2.11.05

Os filmes que eu não vi — Coleção Chico Buarque (3 DVDs)

Depois de anos compondo músicas que ninguém agüenta ouvir, Chico Buarque lançou recentemente um documentário que fala sobre sua vida entediante. O documentário está dividido em três DVDs: “Meu Caro Amigo”, “À Flor da Pele” e “Vai Passar”. Não pude assisti-los porque meu videocassete só aceita fitas Betamax. E mesmo que aceitasse DVDs, eu jamais teria paciência para assistir qualquer história que precise de três volumes pra ser contada. Dei o documentário de presente para Dona Dolores, minha cozinheira. Ela não perde o Linha Direta e, por isso, entende tudo de vídeos que falam da vida dos outros. Acho que ela não gostou.

Analfabeta, Dona Dolores reclamou que não entende o que Chico Buarque diz. Nem eu. Pudera. Não consigo classificar sua obra como música “popular” brasileira. Popular, pra mim, é quem eu consigo compreender. Chico Buarque usa palavras difíceis e construções complicadas. Chamar atenção para a forma é artifício típico de quem não tem nenhum conteúdo. Ouvir música com uma gramática nas mãos é o fim da picada. Chico Buarque brinca com as palavras como criança brincando com a comida. Ou seja, estraga tudo o que escreve.

Dona Dolores é bastante religiosa. Ficou chocada ao ouvir Chico Buarque cantar como se fosse uma moça. Dona Dolores é idosa e garante que “já viu muita coisa nessa vida”, mas nunca esperou ouvir um “moço tão bonito de olhos verdes” cantar coisas como “ah, esse cara tem me consumido” ou “eu sou menina e ele é o meu rapaz”. Dona Dolores acha que aí tem dedo do coisa-ruim. Alguns dizem que Chico entende a alma da mulher. Em Mossoró, chamam isso de outra coisa.

Em tempos tão sombrios para a música brasileira, quando uma Maria Rita da vida lança seu disco impunemente e jovens desempregados semeiam o pânico tocando músicas do Djavan em bares, Chico Buarque se torna uma terrível ameaça. Em suas centenas de milhares de canções existe um verdadeiro arsenal de más influências para nossa juventude. Ouvir Chico Buarque me deixa à flor da pele. Meu consolo é saber que um dia essa modinha vai passar.

Nota: zero.

Ressaca Moral

1.11.05

Estação Paraíso.

Hoje, no metrô, um cara muito alinhado, pelos seus quarenta, que lia “As Minas do Rei Salomão”, serviu de modelo para uma menina de saia e camiseta pretas e meião três-quartos , que traçou os botões todos do paletó, num bloquinho, a caneta preta.

O cara percebeu o desenho, e fez uma certa pose com os ombros – o que os fez parecer desproporcionalmente largos no desenho, já que ele não era muito alto. A menina não tentou disfarçar, embora a sua franja escondesse os olhos (ligeiramente estrábicos, quando apareciam). Guardou o bloquinho e desceu no Paraíso, antes dele.

Mas ele conseguiu perceber, na parte de dentro do braço direito dela, a tatuagem de uma escada – como se ela esperasse alguém que subisse ali, para fazer-lhe cosquinhas. Chegou feliz, em casa.

Diacrônico

A vida é feita de jumentos

A vida é feita de jumentos

O máximo que se deduzirá de uma reunião de condomínio.

Enquanto arruinavam meu sabá discutindo o desenho da cruz no piso da portaria, concluí que Jesus é nosso guia, porém às vezes ele parece mais um motorista de ônibus. Diz não ter troco pra cem, mas deixa os pobres pularem a roleta, entrarem pela porta de trás.

Este é o Céu que desejamos? Mas não vale a pena reclamar. Não vale, e Arnaldo César Coélet acrescentaria que a regra é clara: não fale com o motorista além do indispensável.

Mas enquanto cochilava na reunião, percebi que a Verdade está mais além: Jesus não é o guia das gentes, é o almocreve. Pois nem em pesadelos tortuosos essa gentalha consegue chegar ao Reino dos Céus. Ou melhor: chegar, consegue, mas entrar é que são elas.

Minha hipótese é que Jesus foi abandonado pelo Pai, e agora precisa de condução pra voltar ao Céu. Fosse ele o pequeno príncipe, laçaria um cometa. Não sendo gayzo, precisou arregimentar um pessoal pra puxar sua carroça celestial.

É uma hipótese. A outra é a castidade ter sido supervalorizada por conta das dificuldades do sexo no espaço. Mas só Deus sabe. De qualquer modo, o Dies Irae bate à sua porta; e entre derrotistas e derrotados, suicidaram-se todos.

dies iræ

O tao de Ivan

citando de memória uma lição de lao tsé:

"Aquele que não sabe, e sabe que não sabe,
é HUMILDE: guie-o;

aquele que não sabe, e pensa que sabe,
é um TOLO: fuja dele;

aquele que sabe, e não sabe que sabe,
está DORMINDO: acorde-o;

aquele que sabe, e sabe que sabe,
é o MESTRE: siga-o."

Fundamentado nesses princípios, enuncio agora o incompossível

TAO DE IVAN

Eu sou quem não sabe que sei mas não sei:
logo: sou CONFUSO: me oriente!

Eu digo sim ao não que não é o não do sim:
assim: sou CONFUSO MESMO: me embebede!

Eu amo quem me ama e quem não me ama:
sou realmente um AMOR: me encontre...

Eu tenho medo do meu medo e ódio do meu ódio:
portanto, finalmente: estou PERDIDO:

cadê você?

Relaxando furiosamente

Lo Dia Internacional de Hablarse Portuñol

(…)

Orkut es indubitavelmiente uña cajita de surpresas, vide este tuépico que encontrei por lá: "Traduça el título de la película". Simplesmiente do carajo:

- "O Homem que Copiava" = "El Hombre que Tiraba Fuetocôpias"
- "Rocky" = "Pedrito"
- "Velocidade Máxima I" = "Mas Rápido No Puesso Ir"
- "Velocidade Máxima II" = "Mas Rápido No Puesso Ir de Nuevo, Carajo!"
- "Meet the Fockers" = "Conozca Los Fuedas"
- "American Pie" = "La Tuerta de Los EEUU"
- "Amnésia" = "El Hombre que No Se Recuerda"
- "Duro de Matar" = "Cabrón Hijo de Puta que Nunca Muerre"
- "Carruagens de Fogo" = "Carrueças Inflamabiles"
- "Karatê Kid" = "Mestre Myagi y El Maricón Karateca"
- "O Homem Nu" = "Lo Pieladón"

(…)

mais em Pensar Enlouquece, Pense Nisso.

Pensamento

Muito fácil de ser perdida e de difícil recuperação, a fé é decididamente o hímen do espírito.

Jesus, me chicoteia!

31.10.05

halloween e as saias

porque essa noite eu dormi apenas cinco horas, e quando fui arrumar minhas coisas pra festa de halloween de manhã, separei a meia calça roxa, a saia, o chapéu e coloquei tudo dentro da bag gigante. chegando lá, fui me trocar no banheiro, tirando a calça, o tênis, com a meia calça roxa por baixo e de repente... cadê a saia?? esqueci em casa. puts. só ia poder ficar de chapéu, não ia ter graça... fui atrás de todos os papéis que tinham e consegui fazer a minha saia roxa. ficou buniiiiita... grampeei até achar que prendia - ou seja, duas vezes. não, não prendeu o suficiente... claro que no meio do dia a minha saia estava pela metade da minha bunda e eu tive que ficar segurando e indo atrás de grampeadores pra deixá-la um pouco mais aceitavel - o que não foi o caso. ainda bem que meus alunos tem apenas 5 anos e não ligam se a teacher está ridícula com meia calça roxa, papel enrolado em volta da cintura preso por umas tirinhas pretas com laços gigantes e o quadril maior que o mundo.

OMdD

30.10.05

- Olha, nosso filho tá comendo cocô!
- Que merda!
- Que merda nada! Isso quer dizer que ele tá com curiosidade. Quer investigar, descobrir o mundo!
- Sei.
- (exultante) Nosso filho vai ser um intelectual!
- (preocupado) Pera lá. Você acha que ele vai continuar comendo merda pelo resto da vida?

FDR

26.10.05

Mirandinha

A seguir, as várias modalidades de comentarista de que ele pode se travestir para visitar os blogs que encomendarem o serviço. A entrega é feita na caixa de comments do cliente no mesmo dia. Taxa de transporte inclusa.

- Mirandinha Bate Palminha: para o blogueiro dependente de elogios rasgados e que reafirmem o quanto o blog é fundamental, essencial e primordial para seus 4 leitores. O modelo não só é o primeirão a comentar como ainda por cima abre com “Puxa, que alívio, tava preocupado achando que você não fosse mais postar!” Isso porque entre um post e outro o blogueiro só foi ali no banheiro. Já vem carregado com 36 comentários.

- Mirandinha Roda-Viva: para quem adora um debate. Basta o blogueiro postar sobre o direito de pesca na costa sul da Birmânia que o modelo já rebate com dezenas de estudos estatísitico-sismológicos-ambientais refutando o post. Aí é só ir replicando, replicando e ver o que acontece: num piscar de olhos, 127 comentários! Já vem com bateria para fazer a discussão chegar à despoluição dos lagos termais na Islândia. Depois do Protocolo de Kyoto, óbvio.

- Mirandinha Vai Você: chega chutando a canela do blogueiro. Uma versão hardcore do Mirandinha Roda-Viva, desprovido de estatísticas mas munido de um vocabulário de provocações onde “mas este teu post de hoje tá um cu” é só esquentamento. O modelo cria caso com o blogueiro, com a família do blogueiro, com aqueles parentes do blogueiro lá de Carapicuíba e, claro, com os 4 visitantes do blogueiro. Aliás, a versão 3.0 faz com que os visitantes, lá pelo 73º comentário, se virem contra o blogueiro e façam ameaças de morte – sem que ele até então tenha feito um comentário sequer.

- Mirandinha 69: nosso prato de resistência. Apesar da idéia obscena que o nome suscita, trata-se de um comentarista multifacetado: 69 diferentes personalidades, prontas a abarrotar a caixa de comentários do blogueiro – e cada comentário de um heterônimo de personalidade própria, com discurso individual. Uma espécie de Fernando Pessoa hiperüberesquizofrênico, que fará o blog parecer o maior ponto de encontro do cyberespaço. Tudo bem que nenhum dos 4 leitores do blogueiro terá ouvido falar de “Endauro Ledorréia”, “Maristélio Louzinho” ou “Maurícia Pia Fendão”. Foi o que deu para arranjar.

E, além dos modelos deste catálogo, fazemos também projetos sob medida, sem compromisso. Os modelos de Mirandinha são compatíveis com os sistemas Haloscan, Comentar, Rate Your Music, Enetation, Blogger, F&D, Yaccs e diversos outros. Por favor, ligue já.

Ao Mirante, Nelson!

25.10.05

tempos

Suas amigas criam filhos, seus amigos casam, você já pensa em trocar o “jovem e demoníaco” por incendiário totoso. Ê, chalasa.

Falar nisso, no outro dia reparei no rosto do Amaury Jr. Tá véio. Nem parece o mesmo de 20 anos atrás.

saudade do presidente Figueiredo

20.10.05

Nós dois no carro:

- Lembra que a gente sempre desce o pau nesses congressos de medicina, que fazem logomarcas com partes do corpo bem realistas, sistemas digestivos, circulatórios, encéfalos, tudo sem estilização, cheio de detalhe, um nojo só? E que a gente vivia falando que queria ver as peças publicitárias pra um congresso de proctologia?
- Claro.
- Pois é, semana passada tinha um outdoor bem aqui, anunciando um Congresso Goiano de Proctologia, hahaha...
- Tás brincando. E a marca era o que, um asterisco?
- Nah, nem tinha marca. Só o nome, data, local e umas fotos : uma praça de um lado e um ipê amarelo e florido do outro.
- Uai, mas o que é que ipê tem a ver com as calças??
- Pois é, né? Se pelo menos fosse um ipê roxo...

* * *

- Hum, que delícia isso, como é que se chama?
- Torta Marta Rocha.
- Uai, por que esse nome?
- Sei não. Acho que é porque assim que você acaba de comer um pedaço, ganha duas polegadas a mais nos quadris.

Cyn City

19.10.05

Da série SÓ DE CONGA NA MINHA CARA.

A pessoa tinha marcado bilhete de volta ao Brasil para uma segunda e resolve voltar na sexta. Tem lugar? Claro que não. Opção? Usar milhas, fazer upigreidi e voltar de executiva. Hum. Nada mal. Vamos ver como é que os ricos viajam. Óquei. Ticcinha imbuída do espírito sefazente de rica. Nada de levar sacolinha prástica na bagagem de mão que nóis semo pheEEEEEEna. Todas as bugigangas dentro do malón e toca pular ni riba do container pra fechar. Com Ticcinha, só sua mochila féchion, coisa meiga, com seu MP3 pleier, seu moleskine, seu acessórios, maquiagem, balinha, lencinho, canetinha, artiguinhos de higiene. Uma fineza só.

Dá seis da matina e Ticcinha tem que se despencar para o aeroporto. Despencar, literalmente. São 4 lances de escada pra descer, cujos degraus são estreitos, com um malón do tamanho de um bonde. Ticcinha pensa, pensa, pensa. De degrau em degrau não dá, malón não cabe. Descer nas costas tipo estivador, no way. Descer na cabeça estilo lata d’água, impossibile (não tem força pra subir e acaba com o penteado). Ticcia deita o malón e escora aquele amontoado de rocha e cimento (é o que parece ter dentro) por quatro longos e infindáveis lances de escadas. Chega ao térreo levemente suada, com o desodorante prestes a vencer. Não há de ser nada. A sefazente rica não esmorece. Enxuga o rostim com o lencim, taca um pozim compacto e vamquevam.

Já no aeroporto, Ticcinha olha com satisfação o pobrerio na fila dos comuns e ordinários, quilométrica, enquanto se dirige, lépida, faceira e posuda para a fila do EXECUTIVE CLASS. Pheeeeeeeeena. U-huuu. Lá chegando, é atendida por uma recalcada pobre, feia, asquerosa e mal-humorada que deve ter trabalhado a madrugada inteira. Possibilidade de tratar Ticcinha linda, rica e sorridente bem: ZERO.

Ticcinha entrega o bilhete, o passaporte e deposita o contêiner na esteira. Recalcada atendente informa que malón tem excesso de peso. Ticcinha não perde a sua pose de sefazente rica. Pergunta quanto custa o excesso (no melhor estilo vou pagar pra não me incomodar, nem to aí pra essas mixarias). Ela informa que são 120 dólares. Ãnh? 120? Ticcinha resolve dar um jeito, que a gente é só sefazente rica, mizifia e não tamos aí pra gastar o dinheirinho do frixóps. Pheeeneza sim, idiotice não.

Ticcinha recolhe o malón e sai à cata de uma loja que venda uma sacola de viagem para onde Ticcinha possa verter 10 quilos. A ÚNICA loja do aeroporto que vende mala ou sacola é uma chiquérrima que só comercializa Sansonite. A mais simplisim, baratim e pequetitim, custa 206 euros. Ticcinha conclui que vai tomar no c*. Desespero, ranger de dentes, Ticcinha finalmente confrontada com a sua total pobreza e despreparo.

Eis que, uma luz a alumia e ela lembra que na mochila tem o presente da Clarinha, numa sacola prástica reforçada. Abrindo mão de todo glamour, toda a crasse, toda a pose, numa atitude de despreendimento digna de São Francisco de Assis, Ticcinha abre o malón em pleno saguão e toca ver o que de mais pesado tem ali. Tudo isso, senhoras e senhores, acompanhado de perto por metade dos passageiros da fila dos comuns e ordinários, que, claro, devem ter ganho o dia vendo a sedizente rica chafurdando em calcinhas, meias de nylon, sutiãs e etc. (Ticcinha louca de medo que um etc saltasse da mala) pra não pagar excesso.

Terminado o show, despacha-se a mala e segue a sefazente rica com mochila e sacola prástica cheia de entulho rumo ao frixóps. Sorte que lá havia um sacolão tipo muambeiro pra vender. Até essas Ticcinha já tinha desistido de se fazer de pheeeena, tava com os dedos em carne viva da sacola prástica pesando 10 quilos, comprou o sacolão de feira e foi assim mesmo.

Moral da história: a gente tira a pessoa da crasse econômica, mas não tira a crasse econômica da pessoa.

Megeras Magérrimas

14.10.05

minha vida tem uns lances bizarros.

no segundo grau, tinha um professor de história que era o terror. o tito fazia prova oral na sala de aula e espinafrava muito se você errava. era grosso. te chamar de burro era default. uma vez tirei o bottom do the cure da jaqueta antes de entrar, não queria ter meu gosto musical destroçado por tito, o huno. sim, eram os anos 80.

tito me traumatizou especialmente quanto aos enciclopedistas franceses. quando não estava falando de diderot, berrava contra tudo isso que está aí, e berrava contra nós, fãs do raul seixas. eu fora, eu não ouvia raul, eu ouvia the cure.

no quesito trauma, tito só empata com neusa jaeckel, professora de matemática da quarta série, que me disse, uma vez, na frente dos coleguinhas: TU SÓ TEM CARA DE INTELIGENTE.

os anos 80 terminaram, eu e minha cara de inteligente entramos na faculdade de jornalismo, em porto alegre. dividi apartamento com a filha do tito. ela não puxou ao pai, é um amor de pessoa.

acabaria encontrando o tito, eu sabia, mas foi inusitado.

passei uma semana viajando e nesse intervalo tito e esposa foram visitar a filha. como eu não estava, e não ficaria sabendo, eles invadiram meu quarto. era melhor do que dormir no sofá da sala.

acontece que voltei mais cedo de viagem. abri a porta do quarto e lá estava ele, o tito, de pijama, deitado na minha cama, lendo.

foi a única vez que ele sorriu pra mim.

you're so vain/ you probably think this song is about you

12.10.05

Evoé, Buda Cósmico

É inconcebível que, numa época de deuses pessoais, ou para salas de até 150 lugares, o populacho seja tão pouco criativo. E a tal ponto, que se contentam em exaltar variantes cretinas do Deus cristão, com barba fofucha e um número menor de mandamentos -- sob alcunhas meigas como "dicas para bem viver".

Quando eu for mais velho e mais corno, talvez participe de pequenas seitas; e adote a pior versão do satanismo, que é sair por aí envergando uma camiseta do américa. Mas até lá, minha religião pessoal é o petróleo. Morrer pelo ouro negro, não, seria deveras vulgar. Coisas assim como só comprar produtos quando embalados por seus derivados.

E sempre que me vejo frustrado por hereges da sociedade de consumo das sacolas de papel, parto pro sincretismo, bradando numa evocação radamânica aos Novos Júpiteres: "Raios, duplos raios, raios triplos!"

Já dentre as novas religiões, nenhuma é mais antiga ou radical que a de Cambridge. Fundada no século XIII, foi do idealismo ao materialismo pleno, porém algumas de suas instituições permanecem intactas: se você não vai ganhar o prêmio Nobel ou inventar a lei da gravitação universal, então trate de remar. E remam como se disso dependesse a sua salvação! Pois não só o inferno é aqui, como está logo ao lado, em Oxford.

dies iræ

When the Saints Go Marching In

Fats Domino volta pra casa depois de passar três dias num bordel. Olha pra New Orleans. Está tudo debaixo d'água. Tudo destruído. Vira-se para a mulher:
– What the fuck? What the fuck did you do, bitch?

FDR

11.10.05

Uma história de Regulação, Família e Propriedade

Apolinário chamou os filhos:

_ Afixei, no quadro de cortiça do corredor, as novas normas para o reajuste de suas mesadas. A consulta pública se inicia hoje e receberei contribuições, por escrito, até as 18 hs da sexta feira. Contribuições pela internet poderão ser feitas até as 24 hs do mesmo dia.

A filha mais velha exultou:

_ Muito bem ! Chega de insegurança jurídica e falta de horizonte de planejamento.

O pai continuou:

_ Pela proposta, sua mesada será corrigida pelo IPCA ao final do prazo de duração de nosso Contrato de Manutenção Familiar, que é de um ano. O valor da mesada também será deduzido de um fator de produtividade escolar X, cujo valor irá depender da média de suas notas no ano. Se a média for inferior à do ano anterior em 5%, sua mesada será subtraída em 5%. Se a média for superior, quantia correspondente será creditada à mesada. Entenderam ?

O filho mais novo pediu a palavra:

_ Papai, o custo de vida está muito alto, e como somos uma família de classe média, nossas despesas variam com o IGP-DI, não com o IPCA.

_ Vocês verão que na consulta pública detalho os procedimentos para o pedido de revisão tarifária da sua mesada.

Os filhos se uniram:

_ Então vamos pedir a revisão agora !

_ Nada disso _ sorriu Apolinário _ as revisões serão feitas caso a caso, e sempre por razão delimitada e justificada. Se insistirem nesse movimento, denunciarei vocês à sua Mãe por formação de cartel.

SMART SHADE OF BLUE

10.10.05

vingança

Toca o celular...
- Alô.
- Alô, Senhor Guilherme?
- Sim.
- Sr. Guilherme, aqui é da TIM, estamos ligando para oferecer a promoção TIM 1.382 minutos, onde o Sr. tem direito...
- Desculpe - interrompo - mas quem está falando?
- Aqui Rosicleide Judite, da TIM, e estamos ligando...
- Rosicleide, me desculpe, mas para minha segurança, gostaria de conferir alguns dados antes de continuar a conversa, pode ser?
- ... Bem, pode.
- Você trabalha em que área, na TIM?
- Telemarketing Pró-Ativo.
- Você tem número de matrícula na TIM?
- Senhor, desculpe, mas não creio que essa informação seja necessária.
- Então terei que desligar, pois não estou seguro de estar realmente falando com uma funcionária da TIM.
- Mas posso garantir...
- Além do mais, sempre sou obrigado a fornecer meus dados a uma legião de atendentes sempre que tento falar com a TIM.
- Tudo bem senhor, minha matrícula é 6696969.
- Só um momento enquanto verifico.

(Dois minutos depois)

- Só mais um momento.

(Cinco minutos mais)

- Senhor?
- Só mais um momento, por favor, nossos sistemas estão lentos hoje.
- Mas senhor...
- Pronto, Rosicleide, obrigado por ter aguardado. Qual o assunto mesmo?
- Aqui é da TIM, estamos ligando para oferecer a promoção da TIM 1382 minutos, onde o Sr. tem direito de falar 1.300 minutos e ganha 82 minutos de graça, além de poder enviar 372 TIM Torpedos totalmente grátis. O senhor estaria interessado, Sr. Guilherme?
- Rosicleide, vou ter que transferir você para a minha esposa, porque é ela quem decide sobre alteração de planos de telefones celulares.Por favor, não desligue, pois essa ligação é muito importante para mim.

Coloco o celular em frente ao aparelho de som, deixo a música Festa no Apê do Latino tocando no Repeat e vou para o bar tomar uma cervejinha.

Quintessência

6.10.05

Diálogos Insanos (sim, eles estão de volta!)

Conversa por telefone com um amigoam.

Eu: Você não sabe, tô saindo de férias!
Ele: Hum.
Eu: Vou pro Texas, cara, vou chegar junto com o furacão! Olha que emocionante!
Ele: Prenda bem o seu cabelo.

Epinion

Esotéricos

Uma amiga toma “florais de Bach”, a outra bate o pé para dizer das maravilhas e seriedade da astrologia, uma terceira diz não perder as sessões semanais de culto Evangélico e desliga o telefone dizendo “amém Jesus”. Uma quarta se recusa a tomar aspirinas, pois “não gosta de remédios”. Vários amigos (e agora já são muitos), tornaram-se adoradores de gurus indianos com cabelos de Globtrotter. Uma outro, por derradeiro, se encanta com os unicórnios de Harry Potter e não esconde sua admiração pelos “mistérios da vida” relatados por Paulo Coelho.

O que está acontecendo? Onde está o velho e bom ateísmo, o agnosticismo debochado, o desconfiar das respostas certas, a crença na ciência? Onde se encaixaram a ironia, o comentário descompromissado, as reticências desplicentes com esses mistérios do Universo? Como, num século de tanto avanço científico, nos tornamos, em todas as camadas sociais, absolutamente estúpidos alavancadores de charlatões de toda a espécie? Quando ouço falar em florais de Bach, me vêem a cabeça aqueles filmes de faroeste norte-americano com um sujeito alardeando pela cidade em sua charrete o novo xarope milagroso. Sentados, ríamos da comicidade de nossos antepassados, mas pagamos R$ 400,00 por um bem elaborado e colorido “mapa astral” (!!)

O pior de tudo é essa mescla semi-alfabetizada de explicações “científicas” para todas as pseudo-ciências. Depois, reclamam ainda que nossa empregada é que é iletrada...

A salvação é a volta do movimento Iluminista. Daqui pra frente não quero que me chamem de Neo-Liberal. Cansei. Me xinguem de Neo-Iluminista!

AMARAR - De Volta à Capitar

5.10.05

Being Fernanda Obregon

(cinco passos facinhos pra me emular)

1. Passe a limpo sua caderneta de telefones e deixe de fora 85% dos contatos.

2. Trimestralmente apague de 10 a 15 números do seu celular. Ninguém te liga e tu não liga pra ninguém mesmo. Celular é um despertador que telefona.

3. Apague também, de primeira, uns 30 amigos do orkut. Quando não tiver nada pra fazer, apague mais 5. Apague amigos do orkut. É legal e evita que você queime filme ou estabeleça relações com estranhos.

4. Bloqueie pessoas no msn. Não somente os malas mas também os queridos que não possuem apreço por você. Se dentro de três semanas tu não receber um e-mail perguntando do teu paradeiro, certamente a pessoa não te merece.

5. Exclua outros queridos do msn para que você não pague uma de IDIOTA puxando assunto a toda hora. Se quiserem, que venham falar com você.

Esclareço que não sofro de misantropia, pelo contrário: estou esculpindo minha NETWORK. E se eu sou tua amiga é porque eu TE CONSIDERO PRA CARALEO. Se algum dia eu emputecer ou cansar, certamente tratarei de sumir. Sou assim, I can't help it.

Petit Pois

Titio Sebrae

O nome da nossa amiga Lady Incentivo à Cultura, que acabou de nascer e que eu mesma acabei de inventar, me deu uma outra idéia: nomes com crase.

O que eu quero dizer é que estou inaugurando a partir de agora a moda de nomes com crase (no Brasil). Ou seja, o “à” (a craseado) ocuparia o lugar dos “da”, “das”, “di”, “de”, “do”, “dos” que conectam os sobrenomes.

A partir de agora as pessoas teriam a possibilidade de fazer essa opção quando forem registrar seus filhos. Perceba a mudança. Vamos aos exemplos:

Ex1.: Maurício Santos da Silva passaria a se chamar Maurício Santos à Silva, ou Maurício Santos À Silva;

Ex2.: Cléber das Graças passaria a se chamar Cléber à Graças, ou Cléber À Graças;

Ex3.: Bruna Beber Franco Alexandrino de Lima passaria a se chamar Bruna Beber Franco Alexandrino à Lima, ou Bruna Beber Franco Alexandrino à Lima.

Ok, à moda do Silva, das Graças, do Lima não é lá muito legal. Mas é uma idéia. Ou melhor, é só uma sugestão. Se vocês não quiserem concordar, por mim, tudo bem.

À Bife Sujo

1.10.05

É preciso estar sempre bêbado...

A manhã está úmida e fria, bom sinal de que hoje vai ser um dia nulo. E é até bom que seja, porque estou com um humor péssimo. No sábado à noite alguém forçou a porta do meu carro, mas não conseguiu entrar, e não sei se é pior pensar que foi puro vandalismo ou que o ladrão era mesmo incompetente. Com a brincadeira, a porta do motorista ficou torta, mas só o suficiente pra chover em quem dirigisse, o que - obviamente - foi o caso. A noite só não foi pior porque eu vinha de algumas cervejas, de um boteco legal em que tocava MPB, e da ironia de um furacão que não aconteceu depois de expulsar cerca de 2 milhões de pessoas de suas casas, nos EUA. Voltei pra casa cantando Chico, "a Rita levou meu sorriso", e não sei bem como, na minha cabeça bêbada tudo fazia o maior sentido...

Mas é claro que isso não faz diferença nenhuma

o mujique

Certas pessoas dizem falar com Deus. Grande sorte a delas, enorme azar o Dele.

o mujique

cAtaRrO vErDe

O que leva uma pessoa a guardar o próprio ranho num lenço de pano enfiado no bolso? Apego afetivo ao muco? Geralmente é um lenço xadrez. E acontece com freqüência pela manhã. Se um cara tirar do bolso um lenço xadrez logo de manhã, saia de perto. Ele vai soprar ali todas as melecas gelatinosas que acumulou durante a noite. Pode sobrar alguma pra você. O barulho é sutil, lembra o escapamento de um Scania. Uma vez aconteceu perto de mim num salão de humor de Piracicaba. Sentado ao meu lado estava um dos Caruso, sei lá se era Chico ou Paulo, os dois são chatos univitelinos, vai saber. Em dado momento, o irmão Caruso meteu a mão no bolso de trás da calça, tirou um lenço marrom e expeliu a gosma viscosa com força e vontade política. Se você nunca ouviu o soprão nasal de um Caruso, nem queira saber. O teatro quase vem abaixo. Só tive tempo de me esconder atrás do folheto da exposição. O cara examinou o produto da propulsão atômica, dobrou cuidadosamente o lenço e guardou tudo no bolso. Ali devia ter pedaço de brônquio, bronquíolo, mucosa, pleura, essas coisas que a gente aprende na aula de ciências. Desconfio que ele guardou pra fazer uma terrine em casa. Terrine de porco.

cAtaRrO vErDe literal

Ontem à noite...

conversando com um amigo, ele me perguntou porque eu não havia escrito sobre o seqüestro. Eu escrevi, mas escondi. É que eu estava tão triste naquela semana, que seria impossível olhar pra isso fora do rascunho.

Mês passado

Ontem, por volta das sete da manhã, um cara armado bateu na janela do meu carro e mandou que eu abrisse a porta do passageiro. Deu a volta pela frente do carro e eu pensei em atropelá-lo, mas não consegui. Ele entrou e mandou que eu "sentasse o pé". Meus pés tremiam, minhas mãos tremiam e eu comecei a chorar enquanto guiava.
Ele estava nervoso. Olhava para trás o tempo inteiro e não parava de dizer que só queria se mandar dali. Eu também queria... Queria ir pra bem longe dele, daquela arma e de um pedaço da minha vida. Queria, tanto quanto ele, fugir para algum lugar que não tivesse um destino a me perseguir.
Minha bolsa estava embaixo do banco e ele não a viu. Assim como não me viu esconder o celular ao meu lado, pouco antes dele entrar no carro. Toda vez que ele tirava os olhos de mim, eu apertava os botões do aparelho e rezava para que caísse em casa e o Rube atendesse. Sem saber onde aquele seqüestro relâmpago poderia dar, eu torcia para que a idéia desse certo, ele ouvisse o que estava acontecendo dentro do carro e avisasse a polícia.
O cara perguntou se eu tinha dinheiro comigo, eu disse que não. Disse que tinha acabado de sair de casa para abastecer o carro e que só estava com o cartão de crédito. Em alguns momentos, eu me desesperava, achava que ele dispararia aquela droga de arma contra mim e acabava usando meu melhor escudo... Menti, disse que eu tinha filhos pequenos e que eles estavam me esperando para levá-los a escola. Disse que o caçula tinha apenas quatro anos e que era altista. Não me perguntem o porquê da mentira, achei que não bastaria dizer que as crianças tinham problemas de saúde. O problema teria que ter um nome se eu quisesse ser convincente e sobreviver. Disse que se acontecesse alguma coisa comigo eles ficariam sem ninguém porque eu não tinha marido e nem família... Tudo o que eu queria naquele momento era abraçar meu marido e minha família, tudo o que eu não queria naquele momento era ter filhos e considerar a possibilidade de morrer e deixá-los crescerem sozinhos. Ele, por sua vez, me interrompia dizendo que só queria ir embora, que nunca quis matar ninguém... E eu me perguntando quantas coisas ruins somos capazes de fazer mesmo sem querer.
Irritado com o trânsito, ele pegou o cartão de crédito que estava no console e mandou que eu parasse em um banco pra sacar dinheiro. Eu pedi que ele visse a data de adesão do cartão, disse que era um cartão novo e que só era usado para crédito. Era verdade, mas, com medo da falta de dinheiro estender a situação, pensei em avisar que a bolsa estava embaixo do banco. Pensei, mas as palavras não sairam.
O trânsito estava lento e ele queria, de qualquer jeito, que eu encontrasse um banco ou caixa automático na avenida onde estávamos. Eu disse que não fazia idéia de onde teria um, mas ele não acreditava e dizia pra eu acelerar. Uma viatura da polícia passou por nós e ele foi muito claro quando disse pra eu ficar quieta se quisesse continuar viva. A viatura passou, ele mandou que eu pegasse a marginal Tietê.
Mais trânsito, mais nervosismo. Mandou que eu parasse de chorar e fechasse totalmente o vidro para não chamar atenção. Disse pra seguirmos até o terminal rodoviário e continuava repetindo que só queria ir embora. Foi quando me dei conta de que o sujeito estava tão desesperado quanto eu, que ele não pretendia me matar e, talvez, só precisasse mesmo de dinheiro para fugir dali.
Chegando no terminal ele saltou do carro levando somente o cartão de crédito. Saiu correndo, escondendo a arma no corpo. Saiu sem desejar que eu tivesse boa sorte as crianças... Que crianças? Que sorte? Ele fugiu, eu voltei pra casa. Voltei chorando e sem nenhum abraço a minha espera. Sem abraços, sem família, sem filhos, sem nenhuma vida que valesse a pena ter sido preservada.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

26.9.05

Medo de escuridão

Álvaro da Graça perguntou ao seu menino: "Filho, se você tem medo da escuridão, por que não aperta aquele botãozinho de acender a luz?"
Álvaro da Graça Júnior, sete anos, voz tremida e glúteos contraídos, respondeu-lhe assim: "Porque o medinho, meu papaizinho, é gostosinho demais!"
Álvaro, o pai, quis rir, mas não riu. Controlou-se, a fim de conhecer a essência dos temores do menino.
"Filho, agora diga ao papaizinho o que você imagina que possa existir lá no meio da escuridão."
Disse Álvaro Júnior, enquanto apertava uma coxinha contra a outra: "Existe a cabeça sem corpo, meu papaizinho, que é cega, que é surda, que é muda e que fica mastigando um coração roubado do cemitério! Coraçãozinho de criança que morreu sem pecado, meu papaizinho. E a cabeça sem corpo voa pra cá e pra lá, e sobe ao teto, e desce ao chão, e fica escondida atrás das cortinas - nhác-nhác, nhác-nhác - a mastigar o coração do anjinho. Depois, com a língua toda de fora, ela rola escada abaixo, porque fica doida de sede e não encontra sangue quente para beber. A cabeça sem corpo come carne de morto inocente, meu papaizinho, mas gosta de beber sangue de pecador vivo."
Álvaro, o pai, coçou o queixo, onde existia um pequeno corte ainda mal cicatrizado. Uma gota de sangue aflorou na sua pele branca, como se fora um rubi cabochão colocado sobre uma hóstia. Álvaro Júnior viu o brilho da gotinha de sangue e correu a apagar todas as luzes da sala.
"Vem depressa!", gritou o menino, batendo os pés e mijando-se de prazer. "Vem depressa, antes que a gotinha seque!"
Álvaro, o pai, começou a rir. Só parou de rir, porque morreu. E só morreu porque sentiu aquela língua larga a lamber-lhe o queixo. Foi assim que aconteceu.

Dennis D.

Jesus, me chicoteia!

Câmera lenta
O pior do acidente foi que tudo aconteceu em câmera lenta. Vi o poste chegando, chegando, beeem devagar. E pensava:
— Viiiiiiixe, o pooooooooooosteeeeeeeeee...
Então houve o impacto e eu senti a traseira do carro levantando, a frente se retorcendo e o bicho girando.
— Foooooooodeeeeeeeeeeeeeu. O ciiiiiiiiiiiiinto nãaaaaaaaaao agüeeeeeeeeeenta...
O cinto agüentou, porém, o banco foi jogado pra trás e eu fiquei balangando pra lá e pra cá por um tempo (mas muito lentamente). Vi pedaços do volante e do painel voarem em câmera lenta, e então o mundo voltou a sua rotação normal.
O negócio é que agora eu revivo a cena em todos os seus detalhes. Retrocedo a fita, avanço rapidamente, depois em slow motion, depois quadro-a-quadro. Com o tempo, a coisa sofisticou-se: agora vejo a cena do meu ponto de vista, depois de trás do carro, depois da calçada oposta, depois do ponto de vista do pobre poste.
O resultado é que eu não durmo, então acho que vou atormentá-los com outro post sem pé nem cabeça (ao contrário deste que vos fala, que milagrosamente tem pé, um exagero de cabeça, e tudo intacto entre os dois extremos).

Jesus, me chicoteia!

Pais, filhos, Maluf, etc.

Eu e meu pai sempre discutíamos quando o assunto era política. Mais especificamente, Paulo Maluf. Semana passada, quando eu soube da prisão, liguei pra ele para sacaneá-lo. Liguei em casa, a Quitéria atendeu, eu perguntei se meu pai estava, ela disse que não, ela perguntou se eu queria falar com a minha mãe, eu disse que não, conversamos um pouco e, em seguida, desligamos. Minutos depois eu sai e só voltei no fim do dia. Quando cheguei, uma tonelada de recados dele e da minha mãe me esperavam na secretária eletrônica. Eu não entendi o porquê de tanto desespero e liguei de volta perguntando o que havia acontecido. Ele atendeu e parecia preocupado. Quando eu disse que só tinha ligado pra dizer que o Maluf tinha sido preso, ele disse que já sabia e perguntou se a ligação era só pra falar sobre aquilo. Eu disse que sim e senti um certo desapontamento no tom de voz. Ignorei o tom de voz e desligamos o telefone depois das perguntas e respostas de praxe.
Com o telefone no gancho, voltei a pensar sobre o tom de voz... Só então percebi que aquela era a primeira vez que eu havia feito uma ligação para falar com meu pai e não com a minha mãe, ou com os meus irmãos. Só então eu percebi porque ele havia retornado a ligação tantas vezes, se preocupado... Passei o resto do dia pensando sobre essas relações familiares que mantemos mal resolvidas por achar que ignorar é mais simples. Fiquei pensando sobre pais, filhos, identificação, aceitação, imitação de comportamento, rebeldia, sobre como deve ser a relação de pai e filho dos Maluf, me perguntando sobre o que os dois conversariam presos na mesma cela e sobre o que, eu e o meu pai, conversaríamos se, um dia, fossemos obrigados a passar mais do que alguns segundos falando sobre amenidades.
Como é que a gente constrói uma ponte entre duas montanhas que nunca sairão do lugar e que são separadas por um abismo tão grande?

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

22.9.05

MAS QUE FIM LEVARAM OS BENDITOS PIERCINGS?!?

O ex-marido veio apressado do Canadá e ela foi buscá-lo no aeroporto. A conversa seria grave: a ausência da figura paterna na adolescência do filho, os efeitos alarmantes e, claro, que atitude tomar.

– Semana passada eu vi que tava na hora de te chamar – ela disse, apreensiva, enquanto dirigia com a mão esquerda e com a direita abria a bolsa, remexendo lá dentro. – Já tinham me ligado da escola dizendo que ele tava matando aula. Aí aconteceu de eu revirar os bolsos da jaqueta dele pra colocar na máquina de lavar. E achei isso.

Tirou da bolsa o indício e o mostrou. O marido pegou, olhou, abriu, fechou, como se olhar a coisa de todos os ângulos esclarecesse melhor. E perguntou:
– Era para consumo próprio? Será que não é apenas curiosidade, pra ver como é o lance, e tal?
– Acho que não. Tanto que fui mexer na gaveta dele e achei outro.
– Como?!? – ele disse, sacudindo o livro. – Não bastasse O Jardim das Aflições… ele ainda tem outro livro do cara?
– Tem, sim. E no Imbecil Coletivo eu ainda achei parágrafos inteiros sublinhados!

Ele largou o livro no colo e olhou a paisagem lá fora, fingindo conferir trechos da cidade que não via há um certo tempo. Aí falou:
– Nem posso dizer que tenha sido, sei lá, uma grande surpresa. Dia desses eu entrei na página dele no Orkut e vi o perfil que ele se deu.
– E…?!?!? – ela perguntou olhando para ele (e ele sinalizando com a mão “shhht, olha pra frente, olha o trânsito!”)
– Bom – ele continuou –, posso dizer que iria fazer o Zé Guilherme Merquior parecer ativista da Libelu. E as comunidades de que ele faz parte, então? Caramba! Será que não é o caso de começar a se medicar?

Do penúltimo ao último semáforo os dois ficaram em silêncio. Quando pararam novamente no sinal vermelho ela disse:
– Então deixa eu contar o que aconteceu hoje cedo. Eu quis só bater um papo sobre como tava indo o namoro e ele: “Tou me cuidando, mãe”. Então não resisti e, enquanto ele tomava banho, fui olhar na carteira dele e achei lá, toda plastificadinha…
– Ah, menos mal q…
– …uma certificação de filiação à Opus Dei. E com uma cláusula de compromisso de manter-se virgem até o casamento.

Ele afundou-se no banco. Baixou o vidro e acendeu um cigarro. Ela continuou:
– Agora há pouco, antes de sair pra ir te buscar, passei pelo quarto dele e vi ele na cama, ouvindo música no fone de ouvido…
– Bom, pelo menos música ele ainda ouve, né?
– … A Cavalgada das Valquírias. Ainda assim falei que ele podia tirar o fone de ouvido, não precisava se preocupar com volume e tal. Ele tirou o fone e disse: “Ah, sei. E imitar o filho do vizinho fazendo ressoar pela casa inteira aqueles acordes deploráveis de southern nigger music, ou então as patacoadas melódicas do Bob Dylan servindo de trilha pra mobilizações de defesa de direitos civis? Yaaaaaaaawwn…” E olha, ele não só bocejou como pronunciou “ioooooonn”, mesmo!

Ele já não tinha mais como afundar-se no banco. Deu uma tragada e perguntou, soltando devagarinho a fumaça pelo nariz:
– Você falou com o psicólogo?
– Ah, o papo de sempre. Ele só quer chocar. Agredir. Chamar a atenção. A afronta como método de demarcar a personalidade.

Ele se exaltou quase a ponto de deixar a brasa cair no banco, mas conseguiu recapturar o cigarro no ar:
– E custava pôr piercing? Brinco? Tatuagem? Ir em cana por desacatar autoridade? Ser expulso da escola e…
– Já te falei que ele não anda indo à escola. Acha aquilo de uma, como foi mesmo que ele falou?, “homogeneização socializante deplorááável”. Fica é a madrugada inteira na Internet, baixando arquivos com textos do Meira Penna.

Quando viram já tinham chegado. O carro estacionado diante da casa, e dentro dele os dois, olhando um para o outro, sem fazer menção de sair. Foi ela quem falou:
– Vamos entrar. Você começa a conversa.

E ele, acendendo outro cigarro mas parecendo é querer ganhar tempo:
– Er. Escuta. Antes me diz uma coisa.
– Hm?
– Você acha que se a gente tivesse dado outra criação menos, sei lá, tolerante… Se não tivesse percebido que o casamento andava uma bosta e não tivesse se separado… Se, pelo contrário, a gente mantivesse a fachada de família feliz e vivesse uma história cheia de amargor, ressentimento, animosidade camuflada… Se impusesse na educação um monte de dogmas religiosos irracionais e milenares… Ele estaria realizado? Seria uma criança feliz, e não estaria partindo hoje pra esse tipo de atitude? Será que ele não está é pedindo socorro, e…
– Olha – ela falou, tomando o cigarro dos dedos dele e dando uma tragada caprichada. – Não sei se é o caso de ficar agora em punhetação do tipo onde-foi-que-eu-errei. Eu sei que o urgente é ir lá e falar com ele agora.
– Ahn – ele ainda tentou. – E se a gente plantasse um bagulho nas coisas dele, hem? Dentro da apostila? E quando ele negasse a gente retrucasse com “Não, filhão, a gente entende”, e tal? Psicologia reversa! Aí…

Ela devolveu o cigarro e soprou a fumaça quase na cara dele.
– Vai ter uma conversa séria com teu filho AGORA!

Ele saiu do carro, jogou o cigarro no chão, pisou na guimba rodando a ponta do sapato por mais tempo que o necessário e então caminhou até a porta da casa. Lá em cima, o filho, enfurnado no quarto, e ainda com o fone de ouvido, regia de olhos fechados a orquestra imaginária enquanto acompanhava a altissonância wagneriana fazendo baixinho, baixinho, bem baixinho com a boca “pampampampampam, pampampampampam, pampampampampam, pampampampaaaaaaaaaaaaaaaam….”

Ao Mirante, Nelson!

21.9.05

CUIDADO COM O PEDRO

Cuidado com o Pedro. Pedro é um perigo.
Pedro é um sedutor desavergonhado, e pior, que nem sabe o poder que tem. Mulheres que já haviam se resignado a ficar pra titias, mulheres comprometidas, mulheres decididas, que haviam se prometido que nunca mais, ou nunca mesmo, homens que nunca tinham antes questionado sua opção, ninguém está a salvo da perfídia de Pedro. Ele faz esquecer experiências anteriores ruins e ver um possível futuro cor de rosa, que, saibam, não existe. Ou até existiria, mas só se fosse com Pedro. E Pedro é um só, nem todas podem tê-lo. Vejam como Pedro é insidioso, sub-reptício e mau : você chega num barzinho, é o aniversário de uma amiga querida, e ele está lá. Você não dá muita moral, claro, ele já tem dona. Mas ela não está mais tão fascinada com o gatinho, claro, ela o vê, toca nele, morde, beija, dorme e acorda com ele todo dia, toda hora, provavelmente já está mesmo querendo uma folguinha. Você dá uma sacada nele de longe, e vê que ele é lindo, que seu cabelo é ótimo, sua roupa é um charme, os acessórios foram muito bem escolhidos, e que ele tem cara de inteligente e bem-humorado, apesar de caladão. Aí um sacana de um amigo, sem mais, promove uma troca de cadeiras e pá, joga Pedro no seu colo. Quando menos se espera, você está a centímetros daqueles olhos sérios, negros e doces de jabuticaba, e eles prestam a maior atenção em tudo o que você diz. Em poucos segundos, vocês já estão super à vontade um com o outro, amigos de infância, e até seu marido se mostra meio encantado com o discreto charme do Pedro. O resto da mesa esquece de vocês, isolados numa espécie de bolha de descobrimento mútuo que faz você se esquecer do tempo. E ele põe a mão mais macia do mundo no seu ombro. Você começa a cantar "Everybody’s talking at me", e ele, que certamente nunca havia ouvido essa música, parece gostar, e sorri franzindo o nariz, um sorriso lindo, que mostra um pouquinho da gengiva, cheio de charme e simpatia, mas sempre com um jeitinho meio triste, de derreter o coração. Seu marido, a essa altura também já completamente entregue ao charme do Pedro, compete com você pela sua atenção, e desenterra "Rock’n’roll Lullaby", que é tão velha quanto a música do Nilsson, ou até mais. O Pedro gosta. E a noite vai passando. Ele obviamente está com sono, mas luta contra, e a essa altura já está com um braço em torno do seu pescoço, fazendo cafuné nos cabelos fininhos da sua nuca, roçando um pé descalço e lindo na sua perna. Quando você já está pensando seriamente em sair dali com o maridón num braço e o Pedro no outro, a mulher com quem ele veio o reclama. Diz que ele está cansado, ela está com sono e eles têm que ir. Você considera a possibilidade de dar uma rasteira nela e fugir com o Pedro, e o marido que se vire pra acompanhá-los se puder, mas tem muita gente em volta, ia ser difícil explicar isso pra todos os amigos, podia dar até cadeia, o que não ia ficar nem bem, e você, relutantemente, o devolve, sem saber quando vai vê-lo de novo.

Enquanto seu amigo pega o Pedro de volta do seu colo e o devolve à mãe, você devolve também a mamadeira quase vazia, a fraldinha que usou pra ele não babar no seu ombro – tem dentinhos nascendo, ele está com seis meses – e põe de volta os brincos que havia tirado pra ele não puxar, levemente arrependida de não ter dado ao menos uma mordidinha nas bochechas mais fofas do garotinho mais meigo do mundo. E lá se vai Pedro pro carrinho, vai embora com a mãe, deixando você apaixonada, e pelo menos mais duas mulheres da mesa, assim como você e seu marido, que agora baba mais que o Pedro, pensando por que foi mesmo que nunca quiseram ter um bebê. Ouçam o que eu digo, Pedro é um perigo.

Cyn City

20.9.05

Infames

Ah, o amor. Quantos crimes não foram cometidos em nome deste sentimento com nome de paçoca que se esfarela feito o coração de certos incautos? A tira de hoje de Fernando Gonzales na Folha de S. Paulo mostra alguns exemplos das atrocidades cometidas em nome dele. Bobagens, porém, se comparadas com as respostas à seguinte questão feita por este fórum do UOL: "Qual foi a maior prova de amor que você já recebeu?". Eis algumas delas:

- A maior prova de amor é quando após uma noite frustrante ela diz "ISSO ACONTECE COM TODO MUNDO", achando que isso justifica a eca e acaricia o ego.
- Prova de amor é não fazer nenhuma, pois todas são um baita mico.
- Eu tinha meus 12 anos quando eu dei um fora em um menino e ele chorou na frente de todo mundo sem parar. Nunca vou esquecer.
- Estávamos num motel e minha namorada saiu de um outro cômodo, vestida "só" com a camisa do meu time do coração.
- A maior prova de amor foi quando minha namorada fez amor comigo durante 7 horas seguidas... Ela até sangrou um pouquinho. Mas foi muito bom!

De fato, amar é pagar micos. E faz sangrar. Mas vale a pena recordar uma frase de mestre Lupicínio Rodrigues, notório boêmio que ao ser indagado sobre o assunto afirmou: "As esposas devem se sentir felizes quando seus maridos voltam de suas noitadas porque sua volta é a maior prova de amor".

Rafael Galvão e a intrépida trupe do Momento Google são especialistas na arte de dar respostas infames às buscas mais inusitadas que desembocam em seus blogs. Peço licença aos mestres para também cometer minhas infâmias. Afinal de contas, os internautas que fizeram as pesquisas abaixo fizeram por merecer.

o que quis dizer ary barroso com a composicao da musica aquarela do brasil?
Nesta clássica canção musical, Ary Barroso quis demonstrar, no mais lindo dos belos pleonasmos redundantes, que no meu Brasil brasileiro coqueiro dá côco.

texto pequeno sobre preconceito
Preconceito fede.

como ganhar na mega sena
Essa é fácil: basta acessar o Google, que ele lhe informará os seis números que sairão no próximo concurso, ho ho.

Como fazer qualquer pessoa se apaixonar por você
Para esta pergunta, conheço uma resposta ótima que ouvi num local inesperado: um filme da Disney, "A Bela e a Fera". Se minha memória não estiver enganada, a resposta é dada por, creiam-me, uma xícara de chá animada, que canalhamente vaticina: "dê caixas de chocolate e faça promessas que você sabe que não poderá cumprir". Mas olhe, fazer uma pessoa se apaixonar por você é bico diante do desafio maior: manter a paixão rediviva diante da rotina, das dificuldades financeiros, das discussões de relacionamento, das visitas dos parentes, das ilusões românticas que soçobram frente aos problemas do cotidiano, etc etc. Contudo, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa legal, não se deixe levar pela balada dos desencantados. Amar, pagações de mico e feridas abertas à parte, ainda vale a pena.


Infâmias cometidas pelo Mestre Inagaki

17.9.05

"But it's oh so nice to come home"

Eu sei, eu sei, é o “ciclo da vida”, ou whatever, como diria um documentário do canal Discovery sobre as rãs milongueiras da Baixa Patagônia, mas não há como escapar à melancolia quando, no posto de filho, você se vê forçado a fazer pelos seus pais mais ou menos a mesma coisa que eles passaram os primeiros 15 anos da sua vida fazendo por você. Deve haver quem se encante com a simetria, mas eu me horrorizo. Não é que o dever de agir como leal guardião –que é parte inextricável do meu make-up genético- me seja completamente repulsivo (ainda que, yo, it does not come natural). Mas cumprir o dever torna inevitável encarar a fragilidade das pessoas que um dia foram as mais fortes da sua vida.

Tipo, quando, exatamente, as manhês ficam velhas? Surge o dia em que você vê a soma daquelas pequenas dificuldades resultar em veredicto, em que você percebe as pequenas hesitações, a falta de vontade de se adaptar, a decisão de vestir o pijama moral e assistir com horror à vida que a televisão traz. É como se de maneira invisível mas inevitável elas assinassem o contrato que as vai tornar parte do passado –algumas conformadas, algumas brincalhonas, algumas com toda a amargura de uma vida que talvez não tenha transcorrido exatamente como planejavam.

E se bem ternura, instinto protetor, nostalgia e compaixão sejam aparentemente os motivos dominantes, na verdade tem dose considerável de egoísmo e medo fervilhando no caldinho dos seus sentimentos. Na hora em que a mamma assina o contrato que faz dela velhinha, yo, isso oficializa a idéia de que uma hora dessas ela não vai estar mais com você, e igualmente oficializa o fato de que a maturidade chegou, que é hora de você adquirir certa gravitas (que você sabe que nunca vai ter). Quando a mamma esquece a receita do prato mais tradicional da família, que você pediu só pra puxar assunto enquanto cozinha para ela em um desses ritos de passagem que filme americano cretino adora, tem o final de uma vida e o final de uma infância pairando entre o fogão e a sala. Melhor aumentar o Sinatra, ignorar os protestos quanto às pernas cansadas e tirar a mamma pra dançar. Pode ser a última vez.

Filthy McNasty

4.9.05

Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o “Ç” vai substituir o “S” e o “C” sibilantes, e o “Z” o “S” suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O “C” duro e o “QU” em que o “U” não é pronunçiado çerão trokados pelo “K”, já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko “H” mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O “CH” çera çimplifikado para “X” e o “LH” pra “LI” ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como “onra” fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o “G” ço çera uzado kuando o çom for komo em “gordo”, e çem o “U” porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em “tigela”, uza-çe o “J” pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Cyn City

31.8.05

cornucópia

daí o unicórnio chegou no balcão do xerox e disse: eu quero uma cópia do meu corno. "do seu chifre?", a mocinha arregalou os olhos depositando no chão uma série de apostilas. "do meu chifre, aspa, binga, guampa, chavelho, como queira, só precisa ser rápido, porque estou em horário de almoço." a mocinha incrédula chamou o patrão, um careca com uma calculadora. "que que foi, nunca viu um unicórnio antes? atende." o unicórnio começava a praguejar e alisar o chifre, que parecia uma concha daquelas de caramujo bem finiiiinhas que dão na praia. então a mocinha levantou a tampa do balcão e o unicórnio passou pro lado de dentro e foram os dois fazer as cópias. na loja ao lado, uma lanchonete, uma cenoura de maus bofes sentava e pedia um suco de abacaxi.

Xícara de Chá

28.8.05

Você gasta o que não pode no shopping, depois volta pra casa de ônibus. Isso é tão hipócrita quanto aquela figura que consome oito mil calorias num almoço farto e, no final, toma um café com adoçante.

Uma dama não comenta

26.8.05

Preferido do Rei

Leio num guia de lanchonetes que o sanduíche [ou "lanche", como agora se fala em São Paulo] predileto do Elvis era banana amassada com pasta de amendoim e pão. O cara tinha mesmo que morrer intoxicado. Prefiro um sanduíche de merda.

catarro verde

25.8.05

Assim falava Zoroastro

Os homens de génio são como os meteoros: esquentam a cabeça à toa, pra terminar debaixo da terra feito todo mundo.

dies iræ

21.8.05

02.08.2005

Vem depois da noite, do hálito bêbado, dos pequenos insetos cegos, depois da madrugada, dos lençóis desfeitos, da nudez desamparada, depois dos pesadelos, do sapato no caminho, da janela batendo, do copo vazio, do pensamento que volta, depois do suor, do frio, da freada no asfalto, da coberta caída, depois da hora avançada, dos estampidos da rua, do gato no cio, das contas a pagar, vem depois, bem depois, vem me acordar e fazer só pra mim um mundo recém nascido.


Não Discuto, por Patrícia Antoniete

12.8.05

Buraco de toupeira: tatu caminha dentro?

(…)

Dinheiro é coisa muito suja, por isso que virtude é não trabalhar. E se jogo na loteria esportiva é pra perder, que Jesus falou ser mais fácil camelo passar pelo fundo de agulha, que um rico entrar no reino dos céus -- aí, só cavando túnel.

dies iræ

7.8.05

O círculo

O homenzinho de unhas polidas e pensamentos foscos apaixonou-se pela mulherzinha de unhas foscas e pensamentos polidos.
Ela, muito polidamente, disse-lhe que não poderia corresponder àquele tipo de afeto, porque era lésbica, nascera lésbica, sempre fora lésbica e haveria de morrer lésbica.
Ele nada disse, mas passou a roer as unhas e a cultivar pensamentos tristes, cada vez mais tristes. Um dia, suicidou-se.
Foi o homenzinho enterrado pelo coveiro de unhas imundas e pensamentos imaculados, cuja filha única - que tinha unhas imaculadas e pensamentos imundos - era justamente a infiel companheira da mulherzinha de unhas foscas e pensamentos polidos, a qual, sem se dar conta, se tornara um estorvo e estava com os seus dias contados.

dennis d.

Pequenas alegrias da vida de solteira

Dormir numa diagonal.

a caverna da ogra

às vezes não sei se estou cansada ou se estou triste
ou se estou triste de estar cansada
ou se estou cansada de estar triste.

blog de escárnio e maldizer

PRÁ PENSAR

Um amigo muito querido, casado com uma amiga que eu adoro, pai de 4 pimpolhos lindos e fofos, Engenheiro com doutorado em Londres, me disse uma coisa há dois anos que eu nunca me esqueci e que tem se revelado cada vez mais verdadeira:

No final, o que vai contar não é o teu doutorado, que cargos ocupaste, que sucesso fizeste. O que vai contar é se amaste de verdade pelo menos uma vez na vida, se foste amado, quem são teus filhos, se sabem amar, se eles te amam, se gostam de estar junto de ti, se tens amigos, se sabes rir e tens com quem. O vai contar, lá no final, é isso. Se todo o resto for um meio para este fim, ótimo. Se for uma alternativa, dispense. Vais te arrepender com toda certeza.

megeras magérrimas

bipolar

A paixão testa, o amor prova.
A paixão acelera, o amor retarda.
A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo.
A paixão incrimina, o amor perdoa.
A paixão convence, o amor dissuade.
A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo.
A paixão não pensa, o amor pesa.
A paixão vasculha o que o amor descobre.
A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha.
A paixão facilita o encontro, o amor dificulta.
A paixão não se prepara, o amor demora para falar.
A paixão começa rápido, o amor não termina.

Fabrício Carpinejar

I SPY WITH MY LITTLE EYE...

20/07/2005

Já falei muito delas aqui. As vizinhas do mal. As que gritam, batem boca, se desentendem, ou até concordam e se elogiam, mas sempre em altos brados, das 7 da madrugada à meia-noite, ou mais tarde. A mãe e a filha mais velha são as piores, mas sei que há um pai/marido e uma filha mais nova, que não berram tanto, e às vezes parece haver um moleque também, este até gritador também, mas menos presente, graças a Zeus. Os fofos são o tipo de gente que rouba toalha de hotel – minha área de serviço dá de frente pra delas, o que hei de fazer ? Ver, né ? E hotel de Caldas Novas, ainda por cima, aquela cidade onde quase toda piscina é um caldeirão fervente à espera de moças que tragam “sustança” e transformem seu caldo de bactérias em canja.
São pessoas tão invasivas, sem pudor e sem medida, que até suas comidas têm cheiro mais forte que as dos outros. Dia desses, por exemplo, devem ter queimado a carne assada, deixando o hall, elevadores e esta que vos fala com aroma artificial de churrasco. Cozinham pequi o ano inteiro, até fora de época, e suspeito que nem gostam, mas fazem isso só para afrontar nossos olfatos também, caso a audição se acostume aos maus-tratos. Batem panelas, amontoam lixo fora do horário de recolhimento, espancam o botão do elevador com tanta ênfase que quase dá pra acreditar que ele vai subir mais rápido por causa disso.
A mais velha já mandou a mãe atuar passivamente num ato de sodomia, e fez isso com tanta classe e discrição que tenho certeza de que até os velhinhos surdos, tão abundantes no prédio, ouviram.
Sim, já falei muito delas, e se já falei outras vezes, por que falar de novo ? Só pra contar que no fim de semana, ao fazer uma de nossas sessões de cozinhar juntos (gatim pica a cebola e o alho, eu faço o resto), rir muito, namorar um bocado e dançar ao som de golden oldies, de roupa caseira e pés descalços, na cozinha de casa, vi a menorzinha nos espiando por um bom tempo através da vidraça semi-fechada. Ficou ali quietinha, meio escondida, só os olhos por cima do parapeito. Depois de uns minutos, nem meia música, saiu da cozinha e apagou a luz. Nem comentei nada com o Nelson, que, atento como é, certamente nem percebeu. Mas eu achei interessante. O que será que se passou na cabecinha dela ?
Pode ser que tenha nos achado uns velhos babacas e nossa música uma baba chata (I only have eyes for yoooouuuu...). Pode ser que tenha tido uma pontinha de inveja ao ver que, ao contrário dos velhos dela, os coroas do apartamento em frente convivem bem e sem gritos. De um jeito ou de outro, acho bom que pelo menos ela tenha visto, em primeira mão, que é possível, sim, que pessoas comuns, que não são personagem de filme nem famosas, ricas ou bonitas, tenham um casamento feliz, gostem da companhia um do outro e não soem sempre como cães brigando. Quem sabe assim ela pense antes de perpetuar esse jeito permanentemente em guerra de sua pequena e barulhenta tribo. Se isso acontecer, seu futuro marido, e principalmente, seus futuros vizinhos, têm uma dívida enorme comigo e o gatim. Escrevi tudo isso pra dizer que aceitamos pagamento adiantado, em forma de silêncio. Pelo menos na hora do almoço.


04/08/2005

As vizinhas marditas-gritadeiras gritando como nunca, e eu não posso nem mandá-las ir gritar com a puta que as pariu. Ou com as putas que pariu. Não porque eu seja fina demais pra isso, mas porque, na verdade, provavelmente é isso mesmo que elas estão fazendo.

Cyn City

6.8.05

Obrigada, não!

Obrigada, acontece que eu não gosto:
- de Paulo Coelho;
- desses livros de ajuda espiritual escritos para ganhar dinheiro;
- dessa música sertaneja que está na moda;
- de poetas de rima fácil;
- de música no mais alto volume (em casa ou no carro);
- que me acordem. Deus me livre puxar a cortina com força, jogar claridade na minha cara e dizer: Ó, que dia lindo!
- de gente que anda de carro na praia;
- de quem maltrata e abandona bichos;
- de quem acha que é expert em tudo;
- de quem classifica as pessoas pelas escolhas sexuais que têm;
- de quem é servil;
- de quem não sabe receber amor;
- de quem só pensa em dinheiro;
- de quem vive cobrando atenção;
- de quem só diz o que os outros querem ouvir.

veja o que eu vi e muito mais

ARE YOU LONESOME TONIGHT?

Elvis nunca gostou de rock. E o mistério é que a família – mãe, tia e avós, testemunhas juramentadas de Jeová – também não podia ouvir falar em música profana. Teremos, pois, de esclarecer o porquê do nome através de uma trama noir, com ventilador de teto, persiana, um datilógrafo de costeletas crespas, um velho careca e uma loira fatal.

Elvis tirou a tarde de ontem de folga e foi ao 3º Cartório de Registro Civil, para averiguar quem eram o tabelião e os outros profissionais do estabelecimento em 77, quando nasceu. Enquanto o funcionário de óculos de aro de tartaruga fuçava os papéis, suando vapor, Elvis se perguntou o que fazia ali o ventilador chiando feito gemido ensaiado de mulher que nunca chega lá. Aliás ele não fazia mexer nem as persianas empoeiradas que deixavam entrar fatiada a tarde amarela e sem graça. “Esse aqui”, disse o óculos de tartaruga, mostrando uma foto já descorada de um tipo com costeletona, “era o escrivão da época. Miron.” E, limpando o vapor na testa com a manga da camisa: “O dono do cartório na época morreu, deixou para o filho, que está de viagem. Sobrou só o Miron para você pesquisar”. Do cartório mesmo Elvis ligou e do outro lado atendeu um velho careca – mas que até hoje cantarola “Are You Lonesome Tonight?” sem errar a letra. “É, sou o Miron. Lembro do teu pai. Sujeito asqueroso, uma recaída da tua mãe. A família dela nunca gostou daquele ‘ateu sem volta’. Ele bebia e desconfiava de tua mãe. Achava inclusive que não era teu pai verdadeiro. Veio, bêbado, te registrar. Quando eu perguntei se o recém-nascido ia ter o nome do pai ele achou graça de eu falar ‘pai’ e disse, cínico, acho que para ele mesmo: ‘É o vizinho…’ Ouvi e pensei que seria o teu prenome, as letras todas juntas, e comecei a datilografar – achando justa aquela singela homenagem ao rei, justo no ano da morte dele. ‘Vai no diminutivo mesmo?’, eu perguntei, aí ele percebeu e disse ‘Pára!’ - então tive tempo de pelo menos não colocar o ‘inho’. Ele leu como ficou, riu e mandou deixar. Sumiu no mundo e te largou esse nome.” Elvis desligou o telefone com um estranho gosto de chiclete de uva na boca. E sim, a mulher fatal era Edilene, uma loira oxigenada sentada na recepção do cartório, esperando para reconhecer firma nuns papéis e que refrescava o busto suado abanando um exemplar antigo da Carícia.

ao mirante, nelson

Top 5 - Piores Profissões do Mundo

5 - Greicikélio da Silva, 18, é faxineiro de uma casa de peep show em Copacabana. Em outras palavras: limpador de porra. E, pior, não é nem registrado em carteira.

4 - Carlos Poncherelo, 40, é policial rodoviário especializado em coletar restos mortais de animais atropelados na estrada. Experimente passar um dia de verão atendendo a chamados de todos os lugares do país, enquanto o processo de decomposição dos finados bichos segue à toda. Não à toa, seu prato predileto é espetinho de jiló com salada de tofu.

3 - Debbie Lloyd, 24, é limpadora de bundas de lutadores de sumô, homens que por evidentes razões adiposas possuem dificuldades para alcançar determinadas partes de sua anatomia. O trabalho é evidentemente uma merda, mas ao menos paga bem.

2 - Creedence Ramônio, 58, é técnico de som do grupo de pagode universitário Los Mauricinhos, (ir)responsáveis pelo atual hit número 1 da Gazeta FM, "Pagode na Daslu". Antes, trabalhou com a dupla sertaneja Tristinho & Tristonho e a boy band New Kids on the Blog (conhecida pelos sucessos "Template da Paixão" e "Muito Lôko Seu Blog, Linka Eu Vai?"). Recentemente Creedence trabalhou na gravação de um DVD em tributo à obra de Arnaldo Antunes, tendo sido obrigado a ouvir por dez horas seguidas Preta Gil cantar (com arranjos de Jacques Morelembaum) os versos imortais "Macha fêmeo macha fêmeo fêmeo macha/ Cérebra caralha baga saca pescoça prepúcia ossa/ Nádego boceto têto côxo vagino cabeço boco/ Corpa moço dentra foro moça/ Orgasma coita palavro sexa goza/ Liberal gerou".

1 - Horinando Brasilino, 27, é limpador de esgotos. Experimente mergulhar em um fosso repleto de toneladas de merda humana, a fim de liberar canos entupidos por causa de absorventes ou camisinhas usadas. Horinando até já se acostumou com essa rotina, mas não se conforma com o fato de a firma não oferecer assistência odontológica nem pagar horas extras. Assim já é demais!

por Alexandre Inagaki, pro morfina

Minha sobrinha Marcelinha, que nasceu há pouco mais de três meses, levou diiiiias e diiiiias pra abrir os olhinhos, chorava pouco e baixinho, dormia muito. Minha sobrinha-neta Hannah, que nasceu anteontem, já saiu de olhos abertos, chora e resmunga, vive acordada e mostra a língua pra tudo que se move. Qual será a razão de tanta diferença ? Minha teoria é de que Marcela, ao ser levada pro quarto da mãe na maternidade, abriu meio olhinho, deu uma boa sacada em volta, viu o tamanho da suíte, as flores, o buffet, as malas, as roupinhas, suspirou aliviada e pensou “Ui, que bom, sou rica. Me acordem daqui a três meses, uahhh...”. Hannah também deu a primeira olhada, sentiu que o quarto era até legal, mas não era nenhum cinco estrelas, e ainda viu uma menina de trança, um moleque magrelo apavorado, sentiu que aqueles eram seus pais... e perdeu o sono ! Hohoho.

Cyn City

3.8.05

Ponto pacífico

Encontraram-se na seção de congelados do supermercado:

Ele, sorrindo:

- Sem tempo para cozinhar, não é?

Ela, reticente:

- Não, não. Minha irmã vem me visitar e ela adora esse ravióli.

- Tem bom gosto. O de ricota é divino. Já provei.

- Eu não suporto ricota. Vou levar carne, mesmo, que sempre cai bem com um vinhozinho...

- Hum. Não bebo. Para mim um suco de acerola dá o contraponto exato. Mas também, eu prefiro ricota...

- Não suporto ricota. Bom, com licença; preciso passar na locadora.

- Comédia, decerto.

- Não, Krzistof Kieslowski. Estou com um plano de rever a trilogia das cores essa semana.

- Ah, certo. Gostei da Fraternidade é Vermelha. Aquela Irene Jacob é... digo, uma boa atriz.

- Claro. Mas a Liberdade é Azul é que é o grande momento da trilogia.

- Então você vai passar a noite com a Juliette Binoche.

- Na verdade é para amanhã, que hoje estava a fim de ver um show.

- Boa! O Djavan tá na Tom Brasil.

- É, mas o Echo & The Bunnymen tá no Credicard Hall. Sou louca por eles.

- Vai arrastar teu namorado pra lá.

- Umas amigas.

- E depois dançar um pouco nalgum lugar.

- Xi, não. Provavelmente comer uma pizza.

- Alguma coisa me diz que você não é católica.

- Acertou. Presbiteriana.

- Ah. Bom, pelo menos os presbiterianos são malufistas, como eu.

- Credo! Sou militante do PT há dez anos! Não acredito que alguém ainda vota no Maluf em sã consciência.

Ele, um pouco contrariado:

- Hã, bom... eu não quero atrasar você. Ainda tem que passar na locadora, não é?E eu fiquei com vontade de ver o Djavan, depois desse papo todo.

Ela, visivelmente chateada:

- Claro. Tchau!

- Tchau.

Já a uns cinco metros ele se vira:

- Uma última pergunta...

- São paulina! Ela grita.

- Eu também!

Correm ao encontro um do outro e se enlaçam num beijo selvagem.

é por aqui que vai pra lá?

30.7.05

O P.S. que a Bíblia escondeu

...E não contente em expulsar Adão e Eva do Paraíso e amaldiçoá-los com trabalho, partos,TPM, dupla jornada, patrão e cliente, Deus, que era um tremendo dum machista, ainda deu um jeitinho de piorar as coisas "praquela perua assanhada" : inventou a celulite, a tendência a engordar e as revistas femininas com padrão estético pra lá de Bangladesh. E viu que era mau. E quando nem isso acalmou Sua ira, o Grande Sacana criou a Nhá Benta e o Häagen Dazs sabor Crème Brûlée. E neste momento Ele deu uma risada tão sádica e maligna que fez desmaiarem três anjinhos e acordou até Seu oponente, que dormia o sono do Justus, muitos andares abaixo, onde não tem ar-condicionado. Dizem que Belza ficou tão arrepiado que teve que tomar dois copos de água de melissa gelada com açúcar, e tão surpreso que passou pertinho assim, quase-quase quase mesmo, pelo beiço de uma pulga, de fazer o pelo-sinal.

Cyn City

28.7.05

Sempre me perguntam por que não escrevo um livro.
Pra quê? Se você entrar armado numa livraria e atirar, acerta num livro de blogueiro. É o que mais tem. Papel é um troço poroso, aceita tudo. Se eu tiver que selecionar posts pra botar num livro, vou deletar quase todos. Porque não passam disso: merda volátil. Com dois cliques vai tudo pro esgoto.
Simancol é bom e eu tenho um vidrão na farmacinha do mocó.

Ave!, catarro verde

Urubu

Tem gente que se diverte intensamente quando pode dar uma má notícia. O porteiro do meu prédio, por exemplo.
- A senhora está indo fazer caminhada?
- (Não, criatura, eu vou a uma festa de gala às dez da manhã, vestindo short e camiseta de alça.) Estou.
- Ah, tá. Quando voltar, passa na portaria que tem correspondência.
- Tá bom.

Estou saindo do prédio quando o porteiro continua:
- Mas não é boa notícia, viu?
- O quê??
- É multa. (E ele me diz isso sorrindo, como se informasse que era um prêmio de loteria.)
- … Sabe, essa informação era completamente desnecessária.

num Dia de Folga

27.7.05

She Could Have Said "Uterus"

Girl #1: Ugh! It's horrible out! It feels like I'm in someone's lung!
Girl #2: What?
Girl #1: It's just so moist and warm out here; it's like being in a giant lung.
Girl #2: ...that's the most disgusting description I think I've ever heard.

--74th & Madison
. . .

Another Wonderfully Thinning Feature for Smokers

Girl #1: I wish I still smoked so I would have a reason to go outside every 20 minutes.
Girl #2: But then you'd have cancer.

--Chelsea elevator

Overheard

- Eu queria fazer um testimonal à sua altura.
- Eu tenho um metro e meio.

Torpor

Assim numa segunda-feira chuvosa, tv fora do ar, computador travado, a mulher do Marcos Velório até que seria fecundável. E o nome é estiloso. Renilda.

Catarro Verde

20.7.05

PRA GRINGO

Mais sobre o SOU FEIA MAS TÔ NA MODA. O pessoal tem perguntado quando o filme estréia por aqui. Não sei, Denise está negociando ainda.

Talvez o fato dela ser egressa da classe operária e não ter um sobrenome bacana tenha causado uma certa lerdeza no processo.

Já me decidi, quando tiver um filho o nome dele será João Veloso Chateaubriand Gil Gerdau de Moreira Salles Meireles. Esse esquema de ter nome de pobre é mau agouro.

O primeiro nome pode ser Sebastião também, nomes roots pega mó bem na hora das apresentações.

Quero só o melhor para o meu pimpolho.

eu não pedi pra nascer

14.7.05

Altismo

Às vezes tenho a nítida impressão de que estou falando sozinha.

sanatorium

Férias

Existem três tipos de férias.

As férias ideais, restritas aos sortudos que tem dinheiro e companhia para viajar.
As férias práticas, quando fazemos tudo que a falta de tempo não permite fazer no resto do ano: visitar amigos, ir ao médico, arrumar armários, ler dezenas de livros, assistir centenas de filmes, consertar a pia que está pingando há meses, ver exposições, tirar segunda via de documentos, aprender a costurar, pensar na vida e procurar outro emprego.

Todo mundo sonha com o primeiro tipo e, enquanto não é tão sortudo, se ilude dizendo que vai cumprir as metas do segundo. Quando na verdade todo mundo sabe que a gente vai mesmo é tirar o terceiro tipo de férias. As férias reais: dormir até tarde e passar o resto do dia no sofá assistindo porcaria na televisão e comendo.

bocozices

Definições

Tesão é mulher de sapatinho decotado, essa invenção do capeta.
...
Macilenta. Palavra inventada para descrever coxa de freira.

catarro verde

11.7.05

IDÉIA PARA UMA CHARGE DANTESCA

Seu Virgílio é o ascensorista de uma grande loja de departamentos. Quem o conhece assegura que é o homem mais paciente do mundo. Nenhum outro agüentaria fazer o mesmo trabalho por milênios, dizendo sempre as mesmas coisas naquela voz monocórdia: "Segundo andar, luxuriosos. Quarto andar, avaros, pródigos. Quinto andar, iracundos. Sexto andar, heréticos. Sétimo andar, tiranos, assassinos, salteadores, suicidas, dissipadores, blasfemos, sodomitas, usurários. Oitavo andar, sedutores, aduladores, simoníacos, mágicos, adivinhos e embusteiros similares, corruptos e prevaricadores, hipócritas, semeadores de ódios, divisões e discórdias, falsários. Nono andar, traidores do sangue, da pátria, dos amigos, dos benfeitores". Como se vê, a loja é pessimamente planejada: a primeira pergunta dos clientes é "Quem foi o arquiteto dos infernos que fez isto?", normalmente seguida por uma resposta do tipo "Sei não, mas acho que é coisa do Niemeyer". Nada disso incomoda nosso ascensorista. Tampouco o fato de o elevador estar sempre lotado de gente fazendo séquiço, matando a si mesma e aos outros, queimando dinheiro ou emprestando a juros obscenos, praticando a alquimia, tendo ataques apopléticos, xingando Deus etc. Seu Virgílio, imperturbável no uniforme made in Mântua, não está nem aí. Afinal, ele sabe que a eternidade é assim mesmo, eternamente.

(Outra charge. Pequeno diálogo entre seu Virgílio e um ocupante do elevador: "Nossa, que roupa bonita essa sua! Muito chique, mas muito mesmo. Sabe que meu sonho sempre foi ser ascensorista? Juro, acho uma profissão linda." "Oitavo andar, pode descer.")

puragoiaba

a Jack Kerouac

dormir dormir... dormir para sempre. dormir de depressão, dormir de desilusão, dormir depois de três quartos de garrafão. dormir certa tarde. dormir nesse meio tempo. dormir repentinamente. dormir e bum! dormir branco. dormir negro. dormir señorita. dormir de bigode. dormir sozinho. dormir seja com quem for. dormir na privada. dormir até Ohio. dormir uma parede de cada lado. dormir de tiro no peito. dormir na varanda. dormir sobre o mármore. dormir por outras razões. dormir na correnteza. dormir sem saco de dormir. dormir antes de partir. dormir tudo aquilo. dormir o mapa-múndi. dormir como sempre faziam. dormir um quilômetro por hora. dormir as idéias. dormir aqui comigo. dormir cada palavra. dormir dormir... dormir para sempre. até que as enchovas se transformem em pó.

Prosa Caotica

7.7.05

Sou uma pessoa muito ruim

Devo ser uma péssima pessoa. Sério, mesmo. Tenho características que, vistas por muitos, são atributos de facínoras. Obviamente, não me considero uma pessoa ruim, nada disso. Isso de "péssima pessoa" é em relação ao senso comum.

Bebês, por exemplo. Não gosto de bebês, crianças etc. Não que me incomodem ao ponto de dar alergia, mas não consigo retribuir brincadeiras sem me sentir um completo idiota. Também preciso me esforçar muito para, junto de outros adultos, demonstrar uma gritante alegria quando alguma criancinha aparece.

Eu finjo, claro. Ninguém além de mim precisa saber que sou uma pessoa ruim. Bom, agora o segredo foi pro espaço. Mas vamoquevamo.

Prefiro um filhotinho de cachorro a um bebê. Posso passar horas brincando com um buldoguinho, mas não consigo ficar mais do que cinco segundos acenando para um caucasianinho. Mesmo se o buldogue for agressivo e o caucasiano animadíssimo, ainda assim minha disposição é maior para com o fuçudo. Vejam, pois, que o caso é sério.

Também preciso confessar que às vezes sou falso. Quando grandes amigos pedem opiniões sobre algo que lhes diga respeito, sou sempre sincero. Mas quando alguns conhecidos, aqueles que não são exatamente amigos, perguntam o que eu acho de qualquer coisa deles (roupa, corte de cabelo, música, texto etc), sempre digo que tudo está ótimo. Mas quase nunca está.

Não sinto culpa por essa falsidade, porque eles agem do mesmo modo. Já fiz de propósito, perguntei sobre algo meu, evidentemente péssimo, e ouvi opiniões elogiosas desse povo. Bom, essa minha desconfiança também é coisa de gente péssima.

gravataí merengue

...

eu só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você. só penso em você, mas conheço muita gente. Baudelaire nasceu no 9 de abril de 1821 e ficou conhecido por Les Fleurs du Mal. Caetano nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Machado de Assis era de saúde frágil, epilético e gago. Cássia Rejane Eller, quando criança, queria fugir com o circo. Michael Cunninghan estudou na Universidade de Stanford e mora hoje em Nova York. Kurosawa trabalhou ilustrando revistas femininas. Alice teve seis filhos, seis netos, e não gosta de coelhos. Mondrian dizia que toda a história da arte chegou aonde tinha que chegar em suas pinturas abstratas geométricas. Borges dizia ser sucessivamente anarquista, socialista, radical y inofensivo. Stanislaw Ponte Preta dizia que sabia fazer ovo frito como Pelé sabia fazer gol. Virginia não tinha tempo para descrever seus planos. eu só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você, só penso em você. só penso em você, mas é certo que conheço muita gente.

Plano B

6.7.05

Desperdício

Ontem ganhei na loteria. Dez reais.
Que merda! Gastei um objetivo de vida com ninharia.

admirável blog novo

5.7.05

QUASE UM HAICAI SILVESTRE

Na mata rala,
A fada fala a tara:
Uma gota de gala no cu de Carla agrada Clara.

São Paulo, 22 de maio de 1993

Igreja da Graça da Criação

Esta pode ser a grande oportunidade da sua vida. Estou lançando a primeira Igreja que funciona (oficialmente) em sistema de franquia. A idéia é simples: eu forneço a Palavra, você a divulga e recolhe a grana dos fiéis. Será cobrada a taxa padrão para esse tipo de empreendimento: dez por cento. E eu ficarei com dez por cento desses dez por cento. Tudo muito simples e regido pelo consagrado sistema decimal para facilitar as contas.

A Palavra? Vamos a ela. Deus é o Criador. O homem foi feito à sua imagem e semelhança, mas perdeu a semelhança por causa dos jornais, da televisão, das escolas e das outras igrejas. Ora, para tornar-se novamente semelhante a Deus, tudo o que o Homem precisa fazer é seguir o exemplo do Criador e - criar. Ao criar, o Homem reconquista a inocência perdida e deixa de cavilar males para seus semelhantes.

"Ah, mas eu sou uma besta, não consigo criar coisa alguma." Você ouvirá essa frase muitas e muitas vezes, e deverá estar preparado para mostrar aos seus fiéis que foi a própria Besta (por meio de seus Agentes) que os convenceu disso. Para vencer esse e outros desafios, você deverá ler com muita atenção a FAQ da IGC e, evidentemente, contar com a minha providencial ajuda.

Abra sua franquia hoje mesmo e deixe-se penetrar pela Graça da Criação até que o Espírito Santo o preencha inteiramente! Mas não esqueça os meus dez por cento.

Amem triagem

lençóis de âncora

Fui dormir outro dia, dia de lençóis limpos, e eu adoro dia de lençóis limpos. Parece que durmo melhor, e eu não sou de dormir lá muito bem. Eu amo dormir, fato, mas meu sono é sempre meio perturbado. Já pensei em várias explicações, meus sonhos não são sempre bons, sempre acho que há algo de aprendizado que posso tirar deles, algo pra aplicar na vida real, enfim. Nunca gostei da hora de dormir. Bem, voltando, lençóis limpos, fui deitar na outra noite, estava frio. Puxei os lençóis de florzinhas azuis e me cobri quase até a cabeça. Daí senti um cheiro familiar. Cheiro de outros lençóis. Senti saudades dos outros lençóis, mas não há nada que possa fazer. Só continuar a sentir o cheiro dos outros lençóis, da casa de outra pessoa, não a minha. Aceitar que não são os meus lençóis. Mas pra mim, sempre serão. E agora, toda noite que eu vou dormir, sinto esse cheiro, e imagino estar perto daquela pessoa com os tais lençóis de âncora.

o muro da dedé

30.6.05

Grandes Vultos dos Anos 70 -06


(ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico)


Filthy McNasty

24.6.05

sara

se sara sarar d. saramp.
sara será sereia
p.is sara nã. é feia
emb.ra nã. seja um anj.
merece um s.l. de banj.

chacalog

22.6.05

fumaça de hortelã

O homem tem um plano ambicioso: inventar um cigarro inócuo, sem tabaco, sem nicotina. "Este não mata", multiplicam outdoors; um autêntico benfeitor da humanidade, ora se não. Ainda hoje ele pode ser visto perambulando, muito compenetrado, fumando matinhos sem nome em quintais alheios. "Minhas pesquisas", é tudo o que diz quando perguntado, virando o rosto antes que se lhe notem o cansaço nas pálpebras.

1 leitor Online

...

o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivarius no grande desastre
aéreo de ontem




mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

também temos café e cigarros

12.6.05

O Estraga Prazeres

- Uau! Que noite...
- Dormiu mal?
- Hum? Não... imagina. Tive um sonho erótico da melhor qualidade... E com o Casagrande... Dá pra acreditar?
- O jogador??
- É! O corintiano... Que coisa que é aquele menino. Nunca tinha reparado... Quem diria?
- Eeei, acorda! Foi um sonho. Eu estou aqui!
- Bobagem mozinho... Vai ter ciúme de sonho?
- ...
- E que sonho! E que noite! Salve o corinthians...
- É... deve ter sido uma noite e tanto mesmo. Uma noite "Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha"!
- Estraga prazeres...


Licor de Marula com Flocos de Milho Acuçarados

11.6.05

De repente

Bateu uma vontade de engasgar ao ouvir "Vento no Litoral". Uma vontade de sentir o coração disparar sem mais nem mais ante a visão de alguma garota imberbe tamaqueando pelas calçadas duma cidade litorânea. De olhar para o mundo à minha volta e morrer de insegurança pelo que ele pensava de mim. De sorrir ante a mínima expressão de espirituosidade. De apagar a luz e botar Waiting for the night, do Depeche Mode, ou Niagara, do Inspiral Carpets, no meio da noite da casa vazia. No máximo volume. Com um travesseiro na cara. De escrever e desenhar um diário. De hesitar ante a pergunta sobre o que eu seria quando crescesse. De ler Ana Karenina recostado no meu travesseiro de solteiro, torcendo pra ninguém lembrar que eu existia pelas horas seguintes. Deu, de repente, uma nostalgia.

Que passa logo, porque a vida insiste.

é por aqui que vai prá lá?

surto fashion descontrol é você, vendo que não tem uma meia que combine com a produção do dia, não pensar duas vezes antes de esgaçar a soquete rosa 27 a 32 da filha no seu pezinho 38 (torcendo para aquele "Barbie" enooorme no tornozelo ficar devidamente escondido pela barra do jeans) .

kaleidoscópio

Manhã de segunda-feira. Chuva.

Se estivéssemos em 1982, eu acordaria sem preocupações e ficaria brincando até a hora da escola. Em 1983, inventaria programas e entrevistas e passaria a manhã inteira fazendo gravações com meus irmãos no meu super-gravador-portátil. Em 1984, a manhã seria pequena para ler todos os livros que eu teria trazido da casa do meu avô no domingo.

Em 1985, perderia minutos preciosos de sono chorando na frente de um copo de nescau que eu não queria beber. Em 1986, calçaria um tênis de cor "proibida" pelas regras da escola e planejaria a estratégia para entrar sem ser vista pelo inspetor, como se esta fosse a maior transgressão do universo. Em 1987, correria para o espelho para verificar se o cabelo estava num "dia bom" e passaria lápis azul no olho, porque o ridículo não tem limite nem idade.

Em 1988, daria graças a deus por voltar a estudar à tarde, ficaria lendo, ouvindo música e a chuva seria uma desculpa para não ir ao mercadinho comprar um ingrediente de última hora pro almoço. Em 1989, inventaria histórias para não fazer aula de educação física. Em 1990, amaldiçoaria o despertador e testaria a cada dia sair de casa um minuto mais tarde e andar mais rápido.

Em 1991, teria vinte minutos entre o despertar e o início da primeira aula, e bateria todos os recordes de velocidade conhecidos. Em 1992, pensaria, "mas não levanto da cama com chuva pra ir à aula nem que me paguem". Em 1993, dormiria até a hora do almoço.

De 1994 até 1997, levantaria com cada vez mais esforço e iria me arrastando pro trabalho enquanto tentaria lembrar dos detalhes do fim-de-semana e juraria que nunca mais iria beber.

Em 1998, nem cogitaria levantar cedo pra atravessar a poça com chuva. Em 1999, pensaria se já não era hora, afinal, de comprar um guarda-chuva. Em 2000, não teria tempo de pensar em nada enquanto saía de casa correndo, acumulando trabalhos e sempre atrasada.

Em 2001, sairia para trabalhar com prazer enquanto faria contas e mais contas, descobrindo que montar uma casa não é brincadeira. Em 2002, descobriria que trabalho nem sempre é prazer. Em 2003, não precisaria acordar depois de passar a noite em claro fazendo contas e mais contas e descobrindo que manter uma casa também não é brincadeira (mas é um prazer). Em 2004, voltaria a fazer planos e acordaria com um sorriso no rosto.

Em 2005, acordaria com um telefonema do meu chefe e perguntaria porque, afinal, não podemos ficar em 1982 para sempre.


bocozices

Nomes amaldiçoados

Talvez o pior legado da música sertaneja não seja as histórias de cornos chorosos, mullets e vozes estridentes, mas algo muito pior.
Sempre que sou apresentado a alguém chamado Leandro ou Leonardo não consigo saber, cinco minutos depois, qual o nome certo dessa pessoa.

cris dias

Contei para o Pan que as mulheres que posam para a Playboy têm fitas adesivas puxando as dobrinhas a mais e computadores que apagam as celulites e as marquinhas. Para que meu filho não passe a vida inteira em busca de uma mulher perfeita.

Os diários de Marina W.

Edredon

A gente sente mais frio quando está sozinho.

Blowg

Come as you are

[generalizações mode on]

Todo argentino é arrogante. Toda mulher dirige mal. Todo homem é safado. Todo homossexual dá gritinhos. Toda menina usa rosa. Todo cearense tem cabeça chata. Todo baiano é preguiçoso. Todo gaúcho é machista. Todo paraense é ladrão. Toda maçã verde e dura é ácida. A mulher amazonense é fácil. Todo índio fala usando os verbos no infinitivo e gostar de beber cachaça de branco. Todo advogado é inescrupuloso. Toda loira é burra. Preto quando não suja na entrada, suja na saída. Chocolate dá espinha. Parnasianos são vazios. Românticos são irreais. Publicitários são o Roberto Justus. Peito duro é silicone. Macho que é macho não chora, não abraça, cospe no chão e coça o saco. Meninas educadas falam baixo, sentam de perna fechada, batem as pestanas e usam calcinha de algodão. Todo libriano é distraído. Todo morador de periferia ouve som alto na porta de casa. Um menino de 8-10 anos, de bermuda, chinelo, magrinho e moreno tem grandes possibilidades de te assaltar. É preciso "ser alguém" na vida. Todo abacaxi é amarelo e cheiroso. Toda mulher gosta de receber rosas. Franceses não tomam banho, são xenófobos porém bons de cama. Ingleses são pontuais e levemente tristes. Todo evangélico anda com a Bíblia debaixo do braço. Toda evangélica tem dois metros de cabelo. Funcionários públicos passam o dia tomando cafezinho. Mulher bonita é mulher jovem, magra, com a pele firme e o cabelo reluzente, sem um fiozinho apontando pra cima.Sobrancelhas finas e pernas depiladas. Livros bons foram escritos há, pelo menos, quarenta anos. Sexo são duas pessoas entre quatro paredes. Em silêncio, pra não incomodar os vizinhos. Blogueiros são super-cali-fragi-listic-expiali-doce.Roqueiros usam tatuagens e camisas pretas. Costumam ser satanistas e depressivos, também. Pessoas que entendem de música clássica são chatas e cansativas, além de darem sono. Professores são pessoas que não sabem fazer as coisas, portanto resolveram ensinar. Estudantes de Filosofia fumam maconha. Estudantes de Pedagogia são mulheres. Estudantes de Administração não sabiam qual curso escolher. Políticos são corruptos, e a gente escolhe o menos pior. No meu tempo é que era bom. Essa geração está perdida. As mulheres se casam sempre antes dos trinta (se não viraram freiras) e mesmo que não queiram.

[generalizações mode off]

As aventuras da menina prodígio

2.6.05

A SIMPLICIDADE

Vivemos em voz baixa, recriminando nossos atos, censurando. Quem não se flagrou falando sozinho, a praguejar uma idéia? Quem não teve a mania de se piorar, para gerar pena e complacência? Quem não se exagerou para recuperar a solidão? Apagamos a simplicidade, o sol assanhado lavando a calçada, os pássaros ajudando as árvores a tirar a camisa, os cachorros com o olhar familiar de mendigos, as pequenas delícias de fazer parte do mistério. Não podemos ter vivido tão errado, tão torto, a ponto de não deixar nada. Não acredito em páginas brancas. Alguma coisa está por baixo. Alguma coisa poderá ser lida com o relevo da claridade. Que minha mulher possa se lembrar dos momentos em que não prestava atenção à alegria para ser a alegria. Que ela possa achar graça, sem a minha ajuda, quando procuro desajeitado as contas na gaveta. Que possa se emocionar de preguiça quando levanto de noite para ver se fechei a casa. Que possa se render quando deito no chão de igual para igual com os filhos a brincar de bolinha do banheiro ao quarto. Que a rotina não seja tudo igual, e sim uma maneira silenciosa de ser diferente por dentro. Que não critique a mãe quando ela recordar da minha infância em público e acrescente um detalhe às lembranças. Que ponha semente no chão, não no lixo, a esperar que uma delas venha a me surpreender com a minha altura. Que possa tocar no assunto com volúpia. Se eu fui afetado, ambicioso e irresponsável, que a ternura me devolva o equilíbrio e peça desculpas distraído, beijando a mão do vento. Que meus amigos tenham confiança em mim e fiquem com vontade de beber mais e conviver mais quando meu nome aparecer na conversa. Que tenha sido um leitor dedicado quando amante, com os olhos fechados pela pressão dos lábios. Que algo que tenha dito de carinho venha aparecer ao lado de um palavrão. Que encontre cartas e cartões em meio aos livros e leia como se fosse a primeira vez que estou os recebendo. Que não seja tolerado, que não seja útil, que seja necessário mais do que sou. Que não volte com conversa abatida de que nada dá certo. Que seja corajoso a dizer o que pensava do que a não dizer o que pensava. Que tenha uma religião, mesmo que seja uma coleção de selos, e acredite que o mundo é um complô de Deus para me proteger. Que tenha companhia no trem, a abafar o apito da porta. Que possa viver desapegado do nome e da condição do nome, como um boi que não se envergonha da terra. Que possa aquecer a cama antes da minha mulher entrar. Que possa aquecer meu corpo antes de minha mulher entrar. Que possa aquecer o que já estava esquecido em mim.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

1.6.05

Periclitante Périplo Paulista

Quando comentei com meu pai que estava indo me encontrar com uma mulher casada, ele disse apenas:

Mulher casada tem gosto de chumbo.

Eu iria me lembrar disso mais tarde.

(…)

Periclitante Périplo Paulista em Liberal, libertário, libertino