27.7.08

Deborah

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso. Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.

Nomes só

18.7.08

Carta de tchau.

Até um dia. Desejo a você um milhão de felicidades, vida inesquecível, dias avassaladores.

Que apareça um grande amor, desses de frio na barriga, calor no corpo, arrepio na espinha. Que tenha muitos beijos, muitos carinhos, muitas noites de ardor incomum. Tomara que ele lhe escreva cartas e mais cartas, que encha você de flores e recheie sua vida de poesia. Que você suspire quando pensa nele, que você o chame de meu, que você tenha certeza da eternidade da relação.

Que você conheça a Europa. Veja de perto um Monet, um Degas, um Van Gogh. Que você divida taças de vinho nacional na Itália, tome champagne nacional na França, faça brindes infinitos. Quando voltar, que você exiba as fotos para as pessoas queridas, envie por e-mail para quem mora longe, convide alguém para a próxima viagem.

Peço que você não fique doente. Se acontecer, que seja algo besta, uma gripe, uma dor de barriga. E que lhe levem uma sopa quentinha na cama, bem juntinho com colo e cafuné de mãe, com olhar de preocupação de pai. Se o assunto é família, que você brigue de vez em quando com o irmão, só para depois lembrar como gosta dele, para se arrepender, pedir desculpas, ganhar um abraço.

Que você vá à praia de vez em quando. Que divida a cerveja com amigos, tire um cochilo na rede, acorde com um beijo. Que você vare a noite numa dessas vezes, veja o sol nascer abraçada e depois compre pão morno na padaria.

Que você leia muitas vezes seu livro preferido. E que descubra algo novo toda vez, que se emocione sempre. Que nesses momentos você escute uma sonata do Chopin, ou o silêncio total, ou o barulho de passarinhos. Se de repente as páginas lhe tocarem, que você escreva as suas próprias, a cameta mesmo, e não mostre para ninguém. Ou mostre para todo mundo que merece.

Que você fique mais linda a cada dia e que tenha muitos admiradores para lhe dizer. Que pare uma festa, deixe um marmanjo de queixo caído, faça carros freiarem para você atravessar.

Oxalá tudo isso e muito mais passe pelos seus anos. E que num minuto, no meio de tanta coisa, você se lembre de mim. Porque não vou me esquecer de você.

Eu comigo mesmo

30.6.08

Eu não amei você

Percebo agora que fui injusta, mas não posso sentir culpa por não ter amado você, apenas não aconteceu, e por isso nunca retribuí o que sentiu por mim.

Não amei você desde o primeiro encontro e você me amou desde então. E fez inúmeras coisas por mim, coisas que somente as pessoas que amam fazem.

Eu não amei você quando assistia a filmes que não gostava só pra me fazer companhia, arrumava coisas no apartamento velho pra eu poder morar melhor ou quando me ouvia cantar desafinada e rouca e achava lindo.

Não amei você em nenhuma das vezes que telefonei de madrugada chorando e você vinha de outra cidade só pra ficar comigo, pra eu não me sentir sozinha, pra me fazer parar de chorar.

Não amei você em nenhuma das vezes que me levou para o hospital quando eu tinha crises de bronquite ou quando me levou pra jantar fora no restaurante caro e bacana para tentar me impressionar.

Não amei você quando me ajudou a carregar a mudança e nem quando me acordava no domingo de manhã com um sorriso enorme e dizia que estava feliz.

Não consegui amar você em nenhuma das vezes que fizemos amor, e foram tantas e boas, mas para mim, sempre sem amor.

Por que não consegui amar você?

Você tem inúmeras qualidades, mas a verdade é que eu nunca prestei atenção nelas, não lhe dei a devida atenção, o devido afeto.

Penso, como você pôde me amar? Por que ainda me ama?

Eu não mereço esse amor, nunca correspondi a ele, nunca nem agradeci tudo o que fez por mim.

Mas tenho de confessar que quando a solidão aperta e a saudade vem eu sinto uma enorme vontade de ter seu amor por perto de novo, mesmo sabendo que não posso oferecer nada a você.

é uma pena eu não ser burra... e ser sincera

24.6.08

Informática Pornográfica

— Filha, vai demorar muito pra tu chegar em casa?
— Mais um pouco... É que tô colocando o PDF no FTP.
— Tá, pode demorar, mas me poupa dos detalhes!

conversas furtadas por Ingrid Müller

5.6.08

Aula de Lógica

Dante ficou noivo aos doze anos.

Ninguém descreveu o inferno tão bem quanto Dante

FDR

21.5.08

Fausto Silva apresenta Goethe

FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no "Domingão"!

(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)

FS - Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude...

JWG, timidamente - O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht...

FS (interrompendo) - Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!

JWG - Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?

FS - Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro...

(O poeta faz "nein-nein" com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)

JWG - "Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn..."

FS - Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!


Pura Goiaba

20.5.08

I'm gonna sit right down and write myself a letter And make believe it came from you

Kslw Blsggb,

Aklsos sceaw lwowow. Qoeiso aosow soaos? Wiqowi woaoxo aso? W qwoxds aosis foisioa sooaiw pwpocis asois. Zasoi sqow!

Qoqw qp qpowie eqwpi qpowi. Qwoieow ewoia qowie Soiqw Hrwo aoias. Aqoiw oriwoc aoosi ao. Aoaiwer tpot tpoasi, powir pokcos atois soitis. Elaks r ro poasi!

T aoop, tqu qoiqwer cklak daoi to asoiasd? Reqosaoi oaiso taoi q apoi tokc clk ackas. Eoia poais tlais tlkasl d laks t tkajs l q qoie sat. Ip aosida dsaoi q apoq pqowier, tkaas taks qeo toias setr ta. Qopz, toaisp dpao saod.

Eopa aspo dao qpoax. Ep poasi paosi tpoa q pa osi esr poiaso.Qopoizxz poias qpo q paois tp xiaiuts t poasi oiioas poic.

Gx poias iaofysdu.

With love,

Xlsyydw

Passarinho Preto

sonho #1.851-3

Um jardim europeu, provavelmente em Viena, mas definitivamente na Holanda. Não que houvessem tulipas, é que sinto uma presença misteriosa do Spinoza no ar. Tudo meio verde-musgo bem escuro, o terreno bastante irregullar. Não era um cemitério, mas alguém andava enterrado por ali. Estou com um livro do Borges chamado El Libro Ilegible, e sigo tentando lê-lo sem sucesso. Entendo que tenho passado todos os dias circulando por esse lugar, com esse mesmo livro, sempre perto do crepúsculo. Vou passando batido por uma fonte onde se levanta uma estátua de Afrodite tão velha quanto a pedra. Neste local encontro Antonin Artaud falando sobre deuses olímpicos e primordiais para um casal de turistas a caráter. Artaud trabalha como guia nesse parque, mas eu nunca paro para escutá-lo. Percebendo que sempre deixo ele pro dia seguinte, já acostumado a vê-lo circulando por ali como eu, resolvo finalmente fechar o Livro Ilegível e tomar parte da visita guiada pelo Momo. Me aproximo e suas palavras são tão doces que nos chegam incompreensíveis. Artaud está falando com as mãos.

Contém Gluten

12.5.08

As Seen On TV

Você só pode se considerar um verdadeiro vencedor na luta contra o peso quando inventar o seu próprio aparelho de ginástica. Ab-Force-Isolator-Max é o nome do meu. Trata-se de uma camisa de força para animais. Não faz perder peso, mas é divertido ver os bichinhos se debatendo.

Loser

Então é assim:

Vc já tentou levar as camisas do seu marido na lavanderia com uma criança de 3 anos e uma outra de 3 semanas?
Uau!Demora mais tirar as crias do carro do que deixar as camisas no balcão.

Vc já usou sutian normal, lindo, que deixas seus peitos lindos naquela blusa, só que na vida real vc está amamentando e pra tirar as peitolas pra fora é um malabarismo só?
Buuuuurra!!

Vc já tentou sair faltando uma hora antes do seu compromisso com a próle toda?
Impossível!

Quando um dorme o outro pula na cama. Quando o outro dorme é hora de dar de mamar.
Enquanto um mama virando o zóio o outro quer que vc escove os dentes, ou amarre o tênis, ou que simplesmente limpe a bunda.

Palavra chave: Paciência e muita calma nessa hora.

A casa de manhã e de dar vergonha. Principalmente depois do café.
Detesto aquele mundo de sementinhas de mamão papaia na pia, copo sujo pra tudo quanto é lado, manteiga, cream cheese, maionese, queijo, presunto tudo pela mesa derretendo aguardando a vez de ir cada um pro canto certo.

Minha mãe foi embora. Vinte dias. Que merda é essa?????
Quem é que vem lá do Brasil pra "ajudar" a recém parida e fica 20 dias e vai embora????
Prefiro não comentar.

Pelo retrovisor eu olho os dois sentadinhos nas cadeirinhas e não acredito. Que coisa mais linda desse mundo. Meus filhos. Plural.
Eu tô me achando, sabia?
Tô orgulhosa, tô feliz, tô satisfeita, aliás, que filhos lindos esses meus!

Plural? Uh, baby!

a máfia...

a máfia japonesa chamam de yakusa. a máfia napolitana chamam de camorra. a máfia russa chamam de máfia vermelha. a máfia brasileira chamam de governo.

Pérolas da Rainha

7.5.08

Itaipu?

Eu quero uma escrava paraguaia. Uma não, duas. Duas velhas, porque mocinhas e el embrujo de sus canciones, perto dos meus homens, jamais. A primeira velha eu porei na lida doméstica; a segunda, enfeitando a sala (quem sabe segurando uns charutos). A primeira chamarei de Carmela, porque tenho muita vontade de irritar meus vizinhos gritando “Ô Carméééééla!” o dia inteiro. A segunda chamarei de Ypacaraí, porque a quero plácida e silenciosa como uma lagoa.

Jodinélson Júnior adverte que não devo deixar dinheiro nas mãos delas. Nunca, nem um centavo. Diz o capetinha que a visão da grana desperta os anseios de liberdade.


Paraguay, Paris, Pinheiros...

2.3.08

Cansei.

catarro verde

7.2.08

Conclamo, contudo, a ciência deste mundo a encontrar uma vacina contra a "depressão pós férias"!

e, afinal, é ou não é por aqui que vai prá lá?

O que eu [não] tenho em comum com Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Carlos Drummond de Andrade

É que, assim como eles, eu também sou vítima de textos apócrifos creditados a mim. Sim, sim, vejam a minha importância.

Um amigo outro dia me perguntou se escrevi um poema chamado "Jesus pintou com a mão". Uéu, não sou muito dado a poemas desde a adolescência, quando, aliás, a temática religiosa não era muito recorrente.

Fiquei todo pimpão (como esse mesmo amigo costuma dizer). Estão creditando a mim textos alheios pra eles terem mais visibilidade, serem mais lidos, serem emoldurados com anjinhos e florzinhas e distribuídos por aí em apresentações de powerpoint.Uau, é quase uma realização artística.

Aí ele me mandou o arquivo, em mp3. Trata-se de um poema do tipo seresteiro, com uma viola tocando ao fundo e declamado cheio de emoção parnasiana.

Enfim, nada de atribuição indevida a mim. Deve ser só um caso de homonímia. Afinal de contas, se existe um Marco Brasil narrador de rodeio, bem pode ter um seresteiro também, uai.

é por aqui que vai prá lá?

Careca, enfim

Na manhã de uma quarta-feira, exatos quinze dias após a quimio, eu descobri que não gastaria dinheiro com cabeleireiro por algum tempo. Durante o banho matinal, no banheiro do hospital, passei as mãos na cabeça e uns vinte fios vieram enroscados nos dedos. “Ô ôu”. Levei as mãos mais uma vez à cabeça e outra porção veio junto. Fechei os olhos e busquei um restinho de pensamento positivo que pudesse estar guardado em algum canto da mente. Não encontrei. Terminei o banho o mais rápido que pude e voltei para a cama. Quando o enfermeiro entrou, um rapaz com menos de trinta anos, contei que estava me despedindo dos meus cabelos. “Pelo menos os seus vão voltar a crescer. E os meus, heim?” respondeu, mostrando sua careca em estágio avançado. E agora, Daniela? Engoli meu beicinho e desfiz a cara de coitada.

O que o enfermeiro não sabia era que aquele comentário foi o equivalente a quatro sessões de terapia condensadas em cinco segundos. Talvez eu supervalorize um pouquinho os meus problemas - ok, ok, eu SEI que supervalorizo na maioria das vezes - mas também sei reconhecer o drama alheio. E o problema capilar dele era, definitivamente, mais sério que o meu. Além disso, a queda dos cabelos era o primeiro efeito colateral da quimioterapia que não vinha acompanhado de dor, enjôo, febre ou qualquer outro desconforto físico. O único inconveniente era a minha repulsa a cabelos que se soltam da cabeça. Era fio de cabelo nos ombros, nos braços, na cama, no travesseiro, no chão… um pesadelo. Para resolver esse problema, com o namorido a mais de 400 quilômetros de distância, liguei para o meu amigo gay. “O que você vai fazer hoje à noite?”. “Tenho aula. Por quê?”. “Duvido você vir passar a máquina no meu cabelo”. Marco Aurélio não só topou faltar à aula na faculdade como ainda atravessaria a cidade duas vezes para ir em casa buscar sua máquina de cortar cabelo. Mas todos temos nossos carmas e não há nada que se possa fazer a respeito, certo?

Até a chegada do meu cabeleireiro particular, eu ainda teria que esperar pelo menos dez horas. Para me poupar do sofrimento de passar o dia recolhendo longos fios de cabelos soltos pelo corpo - ou para se distrair, não importa - minha mãe resolveu cortar meus cabelos bem curtinhos. “Essa tesourinha de costura vai resolver, Dani, senta aqui”. Duas horas depois, o resultado foi um corte tão pavoroso que eu desejei que todos os fios de cabelo caíssem imediatamente. Infelizmente, o jeito era esperar.

Quando entrou no quarto, Marco parecia tenso. Provavelmente apreensivo pelo que estava por vir, esperando uma cena típica de novela das oito, com muito choro e música do Kenny G ao fundo. A minha ansiedade era tamanha que mal o cumprimentei. “Vamos consertar logo essa tragédia que a minha mãe fez, por favor”. Assim que pegou a tesoura, Marco Aurélio foi tomado pelo espírito de algum cabeleireiro gay que vagava pelo hospital. Mostrou incrível habilidade e uma inesperada afetação na voz enquanto acertava o estrago feito pela tesourinha de costura. Depois, lamentando por ter que destruir sua obra de arte, eliminou o que restava de cabelo com a máquina. Ao olhar minha nova imagem no espelho, confesso que notei um certo charme naquele visual. Enfiei-me embaixo do chuveiro para espantar qualquer sinal de desânimo e vestígio da tosa. Sentir a água batendo diretamente no couro cabeludo é, no mínimo, diferente, assim como encostar a cabeça no travesseiro frio. Na primeira noite, em pleno inverno, eu levantei para ir ao banheiro. Sonolenta, lembrei que estava careca quando abri a porta do banheiro e senti o vento gelar minha cabeça. Uma tristeza repentina ameaçou se instalar. Afastei-a pensando no enfermeiro e sua falta de perspectiva. E, principalmente, na minha cura.

Resumindo, perder os cabelos durante um tratamento contra o câncer é como entregar a bolsa a um assaltante armado: “Toma, leva tudo mas me deixa viva”.

lições reais em enzimas virtuais

Donw again

Eu sei, eu sei que freqüentemente eu me comporto feito uma plasta covarde, que deixo oportunidades passarem por falta de empenho, que não vou atrás do que quero e/ou preciso quando deveria, que não sou “proativa” (pausa para vômitos. Meus. É que jargãozinho de auto-ajuda, seja da variante empresarial ou da esfera privada, sempre me provoca essa reação) e o mundo hoje – e sempre ? - é destes insuportáveis seres semi-robotizados, ultra-enérgicos, overachievers e saltitantes. Eu sei que é estranha essa apatia toda vinda de alguém que sempre incentiva os outros a buscarem o que querem, muitas vezes dizendo a eles a platitude – óbvia porém verdadeira, como a maioria delas – “o pior que pode acontecer é você ouvir uma recusa delicada”. Mas aí é que tá: é que pra mim, em certos momentos, o pior que pode acontecer é ouvir uma recusa delicada. Mesmo.

cyn city

Impressionante

O que mais me impressiona é que ainda tem gente que lê o que eu escrevo, ao menos aqui. Que coisa!

branco leone

2.2.08

O tempora, o mores

O tempo passa, a vida muda, a gente muda. Quase sempre para pior.

Tinha eu meus 16 anos quando assisti aquele filme "N0ve Semanas e Meia de Am0r". Achei sensualíssim0! Principalmente a cena em que os dois estão na cozinha, na frente da geladeira, se lambuzando com mel, chocolate, morangos e quetais. Muito sécsi...

Cerca de outros 16 anos se passaram e eu, já dona-de-casa-mãe-de-família-que-trabalha-fora, passava as noites em claro, embalando um bebê que não queria dormir. Certa madrugada, resolvo ligar a tv na sessão corujão e estava passando justamente esse filme, justamente nessa cena.
Meu único pensamento: "quem é que vai lavar o chão dessa cozinha no dia seguinte?"

Mesa de bar

1.2.08

Gostaria de poder incendiar - com os donos dentro, evidentemente - pet shops e clínicas veterinárias que têm nomes-trocadilho com cão, tipo: Gatos & Cãopanhia, Cão Peão, Cãopanheiro, Cãopanhia das Raçôes, Cãofusão e Cia, Amicão, Amorecão, Bem Locão, Cãopany, 18 Kilatem, Cãobuí Pet, Pousada do Cãoboy, Cãocun Pet, Pet Shop Cãomarada, Fofocão, Kãomilão, Cão de Estrelas, Cãosagrado, Cão de Mel, e por aí vai. Os nomes são reais. E quando você pensa que já viu tudo, vem esta aberração: Pronto Zoocorro. Aí já é caso de empalamento...

catarro verde

25.1.08

O mundo acabou numa terça, às 4 e 20 da tarde. A caneta tinha tinta mas faltou o bloco, ela me disse para ser feliz e eu quase ia sendo. O mundo acabou numa terça, chovia em São Paulo. Na mão esquerda a unha com esmalte lascado e o anel de sempre, e eu precisava cortar o cabelo. Não consegui decifrar o olhar da mocinha no meu decote nem as máscaras encharcadas na vitrine, o samba dissonando da conversa dos encasacados na fila do cinema. O mundo acabou numa terça.
Apesar do saco plástico que eu conscientemente recusei no caixa, apesar das lágrimas da namorada traída na mesa em frente, da sopa com gengibre em pleno janeiro, da vendedora que mandou dar novalgina ao neto que tinha febre. Apesar do CD ainda lacrado na minha bolsa roxa, o mundo acabou, 2 minutos antes de eu descer as escadas e sumir na estação do metrô.

:: kaleidoscópio ::

Renata

São seis horas e ele não vai ligar. Renata sabe que ele não vai ligar. Ela é mulher, ela já nasceu sabendo. São seis horas e quarenta e dois minutos. Ele estava num boteco com amigos quando atendeu o celular, foi muito simpático e disse que ligaria assim que chegasse em casa. Mas ele não vai ligar, Renata tem certeza. São sete horas e vinte minutos e, ciente de que ele não vai ligar, Renata faz seu miojo com o telefone sem fio ao lado, só para garantir. Ele não vai ligar porque quando ele chegar em casa já vai estar tarde. São oito horas e oito minutos. Renata pendura as roupas no varal com o telefone no bolso, por via das dúvidas. Ele não vai ligar porque assim que ele fechou o celular naquele boteco esfumaçado, ele se esqueceu de que havia falado com ela. São oito horas e quarenta e nove minutos. Renata assiste uns enlatados americanos e uns pedacinhos do Fantástico e ele não liga. Claro que não. Ele não vai ligar porque ele é um homem. E homem e mulheres, quando olham para um telefone, vêem o mesmo objeto, mas não vêem a mesma coisa. São nove horas e vinte e sete minutos. E Renata, veterana de muitos e muitos não-telefonemas, sabe que ele não vai ligar. Ela sabe, mas anda com o telefone pela casa. São nove horas e cinqüenta e quatro minutos e ele não liga enquanto Renata, com o telefone em cima da pia, faz xixi, toma banho, seca o cabelo e passa todos os cremes. São dez horas e vinte e um minutos e quando o telefone toca Renata dá um pulinho e sente dor no estômago mesmo sabendo que não é ele. A certeza de que não é ele ligando, estranhamente aumenta a esperança. Renata atende, conversa um pouquinho com sua mãe e libera a linha. Mas ele não liga. São dez horas e cinqüenta e três minutos. Ele não vai ligar porque vai chegar tarde do boteco, meio bêbado, vai estacionar o carro torto na vaga, vai demorar para acertar a chave na fechadura, vai tropeçar no viradinho do tapete, vai largar a camisa amassada no corredor e vai se jogar na cama de calça e sapatos. Renata sabe muito bem que ele não vai ligar, porque homens e mulheres quando dizem que vão ligar, usam as mesmas palavras, mas querem dizer coisas diferentes. São onze horas e treze minutos. Ele não liga, mas Renata dorme com o telefone ao seu lado, a gata preta aos seus pés, um sono bobo, um sono leve,um sono que não acredita em nada, um sono que acredita em tudo. São onze horas e quarenta e dois minutos.

nomes só

20.1.08

Comunicado Interno

Chefinho Rata,

O que você acha de uma reunião do conselho diretor? Todo mundo que está ai na direita?

Pra relembrar os velhos tempos, tomar um chopp, escrever um livro, plantar uma árvore e... pára por aí.

No aguardo de um memorando, abraço,

Henrique.

P.S.: Você pode me dar um vale de 10 rublos? Dívidas do natal, você sabe...

18.1.08

Anúncios de absorventes

Qual o problema dos anúncios de absorventes? São sempre mulheres limpas, relaxadas, sorridentes, rolando em lençóis macios. Todas achando a maior graça em menstruar. Não faz sentido. Fico me perguntando por que eles não fazem bons anúncios de menstruação... Anúncios-verdade, com câmera tremida e as mulheres ensangüentadas, deixando rastros de sangue no chão? Elas iam ter problemas hormonais, puxariam o cabelo umas das outras e ficariam deprimidas, vendo novela e se entupindo de Leite Moça.

loser

17.1.08

Homem é que nem roupa

Outro dia estava conversando com Nat e Maffalda, duas moças muito queridas, e chegamos à conclusão de que homem é que nem roupa. E quer assunto mais caro às mulheres do que homem e roupa?! Não existe!

O tipo mais comum por aí é o Falsificado: acha que é um Valentino, mas está mais para vestido da Renner; no máximo é uma cópia barata feita em Hong Kong. No fundo, se trata daquele Hélio do qual tanto falamos por aqui.

Existem também os de grife: são lindos, vestem bem e toda mulher sonha em ter um. Os clássicos caem bem no corpo por uma vida inteirinha. Mas esses aí, meu bem, não é qualquer uma que põe a mão, não...

Alguns são até roupinhas honestas, que valem o preço cobrado - apesar de não serem, assim, um Armani. Em alguns casos, é preciso fazer alguns ajustes. Mas alguma de vocês ainda tem paciência pra ajustes? Porque eu conheço poucas que têm. É bom dizer que nem sempre estes consertos ficam 100%. Algumas vezes, corre um fio, a pence fica mal feita e aí já era.

E sempre há a roupa emprestada. A peça nem é sua, mas você faz de tudo para devolvê-la linda, cheirosa e sem nenhum fio puxado. Em alguns (pouquíssimos) casos, a roupa fica tão bem em você que você acaba não devolvendo. Só que o mais comum é nos apegarmos à peça e sofrermos muito ao devolvê-la. E me respondam uma coisa: é mesmo sensato dispender tanto esforço com uma coisa que nem é sua?!

De qualquer forma, a conclusão é a seguinte: não importa se a peça é de camelô ou de grife, o importante é se apaixonar por ela. Uma vez que isso aconteça, é capaz de você ir para o Baile do Copacabana Palace com roupinha de feira e achar que está abalando. Afinal, bom senso não vende em farmácia...

Soletiras? No Rio de Janeiro?!?

27.12.07

o que eu ia dizer é que é tanto tudo o tempo todo
que às vezes só mesmo um banho de mar...


:: kaleidoscópio ::

26.12.07

Ho Ho Ho

Entediado na portaria esperando sua carona? Dentro do carro enfrentando quarenta minutos de trânsito até a casa da sogra? Mofando no ponto de ônibus? O joguinho do natal funciona assim:

Cinco pontos pra cada velhinha carregando uma bandeja de comida, cinco pontos pra cada moçoila carregando um vasinho de flor, quinze pontos pra cada criança berrando e dez pontos pra cada marido com cara de saco cheio.

Boa sorte.

uma dama não comenta

Caderno de anotações

Não consigo dormir porque tem um bailão aqui do lado. Dá pra imaginar pessoas animadas?! Dançando?! Se Nietzsche conhecesse o que se dança hoje, só acreditaria em um Deus que conseguisse dormir.

diferença nenhuma

18.12.07

A epidemia volta

Dezembrite: é esse o nome que, já há alguns anos, dei a essa sensação meio indefinida que nos acomete -- a alguns mais intensamente, a outros de forma mais amena -- todos os anos, quando seu fim se aproxima.

A dezembrite tem sintomas que são comuns a todos os enfermos, outros que variam de caso para caso. Uma forma leve de depressão, que faz com que uma típica irritabilidade e um banzo indefinido tornem os dias mais arrastados e o atrito com a superfície do relógio mais intenso, parece ser largamente descrita por quem investiga a moléstia. Uma repentina falta de saco inicia-se lá pela última sexta-feira de novembro, paralisa a todos, faz com que a freqüência das visitas aos blogues caia pela metade e tem como compensação uma compulsão à idéia de compras, presentes, lembranças.

Alguns dos contaminados apresentam reações autoimunes bastante perigosas. Por exemplo, há uma alergia aguda a qualquer som que apresente o timbre de uma harpa paraguaia. A combinação de notas musicais que venha a compor qualquer coisa parecida com "hoje a noite é bela" traz tremores involuntários, sudorese e, em certos casos, queda de cabelo -- de resto, também verificada por origem mecânica, pela ação de mãos em fúria pela inutilidade de levá-las aos ouvidos.

Sininhos, imitações de neve feitas de qualquer material, garrafas que se assemelhem à de champanha, de espumante, de cidra Sereser, tudo isso provoca reações semelhantes. Com isso, há uma queda brutal de produtividade, o país, já em crise crônica, sofre com o choque surdo, apenas disfarçado pela explosão do consumo de presentes, espécie de Prozac ou Pamelor da dezembrite.

Qual a solução? Não há. Pensei em propor ao parlamento, ao Lula ou ao Renato Aragão -- o rei das criancinhas pobres do mundo -- que se dividisse o país em 12 e cada grupo resultante dessa divisão comemorasse seus Natais em um mês do ano. Desisti: se uma das causas da dezembrite é o barulho, a doença se tornaria uma epidemia crônica, com um Natal permanente, mesmo que segmentado. Outra idéia, mais radical, seria espalhar boatos sobre o Papai Noel. Não seria difícil fazer pespegar-lhe a suspeita de pedofilia ou mesmo de zoofilia, com aquelas bundas de rena balouçando à sua frente o tempo todo. Considerando o número de chaminés pelo planeta, quem negaria que o outrora bom velhinho estaria vendendo preferências, cobrando propina de famílias mais abastadas para visitá-las com hora marcada? "Papai Noel desceu exatamente à meia-noite pela chaminé dos Melo Peixoto da Silveira Dantas", espalhariam os agentes bem treinados pelos heróicos detratores do insistente Nicolau. Mais simples e mais barato seria distribuir adesivos para carro com os dizeres "Natal é coisa de viado". Mas a chance de um justo processo por discriminação afastaria os eventuais patrocinadores.

Como se vê, dezembrite é como dente do siso. É inexorável, e arrancar dói. Portanto, resta procurar alguma resignação. Neste ano, penso em tentar uma hibernação. A idéia é dormir no dia 21, uma sexta-feira, e colocar o despertador para as 7 da manhã do dia 3 de janeiro. Será que funciona?

dito assim parece à toa

17.12.07

Papai Noel

Papai Noel é aquele bom velhinho pedófilo, que você põe o seu filhinho sentado no pau duro dele, todos os anos, no shopping. E ainda fotografa.

Feliz Catarro Verde Natal.

15.12.07

ao velho batuta

Querido Papai Noel,

Gostaria de ganhar uma namorada de presente. Ela precisa ser bonita, gostosa e charmosa; ser cool sem ter o ar muito blasé; quero uma guria que goste de bons sons, não faço exigências de estilos, precisa ter bom gosto musical; quero muito que ela goste dos meus amigos e que entenda que beber faz parte da confraternização; precisa ler mais que eu, o que não é difícil de se encontrar tendo em vista que eu não estou lendo ultimamente, alguém que leia para mim e me ensine o que eu ainda não sei [o sr Noel sabe também que não é qualquer leitura, né? tem que saber o que ler, que eu leio pouco, mas eu tenho amigos que conhecem literatura e eles me dão uma base do que é bacana e o que não é]; obviamente se trata de uma menina inteligente; esta namorada precisa falar no mínimo uma segunda língua, se a primeira for português, que ela saiba falar ao menos o inglês para que possamos passar um ano juntos em Londres depois que eu me formar e ela possa conversar de boa com todos meus amigos que por lá encontrar; quero uma mulher que saiba cozinhar e que goste de alho nos temperos; não ligo para idade, mas geralmente as mulheres balzaquianas preenchem melhor estes pré-requisitos; eu quero uma namorada para me acompanhar nos shows e nos botecos, no cinema eu não ligo de ir sozinho, mas ela precisa gostar de cinema, de filmes alternativos, precisa gostar e conhecer mais o cinema europeu do que o roliúdiano; se ela tiver uma casa bacana também ajuda, que ainda vai levar um tempo para eu ter a minha; ela não precisa ter um home-cinema na sala dela, não sou tão exigente assim.
Acho que é isso.

Mas se tiver difícil de encontrar este presente, pode ser um sapato novo, mesmo.

Grato.
Atenciosamente,

The Nowhere man

3.12.07

um post offline

eu sou o tim maia da literatura.

adios lounge

26.11.07

Lá fui eu novamente para o ponto lotado da Consolação com a Paulista. Peguei o Jardim Macedônia, lotado, abarrotado, craudeado. Fiquei um pouco na parte da frente, já que passando a catraca tava show de horror, todo mundo grudado um no outro.
Quando estava chegando perto da minha casa (faltavam uns 4 pontos) resolvi passar. Passei e fiquei grudada na catraca. Na minha frente havia uma moça interativa, ela olhou para mim e disse: ônibus lotado e a gente ainda têm que agüentar isso!
Eu pensei: isso o quê?
Quando vi tinha um bêbado bem ao meu lado. O cara tava mals gente, falava cuspindo, todo inchado e pelos movimentos dos olhos percebia-se que tudo rodava. Ele tava bem perto mesmo de mim, quase encostado, fedia cachaça.
Assim que percebi a existência do maldito ele começou a fazer movimentos estranhos (alguém aqui já viu um gato vomitar? Se viu sabe, ele estava fazendo esses movimentos).
Pela posição do homem o jato de vomito não só cairia em mim como direto na minha cara. Entrei em pânico e comecei, em vão, tentar sair do lugar que eu estava, mas tava difícil não tinha para onde correr.
De repente, o cara faz uma cara de alivio e notei que não havia vomito. GENTE, O CARA SE CAGOU TODO EM PLENO JARDIM MACEDÔNIA, LOTADO, ÀS 6:30 DA TARDE.
Vocês não fazem idéia de como o pessoal achou lugar rapidinho, parecia que haviam dado um tiro dentro do ônibus, todo mundo começou a se apertar para o fundo e gritar. Um moça bem baixinha que estava próxima de mim colocou o rosto nas axilas de outro moço, eles não se conheciam.
Uma outra, que tinha cara de ser uma pessoa divertida, gritava e colocava a mão na boca e dizia com sotaque nordestino: ai gente, não posso com essa caatinga acho que vou vomitar. Uma senhora, coitada, que estava bem ao lado do moço no momento do alívio não teve dúvidas, pegou sua bolsa e agrediu o homem na cabeça diversas vezes. E dizia: rá simbora seu bebo, tu tá é fedeno que nem um porco.
Era o inferno de Dante em Plena Rebouças. Pessoas desesperadas, uma coisa horrível.
O motorista percebeu o motim, abriu a porta do ônibus no meio da avenida e o homem começou a passar pelas pessoas para chegar até a porta, nessa hora a gritaria foi geral, algumas se penduraram, outras sentaram no colo de quem estava nas cadeiras e o moço desceu e caiu coitado.
Nessa hora fiquei até com dó, o cara caído no chão todo cagado, que situação né! Mas o que eu podia fazer? Ajudar ele? Sou até que uma pessoa bacana, mas ajudar esse sujeito era demais!
Enfim, não consegui comer mais nada durante aquele dia e nem me esquecer daqueles momentos de horror.

gente, foi horrível!

23.11.07

reflexões de fim de ano

Voltando para casa, com as luzes das árvores natalinas piscando em minha memória, comecei a pensar sobre o que estou realmente fazendo neste mundo, vasto mundo, em que fecho os vidros do carro e me escondo atrás do insulfime, em que recebo e-mails quase diários sobre "como se proteger do falso telefonema de sequestro", o "golpe do flanelinha que some com o rádio do seu carro", os "meninos dos faróis que esguicham ácido na sua cara", e por aí vai. As ruas e avenidas que atravesso em São Paulo não lembram exatamente o morro tomado pelo BOPE e seu Capitão Nascimento... mas não pude evitar o pensamento de que tiros ecoam na periferia paulista, no centro da cidade, em arrastões nos condomínios do Morumbi, tão rápido como as primeiras luzes de Natal.

daqui prá frente tudo vai ser diferente

Grandes questões da humanidade

Alguém sabe por que não existem animadores infantis homens? E por que os Paquitos foram um grande fracasso? Eu te digo: é por causa da altura das crianças. É, isso mesmo. Porque se você perceber, essas pequenas e agitadas criaturinhas ficam EXATAMENTE na altura do seu saco. Dançar ilariê, brincar de pega-vareta, andar de patinete, qualquer uma dessas inocentes atividades pode ser fatal. É só a criança fazer qualquer movimento que... uau, vai de encontro direto aos seus bagos. E enquanto você se debate no chão, como um salmão fora do rio, o desgraçado fica lá, orgulhoso de si mesmo e se achando uma merda de Power Ranger.

lições do loser

22.11.07

Ontem tive meu próprio momento proustiano

Encontrei no supermercado petits pains suédois, que são pãezinhos cortados ao meio e torrados. Lembrei que gostava deles, fiquei toda alegrinha e comprei um pacote.
Cheguei em casa e já fui experimentando um. Hm, crocante e nutty. Mas fiquei meio decepcionada, porque não parecia a mesma coisa. Deixei o pacote pra lá e fui fazer outra coisa.

Mais tarde, fui tirar os queijos da geladeira pra fazer fondue, que era o jantar programado. Gruyère, emmental, e comecei a ralar. No finzinho do emmental, me deu um clique e pensei : hm, isso deve ficar bom com um dos petits pains. Cortei um pedacinho dele e comi com uma das torradinhas suecas.

Era isso! A combinação de sabores me emocionou, e de repente lembrei o porquê : foi a primeira coisa que comi em Paris, na minha primeira vez na cidade, há mais de dez anos. Um fato que eu tinha esquecido completamente, encoberto por tantos outros que se seguiram nesse tempo todo. Mas que, pelo visto, nunca deixou de ter importância.

Em 96, fui a Paris pela primeira vez, para fazer um curso de verão na Sorbonne - Langue et Civilisation Française. As residências estudantis já estavam todas ocupadas, mas consegui alugar um apartamento normal no 7ème através de um anúncio pregado não lembro onde. Cheguei na cidade num domingo, e fui pegar a chave com o administrador, um senhor brasileiro muito tranquilo. Ele foi comigo me mostrar o apartamento e como funcionavam as aparelhagens, código da porta, etc.

Fiquei pasma, porque o lugar que aluguei sem ver era um apê grande, lindo, com quarto, sala, cozinha equipada e banheiro - na verdade poderia ser dividido com mais gente, mas consegui alugá-lo sozinha. Das janelas se via a Torre Eiffel, e a rua tinha a mistura exata de movimento e calma. Não podia querer mais nada.

O administrador então se despediu e explicou que, por ser domingo à noite, ele previu que seria difícil eu conseguir comprar comida naquele horário - e deixou umas coisinhas pra que eu não ficasse sem nada.

Abri a geladeira e encontrei - sim, um pedaço de emmental e um pacote de petits pains suédois. Fiquei comovida com o cuidado inesperado, e senti que aquele período ia ser um dos mais felizes da minha vida.

E assim, na minha primeira noite de verão em Paris, sozinha frente às janelas abertas mostrando a Torre iluminada contra o céu escuro, consciente da minha tremenda sorte de estar ali, tocada pela beleza e gentileza, comi queijo suiço, pão sueco e água - e nada pareceria mais gostoso.

annix

Credo in card, monster card

Quase 25 anos de profissão, centenas (ou milhares, sei lá) de campanhas bem-sucedidas feitas por mim ou com a minha colaboração, milhões ou bilhões de campanhas muito mais criativas e vendedoras que as minhas feitas por anunciantes nacionais e internacionais provando o contrário, e até hoje eu ainda sou obrigada a ouvir de clientes e curiosos - e até do ocasional profissional da área, por increça que parível - que não se deve usar a palavra "não" ou outras igualmente negativas, tais como "nunca", "jamais" e outras desse tipo em propaganda.
Sim, até hoje, a esta altura, em que até as pedras sabem, ou deveriam saber, que isso é uma bobagem, uma palhaçada, uma picaretagem de neurolingüística mal-costurada ou de auto-ajuda empresarial de 8ª categoria, ainda tem quem diga, repita e defenda isso.
Se acontecer de novo, não sei o que eu faço :
se finjo um ataque de nervos e saio gritando e arrancando os cabelos ou se faço o papagaio que repetiu essa besteira engolir, sem cortar e sem dobrar, meu exemplar de domingo da F*lha (não dá pra não ler – wow, a double negative !) ou meu Am*rican Express (não saio de casa sem ele).
Pensando bem, melhor que seja meu Cre*iCard MC. Porque o prazer que isso vai me dar... não tem preço.

cyn city

20.11.07

Procrastinadores do mundo, uni-vos!

Mas não agora, OK?
Me deixem dormir mais um pouco...

puragoiaba e go to heaven

19.11.07

Kátia

Se há um momento de dor ou de riso, uma empadinha vai bem. Uma forma de empadinhas. Ou um pote de sorvete. Se há uma espera, uma coca-cola. Um medo, um sanduíche. Uma angústia, mingau.
O sim, o não, o frio, o escuro, nada é maior que um prato de miojo, não existe mal incurável frente à uma fatia de torta de limão.
Que a comida invada e preencha e ilumine e anestesie e defenda e justifique e traduza.
Que ela defenda a coragem, que é pouca.
Que ela embale o calor, que não há.
E invente um amor que não existe, nunca existiu.

nomes só

18.11.07

Um último olhar sobre a cidade

Malas prontas, depois de ter jogado tanta coisa fora. Dez anos não se apagam fácil... Nem é questão de apagá-los, afinal, tanto a dor quanto a delícia de um dia ter estado aqui partem comigo para o sul do mundo, independente do que for levado. Mas sempre a sensação de algo incompleto - será que alguma vez estamos prontos...?

Ficou-me esta lembrança, quase uma sensação, de uma noite de chuva no banco de trás de um carro, numa carona para casa: uma menina, com quem eu procurava reatar o namoro, escreveu no vidro embaçado da janela, letra a letra, enquanto eu esperava uma declaração de amor:

Você está ciente do que já é mágoa?

E eu acho até que estava. Ainda que esperasse uma declaração de amor. Eu sempre tive essa mania besta de querer por souvenir mais do que mágoa.

E agora eu me pergunto, honestamente ingênuo: responder bastava?

(Mas não cabia na janela nem mais uma palavra.)

diferença nenhuma

13.11.07

A seqüência lógica dos fatos

Há umas três semanas.

Arrombam o carro da minha namorada e roubam, entre outras coisas, meu computador, minha agenda e umas besteiras mais. Duas horas depois, chego ao aeroporto e descubro que o vôo foi cancelado. A TAM paga o hotel em que fico, mas no dia seguinte, logo cedo, me acordam avisando que uma amiga morreu. Chego ao aeroporto e descubro que o avião em que vou viajar é um Fokker 100 -- o único avião no mundo que me mete medo. Pouso no Rio e, não mais que de repente como num soneto de Vinícius, chove em um dia o que deveria ter chovido em um mês.

Agora eu vivo com medo de que finalmente descubram que foi por minha culpa que o Rebouças foi soterrado.

rafael galvão

Duríssimo

Tive um namoro que acabou por excesso de Junior. Ela gostava do Fabio Junior, do Sandyjunior e do Amaury Junior.
Aí é jogo duro...

catarro verde

12.11.07

sonhando

Encantamento ao te ver ali a sorver-me os caldos, sou a provedora que te sacia, a presa que te mata a fome, banquete e banqueteada, nosso festim de ais e silêncios, tua boca a desvendar-me os sabores todos - amor e lágrimas comovidas-, em reverência e posse te debruças e me entrego mansa. Tua língua a abrir caminhos que eu sigo tonta, lucidez e desejo escorrendo rio caudaloso em que me lavo e te banho, soçobramos juntos, à tona voltamos para mergulhar em beijo úmido porque eu quero em mim o meu gosto em ti; água, azeite, mesclados mas ainda sou eu e é você, e nessa hora, nós.

leftovers

Mini 91

Dobrou o papel bem no meio e manteve-o assim por um segundo, só para ver a perfeição fugaz da dobra, feita apenas para marcar a linha do meio. A partir daí, dobra após dobra, construiu mais um avião. Como com os outros, o pôs de lado, sem tentar fazê-lo voar. Partiu para o próximo. Dobra, desdobra, dobra de novo, formando o primeiro triângulo, depois o outro, simétrico, espelhado, depois o seguinte, mais estreito, sobreposto ao primeiro, então seu gêmeo cis-trans e, de dobra em dobra, mais uma nave. Colocou-a delicadamente sobre as outras e começou o trabalho novamente, cada jatinho mais perfeito que o outro. Já havia um pequeno monte deles sobre o chão, dando forma, a sábia esquadra, à sua medida edificante: para cada aeronave a mais, um poema a menos. Até o nascer do sol estaria livre daquele peso.

dito assim parece à toa

Ontem à noite descolori e pintei o cabelo.
Dizque laranja é a cor deste verão. Pois então.

reverberações

8.11.07

acho super legal as pessoas rezarem e cantarem e louvarem.
só queria que fizessem isso em silêncio. ou que as músicas fossem do nível do 'mudança de hábito'.

objeto abjeto

5.11.07

Noite dessas tava andando pelo Bixiga na chuva, passo por uns dez neguinhos de rua sentados na calçada embaixo de uma marquise, ao redor de uma pizza. Um dos farrapinhos, magrelo e molhado, pedaço de pizza na mão, me olha nos olhos e manda:

- Tá servido, moço?

Às vezes o ser humano me comove. Mas passa logo.

catarro verde

28.10.07

Da vida tudo se leva

Chega. Chega de folhear revistas de celebridades para ver que fulano passou por um ataque cardíaco quase fatal e, ao convalescer, se deu conta do "valor das pequenas coisas", da "importância de fazer tudo sem pressa" e, oh, ignomínia, de que "da vida nada se leva". Quero abrir agora uma revista de anônimos e saber que seu Altair, aposentado, 67, que todos os dias pega o jornal no portão, ainda de pijama, teve um belo piripaque no peito (os cadernos do jornal se espalharam pela rua, ele machucou a careca na queda; dona Isaurinha quase morre junto) e, durante a recuperação, na enfermaria do hospital São Francisco das Chagas, acordou para a vida: viu o valor das grandes coisas (aquela viajona para Búzios no verão custou o mesmo que o fim de semana em Poços de Caldas, é, bebé?), se tocou que sem pressa tudo desanda (deixa para registrar o palpite da Mega Sena lá na lotérica do Djalma na quarta depois das seis, deixa) e que da vida tudo se leva (o lance é carregar no caixão a grana do pé-de-meia: deixar dinheiro para a Suely e o picareta do Batista? Aqui, ó). Hoje seu Altair continua pegando o jornal (mas dá prioridade ao caderno de economia, onde tem devaneios faraônicos e longas ereções quando lê o Mercado Futuro de Ações), usando o mesmo pijama e com um risinho encruado. Da vida tudo se leva, não vê quem não quer. Dona Isaurinha viu e – há quanto tempo! – gostou.

ao mirante, nelson

24.10.07

Mocó de homem solteiro

Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas - sem cabo - encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio vintage.

E quando a fofa, toda fina e fresca, nova costela, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o seu mancebo... e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual (aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista Wallpaper).

Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele quadro caríssimo –artista contemporâneo, tendêeencia!- numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?! Um desastre.

A fofa, toda metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe - sim, ela está doida e perdidinha - com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos - como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no Fantástico das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.

Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.

Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana... A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme. Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.

Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware - aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...

Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”
“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.

o carapuceiro

21.10.07

Ensaio sobre a completude humana

água + terra = Lama => vai pro fogo => Barro => sopro divino (ar) = é nóis na fita, mano

dies iræ

8.10.07

O mito da criação sob a perspectiva de um pinto

No princípio era a Vagina. E Deus disse:
— Faça-se a penetração.
Mas o pinto não se mexeu. E, cabisbaixo, perguntou:
— Aquilo não tem dente?
E Deus, em sua eterna sabedoria, deu uma mãozinha a ele. E, após trocar cinco dedos de prosa com o Senhor, o pinto levantou-se, triunfante. Mas, como só tem um olho, complicou-se e acabou entrando na porta errada. E o pinto disse:
— Tá tudo escuro aqui!
E Deus replicou:
— Faça-se a luz!
Então o pinto pôde enxergar. E achou ruim.
— Pô, mas isso aqui é uma merda!
E Deus, em sua infinita paciência, falou:
— Não tá gostando, abilolado?
— É muito sujo.
— Ha! Você precisa ver quando eu criar o Congresso brasileiro.
— Além disso, fede, é quente, mal-iluminado...
— Espere só até conhecer o Recife.
— ... e apertado demais.
— Apertado! O que não é a falta de parâmetros. Tente passar o mês com um salário mínimo no futuro Brasil.
— Além do mais, dói pra entrar.
— Que é que você queria? Qual seria a graça caso não houvesse dor pra, depois, se alcançar o prazer? Olha... isso dá até uma bela teologia, hein? Taí, você me deu uma idéia. Vou inspirar um livro nesse sentido. Mas peraí, dói? Onde é que você... Burronaldo! Você tá no lugar errado! Seu jumentildo! Sai já daí!

E Deus sacou o pinto e, como não tivesse onde lavá-lo, separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. E o pinto pairou sobre a face das águas. E Deus disse:
— Ui! — e se arrepiou todo, pois a água estava gelada.
Em seguida — porque, apesar de não ter subconsciente, é seguidor de Freud —, o Senhor colocou o pinto no lugar psicanaliticamente correto.
E o pinto achou bom:
— Que maravilha! Quanta diferença! Obrigado, Senhor.
E Deus replicou:
— Isso, vai se divertindo. Quero ver daqui a nove meses.
E o pinto continuou:
— Devo admitir que, tirando a cueca samba-canção, essa foi Sua melhor invenção até agora, Pai.
E Deus não disse nada mas, em sua sempiterna bondade, começou a trabalhar num primeiro esboço de doença venérea. E, para reprimir ainda mais a sexualidade humana, imaginou o casamento como forma de punição.

marconi leal

4.10.07

Casal sai atrasado de casa ao tentar a democracia

O homem nasceu para o halterofilismo.
Levantar a moral da mulher.
É como se o marido fosse obrigado a dizer aquilo.
Mas se ele não declarasse, o que aconteceria?
Mulher não confia na sugestão do marido, confia na observação de outra mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião ao marido.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Como abarrotada?
- Parece um saco.
- Tá me chamando de cimento?
- Não, pediu para que a ajudasse, pode colocar algo que deixa a bundinha mais arrepiada.
- Tá falando que minha bunda caiu?
- Não....

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Qualquer comentário surgindo de uma boca feminina, não agrediria.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião a uma amiga.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Também acho, lembra um saco.
- Pois é, pode tentar algo para valorizar as curvas.
- Boa idéia, nunca gostei mesmo desse jeans. Usei pouquíssimo.

Homem não é espelho de mulher, nem dele mesmo.
A mulher tem independência e domínio no gosto, ela o deixa assistir, apenas isso.
Quando confia no acerto, não desistirá da roupa, ainda que seja um parangolé.
Quando não gosta de um detalhe ou uma peça, nada a demoverá. Nada. Nem o Tratado Lógico-filosófico, de Wittgenstein.
É uma coerência secreta.
O homem não está ali para concordar ou discordar, apesar do pedido ter sido esse.
O homem está ali para amá-la.
Do jeito que vier.

Fabricio Carpinejar

29.9.07

Tempo, tempo, mano velho

Entre sete e meia e oito da manhã, meia hora tem a duração de três piscadas de olhos.
Entre cinco e meia e seis da tarde, a de dois dias inteiros.

Duas Fridas

Já aconteceu de você se sentir ofendido por alguma coisa que alguém te fez, só que você simplesmente não consegue expressar em palavras exatamente o que foi ofensivo naquele ato, naquela atitude?

Já aconteceu de você ter convicção de que está com a razão, só que você não consegue explicar nem pra você mesmo os motivos de toda essa certeza?

Já aconteceu de você achar toda uma determinada situação extremamente enervante, só que você não consegue identificar o que te deixa assim tão alterado?

Já aconteceu de você querer que tudo fosse completamente diferente, só que você não tem idéia de como poderia ser melhor do que, de fato, é?

Já aconteceu de você ver que não tem saída fácil e indolor, só que você se questiona o porquê de estar cogitando a rota de fuga, pois, na verdade, onde você está é confortável, seguro e bom?

É a mãe!

25.9.07

Transporte coletivo

Eu sei que andei sumida, mas é que eu passei esses dias ocupada. Ocupada andando de ônibus. Morar no extremo norte da cidade e estudar no sul é privilégio de poucos. Valeu, Jesus! Outro dia eu tava esperando o ônibus no Terminal de Integração. Ninguém gosta de andar de ônibus, mas basta o bendito entrar pelo Terminal que as pessoas esquecem de onde vieram e pra onde vão. São 70 pessoas e só há 50 assentos. Os cálculos são feitos em silêncio, as pessoas se entreolham. A adrenalina sobe. O clima esquenta... O único intuito delas é conseguir algum lugar no ônibus e isso se torna uma disputa incrível. Os milagres de Cristo podem ser vistos claramente através das manifestações do povo. Pra pegar o ônibus o cego vê, o aleijado anda e a mulher grávida corre. Leis da Física são quebradas. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar? Não no Terminal de Integração de João Pessoa. Eu já vi duas mulheres entrarem no ônibus e se tornarem três lá dentro. Eu tou em tom de brincadeira, mas eu confesso que tenho medo às vezes. É incrível a força que uma mulher de 80 anos pode ter quando quer andar sentada no ônibus. Elas arremessam seus filhos coletivo adentro, dão cotoveladas e, em última instância, gritam. Um grito aborígine, sabe... AAHHH LULULU! E somem ônibus adentro. Eu, branquela amedrontada, criada à base de Leite Ninho, ainda tremo o queixo de medo quando o ônibus se aproxima. Motorista e cobrador têm que andar armados se não quiserem perder o lugar. Enfim, é a visão do inferno que eu dou testemunho diariamente. Mas apesar disso, é legal andar de ônibus.

circo sem futuro

18.9.07

BOIÂNIA E A PRIMAVERA

Abril pode ser o mais cruel dos meses, dezembro o mais chato, agosto o mais infeliz, mas pelo menos aqui em Boiás, setembro é o mais infernal. A umidade do ar tá tão baixa que, no zoológico, o camelo foi surpreendido tentando se disfarçar de hipopótamo pra poder ficar dentro d'água; em Brasília, o mar de lama secou e virou o oceano do pó vermelho, o que é extremamente prático : por mais enlameadas que suas excelências estivessem (hipoteticamente, claro), bastaria parar de chafurdar um instante, se levantar, dar uns tapinhas no Armani pra chacoalhar a poeira e dar a volta por cima, imediatamente imaculados, prontos pra (várias) outra(s). Em todo o Centro-Oeste, as roupas secam antes que você acabe de pendurá-las no varal, e não importa quanto hidratante se use, abaixo dos joelhos, toda canela é em pó. A cor verde só existe nos semáforos e placas de estrada, e se continuar assim por muito tempo, periga até eles ficarem cor de ouro velho e mais enrugados que uma mulher normal de 40 anos em comparação com uma perua hollywoodiana - ou carioca da Barra - de 68. Você pode se fechar numa salinha com o ar condicionado programado pra 17 graus, que a sensação térmica ainda assim será de, na melhor das hipóteses, 27. O estado físico das coisas muda, de sólido pra pastoso, de líquido pra gel, de vapor pra pura memória; o estado de espírito dos seres - relativamente - vivos entra em slow-motion permanente : o chocolate não quebra, se rasga; a manteiga não se espalha, se entranha; o sangue não corre, se arrasta; o coração não bate, belisca; o suor não encharca, evapora; os pulmões não se enchem, se enervam; as lágrimas não escorrem, empoçam; o trabalho não anda, engatinha; as gatas não miam, gemem; e as blogueiras não escrevem, postam qualquer besteira só pra fazer de conta que atualizaram. E acreditem, até isso já é trabalho demais.

Cyn City

30.8.07

Nunca me satisfaço com o sexo que assisto, seja na tv, no cinema, na internet.
Ou é pudico demais, suprimindo o essencial, ou é desnecessariamente explícito, o close tão close que você até esquece que na outra ponta tem gente.
Então acontece que só diante de cenas de sexo tenho rompantes de cineasta: fico mentalmente dirigindo atores, imaginando outros ângulos, selecionando trilha sonora e, claro, gritando com o roteirista pra melhorar o enredo.
Não, eu não vejo filme pornô. Mas só porque até hoje não gostei de nenhum.

duas fridas

7.8.07

Mudança de Hábito

Resolvi parar de usar “viado” como xingamento. Primeiro porque não vejo no que a sexualidade de uma pessoa – a não ser que seja pedófila, o que é horroroso em qualquer circunstância, mas, convenhamos, muito longo e elaborado pra se gritar pro energúmeno que acaba de nos dar uma fechada no trânsito - seja intrinsecamente má, ou da minha conta, pra dizer o mínimo. Segundo porque tenho medo de que algum dos meus amigos e conhecidos ache isso ruim, apesar de acreditar que eles saibam que no caso a intenção de xingar é o que vale, e não significado da palavra. Quanto a gente tá realmente revoltada com alguém, até "lindinho da titia" dito com a entonação certa vale por uns dez "fiadaputas", mas enfim, é melhor não arriscar. Em terceiro lugar, porque - como outras pessoas já disseram antes, e bem melhor que eu - nossos xingamentos clássicos andam mesmo um bocado ultrapassados, usando definições que não são mais ofensa nem motivo de opróbrio (palavrão é isso, o resto é elogio) pra ninguém, tá aí a tal "escritora" escorpiana que não me deixa mentir. E em último, porém não menos importante, porque eu sou preguiçosa e “viado” (ou será “veado” ?) é o xingamento bobo e defasado mais fácil de abandonar. Por exemplo: eu sei que existem ascendências bem piores e mais dignas de vergonha do que puta e charreteiro, mas não sei se consigo lembrar de gritar “seu filho de uma apresentadora de TV com deputado” pro moleque que quase arranca meu retrovisor com sua moto antes que ele saia do meu campo de visão; estou bem consciente de que tem muita gente, dos dois sexos, que não só aprecia bastante ir tomar no cu como também chega a recomendar a prática aos amigos e amigas, assim como quem ensina uma nova e deliciosa receita de salada de berinjela, e acho que cada um tem mais é que fazer o que lhe agrada. Mas mesmo que isso faça de mim uma conservadora preconceituosa, ainda me parece uma coisa suficientemente dolorosa e desagradável pra funcionar como ofensa, e além disso é bem mais fácil do que resmungar, pra perua que fura a fila no supermercado e entra com seu carrinho com 854 itens na fila especial pra quem só leva 20, a excelente e muito mais apropriada sugestão da jornalista Milly Lacombe, a realmente tenebrosa “Vá fazer um exame ginecológico completo”. Poderia até acrescentar "e com o espéculo gelado", mas acho que aí também já é crueldade demais. Eu também acho – apesar do que afirma meu lindo gatim, que diz que a culpa SEMPRE é do homem – que ninguém tem culpa de ser traído pelo cônjuge. E sei que é maldade chamar alguém de hipodotado, ou impotente, ou feio, ou malcheiroso (principalmente se for tudo verdade), mas também peraê, não se pode abrir mão de antigos xingamentos favoritos assim, sem mais aquela e sem nada igualmente fácil, rápido e curto pra botar no lugar. É por isso que, apesar de eu não chamar mais meus desafetos, sejam eles antigos e fiéis ou momentâneos de “viados”, sei que isso não vai me tornar um ser humano melhor, nem mais evoluído, e que nem meus pais vão ficar satisfeitos e mais orgulhosos de mim. É que eu me conheço e sei que a cada vez que eu deixar de chamar de viado um motorista barbeiro, um playboyzinho folgado ou um monstrinho malcriado e seu pai pitburro, meu mecanismo de compensação do hábito suprimido vai entrar em ação... e eu vou acabar chamando o quem-é excomungado de corno seboso, escroto e broxa, de pau pequeno e filho de uma vaca sifilítica com um cachorro manco.

Cyn City

19.7.07

As alegrias que o Google me dá (XXX)

simpatias para quem te fez sofrer
Um murro no olho. Um pontapé na boca no estômago. São as únicas simpatias em que posso pensar. E isso porque eu sou uma pessoa boa. Se eu fosse mau, sei de uns métodos de tortura bastante eficientes.

videos curtos de mulheres fazendo um boquete
Ou "vídeos de mulheres pagando um boquete em um moço com ejaculação precoce".

por que o brasileiro não reconhece suas qualidades
Porque passa tanto tempo sem ver as coitadas, sem ligar para elas, sem nem saber que existem, que quando as encontra por acaso na rua não sabe mais quem são.

manual do suicídio
Juro que se tivesse um eu te dava. Te mandava por Sedex, até entregava pessoalmente. Porque se até para se matar você precisa de um manual, a coisa está realmente feia e você não tem mais jeito.

frases no preterito mais que perfeito
O pretérito mais que perfeito é um absurdo da língua portuguesa que deveria ser imediatamente extinto. Porque não existe um passado perfeito, muito menos um "mais que perfeito": todos eles são imperfeitos, em todos mudaríamos alguma coisa, de todos nos arrependemos.

significados de tamanho não é documento
Só um: desculpa. Talvez mais outros dois: consolo barato e auto-engano.


videos de homens q chupam o proprio penis

Procure pelo filme "O Anão Superdotado e Corcundinha", que fez um certo sucesso em 1988 com trilha sonora de Nelson Ned.

pensamentos eu te quero
Nada tão triste como um amor não correspondido. Você quer ter pensamentos, mas eles não querem você.


mulheres casadas com 40 anos apaixonadas por menino de 20 que fazer?

Comer os bichinhos. Se as coroas não comem os garotos, quem vai comer? Por isso, minha amiga, se jogue. Imagino que seu marido tenha lá seus 50 anos. Não funciona mais como funcionava antigamente -- isso se a senhora teve sorte e ele funcionou algum dia. Então, no seu caso o garoto de 20 anos vai representar um sopro de vida -- essa vida que é doce, mas é dura -- no seu cotidiano sexual. Talvez ele ainda precise ser burilado, mas do alto dos seus 40 anos a senhora deve ter aprendido alguma coisa e poderá guiar o garoto ingênuo e ansioso. Portanto, minha senhora apaixonada, deixe-se amar. Deixe-se levar pelo sentimento que lhe inunda o coração e lhe torna a vida rósea. E coma o rapaz com gosto, coma bem comido até perder o fôlego, até esfolar o moço, porque em 20 anos você vai ser só rugas e pelancas e aí o meninão vai lhe trocar por duas de 30.

fatos da historia capitoes da arei que comprovem o periodo moderno
É nisso que dá. O menino passa o dia ouvindo Linkin' Park e Slipknot, batendo punheta e tentando sem sucesso comer as amigas através do MSN. Aí, quando chega a hora da prova, passa uma vergonha dessas. Vai fazer algo de útil da sua vida, vagabundo.

simpatia para separar o namorado dos amigos
Aí está ela, em todo o seu esplendor. A louca. A mulher que elevou a insegurança e o ciúme ao nível máximo, que deixaria o namorado trancado em casa, se pudesse. A mulher insensata que destrói a vida do seu namorado sem saber que destrói também a sua. Ah, triste sina a do namorado dessa moça.

putaria com velho
A única putaria que se pode fazer com velho é tirar a roupa na frente dele e cantar: "A pipa do vovô não sobe mais..."

casais liberais e maridos que gostem de ver sua mulheres fudendo com outros machos gauchos
Casais liberais são fáceis de achar no Rio Grande do Sul. Difícil é achar um macho gaúcho.


anatomia da vagina da cachorra

Não basta ser zoófilo. Tem que se dedicar. É preciso saber onde se está entrando. O zoófilo consciente faz assim: estuda a vagina da cachorra porque não é só ele que deve ter prazer. Cachorras também gozam. E zoófilos legais gozam por último.

imagens gays dando o rabinho para gays
Taí. Eu nunca vi uma frase tão bonitinha, tão doce, tão pueril. Fofa, fofa. Eu só faço uma pergunta, que essa independe de orientação sexual: por que "rabinho"? O que você, meu caro, tem contra um rabão daqueles que param o trânsito? Alguns valores, eu não canso de repetir, não podem ser deixados de lado jamais.

porque a saliva é branca?
Porque ela não engoliu.

Rafael Galvão

11.7.07

Dar Tempo ao Tempo

Waldir Peres; Zé Maria, Orlando Fumaça, Rondinelli e Wladimir; Chicão, Caçapava, Biro-Biro e Batista; Nílton Batata e Serginho Chulapa.

Segundo o professor Dunga, esta é a seleção que teria vencido a Copa de 82.

Fantasma do Maracanã

6.7.07

Imperfeitas emoções, pensamentos idiotas e perguntas vãs

Como é que hoje em dia, neste admirável mundo novo em que até bebês tomam prozac, ritalin e outras drogas com prescrição médica, alguém ainda sabe se está deprimido e precisa encher o rabo de remédios ou se só está triste, com montes de razões palpáveis, de motivos bem fundamentados e perfeitamente saudáveis pra estar fodidamente triste?

Essa imbecilização absurda e crescente da população brasileira está tomando conta só das classes menos favorecidas ou é geral ? E se for geral, como parece, daqui a uns dez anos, quem vai tratar dos doentes, projetar estradas e pontes, controlar o tráfego, programar os computadores e dar manutenção nas máquinas?


cyn city

15.6.07

Você ainda vem aqui?

catarro verde

14.6.07

Marcha para Jesus

Tem um bando de gente desocupada fazendo uma mega algazarra aqui dentro da minha casa. Eles berram em alto-falantes, cantam hinos, gritam "Jesus, Jesus, Jesus" o tempo inteiro, buzinam e apitam. Tudo isso dentro da minha casa!
Tá, não é deeeentro da minha casa. É na esquina. Mas a gente mal sente a diferença. Juro.

Além dos desocupados na terra, temos os desocupados do ar: helicópteros que sobrevoam a minha casa bem baixinho com a desculpa de estarem acompanhando a falta do que fazer dessa gente toda. Não, não é UM helicóptero. São pelo menos três.

Obviamente, eu acordei com essa putaria dos infernos.

Agora, com tanta gente chamando, eu fico imaginando o humor de Jesus quando conseguirem acordá-lo.
Só espero que seja logo.
Ô bichinho pra dormir pesado...

CALABOCA que eu tô falando!

Eu estava aqui em casa, com uma crise no ar,
o outro lado da crise sentada no sofá e eu no computador.
Eis que toca o interfone. Eu atendo.
"Floricultura para a Srta!"
Fiquei puta. Então ele achava que era assim que se resolvia as coisas, depois de me encher o saco a semana inteira? Nem olhei pra ele ali no sofá e mandei:
"Ah, não quero"
Bati o interfone na cara do pobre entregador de flores.
Não disse mais nada. Achei que o moço sentado no sofá, que evidentemente tinha mandado as flores, tinha sacado. Mas ele não disse nada. Nem esboçou reação.
Aí eu falei, né.
"Porra, me mandando flores? Eu já disse que..."
"Que flores? Não mandei flores. Não mandei nada."

:|

Alguém me mandou flores.
E eu mandei as flores embora achando que vinham da pessoa errada.
E agora eu nunca vou saber quem foi.

Adiós Lounge

Pterodactylus Blues

Quanto mais eu olho em volta – e olha que eu evito ao máximo : nunca vejo TV aberta, não leio jornal nem revistas há mais de um mês, só leio blogs de gente que pensa e escreve mais ou menos igual a mim e só sei (pouco) do que acontece no mundo quando vejo, quase sempre sem querer, as inevitáveis chamadas na página de abertura do UOL – e percebo quais são os valores, comportamentos, interesses e “virtudes” valorizadas no mundo de hoje, seja em termos profissionais, morais, políticos ou o cazzo alato, sabe como eu me sinto ? Como uma excelente, talentosa, capacitada, bem-treinada, virtuose, insubstituível, inigualável e imbatível... fabricante de agulhas de gramofone.

cyn city

4.6.07

Na Paulista

Eu gosto tanto da avenida Paulista que, quando vou pra Consolação, chego a descer na Brigadeiro só pra poder andar a pé pela avenida e não perder nada do panorama. Vou como sempre, mão no bolso, periscópio ligado, absorvendo o espaço pelos olhos, nariz e ouvidos, sentindo perfumes nacionais e estrangeiros, observando as moças se equilibrarem nos saltos finos sobre as pedras irregulares do calçamento, parando nos camelôs e entristecendo-me por não usar relógio (cada Rolex lindo por 15 pratas!), por não gostar de música popular (dvds da banda Calypso por 7!), por não precisar de uma multi-lanterna-sirene-bússola-cantil (por 12!).
Por isso tudo, venho sorrindo — ou quase isso — e, ao chegar ao Masp, vejo pessoas de branco, dezenas, centenas de pessoas de branco como num congresso de pais-de-santo, mas de estetoscópios no pescoço — pescoçoscópios —, entristeço-me novamente ao perceber que haveria mais pretos se fosse mesmo um congresso de pais-de-santo, e vou olhando a meninada em baixo do Masp, ao lado do Masp, por cima do Masp (são mesmo muitos), e as faixas a oferecer saúde, previna-se, cuide dela, é uma campanha pela boa saúde promovida por uma universidade particular — e por isso há tão poucos pretos —, meça sua pressão gratuitamente, avalie seus níveis glicêmicos, mesmo que não saiba o que é isso, e a meninada de pescoçoscópio em punho — punhoscópio? — a pescar passantes, a laçar reses distraídas, a medir suas pressões, a assustá-los um pouquinho, e eu sorrio enquanto ensaio o não, obrigado, minha pressão é uma merda mesmo, e vou passando por dois, cinco, quinze moças e rapazes de branco, vinte, mas eles, trinta, ao contrário dos bêbados — que têm por mim uma atração quase mágica — ignoram-me, e cem pessoas de branco deixam-me passar sem moléstia, como se fosse invisível, como se não estivesse ali.
Das duas, uma: ou transpareço saúde, ou já estou visivelmente desenganado.

Branco Leone, um blog sem conteúdo

31.5.07

a day in the life

Este mundão é bem mais que um grande pão com manteiga, café e com leite.
E sete é um número pequeno para as maravilhas, não é não?

o som nosso de cada dia

19.5.07

Enquanto isso, no ICQ

Estou me cadastrando aqui no site da magazine luiza pra comprar um aspirador.
Aí tem uma pergunta escrota: “Como você gosta de ser chamado(a):” - minha resposta: ‘mestre supremo do universo’.

PS: Sim… tem gente que ainda usa ICQ…

cris dias

- Gente, sem música não dá pra trabalhar. Não dá pra pôr alguma coisa aí?
- Péra, vou ligar o MP3 na caixa de som.
- Que tem aí?
- Ah, tem um monte de música daquele barbudo esquisto, sabe?
- Barbudo esquisito?
- Aquele que morreu.
- O Enéas?

CALABOCA que eu to falando!

Cinco frases para não desistir ainda

5. Nóis trupica ma num cai – alguns autores colocam esta frase na categoria oposta, “frases para cair fora imediatamente”, mas geralmente a consideram no contexto original e ouvida em alguma festa em que fomos parar por um mero acaso.

4. Deus não permitiria que eu chegasse até aqui para morrer desse jeito – ou qualquer coisa assim que o Ben-Hur tenha dito, não ia ver o filme inteiro só por causa desta frase. De qualquer jeito, duvido que as legendas apresentem versões muito melhores, e na dublagem o cara é capaz de dizer exatamente o contrário.

3. No fim, tudo dá certo – tive que incluir esta pela popularidade. Mas me recuso a escrever o resto. Todo o mundo sabe. E me dá um arrepio só de pensar em todas as vezes que uma pessoa disse isso e outra resolveu completar. Parece jogral.

2. Se não güenta, por que veio? – vale mais como pergunta retórica, e depende absolutamente da resposta. Freqüentemente descamba para o “é mesmo, o que é que eu estou fazendo aqui?!”, ou para o “não vim, fui trazido algemado”. De modo que é sempre bom usá-la logo de cara: pode nos poupar de todo o resto.

1. Quem monta num tigre não pode apear – grosso modo, é só uma versão oriental do nosso “nada é tão ruim que não possa piorar” – que não incluí na lista justamente porque as versões orientais são sempre mais profundas. Esta, por exemplo, ainda pode sofrer as mesmas restrições da frase anterior, no sentido de que nem sempre o indivíduo estará montado num tigre por sua livre e espontânea vontade. Mas mesmo neste caso devemos concordar que ela ganha da outra de longe, porque não estar montado num tigre por livre e espontânea vontade é sinal de que, no mínimo, você ainda pode acreditar na sua própria sanidade.

diferença nenhuma

11.5.07

As alegrias que o Google me dá (XXIX)

fotos de bebes saindo da vagina
Moleza. Agora quero ver você achando fotos de bebês saindo do cu.

simpatias para homem ser só seu
Arranje um homem feio, burro e pobre. Você deve ser do tipo que prefere comer um prato de bofe sozinha a dividir uma porção de caviar.

pensamentos pequenos
É.

você precisava ver como ela tremia
Pois é. É nisso que dá comer velhinhas com Mal de Parkinson.

omenagem amae
O melhor presente que você pode dar a sua mãe neste Dia das Mães é tão simples, meu filho: um diploma do Mobral. Ela vai chorar de emoção, você vai ver.

se vc pensa que é um derrotado você será um derrotado se não pensar quer a qualquer custo não conseguirá nada mesmo que você queira vencer mas pensa que não vai conseguir a vitoria não sorrirá para você
Ou "Pérolas do Curso Sylvester Stallone de Auto-Ajuda".

pesquisar sobre a igreja católica em especial sobre coroinhas e suas vestes
O moço aí quer ser coroinha, é? Então deixa isso aí de lado. O importante, mesmo, é saber agradar o padre. Fazer um chazinho de boldo pra ele, massagem nas costas, carinhos e beijinhos sem ter fim.... A Igreja Católica tem avançado muito e os padres estão ficando mais exigentes em relação aos coroinhas que os servem. Chega de sexo pelo sexo. Eles agora querem carinho, também.


basicamente o que é o racismo brasileiro

Basicamente é o seguinte: branco sacaneando preto. E se você não percebe nem isso, você está basicamente com um sério problema.

motivos para a revoluçao russa
Homens passando fome? Mulheres revoltadas porque só a família real recebia o portento do Rasputin? Ah, quem vai saber uma coisa boba dessas?

quero saber amelhor posse de sexo que o homem gosta
A pose que, no Kama Sutra, está sob o título "dando para ele".

flagras de civis sem calcinha e fazendo sexo
Tempo demais na caserna dá nisso. O sujeito abandona a sentinela e vai descascar uma nos computadores do Exército. Depois ele deflagra a III Guerra Mundial e ninguém vai saber por que foi.


menina que fazem sexo por mixaria
Aí, não. Sexo é coisa séria. Ou você faz de graça, ou então cobra caro. Não há meio termo. Fazer por mixaria é um desrepeito às colegas e desvalorização da saliência.

tem homem bonito em goiania?
Tem, mas quando não é viado, é michê.


posição sexual melhor para mulher gorda

No escuro.

como a igreja católica pensa sobre o uso de preservativos?
Ela pensa que camisinha é coisa do diabo e que, por ter uma no bolso, você vai imediatamente se tornar uma máquina de fazer sexo, e as mulheres vão cair aos seus pés, e você vai passar o resto da vida em uma orgia infindável. Compra duas dúzias ali para mim, por favor.


tecnicas japonesa para aumentar o penis

Me diz uma coisa, você está mesmo falando sério? Técnicas japonesas para aumentar o pinto? Ô, amiguinho... Daqui a pouco você vai estar pedindo aula de português a analfabeto.

quando um homem faz punheta para onde ele esporra?
Em qualquer lugar, menos onde ele queria.

teste para saber se sou ninfomaniaca
Olha, eu atendo a partir das 15 horas, tá?

significados do nome jarlene
Significa que o seu pai é um escroto que merecia uma porrada por fazer uma sacanagem dessas com a própria filha.

na giria dos torturadores dos anos 70 o que significava omelete
Não sei, mas pelo nome acabou de me dar uma dor esquisita no baixo ventre.

tudo sobre abelardo e heloisa
As cartas de Heloísa para Abelardo estão entre as mais belas páginas da literatura mundial. São mais bonitas até do que os sonetos de Elizabeth Barrett Browning. O que pouca gente sabe é que, diante das respostas um tanto frias de Abelardo, que àquela altura tinha um pequeno problema de produção de testosterona, Heloísa escreveu uma última carta, em forma de poema, que os antologistas preferem deixar de fora. Este blog publica, pela primeira vez em língua portuguesa, essa carta perdida:

Abelardo, meu grande amor
Que tragédia aconteceu!
Meu tio castrou você
Bebé, você se fodeu.

Ele acabou com nosso amor
Que eu não quero homem capado:
Esse negócio de dedo e língua
Pra mim é papo furado.

Quando lembro nossas noites
Não sabes a saudade que sinto
Mas isso fica na lembrança
Porque você perdeu o pinto

Me lastimo dia e noite, Bebé,
Como é triste, esta minha sina
Mas admito que pior é a sua
Com esse vazio sob a batina

E assim seguimos nossas vidas
Tu aí com tua filosofia
E eu, rezando no convento
Fico pensando em putaria

Você não faz idéia, ó meu Bebé
De como têm sido meus serões
Aturando freiras chatas
Quase todas sapatões

Mas me consolo lembrando
Que pior foi o seu destino
Virou brinquedo dos padres
E está falando fino.



Rafael Galvão

19.4.07

O Universo Numa Casca de Melancia

Li numa revista que dormir faz bem à saúde. Tem coisa mais importante que a saúde?

No caso feminino, a vaidade, concordo.

E tenho outras doutrinas futilitárias por aqui pra quem quiser escutar.

Exemplo: eu vi o povo e o odeio. Já escutei também, mas o fato é que basta cheirar. Portanto, se o povo é ruim, o bem-comum ensina que será boa ou acertada a decisão que promova o mal do povo.

Precisa matar? Claro que não. Basta incomodar o suficiente pra que ele se retire.

Ingresso a 50 reais costuma dar conta. Mas picinão é outra idéia.

dies iræ

Mapas

(Marca semi-elíptica no dorso da mão direita, acompanhando o arco formado por polegar e indicador.) “Que foi, cê mandou apagar uma tatuagem de gangue?” Ela ri, semicerrando a mão e fazendo com que a marca se arredonde. “Não. Eu tinha nove anos. Minha irmã encontrou um cachorro com uma lasca de madeira na pata. A ‘veterinária’ pediu para a ‘enfermeira’ –tonta- segurar o bicho enquanto ela removia a lasca. Quando voltamos do hospital com meu pai, minha mãe tinha dado o cachorro”.

(Perna esquerda. Curta cicatriz na lateral do joelho. O casco de mil feridas sobrepostas na pele que recobre a rótula. Cicatriz vertical de meio palmo tornozelo abaixo.) “Você era o que, gladiador?” Ele ergue a perna, faz uma pausa para pensar. “Foram os anos Evel Knievel, dos sete aos 14. Não lembro direito a ordem, mas aí tem salto mortal de bicicleta que terminou em nocaute contra um Fusca, queda do telhado, encontro infortunado com a chuteira do zagueiro adversário, e duas mil partidas de hóquei-sobre-a-lajota-molhada com os meus primos. Os cientistas ainda não tinham descoberto a coordenação motora”.

(Círculo esbranquiçado na nuca, logo abaixo da linha do cabelo.) “Achei sinais de chifre vestigial aqui”. Ele beija a marca. “Essa eu não vou contar. É nojenta”. Ele beija mais um pouco. “Tá bom, tá bom, já que você insiste... Primeiro ano de faculdade, cresceu uma verruga horrorosa aí, de um dia para o outro. Preta, peluda. Quando vi no espelho da cabeleireira quase desmaiei. O interno da cínica universitária que decepou a monstruosidade era bonitinho. Pediu meu telefone. Fiquei com vergonha e não dei”.

(Linha branca áspera no couro cabeludo, como que uma risca invisível por sob o cabelo.) “Benhê, cê precisa usar condicionador”. Ele dá um tapa nada convicto na mão com que ela faz cafuné. “Foi uma garrafada. Tentando separar uma briga de bar. Eu lembro do meu pai rindo no pronto socorro, comentando com o dono do bar que, da próxima vez que eu me interpusesse entre dois caras que estão trocando socos, eu lembraria de começar nocauteando um deles. Ou os dois”.

(Linha branca um pouco mais clara que a pele, na palma da mão esquerda.) “Cortando tomate enquanto ouvia J. Geils. Burra”. (Uma trilha de pele espessa semioculta sob a sobrancelha esquerda.) “Briga perdida. Uma das duas. Ainda quero revanche”. (Marca de incisão de uns cinco centímetros, na base do triângulo invertido que termina onde tudo começa.) Pausa. Então: “Passo”. (Ela enumera e acaricia as cicatrizes restantes no corpo dele. Ele sorri sem responder.) “Casei com o Frankenstein, credo”. (Ele segura os braços dela pelos pulsos, a imobiliza contra o colchão, ameaça uma mordida canastrona em seu pescoço e pronuncia, em péssima imitação de Darth Vader:) “Renda-se, terráquea”. (Ela faz que não com a cabeça, em um gesto exagerado:) “Never!”

Filthy McNasty

16.4.07

A chegada do “alemão”

- Nós estamos casados há 52 anos! Lembro-me de tudo!

- 53! Mas não direto!

- É! Não direto. Casamo-nos em 1955...

- 1954! E nos separamos oito meses depois.

- Isso mesmo. Aí, eu me mudei para a Bahia.

- Pernambuco!

- Ah! É! Pernambuco!




- Morei lá durante seis anos e quatro meses.

- Quatro anos e seis meses.

- Ou isso! Um dia, fui a uma festa, no Rio e a encontrei com uma amiga.

- Foi em São Paulo. Eu estava com meu marido e ele com uma amiga.

- É mesmo. Ela se separou e começamos, novamente, a nos ver.

- Ele se separou. Eu fiquei viúva!

- Dá no mesmo. Depois de seis meses, tornamos a nos casar.

- Foram quatro meses.

- Não faz diferença. Tivemos dois filhos...

- Um filho e uma filha.

- O que eu disse? E vivemos felizes, desde então.

- Tornamos a nos separar depois de sete anos.

- Isso.

- Voltamos a nos casar três anos depois...

- Foram dois anos.

- Pois é. E vivemos felizes desde então.

- Separamo-nos mais duas vezes.

- É. Mas o que importa, é que eu estou perfeitamente bem, Doutor.

- Mija na cama toda noite!

- Não é bem assim. A Gilda é que é cismada.

- Hilda!

Antes feio, o blog!

12.4.07

Devolver com a delicadeza

Trata-se do meu clássico assalto. O moço que me assaltou, disse: "Rápido, rápido, passe toda a grana que eu saí da cadeia e tô varado de fome". Daí, eu revirei a bolsa todinha, mas só achei duas notas de cinco reais. Estendi-lhe o dinheiro e disse: "Ixi, eu só tenho isso, acho que não vai dar nem para você comprar um lanchinho..." O moço olhou para mim com uma baita estranheza e perguntou: "Você tem dinheiro pra voltar pra casa?" (Perceba o ladrão preocupado comigo, eu preocupada com ele e nós dois tentando cuidar um do outro, cada um à sua maneira). Eu disse: "Não, mas pode ficar!". Ele respondeu: "Não! Não é porque a gente é maluco que tem de ser egoísta! Cinco reais para mim e cinco para você!" Eu voltei para casa tão feliz! E acho que ele foi comprar um salgado e (meio) pingado, feliz da vida também :-)

Rita Apoena

26.3.07

i really am this shallow

Ontem foi o primeiro dia da Oficina de Vídeo Documentário. Rolou uma entrevista.
Diferente do semestre passado, a sala estava lotada. Acho que havia umas trintas pessoas sentadas formando um círculo. Um por um se apresentava e dizia qual a intenção ou o que esperava da Oficina. Em alguns momentos parecia um grupo de apoio à qualquer coisa, saca? Esta coisa de ficar em círculo e começar a falar da vida para estranhos, eu não sei... Fiquei um pouco constrangido com a situação.

Como cheguei atrasado, fui um dos últimos a falar. O coordenador já me conhecia, mas pediu para que eu me apresentasse para o grupo. "Meu nome é Fábio, tenho 29 anos, amo cinema e como estou solteiro e extremamente carente, procurei esta oficina para ver se encontro alguma menina para resolver os meus problemas." Senti que demorou mais que um segundo para o povo achar isso engraçadoe, neste quase um segundo, temi não ser compreendido.

No final das apresentações, fui cumprimentar os amigos e, enquanto procurava um contato no meu celular, chega uma criatura do meu lado, pede meu telefone e pergunta o que é que eu faço. Antes de dar meu número, olhei para o caderno de notas dela e quis saber se ela estava fazendo uma lista do grupo ou algo do gênero.
"Não, não estou fazendo lista nenhuma, é que você disse que está solteiro..."
Ri de nervoso, disse que ela era engraçada e passei o número.
"Eu te ligo!", disse convicta.
(MEDO!)
Eu quis brincar de About a Boy (ou "Um Grande Garoto", na nossa língua), mas não sei se foi uma boa idéia...

O som nosso de cada dia

13.3.07

Profilaxias da vida

Duas mocinhas na minha frente, numa fila de papelaria.

-E aí, estás gostando?
-Ai, amei.
-Mesmo?
-Sim, ele é tão querido, conversa comigo, faz tudo a seu tempo, com cuidado. Ainda diz que, se começar a doer, é pra eu gemer que ele pára. Não é fofo?
-Ah, eu já prefiro mais quando não fala muito e termina logo o serviço. Não gosto de conversadores nesta hora, até porque, a gente com aquela coisa na boca, nem consegue responder.

A moça do caixa levanta os olhos com cara de pavor.

-Mas distrai, poxa.
-Na-na-ni-na-não. Comigo tem que ser pá e pum! E, de mais a mais, este negócio de doer é assim mesmo, tem que doer, ninguém vai morrer por causa de uma dorzinha.

O segurança na porta, dá um sorrisinho desavergonhado.

-Dorzinha pra você, que está acostumada! Eu tenho verdadeiro horror de sentir dor.

Todos na fila fingem seriedade. Uma senhora ordena aos berros que o filho pequeno vá procurar a caixa de lápis de cor faltou na cestinha. "Mas, mãããe, a gente pegou os lápis de cor, esqueceste??" "Este não serve, vai trocar que eu tô mandando!"

-Tu és fresca, minha filha. (em voz alta)
-Sou mesmo, se tem uma coisa que me apavora é dentista.

C A F E I N A

POR QUE SERÁ ?

ou FALANDO SOZINHA - E CAÇANDO BRIGA COMIGO MESMA

Disclaimer nº 1:
QUEM TEM PREGUIÇA DE LER, LEIA SÓ OS NEGRITOS EM VERMELHO (vermelhitos, será ?), QUE JÁ É O SUFICIENTE PRA ENTENDER O QUE EU TÔ QUERENDO DIZER...

Disclaimer nº 2:
...MAS EU ACHO QUE O MELHOR (sempre) ESTÁ NOS DETALHES.

Perguntinha, provavelmente retórica :
Cês acham que eu preciso de um copidesque ? Dito isso, vamos ao post :

Por que será que justamente as pessoas que fazem questão de ser as mais virulentas, furibundas, iracundas, estentóreas e outros palavrões escrotos ao criticar o que (e/ou quem também, claro, seja por tabela, direto nas fuças ou por triangulação, afinal, todo “que” sempre vem de um “quem”, né ? Não, eu não tô defendendo o criacionismo. Sim, eu acho que Darwin rules. Não, eu não preciso e nem quero ser coerente o tempo todo. Sim, caros espelho, superego, personalidade nº 4 e grilo falante, vão pra puta que os pariu e me deixem terminar o raciocínio logo e seguir com a frase, que este provavelmente já é o mais longo parêntese de toda a história dos blogs brasileiros. Claro, e o mais cansativo também. Concordo com você, Jiminy: o parêntese tá mesmo comprido e chato feito uma tênia, e tão difícil de matar quanto. Peraí. Pá. Pá, pá, pá. Pronto. Nah, deixa ele aí. Depois alguém recolhe. Acho que morreu, sim, né possível. Se ainda se mexer, a gente joga um albendazol em cima. Ou sal. Sei lá, funciona com lesma, uai. Então. Podemos ? Valeu, hem. Tem certeza ? Mais nada a dizer ? Ótimo. Prossigamos, pois.) quer que seja, são justamente as que não suportam nem a mais leve, gentil, comedida, educada e cuidadosa das críticas, mesmo que tenham pedido por ela ? Ai, meu Zeus, lá vêm eles de novo. Hem ? Como é ? Eu também sou assim ? Hmmm, xopensar. Sim, sim, é possível. Mas deixem que eu diga, em minha defesa, que quando quero esculhambar alguém eu não mordo e assopro, não mando recado, não falo alto pro vizinho ouvir, não uso pseudônimo nem ataco de anônima. Ou eu digo o que quero e assino embaixo, ou eu cifro muito e muito cuidadosamente, que é pra poder desabafar sem que o alvo se reconheça. Muitas vezes, se a indignação nem é tão grande assim que necessariamente exija que eu use algum tipo de válvula de escape, recolho-me à minha insignificância e, por difícil que seja, reconheço que minha humilde opinião é só a minha opinião, não um axioma universal ou Lei, assim mesmo, com maiúscula, gravada a fogo divino sobre placas de pedra do Monte Sinai. Porque, por mais que não pareça, eu sei, aceito e nunca, jamais, em tempo algum, me esqueço do fato de que não sou a dona absoluta e única da verdade. Nem sócia. Nem acionista minoritária. Porra, nem chego a ser locatária dessa merda.

cyncity

4.3.07

Viver e morrer em Bagdá

Sábado, 3 de fevereiro / Um dia sangrento
Um dos dias mais sangrentos em Bagdá. Um caminhão explodiu na área de Al Sadriya. Mais de 150 pessoas inocentes morreram e 250 ficaram feridas. Um dos funcionários da biblioteca foi ferido, outro perdeu seu primo.

Domingo, 4 / Outro dia ruim
Às 11h15 uma explosão fez nosso edifício tremer. Tivemos de esperar um pouco até que nos deram permissão para abandonar a biblioteca. Ao sair, vimos uma chacina e alguns carros totalmente destruídos.

Segunda-feira, 5 / Corte de luz
Fui ao Ministério da Energia para tentar convencê-los de excluir a Biblioteca Nacional do programa de racionamento (estabelece um máximo de duas a três horas de eletricidade por dia). Reuni-me com o diretor-geral do departamento de distribuição e lhe pedi o favor de nos dar seis horas de eletricidade por dia. Ele me disse que não pode ser. Bem, agora não tenho outro remédio senão pressionar o Ministério da Cultura para que conserte nosso gerador elétrico...

Na metade da manhã soube que o irmão do senhor K. (do departamento de catalogação) morreu. Às 14hs, um grupo de homens armados atacou a área onde eu moro. Houve muitos feridos e mortos: civis, inocentes... Mais tarde visitei meu primo, que foi atingido há duas semanas. Foi um dia triste...

Terça-feira, 6 / Nenhuma explosão
Não houve nenhuma explosão nem tiros. Repassei a lista de ausências da biblioteca e percebi que o senhor M. estava desaparecido desde a explosão de sábado... Hoje me visitou um ator conhecido que quer que lhe emprestemos nosso teatro para filmar várias obras. Eu lhe prometi que o cederia de graça porque concordamos que é preciso continuar promovendo as atividades culturais nestes tempos difíceis.

Quarta-feira, 7 / Sem notícias do senhor M.
Fui ao Ministério da Cultura para uma reunião. Nos arredores, todas as estradas e pontes estavam fechadas. Às 14hs terminou o encontro. Abandonamos rapidamente o edifício. Ainda sem notícias do senhor M. Começamos a pensar que pode ter morrido no atentado de sábado e que seu corpo tenha ficado enterrados sob os escombros.

Quinta-feira, 8 / Jornada "negra"
Dois de nossos bibliotecários (um sunita e outro xiita) se ofereceram para buscar o senhor M. Eu disse que não imediatamente. É perigoso demais.

Infelizmente, não me deram atenção e deixaram o edifício sem dizer nada. Depois de uma hora a senhora B. entrou em meu escritório chorando. Desconhecidos telefonaram para dizer que seqüestraram um deles na zona do atentado de sábado e perguntaram se era xiita.

Em pouco tempo comprovamos que o outro bibliotecário estava com ele. O caos se apoderou da biblioteca. Eu fui criado nessa área, a de Al Sadriya, e conheço muita gente lá. Então telefonei para um líder xiita do bairro e lhe perguntei se sabia alguma coisa. Garantiu-me que seus homens não o seqüestraram, mas que um grupo sunita muito ativo na área pode tê-lo feito.

Logo percebi que alguma coisa ia mal.

Trinta minutos depois apareceu um dos bibliotecários, o sunita. Ele explicou que o libertaram quando comprovaram que era sunita, mas que seu colega continuava seqüestrado... Não sabia onde... Logo eu percebi que não havia tempo suficiente para salvar sua vida. Contatei pessoas que têm influência nessa área. Mas no fundo do coração já sabia que era tarde demais. Uma hora depois um contato me informou que o bibliotecário tinha sido executado e que seu corpo fora abandonado em um beco.

Nesta noite meu irmão me telefonou de Londres para perguntar, como sempre, se minha família e eu estamos bem. Como sempre, disse-lhe que sim. Ele é muito otimista em relação ao novo plano de segurança para Bagdá. Creio que esse plano representa a última oportunidade para nós, e que se falhar será o final de um país e a escalada de uma guerra civil sem precedentes.

Sábado, 10 / O ser humano perfeito
Não há mais notícias sobre a execução do bibliotecário nem o outro companheiro desaparecido. Decidi criar um comitê especial para investigar o caso. Cada vez mais percebo que hoje em Bagdá o ser humano perfeito seria aquele capaz de desconectar todos os seus sentidos. Estar cego e surdo já não é uma maldição neste país, mas uma bênção.


Diary of Saad Eskander, Director of the Iraq National Library and Archive

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves - UOL