23.1.04

A verdade e as formas jurídicas
(pra você, Sol)

- Let, será que eles vão te xingar?

Então, vamos começar do começo.

Batida sem seguro pra cobrir. Arrombamento que danificou a porta para todo o sempre. Falta de gasolina no alto de uma pirambeira em plena madrugada etílica (até já virou post, isso). Pneu furado no meio da BR 040 - e eu sozinha no carro, como não poderia deixar de ser. Roubo com direito a corrida dessa distinta proprietária que vos fala, em estado nem tão distinto assim (a bem da verdade eu esperneei e perdi completamente a compostura quando vi um ser desconhecido sentado ao MEU volante), atrás de ladrão e carro. Devolução do veículo então roubado com batidas na frente, atrás e na lateral, abandonado no meio da rua obstruindo o trânsito das dezoito horas de uma quarta-feira.

Pronto. Pra quem não conhece, Charlene é meu querido veículo automotor - e essas situações aí em cima formam, em conjunto, uma amostra do que significou pra mim ser a responsável por ela nos últimos três anos: alguma dor de cabeça e muitos prejuízos. Mas tudo bem, nunca foi e não há de ser por causa de um carro, muito menos da Charlene, que vou passar a vida reclamando dessaalguma dor de cabeça, sinceramente acho que sair pra comprar pão, leite e jornal pode ser uma atividade muito mais intensa, viva e estressante (além de mais limpinha) do que ter que parar um caminhão na BR pra perguntar como é que se usa um macaco.

Então, à Charlene. Como se não bastassem todos os episódios bizarros que esse automóvel já me obrigou a protagonizar, ontem ele se deixou ser singelamente substituído por um adesivo amarelo feio pra burro com os dizeres "o veículo de placa tal foi removido, maiores informações ligue 3277-6500". Ótimo. Era mesmo o que me faltava, principalmente considerando-se que, no momento em que meu veículo foi removido (eufemismo bhtrânsico para “rebocado e largado num pátio ermo e distante em meio a um sem número de forrecas, carros roubados, kombis não legalizadas, caminhões com placas clonadas e o escambau”), naquele exato instante, eu estava na fila do DETRAN renovando minha carteira de motorista. Ótimo. Tudo por causa de uma faixa-azul adulterada.

- Let, será que eles vão te xingar? – foi o que a Sol perguntou quando eu contei essa minha epopéia.
- Como assim, Sol? – eu, só pensando que amo demais essa menina e nunca vou conhecer ninguém nesse mundo com tamanha pureza, doçura e quase inocência para escolher palavras em algumas situações.
- Ah, sei lá, na hora em que você for buscar o carro, será que eles vão te xingar?

Pois bem, Sol, aqui vai a resposta: sim, eles me xingaram. Xingaram e da melhor forma que sabem fazer, eles, os seres e entidades que, juntos, formam o tal do Estado: entregaram-me um boleto bancário pra pagar uma conta astronômica pela estadia (ó, céus, a BHTrans é de fato a princesa dos eufemismos) da Charlene naquele pátio entre os monstros da contravenção e ilegalidade automobilística, o que implicou que eu ficasse numa fila de banco quilométrica e pensasse cento e noventa e sete vezes: "Sim, Sr. Estado, já entendi. Eu preciso mesmo de seu aval para ir e vir, não sei nem o que seria de mim sem o senhor. Prometo ser sempre uma moça direita para com as suas leis. Salve, salve, Sr. Estado!..."

Argh.

Pra mim, Sol, foi castigo suficiente.
Acho até que nem meu pai me daria sermão tão eficaz!

Da Estrangeiridade

E se eu te dissesse desisto, me rendo, deponho armas, hasteio a bandeira branca, me entrego, deu, era isso? Se eu confessasse que lá, não tão no fundo, já nem sei mais que começo tem meu mundo e que fim tem a minha rua se não começo ou termino o dia me sabendo tua em todos os sentidos, de cima para baixo, pele, da esquerda pra direita, língua, de fora pra dentro, olhos, de cá pra lá, voz, de dentro pra fora, cheiro, tu tomarias o meu país, demarcarias as minhas fronteiras, farias teu o meu território e me colocarias um nome desses bem bonitos para me chamar de minha pátria, meu chão, minha terra, para deitar em mim tuas raízes, fazer correr por mim teus rios e brotar em mim tuas sementes de linho, algodão, trigo amarelo, pêssego branco? Dispensei meus exércitos.
Aguardo teu desembarque em minhas costas.

Não Discuto

Virgilina 

O nome dela é Virgilina - e sim, ela é virgem, aos 80 anos. É a “Tia Nastácia” da família. Não, não! A Tia Nastácia era apenas cozinheira e a “Vigi”, a Vigi não. Os domínios da Vigi vão além da cozinha. Começam no nosso coração, imperam em nossos estômagos e comandam nossa memória afetiva. A Vigi é a terceira avó de todos nós.

Bate abaixo dos meus peitos. É negra. É a cara do Didi Mocó. É semianalfabeta, não sabe falar tapewear nem táxi nem tóxico. Mas eu cresci achando que era minha tia-avó. E só me toquei que ela não podia, por razões óbvias, ser minha parenta de verdade – por “de verdade” entenda-se biológica - quando já com 12 anos um amigo me chamou a atenção (“irmã da sua avó como se ela é negra?”). Foi um choque. Negra? A Vigi não tem cor! Nem eu! Ela não é negra nem branca, ela é a Vigi! E decidi que isso não tinha a menor importância. Ela é minha avó também. Minha terceira avó. E ponto final.

Cozinha maravilhosamente bem. Só comida caseira, daquelas que fazem a gente se sentir em casa mesmo, tranqüilo, protegido e com a vida pela frente. E quem experimenta não esquece nunca mais. É tão bom que quando ela fala "Ih, hoje só tem arroz com ovo que eu tô pobre..." a resposta é certa: "manda!!!!". E olha que eu não gosto de arroz com ovo. Mas na cozinha ela é Deus. E o ovo de gema molinha dela é perfeito. Redondinho e sorridente.

É daquelas pessoas que depois que se vão, você fala com o olho cheio d'água e mesmo ainda viva, a gente se emociona. E ela se diverte com isso: "Daqui a pouco papai do céu me leva...". E eu surto, brigo, digo que vou morrer primeiro. E ela dá risada da minha angustia, pode?

Cresci comendo Creme Cascata. Um sorvete de três camadas caseiríssimo, presença garantida nos almoços de domingo. Uma delícia protagonista de brigas de foice entre primos, irmãos, pais e filhos, avós e netos pelo último pedaço! O pomo da discórdia, o pecado da gula, feito com carinho para os todos os netos.

A Vigi tinha um soluço que durou anos e finalmente acabou – junto com o hábito de chamar a família toda até chegar no seu nome. Quanto mais novo, mais longa a cantinela: Abigail, Alice, Aurélinho, Eulina, Ariston, Beatriz, Lurdinha, João, Ania, Ceres, Espéria, Verbena, Anita, Elyda, Regina-ai-meu-Deus, Pit!!! Tudo entremeado por soluços altos e fortes que faziam seu corpo todo tremer e as crianças, bom, as crianças riam escancarado. E ela também.

“A vida é um buraco, um buraco é a vida...”. O bordão derrotista é repetido já há uma vida inteira, enquanto as mãos fortes ralam o coco que vai se transformar em cuzcuz famoso e requisitado. O cheiro do camarão seco – “tomando ar pra ficar bem sequinho” – invade a casa, molhando a boca e avisando: Caruru vem aí! E o povo já começa a sonhar com o Vatapá. Esperar o bolo esfriar? Ah, Vigi, não dá! Bolo fofo, quentinho... tentação de mais. Será que o pastor, Glória-Glória-Aleluia, sabe que sua ovelha nos leva à perdição com a luxúria dos sabores? Louvemos-ao-senhor!

Dedo de Moça

eu queria ser sutil

eu queria ser sutil
mas não sei por onde começar

a última vez que choveu na minha vida eu estava em paris. a cidade estava cinza.
poucos turistas na rua, em compensação. em paris fui a montmartre.
em são paulo, hoje, chuva, me encontrei fumando marlboro lights e lendo g magazine.
momentos de altos e baixos.
temporadas de muito sexo. períodos de secura.

eu não vou tomar coca-cola. não vou. não.

eu queria ser sutil
mas não sei por onde começar.

eu queria um baseado.
eu queria meu namorado.
eu queria combinações legais mas só encontro as rimas fáceis.

Black Bird

22.1.04

Quanto mais eu leio blogs alheios mais eu percebo como minha vida é banal.Parece que nesse mundo virtual, ao invés de nerd, o que seria comum, todo mundo é foda pra "caraleo", todo mundo bebe pra "careleo", todo mundo é mimado pra "caraleo", e milhões de eticeteras.Mas todo mundo posta todo dia, 3 vezes por dia no blog, uma no fotolog e comenta, no mínimo, 356 blogs dos amigos fodões dos caraleos.Então, juro, acho que Deus tirou metade do meu dia porque as vezes não dá tempo nem de ler os meus e-mails, mesmo eu não sendo foda, nem saindo pra balada todo dia.Bem, na verdade eu tenho saido pra balada quase todo dia.Só não saí sexta (o porque vou contar no próximo parágrafo), sábado só saí a tarde (inteira, até quase a noite, por sinal...e depois ainda fui marcar presença no bar do Adolfo, o recanto dos intelectuais que não estão de férias nas suas cidades) e hoje porque fiz faxina em casa.Mas fui dar uma andadinha com o Marelo.
Então, sexta eu (já contei essa história pra quase todo mundo que lê meu blog) trabalhei demais.Tava com TPM, anfetamina na cabeça, imagina só o grau de histeria. Fiquei com raiva, mandei a equipe inteira de reportagem ir se masturbar com um nabo beeeem grande e grosso (via anal, independente do sexo) e vim embora soltando fogo pelas ventas.Resolvi fazer uma aula de pump com muito peso, pra ver se tudo passava.Cheguei em casa 7:30 da noite esgotada fisica e mentalmente, tomei um banho, dormi com o dia claro ainda e só acordei umas 15 horas depois.Passei o sábado todo de mau humor.Hoje eu acordei e fui comer bolinho de carne na feira (tava com vontade desde terça-feira, mas não tive tempo de passar comprar) e aí o dia começou bem.Fui pra minha faxina porque, como vivo dizendo, limpar chão é terapia.Fiquei com o Antonio, passeie com o Marelo e tava super feliz que não tinha comido quase nada além do bolinho que pingava gordura.Mas o Antonio "fez" (eu nem gosto de comer mesmo!) eu comer um monte de coisas boas e agora acabo eu, nesse domingo, me lamentando por amanhã ser segunda-feira, bebendo uma coca-cola de 2 litros no bico.Degradante!
O que me anima é que terça-feira é dia de mocotó!

Contra Ataque

21.1.04

Segundo dia de férias

Eu já tive uma reunião ao meio-dia e terei outra às três. Mas vim de Melissinha. ;D

La fille

Tentando comprar um livro

Mandei emails para vários vendedores, querendo saber se eles podiam enviar para o Brasil.
Essa foi a primeira resposta que eu recebi:

"Hi; Thanks for your inquiry. We can certainly ship to Brazil (given the cold weather lately, I'd like to ship myself to Brazil!)."

Gringos com humor, quanta diversão.

Quatro mãos e um teclado

20.1.04

Ser francês

Ser francês é complicar as coisas, como por exemplo escrever livros sobre “a narrativa”, “o lazer”, “o olhar”. Um bom anglo saxão tiraria o cachimbo da boca e diria que narrativa é só uma historinha, lazer é bom, e olhar é só olhar, que é que tem?


O francês pega um pouco de água com a mão, e começa a dizer para a classe, “O que é isto, esta imagem, esta mão contendo em sua superfície uma porção de água como um lago? Podemos a princípio pensar...”, e continua falando sobre isso muito depois que a mão está seca.


Capítulos de Bachelard sobre “o fogo”, “a lareira”, “a idéia de domesticidade”. Eles podem falar horas sobre qualquer assunto, andando de triciclo e mantendo cinco bolinhas de borracha no ar enquanto fumam gitanes.


E eis o método francês de escrever: eles pensam enquanto escrevem. A prova disso é a sucessão de sinônimos ou quase sinônimos, como se eles estivessem procurando a expressão exata às apalpadelas: “a figura do maldito, do pária, do condenado pelo tribunal invisível da sociedade, daqueles que são enforcados no rito diário da sociedade civilizada, dos cafés, do trabalho, do amor – disso que chamamos amor, que chamamos casamento, na cidade burguesa que é uma vasta teia de aranha e onde nós somos a aranha e as moscas, que é um coliseu eterno onde somos cristãos e leões a um só tempo...”


Escrevem por associação de idéias, entram num transe.


Sim, ser francês é pensar enquanto se escreve, é pensar tarde demais; se os franceses parassem pra pensar antes de escrever, todos os seus livros teriam um só capítulo, e o resto seria e bibibi bobobó.


- Gaston Bachelard, sobre o que é o seu livro?
- Sobre o fogo e umas coisas assim. Sei lá eu.
- Bernard-Henri Lévy, sobre o que é o seu livro?
- Ah, era uma coisa sobre liberdade, não era?
- Jean-Paul Sartre, o que nos diz o seu livro sobre essa admirável figura de maldito, Jean Genet?
- Esqueci, era sobre Genet, eu dizia umas coisas sobre Genet, não dizia? Uma figura, sei lá, meio mártir, meio palhaço... Que era um maldito, e um santo, e bibibi bobobó...

Alexandre Soares Silva

19.1.04

(sobre o fichamento do piloto da America Airlines)

É o irmão perdido do ACM: clonaram o coisa-ruim.
Foi preso porque mandou a PF se fuder, direito exclusivo dos traficantes cariocas.

Fserbcombrv3

Uma mulher não quer que o homem fique perguntando toda hora o que ela quer. Ela não quer ser definida, mas compreendida. Não pretende discutir relacionamentos no fim da noite, mas os filmes que ainda vai assistir, as expressões que ainda vai aprender. Uma mulher escolhe inúmeras vezes a roupa não porque é volúvel ou tem dificuldades de decisão, mas para ver seu corpo em seqüência. As roupas são o espelho, o espelho não é o espelho. O que a mulher quer está longe de significar um controle remoto, ela deseja que seus ouvidos sejam rezados com insistência, em voz e vela baixas. Ela deseja que o homem adivinhe seu desejo. Que fale palavras rudes com ternura, que fale palavras ternas com violência. Que a paixão seja inventada, não datilografada em sinais e segunda via. Porque quando uma mulher goza sai de seu corpo, o homem fica em seu corpo a assistindo. O que um mulher quer é visitar a mãe sem medo da mãe. Falar com o pai sem medo do pai. A mulher quer a inocência do medo da infância. O que uma mulher quer é uma piada que a faça rir bonita, não uma piada que a faça rir de qualquer jeito. O que uma mulher quer é que o homem feche a porta de noite para ela abrir de manhã. Ela quer ter um filho para não se matar de amor por uma única pessoa. Uma mulher quer a esperança de não ser ela, ao menos mensalmente. Ela quer falar com as amigas o que um homem não sabe ouvir. Ela não quer que o homem mude de assunto porque não o interessa. Quer que o homem entenda que nem sempre ele é seu assunto preferido. Ela quer dançar para outros homens para chamar o seu para perto. Ela quer dançar sem pensar que dança. Uma mulher quer ser restituída de seus erros, quer que acreditem nela quando mente, que duvidem dela quando fala a verdade. Uma mulher quer percorrer a saudade e não se abandonar. Uma mulher quer Deus estendido como uma praia vazia. Uma mulher quer ser perfeita dentro de suas imperfeições, detalhista em suas expedições pelas sobrancelhas. Uma mulher quer conversar para se perseguir. Quer ser olhada nos olhos, na cintura dos olhos. Quer que a janela se incline como um girassol. Quer ser a paisagem de sua cidade à noite. Quer ir vivendo o que não entende. Quer dizer o que sofre para não sofrer do mesmo jeito. Uma mulher quer descer do mundo em movimento. Ter sonhos eróticos para embaralhar as lembranças da semana anterior. Criar uma outra mulher dentro de si que a contraponha. Que seja legível como um pássaro no escuro, um rio no escuro, uma fruta na água. Uma mulher quer se sentir pressentida ao andar de costas, nunca chamada ou assobiada. Uma mulher quer descansar com afeto, sem intenções outras, ter os cabelos alisados e um colo, para perdoar o dia. Ela quer que o homem a ajude a enterrar o passado com direito a uma cruz e um nome. Que a ajude a desenterrar o futuro. Ela quer andar no mistério, mas de mãos dadas. Ela quer ser surpreendida com um beijo nos ombros, agradecer um espanto. Ela quer que a felicidade não seja permissão. Ela quer conferir se tudo vai dar certo para errar com vontade. Ela quer descobrir o que a vida quer dela nem tarde ou cedo demais. Ela quer que o homem feche as antigas relações e os frascos do banheiro. Uma mulher não quer que o homem fale por ela, como eu tentei fazer.

Fabrício Carpinejar

minha irmã me presenteia o dia todo com pérolas de cinismo, ela é uma das pessoas mais engraçadas que eu conheço (apesar do mau-humor). hoje ela me mandou essa:
"tudo aquilo que algum idiota diz que é urgente, é algo que este imbecil não fez em tempo hábil e quer que você se foda para fazer em tempo recorde!"

ZEL, a joanina rabugenta

Não contentes em fazer um eventual pênis crescer em mim, agora o povo do spam está me oferecendo Viagra e Valium.
E entregam em casa.

Bolo de cenoura com cobertura de chocolate e milkshake de Ovomaltime ninguém oferece, né?

Uia!

O calor insuportável tem me feito pensar em suicídio 5 vezes ao dia. Meu único alívio é chegar em casa e vestir a cueca que deixo na geladeira.
Amigo meu, mais radical, costuma também deixar o papel higiênico no refrigerador. Uhh, delícia...

Radamanto

- O keyneseano é um marxista holístico.
- O agnóstico é um ateu holístico.
- O bissexual é um viado holístico
- O stalinista é trotskista um holístico
- O blogueiro é um palpiteiro holístico.
- O advogado é um despachante holístico.
- O arquiteto é um decorador de interiores holístico.
- A ONU é uma ONG holística.
- O maiô é um biquíni holístico.
- A interdisciplinaridade é uma bagunça holística.
- O cowboy é um vaqueiro holístico.
- O holismo é uma heresia holística.

Pró Tensão

Vários filósofos descobriram o segredo do universo.
Mas como é segredo, não contam.

FDR

18.1.04

gritos

gritava e gritava e gritava, até que aparentemente não tivesse mais de onde tirar forças, vontade ou coragem de gritar. e gritava e gritava e gritava, dando medo aos que o circundavam e receio aos que à distância observavam a cena, o homem ajoelhado no meio do asfalto, gritando, gritando e gritando sem parar, o dó nas senhoras, a reprovação dos passantes em geral, as buzinas dos carros estridentes, e os gritos os gritos os gritos. o sol escondido pelos prédios altos e arranha-céus, o ar polúido pela emissão de gases e gritos gritos gritos.

tudo isso porque ragatanga não saía de sua cabeça.

e gritava e gritava e gritava.

como assim dois uísque?

ENTÃO CANCELA !!

1- Eu liguei pro Realvisa e pedi pra diminuírem a anuidade, que ia pra 4 x 24 reais. A atendente disse que era impossível. Eu disse: "então cancela". Ela respondeu: "mas senhor, o cartão é um cartão bom demais, etc. Eu disse:--Não vejo motivo pra pagar 100 merréis por mês pra pagar minhas contas com um pedaço de plástico. Ela disse: "mas senhor, nosso produto é diferenciado. Não podemos abaixar o valor" Eu disse: "então cancela". Aí ela disse: "espere um minuto, por favor....senhor podemos deixar pelo valor que está, 4 x 16 reais.
Eu disse: "então cancela". Ela respondeu: espere um minuto, por favor...senhor, podemos deixar por 3 x 16 reais.
Eu disse: "Não quero. Cancela." Ela novamente disse: "espere um minuto, por favor...senhor, podemos deixar então por 2 x 16. Aí eu concordei, mas tive a impressão que poderia sair dessa negociação com o Realvisa me pagando pra usar aquela merda....

2- A TVA reajustou os preços. Eu disse que não ia pagar aumento nenhum. A atendente respondeu: "Senhor, infelizmente não podemos fazer nada". O que que eu fiz? Liguei pra Net e assinei com eles. Liguei pra TVA e disse: "cancela!
A atendente robótica disse: "senhor, espere um minuto...o senhor não precisa cancelar. Manteremos o preço como está". Respondi: "Agora eu não quero, só estão me isentando do aumento porque eu estou cancelando!"
Eles ficaram desesperados, porque eu estava cancelando 2 pontos de pacote total e mais a internet de alta velocidade.
Abaixo seguem as propostas que eles continuaram fazendo e as minhas respostas:
- isenção de uma mensalidade - "Cancela"- isenção de duas mensalidades - "Cancela"- manutenção de apenas 1 ponto mais desconto permanente de mensalidade -
"Cancela"- manutenção de 1 ponto com pacote reduzido mais desconto permanente -
"Cancela"- proposto acima com inclusão de HBO e mais algumas mensalidades reduzidas
com internet de alta velocidade." -"Cancela.Cancela.Cancela!"
Cancelei e agora pago mais barato.

3- Quarta eu fui jantar num restaurante, e esqueci meu celular lá. No dia seguinte, eu liguei pra Vivo e pedi que desligassem o número por segurança, até eu recuperar o aparelho. A atendente disse, naquela língua do gerúndio odiosa: "senhor, estaremos cobrando uma taxa de 24 reais. " Eu me indignei: "como é? eu pago 60 reais pra usar o mês inteiro e vou pagar 24 reais pra não usar o celular por três dias?" Ela respondeu que não tinha jeito. O que que eu disse? "ENTÃO CANCELA!"
Aí ela disse: "senhor, um minuto que eu vou estar lhe passando pra outro setor." Atendeu uma outra mulher que disse que eu "poderia estar fazendo o cancelamento sem estar sendo cobrado pelo serviço. " Eu respondi que se ela estivesse fazendo isso eu ia estar agradecendo. De qualquer maneira, comprei um celular da Tim (125 minutos por 55 reais) e vou dar um chute nessa Vivo semana que vem. Vai ser divertido ver eles implorarem.

Não esqueçam as palavras mágicas: Então Cancela!

JACK ON THE WEB... Jack On the WEB...

O meu pai uma vez me disse que é bom ser assim, do jeito que eu sou, porque eu me destaco da maioria.

A paternidade não pode fazer bem às pessoas, simplesmente não pode.

me Jane you Tarzan

16.1.04

talvez eu não tenha lido os livros certos.
ouvi os discos errados
comi o que não devia
vi o que não podia
agora já foi.

jornalismo

Maldição de Murphy: é só dar sign out no blog e me vem um assunto pra escrever.

catarro verde

aos treze anos, eu era um pré-adolescente insuportável e cafona. eu achava o máximo usar 40 milhões de pulseiras ao mesmo tempo, e eu falava sobre o che guevara sem saber a sua nacionalidade. mas uma vez, eu tive uma sacada ótima;
a minha mãe disse "eu não suporto o seu tipo pseudo-intelecutal" e eu respondi "ai, o que é pseudo?"

adoçante

Coração leviano

Meu coração tem braços, pernas e rosto. Sim, ele tem. As pernas são curtas e grossas demais, os braços são longos demais, o rosto é feio e os dentes são tortos. Muito parecido comigo, meu coração.
Dormiu durante anos, então foi um susto imenso quando, há quase oito meses, ele foi acordado por uma voz e resolveu sair para ver de quem era: escalou pelo esôfago, dependurou-se na glote, usou a língua como trampolim e saltou. Muita disposição para quem dormia ainda há pouco. Quando pensei que ele ia esborrachar-se no chão – o que seria merecido, dado o atrevimento – ele abriu um par de asas. Feias, murchinhas, encardidas, mas ainda assim! Asas! Deu duas voltas pelo bar e veio pousar em meu ombro. Olhou para a dona da voz e resolveu nunca mais voltar aqui pra dentro, encantado por sei lá que tom de azul nos olhos e sei lá que tom de fina ironia na voz.
Agora ele vive assim, orbitando minha cabeça por onde eu vou. Às vezes ele sai, anda um pouquinho até ali, depois volta. Agora mesmo está tomando café lá na copa enquanto escrevo. Sinto-me meio constrangido com esse coração desavergonhado, sem pudor nenhum de mostrar-se a todo mundo. Eu olho para as outras pessoas, e todas elas têm corações disciplinados e obedientes, muito bem trancados dentro de suas caixas torácicas. Por que justo o meu tinha que ser assim rebelde?
Vez em quando ele pousa aqui no meu ombro, para ler algo que ela tenha escrito, ou então – mais raro – para ouvir sua voz. Às vezes o que ela escreve ou diz o deixa num estado de júbilo insano, e ele sai dando piruetas, fazendo acrobacias no ar, exibindo-se para espanto dos outros e para minha total vergonha. Em outras ocasiões, o que ela diz – ou, mais freqüentemente, o que ela deixa de dizer – o deixa cabisbaixo. Então ele vai para um canto, encolhe as asas e fica lá retorcendo as mãozinhas e resmungando. Nessas horas, eu bem sei, ele pensa em voltar aqui pra dentro e retomar seu sono confortável. Mas seu orgulho é muito grande, e ele jamais aceitaria tal derrota.
Vai ficando por aí, portanto. As pessoas apontam para mim, cochicham, riem. Aos poucos eu me acostumo.

Jesus, me chicoteia!

Imagino se sabes da minha devoção à simplicidade do teu amor, que se fez a despeito das contra-expectativas, dos rumos duvidosos, da incredulidade à espreita. Meus medos te cospem no rosto e tu os desafias, manso e pacífico, inabalável em tua determinação. Eu te duvido, te desacredito, te renego e tu sorris, acaricias meus cabelos, catas os espinhos escondidos entre as mechas, me pões uma cereja na boca, apascentas meus olhos com tua sinceridade infantil, me pegas pela mão, úmida de ansiedade, e me levas contigo por sobre os telhados.

Não Discuto

15.1.04

Altos papos com vovó:

- Vó, você era comunista?
- (indignada) Nããão... Eu sempre fui católica!

me Jane you Tarzan

QUEM GANHA É A CARTA

A vida, para o meu caríssimo FDR, é comparável àquelas situações em que você só tem um cigarro e o acende do lado errado. Eu já penso que ela é igualzinha àquele quadro do programa Silvio Santos em que as crianças eram levadas para dentro de um foguete, com tampões de ouvido, e tinham de responder "sim" ou "não" -sempre gritando, "SIIIM!", "NÃÃÃO!"- às perguntas do apresentador (sem ouvi-las), a cada vez em que a luz vermelha se acendesse. Tenho certeza de que troquei um harém ou um palácio de Versalhes por uma caneta Bic sem carga. Mas não posso me queixar -ela é ótima para coçar as costas. É preciso imaginar Sísifo coçando as costas e feliz. (Pensando bem, não dá pé. Se Sísifo parar para se coçar, a pedra rola por cima dele e o esmaga. Oh, vida.)

puragoiaba

Torturaram-me!

E se você descobrisse que uma parte da sua família tem passos de dança, a routine, tudo muito bem coreografado, e que, não obstante a sua dedicação sobre-humana, você, inepto ébrio, não conseguisse decorar aquela coisa tão 70's? Vergonhoso. Lamentável.

Tem gente que começa escrevendo artigos com "Lamentável. Mais uma vez o Brasil dá provas de que...". Gente porca.

A tortura vai cessar, vai, vai. E passarei a escrever mais a palavra cãibra, porque é bonita do jeito que é. "O Pinto Que Tinha Cãibra". "O Cãibro d’Angelico". "Morreu de Cãibra ____" (no pinto, no coração, etc. Inúmeras variações aqui).

O que eu vou ganhar de aniversário? Não me dêem coisas de pobre.

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A pale cast of thought

Não sou um de vocês. Não sou sabedor de coisa alguma. Sou parte do legado de nossa miséria. Tudo em mim é fragmento.

Nos vãos do meu espírito ecoa o soturno tugido de um urutau, que me tresnoita a existência, repetindo: "sofra mais". Sou um leguelhé fanhoso, recém apeado da puerícia, mas já engolfado pelos olhos sardônicos do mundo.

Hoje o teen finalmente desgruda da minha idade, alijando a wertherite aguda responsável por posts surreais.

I’ve stitched lies upon my patchable soul. Mea culpa. A alma gentil e carinhosa não pode ser responsabilizada pelas ilusões por mim projetadas naquele feerismo fóguico que me preenche o coração, o mais apertado dos infinitos.

Forjando-me prócer, ouço de meu púlpito a ensurdecedora balbúrdia de meus conviventes, que me ignoram o cansaço – e o medo de tornar-me promissor para o resto da vida.

A Stirre's Secret Lair

Na casa da mãe ainda tem uma vitrola. E lp's. Muitos. Quando vou visitá-la sempre aproveito a ocasião para ouvir alguns vinis que não encontro em CD de jeito nenhum: "Um Cavaquinho Acontece" de Waldyr Azevedo, "Africa Goes Disco" com John Ozila (alguém mais tem esse disco?) e "Moscou" da franquia alemã do grupo "Gengis Khan". Este último é o meu "trash dos trashes". O grupo é o que o ABBA seria se os seus integrantes fossem membros da facção gay da juventude hitlerista, ou coisa assim. Se não ouço um dos três discos fico com a impressão de que faltou alguma coisa.

Letra Morta

14.1.04

Eu achava que não gostava daqueles abraços de homens que ficam com vergonha de se abraçar e trocam aquela espécie de semi-abraço, aquela coisa meio de lado, só os ombros se tocando, na certa achando que abraço de frente é viadagem.

Pois bem, descobri que o que odeio mesmo, muito, é homem que dá abraço de verdade mas, para parecer mais másculo, viril, o que seja, aplica uns tapas daqueles de fazer vibrar a louça nas costas do amigo.

palavras brutas

Existem algumas maneiras simplesmente sensacionais de começar o dia. Descobri uma delas.
E não vou contar.

Perolada

as vezes tenho uma leve suspeita que o meu tempo é esquizofrênico. tem uma dupla personalidade. duas persoanlidades bem claras. é. as vezes o meu tempo demora mais do que o normal para passar. e as vezes, o fila da puta voa. agora por exemplo, olhei para a porra do relógio e levei um susto. caceta, já são quase três da tarde. tenho certeza que se eu perguntar pro carinha que senta na minha frente que horas são, ele vai dizer que ainda são onze da manhã. tem dias, por exemplo (geralmente uma sexta-feira) que o tempo se arrasta. demora. pula numa perna só. tenho que levar o meu tempo para o analista. fazer o fila da puta se "encontrar". desabafar. fazer o ponteiro dos segundos, o ponteiro dos minutos e o da hora se entenderem. descobrir que caráio ele (o meu tempo) quer fazer com a sua vida: voar ou se arrastar? porra. numa boa. é bem cafuzo as vezes. é complicado se acostumar com essa putaria. o meu tempo é assim. chegou voando até as três da tarde. mas agora, só de sacanagem--de filha da putice mesmo-- vai se arrastar até as oito. de pirraça mesmo. já adiantei o relógio pra ver se eu pegava ele (o tempo) no jogo dele. mas o viado sempre me pega antes. fila da puta. se amanhã ele continuar assim-- vou tomar uma decisão séria. vou ligar para um psiquiatra dos bons e marcar uma consulta. "boa tarde!? é do consultório? então, eu queria marcar uma consulta com o psiquiatra!" aí a secretária perguntaria: "mas é claro, qual é o nome do paciente?" e eu, com uma mão tampando o meu relógio, simplesmente diria: " swatch! relógio swatch. e por favor, não estranhe se o fila da puta chegar atrasado. ou adiantado. ou na hora... "

caráio

"Era um douto, ao dar-me disse dou-to."

-- inscrição anônima no reservado feminino da Academia Brasileira de Letras, anos 90.

Prosa Caotica

O Vendedor de Catracas e o Imperador do Castelo das 999 Pontes Azuis

Pedro Cardoso - Pau-La-Pin
Alexandre Garcia - Imperador
Paulo César Pereio - Sábio do Condomínio Fechado
Serginho Chulapa - Uirapuru Grená


Era uma vez Pau-La-Pin, um jovem vendedor de catracas que vivia em um pequeno vilarejo à beira do rio Pin-Hei-Roo. Como nas aldeias da região todos já faziam uso dos seus controladores de circulação, o jovem vendedor de catracas resolveu partir em busca de novos mercados e conquistar negócios mais nobres em terras mais distantes.

Pau-La-Pin despediu-se de sua família. Beijou sua mãe, que chorava copiosamente, abraçou seu pai, que tocava lamentos de despedida em um instrumento feito de ossos de texugo, deu uma rapidinha com suas três esposas. Assim, o jovem vendedor de catracas partiu em viagem rumo ao Castelo das Pontes Azuis, acreditando que o Imperador pudesse - quem sabe - lhe firmar um contrato de exclusividade para as 999 pontes que conduziam ao Castelo.

Durante a longa viagem, por vezes extenuante, passando por desertos escaldantres e pântanos contaminados; atravessando rios caudalosos e furimbundos; ultrapassando montanhas que pareciam lamber os céus; fugindo de baratas, aranhas e pequenos roedores; copulando com preás e flamingos; Pau-La-Pin pensava até em desistir, questionando sua ambição por novos mercados para suas catracas.

Porém, depois de meses de longa jornada, o Castelo das Pontes Azuis emergiu na paisagem coroando o mais alto pico acima de um vale profundo coberto de nuvens muito brancas. Suas 999 pontes conduziam a um imenso portão principal com o formato da cabeça de uma garça azul. Tudo estava em silêncio e não se ouvia nem o zumbir de um inseto. Pau-La-Pin atravessou a ponte principal e adentrou o enorme Castelo despovoado. Seus passos ecoavam nas paredes ricamente adornadas. Lá dentro, no centro do Salão Esférico, todo recoberto de ouro e jade azul, encontrou o Imperador em seu manto de seda azul, sentado em seu trono azul, que a tudo monitorava por suas câmeras de segurança azuis.

– Ó nobilíssimo Imperador do Castelo das Pontes Azuis, vejo que possuis muitas pontes que conduzem ao seu castelo. Eu vendo catracas. Tamos aí nessa boquinha?

Ao que o sábio Imperador respondeu:
– Ora, ora, meu jovem e afoito vendedor de catracas… É muita petulância dirigires ao Imperador desta forma. Nós já possuímos um serviço de segurança magnífico, com monitoramento por satélite, infravermelho, raio-laser americano e o escambáu. Por que compraria catracas mequetrefes de um coitado como tu? Saibas que aqui no Castelo das Pontes Azuis apenas aceitaríamos nada mais e nada menos que a Catraca Perfeita. Tens essa Catraca Perfeita em estoque para pronta entrega?

Pau-La-Pin, assustado respondeu:
– Olha, no momento estamos em falta da Catraca Perfeita. Não serviria talvez uma Quase-Que-Perfeita com sensor ótico digital e cinco anos de garantia?
O Imperador levantou-se visivelmente transtornado e bradou:
– NÃO! Somente a Catraca Perfeita poderá ser instalada no Castelo das Pontes Azuis! Ó intrometido vendedor de catracas, se não trouxeres a Catraca Perfeita em exatamente 7 luas mandarei atirá-lo no Abismo das Nuvens Eternas que cerca o Castelo, onde as pessoas demoram 99 anos para atingir o fundo, que por sinal está repleto de cocô de dragão e guimbas de cigarro. Agora vá e não retorne sem a Catraca Perfeita. E com manual de instalação traduzido. Você tem sete luas! Vá!

Como que do ar, materializaram-se em torno de Pau-La-Pin 99 seguranças que o arrastaram até o fim da ponte principal.

Pau-La-Pin desolado, não sabia o que fazer. A lua, que emergia no céu e parecia sorrir-lhe com escárnio, avisava que seu tempo já estava correndo e que ele deveria partir imediatamente em busca da Catraca Perfeita. Claro que todos buscamos a Catraca Perfeita – pensou Pau-La-Pin – mas onde eu poderia encontrá-la?

As luas foram se sucedendo e por muitas terras perambulou Pau-La-Pin. Porém ele não descobriu quem soubesse aonde poderia encontrar essa tal Catraca Perfeita. Isso é apenas uma lenda, diziam. A Catraca Perfeita não existe; mais cedo ou mais tarde todas apresentam algum defeito de hardware, software ou nas partes mecânicas. As coisas tendem a degringolar, é assim mesmo, não tem jeito, é o princípio da entropia e bla bla bla. Mas Pau-La-Pin continuava obstinado em seu propósito de – mais do que agradar o Imperador – encontrar essa tal catraca. A Catraca Perfeita.

Depois de seis luas, com bolhas nos pés e chorando sentado em uma pedra à beira de um riacho, um uirapuru grená pousou no ombro de Pau-La-Pin e lhe disse:
– Crá! Se quiserdes encontrar a Catraca Perfeita deves procurar o Sábio do Condomínio Fechado. Crá!
– Claro! Que 9 mil gafanhotos comam minha túnica! Por que não pensei nisso antes!? O Sábio do Condomínio Fechado saberá me ajudar! Obrigado, uirapuru grená.
– Crá! Obrigado nada, vai... Ah, deixa pra lá! Tou só aqui para encurtar a história mesmo.

Exausto por sua busca interminável, o jovem vendedor de catracas finalmente chegou ao Condomínio Fechado com muralhas de 9 mil metros de altura e, pelo interfone, perguntou:

– O Sábio do Condomínio Fechado está aí?
– Vou ver se ele pode atender. Quem gostaria?
– É Pau-La-Pin.
– De onde?
– Pau-La-Pin, o vendedor de catracas.

O vendedor de catracas escuta pelo interfone vozes abafadas:
– É a pizza?
– Não, ó Grande Sábio do Condomínio Fechado, é um vendedor de catracas.
– Putamerda, de novo! Todo século aparecem esses malas, não faz nem uma década não apareceu aqui o vendedor de filtros de piscina, procurando o filtro de piscina inemtupível? Alou, fala rapaz!!!
Pau-La-Pin gaguejando responde:
– Ó Sábio do Condomínio Fechado, onde é possível encontrar a Catraca Perfeita, satisfazer o Imperador do Castelo das 999 Pontes Azuis e assim conquistar negócios mais nobres em terras mais distantes e por conseguinte ganhar mais um dim-dim para melhor poder sustentar a minha família?
– Hein? Por favor, você pode falar mais perto do interfone? Está com malcontato…
– Sim… Oi, tá me ouvindo? Alou? Viu, seu Sábio, onde é que eu encontro a tal Catraca Perfeita?
– Não é Sábio. É Fábio. Todo mundo acha que é Sábio por que o interfone tá com chiado. Mas é Fábio, viu? Eu sou o Fábio do Condomínio Fechado.
– Ahhh.
– Mas claro… Você deve ser o jovem vendedor de catracas em busca da Catraca Perfeita… Pois muito bem! Ouça com atenção o que tenho a lhe dizer. Só vou dizer uma vez. O interfone tá uma bosta. Tá ouvindo? Pois então, escuta só: Nenhum homem é uma ilha. Tá entendendo? Assim como nenhuma mulher é uma península. Nenhuma criança é um golfo e nenhum Imperador, por mais gordo que esteja, é uma montanha. Tá certo? Mas o soldado raso pode vir a ser um cabo. Entendeu? Bom, então é isso. Se o cara da pizza aparecer diga para passá-la por debaixo do portão, que o botão que abre a porta não tá funcionando direito também. Obrigado e boa noite.

Atônito, Pau-La-Pin apertou mais uma vez o botão do interfone.
– Mas como assim? Como assim? - Mas mais nenhuma resposta foi dada. O interfone realmente estava uma bosta.

Como seu prazo estava se esgotando e a última lua já surgia no céu, Pau-La-Pin decidiu voltar ao Imperador do Castelo das 999 Pontes Azuis e aceitar seu destino.

– E então, vendedor de catracas – disse ríspido o Imperador do Castelo das Pontes Azuis – onde está a minha Catraca Perfeita?

Cabisbaixo, diante do Imperador, Pau-La-Pin se curvou, fez todas as reverências possíveis e quando abria a boca para dizer que não havia encontrado a Catraca Perfeita sua mente se iluminou. Então disse ao imperador:

– A Catraca Perfeita, ó nobre Imperador, está dentro de nós mesmos.

O rosto do Imperador subitamente também se iluminou. Um grande sorriso desabrochou em sua face corroída pelas rugas seculares de preocupação com a segurança de seu castelo.

– Dentro de nós mesmos? - Perguntou, coçando sua longa e fina barba branca.
– Sim. A Catraca Perfeita é a Catraca Interior.
– Puxa vida, legal! - exclamou o Imperador - Bacana isso aí que você falou.
– Legal, né? Saquei isso agorinha mesmo. Puta lance místico. Assim, pum, de repente, saquei tudo!
– Superlegal, nossa, muito cabeça mesmo. Catraca Interior, gostei. Olha só: Meu caro vendedor de catracas, agora você passará a ser o Catraqueiro Oficial do Império com direito a prioridade em todos os contratos feitos em todas as pontes do reino e comissão de 7% nos demais equipamentos de segurança instalados. Gostou? Pois agora levante-se.

Pau-La-Pin sorridente ergueu-se sobre suas pernas cambaleantes. O Imperador colocou a mão sobre o seu ombro e ambos atravessaram o portal com formato de cabeça de garça azul e caminharam sobre as pontes azuis suspensas sobre o Abismo das Nuvens Eternas e brancas.

– Está vendo essas 999 pontes azuis? Você terá o controle de acesso sobre cada uma delas. Mas antes vamos só rever esse lance de catraca interior. Quer dizer que a Catraca Perfeita está dentro de você, não é?
– Sim.
O Imperador fez um gesto com a mão. – Seguranças, abram a barriga desse desgraçado. Se não encontrarem nenhuma catraca dentro do infeliz, joguem o corpo no abismo.

E assim foi feito. Como a Catraca Perfeita era apenas uma metáfora muito ruim, até hoje Pau-La-Pin continua caindo em direção ao fundo do abismo onde só há cocô de dragão, guimbas de cigarro e várias carcaças de espertalhões que acharam que poderiam engambelar o Imperador do Castelo das Pontes Azuis com literatura de auto-ajuda de terceira categoria.

O Sinistro

Sabe o que daria uma boa história? Algo sobre um palhaço, que faz as pessoas felizes, mas por dentro, ele é bem, bem triste. E mais: ele sofreria de um tipo raro de diarréia

Eu tinha tudo planejado... sim, há vezes que eu planejo o que eu vou escrever. O que faz de mim um obcecado por este blog. O que é assunto pra um outro post.

Ontem, antes de dormir, eu fiquei deitado na cama pensando sobre várias coisas, entre elas, na reportagem que vi na TV sobre uma espécie de ópera nudista. Eu adoraria vê-la, porque quando os cantores atingem as notas agudas, aposto que dá perceber nas suas genitálias.

E pensei em algo realmente legal. Eu não lembro sobre o que, mas aquilo me entusiasmou tanto, que eu senti a necessidade de levantar, procurar papel e caneta, e anotar. Tudo isso no escuro. Seja lá o que fosse, eu queria me lembrar para postar no blog.

Então hoje de manhã, depois de tomar meu café, eu fui procurar pelo tal papel, certo de que algo realmente hilário estava prestes a ser escrito.

Achei um papelzinho amarelo. De um lado, estava o nome de uma música que eu tinha ouvido no rádio, e pretendia pegar na net. E do outro, escrito de uma maneira quase ilegível, "eu nunca cavalguei um elefante".

Acho que talvez eu esteja desenvolvendo um tipo de senso de humor altamente avançado.

Aquele que nem eu consigo entender.

Pilo

13.1.04

Um amigo constuma dizer que fulano é “bacana”, o ambiente é “bacana” e gente chic é muito “bacana”. Outra, diz que “ama” o namorado, “ama” doce-de-leite, “ama” o pôr-do-sol e “ama” tudo que, enfim, gosta, aprecia ou, coincidentemente, ama. Ambos, o “bacana” e a “amante”, com menos de trinta anos e educados em famílias educadas. Mas sofrem do mesmo mal contagiante de uma geração, que é a da perda dos adjetivos. A geração com menos de trinta não sabe adjetivar. Não sei a razão disto, mas o fato é que só existe o padrão do “tudo” ou “nada”. Sorvetes de creme são amados ou odiados. Não são cremosos, doces, saborosos, deliciosos ou supinpas. Apenas são amados. Gente interessante não é fina, sofisticada, perspicaz, educada, polida, elegante, boa, afetuosa, vivaz, ou simplesmente espirituosa. Se tiver algumas dessas qualidades, ou, não as tendo, for simplesmente rica, é apenas “bacana”. Há uma supressão de valores intermediários, que são jogados no arcobouço do “in” ou “out”, em perfeita harmonia com o que é nossa sociedade brasileira. Ou você está dentro, ou, amigo, você está no limbo social. A toda uma geração, mais do que adjetivos, falta é criatividade. Não é uma geração tão bacana quanto pensa ser.

amarar

Você, amiga, certamente já passou pela situação de achar que tinha encontrado seu príncipe encantado, a outra metade da sua laranja, a azeitona da sua empada e a criatura ser suuuper atenciosa, amada, querida, fofinha, etc, até o caldo começar a engrossar.

Abre parênteses:
O caldo começa a engrossar quando: vocês já saíram umas vezes, já conversaram bastante, já transaram algumas vezes e foi muito bom, já se ligaram pra saber como andava a vida e ... e agora?
Fecha parênteses.

E aí, o seu pretê (expressão roubada do 02 Neurônio) começa a se fazer. É. Não liga, atende o teu telefonema super ocupado e diz que te liga depois e não liga, vai sumindo aos poucos, como quem não quer mais nada (ai!), saindo à francesa. Sacumé?

Então, das três, uma:

(1) Ou o cara cai em si e vê que se continuar bancando o idiota, vai pro espaçoooo e resolve fazer a coisa como tem que ser,

(2) ou você dá um S2 no pretê (subsolo 2, onde se guardam as tralhas - expressão by Grazi) e desencana,

(3) ou você senta com o querido e fala a verdade: "- Aqui ó, canditados a passar horas agradáveis comigo têm filas e filas. Se é só isso que tu estás afins, pega a ficha 15 e espera a vez".

Se, nem assim, ele se coçar, a rotina a executar é :

1) Delete;
2) Lixeira;
3) Esvaziar lixeira;
4) Abrir documento novo.

megeras magérrimas

Florianópolis foi assim:

Choveu. Digo, no primeiro, segunda e terceiro dias. Com aquele friozinho, sabe como é? Achamos que ia ser muito coisa de turista ir pra praia e ficar arrepiada que nem galinha. Deixa pra quando sair o sol, sem apelar.

E o quarto. Sim, achamos que fosse um pequeno apartamento, mas na verdade, era um quarto com cozinha e banheiro e sacada. E árvores fazendo sombra na sacada. Que ótimo, o quarto era fresco. E a cozinha. Uma geladeira toda pra nós! Das grandes mesmo, não daquelas pequeninas. E que você enche com as próprias coisas que quer e não com castanhas de caju e Sprite que você sabe que vai comer as castanhas e que elas vão custar 4 vezes o que custam no mercado e ter que tomar Sprite porque é o único refrigerante que tem e bem, serve ele mesmo afinal. Não, nada disso. Nossas próprias comidas.

E a cozinha, né? Todinha equipada, disse o dono lá da pousada. Todinha, realmente. Até forma de pizza. Até potinhos daqueles que a gente usa para fazer gelatina. Tudo lá. Tudo mesmo.

E o banheiro. Limpinho. Com chuveiro que esquenta quando você precisa e esfria quando mais quer. Delícia das delícias.

Daí, né, que a geladeira era estranha. Colocamos queijo, leite, mortadela, pão e frutas lá, mas como ela não gelava muito, acabei girando o trocinho lá do termostato e esperamos que tudo acabasse bem. Acabou foi com o leite talhado a mortadela estragada, a margarina mole e bem. A geladeira decidiu que em vez de gelar mais ia repetir ciclos de descongelamento sucessivo. Ótemo, ótemo. Até que Respectivo fez lá qualquer coisa e ela voltou a ser uma geladeira comum. Mas nós perdemos totalmente a confiança na bichinha e nunca mais. Só água.

E os utensílios da cozinha? Tudo velho e acabado e mal cheiroso. Sabe panela velha que você leva pra casa de praia porque só vai lá mesmo no fim do ano e muito bem? Desse jeito. E os talheres, aqueles com cabo de madeira, meudeus, eu me assustei só de pensar no tanto de bactérias ali contidas. Nojento. Aquela madeirinha que só de molhar fica meio mole. Sabe como é? E a gente elogiando a iniciativa de colocar sobre a pia uma bucha nova e um detergente de maçã.

A cama, ódeus, a cama. O colchão côncavo. Você se deita na beira e sai rolando até o meio da cama. Cansativa a luta para ficar no lugar em que quer durante a noite. Escolha o morrinho na beirada para ficar na parte em que o colchão ainda pode sustentar o peso de uma criança de doze anos ou o meio da cama, onde não vai precisar se esforçar para não rolar, mas onde o colchão tem 3 dedos de espessura.

E o banheiro, tão lindo e cheiroso e limpo. Tente ir ao mesmo banheiro uma semana depois, sem troca de roupa de cama, sem limpeza oferecida pela pousada e com as formigas gigantes andando do chão, próximo ao vaso, até o quarto, embaixo da cama. Medo, medo mortal. Gigantes, assim como do tamanho de uma falangeta.

Mas pelo menos não tinha baratas. Uau, sem baratas, é realmente um alívio. Até que eu vejo uma enorme mancha marrom se deslocando sobre a parede branca e Respectivo vai lá, corajosamente armado com uma sandália minha para esmagá-la, sem dó. É assim, pessoal, o mais forte vence o mais fraco. Mas ele erra e ela voa! É uma barata voadora. Ela não só foi alimentada com a mesma substância que fez com que as formigas assumissem aquele tamanho descomunal, mas ela também tem asas e sabe usá-las. Ela se esconde entre as minhas roupas, dobradas sobre a bancada que separa a cama da "cozinha equipada" e foge em seguida.

Melhor colocar as bolachas água sal dentro da geladeira traidora.

Enfim. Nos três primeiros dias com chuva, não há muito o que se fazer. Tentamos ver o Senhor dos Anéis do ÚNICO cinema aberto da cidade, no shopping, mas todas as pessoas dos estados do RS, PR, SP, RJ e SC, que estavam na ilha na mesma situação, aparentemente tiveram a mesma idéia. Foi impossível. Os outros cinemas entram em recesso de fim de ano. Veja bem. Um cinema. Fechado. Durante as férias num local turístico. Cof-cof. No further comments.

Sobrou uma visita ao Centro da cidade para comer o famoso pastel de camarão com recheio de 100g. A inacreditáveis 8 reais. Fala sério! 8 reais por um pastel? Vá lá. Era gostoso e. Bom. Depois, fomos à Casa da Alfândega e vimos artesanato da ilha. Choveu. Ficamos presos um instante. Saimos para andar e procurar um banheiro. Dizem que em todo o mundo os banheiros do Mac são limpos e confiáveis e lá fomos nós. Parou de chover. Fomos ao Museu Histórico. Não é lindo fazer passeios culturais. Seria. Se o museu não estivesse fechado numa terça-feira.

óbem. Mas depois houve sol e houve praia e passeios felizes e vimos a querida Mi e o querido Lípio que estavam por lá, amigos meus, e conseguimos conviver em relativa paz com a geladeira, as formigas e baratas gigantes, a sujeira (pouca, que tentávamos não ser muito sujantes) e decidimos comer fora todos os dias, exceção feita para a noite em que assamos um pizza Sadia. Depois que acabou o mata-mosquitos de tomada, descobrimos que ali também vivem pernilongos.

Ao menos não fazia calor no quarto. E tinha ventilador de teto para espantar mosquito. O que nos obrigava a dormir com coberta.

a menina do didentro

Rapid Eye Movement

De ontem para hoje eu estive numa festa de junkies, fui atacada por uma mulher-zumbi com olhos de vidro que saltou do escuro e agarrou meu braço, estrelei uma novela do Manoel Carlos interpretando ninguém menos do que Capitu e vi gatos mutantes crescerem orelhas de coelho imensas.
Se de analista eu obviamente não preciso mais, alguém conhece um bom anotador de jogo do bicho, por favor?

La fille mal gardée

A Saga do Primeiro Beijo (Post XXVI)

Cinco horas da manhã e nós duas conversando. Combinamos acordar por volta do meio-dia. Ligaríamos para o Kiko, passaríamos na casa do Murilo e sairíamos os quatro. Parecia um bom começo, tanto para as nossas relações de amizade quanto para os possíveis namoricos.
Muito antes do inicio da tarde, fomos acordadas pelo barulho estridente de uma ave que parecia um papagaio. Meus irmãos, empolgados com a aquisição do ser gritante, corriam em volta das nossas camas enquanto a Aruska tentava calar a ave com uma dentada certeira.

- Tira esse bicho de cima de mim!
- É um papagaio! Temos um papagaio! Temos um papagaio!
- E que tipo de droga vocês deram pra ele ficar assim?

Meus irmãos não tinham idade para saber o que eram drogas, mas nem mesmo a pergunta bem humorada da Marilu me fez sorrir naquela manhã. Eu não havia acordado bem e a culpa não parecia ser do papagaio.
Recuperadas do ataque matutino, saímos de casa sem que meus pais fizessem muitas perguntas. Parecia um milagre digno de me arrancar algum tipo de alegria, mas meu humor continuava péssimo. Mal cumprimentei o Murilo. Da casa dele, ligamos para o Kiko, marcamos de nos encontrar em frente ao museu e seguimos nosso destino.
Durante todo o percurso, tive que agüentar o Murilo tentando me dar o beijo interrompido na noite dos meteoros. Um sol infernal, o motorista do ônibus em alta velocidade, a Marilu quieta no banco ao lado e o Murilo querendo conversar, beijar... Minha cabeça parecia que ia explodir. Eu não distinguia mais a minha insegurança daquele mau estar. Me esquivei dos beijos, mas segurei em sua mão na tentativa de buscar algum conforto. Ele deve ter compreendido o gesto como um sinal afirmativo do namoro e me deixou em paz.
Quando chegamos no MAM, as coisas pioraram. O Kiko e a Marilu perceberam o meu estado e acharam que era melhor manter distância. Àquela altura, eu já estava agressiva.
Todas as alamedas, aquela exposição e as pessoas a nossa volta só aumentavam a minha indisposição. Murilo não sabia mais o que fazer e, na tentativa de não estragar o dia de todo mundo, sugeri que saíssemos do museu e caminhássemos um pouco pelo parque.
Em busca de sombra e água fresca, paramos próximos ao lago e ficamos conversando. O bate-papo descontraído e a brisa fizeram com que eu me animasse um pouco, o suficiente para que o casalzinho feliz me deixasse a sós com o Murilo novamente. Ele, por sua vez, voltou a insistir no beijo e eu, exausta de tanta resistência, deixei...

"Ok, vamos lá. É só um beijo. Já treinei beijo de língua na minha mão, em frente ao espelho e com uma maçã. Não há o que temer. Hum...beijinho roubado bom! Mas e agora? Não me olhe desse jeito... Vem, eu deixo você me beijar... Ah, bom. Pensei que tivesse desistido. Você não deve saber disso, mas beijar meus lábios com a minha aprovação também está bom. Abraço bom... Opa! Estranho... Iu! Que língua é essa? Precisa enfiar esse troço na minha boca com tanta força? Ai meu dente! Ok, está tudo bem. Foi só uma arranhadinha. Acontece. Mas será que podemos voltar aos beijinhos? Hum, passar essas mãos pelo meu rosto e cabelo está muito bom... Mas e eu? O que eu faço com as minhas? Vou deixá-las aqui nos seus ombros antes que eu faça bobagem. Uma coisa de cada vez... Não! Babação não! Não vou pensar na troca de micróbios, não vou pensar na troca de micróbios, não vou pensar na troca de micróbios... Este é o tipo de nojo sem cabimento! Caramba, esse menino não deve saber o que está fazendo. Pra que bloquear a minha traquéia? Ar, eu preciso de ar. Ok, ok... Respirar! Eu preciso controlar a respiração e relaxar. Pensamento positivo... Não há o que dar errado. Impossível que eu faça isso pior do que ele. Vamos tentar... Ei, será que eu posso misturar minha língua com a sua? Iu, nada bom desse jeito. Devolva minha língua! Como pode esse menino ser tão cobiçado pelas meninas? Parece um camaleão. Isso não é um beijo, é um bote. O que ele pensa que esta fazendo com o céu da minha boca? Isso faz cócegas e não parece nada nada com o beijo que eu achei que você me daria. Vai me asfixiar, seu imbecil! Ufa, ainda bem. Obrigada, deus! Suave, melhor. Me deixa descobrir com calma como isso funciona. De onde vem essa tontura? Que cara será que ele esta fazendo? Não estou me sentindo bem... E se eu abrir o olho só um pouquinho? E se eu abrir e ele perceber? Duvido. Ele voltou a se concentrar na extração das minhas amígdalas, não deve estar pensando em abrir os olhos. Vou olhar e pronto! Não ria. Não ria, Alessandra! Segure este riso! Não há porque rir. Se esse menino me apertar mais um pouco e o sol aquecer a terra só mais um tiquinho eu vou cair dura e seca nesse chão. Ah, não! Não babe tanto, não babe tanto, por favor... Meu estômago não está legal. Calor insuportável... Quer saber? Chega! Babar mais do que a minha cachorra é um pouco demais para o meu gosto"

Me afastei do Murilo e o "chega" escapou dos meus pensamentos e saiu pela minha boca em voz alta. Eu não estava bem.

- O que foi?

Não soube o que dizer. Olhei para o Murilo, para aquele lugar, para mim e tudo me embrulhava o estômago. Não sabia mais se era o sol ou uma febre. Comecei a transpirar e a sentir o corpo fraco e dolorido. Tive vontade de chorar sem ter a menor idéia de onde vinha aquele monte de sensações e reações. Foi tudo muito rápido. E eu deveria ter chorado, mas nunca ter dito o que eu disse.

----------> Continuará em Amarula com Sucrilhos

Nem tão fechado em si que distante demais do outro e das coisas, uma vez que o outro e suas coisas são, sim e sempre, muito valiosos. Por outro lado, nem tão próximo do outro e suas coisas que te seja possível reparar-lhes todas as nuances, já que o outro e suas coisas, de perto demais, invariavelmente têm manias irritantes, te parecem sistemáticos, emitem ruídos insuportáveis quando comem, dizem e cometem incoerências, defendem inconsistências, gostam de ficar calados quando você quer palavrear tudo, querem bater um papinho descompromissado quando você quer se sentir invisível e assim por diante.

Então, nem um, nem outro, mas numa equidistância suficientemente sutil e fluida que te permita tão somentegostar de gostar do outro e de suas coisas - porque, no final das contas, acho que isso pode te fazer até gostar um pouquinho mais de si.

Da Estrangeiridade

Quando eu era criança, morria de vergonha de ser chamada a atenção na frente dos outros. Quando algum professor da escola fazia isso, eu desviava o olhar e sempre fingia que estava vendo algo embaixo da minha carteira.
Até que um dia quando repeti o ritual não-sei-do-que-você-está-falando, e olhei sob a minha carteira, algum engraçadinho da sala comentou que eu sempre fazia isso.
Foi a última vez. Nunca mais olhei debaixo da carteira, de vergonha.

Blog de uma Cucaracha

11.1.04

o que não fica

Convencida: vivo uma infância emocional da qual não me liberto. Quanto querer para querer algum. E as permanências em mim ainda não ficam, tenho e quero tudo e nada ao mesmo tempo. E tão fácil me canso das permanências quanto da saudade do que parte. Sempre o etéreo me passeando pelas mãos, sublimando um sentir que não subsiste a um passo em falso. Ou a um passo demasiado certo. Tenho mãos que não se atam por muito tempo, escorregadias e fugazes. Tempo, um castigo ou uma benção? Ele sempre me escapa pelas mãos, como aquele olhar apaixonado que tanto cultivei e hoje deixo partir de mim, tristemente incapaz – sem querer ser – de manter seu murmúrio doce soprando futuros no meu ouvido.

Ponte sobre o caos

10.1.04

Estava esses dias lendo alguns arquivos do Vidas Breves e vi alguns Posts que eu escrevi chamados Momento Loser – ou Soy um perdedor, I´m a loser baby, so why don´t you kill me – que pra quem não sabe, é o refrão de uma música do Beck.

Enfim, era uma sessão onde eu escrevia casos de losers, fosse comigo ou com alguém que eu conhecia.

Percebi no entanto que esqueci de contar o caso mais loser de toda minha vida, que vou partilhar a partir de agora.

Emília era o apelido dado a um moça que fazia faculdade comigo e, embora estivesse um ano à frente, assistia algumas aulas com minha turma.

Morena, gostosa, cabelos crespos mas de um comprimento e um corte que fazia parecer que era um cabelo rastafari, tinha uma tatuagem de uma rosa na parte de cima do quadril (daquelas que ficam aparecendo quando se veste uma calça de cintura baixa – que ela sempre usava) e um sorriso bastante simpático.

Enfim, era uma moça com uma aura ao mesmo tempo misteriosa e pitoresca. Por se tratar de uma faculdade de engenharia, muitos comentários baixos forma feitos com relação a tatuagem dela e as situações onde ela seria melhor observada, que sempre envolviam pouca ou nenhuma roupa.

Curiosamente, apesar de todos os carinhas mais atirados e dados a xavecos, ela se aproximou de mim e passamos a conversar durante alguns intervalos de aulas e eu sempre ficava procurando aberturas nas conversas pra tentar fazer rolar alguma coisa mais.

--x--

Em uma das conversas, comentei que fazia parte de uma chapa concorrente à eleição da diretoria do Centro Acadêmico, daí prometi que daria a ela uma camiseta de nossa chapa para ela usar no dia da eleição e mostrar seu apoio à nossa chapa.

No dia que fui entregar a camiseta, fiquei esperando que ela saísse de sua aula, mas na hora que ela saiu, um colega da chapa passou por ela antes e entregou uma camiseta pra ela. Emília olhou pra ele, olhou pra mim e disse pra ele:
- Eu não quero essa camiseta, quero aquela! – apontando pra camiseta que eu trazia embalada.

--x--

Em outra ocasião, nos encontramos em um bar. Eu com a turma da minha sala e ela com uma turma dela.

A certa altura da noite, fui conversar com ela e acabei esquecendo da turma que tinha ido comigo. Quando olhei, as mulheres da minha sala estavam às costas da Emília fazendo macaquices. Nunca tive certeza se ela percebeu alguma coisa, mas pedi que me desse licença, fui até as mulheres da minha sala e demonstrei toda minha polidez – que também é marca registrada:

- Minhas queridas, qual é o vosso problema?
- Você vem com a gente pro barzinho e prefere conversar com a Emília.
- Deixa eu perguntar, então: Alguma de vocês vai dar pra mim?
- Não!!!
- Ela talvez dê. Já ganhou de vocês!

---x---

Daí chegamos à fase loser.

No final do ano ela veio me pedir ajuda com a calculadora HP48GX dela.
Abandonei a partida de truco e passei a ajudá-la, todos foram embora e ficamos somente nós no salão do CA.
Antes de terminarmos, a maior chuva do mundo desabou e quando estávamos indo embora ela abriu um guarda-chuva e me perguntou:
- Pra que lado está seu carro?
Eu respondi
- Ah, o meu está pro outro lado...
- Então acho que vou me molhar um pouquinho...
- Faz assim, vai comigo ate meu carro e eu te dou carona até o seu.
- Legal

Quando ela parou o carro do lado do meu, ainda estava chovendo forte, daí a conversa, que estava animada acabou. Eu não sabia o que falar, me senti num desenho animado, quando a lista amarela sobe pelas costas me transformando num gambá. Meu cérebro deu esvaziamento de pilha em E000324# e eu surtei:
- Bom, obrigado – beijinho no rosto – tchau!

E você acha que foi só isso? Depois tem mais.

Arkhan Asilum

9.1.04

A Vingança De Saruman

Nesta Natal eu ganhei um chaveiro com uma miniaturazinha do Saruman, já devidamente anexado às chaves do carro.

Ontem, na hora de abastecer o possante, a frentista do posto me olhou horrorizada, como se eu fosse um praticante do mais tenebroso ocultismo. Corajosa, ela ainda arriscou perguntar quem era o feio no chaveiro.

"Saruman", eu respondi enigmático, contendo a gargalhada malévola que deveria acompanhar a resposta.

E segui o meu caminho, pelo lado sombrio da estrada.

MegaZona

Eu não existo. Sou uma criação, algo em permanente mutação e sendo formada e reformada a todo tempo. Não sou séria nem risonha, triste ou feliz, simples ou complexa. Sou antes de tudo o tudo e o nada, um vazio pronto a se encher. Quem tiver conteúdo se esvazie em mim, e serei você. Me sobram personagens, me falta personalidade.

Sanatorium

Voltei de lá

Lá parece que não existe pressa, o tempo corre lento. Acordo com o canto dos galos nos quintais e a sinfonia dos pardais. Cavalos se misturam aos carros, a roça e a cidade confundidas. "Dia" quando é de dia, "tarde" quando é de tarde, e assim os cumprimentos se reduzem a toda e qualquer pessoa que passa na rua. A gente de lá parece mais educada. As cadeiras vão para as calçadas no cair da tarde, os mais velhos acendem um cigarro de palha, a brisa sopra morna e as cigarras iniciam um show bem alto. Se chover, pouco antes a garotada brinca de soltar tanajuras como se fossem pipas, e durante a chuva corre acompanhando o barquinho de papel solto na enxurrada. Apesar da mesmice, à noite a praça principal fica cheia, as pessoas conversando umas com as outras, namorando. O céu de lá tem mais estrelas, mesmo quando não está tão estrelado. Acabei de voltar de lá. Vi lagartixas, vagalumes, tanajuras. Ouvi cigarras, galos, sapos, o padeiro deixando o pão na varanda. Andei por ruas de pedra, deitei no banco da praça pra lembrar como são claras as estrelas, namorei à luz delas. Deixei de olhar pros lados ao atravessar as ruas, peguei carona na charrete do cumpadre que não é padrinho de ninguém lá em casa, comi goiaba no pé. Dormi e acordei com portões destrancados e janelas abertas. Toquei violão e fiz serenata. Lá é assim, sempre foi.

Sanatorium

8.1.04

"Se em 2003 até o Saddan Hussein saiu do buraco,
que em 2004 você também consiga!"

Pergunte para a Vaca!

Manchete da capa da Tribuna do Paraná de hoje:
"ACABOU A FESTA. VOLTA AO TRABALHO!"
Isso sim é jornalismo verdade.

mardito fiapo de manga

Olha a demonstração de ESPERANÇA no começo do ano.
Que coisa mais imbecil pra se desejar pro Ano Novo...
"Muita paz, saúde e ESPERANÇA" <- o voto paodrão de todo retardado.
Esperança? Uhm, não, obrigada. Prefiro REALIZAÇÃO. Ou, sei lá,
um reloginho despertador, um Tupperware, um dedal. :^P

Eu diria que...

Sou contra as medidas de reciprocidade adotadas na chegada dos norte-americanos ao Brasil: são muito suaves. Só fotografar e colher impressões digitais não basta. Falta deixar os gringos esperando na fila, debaixo de sol, chuva, arrogância e má vontade, pra receber visto nos consulados brasileiros. Reciprocidade não tem meio-termo. Ou é ou não é.

catarro verde

7.1.04

É impressão minha ou amansaram o chato das Casas Bahia?

O Monoglota

Qualquer relação puramente utilitária com a literatura pra mim é piada. Só porque você leu um livro não quer dizer que vai ter mais "cultura". Não vai ter "conteúdo" para conversas, meu deus. Eu leio com razoável regularidade e construir um diálogo com a maioria das pessoas continua sendo um intimidante desafio pra mim. Já era antes, vai continuar assim, indefinidamente. De modo que posso ler quanto quiser, decorar quantas passagens "interessantes" me couber na mente falha: vai continuar a mesma coisa. O máximo que pode ocorrer é o comum "Leu ***, do ***?", "Ô. Bem bom". O que já é demais.

Tombadilho

rebeldes sem calça

ai como são chatos os deprimidos-revoltados, meu deus...
acho que vou comprar um algodão-doce ali e já volto.

Joanina Rabugenta

O silêncio é uma arma tão poderosa que seu uso devia ser restringido.
No campo interpessoal é a arma de guerra mais eficiente.
Nada do que faz me machuca, apenas o silêncio. Nada mesmo.
Ignorar a presença, fingir não ouvir a fala.
Eu percebo ser invisível aos teus olhos.

Silenzio, no hay banda.

Por que eu escrevo aqui? porque tenho necessidade faminta de uma companhia como a daqueles amigos invisíveis que a gente tem quando é criança ou esquizofrênico, sabe como? não posso estar o tempo todo pentelhando pessoas, afinal.

Take Me Somewhere Nice

6.1.04

Vidaogame. Quanto mais fases, mais difícil o jogo fica. Mas isto não é um jogo. Isto é vida. Eu pensei que era forte, que tinha munição. Me enganei. Didn't see this one coming.

A vida é mais que uma xicara de chá.

Vocês sentiram a minha falta? Pois eu não sinto a menor falta de vocês.

Utopia Dilucular

Retrospectiva 2004

JANEIRO
: No litoral do RS, os salva-vidas reclamam das baixas diárias pagas. Ameaçam greve. A população fica nervosa. O governador Rigotto tem um ataque dos nelvos e precisa de outra aplicação de botox, urgente.
: Um tubarão é encontrado bebendo cerveja num quiosque na Praia de Canô, Alagoas. Populares dizem que, depois de pedir uma porção de mariscos, o barbatanudo fugiu sem pagar a conta.
: O inverno em Reikjavik atinge -85 graus Celsius e congela 120 mil islandeses. Um avião da Cruz Vermelha vira gelo em pleno ar, cai e espatifa. A OPEP não gosta e manda construir um muro à volta.
: Recomeça o Carnaval da Bahia. Parece que é o carnaval de 1976, que não acabou ainda.

FEVEREIRO
: Chegam nas telas brasileiras os candidatos ao Oscar. Tom Hanks faz outro papel de bonzinho sofredor que chega à vitória no final do filme. Robin Williams entra em depressão.
: Início do Carnaval, conforme calendário oficial. Alguma destaque siliconada faz escândalo no Sambódromo. As vinhetas da Globo causam paralisia mental em 18 crianças do Espírito Santo.
: Em Davos, milhares fazem protesto contra a globalização e botam fogo num bode. Vivo.
: Os veranistas de janeiro reclamam que o clima em fevereiro é melhor, todos os anos. Um metereologista é torturado na praia de Albatroz.
: As crianças nascidas no dia 29 estão amaldiçoadas para sempre.

MARÇO
: Carandiru não ganha o Oscar de melhor filme terceiromundista. A classe artística diz que "nem queria mesmo", mas José Wilker é flagrado chorando copiosamente.
: Palocci declara que a estagnação da economia no primeiro trimestre é fruto da temporada de verão e que as expectativas continuam excelentes para 2004, que na verdade começa em 2006.
: Saddam Hussein é visto fazendo compras em Paso de Los Libres. Os Estados Unidos acionam o alerta laranja e, por engano, um estagiário de chapéu de caubói chama o Jota Quest para tocar a musiquinha da Fanta no Salão Oval. Bush gosta.
: Os números sorteados na MegaSena do dia 26 são 05, 08, 12, 24, 27 e 40.

ABRIL
: O varejo supermercadista festeja as vendas recordes de chocolates para a Páscoa. A indústria farmacêutica e a classe médica também festejam o maior piriri de todos os tempos.
: Começa o Campeonato Brasileiro de futebol. Depois do Estatuto, que pede transparência, a Globo assume - só vai passar jogos de Corinthians e Flamengo. Eurico Miranda sobe nas tamancas, monta num porco e roda a baiana, que fica tonta.
: O loser do Guga perde na estréia do torneio da Pomerânia para um tenista curdo maneta.
: Tony Blair é visto com Boy George e George Michael num pub suspeito, o que causa queda na bolsa de valores da Tailândia e, por extensão, um quase-colapso da energia elétrica no Brasil. Blair se defende, dizendo que só queria um "pint", saco! Em seguida, muda o nome para George Blair.
: Em Tangamandápio, nasce o Anticristo.

MAIO
: A Sony e a Phillips, em consórcio, lançam o DVD que frita ovo e faz torrada. A JVC contra-ataca com um celular que contém vitamina B12 e evita o câncer de orelha.
: Trocentos milhares de noivas causam superlotação nas igrejas de todo o Brasil. As floriculturas e os advogados exultam.
: Bush manda explodir Tangamandápio. Funciona.
: O mês, ao contrário do esperado, dura 38 dias, aniquilando boa parte das classes mais baixas. O problema da fome é reduzido em 45%. Guido Mantega promete que "não faz mais isso", mas os analistas econômicos duvidam.
: Começa a programação 2004 da Globo, que anuncia um monte de filmes que só vão passar no Natal.

JUNHO
: Começam as Olimpíadas de Atenas. O Brasil fica em sexto lugar na classificação geral, com 39 medalhas. Os Estados Unidos vencem, com 1652 medalhas.
: Sherazanga Nganzade leva o primeiro ouro para o Chade (vulgo Tchad, vulgo Cha'ad), no Tiro com Zarabatana Dançando Ragatanga. O australiano Joe Joe Ribeiro, segundo lugar, não gosta e atinge Nganzala com sua zarabatana. Antes de ser capturado, Joe Joe abate 14 agentes federais, e ganha menção honrosa.
: O Carnaval na Bahia é interrompido para os festejos juninos. Pouca gente nota.
: Palocci declara que o declínio da economia no segundo trimestre é fruto das Olimpíadas e da ressaca do Carnaval e que as expectativas continuam boas para 2004, que na verdade começa em setembro de 2006.
: O Papa João Paulo II diz que o Tônico Sexual Tonoklen mudou sua vida. Ele e Pelé topam estrelar um novo comercial de Vitasay, filmado nas ruínas de Pompéia. Em Lisboa, algumas orquídeas começam a devorar pessoas, deixando o número 666 pintado na parede. Com sangue.

JULHO
: Neva na Serra Gaúcha. Pneumologistas exultam. Fabricantes de roupas pesadas compram mansões. Ovelhas migram para Manaus.
: A passagem de Netuno pela Casa XII forma uma quadratura com Saturno, trazendo a Peste Negra de volta. O movimento GLS acha "hor-ro-ro-so", "ca-fo-na" e "uma baba".
: O Brasil lança seu novo satélite. O "Tupi IV" dá quatro voltas em torno da terra e atinge em cheio o "Crusader LXXIII", dos Estados Unidos. Os satélites caem no Alabama. Bush declara "alerta vermêio" e manda explodir o Alabama. Quando se dá conta do que fez, culpa a ONU, o Eixo do Mal e o Imperador Ming.
: Bill Gates se candidata a prefeito de Gigabaite do Oeste, Mato Grosso do Sul.
: Sting, Elton John e Paul Simon lançam um disco de world music. A ONU intervém e Bush explode os três.

AGOSTO
: Começa a droga da propaganda política gratuita. A novela das 20h, que geralmente é dàs 20h45, passa a iniciar 21h15. Assistir o Jô fica impraticável. Doutor Vandir, do 408, é pressionado a fazer sexo com sua esposa, mas por sorte acha em VT um compacto do citadino de biribol de Birigüi, 1972.
: Elijah Wood, o ator que interpretou Frodo na trilogia do Senhor dos Anéis, diz que, na verdade, é um hobbit. Ninguém dá a mínima.
: Mike Tyson e O. J. Simpson estrelam "Double Fuça", thriller brasileiro de ação, rodado inteiramente no Deserto de Atacama. Beto Brant dirige - à distância, do tele-estúdio instalado em sua casa.
: Numa encruzilhada escura em Nova Armani, zona sul do Maranhão, dia 13, catorze cachorros castrados enfrentam três tigres tristes. A defesa civil intervém, abate tudo e doa para o Fome Zero.

SETEMBRO
: Chega a primavera. Um casal de esquilos transgênicos, foragidos do laboratório de biogenética da UFRGS, reproduz-se de maneira frenética. Multiplicam-se logaritmicamente. No dia 29, o Parque da Redenção, em Porto Alegre, desaparece.
: Stênio Garcia e Tarcísio Meira filmam Juba e Lula, Ho! 2 - A Missão.
: Nas comemorações de 7 de setembro, o presidente Lula peida no palanque. "Foi o companheiro cavalo", diz, gargalhando, à dona Marisa.
: A Pepsi lança seu novo refrigerante com sabor de Tâmaras Frescas no Deserto sob a Luz da Lua. Caetano e Gil acham "lindo" e Neguinho da Beija-Flor resolve escrever um samba-enredo para 2005, intitulado "Iluminou: A Sociedade Moderna e as Tâmaras Frescas no Sertão sob a Luz da Lua e o Rei do Baião na Passarela".

OUTUBRO
: O Brasil pára dia 3 - chegam as eleições. O carnaval é suspenso por 18 horas na Bahia. Dia 4, o Brasil continua. Igualzinho. Nada muda.
: Paulo Coelho lança As Rebarbas de Gaetano, suspense esotérico em que um padre tenta ardentemente reencontrar o amor de sua vida, mas não se dá conta de sair da sacristia. Fracassa fragorosamente.
: Mãe Dinah pressente sua própria morte, esmagada por uma bigorna. Mas não dá bola, por "não acreditar nessas charlatanices". Dois dias depois, morre engasgada com um torteii empanado.
: Daiane dos Santos realiza o "Duplo Twist Carpano Enfiado", e é expulsa da Federação Mundial de Ginástica.
: Durante um show em Helsinqui, os lábios de Mick Jagger caem.

NOVEMBRO
: Faz sucesso internacional as Xup Girls, grupo de axé que canta em inglês e rebola em português. "Come to Ae Ae Ie Ae", o primeiro álbum, vende mais de dezoito milhões de cópias no leste europeu. O single Come Here ("Come Aqui"), de Sullivan e Massadas, é a primeira música brasileira a tocar na Cerimônia do Chá da rainha Elizabeth.
: Jack deJeanenne torna-se o primeiro homem a beber um refrigerante de tâmara no espaço. Dezoito minutos depois, torna-se o primeiro homem a sofrer uma congestão num ambiente de gravidade zero.
: Começa a cagagésima temporada de Simpsons, com os novos personagens Terry, o Pescador Maneta, e Alyia, a Albina, namorada de Bart. Rufus, o Hamster de Plástico, faz uma aparição no episódio educativo "Bart e a higiene íntima".
: Morre, aos 89 anos de idade, Raimundo Nonato de Nonato y Noñato, considerado pela revista Science o "Pai do Rádio a Lenha".

DEZEMBRO
: O Natal cai num sábado, trazendo um nível de blasfêmia jamais visto no Ocidente.
: As vendas atingem volume recorde, notadamente pelas bonecas, cds, roupas, maquiagem, kit cantora, kit guaraná, kit lipoaspiração e kit quét das Xup Girls.
: O sensacionalista The Sun estampa na capa, em garrafais: Papai Noel torna-se avô solteiro.
: É finalmente revelado o terceiro segredo de Fátima: "manga com leite empedra". E, numa nota de rodapé, as ainda não compreendidas inscrições "Toniolo '92".
: Chega 2005. A Bahia comemora inaugurando o Reveillon de 1979. O mundo toma outro imenso porre coletivo.

. B e r e t e a n d o .

Eureca!

Descobriram outro dia que uma das responsáveis pelo fim dos casamentos é a indústria de alimentos. A tecnologia avançada já não permite mais a produção de vidros de maionese, azeitonas ou palmitos difíceis de abrir. Com isso, diminui em larga escala a função de um marido na vida da mulher!

Elas por Elas

É impressionante como eu sempre viro o centro de atenções dessa casa nas festas.
No Natal de 2002 meu pai passou todo o tempo rindo de mim só porque eu estava "namorando" um jovem de 52 anos com aparencia de 60.
Ele colocava uma almofadinha na bunda, por dentro da calça pra dizer que aquilo era uma fralda geriátrica e saia desfilando pela casa dizendo que meu namorado andava daquele jeito.
Qualquer um que chegava ele contava a história e todo mundo olhava assustado pra mim, perguntavam até se o cara era rico, porque não tinha outra explicação.
- Ah deixa ela dar o golpe do baú, dizia meu tio.

Esse ano apareceu aqui um lolito de 22 aninhos, e é claro que meu pai não poderia deixar pra trás, aliás ninguém deixou.
Minha tia o apelidou carinhosamente de Anemias Milton Zero, meu pai perguntava de 5 em 5 minutos - Cadê o Zero?
Na verdade ele queria mesmo era que o Zerinho saísse lá fora, pros amigos dele verem o novo assunto da família, dessa vez meu pai ficou espalhando que toda vez que olhava pro Zero ele estava digitando no meu braço, de tão viciado em computador que é. Agora você imagina a seguinte posição: Os braços encolhidos e os dedinhos pra baixo simulando digitação, imaginaram?
Pois então, era exatamente assim que todos faziam, encolhiam o braço, simulavam o teclado e perguntavam : - Cadê o Zero?
Até os amigos dele, eu passo pelo bar onde trabalham e do outro lado da rua estão todos no balcão com o braço encolhido, digitando e olhando pra minha cara.
Meu pai é tão repetitivo, tão persuasivo que ele consegue embutir isso definitivamente na cabeça de qualquer um.
Quando saímos pra tomar sorvete, junto com meus primos, tivemos a infelicidade de estacionar na frente da loja de uma outra tia minha, acreditem se quiser, mas a loja toda saiu pra fora pra ver o Zerinho e quando cheguei em casa o telefone tocou, era minha tia perguntando quem era o menininho na sorveteria conosco.
O que a minha avó falou do menino já é um capítulo a parte já que vocês sabem que ela não deixa nada barato.
Tadinho do Zero, nem sei se ele vai querer voltar mais aqui em casa, tem que ser muito corajoso pra enfrentar essa gente toda e ainda sair sorrindo.

Casos e Acasos Virtuais

5.1.04

O melhor presente de Natal de todos os tempos

Pra começar a contar a história, dá cá a mãozinha e vamos entrar juntos no túnel do tempo. Blim blim blim blim blim. Pronto. Colégio Santo Ignácio, exatos quinze anos atrás. Está vendo aquela pirralha sentada no meio de centenas de crianças, logo ali, no auditório lotado? Pois é, sou eu. Repara melhor como ela, que sou eu, está se achando muito importante. É que lá na frente, você ainda não reparou, repare agora, está sentado o Fernando Sabino. E ela acabou de ler O Menino no Espelho. E ela acha que é escritora também. Pescou? Ela não quer ser. Ela acha que já é. Na cabecinha dela, está ali num papo entre iguais. Porque nem ela sabe que está diante de um dos maiores escritores da literatura nacional – apesar de ter lido o livro dele e gostado muito – nem muito menos imagina o quanto ainda falta pra que ela seja, de fato, uma escritora.

Lá está o Fernando Sabino, falando, falando, falando sem parar. Daquele jeito mineiro dele, com um sorriso de canto de boca. Puxando o saco da filha dele que é cantora. Não, agora olha rápido. Observa o sorrisinho de reconhecimento na boca da pirralha, que não só conhece a Verônica Sabino mas também usa “perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração” como trilha sonora pras cenas de amor que ela filma na cabecinha dela, com meninos que nem têm pelinhos ainda. Além de petulante, ela é brega a valer. Imagina essa figura quando crescer.

Bah, nem precisa imaginar muito, porque a figura sou eu, você sabe. E eu sou desse jeito que...bem, você também sabe. Desse jeito que me faz decidir, em plena véspera de Natal, escrever uma carta ao Fernando Sabino. Não, tonto, não é um email. É uma carta de verdade, lembra como é? Papel, caneta, “zelope”, carteiro. Coloco uma resma de folhas brancas sobre a mesa. Folhas brancas, sabe, muito mais chique pra escrever cartas, sem pauta, aquelas linhazinhas que ajudam a sua letra – não a sua, a minha, no caso – a não subir e descer pelo papel como num eletrocardiograma. Mas puxa vida, é uma carta pro Fernando Sabino, o danado merece um esforço.

Começo. Um medo tremendo de errar, porque no papel, veja só, no papel não tem o botão de “delete”. E não tem borracha que apague caneta – ui, blim blim blim de novo e lembremos com um flash de saudade a caneta Replay, aquela que vinha com uma borracha na bundinha. Nem me fale em liquid-paper, porque se tem uma coisa que eu aprendi com o meu professor de Medicina Legal é que liquid-paper é igual a raspadinha, a pessoa sempre fica curiosa pra saber qual foi a besteira que você escreveu embaixo. Eu não podia errar e ponto final. Entendeu? Muita tensão, portanto.

Mas fluiu. Três páginas. Fernando Sabino, seu bandido, você foi no meu colégio e me impregnou com essa sua paixão pelas letras. Agora agüente as conseqüências, estou aqui pra prestar contas e pedir a bença. Foi mais ou menos isso que eu disse. Aí contei do livro. Vou ali pedir ao Papai Noel pra gente tomar um chá no ano que vem e virar melhores amigos de infância. E se um dia você cair no chuveiro, bater com a cabeça e resolver me telefonar, eis o número. E eu dei. O número.

Dobrei as três páginas em três pedaços, porque eu sou ascendente em virgem e maníaca por organização. E porque eu ainda tenho a fagulha cafona da pirralha que você viu lá no começo, no flashback, fechei a carta com um adesivinho em forma de presente de Natal. Quem já foi brega nunca renega as suas raízes. E, aliás, um mero adesivo não seria capaz de satisfazer toda a minha sanha pela cafonalha. Também encomendei uma grande chuva do Natal, que começou a cair pouco tempo antes de eu sair de casa pra entregar a carta, me fez estacionar o carro num lugar proibido e pedir para o namorado correr em câmera lenta, em busca do porteiro perdido, para entregar a carta. Ah sim, porque eu sou cafona e adoro cenas com corridas na chuva à la Bridget Jones, contanto que não seja eu o coitado do personagem que está lá. E de fato a cena, vista de dentro do aconchego do meu carro, foi emocionante. Urra.

Carta entregue ao porteiro, em mãos. Fernando Sabino tinha saído, provavelmente para a casa da Verônica, que devia estar cantando, àquela hora, ao pé da árvore cheia de presentes “dingle bell, dingle bell, periiiiiigo é ter você!”, para deleite do pai coruja. Ligamos o carro e lá fui eu cantar “cadê os meus presentes?”, me embebedando com meia lata de Smirnoff Ice ao pé da árvore da casa da minha mãe. E depois, no meio da madrugada, ainda fui comer a milésima rabanada da noite na casa da Mestra, porque eu sou uma pessoa assim, que nasceu para ter muitas, mas muitas mães mesmo.

A primeira coisa que acontece com a pessoa que passa várias noites de Natal em uma só noite e come várias ceias de Natal com uma só barriga é que essa pessoa – eu, no caso, porque tudo sempre acontece é comigo – precisa dormir pelo menos duas noites seguidas. Mesmo que a segunda delas tenha que acontecer durante a manhã do dia seguinte. Há outras conseqüências mais funestas depois, começando pelo remorso e terminando de um jeito que...bem, você não quereria saber. Acredite.

Vamos nos ater àquele primeiro momento, enquanto eu estou achando muito normal, justo e merecido estar dormindo às duas da tarde. E achando um absurdo, um abuso e uma tremenda sacanagem quando o telefone começa a tocar insistentemente, deflagrando a velha guerra do “quem vai?” Como no caso da corrida na chuva, eu venci.

Mas divago. Ou vai ver ainda estou dormindo, e sonhando, porque foi ele, sim, o namorado, quem levantou para atender o telefone. Mas eis que, oh não, ele disse as palavras mais temidas naquele momento: “só um minuto”, e veio se arrastando na minha direção, oh mundo injusto, eu ali, tão quentinha debaixo das cobertas.

- Alô - e eu amaldiçôo todas as gerações da sua família, famigerada criatura que ousa interromper o meu sono divino.
- Paula?
Não. Madre Teresa de Calcutá.
- Quem é? - eu respondo, com o que seria minha voz mais simpática caso eu fosse uma gralha leprosa em seu leito de morte.
- Caí no chuveiro.

Meu coração pára por um minuto. E pelos próximos trinta e poucos se aquece com aquela antiga e conhecida voz. Fernando Sabino. Meu melhor amigo de infância.

Epnion

2004

Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que a fé não seja o cartão furado da lotérica. Que eu faça o medo amadurecer em esperança. Que meus amigos desempregados deixem de comprar o jornal pelos classificados. Que a única corrente que use seja a do balanço para embalar meu filho. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que São Leopoldo perca seu complexo de cidade-dormitório. Que eu ligue mais para meus irmãos para falar menos dos outros. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu cumprimente meu vizinho sem temer a resposta. Que eu possa usar o terno azul pinho sol em alguma festa fantasia. Que eu faça fantasia mesmo acordado. Que minha letra aprenda a montar no cavalo das linhas. Que eu ande de bicicleta para enxergar a cidade diferente. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não fique cobrando para me aliviar do trabalho. Que eu aprenda a guardar segredos sem jurar por Deus. Que eu tenha menos vaidade e mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para deixar as verdades com ciúmes. Que eu perca o pavor de supermercado. Que eu não pense na morte antes de dormir. Que eu volte a rezar sem querer. Que eu possa nadar na neblina. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amigos falando do tempo. Que eu pare de fumar. Que os ex-fumantes parem com os sermões. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que o trânsito não seja sauna. Que eu passe a xingar o pai do juiz no estádio. Que meu time não me engane na última hora. Que eu possa assistir shows com meus filhos na garupa. Que eu atinja o segundo andar das ameixeiras. Que eu abra o capô apenas do piano. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu visite mais minha sogra. Que o domingo não termine com o futebol. Que eu deixe crescer o musgo dos olhos. Que eu possa caminhar a esmo em minha respiração. Que eu me levante de bom humor. Que eu leve a cama até o café. Que o inverno seja uma garrafa de vinho e vaga-lumes dentro. Que o governo seja suficientemente competente para não ser pivô das conversas. Que eu faça aniversário de criança nos meus 32 anos. Que o verão seja se afogar em dunas. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu repare nas unhas pintadas e nos cabelos mudados de minha esposa um dia depois, melhorando minha média. Que eu me lembre dos nomes dos filmes que assisti. Que eu não cante em público. Que a eternidade possa sentir saudades da vida.

Fabricio Carpinejar

Ah, nunca me esquecerei daquelas noites de que não me lembro de nada.

FDR

4.1.04

Constrangimento

Humilhação é ser chamado de brasileiro na fronteira.

dies irae

Catecismo Metafísico

Repentinamente no palco estava tudo vazio e escuro como de antes-da-luz. Como de olhos fechados, que não se esclarece, à sombra do altar de um rito severo, concretizado em um círculo de druidas de pedra. Os móveis todos imotos e coagulados, não se pressentiam pois não se tocavam. Já estavam lá, mas tudo parado, sofrendo promessas de espasmos.

Era assim, no princípio, dentro da sua cabeça. As formas das coisas boiavam sem sustância nem superfície, num oceano de águas negras e frias. E não havia matéria, e não havia mentiras: só um caldo grosso e colostro onde tudo era um só.

Oceano sem termo e sem tona. Tudo é tranqüilo enquanto infinito. Não venta nem marola, e pouco-a-pouco passa a promessa, o desejo se acalma. A tenção se dilui – e salga essas águas – até que um dia sustenta mais nada: o que se atreve a ter peso logo naufraga,

pra dentro, pro centro. Há um cerne, no fundo. O nó da madeira do freixo do mundo, onde moram cupins, fantasmas e fungos. Velha árvore grávida de horrores, regada e nutrida do vômito de um deus ébrio.

Como as tripas de um poliedro pulsante, um coração oco, macio é tranqüilo. Ele bate abafado, mastigando o silêncio. Daí se divina a anatomia da Árvore, dos ramos ao húmus, um traiçoeiro fruto de cera que contém toda a floresta.

Quem mordeu a maçã foi (no fundo) a serpente. E, mais no fundo, confortável, as carcaças de matemática e chumbo da memória jazz/em silêncio, sobre as cascas de conchas partidas. De camada em camada sedimentavam-se vivas, não queriam mais levantar.

O mundo represa sem pressa, represa uterina do avesso. A bexiga inchada de sebo de um golias grotesco, surdo e sem olhos, que anda mancando pra não se estourar, anda pagando o pecado dos pais.

A vida é o preço do incesto. Cada passo dói muito, e todos olhando, meu deus que vergonha – que será ela tem? Será que isso pega? Isso não são modos de uma criança, não na frente do pai!

Foi então que tudo estancou, constipado de quantum aquático, cheia de dedos vivendo lá dentro, como bichos insetos nas carnes do açougue, castelos de carne, a mãe dos cupins, as filhas de Lot.

Tudo que existe antes da gente é parte da gente, a gente que inventa. Grão de mostarda onde dorme a semente, dorminhoca serpente disfarçada de ovo. Um cadáver morno e borracha, fervendo no fundo do mar, emaranhado em sargaços de plástico. É a neurose, aneurisma: fábrica de bolhas embaladas a vácuo.

Uma imensa indústria silenciosa, trompetistas roxos de tanto soprar instrumentos que não soltam som. Homens morrem sem fôlego numa noite de cabaré, enquanto a platéia dança e se diverte.

Bailarinos desamparados, a gente se projeta nos braços do outro, em seus olhos, ouvidos, buscando conforto. Tudo que existe é alquimia de símbolo. Swing do sangue, canção das esferas: os charcos funcionam com um surdo zumbido de funcionamento, o silêncio crescendo até estourar.

silício & silêncio

3.1.04

Tia Zéfa

Eu tenho uma família unida. Ou, pelo menos, parte dela. Dessas que se mobilizam para encher a laje, fazer a mudança, emprestar dinheiro e socorrer a tia desamparada.
Se tivessem pedido pra mim, eu iria pegá-la no hospital, mas só porque tenho medo de ficar como ela. Ela é a parenta que os meus pais usaram como referência para tentarem me convencer a fazer o que eles queriam.

"- Não vai ter filhos? Vai morrer sozinha como a tia Zéfa. Rica, viúva, avarenta e sem ninguém pra te visitar no hospital."

Ouvi isso tantas vezes, que já acostumei com a idéia de ficar rica. Antes eu ficava triste, mas hoje em dia, prefiro que me apontem como a sucessora da tia Zéfa do que como a seguidora dos passos da tia Linda, do tio Maciel ou do tio Ezio que se tornou a maldição do meu irmão Henrique. Aquele sim é uma ziquizira no destino de alguém.

Tia Zéfa, além de tudo, é uma mulher de sorte. Depois de passar dias afetada da diabetes, o hospital lhe deu alta bem no dia de Natal. Melhor dia para um enfermo conseguir um motorista. Bastou um pedido da minha mãe para que o espírito natalino tocasse o coração da minha irmã e ela se prontificasse a atender aos apelos da tia que ela mal conheceu.
Na verdade, tudo aconteceu por culpa da minha mãe. Qualquer desgraça que aconteça nos nossos diversos graus de parentesco, ela sempre é a primeira a ser convocada para resolver o problema. E ela fez isto tão bem enquanto eu e meus irmãos crescíamos, que nós aprendemos todas as lições necessárias para atender à demanda com rapidez e eficiência. Normalmente, mais eficiência do que rapidez, mas como era dia de Natal, minha irmã queria tudo, menos perder tempo.
Ela chegou na recepção munida de todas as suas técnicas de engenharia social. Sorriu para a enfermeira, flertou com o tio da limpeza e distribuiu balas para os plantonistas. Em menos de dez minutos ela já tinha furado o bloqueio burocrático, pego uma cadeira de rodas e entrado no quarto da tia Zéfa.

- Oi, tia! Lembra de mim?
- Oi...
- Eu vim buscar a senhora...
- Ah, é...
- Eu sou a Shirley, filha da Maria, neta do Jose, bisneta do João, prima de segundo grau da Ana, sobrinha neta da senhora. Lembrou?
- Ah, sim...
- Como a senhora está se sentindo? Está melhor?
- É... estou mais ou menos.
- E as coisas da senhora? Já estão prontas? Apoie-se em mim que eu ajudo a levantar.
- É? Está bem, então.
- Ainda não arrumou as roupas tia? Aí meu Deus, tia! Não, não, não! Pode deixar que eu arrumo.

Em menos de meia hora tudo resolvido. As duas, cheias de sorrisos e acenos, atravessaram o hospital sem muitos aborrecimentos. Os poucos corações enfurecidos por trabalharem no feriado já haviam sido conquistados com as lições de simpatia que mamãe ensinou.
Missão cumprida, ela colocou a tia no carro, meteu-lhe o cinto de segurança, ligou o rádio e, ainda movida pela graça da boa ação, me ligou do celular e ofereceu carona para o almoço na casa dos nossos pais.
Tocou minha campainha, quinze minutos depois...

- Não vou entrar. A tia Zéfa está no carro e ela tem dificuldade pra andar. Espero você aqui.
- Ok, eu desço em um minuto.

Peguei a chave, a bolsa, os presentes e a maionese. Maridon desligou o micro, fechou as janelas, acendeu as luzes pra despistar ladrões de fim de ano, ligou os pisca-piscas do cabideiro de Natal pra reforçar a segurança e trancou a porta. O carro parado em frente ao portão com a minha irmã de pé, já esperando com o banco levantado.

- Ois, ois! Entrem por aqui porque a tia Zéfa é ruim de levantar.
- Oi ti... Quem é a senhora? Shirley! Essa não é a tia Zéfa! Ficou louca?

------------------Continua em Amarula com Sucrilhos

Sinceridades

- Você é bonita, mas sua irmã é mais.

- Não obrigado, estou satisfeito. É que a torta de batata não está com um gosto muito bom.

- Não quero alguém do seu tipo namorando a minha filha.

- Fique se quiser, mas ninguém aqui vai com a sua cara.

- Li o seu livro. E nunca vou me dar ao trabalho de reler.

- É que seu hálito nunca foi nada bom.

- Você sabe que eu não te amo, portanto saia do meu pé!

- Você está gorda, admita!

- Eu gostaria que você não viesse mais aqui.

- Você sabe que não foi a primeira vez e nem será a última. Seu filho usa esse tipo de coisa desde o colegial!

- Se quiser esquecer o número do meu telefone, eu agradeço.

Zazoeira