26.9.05

Medo de escuridão

Álvaro da Graça perguntou ao seu menino: "Filho, se você tem medo da escuridão, por que não aperta aquele botãozinho de acender a luz?"
Álvaro da Graça Júnior, sete anos, voz tremida e glúteos contraídos, respondeu-lhe assim: "Porque o medinho, meu papaizinho, é gostosinho demais!"
Álvaro, o pai, quis rir, mas não riu. Controlou-se, a fim de conhecer a essência dos temores do menino.
"Filho, agora diga ao papaizinho o que você imagina que possa existir lá no meio da escuridão."
Disse Álvaro Júnior, enquanto apertava uma coxinha contra a outra: "Existe a cabeça sem corpo, meu papaizinho, que é cega, que é surda, que é muda e que fica mastigando um coração roubado do cemitério! Coraçãozinho de criança que morreu sem pecado, meu papaizinho. E a cabeça sem corpo voa pra cá e pra lá, e sobe ao teto, e desce ao chão, e fica escondida atrás das cortinas - nhác-nhác, nhác-nhác - a mastigar o coração do anjinho. Depois, com a língua toda de fora, ela rola escada abaixo, porque fica doida de sede e não encontra sangue quente para beber. A cabeça sem corpo come carne de morto inocente, meu papaizinho, mas gosta de beber sangue de pecador vivo."
Álvaro, o pai, coçou o queixo, onde existia um pequeno corte ainda mal cicatrizado. Uma gota de sangue aflorou na sua pele branca, como se fora um rubi cabochão colocado sobre uma hóstia. Álvaro Júnior viu o brilho da gotinha de sangue e correu a apagar todas as luzes da sala.
"Vem depressa!", gritou o menino, batendo os pés e mijando-se de prazer. "Vem depressa, antes que a gotinha seque!"
Álvaro, o pai, começou a rir. Só parou de rir, porque morreu. E só morreu porque sentiu aquela língua larga a lamber-lhe o queixo. Foi assim que aconteceu.

Dennis D.

Jesus, me chicoteia!

Câmera lenta
O pior do acidente foi que tudo aconteceu em câmera lenta. Vi o poste chegando, chegando, beeem devagar. E pensava:
— Viiiiiiixe, o pooooooooooosteeeeeeeeee...
Então houve o impacto e eu senti a traseira do carro levantando, a frente se retorcendo e o bicho girando.
— Foooooooodeeeeeeeeeeeeeu. O ciiiiiiiiiiiiinto nãaaaaaaaaao agüeeeeeeeeeenta...
O cinto agüentou, porém, o banco foi jogado pra trás e eu fiquei balangando pra lá e pra cá por um tempo (mas muito lentamente). Vi pedaços do volante e do painel voarem em câmera lenta, e então o mundo voltou a sua rotação normal.
O negócio é que agora eu revivo a cena em todos os seus detalhes. Retrocedo a fita, avanço rapidamente, depois em slow motion, depois quadro-a-quadro. Com o tempo, a coisa sofisticou-se: agora vejo a cena do meu ponto de vista, depois de trás do carro, depois da calçada oposta, depois do ponto de vista do pobre poste.
O resultado é que eu não durmo, então acho que vou atormentá-los com outro post sem pé nem cabeça (ao contrário deste que vos fala, que milagrosamente tem pé, um exagero de cabeça, e tudo intacto entre os dois extremos).

Jesus, me chicoteia!

Pais, filhos, Maluf, etc.

Eu e meu pai sempre discutíamos quando o assunto era política. Mais especificamente, Paulo Maluf. Semana passada, quando eu soube da prisão, liguei pra ele para sacaneá-lo. Liguei em casa, a Quitéria atendeu, eu perguntei se meu pai estava, ela disse que não, ela perguntou se eu queria falar com a minha mãe, eu disse que não, conversamos um pouco e, em seguida, desligamos. Minutos depois eu sai e só voltei no fim do dia. Quando cheguei, uma tonelada de recados dele e da minha mãe me esperavam na secretária eletrônica. Eu não entendi o porquê de tanto desespero e liguei de volta perguntando o que havia acontecido. Ele atendeu e parecia preocupado. Quando eu disse que só tinha ligado pra dizer que o Maluf tinha sido preso, ele disse que já sabia e perguntou se a ligação era só pra falar sobre aquilo. Eu disse que sim e senti um certo desapontamento no tom de voz. Ignorei o tom de voz e desligamos o telefone depois das perguntas e respostas de praxe.
Com o telefone no gancho, voltei a pensar sobre o tom de voz... Só então percebi que aquela era a primeira vez que eu havia feito uma ligação para falar com meu pai e não com a minha mãe, ou com os meus irmãos. Só então eu percebi porque ele havia retornado a ligação tantas vezes, se preocupado... Passei o resto do dia pensando sobre essas relações familiares que mantemos mal resolvidas por achar que ignorar é mais simples. Fiquei pensando sobre pais, filhos, identificação, aceitação, imitação de comportamento, rebeldia, sobre como deve ser a relação de pai e filho dos Maluf, me perguntando sobre o que os dois conversariam presos na mesma cela e sobre o que, eu e o meu pai, conversaríamos se, um dia, fossemos obrigados a passar mais do que alguns segundos falando sobre amenidades.
Como é que a gente constrói uma ponte entre duas montanhas que nunca sairão do lugar e que são separadas por um abismo tão grande?

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

22.9.05

MAS QUE FIM LEVARAM OS BENDITOS PIERCINGS?!?

O ex-marido veio apressado do Canadá e ela foi buscá-lo no aeroporto. A conversa seria grave: a ausência da figura paterna na adolescência do filho, os efeitos alarmantes e, claro, que atitude tomar.

– Semana passada eu vi que tava na hora de te chamar – ela disse, apreensiva, enquanto dirigia com a mão esquerda e com a direita abria a bolsa, remexendo lá dentro. – Já tinham me ligado da escola dizendo que ele tava matando aula. Aí aconteceu de eu revirar os bolsos da jaqueta dele pra colocar na máquina de lavar. E achei isso.

Tirou da bolsa o indício e o mostrou. O marido pegou, olhou, abriu, fechou, como se olhar a coisa de todos os ângulos esclarecesse melhor. E perguntou:
– Era para consumo próprio? Será que não é apenas curiosidade, pra ver como é o lance, e tal?
– Acho que não. Tanto que fui mexer na gaveta dele e achei outro.
– Como?!? – ele disse, sacudindo o livro. – Não bastasse O Jardim das Aflições… ele ainda tem outro livro do cara?
– Tem, sim. E no Imbecil Coletivo eu ainda achei parágrafos inteiros sublinhados!

Ele largou o livro no colo e olhou a paisagem lá fora, fingindo conferir trechos da cidade que não via há um certo tempo. Aí falou:
– Nem posso dizer que tenha sido, sei lá, uma grande surpresa. Dia desses eu entrei na página dele no Orkut e vi o perfil que ele se deu.
– E…?!?!? – ela perguntou olhando para ele (e ele sinalizando com a mão “shhht, olha pra frente, olha o trânsito!”)
– Bom – ele continuou –, posso dizer que iria fazer o Zé Guilherme Merquior parecer ativista da Libelu. E as comunidades de que ele faz parte, então? Caramba! Será que não é o caso de começar a se medicar?

Do penúltimo ao último semáforo os dois ficaram em silêncio. Quando pararam novamente no sinal vermelho ela disse:
– Então deixa eu contar o que aconteceu hoje cedo. Eu quis só bater um papo sobre como tava indo o namoro e ele: “Tou me cuidando, mãe”. Então não resisti e, enquanto ele tomava banho, fui olhar na carteira dele e achei lá, toda plastificadinha…
– Ah, menos mal q…
– …uma certificação de filiação à Opus Dei. E com uma cláusula de compromisso de manter-se virgem até o casamento.

Ele afundou-se no banco. Baixou o vidro e acendeu um cigarro. Ela continuou:
– Agora há pouco, antes de sair pra ir te buscar, passei pelo quarto dele e vi ele na cama, ouvindo música no fone de ouvido…
– Bom, pelo menos música ele ainda ouve, né?
– … A Cavalgada das Valquírias. Ainda assim falei que ele podia tirar o fone de ouvido, não precisava se preocupar com volume e tal. Ele tirou o fone e disse: “Ah, sei. E imitar o filho do vizinho fazendo ressoar pela casa inteira aqueles acordes deploráveis de southern nigger music, ou então as patacoadas melódicas do Bob Dylan servindo de trilha pra mobilizações de defesa de direitos civis? Yaaaaaaaawwn…” E olha, ele não só bocejou como pronunciou “ioooooonn”, mesmo!

Ele já não tinha mais como afundar-se no banco. Deu uma tragada e perguntou, soltando devagarinho a fumaça pelo nariz:
– Você falou com o psicólogo?
– Ah, o papo de sempre. Ele só quer chocar. Agredir. Chamar a atenção. A afronta como método de demarcar a personalidade.

Ele se exaltou quase a ponto de deixar a brasa cair no banco, mas conseguiu recapturar o cigarro no ar:
– E custava pôr piercing? Brinco? Tatuagem? Ir em cana por desacatar autoridade? Ser expulso da escola e…
– Já te falei que ele não anda indo à escola. Acha aquilo de uma, como foi mesmo que ele falou?, “homogeneização socializante deplorááável”. Fica é a madrugada inteira na Internet, baixando arquivos com textos do Meira Penna.

Quando viram já tinham chegado. O carro estacionado diante da casa, e dentro dele os dois, olhando um para o outro, sem fazer menção de sair. Foi ela quem falou:
– Vamos entrar. Você começa a conversa.

E ele, acendendo outro cigarro mas parecendo é querer ganhar tempo:
– Er. Escuta. Antes me diz uma coisa.
– Hm?
– Você acha que se a gente tivesse dado outra criação menos, sei lá, tolerante… Se não tivesse percebido que o casamento andava uma bosta e não tivesse se separado… Se, pelo contrário, a gente mantivesse a fachada de família feliz e vivesse uma história cheia de amargor, ressentimento, animosidade camuflada… Se impusesse na educação um monte de dogmas religiosos irracionais e milenares… Ele estaria realizado? Seria uma criança feliz, e não estaria partindo hoje pra esse tipo de atitude? Será que ele não está é pedindo socorro, e…
– Olha – ela falou, tomando o cigarro dos dedos dele e dando uma tragada caprichada. – Não sei se é o caso de ficar agora em punhetação do tipo onde-foi-que-eu-errei. Eu sei que o urgente é ir lá e falar com ele agora.
– Ahn – ele ainda tentou. – E se a gente plantasse um bagulho nas coisas dele, hem? Dentro da apostila? E quando ele negasse a gente retrucasse com “Não, filhão, a gente entende”, e tal? Psicologia reversa! Aí…

Ela devolveu o cigarro e soprou a fumaça quase na cara dele.
– Vai ter uma conversa séria com teu filho AGORA!

Ele saiu do carro, jogou o cigarro no chão, pisou na guimba rodando a ponta do sapato por mais tempo que o necessário e então caminhou até a porta da casa. Lá em cima, o filho, enfurnado no quarto, e ainda com o fone de ouvido, regia de olhos fechados a orquestra imaginária enquanto acompanhava a altissonância wagneriana fazendo baixinho, baixinho, bem baixinho com a boca “pampampampampam, pampampampampam, pampampampampam, pampampampaaaaaaaaaaaaaaaam….”

Ao Mirante, Nelson!

21.9.05

CUIDADO COM O PEDRO

Cuidado com o Pedro. Pedro é um perigo.
Pedro é um sedutor desavergonhado, e pior, que nem sabe o poder que tem. Mulheres que já haviam se resignado a ficar pra titias, mulheres comprometidas, mulheres decididas, que haviam se prometido que nunca mais, ou nunca mesmo, homens que nunca tinham antes questionado sua opção, ninguém está a salvo da perfídia de Pedro. Ele faz esquecer experiências anteriores ruins e ver um possível futuro cor de rosa, que, saibam, não existe. Ou até existiria, mas só se fosse com Pedro. E Pedro é um só, nem todas podem tê-lo. Vejam como Pedro é insidioso, sub-reptício e mau : você chega num barzinho, é o aniversário de uma amiga querida, e ele está lá. Você não dá muita moral, claro, ele já tem dona. Mas ela não está mais tão fascinada com o gatinho, claro, ela o vê, toca nele, morde, beija, dorme e acorda com ele todo dia, toda hora, provavelmente já está mesmo querendo uma folguinha. Você dá uma sacada nele de longe, e vê que ele é lindo, que seu cabelo é ótimo, sua roupa é um charme, os acessórios foram muito bem escolhidos, e que ele tem cara de inteligente e bem-humorado, apesar de caladão. Aí um sacana de um amigo, sem mais, promove uma troca de cadeiras e pá, joga Pedro no seu colo. Quando menos se espera, você está a centímetros daqueles olhos sérios, negros e doces de jabuticaba, e eles prestam a maior atenção em tudo o que você diz. Em poucos segundos, vocês já estão super à vontade um com o outro, amigos de infância, e até seu marido se mostra meio encantado com o discreto charme do Pedro. O resto da mesa esquece de vocês, isolados numa espécie de bolha de descobrimento mútuo que faz você se esquecer do tempo. E ele põe a mão mais macia do mundo no seu ombro. Você começa a cantar "Everybody’s talking at me", e ele, que certamente nunca havia ouvido essa música, parece gostar, e sorri franzindo o nariz, um sorriso lindo, que mostra um pouquinho da gengiva, cheio de charme e simpatia, mas sempre com um jeitinho meio triste, de derreter o coração. Seu marido, a essa altura também já completamente entregue ao charme do Pedro, compete com você pela sua atenção, e desenterra "Rock’n’roll Lullaby", que é tão velha quanto a música do Nilsson, ou até mais. O Pedro gosta. E a noite vai passando. Ele obviamente está com sono, mas luta contra, e a essa altura já está com um braço em torno do seu pescoço, fazendo cafuné nos cabelos fininhos da sua nuca, roçando um pé descalço e lindo na sua perna. Quando você já está pensando seriamente em sair dali com o maridón num braço e o Pedro no outro, a mulher com quem ele veio o reclama. Diz que ele está cansado, ela está com sono e eles têm que ir. Você considera a possibilidade de dar uma rasteira nela e fugir com o Pedro, e o marido que se vire pra acompanhá-los se puder, mas tem muita gente em volta, ia ser difícil explicar isso pra todos os amigos, podia dar até cadeia, o que não ia ficar nem bem, e você, relutantemente, o devolve, sem saber quando vai vê-lo de novo.

Enquanto seu amigo pega o Pedro de volta do seu colo e o devolve à mãe, você devolve também a mamadeira quase vazia, a fraldinha que usou pra ele não babar no seu ombro – tem dentinhos nascendo, ele está com seis meses – e põe de volta os brincos que havia tirado pra ele não puxar, levemente arrependida de não ter dado ao menos uma mordidinha nas bochechas mais fofas do garotinho mais meigo do mundo. E lá se vai Pedro pro carrinho, vai embora com a mãe, deixando você apaixonada, e pelo menos mais duas mulheres da mesa, assim como você e seu marido, que agora baba mais que o Pedro, pensando por que foi mesmo que nunca quiseram ter um bebê. Ouçam o que eu digo, Pedro é um perigo.

Cyn City

20.9.05

Infames

Ah, o amor. Quantos crimes não foram cometidos em nome deste sentimento com nome de paçoca que se esfarela feito o coração de certos incautos? A tira de hoje de Fernando Gonzales na Folha de S. Paulo mostra alguns exemplos das atrocidades cometidas em nome dele. Bobagens, porém, se comparadas com as respostas à seguinte questão feita por este fórum do UOL: "Qual foi a maior prova de amor que você já recebeu?". Eis algumas delas:

- A maior prova de amor é quando após uma noite frustrante ela diz "ISSO ACONTECE COM TODO MUNDO", achando que isso justifica a eca e acaricia o ego.
- Prova de amor é não fazer nenhuma, pois todas são um baita mico.
- Eu tinha meus 12 anos quando eu dei um fora em um menino e ele chorou na frente de todo mundo sem parar. Nunca vou esquecer.
- Estávamos num motel e minha namorada saiu de um outro cômodo, vestida "só" com a camisa do meu time do coração.
- A maior prova de amor foi quando minha namorada fez amor comigo durante 7 horas seguidas... Ela até sangrou um pouquinho. Mas foi muito bom!

De fato, amar é pagar micos. E faz sangrar. Mas vale a pena recordar uma frase de mestre Lupicínio Rodrigues, notório boêmio que ao ser indagado sobre o assunto afirmou: "As esposas devem se sentir felizes quando seus maridos voltam de suas noitadas porque sua volta é a maior prova de amor".

Rafael Galvão e a intrépida trupe do Momento Google são especialistas na arte de dar respostas infames às buscas mais inusitadas que desembocam em seus blogs. Peço licença aos mestres para também cometer minhas infâmias. Afinal de contas, os internautas que fizeram as pesquisas abaixo fizeram por merecer.

o que quis dizer ary barroso com a composicao da musica aquarela do brasil?
Nesta clássica canção musical, Ary Barroso quis demonstrar, no mais lindo dos belos pleonasmos redundantes, que no meu Brasil brasileiro coqueiro dá côco.

texto pequeno sobre preconceito
Preconceito fede.

como ganhar na mega sena
Essa é fácil: basta acessar o Google, que ele lhe informará os seis números que sairão no próximo concurso, ho ho.

Como fazer qualquer pessoa se apaixonar por você
Para esta pergunta, conheço uma resposta ótima que ouvi num local inesperado: um filme da Disney, "A Bela e a Fera". Se minha memória não estiver enganada, a resposta é dada por, creiam-me, uma xícara de chá animada, que canalhamente vaticina: "dê caixas de chocolate e faça promessas que você sabe que não poderá cumprir". Mas olhe, fazer uma pessoa se apaixonar por você é bico diante do desafio maior: manter a paixão rediviva diante da rotina, das dificuldades financeiros, das discussões de relacionamento, das visitas dos parentes, das ilusões românticas que soçobram frente aos problemas do cotidiano, etc etc. Contudo, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa legal, não se deixe levar pela balada dos desencantados. Amar, pagações de mico e feridas abertas à parte, ainda vale a pena.


Infâmias cometidas pelo Mestre Inagaki

17.9.05

"But it's oh so nice to come home"

Eu sei, eu sei, é o “ciclo da vida”, ou whatever, como diria um documentário do canal Discovery sobre as rãs milongueiras da Baixa Patagônia, mas não há como escapar à melancolia quando, no posto de filho, você se vê forçado a fazer pelos seus pais mais ou menos a mesma coisa que eles passaram os primeiros 15 anos da sua vida fazendo por você. Deve haver quem se encante com a simetria, mas eu me horrorizo. Não é que o dever de agir como leal guardião –que é parte inextricável do meu make-up genético- me seja completamente repulsivo (ainda que, yo, it does not come natural). Mas cumprir o dever torna inevitável encarar a fragilidade das pessoas que um dia foram as mais fortes da sua vida.

Tipo, quando, exatamente, as manhês ficam velhas? Surge o dia em que você vê a soma daquelas pequenas dificuldades resultar em veredicto, em que você percebe as pequenas hesitações, a falta de vontade de se adaptar, a decisão de vestir o pijama moral e assistir com horror à vida que a televisão traz. É como se de maneira invisível mas inevitável elas assinassem o contrato que as vai tornar parte do passado –algumas conformadas, algumas brincalhonas, algumas com toda a amargura de uma vida que talvez não tenha transcorrido exatamente como planejavam.

E se bem ternura, instinto protetor, nostalgia e compaixão sejam aparentemente os motivos dominantes, na verdade tem dose considerável de egoísmo e medo fervilhando no caldinho dos seus sentimentos. Na hora em que a mamma assina o contrato que faz dela velhinha, yo, isso oficializa a idéia de que uma hora dessas ela não vai estar mais com você, e igualmente oficializa o fato de que a maturidade chegou, que é hora de você adquirir certa gravitas (que você sabe que nunca vai ter). Quando a mamma esquece a receita do prato mais tradicional da família, que você pediu só pra puxar assunto enquanto cozinha para ela em um desses ritos de passagem que filme americano cretino adora, tem o final de uma vida e o final de uma infância pairando entre o fogão e a sala. Melhor aumentar o Sinatra, ignorar os protestos quanto às pernas cansadas e tirar a mamma pra dançar. Pode ser a última vez.

Filthy McNasty

4.9.05

Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o “Ç” vai substituir o “S” e o “C” sibilantes, e o “Z” o “S” suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O “C” duro e o “QU” em que o “U” não é pronunçiado çerão trokados pelo “K”, já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko “H” mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O “CH” çera çimplifikado para “X” e o “LH” pra “LI” ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como “onra” fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o “G” ço çera uzado kuando o çom for komo em “gordo”, e çem o “U” porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em “tigela”, uza-çe o “J” pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Cyn City

31.8.05

cornucópia

daí o unicórnio chegou no balcão do xerox e disse: eu quero uma cópia do meu corno. "do seu chifre?", a mocinha arregalou os olhos depositando no chão uma série de apostilas. "do meu chifre, aspa, binga, guampa, chavelho, como queira, só precisa ser rápido, porque estou em horário de almoço." a mocinha incrédula chamou o patrão, um careca com uma calculadora. "que que foi, nunca viu um unicórnio antes? atende." o unicórnio começava a praguejar e alisar o chifre, que parecia uma concha daquelas de caramujo bem finiiiinhas que dão na praia. então a mocinha levantou a tampa do balcão e o unicórnio passou pro lado de dentro e foram os dois fazer as cópias. na loja ao lado, uma lanchonete, uma cenoura de maus bofes sentava e pedia um suco de abacaxi.

Xícara de Chá

28.8.05

Você gasta o que não pode no shopping, depois volta pra casa de ônibus. Isso é tão hipócrita quanto aquela figura que consome oito mil calorias num almoço farto e, no final, toma um café com adoçante.

Uma dama não comenta

26.8.05

Preferido do Rei

Leio num guia de lanchonetes que o sanduíche [ou "lanche", como agora se fala em São Paulo] predileto do Elvis era banana amassada com pasta de amendoim e pão. O cara tinha mesmo que morrer intoxicado. Prefiro um sanduíche de merda.

catarro verde

25.8.05

Assim falava Zoroastro

Os homens de génio são como os meteoros: esquentam a cabeça à toa, pra terminar debaixo da terra feito todo mundo.

dies iræ

21.8.05

02.08.2005

Vem depois da noite, do hálito bêbado, dos pequenos insetos cegos, depois da madrugada, dos lençóis desfeitos, da nudez desamparada, depois dos pesadelos, do sapato no caminho, da janela batendo, do copo vazio, do pensamento que volta, depois do suor, do frio, da freada no asfalto, da coberta caída, depois da hora avançada, dos estampidos da rua, do gato no cio, das contas a pagar, vem depois, bem depois, vem me acordar e fazer só pra mim um mundo recém nascido.


Não Discuto, por Patrícia Antoniete

12.8.05

Buraco de toupeira: tatu caminha dentro?

(…)

Dinheiro é coisa muito suja, por isso que virtude é não trabalhar. E se jogo na loteria esportiva é pra perder, que Jesus falou ser mais fácil camelo passar pelo fundo de agulha, que um rico entrar no reino dos céus -- aí, só cavando túnel.

dies iræ

7.8.05

O círculo

O homenzinho de unhas polidas e pensamentos foscos apaixonou-se pela mulherzinha de unhas foscas e pensamentos polidos.
Ela, muito polidamente, disse-lhe que não poderia corresponder àquele tipo de afeto, porque era lésbica, nascera lésbica, sempre fora lésbica e haveria de morrer lésbica.
Ele nada disse, mas passou a roer as unhas e a cultivar pensamentos tristes, cada vez mais tristes. Um dia, suicidou-se.
Foi o homenzinho enterrado pelo coveiro de unhas imundas e pensamentos imaculados, cuja filha única - que tinha unhas imaculadas e pensamentos imundos - era justamente a infiel companheira da mulherzinha de unhas foscas e pensamentos polidos, a qual, sem se dar conta, se tornara um estorvo e estava com os seus dias contados.

dennis d.

Pequenas alegrias da vida de solteira

Dormir numa diagonal.

a caverna da ogra

às vezes não sei se estou cansada ou se estou triste
ou se estou triste de estar cansada
ou se estou cansada de estar triste.

blog de escárnio e maldizer

PRÁ PENSAR

Um amigo muito querido, casado com uma amiga que eu adoro, pai de 4 pimpolhos lindos e fofos, Engenheiro com doutorado em Londres, me disse uma coisa há dois anos que eu nunca me esqueci e que tem se revelado cada vez mais verdadeira:

No final, o que vai contar não é o teu doutorado, que cargos ocupaste, que sucesso fizeste. O que vai contar é se amaste de verdade pelo menos uma vez na vida, se foste amado, quem são teus filhos, se sabem amar, se eles te amam, se gostam de estar junto de ti, se tens amigos, se sabes rir e tens com quem. O vai contar, lá no final, é isso. Se todo o resto for um meio para este fim, ótimo. Se for uma alternativa, dispense. Vais te arrepender com toda certeza.

megeras magérrimas

bipolar

A paixão testa, o amor prova.
A paixão acelera, o amor retarda.
A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo.
A paixão incrimina, o amor perdoa.
A paixão convence, o amor dissuade.
A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo.
A paixão não pensa, o amor pesa.
A paixão vasculha o que o amor descobre.
A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha.
A paixão facilita o encontro, o amor dificulta.
A paixão não se prepara, o amor demora para falar.
A paixão começa rápido, o amor não termina.

Fabrício Carpinejar

I SPY WITH MY LITTLE EYE...

20/07/2005

Já falei muito delas aqui. As vizinhas do mal. As que gritam, batem boca, se desentendem, ou até concordam e se elogiam, mas sempre em altos brados, das 7 da madrugada à meia-noite, ou mais tarde. A mãe e a filha mais velha são as piores, mas sei que há um pai/marido e uma filha mais nova, que não berram tanto, e às vezes parece haver um moleque também, este até gritador também, mas menos presente, graças a Zeus. Os fofos são o tipo de gente que rouba toalha de hotel – minha área de serviço dá de frente pra delas, o que hei de fazer ? Ver, né ? E hotel de Caldas Novas, ainda por cima, aquela cidade onde quase toda piscina é um caldeirão fervente à espera de moças que tragam “sustança” e transformem seu caldo de bactérias em canja.
São pessoas tão invasivas, sem pudor e sem medida, que até suas comidas têm cheiro mais forte que as dos outros. Dia desses, por exemplo, devem ter queimado a carne assada, deixando o hall, elevadores e esta que vos fala com aroma artificial de churrasco. Cozinham pequi o ano inteiro, até fora de época, e suspeito que nem gostam, mas fazem isso só para afrontar nossos olfatos também, caso a audição se acostume aos maus-tratos. Batem panelas, amontoam lixo fora do horário de recolhimento, espancam o botão do elevador com tanta ênfase que quase dá pra acreditar que ele vai subir mais rápido por causa disso.
A mais velha já mandou a mãe atuar passivamente num ato de sodomia, e fez isso com tanta classe e discrição que tenho certeza de que até os velhinhos surdos, tão abundantes no prédio, ouviram.
Sim, já falei muito delas, e se já falei outras vezes, por que falar de novo ? Só pra contar que no fim de semana, ao fazer uma de nossas sessões de cozinhar juntos (gatim pica a cebola e o alho, eu faço o resto), rir muito, namorar um bocado e dançar ao som de golden oldies, de roupa caseira e pés descalços, na cozinha de casa, vi a menorzinha nos espiando por um bom tempo através da vidraça semi-fechada. Ficou ali quietinha, meio escondida, só os olhos por cima do parapeito. Depois de uns minutos, nem meia música, saiu da cozinha e apagou a luz. Nem comentei nada com o Nelson, que, atento como é, certamente nem percebeu. Mas eu achei interessante. O que será que se passou na cabecinha dela ?
Pode ser que tenha nos achado uns velhos babacas e nossa música uma baba chata (I only have eyes for yoooouuuu...). Pode ser que tenha tido uma pontinha de inveja ao ver que, ao contrário dos velhos dela, os coroas do apartamento em frente convivem bem e sem gritos. De um jeito ou de outro, acho bom que pelo menos ela tenha visto, em primeira mão, que é possível, sim, que pessoas comuns, que não são personagem de filme nem famosas, ricas ou bonitas, tenham um casamento feliz, gostem da companhia um do outro e não soem sempre como cães brigando. Quem sabe assim ela pense antes de perpetuar esse jeito permanentemente em guerra de sua pequena e barulhenta tribo. Se isso acontecer, seu futuro marido, e principalmente, seus futuros vizinhos, têm uma dívida enorme comigo e o gatim. Escrevi tudo isso pra dizer que aceitamos pagamento adiantado, em forma de silêncio. Pelo menos na hora do almoço.


04/08/2005

As vizinhas marditas-gritadeiras gritando como nunca, e eu não posso nem mandá-las ir gritar com a puta que as pariu. Ou com as putas que pariu. Não porque eu seja fina demais pra isso, mas porque, na verdade, provavelmente é isso mesmo que elas estão fazendo.

Cyn City

6.8.05

Obrigada, não!

Obrigada, acontece que eu não gosto:
- de Paulo Coelho;
- desses livros de ajuda espiritual escritos para ganhar dinheiro;
- dessa música sertaneja que está na moda;
- de poetas de rima fácil;
- de música no mais alto volume (em casa ou no carro);
- que me acordem. Deus me livre puxar a cortina com força, jogar claridade na minha cara e dizer: Ó, que dia lindo!
- de gente que anda de carro na praia;
- de quem maltrata e abandona bichos;
- de quem acha que é expert em tudo;
- de quem classifica as pessoas pelas escolhas sexuais que têm;
- de quem é servil;
- de quem não sabe receber amor;
- de quem só pensa em dinheiro;
- de quem vive cobrando atenção;
- de quem só diz o que os outros querem ouvir.

veja o que eu vi e muito mais

ARE YOU LONESOME TONIGHT?

Elvis nunca gostou de rock. E o mistério é que a família – mãe, tia e avós, testemunhas juramentadas de Jeová – também não podia ouvir falar em música profana. Teremos, pois, de esclarecer o porquê do nome através de uma trama noir, com ventilador de teto, persiana, um datilógrafo de costeletas crespas, um velho careca e uma loira fatal.

Elvis tirou a tarde de ontem de folga e foi ao 3º Cartório de Registro Civil, para averiguar quem eram o tabelião e os outros profissionais do estabelecimento em 77, quando nasceu. Enquanto o funcionário de óculos de aro de tartaruga fuçava os papéis, suando vapor, Elvis se perguntou o que fazia ali o ventilador chiando feito gemido ensaiado de mulher que nunca chega lá. Aliás ele não fazia mexer nem as persianas empoeiradas que deixavam entrar fatiada a tarde amarela e sem graça. “Esse aqui”, disse o óculos de tartaruga, mostrando uma foto já descorada de um tipo com costeletona, “era o escrivão da época. Miron.” E, limpando o vapor na testa com a manga da camisa: “O dono do cartório na época morreu, deixou para o filho, que está de viagem. Sobrou só o Miron para você pesquisar”. Do cartório mesmo Elvis ligou e do outro lado atendeu um velho careca – mas que até hoje cantarola “Are You Lonesome Tonight?” sem errar a letra. “É, sou o Miron. Lembro do teu pai. Sujeito asqueroso, uma recaída da tua mãe. A família dela nunca gostou daquele ‘ateu sem volta’. Ele bebia e desconfiava de tua mãe. Achava inclusive que não era teu pai verdadeiro. Veio, bêbado, te registrar. Quando eu perguntei se o recém-nascido ia ter o nome do pai ele achou graça de eu falar ‘pai’ e disse, cínico, acho que para ele mesmo: ‘É o vizinho…’ Ouvi e pensei que seria o teu prenome, as letras todas juntas, e comecei a datilografar – achando justa aquela singela homenagem ao rei, justo no ano da morte dele. ‘Vai no diminutivo mesmo?’, eu perguntei, aí ele percebeu e disse ‘Pára!’ - então tive tempo de pelo menos não colocar o ‘inho’. Ele leu como ficou, riu e mandou deixar. Sumiu no mundo e te largou esse nome.” Elvis desligou o telefone com um estranho gosto de chiclete de uva na boca. E sim, a mulher fatal era Edilene, uma loira oxigenada sentada na recepção do cartório, esperando para reconhecer firma nuns papéis e que refrescava o busto suado abanando um exemplar antigo da Carícia.

ao mirante, nelson

Top 5 - Piores Profissões do Mundo

5 - Greicikélio da Silva, 18, é faxineiro de uma casa de peep show em Copacabana. Em outras palavras: limpador de porra. E, pior, não é nem registrado em carteira.

4 - Carlos Poncherelo, 40, é policial rodoviário especializado em coletar restos mortais de animais atropelados na estrada. Experimente passar um dia de verão atendendo a chamados de todos os lugares do país, enquanto o processo de decomposição dos finados bichos segue à toda. Não à toa, seu prato predileto é espetinho de jiló com salada de tofu.

3 - Debbie Lloyd, 24, é limpadora de bundas de lutadores de sumô, homens que por evidentes razões adiposas possuem dificuldades para alcançar determinadas partes de sua anatomia. O trabalho é evidentemente uma merda, mas ao menos paga bem.

2 - Creedence Ramônio, 58, é técnico de som do grupo de pagode universitário Los Mauricinhos, (ir)responsáveis pelo atual hit número 1 da Gazeta FM, "Pagode na Daslu". Antes, trabalhou com a dupla sertaneja Tristinho & Tristonho e a boy band New Kids on the Blog (conhecida pelos sucessos "Template da Paixão" e "Muito Lôko Seu Blog, Linka Eu Vai?"). Recentemente Creedence trabalhou na gravação de um DVD em tributo à obra de Arnaldo Antunes, tendo sido obrigado a ouvir por dez horas seguidas Preta Gil cantar (com arranjos de Jacques Morelembaum) os versos imortais "Macha fêmeo macha fêmeo fêmeo macha/ Cérebra caralha baga saca pescoça prepúcia ossa/ Nádego boceto têto côxo vagino cabeço boco/ Corpa moço dentra foro moça/ Orgasma coita palavro sexa goza/ Liberal gerou".

1 - Horinando Brasilino, 27, é limpador de esgotos. Experimente mergulhar em um fosso repleto de toneladas de merda humana, a fim de liberar canos entupidos por causa de absorventes ou camisinhas usadas. Horinando até já se acostumou com essa rotina, mas não se conforma com o fato de a firma não oferecer assistência odontológica nem pagar horas extras. Assim já é demais!

por Alexandre Inagaki, pro morfina

Minha sobrinha Marcelinha, que nasceu há pouco mais de três meses, levou diiiiias e diiiiias pra abrir os olhinhos, chorava pouco e baixinho, dormia muito. Minha sobrinha-neta Hannah, que nasceu anteontem, já saiu de olhos abertos, chora e resmunga, vive acordada e mostra a língua pra tudo que se move. Qual será a razão de tanta diferença ? Minha teoria é de que Marcela, ao ser levada pro quarto da mãe na maternidade, abriu meio olhinho, deu uma boa sacada em volta, viu o tamanho da suíte, as flores, o buffet, as malas, as roupinhas, suspirou aliviada e pensou “Ui, que bom, sou rica. Me acordem daqui a três meses, uahhh...”. Hannah também deu a primeira olhada, sentiu que o quarto era até legal, mas não era nenhum cinco estrelas, e ainda viu uma menina de trança, um moleque magrelo apavorado, sentiu que aqueles eram seus pais... e perdeu o sono ! Hohoho.

Cyn City

3.8.05

Ponto pacífico

Encontraram-se na seção de congelados do supermercado:

Ele, sorrindo:

- Sem tempo para cozinhar, não é?

Ela, reticente:

- Não, não. Minha irmã vem me visitar e ela adora esse ravióli.

- Tem bom gosto. O de ricota é divino. Já provei.

- Eu não suporto ricota. Vou levar carne, mesmo, que sempre cai bem com um vinhozinho...

- Hum. Não bebo. Para mim um suco de acerola dá o contraponto exato. Mas também, eu prefiro ricota...

- Não suporto ricota. Bom, com licença; preciso passar na locadora.

- Comédia, decerto.

- Não, Krzistof Kieslowski. Estou com um plano de rever a trilogia das cores essa semana.

- Ah, certo. Gostei da Fraternidade é Vermelha. Aquela Irene Jacob é... digo, uma boa atriz.

- Claro. Mas a Liberdade é Azul é que é o grande momento da trilogia.

- Então você vai passar a noite com a Juliette Binoche.

- Na verdade é para amanhã, que hoje estava a fim de ver um show.

- Boa! O Djavan tá na Tom Brasil.

- É, mas o Echo & The Bunnymen tá no Credicard Hall. Sou louca por eles.

- Vai arrastar teu namorado pra lá.

- Umas amigas.

- E depois dançar um pouco nalgum lugar.

- Xi, não. Provavelmente comer uma pizza.

- Alguma coisa me diz que você não é católica.

- Acertou. Presbiteriana.

- Ah. Bom, pelo menos os presbiterianos são malufistas, como eu.

- Credo! Sou militante do PT há dez anos! Não acredito que alguém ainda vota no Maluf em sã consciência.

Ele, um pouco contrariado:

- Hã, bom... eu não quero atrasar você. Ainda tem que passar na locadora, não é?E eu fiquei com vontade de ver o Djavan, depois desse papo todo.

Ela, visivelmente chateada:

- Claro. Tchau!

- Tchau.

Já a uns cinco metros ele se vira:

- Uma última pergunta...

- São paulina! Ela grita.

- Eu também!

Correm ao encontro um do outro e se enlaçam num beijo selvagem.

é por aqui que vai pra lá?

30.7.05

O P.S. que a Bíblia escondeu

...E não contente em expulsar Adão e Eva do Paraíso e amaldiçoá-los com trabalho, partos,TPM, dupla jornada, patrão e cliente, Deus, que era um tremendo dum machista, ainda deu um jeitinho de piorar as coisas "praquela perua assanhada" : inventou a celulite, a tendência a engordar e as revistas femininas com padrão estético pra lá de Bangladesh. E viu que era mau. E quando nem isso acalmou Sua ira, o Grande Sacana criou a Nhá Benta e o Häagen Dazs sabor Crème Brûlée. E neste momento Ele deu uma risada tão sádica e maligna que fez desmaiarem três anjinhos e acordou até Seu oponente, que dormia o sono do Justus, muitos andares abaixo, onde não tem ar-condicionado. Dizem que Belza ficou tão arrepiado que teve que tomar dois copos de água de melissa gelada com açúcar, e tão surpreso que passou pertinho assim, quase-quase quase mesmo, pelo beiço de uma pulga, de fazer o pelo-sinal.

Cyn City

28.7.05

Sempre me perguntam por que não escrevo um livro.
Pra quê? Se você entrar armado numa livraria e atirar, acerta num livro de blogueiro. É o que mais tem. Papel é um troço poroso, aceita tudo. Se eu tiver que selecionar posts pra botar num livro, vou deletar quase todos. Porque não passam disso: merda volátil. Com dois cliques vai tudo pro esgoto.
Simancol é bom e eu tenho um vidrão na farmacinha do mocó.

Ave!, catarro verde

Urubu

Tem gente que se diverte intensamente quando pode dar uma má notícia. O porteiro do meu prédio, por exemplo.
- A senhora está indo fazer caminhada?
- (Não, criatura, eu vou a uma festa de gala às dez da manhã, vestindo short e camiseta de alça.) Estou.
- Ah, tá. Quando voltar, passa na portaria que tem correspondência.
- Tá bom.

Estou saindo do prédio quando o porteiro continua:
- Mas não é boa notícia, viu?
- O quê??
- É multa. (E ele me diz isso sorrindo, como se informasse que era um prêmio de loteria.)
- … Sabe, essa informação era completamente desnecessária.

num Dia de Folga

27.7.05

She Could Have Said "Uterus"

Girl #1: Ugh! It's horrible out! It feels like I'm in someone's lung!
Girl #2: What?
Girl #1: It's just so moist and warm out here; it's like being in a giant lung.
Girl #2: ...that's the most disgusting description I think I've ever heard.

--74th & Madison
. . .

Another Wonderfully Thinning Feature for Smokers

Girl #1: I wish I still smoked so I would have a reason to go outside every 20 minutes.
Girl #2: But then you'd have cancer.

--Chelsea elevator

Overheard

- Eu queria fazer um testimonal à sua altura.
- Eu tenho um metro e meio.

Torpor

Assim numa segunda-feira chuvosa, tv fora do ar, computador travado, a mulher do Marcos Velório até que seria fecundável. E o nome é estiloso. Renilda.

Catarro Verde

20.7.05

PRA GRINGO

Mais sobre o SOU FEIA MAS TÔ NA MODA. O pessoal tem perguntado quando o filme estréia por aqui. Não sei, Denise está negociando ainda.

Talvez o fato dela ser egressa da classe operária e não ter um sobrenome bacana tenha causado uma certa lerdeza no processo.

Já me decidi, quando tiver um filho o nome dele será João Veloso Chateaubriand Gil Gerdau de Moreira Salles Meireles. Esse esquema de ter nome de pobre é mau agouro.

O primeiro nome pode ser Sebastião também, nomes roots pega mó bem na hora das apresentações.

Quero só o melhor para o meu pimpolho.

eu não pedi pra nascer

14.7.05

Altismo

Às vezes tenho a nítida impressão de que estou falando sozinha.

sanatorium

Férias

Existem três tipos de férias.

As férias ideais, restritas aos sortudos que tem dinheiro e companhia para viajar.
As férias práticas, quando fazemos tudo que a falta de tempo não permite fazer no resto do ano: visitar amigos, ir ao médico, arrumar armários, ler dezenas de livros, assistir centenas de filmes, consertar a pia que está pingando há meses, ver exposições, tirar segunda via de documentos, aprender a costurar, pensar na vida e procurar outro emprego.

Todo mundo sonha com o primeiro tipo e, enquanto não é tão sortudo, se ilude dizendo que vai cumprir as metas do segundo. Quando na verdade todo mundo sabe que a gente vai mesmo é tirar o terceiro tipo de férias. As férias reais: dormir até tarde e passar o resto do dia no sofá assistindo porcaria na televisão e comendo.

bocozices

Definições

Tesão é mulher de sapatinho decotado, essa invenção do capeta.
...
Macilenta. Palavra inventada para descrever coxa de freira.

catarro verde

11.7.05

IDÉIA PARA UMA CHARGE DANTESCA

Seu Virgílio é o ascensorista de uma grande loja de departamentos. Quem o conhece assegura que é o homem mais paciente do mundo. Nenhum outro agüentaria fazer o mesmo trabalho por milênios, dizendo sempre as mesmas coisas naquela voz monocórdia: "Segundo andar, luxuriosos. Quarto andar, avaros, pródigos. Quinto andar, iracundos. Sexto andar, heréticos. Sétimo andar, tiranos, assassinos, salteadores, suicidas, dissipadores, blasfemos, sodomitas, usurários. Oitavo andar, sedutores, aduladores, simoníacos, mágicos, adivinhos e embusteiros similares, corruptos e prevaricadores, hipócritas, semeadores de ódios, divisões e discórdias, falsários. Nono andar, traidores do sangue, da pátria, dos amigos, dos benfeitores". Como se vê, a loja é pessimamente planejada: a primeira pergunta dos clientes é "Quem foi o arquiteto dos infernos que fez isto?", normalmente seguida por uma resposta do tipo "Sei não, mas acho que é coisa do Niemeyer". Nada disso incomoda nosso ascensorista. Tampouco o fato de o elevador estar sempre lotado de gente fazendo séquiço, matando a si mesma e aos outros, queimando dinheiro ou emprestando a juros obscenos, praticando a alquimia, tendo ataques apopléticos, xingando Deus etc. Seu Virgílio, imperturbável no uniforme made in Mântua, não está nem aí. Afinal, ele sabe que a eternidade é assim mesmo, eternamente.

(Outra charge. Pequeno diálogo entre seu Virgílio e um ocupante do elevador: "Nossa, que roupa bonita essa sua! Muito chique, mas muito mesmo. Sabe que meu sonho sempre foi ser ascensorista? Juro, acho uma profissão linda." "Oitavo andar, pode descer.")

puragoiaba

a Jack Kerouac

dormir dormir... dormir para sempre. dormir de depressão, dormir de desilusão, dormir depois de três quartos de garrafão. dormir certa tarde. dormir nesse meio tempo. dormir repentinamente. dormir e bum! dormir branco. dormir negro. dormir señorita. dormir de bigode. dormir sozinho. dormir seja com quem for. dormir na privada. dormir até Ohio. dormir uma parede de cada lado. dormir de tiro no peito. dormir na varanda. dormir sobre o mármore. dormir por outras razões. dormir na correnteza. dormir sem saco de dormir. dormir antes de partir. dormir tudo aquilo. dormir o mapa-múndi. dormir como sempre faziam. dormir um quilômetro por hora. dormir as idéias. dormir aqui comigo. dormir cada palavra. dormir dormir... dormir para sempre. até que as enchovas se transformem em pó.

Prosa Caotica

7.7.05

Sou uma pessoa muito ruim

Devo ser uma péssima pessoa. Sério, mesmo. Tenho características que, vistas por muitos, são atributos de facínoras. Obviamente, não me considero uma pessoa ruim, nada disso. Isso de "péssima pessoa" é em relação ao senso comum.

Bebês, por exemplo. Não gosto de bebês, crianças etc. Não que me incomodem ao ponto de dar alergia, mas não consigo retribuir brincadeiras sem me sentir um completo idiota. Também preciso me esforçar muito para, junto de outros adultos, demonstrar uma gritante alegria quando alguma criancinha aparece.

Eu finjo, claro. Ninguém além de mim precisa saber que sou uma pessoa ruim. Bom, agora o segredo foi pro espaço. Mas vamoquevamo.

Prefiro um filhotinho de cachorro a um bebê. Posso passar horas brincando com um buldoguinho, mas não consigo ficar mais do que cinco segundos acenando para um caucasianinho. Mesmo se o buldogue for agressivo e o caucasiano animadíssimo, ainda assim minha disposição é maior para com o fuçudo. Vejam, pois, que o caso é sério.

Também preciso confessar que às vezes sou falso. Quando grandes amigos pedem opiniões sobre algo que lhes diga respeito, sou sempre sincero. Mas quando alguns conhecidos, aqueles que não são exatamente amigos, perguntam o que eu acho de qualquer coisa deles (roupa, corte de cabelo, música, texto etc), sempre digo que tudo está ótimo. Mas quase nunca está.

Não sinto culpa por essa falsidade, porque eles agem do mesmo modo. Já fiz de propósito, perguntei sobre algo meu, evidentemente péssimo, e ouvi opiniões elogiosas desse povo. Bom, essa minha desconfiança também é coisa de gente péssima.

gravataí merengue

...

eu só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você. só penso em você, mas conheço muita gente. Baudelaire nasceu no 9 de abril de 1821 e ficou conhecido por Les Fleurs du Mal. Caetano nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Machado de Assis era de saúde frágil, epilético e gago. Cássia Rejane Eller, quando criança, queria fugir com o circo. Michael Cunninghan estudou na Universidade de Stanford e mora hoje em Nova York. Kurosawa trabalhou ilustrando revistas femininas. Alice teve seis filhos, seis netos, e não gosta de coelhos. Mondrian dizia que toda a história da arte chegou aonde tinha que chegar em suas pinturas abstratas geométricas. Borges dizia ser sucessivamente anarquista, socialista, radical y inofensivo. Stanislaw Ponte Preta dizia que sabia fazer ovo frito como Pelé sabia fazer gol. Virginia não tinha tempo para descrever seus planos. eu só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você. só penso em você, mas é certo que conheço muita gente.

Plano B

6.7.05

Desperdício

Ontem ganhei na loteria. Dez reais.
Que merda! Gastei um objetivo de vida com ninharia.

admirável blog novo

5.7.05

QUASE UM HAICAI SILVESTRE

Na mata rala,
A fada fala a tara:
Uma gota de gala no cu de Carla agrada Clara.

São Paulo, 22 de maio de 1993

Igreja da Graça da Criação

Esta pode ser a grande oportunidade da sua vida. Estou lançando a primeira Igreja que funciona (oficialmente) em sistema de franquia. A idéia é simples: eu forneço a Palavra, você a divulga e recolhe a grana dos fiéis. Será cobrada a taxa padrão para esse tipo de empreendimento: dez por cento. E eu ficarei com dez por cento desses dez por cento. Tudo muito simples e regido pelo consagrado sistema decimal para facilitar as contas.

A Palavra? Vamos a ela. Deus é o Criador. O homem foi feito à sua imagem e semelhança, mas perdeu a semelhança por causa dos jornais, da televisão, das escolas e das outras igrejas. Ora, para tornar-se novamente semelhante a Deus, tudo o que o Homem precisa fazer é seguir o exemplo do Criador e - criar. Ao criar, o Homem reconquista a inocência perdida e deixa de cavilar males para seus semelhantes.

"Ah, mas eu sou uma besta, não consigo criar coisa alguma." Você ouvirá essa frase muitas e muitas vezes, e deverá estar preparado para mostrar aos seus fiéis que foi a própria Besta (por meio de seus Agentes) que os convenceu disso. Para vencer esse e outros desafios, você deverá ler com muita atenção a FAQ da IGC e, evidentemente, contar com a minha providencial ajuda.

Abra sua franquia hoje mesmo e deixe-se penetrar pela Graça da Criação até que o Espírito Santo o preencha inteiramente! Mas não esqueça os meus dez por cento.

Amem triagem

lençóis de âncora

Fui dormir outro dia, dia de lençóis limpos, e eu adoro dia de lençóis limpos. Parece que durmo melhor, e eu não sou de dormir lá muito bem. Eu amo dormir, fato, mas meu sono é sempre meio perturbado. Já pensei em várias explicações, meus sonhos não são sempre bons, sempre acho que há algo de aprendizado que posso tirar deles, algo pra aplicar na vida real, enfim. Nunca gostei da hora de dormir. Bem, voltando, lençóis limpos, fui deitar na outra noite, estava frio. Puxei os lençóis de florzinhas azuis e me cobri quase até a cabeça. Daí senti um cheiro familiar. Cheiro de outros lençóis. Senti saudades dos outros lençóis, mas não há nada que possa fazer. Só continuar a sentir o cheiro dos outros lençóis, da casa de outra pessoa, não a minha. Aceitar que não são os meus lençóis. Mas pra mim, sempre serão. E agora, toda noite que eu vou dormir, sinto esse cheiro, e imagino estar perto daquela pessoa com os tais lençóis de âncora.

o muro da dedé

30.6.05

Grandes Vultos dos Anos 70 -06


(ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico)


Filthy McNasty

24.6.05

sara

se sara sarar d. saramp.
sara será sereia
p.is sara nã. é feia
emb.ra nã. seja um anj.
merece um s.l. de banj.

chacalog

22.6.05

fumaça de hortelã

O homem tem um plano ambicioso: inventar um cigarro inócuo, sem tabaco, sem nicotina. "Este não mata", multiplicam outdoors; um autêntico benfeitor da humanidade, ora se não. Ainda hoje ele pode ser visto perambulando, muito compenetrado, fumando matinhos sem nome em quintais alheios. "Minhas pesquisas", é tudo o que diz quando perguntado, virando o rosto antes que se lhe notem o cansaço nas pálpebras.

1 leitor Online

...

o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivarius no grande desastre
aéreo de ontem




mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

também temos café e cigarros

12.6.05

O Estraga Prazeres

- Uau! Que noite...
- Dormiu mal?
- Hum? Não... imagina. Tive um sonho erótico da melhor qualidade... E com o Casagrande... Dá pra acreditar?
- O jogador??
- É! O corintiano... Que coisa que é aquele menino. Nunca tinha reparado... Quem diria?
- Eeei, acorda! Foi um sonho. Eu estou aqui!
- Bobagem mozinho... Vai ter ciúme de sonho?
- ...
- E que sonho! E que noite! Salve o corinthians...
- É... deve ter sido uma noite e tanto mesmo. Uma noite "Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha"!
- Estraga prazeres...


Licor de Marula com Flocos de Milho Acuçarados

11.6.05

De repente

Bateu uma vontade de engasgar ao ouvir "Vento no Litoral". Uma vontade de sentir o coração disparar sem mais nem mais ante a visão de alguma garota imberbe tamaqueando pelas calçadas duma cidade litorânea. De olhar para o mundo à minha volta e morrer de insegurança pelo que ele pensava de mim. De sorrir ante a mínima expressão de espirituosidade. De apagar a luz e botar Waiting for the night, do Depeche Mode, ou Niagara, do Inspiral Carpets, no meio da noite da casa vazia. No máximo volume. Com um travesseiro na cara. De escrever e desenhar um diário. De hesitar ante a pergunta sobre o que eu seria quando crescesse. De ler Ana Karenina recostado no meu travesseiro de solteiro, torcendo pra ninguém lembrar que eu existia pelas horas seguintes. Deu, de repente, uma nostalgia.

Que passa logo, porque a vida insiste.

é por aqui que vai prá lá?

surto fashion descontrol é você, vendo que não tem uma meia que combine com a produção do dia, não pensar duas vezes antes de esgaçar a soquete rosa 27 a 32 da filha no seu pezinho 38 (torcendo para aquele "Barbie" enooorme no tornozelo ficar devidamente escondido pela barra do jeans) .

kaleidoscópio

Manhã de segunda-feira. Chuva.

Se estivéssemos em 1982, eu acordaria sem preocupações e ficaria brincando até a hora da escola. Em 1983, inventaria programas e entrevistas e passaria a manhã inteira fazendo gravações com meus irmãos no meu super-gravador-portátil. Em 1984, a manhã seria pequena para ler todos os livros que eu teria trazido da casa do meu avô no domingo.

Em 1985, perderia minutos preciosos de sono chorando na frente de um copo de nescau que eu não queria beber. Em 1986, calçaria um tênis de cor "proibida" pelas regras da escola e planejaria a estratégia para entrar sem ser vista pelo inspetor, como se esta fosse a maior transgressão do universo. Em 1987, correria para o espelho para verificar se o cabelo estava num "dia bom" e passaria lápis azul no olho, porque o ridículo não tem limite nem idade.

Em 1988, daria graças a deus por voltar a estudar à tarde, ficaria lendo, ouvindo música e a chuva seria uma desculpa para não ir ao mercadinho comprar um ingrediente de última hora pro almoço. Em 1989, inventaria histórias para não fazer aula de educação física. Em 1990, amaldiçoaria o despertador e testaria a cada dia sair de casa um minuto mais tarde e andar mais rápido.

Em 1991, teria vinte minutos entre o despertar e o início da primeira aula, e bateria todos os recordes de velocidade conhecidos. Em 1992, pensaria, "mas não levanto da cama com chuva pra ir à aula nem que me paguem". Em 1993, dormiria até a hora do almoço.

De 1994 até 1997, levantaria com cada vez mais esforço e iria me arrastando pro trabalho enquanto tentaria lembrar dos detalhes do fim-de-semana e juraria que nunca mais iria beber.

Em 1998, nem cogitaria levantar cedo pra atravessar a poça com chuva. Em 1999, pensaria se já não era hora, afinal, de comprar um guarda-chuva. Em 2000, não teria tempo de pensar em nada enquanto saía de casa correndo, acumulando trabalhos e sempre atrasada.

Em 2001, sairia para trabalhar com prazer enquanto faria contas e mais contas, descobrindo que montar uma casa não é brincadeira. Em 2002, descobriria que trabalho nem sempre é prazer. Em 2003, não precisaria acordar depois de passar a noite em claro fazendo contas e mais contas e descobrindo que manter uma casa também não é brincadeira (mas é um prazer). Em 2004, voltaria a fazer planos e acordaria com um sorriso no rosto.

Em 2005, acordaria com um telefonema do meu chefe e perguntaria porque, afinal, não podemos ficar em 1982 para sempre.


bocozices

Nomes amaldiçoados

Talvez o pior legado da música sertaneja não seja as histórias de cornos chorosos, mullets e vozes estridentes, mas algo muito pior.
Sempre que sou apresentado a alguém chamado Leandro ou Leonardo não consigo saber, cinco minutos depois, qual o nome certo dessa pessoa.

cris dias

Contei para o Pan que as mulheres que posam para a Playboy têm fitas adesivas puxando as dobrinhas a mais e computadores que apagam as celulites e as marquinhas. Para que meu filho não passe a vida inteira em busca de uma mulher perfeita.

Os diários de Marina W.

Edredon

A gente sente mais frio quando está sozinho.

Blowg

Come as you are

[generalizações mode on]

Todo argentino é arrogante. Toda mulher dirige mal. Todo homem é safado. Todo homossexual dá gritinhos. Toda menina usa rosa. Todo cearense tem cabeça chata. Todo baiano é preguiçoso. Todo gaúcho é machista. Todo paraense é ladrão. Toda maçã verde e dura é ácida. A mulher amazonense é fácil. Todo índio fala usando os verbos no infinitivo e gostar de beber cachaça de branco. Todo advogado é inescrupuloso. Toda loira é burra. Preto quando não suja na entrada, suja na saída. Chocolate dá espinha. Parnasianos são vazios. Românticos são irreais. Publicitários são o Roberto Justus. Peito duro é silicone. Macho que é macho não chora, não abraça, cospe no chão e coça o saco. Meninas educadas falam baixo, sentam de perna fechada, batem as pestanas e usam calcinha de algodão. Todo libriano é distraído. Todo morador de periferia ouve som alto na porta de casa. Um menino de 8-10 anos, de bermuda, chinelo, magrinho e moreno tem grandes possibilidades de te assaltar. É preciso "ser alguém" na vida. Todo abacaxi é amarelo e cheiroso. Toda mulher gosta de receber rosas. Franceses não tomam banho, são xenófobos porém bons de cama. Ingleses são pontuais e levemente tristes. Todo evangélico anda com a Bíblia debaixo do braço. Toda evangélica tem dois metros de cabelo. Funcionários públicos passam o dia tomando cafezinho. Mulher bonita é mulher jovem, magra, com a pele firme e o cabelo reluzente, sem um fiozinho apontando pra cima.Sobrancelhas finas e pernas depiladas. Livros bons foram escritos há, pelo menos, quarenta anos. Sexo são duas pessoas entre quatro paredes. Em silêncio, pra não incomodar os vizinhos. Blogueiros são super-cali-fragi-listic-expiali-doce.Roqueiros usam tatuagens e camisas pretas. Costumam ser satanistas e depressivos, também. Pessoas que entendem de música clássica são chatas e cansativas, além de darem sono. Professores são pessoas que não sabem fazer as coisas, portanto resolveram ensinar. Estudantes de Filosofia fumam maconha. Estudantes de Pedagogia são mulheres. Estudantes de Administração não sabiam qual curso escolher. Políticos são corruptos, e a gente escolhe o menos pior. No meu tempo é que era bom. Essa geração está perdida. As mulheres se casam sempre antes dos trinta (se não viraram freiras) e mesmo que não queiram.

[generalizações mode off]

As aventuras da menina prodígio

2.6.05

A SIMPLICIDADE

Vivemos em voz baixa, recriminando nossos atos, censurando. Quem não se flagrou falando sozinho, a praguejar uma idéia? Quem não teve a mania de se piorar, para gerar pena e complacência? Quem não se exagerou para recuperar a solidão? Apagamos a simplicidade, o sol assanhado lavando a calçada, os pássaros ajudando as árvores a tirar a camisa, os cachorros com o olhar familiar de mendigos, as pequenas delícias de fazer parte do mistério. Não podemos ter vivido tão errado, tão torto, a ponto de não deixar nada. Não acredito em páginas brancas. Alguma coisa está por baixo. Alguma coisa poderá ser lida com o relevo da claridade. Que minha mulher possa se lembrar dos momentos em que não prestava atenção à alegria para ser a alegria. Que ela possa achar graça, sem a minha ajuda, quando procuro desajeitado as contas na gaveta. Que possa se emocionar de preguiça quando levanto de noite para ver se fechei a casa. Que possa se render quando deito no chão de igual para igual com os filhos a brincar de bolinha do banheiro ao quarto. Que a rotina não seja tudo igual, e sim uma maneira silenciosa de ser diferente por dentro. Que não critique a mãe quando ela recordar da minha infância em público e acrescente um detalhe às lembranças. Que ponha semente no chão, não no lixo, a esperar que uma delas venha a me surpreender com a minha altura. Que possa tocar no assunto com volúpia. Se eu fui afetado, ambicioso e irresponsável, que a ternura me devolva o equilíbrio e peça desculpas distraído, beijando a mão do vento. Que meus amigos tenham confiança em mim e fiquem com vontade de beber mais e conviver mais quando meu nome aparecer na conversa. Que tenha sido um leitor dedicado quando amante, com os olhos fechados pela pressão dos lábios. Que algo que tenha dito de carinho venha aparecer ao lado de um palavrão. Que encontre cartas e cartões em meio aos livros e leia como se fosse a primeira vez que estou os recebendo. Que não seja tolerado, que não seja útil, que seja necessário mais do que sou. Que não volte com conversa abatida de que nada dá certo. Que seja corajoso a dizer o que pensava do que a não dizer o que pensava. Que tenha uma religião, mesmo que seja uma coleção de selos, e acredite que o mundo é um complô de Deus para me proteger. Que tenha companhia no trem, a abafar o apito da porta. Que possa viver desapegado do nome e da condição do nome, como um boi que não se envergonha da terra. Que possa aquecer a cama antes da minha mulher entrar. Que possa aquecer meu corpo antes de minha mulher entrar. Que possa aquecer o que já estava esquecido em mim.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

1.6.05

Periclitante Périplo Paulista

Quando comentei com meu pai que estava indo me encontrar com uma mulher casada, ele disse apenas:

Mulher casada tem gosto de chumbo.

Eu iria me lembrar disso mais tarde.

(…)

Periclitante Périplo Paulista em Liberal, libertário, libertino

30.5.05

MOCCA CHOCOLATA YAYA (Segundo Ato)

Na biblioteca do solar dos Soares Silva, Alexandre está entediado numa poltrona. Veste roupão e chinelos de couro. Na sua frente, em outra poltrona, Voz na Minha Cabeça lê "O Declínio da Civilização Ocidental".

Alexandre levanta e começa a andar pela biblioteca pensativamente. De súbito vê um busto de Cícero na estante e não consegue conter um esgar de desgosto.


Alexandre - Com solenidade declaro que a Antigüidade toda me entedia. Chego a pensar que foi de propósito.

Vnmc - Não, não, que é isso.

Alexandre - Ah, foi sim. Os filósofos pré-socráticos inventavam toda semana um novo elemento do qual o universo supostamente é feito (saliva, pedregulhos, muco, resina de pinheiro) só pra me fazer dormir. Tenho certeza. Cícero fazia discursos de quatro horas sobre o uso de tacapes nas Guerras, sei lá eu, da Panônia, só pra me entediar. No meio do discurso ele se interrompia (até posso vê-lo) pra piscar pra os senadores, que riam dizendo entre si, todos com a cara do Charles Laughton, “Ré ré ré, está chato mesmo. O Alexandre vai dormir". Inventaram as declinações por pura maldade... (campainha toca) Quem bate?

Vnmc – Ninguém bate, foi a campainha. E quem pergunta “quem bate” na vida real, meu Deus?

Alexandre – Sim, sim, a campainha. Tenho andado distraído por causa de informações chocantes que li numa revista científica. Por exemplo, você sabia que é possível quebrar o pinto? Ah, não atenda.

Vnmc – Tenho que atender, para não continuar ouvindo o seu monólogo.

Abre a porta. Mulher da Seicho-no-Iê aparece com folhetos na mão.

Mdsni – Bom dia. Será que vocês têm cinco minutos?

Vnmc – Ele tem, ele tem. Entra...

Alexandre – Eu achava que tinha, mas subitamente me sinto como se estivesse muito ocupado. Tarefas esquecidas oprimem minha mente. (aperta a cabeça, dando sinais de grande dor) Tenho que assistir a RAI hoje para aprender italiano. Oh, meu Deus...

Mdsni – Eu realmente não queria atrapalhar, só queria mostrar estes livrinhos pra vocês...

Alexandre (interrompendo) – São da Antigüidade?

Mdsni – Não.

Alexandre – Discursos de Cícero?

Mdsni – Não. Eu só queria mostrar este livrinho, “Luz da Vida, Esperança no Coração”, que pode passar muita coisa de positiva para vocês...

Alexandre – Uma vez me passaram uma coisa positiva, minha cara, e demorei dois anos para me curar. Mas me deixe ver. (pega o livrinho) Ugly-looking little bugger. Tem certeza que não é um discurso de Cícero? Ah, sabe, eu leria, mas prometi a mim mesmo que nunca mais leria livros impressos em páginas verde muco.

Vnmc (para Mdsni) – Pode deixar, eu compro. Vai ser um prazer ler o livro em voz alta pra ele nas longas noites de inverno.

Mdsni – Obrigada, mas é de graça. Posso perguntar se vocês têm alguma crença?

Alexandre – Ah, muitas. Nossa, como eu sou crédulo.

Vnmc – É sim. O que quer que você diga, ele acredita. Experimenta.

Mdsni – O senhor acredita na Vida?

Alexandre – Se eu acredito na Vida? Eu adoro a Vida! Sou fanático pela Vida! É melhor do que Buffy! Todos os dias puxo aquela poltrona ali para aquela janela, está vendo?, e fico vendo a Vida lá embaixo. Vem ver, vem ver. (arrasta mulher para a janela)

Mdsni – É bonito. Não tem muito acontecendo, né?

Alexandre – É verdade, a Vida é um pouco monótona. Sem contar que as pessoas no ponto de ônibus são feias. Putz, olha a gordinha.

Mdsni – Mas o que eu quero dizer é, vocês acreditam na Energia Vital? Na força do Pensamento Positivo?

Alexandre (subitamente absorto, para Vnmc, ignorando Mdsni) – Mas como eu ia dizendo, é terrível, dá pra quebrar o pinto como se fosse um osso.

Vnmc – Podemos tentar.

Alexandre (para Mdsni) – A senhora sabia que é possível quebrar o pinto como se fosse um osso? Se estiver duro, é claro. Sabe quando a mulher está por cima e ela se joga pra trás? Ah, minha boa mulher, trate bem o pinto do seu marido, é o conselho que lhe dou. Uma vez que um homem quebra o pinto, perde toda a confiança. Para o resto da vida ele vai fazer sexo bem devagarinho, eternamente com medo de ouvir um estalo.

Mdsni – Eu sou viúva.

Alexandre – Claro que é, minha boa mulher, claro que é. Droga, chegou a hora de ligar na RAI. Será terrívelmente indelicado se eu ligar a tevê na RAI? Mas é sempre indelicado ligar a tevê na RAI.

Vnmc – Diz pra ela a expressão mais linda da língua italiana.

Alexandre (ligando a tevê) – Cinque e quarantacinque. Não é lindo? Cinque e quarantacinque. É melhor do que toda a Divina Comédia. Olha, um programa de auditório.

Mdsni – Acho que tenho que ir indo.

Alexandre – Não, não, eu mudo. Eu ponho na HBO e a gente vê um documentário com gente feia fazendo sexo. Mas eu ia dizendo: cinque e quarantacinque é não só a expressão mais linda da língua italiana, mas também a mais linda de todas as línguas. Ah, da próxima vez que for à Itália, vou todos os dias ficar parado no meio da Piazza di Spagna esperando que alguém me pergunte as horas.

Vnmc – Muito chic. Mas e se forem sete da noite?

Alexandre – Direi que são cinque e quarantacinque. Sempre direi que são cinque e quarantacinque. (olha a tevê) Ei, esses são mais feios do que de costume.

Mdsni – Tenho mesmo que...

Vnmc pega um busto de Papa Doc Duvalier em cima da lareira e, depois de alguma hesitação, esmaga cabeça de Mdsni.

(…)

todos os três atos em em Alexandre Soares Silva

25.5.05

A última vez a gente nunca lembra

O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.

Pseudoliteratura, quase-crônicas, e outras pretensões

A viagem de Théo

A religião é um construto humano, que procura substituir a realidade cognoscível pelos anseios do praticante. E como toda invenção humana, não costuma dar muito certo.

Fruto de nossa ignorância infinita, a religião desconversa e usa as lantejoulas de tradição para impressionar os simplórios. O que deveria impressionar muito pouco, já que os Neanderthais também tinham religião, mas não sobrou nenhum pra contar a história.

E apesar de experimentalmente errônea, a religião segue por aí, rebolando e difundindo seu manto de opressão, sob promessas de libertação ou de uma vida futura de prazeres ou serenidade. Ou seja, é mais ou menos como o direito, a medicina, a matemática ou a câmara dos vereadores da minha cidade.

Mas como todas essas superstições são muito mais mortais que a religião, o melhor é ficarmos com ela mesmo. Até porque, quando morre, pelo menos a gente vai pro céu.

dies iræ/a>

20.5.05

A Vingança dos Sítios

Ufólogo, segundo consta, é um especialista na observação do céu, só que incapaz de enxergar um palmo adiante. São a espécie mais inofensiva de visionários. Eu, que não entendo nada de alienígenas nem do futuro, não pude deixar de notar que o Anakin está vestido de adolescente afegã num cartaz grandão aqui perto.

(…)

dies iræ

DIÁLOGOS DE SEMÁFORO

– Moço, leva aí um pouquinho de minha verba de gabinete.
– Não, não posso.
– Ah, vai, moço. E não fecha o vidro do carro, não. Por favor!
– Escuta, deputado, eu prefiro ensinar a fazer uma peixada do que ser cooptado por peixe graúdo, entendeu?
– Mas, moço, veja bem. Eu podia estar gastando em outra coisa. Eu podia estar contratando parentes. Eu podia estar aliciando votos pra base governista. Mas eu estou aqui, só pedindo pro senhor pegar um pouco de minha verba de gabinete. Olha aí. Dois mil reais. Dois e quinhentos. Três mil, pronto! Vai. Pega aí, pra ajudar.
– Ajudar como, deputado?
– Ah, moço. Pegou muito mal a aprovação do último aumento da verba. Até minha filha, que faz pós-graduação de economia na PUC, diz que os colegas ficam jogando moedinhas no chão quando ela passa. Uma vergonha. Pega um pouco aí, vai. Pra pelo menos eu poder olhar minha família de cabeça erguida! Pega aí, moço, pra ajudar em casa!
– Hum. Não sei.
– Seguinte, moço. Quatro mil reais. Pronto. Mais duas vagas no avião da comitiva presidencial! Três! Três vagas!
– Certo. Pra ajudar, então. Mas olha: não acostuma, viu? Amanhã vou passar nesse semáforo aqui e não quero ver o senhor de novo. Certo?
– Sem problemas, moço. Amanhã é quinta – o senhor não vai me ver aqui, nem no Congresso nem em lugar nenhum de Brasília. Valeu!

*********

– Psiu. A porta do seu carro está aberta.
– Imagina, ó musa. Pra você está aberta a porta do meu carro e a do meu coração. Aliás, pra você eu abro, escancaro, dou meu coração em oferenda no altar do auto-sacrifício passional.
– Er… o sinal vai abrir.
– Sim, princesa. Assim como minha alma se abre pra receber você em júbilo, como uma noiva diáfana com as melenas cobertas por flores de laranjeira e aclamada por um coro de querubins.
– Olhaí, o sinal ficou verde.
– Sim, verde como os campos floridos que serão palco de nossa inenarrável cerimônia de conjugação espiritual, qual Teseu e Hipólita numa noite de verão, minha musa. Ouço, ouço agora as buzinas como escuto, com os ouvidos da alma, os sinos bimbalhando, as campânulas anunciando nosso conluio. Vejo pelo retrovisor o motorista de trás emulando em voz alta o tonitruar da bigorna de Vulcano, onde são forjados os relâmpagos que prenunciam a chuva que renova a terra e faz germinar a semente de nosso amor. Vejo a longa fila de carros atrás de nós como um séquito a acentuar o espírito de congraçamento e confraternização. Isso, amada, parta, corra, vá à frente e já prepare nosso recanto, a senda de nosso aconchego, pra que quando eu chegar você já esteja paramentada com o branco da pureza da entrega. Vejo, ó musa, o policial de trânsito que se aproxima como a autoridade cerimonial que irá lavrar nossa união; ele traz o bloco de multa como quem porta o livro sagrado da consumação do… Veja só, é uma policial – como eu não percebi? A austeridade do cargo embotando a graça e o encanto naturais. Boa tarde, policial. Céus: já falaram que seus olhos têm a cor das tamareiras do Peloponeso, e que seus lábios são dois gomos carmim de volúpia e concupiscência? Já?

*******

– Escuta, esse teu adesivo aí. É verdade?
– Qual adesivo?
– Pregado aí atrás, no seu carro: “Sou Deus, graças aos católicos”.
– Ah, claro. O tal negócio. Eles acabaram me comprometendo sem querer, com aqueles adesivos “Dirigido por mim, guiado por Deus”. Houve dupla interpretação por parte do departamento de trânsito. Queriam que eu tirasse carteira, ou iriam proibir os tais adesivos. Então, quando consegui a habilitação – bombei uma vez, sabe; vivia com o pé na tábua – , resolvi comprar esse Uno Mille. E coloquei o adesivo aí, pra evitar dúvidas.
– Pois é. Esse Detran é fogo.
– Sem dúvida. Ah, abriu. Até mais.
– Até. Ah, e cuidado com aquela pista dupla ali, depois da curva.
– O que tem ela?
– Fazem blitz direto, lá.
– Certo, certo.

Ao Mirante, Nelson!

INVENTÁRIO INUSITADO DE MOMENTOS MAIS ROMÂNTICOS EVER

Deitados na cama, muitos beijinhos, abracinhos, cheirinhos e festinhas depois:

- Tu és perfeita, perfeita, perfeita...
- Tu também. Principalmente teus 4,5º de miopia.

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A moça com as pernas e os braços em volta do corpo do moço, diz:

- Ó, sou um koala.
- Hummm, eu também.
- Não, tu é grande demais pra ser koala.
- É?
- Sim, demais.
- Eu sou o quê?
- Um urso pardo.
- Se tu continuares me chamando de gordo, vais virar urso panda em vez de koala.

Megeras Magérrimas

15.5.05

RPGistas & Afins: Os Novos Intocáveis

Vejam bem: meu problema não é nem com RPG. RPG me parece ser relativamente interessante, aciona o cérebro, estimula a criatividade, etc etc. Mas o problema é que conheço as pessoas que praticam RPG.
E vem daí minha grande dúvida: por que praticamente só os losers dos losers se dedicam a isso?
Vejam o caso do cara que veio falar comigo. Sua lista de interesses inclui: coleção de selos, moedas e cards, joguinhos de estratégia e simulação no computador, RPG, AD&D, mangá e anime. Meu deus, parece o verdadeiro paradigma do loser típico. Será que esse homem desenvolve alguma atividade que não seja patética?
Star Trek, Senhor dos Anéis, ficção científica de modo geral, RPG, mangá, anime, não há nada intrinsecamente errado com nada disso. Eu, por exemplo, adoro Star Trek e Senhor dos Anéis, e não tenho vergonha disso. Tenho vergonha é das outras pessoas que também gostam.
Com raras e honrosas exceções, 31 anos de observação empírica me demonstraram que a maioria das pessoas atraídas por essas atividades são inapeláveis losers e nerds. Perdedores, tímidos, inarticulados, fracos, sem quaisquer habilidades sociais. Aquele tipo de gente que mora com a mãe até os 40 anos, usam óculos fundo de garrafa e uma caneta no bolso da camisa, e trazem sempre a boca meio aberta, quando não o nariz escorrendo. O ponto mais baixo da involução humana.
E volto à minha dúvida inicial: por que atividades a princípio saudáveis e interessantes atraem hordas desse tipo de gente?
Minha teoria antropológica é a seguinte: consciente ou inconscientemente, essas pessoas desistiram. Olharam em volta, viram um mundo povoado de gente bonita, inteligente, articulada e decidiram que simplesmente não tinham como competir. E criaram para si uma nova casta de (literalmente) intocáveis, se congregando em porões para discutir quem foi o melhor capitão da Enterprise, e se perdendo por horas e horas em mundos imaginários onde, ao contrário do nosso, eles podem agir e interagir, quem sabe até ser heróis e bandidos, magos e guerreiros.
Assim bem por alto, bem filosofia de botequim mesmo, eu diria que quanto mais imaginativa a atividade, mais ela vai atrair àquelas pessoas insatisfeitas com a realidade atual. Quem não consegue nada na Terra, sempre pode tentar ser alguém na Terra-Média ou na Federação Unida dos Planetas.

Liberal Libertário Libertino

Soja

Arrependo-me de muitas coisas. Arrepender-se é um ato muito saudável e demonstra auto-crítica, por isso não confie em gente que só diz que se arrepende do que não fez. Essa gente exibe a presunção de nunca ter cometido alguma tolice, o que obviamente é uma mentira, afinal, todo mundo faz besteira. Para comprovar isso, é só olhar seu último almoço. Aposto que você comeu um monte de bobagem, é melhor começar a se arrepender. Eu, por exemplo, já comi carne de soja.
***
Soja não foi feita para ser leite, nem para ser carne, nem para ser comida. Quando eu fui ao interior de Goiás, conheci um menininho franzino chamado Francisco. Ele brincava feliz em meio aos pés de soja, de vez em quando pegando um grãozinho de soja e usando-o como bolinha de gude, ou jogando-o no riacho para vê-lo quicar. Perguntei-lhe se ele sabia que aquele grãozinho com o qual brincava feliz podia virar leite e, pior, carne. Ele me respondeu negativamente e, com os olhos grandes cheios de lágrimas, indagou: "Se isso é leite, o que é que sai das tetas da Marilda?" Eu não soube responder, fiquei meio encabulado. Francisco, então, argutamente, disse a mim: "Ora, mas isso não é nem comida! Quanto mais leite! Não podemos comer essa coisa que só serve para diversão, que só serve para eu brincar com os grãos! E não pode ser leite algo que não sai das tetas da Marilda! Não pode ser carne algo que não é animal! A cada vez que você comer um grão de soja, ferirá a minha alma. Não coma soja, isso não é da natureza. Dica de goiano."

manipulação

Razão

A reportagem recomenda que, se seu filho quiser uma calça de 1600 reais, você deve dar e depois descontá-la da mesada dele em “parcelas consideráveis”.
Eu recomendo que, se seu filho quiser uma calça jeans de 1600 reais, você dê uma bronca-esculhambativa nele, bote o moleque pra trabalhar de balconista ganhando 400 reais por mês e ainda bote de castigo a criatura. Eu também recomendo que, se você comprar uma calça de 1600 reais para ele (ou para você), que você se interne, porque você pirou.
Como diria umas das personagens do Érico Verissimo que eu mais amo, o Liroca, esse mundo velho está de patas para o ar.
...
Quando a cunhada da Ana soube o quanto ela tava pagando por cada sessão de terapia disse: "por metade do preço, eu deixo vc falar duas horas!!! e ainda te dou toda a razão!"

Drops da Fal

12.5.05

O outro bicho

Glorinha às vezes sente culpa por estar com ele, pensando no outro que se foi. Projeta as virtudes, procura semelhanças e, exatamente pelas tantas afinidades, ela o tem consigo.
Diziam que isso lhe faria bem, que era essa mesmo sua função, dar guarida, acompanhar, dar carinho, aplacar a carência. Não que discorde, mas ela não se sente totalmente confortável com isso.
Com prazer, compra a comidinha, as roupinhas, paga o banho, os cuidados especiais. Escolheu a raça que mais juntava os atributos do amor que se foi.
Chega a ser engraçado encontrar semelhanças entre homem e cachorro, mas sua carência é tanta que o usa, descaradamente, para superar a dor da perda.
Ela o vê em casa. Faz um carinho e ele, a seu modo, retribui. Ela sorri, tenta supor que ele também. Mas, em verdade, ele está deitado, olhando ao vazio. Talvez dormindo, ele sempre dorme.
Não importa.
Glorinha, mesmo culpada, sabe que lhe fez muito bem ter trazido para casa esse cara, porque não agüentava mais sofrer pela perda de seu amado cãozinho.

Cachorrada no Bico de Pena

10.5.05

Ontem à noite entrei numa padoca do Bixiga e sentei perto da chapa. Gosto de curtir o trabalho do chapeiro, alguns são mestres, quase malabaristas. Do outro lado, um balconista conversa com uma garota que veio comprar pão. Ela vai embora, ele ri alto e conta pra todo mundo: ela disse que eu sou enrolado que nem caramujo! E repete várias vezes, todo contente: que nem caramujo! Depois vem perguntar baixinho pro chapeiro:

- O que é caramujo?

catarro verde

A literatura e as escalas de grandeza

Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos.

Giga, também uma adaptação do grego gígas, deu origem a "gigante". Assim, um gigagrama equivale a um bilhão de gramas. Logo, um gigaconto são um bilhão de contos.

Mega, do grego megal(o)-, significa "grande", como em "megacéfalo". Pois bem, um megagrama equivale a um milhão de gramas. Assim, um megaconto é uma unidade equivalente a um milhão de contos.

Quilo, vem do grego khílioi. Todos sabem que um quilograma equivale a mil gramas. No entanto, pouca gente se dá conta de que um quiloconto vale mil contos.

Mili, forma derivada do francês millième, não do latim millesimus (há controvérsias desde Sêneca), significando "milésimo". Assim, um miligrama, claro, equivale à milésima parte do grama. O miliconto, portanto, é a milésima parte de um conto.

Micro, do grego mikrós, significando "pequeno", "curto", "pouco" ou "pouco importante". Um micrograma é a milionésima parte do grama. Logo, um microconto é um conto dividido por 1 milhão. Correto?

Nano, outra vez do grego nánnos (é impressionante!), significa "excessiva pequenez", derivando para "anão". Um nanograma é a bilionésima parte de um grama. Então temos que um nanoconto equivale à bilionésima parte do conto.

Pico, do italiano piccolo (ah, enfim o império romano), significando "pequeno". Um picograma é um trilionésimo de um grama. Assim, um picoconto é um conto dividido por 1 trilhão.

Já o conto, a unidade lingüística que nos interessa aqui, vem do latim computus, significando "cálculo", "cômputo", "conta", a que o povo daria posteriormente a acepção de "narrar", vindo de "computare": enumerar os detalhes de um acontecimento, relatar etc. Nada se determinou a respeito do tamanho exato de um conto, se deve equivaler a mil escudos, um milhão de réis, 50 rasos de sal ou 20 meadas de linho. Sabe-se apenas que o conto deve ser uma narrativa breve ou concisa. Seja com milhares de tetragramas ou com um bilionésimo de picograma.

Assim, de posse desta elucidativa tabela, querido autor, escolha o tamanho desejado de sua literatura e mãos à obra. Para finalizar, desejo registrar aqui meus agradecimentos à minha Tabela de Unidades de Pesos e Medidas, sem a qual este esboço da tese acadêmica que ora preparo, intitulada "A Literatura a Metro", teria sido impossível. Título, aliás, inspirado numa afirmação de Júlio César anotada em seu De Bello Gallico. Diz lá o intrépido general romano que, ao ser indagado sobre o que achava das filosofices de seu arquiinimigo, o arenguista profissional Cícero, ele teria dito: " -- Ave, aquilo tudo é literatura pra mais de metro."


Prosa Caótica

6.5.05

e também

o grande mentiroso, pra quem você pedia as horas e ele explicava a origem do conceito de relógio, a evolução do mecanismo ao longo da história, as implicações metafísicas do controle do tempo, tudo com fartas citações e devaneios. quem sabe quando já não precisasse mais, quando já houvesse atrasado, quando já não mais importasse - e depois de muita enrolaçã - você ficasse sabendo as horas, meia hora (no mínimo) depois de quando você precisava saber. usura não era pecado porque não se podia vender o tempo, porque o tempo a deus pertencia? então. ele não concorda com isso.

modo furtivo

5.5.05

Típica piada infame do Iaio, meu irmão: ele e Thaty iam começar a assistir "Sobre meninos e lobos" quando ela pergunta "o filme é sobre o quê"?

Ele responde: "meninos e lobos".



Par Elis

Licor de Marula com Flocos de Milho A?ucarados

- É pra morar ou trabalhar?
- Trabalhar...
- Que tipo de empresa? Faz muito barulho?
- Não, não... É só para o escritório. E quanto o senhor quer no aluguel?
- Quero mil, mas posso fazer por novecentos se não mexer na estrutura do imóvel... E também porque eu preciso alugar rápido. Não posso ficar com a casa fechada muito tempo... Essas casas me dão tantas dores de cabeça que só de não ter mais que pagar impostos já é um alívio... Tem uma moça que pediu pra eu reservar a casa pra ela, mas eu não vou. Imagina você que ela quer colocar carpete nessa sala e pintar... De jeito nenhum! Eu cuido bem das minhas casas, só contrato profissionais qualificados para as reformas, sou engenheiro formado, construí cada um dos meus cinco imóveis. Imagina, se vou deixar alguém reformar o que eu construí? De jeito nenhum!
- Mas eu precisaria mexer só um pouquinho nesse...
- Alugo pra você porque sei que do jeito que está, está bom. E porque eu estou cansado dessa vida, sabe? Passo os dias esperando que isso acabe logo...
- Anh? Mas... o senhor...
- Casei, tive quatro filhos doutores, trabalhei duro a vida toda e, hoje em dia, nem meus netos eu vejo direito... Minha neta mais velha fez quinze anos a semana passada e não ligou nem pra saber como eu estava...
- Mas por que não ligou o se...?
- Minha mulher foi embora no ano passado. Disse que eu sou muito chato. Onde já se viu? Quarenta anos depois ela diz que eu sou muito chato! Por que ela não viu isso antes de casar!? Será possível que alguém precisa de quarenta anos pra descobrir que alguém é chato?
- Entend...
- E agora vem essa menina querendo reformar o que eu construí... De jeito nenhum! Nas minhas casas ninguém mexe. Essa gente tem coragem pra gastar duzentos reais em uma garrafa de vinho no fim de semana, mas não tem coragem de pagar um profissional decente para arrumar a casa que usufrui... Você acha que eu não gostaria de ter tomado bons vinhos na vida também? É claro que eu gostaria! E olha que eu fiz tudo na hora que eu achei que tinha que fazer... Fui um jovem estudioso, me formei na melhor universidade, fiz a vida antes dos trinta, quando chegou a hora de casar procurei uma mulher boa pra casar e casei. Tive quatro filhos doutores, construí minhas casas para ter sossego e aposentadoria e, mesmo assim, perdi o tempo de tudo... Errei o tempo das coisas! Foi isso que eu fiz.
- Imagina... o senhor ainda tem tempo... Pode aproveitar a aposentadoria para viajar, passear, tomar os vinhos bons, se...
- Tudo na vida tem um tempo certo e as pessoas pontuais, como eu, são as que mais perdem a hora. Perdi o tempo das coisas... Quando eu podia viajar eu trabalhei, quando podia ter brincado com meus filhos mandei eles estudarem, quando minha mulher me pedia atenção eu achava que era reclamação... Não deu tempo para o vinho, para o riso... Vida sexual boa eu nunca tive. Quando podia ter sexo não fiz, quando achei que teria, casei e o casamento parece até que só existe pra estragar o sexo e afastar o casal. Nem ir ao banheiro em paz eu posso mais... Essa droga de problema pra urinar, as costas que não me deixam dormir, trezentos reais de remédios por mês, novecentos e cinqüenta de assistência médica, duzentos de seguro, cento de vinte de IPTU de cada uma das casas... Ainda bem que tenho minhas casas de aluguel... E eu passo a noite inteira rezando pra morrer, rezando para que deus realmente exista e me leve embora daqui...

E eu só queria alugar o raio da casa do homem... Voltei pra casa chorando, desliguei o celular e abri uma garrafa de vinho.


Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

3.5.05

O problema é que este blog entrou no ritmo do resto da minha vida. Quer dizer: só funciona sob pressão! Sem falar que tudo é motivo pra me dispersar.

Agora mesmo eu tava vindo escrever aqui alguma coisa que lembrei, aí resolvi beber água antes, quando abri a geladeira vi a torta de coco que sobrou do aniversário do meu irmão, peguei um garfo pra comer só um pedacinho, mas é impossível, abri o armário pra pegar um pratinho, então vi o caminho de formigas na parede, fui seguindo a linha pra ver de onde elas vinham, molhei um pano e fui passando no caminho - adoro fazer isso! - quando passei pelo lixo, amarrei o saco e fui lá fora jogar, na volta vi o pote do bolo em cima da pia, deixei o prato pra lá e resolvi comer no pote mesmo, trouxe tudo pra sala, sentei aqui e... o que era mesmo que eu ia escrever?

E esqueci de beber água.

bocozices

2.5.05

o diário de um careca-semi-gordo

Ontem fui pedalar e hoje minha bunda dói por conta daquele selim fêla-da-puta.
Estes dias estava olhando um 3X4 de quando eu era criança, bem criança mesmo, talvez três ou quatro ou cinco anos. Nunca sei direito quantos anos tem uma criança, às vezes olho e penso que tem uns dois anos e os pais dizem que tem seis meses! Sem noção de bebês...
Bom, mas aí olhava a minha foto e estava ali pensando se eu queria ser eu hoje, sabe? Eu perguntei, perguntei, mas o eu ali do 3X4 não respondeu, continuou com aquela cara me olhando. Às vezes acho que não, às vezes acho que sou até mais, que sou genial, que sou tudo o que uma criança queria ser. Hahahaha... Sei lá. Quando tinha uns nove, dez anos tenho certeza que não ia querer ser um cara com mais de vinte e cinco anos e que sente dor na bunda quando anda de bicicleta.
A vida dá tantas voltas, né?

o som nosso de cada dia

Some girls...

...te desafiam para um braço de ferro, te olham nos olhos, sorriem, mal conseguem cerrar o punho em torno do teu punho, fazem uma sucessão de caretas dignas de Conan, o Bárbaro, e, quando você ri, relaxa e permite que vençam, te socam com mãozinhas brancas e dizem que você não deveria ter deixado;

...te encaram do banco à frente no ônibus com uma nuca indignada e eloqüente que afirma “eu sei exatamente o que você está pensando, rapá”, mesmo que você (ainda) não saiba, porque está seriamente concentrado no que Lothar von Falkenhausen tem a dizer sobre o fim da era do bronze na China;

...te ligam e –em tom professoral- explicam veementemente um problema, enquanto você tenta em vão interromper o discurso e explicar que, yo, minha senhora, creio que a senhora sem querer acabou ligando pro ramal errado;

...te questionam com ar dubitativo e cético quanto à organização das suas estantes, e tamborilam as unhas curtas, de esmalte impecável, contra o MDF das prateleiras, procurando traços de poeira e claramente pensando “humpf, homens”;

...te recebem em trajes menores no horário combinado e sorriem com um olho maquiado e o outro não, avisando que tem uísque embaixo da pia e um jogo de basquete na TNT (e você nem pergunta se vão demorar pra se arrumar porque já sabe a resposta);

...te escrevem um e-mail quilométrico em resposta às três linhas que você enviou propondo um almoço e, depois de discorrer sobre o monofisismo, a cláusula filioque, a persistência dos Caimitas (think Bible, not Dorival), esquecem de responder ao convite;

...te elogiam pela elegância da gravata mas mudam imediatamente de opinião quando perguntam onde você comprou e você explica que ganhou de alguém;

...break your heart as you knew they would, yet you can’t help but admire their style.

Filthy McNasty

Almanaque das profissões (I): médico

Existem dois tipos de médicos: os que cobram antes, e os que nunca param de cobrar. E há também os da rede pública, que não cobram, mas são impedidos pelo juramento de Hipócrates de aparecerem pra trabalhar.

Medicina, étimo originário do judas medicina, que significa "não fui eu" ou "a fina arte de te torturar", mas isso depende da hora do dia. Uma profissão universal, e justamente porque todo mundo saiba um pouco, à beira da falência, em decadência franca e total.

Não só a medicina perde anualmente milhares de profissionais para ocupações genéricas e afins -- ortopedia, empurroterapia, cirurgia psíquica --, como a alopatia, o seu catolicismo, vê anualmente milhões de clientes se dirigirem para ramos igualmente inúteis, porém menos mortais, da cura -- homeopatia, apicultura, florais de Bach.

A medicina é, portanto, não só uma profissão que veste mal, mas também paga mal, pode te forçar a servir na Amazônia, dá cadeia em casa de erro, e dor de cabeça pra passar no vestibular. Mas pelo menos você só começa a trabalhar depois dos trinta...

Ficha do Personagem
Requerimentos: Destreza=12, Carisma <6, um estetoscópio, três jalecos
HD: d8 + plano unimed; Thaco: eu tô em cima, eu tô embaixo
Saving Throws: priest (+1 vs. poison, -3 vs. death spell)

dies iræ

IDÉIAS E MARTINI

Idéia não pode ser paparicada, estragada, só porque foi tida. Idéia tem que ser jogada ao relento, com dez reais no bolso, para se virar sozinha. Morte aos parideiros que se jactam, com a volúpia – uh – fazendo o olho boiar: “Tive uma idéia!”. A estes devemos devolver um olhar de nonchalance e resmungar: “Pois eu não tenho idéias, não deixo a ninguém o legado do meu miserê ” – só para ver como fica a cara do parideiro de idéias. Idéia tem que ser negligenciada por um longo período, para não crescer achando que é gente. Devemos ter notícia da idéia só de tempos em tempos, para ver se, sei lá, precisamos enviar uma ordem de pagamento. A um amigo que se lembra e diz, imaginando agradar, “Ei, vi sua idéia anteontem!”, devemos murmurar um “Sei” mais seco que o martini do Rick’s Cafe Americain. É bom ficarmos sabendo que nossa idéia, no mês passado, foi confrontada num beco por uma gangue de imigrantes portorriquenhos ou de skinheads. É bom sabermos que ela apanhou – idéia precisa apanhar – e urge que camuflemos o discreto orgulho pelo fato dela também ter dado uma porradinha aqui e um chute ali. Morte a quem anda com foto da idéia na carteira. Longa vida ao ladrão de idéias, que na primeira esquina as assalta sem clemência: “É para edificar o caráter delas”, dirá ele à polícia, e a polícia precisará acreditar. Se soubermos que a idéia não resistiu à penúria e saiu assaltando também, reajamos com a indiferença de quem acabou de ficar a par de um detalhe estatístico. Se recebermos um telefonema às dez da noite informando que nossa idéia gerou outra idéia, devemos bater o fone e não sem antes dizer “Não é problema meu”. E torcer para que a idéia seja minimamente sensata e siga nosso exemplo. Mas não torcer muito, pois não se torce por idéias. Um dia, então, baterão à sua porta e você a princípio não vai reconhecê-la. Vai ver no semblante dela o background de quem apanhou, foi distorcido, mal aproveitado, explorado, mal inserido no contexto – mas o melhor: não cedeu à facilidade de posar de vítima. Aí, naquela fisionomia calejada e um tanto austera você de repente vai vislumbrar o seu semblante. Então cuidado: chame-a para entrar, pergunte o que ela toma e muita, muita atenção – não vá pôr tudo a perder agora, seu velho sentimental – para, no preparo das bebidas, virar o rosto na hora certa e evitar mostrar o lampejinho no olhar, o lampejinho aceso pela lembrança de quando você a acalentou assim que ela foi tida. Fique esperto: só depois disso é que você vai virar de novo o rosto e, sim, perguntar se ela prefere o martini dela com azeitona.

Ao Mirante, Nelson!