse tipo em propaganda.
Sim, até hoje, a esta altura, em que até as pedras sabem, ou deveriam saber, que isso é uma bobagem, uma palhaçada, uma picaretagem de neurolingüística mal-costurada ou de auto-ajuda empresarial de 8ª categoria, ainda tem quem diga, repita e defenda isso.
Se acontecer de novo, não sei o que eu faço :
se finjo um ataque de nervos e saio gritando e arrancando os cabelos ou se faço o papagaio que repetiu essa besteira engolir, sem cortar e sem dobrar, meu exemplar de domingo da F*lha (não dá pra não ler – wow, a double negative !) ou meu Am*rican Express (não saio de casa sem ele).
Pensando bem, melhor que seja meu Cre*iCard MC. Porque o prazer que isso vai me dar... não tem preço.

cyn city

20.11.07

Procrastinadores do mundo, uni-vos!

Mas não agora, OK?
Me deixem dormir mais um pouco...

puragoiaba e go to heaven

19.11.07

Kátia

Se há um momento de dor ou de riso, uma empadinha vai bem. Uma forma de empadinhas. Ou um pote de sorvete. Se há uma espera, uma coca-cola. Um medo, um sanduíche. Uma angústia, mingau.
O sim, o não, o frio, o escuro, nada é maior que um prato de miojo, não existe mal incurável frente à uma fatia de torta de limão.
Que a comida invada e preencha e ilumine e anestesie e defenda e justifique e traduza.
Que ela defenda a coragem, que é pouca.
Que ela embale o calor, que não há.
E invente um amor que não existe, nunca existiu.

nomes só

18.11.07

Um último olhar sobre a cidade

Malas prontas, depois de ter jogado tanta coisa fora. Dez anos não se apagam fácil... Nem é questão de apagá-los, afinal, tanto a dor quanto a delícia de um dia ter estado aqui partem comigo para o sul do mundo, independente do que for levado. Mas sempre a sensação de algo incompleto - será que alguma vez estamos prontos...?

Ficou-me esta lembrança, quase uma sensação, de uma noite de chuva no banco de trás de um carro, numa carona para casa: uma menina, com quem eu procurava reatar o namoro, escreveu no vidro embaçado da janela, letra a letra, enquanto eu esperava uma declaração de amor:

Você está ciente do que já é mágoa?

E eu acho até que estava. Ainda que esperasse uma declaração de amor. Eu sempre tive essa mania besta de querer por souvenir mais do que mágoa.

E agora eu me pergunto, honestamente ingênuo: responder bastava?

(Mas não cabia na janela nem mais uma palavra.)

diferença nenhuma

13.11.07

A seqüência lógica dos fatos

Há umas três semanas.

Arrombam o carro da minha namorada e roubam, entre outras coisas, meu computador, minha agenda e umas besteiras mais. Duas horas depois, chego ao aeroporto e descubro que o vôo foi cancelado. A TAM paga o hotel em que fico, mas no dia seguinte, logo cedo, me acordam avisando que uma amiga morreu. Chego ao aeroporto e descubro que o avião em que vou viajar é um Fokker 100 -- o único avião no mundo que me mete medo. Pouso no Rio e, não mais que de repente como num soneto de Vinícius, chove em um dia o que deveria ter chovido em um mês.

Agora eu vivo com medo de que finalmente descubram que foi por minha culpa que o Rebouças foi soterrado.

rafael galvão

Duríssimo

Tive um namoro que acabou por excesso de Junior. Ela gostava do Fabio Junior, do Sandyjunior e do Amaury Junior.
Aí é jogo duro...

catarro verde

12.11.07

sonhando

Encantamento ao te ver ali a sorver-me os caldos, sou a provedora que te sacia, a presa que te mata a fome, banquete e banqueteada, nosso festim de ais e silêncios, tua boca a desvendar-me os sabores todos - amor e lágrimas comovidas-, em reverência e posse te debruças e me entrego mansa. Tua língua a abrir caminhos que eu sigo tonta, lucidez e desejo escorrendo rio caudaloso em que me lavo e te banho, soçobramos juntos, à tona voltamos para mergulhar em beijo úmido porque eu quero em mim o meu gosto em ti; água, azeite, mesclados mas ainda sou eu e é você, e nessa hora, nós.

leftovers

Mini 91

Dobrou o papel bem no meio e manteve-o assim por um segundo, só para ver a perfeição fugaz da dobra, feita apenas para marcar a linha do meio. A partir daí, dobra após dobra, construiu mais um avião. Como com os outros, o pôs de lado, sem tentar fazê-lo voar. Partiu para o próximo. Dobra, desdobra, dobra de novo, formando o primeiro triângulo, depois o outro, simétrico, espelhado, depois o seguinte, mais estreito, sobreposto ao primeiro, então seu gêmeo cis-trans e, de dobra em dobra, mais uma nave. Colocou-a delicadamente sobre as outras e começou o trabalho novamente, cada jatinho mais perfeito que o outro. Já havia um pequeno monte deles sobre o chão, dando forma, a sábia esquadra, à sua medida edificante: para cada aeronave a mais, um poema a menos. Até o nascer do sol estaria livre daquele peso.

dito assim parece à toa

Ontem à noite descolori e pintei o cabelo.
Dizque laranja é a cor deste verão. Pois então.

reverberações

8.11.07

acho super legal as pessoas rezarem e cantarem e louvarem.
só queria que fizessem isso em silêncio. ou que as músicas fossem do nível do 'mudança de hábito'.

objeto abjeto

5.11.07

Noite dessas tava andando pelo Bixiga na chuva, passo por uns dez neguinhos de rua sentados na calçada embaixo de uma marquise, ao redor de uma pizza. Um dos farrapinhos, magrelo e molhado, pedaço de pizza na mão, me olha nos olhos e manda:

- Tá servido, moço?

Às vezes o ser humano me comove. Mas passa logo.

catarro verde

28.10.07

Da vida tudo se leva

Chega. Chega de folhear revistas de celebridades para ver que fulano passou por um ataque cardíaco quase fatal e, ao convalescer, se deu conta do "valor das pequenas coisas", da "importância de fazer tudo sem pressa" e, oh, ignomínia, de que "da vida nada se leva". Quero abrir agora uma revista de anônimos e saber que seu Altair, aposentado, 67, que todos os dias pega o jornal no portão, ainda de pijama, teve um belo piripaque no peito (os cadernos do jornal se espalharam pela rua, ele machucou a careca na queda; dona Isaurinha quase morre junto) e, durante a recuperação, na enfermaria do hospital São Francisco das Chagas, acordou para a vida: viu o valor das grandes coisas (aquela viajona para Búzios no verão custou o mesmo que o fim de semana em Poços de Caldas, é, bebé?), se tocou que sem pressa tudo desanda (deixa para registrar o palpite da Mega Sena lá na lotérica do Djalma na quarta depois das seis, deixa) e que da vida tudo se leva (o lance é carregar no caixão a grana do pé-de-meia: deixar dinheiro para a Suely e o picareta do Batista? Aqui, ó). Hoje seu Altair continua pegando o jornal (mas dá prioridade ao caderno de economia, onde tem devaneios faraônicos e longas ereções quando lê o Mercado Futuro de Ações), usando o mesmo pijama e com um risinho encruado. Da vida tudo se leva, não vê quem não quer. Dona Isaurinha viu e – há quanto tempo! – gostou.

ao mirante, nelson

24.10.07

Mocó de homem solteiro

Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas - sem cabo - encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio vintage.

E quando a fofa, toda fina e fresca, nova costela, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o seu mancebo... e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual (aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista Wallpaper).

Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele quadro caríssimo –artista contemporâneo, tendêeencia!- numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?! Um desastre.

A fofa, toda metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe - sim, ela está doida e perdidinha - com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos - como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no Fantástico das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.

Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.

Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana... A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme. Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.

Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware - aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...

Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”
“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.

o carapuceiro

21.10.07

Ensaio sobre a completude humana

água + terra = Lama => vai pro fogo => Barro => sopro divino (ar) = é nóis na fita, mano

dies iræ

8.10.07

O mito da criação sob a perspectiva de um pinto

No princípio era a Vagina. E Deus disse:
— Faça-se a penetração.
Mas o pinto não se mexeu. E, cabisbaixo, perguntou:
— Aquilo não tem dente?
E Deus, em sua eterna sabedoria, deu uma mãozinha a ele. E, após trocar cinco dedos de prosa com o Senhor, o pinto levantou-se, triunfante. Mas, como só tem um olho, complicou-se e acabou entrando na porta errada. E o pinto disse:
— Tá tudo escuro aqui!
E Deus replicou:
— Faça-se a luz!
Então o pinto pôde enxergar. E achou ruim.
— Pô, mas isso aqui é uma merda!
E Deus, em sua infinita paciência, falou:
— Não tá gostando, abilolado?
— É muito sujo.
— Ha! Você precisa ver quando eu criar o Congresso brasileiro.
— Além disso, fede, é quente, mal-iluminado...
— Espere só até conhecer o Recife.
— ... e apertado demais.
— Apertado! O que não é a falta de parâmetros. Tente passar o mês com um salário mínimo no futuro Brasil.
— Além do mais, dói pra entrar.
— Que é que você queria? Qual seria a graça caso não houvesse dor pra, depois, se alcançar o prazer? Olha... isso dá até uma bela teologia, hein? Taí, você me deu uma idéia. Vou inspirar um livro nesse sentido. Mas peraí, dói? Onde é que você... Burronaldo! Você tá no lugar errado! Seu jumentildo! Sai já daí!

E Deus sacou o pinto e, como não tivesse onde lavá-lo, separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. E o pinto pairou sobre a face das águas. E Deus disse:
— Ui! — e se arrepiou todo, pois a água estava gelada.
Em seguida — porque, apesar de não ter subconsciente, é seguidor de Freud —, o Senhor colocou o pinto no lugar psicanaliticamente correto.
E o pinto achou bom:
— Que maravilha! Quanta diferença! Obrigado, Senhor.
E Deus replicou:
— Isso, vai se divertindo. Quero ver daqui a nove meses.
E o pinto continuou:
— Devo admitir que, tirando a cueca samba-canção, essa foi Sua melhor invenção até agora, Pai.
E Deus não disse nada mas, em sua sempiterna bondade, começou a trabalhar num primeiro esboço de doença venérea. E, para reprimir ainda mais a sexualidade humana, imaginou o casamento como forma de punição.

marconi leal

4.10.07

Casal sai atrasado de casa ao tentar a democracia

O homem nasceu para o halterofilismo.
Levantar a moral da mulher.
É como se o marido fosse obrigado a dizer aquilo.
Mas se ele não declarasse, o que aconteceria?
Mulher não confia na sugestão do marido, confia na observação de outra mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião ao marido.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Como abarrotada?
- Parece um saco.
- Tá me chamando de cimento?
- Não, pediu para que a ajudasse, pode colocar algo que deixa a bundinha mais arrepiada.
- Tá falando que minha bunda caiu?
- Não....

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Qualquer comentário surgindo de uma boca feminina, não agrediria.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião a uma amiga.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Também acho, lembra um saco.
- Pois é, pode tentar algo para valorizar as curvas.
- Boa idéia, nunca gostei mesmo desse jeans. Usei pouquíssimo.

Homem não é espelho de mulher, nem dele mesmo.
A mulher tem independência e domínio no gosto, ela o deixa assistir, apenas isso.
Quando confia no acerto, não desistirá da roupa, ainda que seja um parangolé.
Quando não gosta de um detalhe ou uma peça, nada a demoverá. Nada. Nem o Tratado Lógico-filosófico, de Wittgenstein.
É uma coerência secreta.
O homem não está ali para concordar ou discordar, apesar do pedido ter sido esse.
O homem está ali para amá-la.
Do jeito que vier.

Fabricio Carpinejar

29.9.07

Tempo, tempo, mano velho

Entre sete e meia e oito da manhã, meia hora tem a duração de três piscadas de olhos.
Entre cinco e meia e seis da tarde, a de dois dias inteiros.

Duas Fridas

Já aconteceu de você se sentir ofendido por alguma coisa que alguém te fez, só que você simplesmente não consegue expressar em palavras exatamente o que foi ofensivo naquele ato, naquela atitude?

Já aconteceu de você ter convicção de que está com a razão, só que você não consegue explicar nem pra você mesmo os motivos de toda essa certeza?

Já aconteceu de você achar toda uma determinada situação extremamente enervante, só que você não consegue identificar o que te deixa assim tão alterado?

Já aconteceu de você querer que tudo fosse completamente diferente, só que você não tem idéia de como poderia ser melhor do que, de fato, é?

Já aconteceu de você ver que não tem saída fácil e indolor, só que você se questiona o porquê de estar cogitando a rota de fuga, pois, na verdade, onde você está é confortável, seguro e bom?

É a mãe!

25.9.07

Transporte coletivo

Eu sei que andei sumida, mas é que eu passei esses dias ocupada. Ocupada andando de ônibus. Morar no extremo norte da cidade e estudar no sul é privilégio de poucos. Valeu, Jesus! Outro dia eu tava esperando o ônibus no Terminal de Integração. Ninguém gosta de andar de ônibus, mas basta o bendito entrar pelo Terminal que as pessoas esquecem de onde vieram e pra onde vão. São 70 pessoas e só há 50 assentos. Os cálculos são feitos em silêncio, as pessoas se entreolham. A adrenalina sobe. O clima esquenta... O único intuito delas é conseguir algum lugar no ônibus e isso se torna uma disputa incrível. Os milagres de Cristo podem ser vistos claramente através das manifestações do povo. Pra pegar o ônibus o cego vê, o aleijado anda e a mulher grávida corre. Leis da Física são quebradas. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar? Não no Terminal de Integração de João Pessoa. Eu já vi duas mulheres entrarem no ônibus e se tornarem três lá dentro. Eu tou em tom de brincadeira, mas eu confesso que tenho medo às vezes. É incrível a força que uma mulher de 80 anos pode ter quando quer andar sentada no ônibus. Elas arremessam seus filhos coletivo adentro, dão cotoveladas e, em última instância, gritam. Um grito aborígine, sabe... AAHHH LULULU! E somem ônibus adentro. Eu, branquela amedrontada, criada à base de Leite Ninho, ainda tremo o queixo de medo quando o ônibus se aproxima. Motorista e cobrador têm que andar armados se não quiserem perder o lugar. Enfim, é a visão do inferno que eu dou testemunho diariamente. Mas apesar disso, é legal andar de ônibus.

circo sem futuro

18.9.07

BOIÂNIA E A PRIMAVERA

Abril pode ser o mais cruel dos meses, dezembro o mais chato, agosto o mais infeliz, mas pelo menos aqui em Boiás, setembro é o mais infernal. A umidade do ar tá tão baixa que, no zoológico, o camelo foi surpreendido tentando se disfarçar de hipopótamo pra poder ficar dentro d'água; em Brasília, o mar de lama secou e virou o oceano do pó vermelho, o que é extremamente prático : por mais enlameadas que suas excelências estivessem (hipoteticamente, claro), bastaria parar de chafurdar um instante, se levantar, dar uns tapinhas no Armani pra chacoalhar a poeira e dar a volta por cima, imediatamente imaculados, prontos pra (várias) outra(s). Em todo o Centro-Oeste, as roupas secam antes que você acabe de pendurá-las no varal, e não importa quanto hidratante se use, abaixo dos joelhos, toda canela é em pó. A cor verde só existe nos semáforos e placas de estrada, e se continuar assim por muito tempo, periga até eles ficarem cor de ouro velho e mais enrugados que uma mulher normal de 40 anos em comparação com uma perua hollywoodiana - ou carioca da Barra - de 68. Você pode se fechar numa salinha com o ar condicionado programado pra 17 graus, que a sensação térmica ainda assim será de, na melhor das hipóteses, 27. O estado físico das coisas muda, de sólido pra pastoso, de líquido pra gel, de vapor pra pura memória; o estado de espírito dos seres - relativamente - vivos entra em slow-motion permanente : o chocolate não quebra, se rasga; a manteiga não se espalha, se entranha; o sangue não corre, se arrasta; o coração não bate, belisca; o suor não encharca, evapora; os pulmões não se enchem, se enervam; as lágrimas não escorrem, empoçam; o trabalho não anda, engatinha; as gatas não miam, gemem; e as blogueiras não escrevem, postam qualquer besteira só pra fazer de conta que atualizaram. E acreditem, até isso já é trabalho demais.

Cyn City