12.5.06

EUTANÁSIA DE FOLHETIM

Desliga esses equipamentos, sim. Não só autorizo como ordeno. A única coisa que quero de você é que desligue esses equipamentos na hora certa e depois esqueça tudo. Não preocupa com remorso – ele não vai acontecer, te garanto. E quando eu não existir mais tudo tem de desaparecer junto: os papéis na mesa com minhas anotações, minhas coisas, até mesmo aquela antiga foto no porta-retrato, lembra?: o casal, à frente do letreiro do hotel Termidor, sorrisos tão jovens quanto tristes. Ela, bela demais, e que nunca amou quem quis. Ele, que só esquecia a melancolia quando ouvia My Foolish Heart com o Billy Eckstine, veja só. Pois agora tudo vai se arranjar. A incapacidade para o amor está nos genes: cá estou eu para comprovar. Mas vou fugir da breguice do sangue na banheira, da comicidade tosca de miolos estourados na parede, do kitsch das pílulas. Você, que não retribui minha paixão, que sempre insiste na condição de aluna apaixonada só pelo brilhantíssimo professor, pelo gênio da Física Quântica, e nunca pelo homem; você que com sua indiferença me faz querer deixar de existir – justamente você é quem vai desligar os equipamentos dessa máquina. Primeiro eu entro nela e me transporto (já calculei tudo: dia, hora, lugar) para 1961, para a frente do Hotel Termidor, para ver chegar aquele jovem, belo e triste casal em lua-de-mel, e já na entrada vou me apresentar, vou convidar os dois para um martíni no bar do hotel, por fim vou dizer para não fazerem aquilo, de procriar sem paixão. Vou insistir para que tenham é compaixão de si mesmos, vou sugerir que um dia – ah, um dia – cada um vai achar o amor de sua vida, e sei que eles entenderão. Olhando no meu olho eles vão entender que eu sei o que digo. Ela chorará, num amargo alívio, e mostrará que mesmo chorando é tão bela. Ele concordará em ir comigo num passeio pela estrada, para continuarmos a encher a cara ouvindo música no rádio do carro. Eu, claro, não mais serei. Você só tem que prometer isso: desligar os equipamentos da máquina depois que eu chegar lá, para evitar que eu caia na tentação de desistir e voltar para você. Só assim essa máquina nunca terá existido, todo este laboratório também – e você, por conta deste ato de misericórdia, jamais terá sabido de mim. É o que me concedo: morte sem cadáver. Mas embalada por My Foolish Heart, com o Billy Eckstine, num auto-rádio em alguma dimensão de todo esse emaranhado quântico aí. E então? Promete?

Ao Mirante, Nelson!

11.5.06

FRAGMENTOS DE UM BARRACO AMOROSO

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.
Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”
Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente, SANGUE, SANGUE, SANGUE!!!
Sem reticências...
Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.
O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!
O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.
Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.
Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.
O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.
(…)

O Carapuceiro

9.5.06

Ainda sobre Corinthians x River (parte 3)

Quando a polícia sentou o pau em quem nunca pensou em apanhar, lá na cadeira laranja, eu fiz o caminho contrário novamente e voltei para a arquibancada amarela, onde tudo estava mais controlado. Encontrei o Pulguinha chorando, enquanto um outro rapaz, também chorando, o alertava sobre um associado gravemente ferido na enfermaria. Fui com ele até lá e o cenário era de guerra: um menino praticamente sem nariz, pessoas fraturadas, desfiguradas por causa de bomba, de pancada, de tiro de borracha. Policiais e torcedores, um deitado do lado do outro.

Saí de lá embasbacada, com uma tremenda vontade de vomitar e uma sensação de que tinha tomado uma garrafa de vodca sem passar pela garganta. Deixei o estádio pela porta principal, exatamente por onde tinha entrado. Do meu lado esquerdo, toda a cavalaria da Tropa de Choque com suas espadas enferrujadas. Do meu lado direito, chuva de tiro de borracha. E bomba. Bomba por toda a praça até a Avenida Pacaembu. Não passei nem pela esquerda, nem pela direita. Fui pelo meio até encontrar a primeira escadaria do Pacaembu.

Subi ouvindo uma menina dizer que nunca mais ia ao estádio, muito menos assistiria a jogos do Corinthians para não dar ibope. Eu ainda nem tinha me dado conta de que o Corinthians estava eliminado da Libertadores. Andei até a rua onde o irmão da Alê parou o carro, achei o Corsinha branco, sentei e comecei a tremer. Nessa hora, nenhum amigo estava junto porque tínhamos nos perdido. Absolutamente todo mundo se perdeu de todo mundo. Luquinhas também teria se perdido, assim como dezenas de crianças choravam sem os pais no meio de toda aquela confusão.

Quando me dei conta de tudo o que tinha acontecido, comecei a chorar também e só fui parar na sexta-feira de noite. Não era a eliminação do Corinthians, nem o medo de nunca mais ver meu filho por causa de um jogo de futebol. Não era só isso. Era uma frustração, uma derrota pessoal de quem tem a pretensão de mudar algo que está errado por meio do futebol e não sai do lugar. De quem não deu nem dois passos a frente, mesmo com todo o esforço.

(…)

Blog do Juca

Ah, sim, a nossa maturidade...

- Já superamos o chão! - disse o chefe da caravana, quando percebeu que todos flutuavam a alguns centímetros do gramado.
E festejaram juntos, e caminharam juntos sem deixar pegadas rumo ao desfiladeiro mais próximo.
Não lamento informar que morreram todos na queda, sem nem a dignidade de haverem chegado até o fundo.

Diferença Nenhuma

5.5.06

Eu.

Deprimida. Pra variar. Tomei boleta, fui pra cama às 7. Meia-noite e pouco acordo, Alexandre no travesseiro do lado, lendo, quietinho. Chegou, jantou na panela e veio pra cama mudo, o santo. Conversamos um pouquinho, ligo a tv pra voltar a dormir com barulhinho. Tá lá um moço. No programa dum gorducho bigodudo de cara simpática (não me peça nomes, eu tava drogada e deprimida, não necessariamente nessa ordem)
O Gorducho:
- Qual era o nome da virgem francesa que morreu queimada na Idade Média?
E o moço:
- Medusa.
Voltei a dormir menos culpada da minha depressão, das boletas, da vida. Não sou só eu que tou perdida.

¡Drops da Fal!

Almirante, sem medo de ser polêmico:

“Quem não gosta de tomar medidas
extremas é o alfaiate do Long Dong Silver.”

Ao Mirante, Nelson!

2.5.06

MOCCA CHOCOLATA YAYA (Parte Final)

Nas cenas anteriores, Voz na Minha Cabeça, por tédio camusiano or something, matou Mulher da Seicho-no-Iê. Com a chegada de convidados para jantar, entre eles o Inspetor McAndrews, Alexandre e Vnmc são obrigados a fingir que o cadáver da Mulher da Seicho-no-Iê é um pufe.

Quando por último encontramos nossos personagens eles estavam indo para a mesa de jantar. Agora estão ao redor dela, condenados pela artificialidade implacável do teatro brasileiro a ficar em pé, quase sem falas. Alexandre olha absorto para uma samambaia.

(…)

Vnmc – O que fazemos com o cadáver?
Alexandre – Que cadáver?
Vnmc – O da mulher da Seicho-no-Iê na outra sala, não vai dizer que já esqueceu...
Alexandre – Ah, a mulher da Seicho-no-Iê! Uma Cazuza de sua época!
Vnmc – Mas o que fazemos?
Alexandre – Vou dizer que vou pegar uma garrafa de vinho na adega e me livro dela, enqanto você distrai os convidados com os seus comentários negativos e debilitantes.
Vnmc – Mas como vai se livrar dela? Não vai colocar na comida que nem fez com o Telê Santana?
Alexandre – Não, fique sossegada.
Vnmc – Por favor, hein?
Alexandre – Que é isso.

Sentam-se.

Vnmc (baixo, para Alexandre) – Não vai pegar a garrafa?
Alexandre – Hein?
Vnmc – A garrafa. Na adega.
Alexandre – Mas está aí na mesa.

Vnmc chuta Alexandre por baixo da mesa.

Alexandre – Ah é. (levanta) (Para todos) Vou pegar uma garrafa! (pisca) Na adega! (pisca)

Alexandre sai.

Major Fonsequinha – Por que ele piscou?
Inspetor McAndrews – Evidentemente não foi pegar uma garrafa na adega.
Major Fonsequinha – O que foi fazer então?
Inspetor McAndrews – Não tenho a menor idéia.
Vnmc – Ele tem vergonha de dizer, mas ele tem problemas de incontinência urinária.
Major Fonsequinha – Mas por que piscou então?
Vnmc – Uma espécie de reforço dramático. Ele estudou com Lee Strasberg no Actor´s Studio.
Convidado 1 – How exquisite!...
Convidada 2 – Molto sexy!...
Convidada 3 – Mais oui!...
Vnmc – Sim, sim, vocês têm que falar alguma coisa. Major, está gostando da salada de maionese?
Major Fonsequinha – Estou, mas o que é isto? Meu Deus, tem uma carteira nela.
Inspetor McAndrews – Não é uma alcaparra?
Major Fonsequinha – Acho que eu sei a diferença entre uma carteira e uma alcaparra.
Inspetor McAndrews (sentido) – Bom, aparentemente só eu não sei. Desculpe, Sua Majestade (faz uma vênia).
Major Fonsequinha – Vejamos o que diz a carteira de identidade.
Vnmc – Ah! É minha, Major! Se puder passar...
Major (lendo em voz alta) – Telê Sant...
Vnmc (levantando de um pulo e pegando a carteira das mãos do major) – É minha, com licença.
Major – Seu nome é Telê Santana?
Vnmc – Santini. “Voz na Minha Cabeça” é apenas o meu nome artístico. (estica a mão para um prato) Ah, um agasalho da Nike na salada de pepino. Vou tirar isto aqui discretamente e vocês fingem que não viram.

(…)

Alexandre Soares Silva

28.4.06

O Orkut será pago

Por favor, reserve alguns minutos do seu precioso tempo e leia esta mensagem IMPORTANTÍSSIMA.

Seguinte: o Orkut vai passar a ser pago. Nós, cidadãos pertencentes a um país com alta capacidade de indignação diante de causas irrelevantes, precisamos fazer algo urgentemente! Por isso mande imediatamente um e-mail com esta mensagem para 25 pessoas de sua lista, e um Orkut atualizado (seja lá o que quer que isso signifique) aparecerá em sua tela! Depois, envie esta baboseira para mais 25 pessoas, porque o Google, interessado em aumentar sua base de cadastrados, presenteará você com um celular da Nokia e uma viagem para a Disneylândia, e fará ainda uma doação de 100 mil dólares à Fundação das Macacas Bulímicas que Dançam Macarena Compulsivamente no Zoológico de Xiririca da Serra!

ADVERTÊNCIA: Herbert Steira, 42, ignorou esta mensagem e morreu de indigestão após ter comido três hambúrgueres do McDonald's feitos com carne de minhoca. Juninho Billy, 27, também a desprezou, foi seduzido pela prima do concunhado da vizinha do seu melhor amigo e acordou no dia seguinte numa banheira cheia de gelo, encontrando ao seu lado um bilhete informando que um rim e metade dos seus neurônios haviam sido roubados.

Já Bete Tuda, 34, passou um dia inteiro no Orkut fazendo comentários na comunidade "Eu Acredito no Zé Dirceu e na Velhinha de Taubaté" e deixou seu filho contrair leptospirose ao tomar Fanta Citrus em uma lata contaminada com urina de ratos. Last, but not least: Indignada da Silva, 19, encaminhou um e-mail indignado aos seus amigos no Orkut desmentindo este boato, queixando-se da "ignorância de certas pessoas que crêem em tudo que lêem na Internet e abarrotam caixas postais alheias com correntes idiotas", e encerrou seu desabafo solicitando a todos que repassassem adiante o seu esclarecimento...

Pensar Enlouquece. Pense Nisso.

27.4.06

E de Eráclito

"É impossível pisar no mesmo rio duas vezes. Talvez num lago congelado."

I de Istória

"Nenhum Homem é uma ilha, isolado em si próprio. Geralmente é um arquipélago.

A morte de qualquer pessoa te diminui, porque tu és de esquerda e te sentes envolvido, cativado, quase que enrabado pela Humanidade.

Portanto, nunca perguntes por quem os sinos dobram: pergunte se é casamento ou velório. Se dá pra filar bolo, ou se só vai rolar café." (John Long Donne)

dies iræ

25.4.06

revelações pré-copa do mundo

sempre que leio o nome da seleção de Sérvia e Montenegro, só me vem à cabeça aqueles adesivos de carros com nomes de pessoas que se amam, tipo "Séforah e Gleydson". E o carro que imagino quase sempre é um Chevette.

Silenzio, No Hay Banda

Estudos antropológicos no cinema

Minha idéia de entrevista na entrada da sessão:

1) O senhor sabe que filme está indo assistir? O filme, sabe de que diretor é? Ah, o senhor acha que isso não tem importância? OK, próxima questão...

2) O senhor gostaria de um megafone para que as outras pessoas ouvissem as suas opiniões com mais clareza? Aceita? Ok. Ah, o senhor quer mais um para os seus amigos? Eu verei o que posso fazer, senhor.

3) O senhor se sentiria mais relaxado se, antes da sessão, o cinema oferecesse um espaço para que se brincasse numa piscina com bolinhas de plástico? Sei, o senhor também acha que um pouco de Trash 80s combina com o ambiente? Sim, e pirulito DipiliQ também? Senhor, pare de dançar por um momento, só até o final da entrevista. Entendi, o senhor diz que quer mais é ser feliz. Senhor... Senhor...

E na saída:

4) Qual foi a graça da cena em que o ator mostrou o pênis? Ah, sei, o senhor achou engraçado que eu falei pênis? Seria mais sério se a legenda tivesse escrito pinto? Ah, pinto também faz você rir? Entendi, e se fosse piroca? OK, desculpe causar um ataque de riso, pulemos para a próxima questão...

5) Explique-me a emoção que causa aplausos em certos momentos do filme. Ah, é porque ele citava o David Lynch? OK, não estou pedindo para que o senhor aplauda agora, só quero saber a sensação que te causa. Ah, sei, a vontade de aplaudir é irresistível, O cara é muito bom. É isso? Entendi, O cara é foda. Senhor, preciso que pare de aplaudir para que eu consiga te ouvir. Prossigamos...

6) Para encerrar, reparamos que algumas pessoas ficaram incomodadas com os toques de alguns celulares. O senhor acha que ajudaria se cada pessoa na platéia tivesse um controle remoto para pausar o filme, atender o telefone, e depois retomá-lo? Ahn? O senhor quer perguntar pra Lili o que ela acha? Está bem. Ela gostou da idéia? Obrigado pelas respostas, esperamos em breve melhorar sua experiência no cinema. Tchau.

:: At War With The Mystics ::

23.4.06

Sexo de meia e brigadeiro de panela:

o inverno chega cedo em Curitiba.

Vizionarios

22.4.06

Como manda a cartilha

Não ouço vozes, não vejo espíritos, não tenho a menor lembrança de outras vidas. Nunca fiz uma viagem astral, nunca tive sonhos premonitórios, nunca o menor vestígio de duendes, fadas, elementais. Não faço idéia de qual é meu anjo, animal totem, signo ascendente. Não me lembro de ter visto algum relógio marcar 11:11. No meu céu nenhuma luz se move, no meu mar, nem Iemanjá nem Poseidon, nenhuma cobra na coluna vertebral. Os gatos simplesmente me ignoram, as pombas brancas fogem assustadas. O abismo nunca olhou de volta, o arrogante. Nem acordei com uma flor azul nas mãos.

Que tipo de idiota aprende tudo assim tão certo?!
Definitivamente, amigos, também meu reino não é deste mundo.

mas talvez não faça mesmo diferenca nenhuma...

O Par

(…)

Andar na rua é uma aventura só comparável às de Tolkien. Com tantos e tão bons pares, que todos os dias encontro pelo caminho, cheguei à única conclusão possível: Deus é Gay. Só assim se compreende que existam em média seis pares para cada homem e os cavalheiros sejam despachados para o reino dos céus mais depressa do que as senhoras. Se Deus fosse verdadeiramente heterossexual guardava a Scarlett Johansson só para ele. Chocados? Não fiquem. Há pior. Muito pior. Deus é tarado. Qualquer pessoa que tenha visto dois dedos de pornografia sabe isso. Porquê? Porque ele vê tudo. Vocês agarram a maminha da vossa mulher. Ele vê. Vocês tocam uma na casa de banho. Ele está sentado no penico. Vocês espreitam a saia da secretária. Ele é o vento que sopra. Alguém desce ao rés-do-chão. Ele agacha-se. Vêem pornografia. Ele está ao vosso lado. Deus é um voyeur. Pensem nisso da próxima vez que estiverem a planear fazer mais dois ou três catraios. Ginecologista? Pediatra? Qual quê. O que é preciso é ir já a correr ao psicólogo. E já agora, dêem um saltinho na igreja para rezar uma dezena de Ave marias. No mínimo. E nunca se esqueçam: nada de pensamentos obscenos. Porque ELE sabe.

(…)

Diário de Tiago Galvão

Sombras

Há um despropósito tão grande em todas as coisas. E Mário disse, "é engraçadíssimo." Tudo em um cômico profundo. E essa gente toda se levando tão a sério, e discutindo Proust e versos tocantes de poetas brasileiros menores, e vendo força e beleza em uma palavra, singela palavra, isolada palavra. Agonia. Gritos. Oras! Despropósitos tão grandes. Música tocando como se não tocasse. Indiferenças. Desfalar de um que tentou compreender coisas demais muito mais do que deveria ou poderia. Quem está mais certo? Por que se importar. O passado aconteceu e estará acontecido também amanhã, e um pouquinho mais ainda daqui um ano. O passado desvirtua tudo. Somos sombras, sempre sombras, e sombras buscam a luz porque na escuridão elas deixam de existir. Sombras rastejam. Generalizações e outros erros rebaixando o futuro a um mundo de sombras, cada vez mais porque as pessoas desacreditam nos efeitos do tempo e as pessoas se esquecem que o presente não é nada demais senão o que está para se fazer passado, e o passado um monstro gigantesco com uma boca enorme a devorar tudo que encontra pela frente.

Forsit

HOMENS PERFEITOS NÃO SÃO HOMENS

"Ai, não tem homem no mundo", "Ai, eles não são românticos", "Ai, ele não abaixa a tampa da privada", "Ai, ele só pensa em futebol"... Pare, querida! Antes que seja tarde demais.
São raras as mulheres que gostam e respeitam a natureza masculina sem tentar transformá-la. As lésbicas são as únicas que admitem (mesmo que inconscientemente) que mulheres são criadas para gostar de mulheres e não para gostarem de homens. Elas se poupam da tarefa insana de mudar os homens e não ficam empatando o jogo como muitas mulheres que tentam, a qualquer custo, acabar com o que ainda existe de masculinidade neste planeta.
Que a verdade seja dita: hoje em dia, um homem que preencha todos os requisitos do homem perfeito não é um homem; é uma mulher.

(…)

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Da série Republicação a Pedido - A VERDADE

Sabe aquelas eternas dúvidas sobre se o Bofe está a fins ou não está a fins? Aquela coisa que dá vontade de ir à cartomante, jogar tarô, comprar bola de cristal? Aquilo de ligar pras amigas às quinze pra meia noite para pedir um auxílio na interpretação da resposta dele da mensagem que você recebeu pelo celular? Tudo isso é coisa do passado.

Nós, as Megeras Magérrimas, vamos ajudar a superar esse dilema do ele está ou não a fins.

1) Minha filha, se você abalou Bangu, abalou de cara. Ele não vai ter sido meio morno da primeira vez que vocês ficaram juntos, meia boca da segunda, para dois meses mais tarde ele descobrir que você é a mulé dos sonhos. Se não bagunçou o coreto de chinfra, never more. Próximo!

2) Ele disse que depois te liga? Se não ligar no máximo três dias depois, não liga mais e se ligar, é porque não achou nada melhor para fazer (ou comer). Homem que ficou realmente interessado, vai querer marcar território e LOGO, antes que algum gavião apareça e leve sua princesinha embora.

3) Ele disse que depois ELE te liga? Então não ligue. Ou ele está dizendo que ELE vai pensar no assunto, ou está dizendo que ELE dá as cartas. Se você quiser ligar, tudo bem, mas aí não dá para saber do real interesse do rapaz e é possível que ele entre numas de “já que você insiste...” Tudo bem, se pra você isso pouco importa, o negócio é aproveitar e fim.

4) Se ele disse para VOCÊ ligar e você estiver a fins, ligue. Ele tomou essa atitude porque não ficou convicto de que você está interessada. Ligue e pronto.

5) Se ele não ligou não é porque você deu, nem porque você não deu. É porque não rolou o clima certo. Pelo menos pra ele. Desencane, parta para outra, chame a senha seguinte. Nada pior que uma mulher correndo atrás de bofe desinteressado, mandando mensagenzinha besta pro celular, arrumando desculpa para ligar, numa coisa encalhada pelamordedeus-me-chama-pra-sair. Assim como a gente ODEIA bofe uó pegajoso, que fica na cara que está tentando chamar atenção mandando mensagenzinha besta, e-mailzinho triste, ligando com desculpazinha esfarrapada, eles também percebem essas manobras idiotas. Se manca.

6) Se ele estiver realmente interessado, vai deixar bem claro. Se ele for meio que meio, mais pra lá que pra cá, ficar se fazendo, é porque tá te cozinhando até arrumar coisa melhor. Isso de mandar um mail na vida outro na morte, te incluir em lista de piadinha, vez por outra mandar mensagem no teu celular pra saber como você está, é furada, é só pra te manter orbitando no harém de Vossa Excelência. Nenhum homem que está realmente a fins faz isso. Homem a fins convida para jantar, pra ir ao cinema, para sair. Manda o morninho seguir. Dá um vale transporte pro garoto e larga no ponto de ônibus. Dispensa.

7) Se ele ligar e você estiver realmente a fim, tope o programa. Fazer joguinho de cena é de uma imbecilidade atroz. Se ele é do tipo caçador que precisa de resistência e emoção, esconde-esconde, momentos de tensão, que vá fazer safári. Seja sincera, fique feliz, tope e vá linda, bela, cheirosa e capriche no modelão.


OBS.: Aos defensores do vernáculo de plantão, aviso que a expressão "a fins" é de minha própria e intransferível autoria, trata-se de neologismo apoplético e eu assumo total responsabilidade pelo atentado contra a língua pátria.

Megeras Magérrimas

19.4.06

QUINTA (6/4), 16h30, GUAÍBA, PORTO ALEGRE

Eu cheguei às 16h30 na Usina do Gasômetro para ser fotografado pelo jornal Zero Hora. O vento estava morno, fazia o rosto vibrar entre as cordas dos cabelos. Um senhor comentava para três brigadianos a cavalo: - ela diz que a água está quentinha. "A água está quentinha!"

Ela é uma menina bonita, sei apenas isso até agora, que largou na margem o moletom rosa, a bolsa de pano e as sandálias Azaléia e decidiu mergulhar no Rio Guaíba poluído e perigoso para o banho. Foi de jeans e camiseta. A área é pedregosa e cheia de buracos. Ela não estava interessada em riscos. Ficou boiando de costas, perto de um bar flutuante, em que conversava com os freqüentadores. Os passantes começaram a brincar e apontar para a excentricidade do entardecer, como se ela fosse um avião voando rente dos edifícios. Com malícia, alguns queriam ver como ela deixaria a água. Com medo da tragédia, muitos pediam para que ela saísse logo da água.

Um dos brigadianos disse para um grupo de curiosos: "deixa ela lá". Ouvi bem, mas não entendia o que estava acontecendo. As patas dos cavalos separando a grama, girando nas encostas. Os brigadianos não se aproximaram dela, não a coibiram, não gritaram para que voltasse, não avisaram dos riscos. Acharam natural, assim como é natural enrolar papel seda na beira das pedras, assim como é natural jogar sujeira no rio, assim como é natural esperar o pôr-do-sol. A menina bonita era uma banalidade que não merecia repreensão e resgate. Não merecia sequer um telefonema. Não merecia.

O banho durou vinte minutos. Ela de repente esticou a mão esquerda, onde poderia ter uma aliança se pudesse casar um dia. Ela naufragou rapidamente e sumiu na sucção escura. Dois homens pularam na água e rodearam o local da desaparição. Deram braçadas desesperadas, em voltas. Não havia mais ligação da carne dela com a superfície.

Percebendo o tumulto, os brigadianos vieram para socorrer. Mas era tarde. Sempre é tarde para descobrir que é tarde.

Restava a sua bolsa na terra. As anotações do curso de informática que estava fazendo, o celular com a última ligação para sua tia, os documentos e adesivos de adolescente. Até a carteira de identidade era uma cópia xerox da verdadeira identidade, talvez perdida. Seu nome era Tatiana Pereira, 16 anos. Era. A menina bonita que sorria da travessura na espuma voltou de bruços para areia, inchada, triste e dolorida. Diferente. Infelizmente morta. Não irá ao seu próprio aniversário depois da Páscoa.

Toda dia acordarei com a certeza de que poderia ter feito mais do que olhar. Poderia ter sido um pouco mais do que omissão de viver o que me interessa e não se importar com os outros.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

Falar da cor, dos temporais, do céu azul, das flores de abril

- Fal?
- Eu.
- Acordei o Alê?
- Nada acorda o Alê, Ana, vc sabe, ele desmaiou às 9 e meia.
- Que vc tá fazendo?
- Vendo Ronifon e me preparando pra assistir o Jô, pq ele vai entrevistar o Ronifon.
- Ah, que programão.
- Si fudê.
- Rárárá. Vi vc na televisão, falando de blogs.
- Foi.
- Vc não sabe falar de mais nada?
- Não, e nem disso. Eu engano, vc sabe.
- Eu sei.
- Ou tento enganar, o que é pior.
- Eu sei.
- As meninas tão boas?
- Insuportáveis e boas.
- Bom.
- Sua mãe tá bem?
- Agora tá sim.
- Eu li no blog que de domingo pra hoje vc não dormiu vendo filme de mulher que chora no box.
- Verdade.
- Dormir pouco engorda, vc sabe.
- Vai à merda, Ana.
- E hoje, vc tá com sono?
- Não.
- Tem programa?
- Mas criatura, eu não acabo de dizer que vou ver o Ronifon no Jô?
- Ah é.
- Então.
- Eu tou na minha mãe. Tem reunião financeira essa semana e eu tou em São Paulo.
- E só avisa agora, cretina?
- É, ué.
- Sei.
- Comprei uma garrafa de rum.
- Ana, são quase 11 da noite!
- Vc tem limão aí?
- Ana, são quase 11 da noite!
- Tem ou não?
- Tenho.
- Gelo?
- Tenho.
- Seu liquidificador funciona?
- Funciona.
- Vc precisa jogar essa merda fora e comprar um de jarra de vidro que nem o meu.
- Olha aqui, ele funciona, tá?
- Tou indo.

Quando o belo Ronifon entrou no palco estávamos pra lá de bagdá, senhores.
Só lembro vagamente da entrevista e dele cantando de mão no bolso, coisa fofa da titia. E depois eu dormi que foi uma beleza.
Frozen daiquiri.
A bebida dos que não têm religião.
Ou têm, mas esqueceram.
E faz tempo.

¡Drops da Fal!

Ensaio sobre situações rotineiras

Morar em uma cidade como Brasília tem uma vantagem interessante: a rotina informal inconsciente. Por ser uma cidade planejada, tenho poucas opções de rotas, e dessas poucas, a grande maioria é congestionada. Então trafego pela última que me resta.

Aí todo dia quando saio para trabalhar, fico à caça de algumas repetições mnemônicas, involuntárias e contundentes.

Quase sempre encontro pelo trajeto o carro japonês esportivo branco, bi-turbinado e com um engravatado de camisa branca dirigindo, sério; O ônibus velho-verde-escuro com a banda do exército; O ônibus grandão e imponente da policia federal; O fusca-fafá-amarelo, com o adesivo 'POTOTINHA' colado no vidro traseiro; Um carro oficial, com motorista engravatado na boléia e passageiro engravatado lendo jornal no banco traseiro; A mulher louca que parece uma cobra-mal-matada dentro do corsa branco, ao som de Kalypso; O caminhão da Coca-Cola, nas terças e quintas, estacionado na pista ESSCN-SCS atrapalhando o trânsito; O volquis vermelho com a grade modificada, emprestada de uma BMW velha; O tatuzento que tira catôtas do nariz e cola no teto do carro; O velho grisalho e barbudo, engravatado também, que anda com um coupê coreano.

Milhares de pequenos detalhes que transformam minha rotina em um sistema motocontínuo de sobrevivência bestial.

Então sinto-me pressionado a gritar como louco, dentro do carro. A fitar vizinhos de carros no engarrafalento com um olhar lascivo e débil. Soltar gargalhadas insanas, despentear o cabelo como um Einstein-do-serrado e fazer esquisitices claustrofóbicas.

Alguns se assustam, como qualquer pessoa normal se assustaria. Outros, mostram-me a língua, quando lhes mostro a minha para eles. Uns sequer olham para o lado: seria choque cultural demais para um único dia. Outros balangam a cabeça, de um lado para o outro, tal e qual cavalos impacientes: estes, perderam a infância quando ficaram adultos. Para sempre.

E assim sigo o quebrantar da minha rotina em uma cidade rotineira.

Ralph em ÓPIO - DIÁRIO ELETRÔNICO ENTORPECENTE

16.4.06

A ética é como a virgindade: se você bate no peito para dizer que a tem, provavelmente não tem coisa nenhuma ou está doido para perdê-la.

(…)

Idelber adernando à B o m b o r d o

12.4.06

Eu já lhes contei sobre minha tia que é psiquiatra?

Hoje, pela tarde, ela veio visitar mamãe. Passado certo tempo, apareceu no meu quarto,fechou a porta e disse:
- Sua mãe está preocupada com você. Quer conversar?
- Huh..não.
- Quer desabafar?
- Nous.
- Aiai. Você tem feito alguma coisa pra aliviar todo esse estresse?
- Minha diversão social está restrita a um comprimido de Dramim por noite.
Ela me observou com seus grandes olhos azuis(ahn, mmmmaldição que eu não puxei esse lado da família!)e fixou o olhar no único móvel que sobrou do meu quarto.(devido à doença de minha mãe, a mudança está paralisada e eu estou vivendo num estado de semi-acampamento.)
Antes que eu pudesse impedir, ela abriu a gaveta, pegou os comprimidos e jogou pela janela do apartamento.
- Mas.. mas.. isso nem vicia!E agora, como é que fica minha insônia!?!?!
- Isso vai acabar com teu fígado, isso sim. Se quiser um anti-depressivo que preste, toma este aqui, eu tenho uma caixa na bolsa.
- Ah tia, valeu.
- Querida, você nem imagina a merda que me foi esse último mês.
- Opa, quer desafabar? Uma hora é cem reau.
- Cem reais é o preço desse remédio que eu te dei, ingrata!No começo desse mês, eu estava voltando do manicômio às onze horas da noite(esqueci de lhes acrescentar, ela trabalha num manicômio judiciário)e você sabe que eu só ando acima de 100 km/h nessas ruas de noite. Pois bem, quando eu entrei numa avenida, um bêbado de bicicleta cortou a rua na contramão, sapecou no pára-brisa, deu uma cambalhota por cima do capô e caiu estatelado a uns cinco metros do calçamento.
- Amassou o carro?
- Amassou foi o homem todo! Eu desci do carro desesperada, deu um chute nele de leve pra ver se ele acordava, tentei sentir o pulso, e nada! Foi aí que um senhor que estava do outro lado da rua apareceu pra falar comigo!
- Para ajudar?
- Ah, se sesse! Ele veio logo me chamando de assassina, que viu tudo, que eu atropelei de propósito, um horror!
- E aí?
- E aí eu mandei ir se f(piiiii), que fosse pra p(piiii) que o pariu, chamei ele de c(pii)zão, peguei o bêbado, arrastei até o meu carro, soquei no porta-malas e sumi dali.(a tempo, essa tia pesa mais de 100kg e dá porrada até no filho mais velho que tem 1,80m)
- Jogou o corpo no mar?
- Até pensei,mas eu telefonei pro teu tio(que também é médico e estava dando plantão num hospital )e disse que estava levando o bêbado atropelado para lá.
- Aposto que você pensou que, se ele morresse, seria mais fácil colocar como indigente, né.
- Justamente! Quando cheguei lá, comecei a chorar e disse ao seu tio que tinha matado o homem! Foi aí que aconteceu a coisa mais absurda da minha vida: enquanto eu gritava, o bêbado acordou, sentou-se na maca e ficou nos observando discutir. Quando eu falei "ele morreu!", o bêbado respondeu "Morri não, só tava dormindo. Dona, você acabou com a minha bicicleta."
- ...?É boa!
- Daí a gente batou raio-x da cabeça ao pé daquela criatura, eu o hospitalizei, paguei tudo que era medicamento e ele ficou bom em uma semana. Para não haver problema, dei outra bicicleta de presente pra ele.
- Ah, então terminou tudo bem.
- QUE NADA! Ontem mesmo, eu estava dirigindo o mesmo carro, no mesmo horário e na mesma rua e pá, atropelei um ciclista que vinha na contramão! Quando desci pra olhar, adivinha QUEM era?
- Não acredito.
- Eu fiquei com tanto ódio que comecei a chutar o infeliz e a dizer "vai, te mete logo embaixo da roda do meu carro, eu termino o serviço aqui mesmo!", mas o mesmo feladap(piii) que apareceu pra defender o bêbado da primeira vez apareceu DE NOVO e o bêbado conseguiu fugir de mim.
- Tia, acho que você está precisando desse medicamento mais do que eu.

(Definitivamente, eu amo minha família.)

BooBlog Um blog inútil para voce passar o tempo útil (ou o contrário)

Apfelsine

gente, eu sou inteligente.
gente, eu sou culta.
gente, eu falo 4 línguas.
gente, eu leio livros difíceis.
gente, eu tenho gosto musical apurado.
gente, eu faço piadas ácidas.
gente, eu sou bem-resolvida.
gente, eu sou linda.
gente, eu sou gostosa.
gente, eu dou pra caralho.
gente, eu arrasto hordas.

gente... gente, onde é que cês tão indo, hein?!

Apfelsine

Abecedário: Gold

Pete Johnson ao piano e Big Joe Turner cantando “Since I Fell for You”, no som do carro às duas da manhã depois de uma longa e frenética noite no escritório. Ao meu lado, Gi, a moça bonita, charmosa e discreta que todos nós gostaríamos de etc., e que eu provavelmente gostaria de mais que etc., comenta: “Uau, que coisa linda”, apontando para o toca-fitas. Eu aceno com a cabeça, concordando, concentrado em não olhar para as pernas dela exibidas pela minissaia e em não começar a cantar junto com a música.

O velho truque da carona-depois-do-sêuvísso, Fudílson? Coisinha mais chulé de se fazer (especialmente se você tem que disputar o posto com mais três caras). Mas a verdade é que ela trabalhava no meu grupo, ou seja, tecnicamente me conhecia melhor do que aos demais, e sua casa ficava de fato no caminho para a minha. (Um dos caminhos, pelo menos.) E quando ela se despediu com um sorriso e um último aceno assim que o portão do edifício se fechou, eu dirigi cantando até em casa, e fui dormir com um sorriso idiota nos lábios, porque mulher que gosta de Big Joe Turner alegra o coração até do mais empedernido entre os cafajestes.

Nos momentos cafajestes da existência, há algo de irresistível nas moças virtuosas. Gi, com a aliança de noivado no dedo e a foto do beau que estava concluindo estudos fora do país enfeitando a mesa, era tanto mais inacessível quanto mais presente. Ao contrário das moças who play hard to get por motivos táticos, ela sempre conseguia deixar muito claro que não estava disponível, e ao mesmo tempo manter o humor, o charme, até o flerte ameno que, na vida dos escrotórios, serve como uma espécie de reconhecimento tácito de que I dig you as a person, ou coisa assim. (Como Gi mesma definia, “aquele olhar de eu-daria-pra-você-mas”.)

Mulheres como a senhorita Gisele são o mais dolorido teste de escrotidão –se o sujeito decide que, what the hell, ela é diliça o suficiente para que ele insista e pelo menos tente vencer pelo cansaço, parabéns: trata-se de um calhorda de sexta categoria. Se –como eu diante dela-, o sujeito decide que, yo, abrir assédio contra uma moça desse tipo é moralmente inaceitável, parabéns: trata-se de um calhorda de sexta categoria do mesmo jeito, porque como explicar todas aquelas outras moças que foram cafajestadas sem que argumento moral algum se interpusesse?

No dia do casamento de Gi com o sujeito por quem ela esperara com tanta paciência, bebi bem mais do que costumo. Na saída do salão, um raio de sol rompeu o bloqueio da inversão térmica paulistana e fez cintilar a aliança na mão com a qual ela acenava em despedida antes de embarcar no carro caprichosamente decorado por todos os caras que, como eu, sentiam estar perdendo, nela, alguma coisa que não conseguiam definir tão bem quanto gostariam: o brilho inatingível daquilo que não nos é destinado. (Dois ou três anos depois, o marido de Gi a trocou por uma argentina a quem salvou de afogamento em aula de windsurf no litoral de SC. Gi descontou fazendo o óbvio com boa parte de seu imenso fã-clube. ‘Twas great fun, mas certo ex-cafajeste que eu conheço saiu um pouquinho decepcionado.)

Filthy McNasty

11.4.06

Fio de Esperança (Não Gostamos de Você)

A grande contribuição de Telê ao futebol foi a invenção de Cafu. Precisa continuar?

(…)

Fantasma do Maracanã

8.4.06

DE PIGRITIA

(…)

A Preguiça é vilipendiada. A Preguiça tem a imagem distorcida. A Preguiça é a prostituta da Babilônia. A Preguiça sempre tem seu significado intrínseco violentado. A Preguiça é o bode expiatório. A Preguiça é apressadamente apontada como o elemento pernicioso do caráter nacional. A Preguiça é invariavelmente responsabilizada pelo desandar do sistema educional. A Preguiça é tida e havida como a culpada por testemunharmos a orgia institucional em Brasília e não fazermos nada. A Preguiça sempre é acusada de ser a vilã do cenário de imobilidade subtropical. E quer saber? A safada gosta.

(…)

Ao Mirante, Nelson!

Come os nossos pais

Não quero lhe falar, Seu Alaôr
Das coisas que eu perdi no bingo
Quero lhe dizer quem eu já comi
E quem me lambeu o umbigo

Viver é melhor de cocar
Caçar, apitar, dirigir canoa
Mas também sei que chinelo Havaiana
É melhor que sandália Samoa

Por isso cuidado, meu bem
O negão está na esquina
Pão-de-centeio
E o sinal está fechado pra nós
Que usamos modess

Pode abaixar o calção
E mostrar a sua virilha, peluda
Pra isso se fez o regaço, o pecado e a sua avó

Você de peruca, eu de samba-canção
Eu como marmelada, você goiabada Cascão
Eu gosto do Ed Wood, você do Zé do Caixão
Eu vejo vir vindo de van os caras do Taleban
E eu sei de tudo da fita do Osama e aquela anã

Já faz tempo eu vi você de burka
Indo pra Franca num busão da Reunidas
E na agonia da hemorróida
A saudade é a parte que dói mais

Walter Jorge é PCB
Na campanha vai montado num jumento
E ainda come torresmo, e ainda come torresmo
E de quebra os nossos pais

(...)

DGR's bioskop

7.4.06

formatar essa vida

Micro quebrado, mãe me acusando de insanidade temporária, milhões de coisas pra resolver, nenhuma vontade de estar aqui, vontade enorme de formatar essa vida e deletar vários programas que vivem dando pau. Eu devia mudar de cidade e começar tudo do zero... Uma cidade menos windows e mais linux.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

5.4.06

CONTOS DE PHADA, versão 2.0. - MANOS PIG E A SAUDOSA MALOCA.

Era uma vez três ermão que viviam no morro e, como as condição de higiene não eram das melhor, foram apelidados de Manos Pig. Cada um ergueu um barraco conforme as suas posse. O primeiro construiu de material do lixo recicrável, o segundo arrumou táuba de demoliçã e o terceiro saiu com a carroça do véi Migué pra dá umas banda e voltou c’uns material de construção de primeira, tá ligado? Vai daí que neguim nem bem terminou os cafofo e os dono da boca viero rente tocá os Mano do terreno. Derrubaram a de papelão, derrubaram a de táuba e quando tavam preparando as picareta pra adirrubá a de material, chegou uns brother da favela rival muito faixa dos Manos Pig e encheu eles de pipoco. Toma. Tão lá até hoje e o barraco já tem até puxadim.

CONTOS DE PHADA, versão 2.0. - JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO TRANSGÊNICO

Era uma vez um menino pequeno agricultor chamado João que vivia muito miseravelmente com sua mãe, numa propriedade de 20 hectares. Um dia, ganhou umas sementes de feijão transgênico e plantou no terreno. O pé de feijão cresceu tanto que chegou até as nuvens. Uma galinha que comeu o feijão ficou botando ovos de páscoa sonho de valsa já com embalagem. João então vendeu os ovos a peso de ouro para uma gigante multinacional do chocolate e eles viveram bem ricos felizes para sempre, cultivando produtos orgânicos livres de agrotóxico para consumo próprio.

Muito mais histórias que nossas babás não contavam em Megeras Magérrimas

3.4.06

Abecedário: Adrift

Meu primeiro beijo foi com a prima-menos-bonita da garota de quem eu gostava, aos 13 anos. Ela ficou me olhando com aqueles olhos pidões de cachorrinho de capa de caderno; eu como sempre não sabia direito o que fazer, mas me aproximei; ela tirou o chiclete da boca e ficou com ele na mão, e se colocou na ponta dos pés, oferecendo os lábios; eu a enlacei, fechei os olhos, abri os olhos subrepticiamente para conferir a aproximação, e presto: primeiro beijo. (Sabor tutti frutti. Bleargh.)

Se bem Hardy Har-Har já fosse meu herói, aos 13 eu não era pessimista o suficiente para imaginar que o primeiro beijo viesse a determinar tendências e que eu viveria permanentemente condenado a beijar a prima-menos-bonita-da-mulé de-quem-eu-gostava, e a degustar para sempre variações progressivamente mais caras mas não muito mais saborosas do maldito tutti frutti. However, já dava pra desconfiar que amor e eu, uh oh, not a perfect match.

A mocinha do primeiro beijo se tornou algum tempo depois minha primeira namorada. Os beijos melhoraram, especialmente porque ela começou a jogar o chiclete fora em lugar de segurá-lo na mão. (Come on, a menina lá com o chiclete na mão quer dizer “yo, acaba logo essa beijação que eu tenho um Ploc para mascar”: péssima mensagem para um sujeito que era ainda menos seguro de si aos 13 anos.)

Eu sabia que ela sabia que eu só estava com ela porque a prima não queria saber de mim, e o fato de que ela aceitasse a situação fazia com que eu gostasse dela menos do que poderia ter gostado (porque, as far as teenage romance goes, ela era uma ótima namorada, infinitamente paciente). Mas uma coisa que eu talvez devesse ter descoberto ainda petiz é que os Rolling Stones não estão certos 100% do tempo, e que, quando o sujeito está apaixonado, não adianta muito ele conseguir o que precisa quando não consegue o que deseja.

Espero que a Adriana lembre daquele beijo com o mesmo carinho que eu, e que tenha me perdoado pelo namoro: yo, baby, eu não sabia mesmo o que estava fazendo. (Bom, provavelmente, ela só me beijou porque não conseguiu beijar o cara de quem realmente gostava, anyway.)

Filthy McNasty

1.4.06

Danças

Eu sei que estou fora do Brasil há algum tempo, mas às vezes as notícias de lá me parecem meio surreais.

Tomemos o caso da dança da deputada. Vejamos se eu entendi: um deputado estava sendo acusado de receber dinheiro ilegalmente e foi a julgamento na Câmara. Foi absolvido. Uma deputada, amiga e colega de partido dele, comemorou a absolvição dançando no plenário; foi suspensa e vai sofrer um processo administrativo por quebra de decoro.

Agora, pergunto: se o deputado foi absolvido, é porque supostamente é inocente, ao menos para a Câmara e oficialmente. Nesse caso, a deputada estava dançando para comemorar o fato de um amigo e colega seu, que é oficialmente inocente, ter sido absolvido; nada mais justo. Qual foi a quebra de decoro, então? Dançar no plenário rende processo e suspensão?

(não estou dizendo que o deputado seja inocente; não estou acompanhando muito as notícias, não sei se ele é inocente ou culpado e, na verdade, não me interessa muito; só estou intrigado com a hipocrisia de absolver o deputado e punir quem fica feliz com isso)

Palavras ao Vento

A lei de imprensa serve para proteger os jornalistas

Decerto. Assim como a invenção do dr. Guillotin nos protegeu da forca.
E a lei de Talião beneficiava os dentistas. E a cadeira elétrica foi concebida, em última análise, para extirpar a loucura da sociedade.

Mozart

Frases para a posteridade que pensei no banheiro

Falar pouco é característica de quem pensou muito.

Notas do Dr. Porfirio Caetano das Neves, barbeiro

Subemprego 29: Suporte de maçã

Toda noite eu vestia um maiô de lantejoulas e um par de botas vermelhas, sentava num banquinho e ficava lendo "As Brumas de Avalon", até chegar a minha hora.

- Vai filha!

Fechava o livro, dava três estrelas e aterrizava no meio do picadeiro. Dois homens me levantavam pelos braços e me carregavam, feito estátua, até o alvo. Botavam uma maçã na minha cabeça. Eu soprava um beijinho para o público e fechava os olhos, era um tipo de adeus.

A partir daí eu ia me imaginava com uma lua crescente tatuada na testa, dançando em volta da fogueira e uivando.

Só abria os olhos quando sentia a gosma da maçã escorrendo pelo meu cabelo. Deixava o picadeiro dando piruetas e pensando que precisava, urgentemente, encontrar um jeito de ter mais emoção na minha vida.

||| Índigo - 73 Subempregos |||

29.3.06

Da barbárie

Amo as coisas com a mesma intensidade com que as odeio. Minto. Odeio mais. Infinitamente mais. Sou mesquinho e asqueroso. Um ser menor. Infinitamente menor. Poetizo? Nada mais incerto. Acordo todos os dias com vontade de atraiçoar o mundo. Trair. Enganar. Iludir. Magoar. Acomodo dentro de mim um amor pela maldade. Em Lisboa de todas as coisas que me irritavam pela manhã, nenhuma me dava tanta cólera como os vagabundos. Aqueles farrapos encostados às escadas que descem para o metro. Aquela barba asquerosa. Aquele cheiro. Pena? Nenhuma. Só à tarde. Nunca neguei uma moedinha pela tarde. Sou uma pessoa melhor à tarde. Jamais enxotaria um animal entre o almoço e o jantar. Ao cair do sol posso até com gente. E só Deus sabe como eu detesto gente. A maneira como falam. Como andam. Como respiram. Só respeito surdo, mudo e paralítico. Bem paralítico. E morto. Eu adoro morto. O meu sonho é só um: morrer e passar uns tempos na morgue. O defunto tem todos os defeitos das pessoas excepto a chatice. Com defunto posso eu bem. Como vai? Vou bem, muito obrigado. Como está hoje? Igual a ontem. Quer uma aguinha? Não bebo. Vai um docinho? Não como. Quer conversar sobre alguma coisa? Talvez na próxima vida. O morto é sábio. A vida, uma doença. Não percebo aqueles grupelhos que param o trânsito só para informar que algures no fim do mundo alguém está a morrer. Morre? Deixa morrer. Sou contra a vida. Só atrapalha. É obrigação de todo o homem civilizado lutar contra a sobrevivência. Contra a existência pobre. Insignificante. De todo o género de pessoas no mundo a mais chata é a pessoa boa. A pessoa feliz. A pessoa alegre. A pessoa sorridente. Aquele tipo de pessoa que dedica a sua vida ao velhinho e à criancinha. Eu bato em velhinho e criancinha como desporto. Acredito numa boa dose de maldade. Educada maldade. Moderada, até. Sem a nossa crueldade, a nossa perversidade, a nossa imensa filha da putice o mundo seria um lugar melhor, mais próspero, mais feliz, mas insuportavelmente aborrecido.

Diário

COMPOTA DE NÊSPERA

Ela: “E em vida depois da morte você não acredita meeeeeesmo?”
Ele: “Ha.”
Ela: “Sem chance?”
Ele: “Sem chance.”
Ela: “E vai que – sei lá – eu quisesse mandar uma mensagem do além pra você?”
Ele: “It won’t happen, babe”.
Ela: “Uma mensagem minha, poxa.”
Ele: “Desculpa: eu não ia acreditar.”
Ela: “E se uma pessoa te dissesse que tinha um recado meu pra você?”
Ele: “Eu mandava passear.”
Ela: “E se ela te mandasse um e-mail?”
Ele: “Eu deletava.”
Ela: “E se a pessoa insistisse, fosse até sua casa?”
Ele: “Eu batia a porta na cara”.
Ela: “E se ela encostasse a boca na fresta da porta fechada, pedisse uma última chance; aí falasse pra você encostar o ouvido no outro lado da porta, e então sussurrasse que eu pedi pra te falar ‘compota de nêspera’ – você acreditava?”
Ele: “Ah.”
Ela: “Fala.”
Ele: “Ué.”
Ela: “Fala, caramba.”
Ele: “Acreditava.”
Ela: “Mesmo?”
Ele: “Com ‘compota de nêspera’ eu acreditava que era você.”
Ela: “Então tá. Que bom. Só pra saber.”
Ele: “Certo.”
Ela: “Esquece.”
Ele: “Esqueci.”
Ela: “Sério.”
Ele: “Já esqueci, ué.”
Ela: “Ok. Agora acorda, baby. Devagar, bem devagarinho. Viu?”

Travesseiro branquinho do lado. Limpo. Frio. Vazio.

Ao Mirante, Nelson!

27.3.06

CLOACA MAXIMA

Enquanto caminho olho para as luzes nas janelas dos prédios. De uma menorzinha a lâmpada se apaga. Banheiro, penso, alguém acabou de fazer algo no banheiro. Irrefletidamente olho para a calçada e imagino o que passa sob os meus pés. Esgoto, civilização é esgoto.

(…)

Somos feitos assim: precisamos de comida, portanto, de um aparelho digestivo, ergo, também de um excretor. Olho para a minha barriga, imagino os meus rins, bexiga e uretra como uma ilustração de livro de medicina. A engenharia é filha da anatomia: a Cloaca Maxima, primeiro esgoto de Roma, obra da gestão de Tarquínio Prisco, que também deve ter mandado construir vários templos, afinal, ele, assim como os outros romanos e eu mesmo no século vinte e um, ele sabia: um dia esses rins vão parar de funcionar. A religião é o medo da falência dos órgãos.

(…)

quarto BLOGAUTI

conversas furtadas

EXAME PELO SUS

— Qual é o seu nome?
— Jucemara Martins...
— Jucemara, qual o seu ciclo menstrual?
— Leão.

EU SOU PO-E-TA

— Ela é uma poeta.
— Poeta a gente trata com medicação pesada.

conversas furtadas

Discurso do Sexo

Que homem nunca ouviu uma mulher discursar sobre sua complexa sexualidade? Quem nunca teve o desprazer de escutar algo do tipo: possuímos sabe-se lá quantas zonas erógenas; nosso orgasmo é mais intenso e é múltiplo!; a mulher é uma intrincada máquina que precisa ser estudada, desvendada aos poucos e nos mínimos detalhes.

E continuam: porque um homem que não descobre os segredos da mulher está perdendo um grande prazer, ele pode ter mais da mulher se...

Isso é horrível. Sempre que escuto algo do tipo eu mostro o meu relógio de pulso. Aqui ó! Tá vendo? Ele é cheio de botões, funções, programas, cronômetros mil! E sabe do quê mais? Eu não estou nem aí. Ele me diz as horas. É tudo que eu preciso. Eu nem mexo nos botões, não aperto em nada. Olho para o relógio e ele me mostra o horário.

Muitas mulheres compensam a falta de orgasmo com o patético fetiche de dizer que, se tivessem um desses tais orgasmos, ele seria múltiplo. Gabam-se de sua complexidade porque não a conhecem. Ninguém se gaba daquilo que sabe. O único idiota que se orgulha de ter o Discurso do Método na estante é aquele que nunca leu o Discurso do Método. Diz-se que o homem perde ao não desvendar a sexualidade feminina. Bem, diga ao cara da britadeira ali da esquina que ele seria um cara da britadeira muito melhor se lesse Discurso do Método. Mas ele não precisa de Descartes. Ele sabe fazer o serviço dele; sabe usar seu instrumento.

Todo o louvor da mulher em relação a sua complexa sexualidade feminina é, na verdade, um grito desesperado por ajuda. É, sim. Um gutural urro que, traduzido em linguagem humana, significa mais ou menos: pelo amor de Deus, não sei o que fazer com todas essas zonas erógenas! Sou uma náufraga perdida num mar de baboseira cartesiana! Me come! Seja o meu Cambridge Companion to Whores.

(…)

Manobra, 1979

25.3.06

LITTLE PLOP OF HORRORS ou CONVERSA PRIVADA

Eu tenho uns medos estranhos. Quer dizer, eu não vejo nada de estranho, acho cada um perfeitamente lógico e bem fundamentado, mas a maioria das pessoas ou acha graça ou diz que eu sou fresca quando falo deles. Por exemplo, eu tenho pavor absoluto de panela de pressão. E depois que uma delas estourou lá em casa (felizmente eu não estava), decorando o teto e as paredes da cozinha com uma camada texturizada e supermoderna de feijão cozido, quase matando a empregada do coração e tirando pelo menos umas quatro das sete vidas da Nina, acho que elas também concordam comigo. Outra coisa que me dá medo é o tal do botijão de gás. Aliás, eu não gosto de gás de jeito nenhum : demorei mais de dez anos pra criar coragem de acender o fogão direto com um fósforo, sem precisar de acendedor de faísca nem de um palitão comprido daqueles de churrasquinho - justo quando consegui, apareceram os fogões com acendimento automático –, e sempre que passávamos férias no Rio, em apartamento alugado, eu preferia voltar da praia e tomar banho gelado a ter que me entender com o tal do aquecedor a gás. E por último, tenho medo de soda cáustica, diabo verde e demais coisinhas corrosivas usadas em limpeza. E é por isso que ultimamente também ando no maior medo de sextas-feiras.
O problema é que a diaba não verde da minha empregada sempre dá um jeito de entupir, justo nos finais de semana - parece de propósito - o vaso do meu banheiro. Não sei se ela joga lá dentro todos os cabelos caídos na pia, os pêlos da Nina, rolos inteiros de papel higiênico, o resultado da varrição da casa, a caixa de areia da gata, macarrão cozido, purê de mandioca com bubbaloo banana ou borracha vulcanizada, ou ainda se larga um superhiperultramegateradump atômico no meu banheiro antes de ir pra casa. Só sei que normalmente eu saio para o trabalho na sexta com todos os equipamentos sanitários positivos e operantes, e quando volto já deu chabu. Como até não tenho medo, mas morro de nojo daquele desentupidorzão, normalmente resolvo tudo na mais pura tradição bioquímica e bicho-grílica, sem agressões à natureza : jogo colheradas de coalhada – desnatada, ainda por cima, olha que chique – lá dentro e deixo que as bactérias do iogurte se banqueteiem (ugh) com qualquer, hã, hum, matéria orgânica que possa estar bloqueando o caminho das águas para o mar, ou pelo menos para o esgoto menos próximo de mim. Normalmente funciona, e normalmente funciona na pia também, tanto na do banheiro quanto na da cozinha, e até mais nesta última, já que bacteriazinhas adoram uma gordura - e aparentemente não se importam com o que isso faz com seus corpitchos na hora de vestir um biquíni realmente microscópico ou um jeans justinho e ir paquerar uns protozoários.
Só que da última vez a coalhadinha não adiantou. Achei que era questão de quantidade, e mandei mais iogurte natural light lotado de S. thermophilus e L. bulgaricus famintas pela goela abaixo da privada. E nada. Antes que eu me visse obrigada a apelar para meus corpus diet com polpa de fruta, e ainda crente no poder dos microorganismos, ataquei de yakult, começando a suspeitar que talvez estivesse gastando mais do que devia com aquela merda (sim, a essa altura meus já parcos bons modos estavam se esgarçando cada vez mais), e imaginando a figura ridícula que eu devia estar fazendo, alimentando de colherinha ou de garrafa aquela maldita Audrey II de porcelana. Mais uma vez não adiantou. Teimosa que sou, não me dei por vencida nem corri ao supermercado mais próximo atrás de soda cáustica. Pra falar a verdade, minha nova idéia passou mais perto foi da outra soda, a limonada : me lembrei das inúmeras historinhas ouvidas desde a infância sobre os poderes corrosivos da boa e velha tota-tola, mas, recusando-me a despejar minhas preciosas latinhas de light no vaso, pedi ao gatim pra ir à padaria da esquina comprar da outra. Porque, pensei, de repente o açúcar contido nela ou corroía o obstáculo, como faz com os dentes e mucosa estomacal das pessoas, ou pelo menos tornava a caca mais palatável para as bacteriazinhas e bacilos que ainda estavam fazendo a festa lá dentro. Só fiquei com um pouco de medo da privada arrotar, e imaginando se não seria o caso de já mandar um rum e limão por cima também, pra liberar a cuba de vez, mas achei melhor adiar um pouco, esperar que todo aquele povo microbiológico lá dentro se conhecesse melhor, sei lá, antes de introduzir álcool na mistura.
E veio o gatim com as latinhas vermelhas, geladas, cujo conteúdo eu despejei no vaso, morrendo de dó. Isto feito, abandonei o local por uma noite inteira, que era pra não interferir com qualquer processo que estivesse acontecendo por ali. No dia seguinte, após algumas descargas vigorosas, tudo o que era doce, desnatado, carbonatado, lácteo e/ou extremamente desagradável foi por água abaixo, finalmente. As manchas escuras que a tota-tola deixou na louça branca foram resolvidas com uma boa quantidade de espuma de barbear hidratante e mentolada aplicada e deixada lá por mais algumas horas (porque eu também tenho um certo nojo de escova de privada e porque sou coerente : heterodoxa até o fim), e depois de mais alguns jatos de pura força hidráulica, o vaso ficou 0 km, prontinho pra empregada chegar na segunda-feira e recomeçar com seus planos malignos de embranquecer totalmente meus cabelos – e depois de fazê-los cair, brancos, jogar todos no vaso e começar de novo... mas por enquanto, suspirei aliviada. Já estava começando a ter pesadelos com o vaso ficando mal-acostumado, cantando Mean White Mother e exigindo uma porção de tacos, um aguacate con gamba, um vidro de tabasco, umas três margaritas e um sal de frutas... or else.

Sim, duas seguidas de Cyn City

YOU ARE YOUNG AND LIFE IS LONG AND THERE IS TIME TO KILL TODAY

Encontramos uma foto de mim aos 22 anos, na praia. Nela estou de biquíni vermelho e branco, os pés na exata linha em que as ondas se transformam numa renda frágil e delicada, mas para facilitar a vida do fotógrafo, estou voltada para o sol, para o leste, feito uma Vênus tropical que, decepcionada com a terra firme e já sem sua concha, tivesse decidido voltar a pé pra casa. O corpo que na época eu achava feio, magrelo, sem graça e sem charme agora me parece bonito, esguio, tão proporcional que, só pela foto, seria impossível de se calcular minha altura. Mas não é a perda da cintura fina, dos seios altos, da pele firme e bronzeada, sem cicatrizes, que eu sinto. Nem muito menos saudade daquele tempo infeliz. O que eu sinto mesmo é alívio por não existir nenhuma máquina do tempo ou outra geringonça de ficção científica que pudesse nos colocar, a mim e àquela mocinha tímida, frente a frente. Porque se isso acontecesse, tenho certeza de que ela ia ter muitos e bons motivos pra querer me cobrir de porrada. E eu a ela.

Cyn City

Morte Anunciada

E tem alguma que não é?

dies irae

Tio Lódio

- Vai espantar a chuva, Saulo.
Eis o que meu tio me diz todas, rigorosamente todas, as vezes que saio de casa portando meu guarda-chuva. Ele é grande (o guarda-chuva, não meu tio, que apesar de bombeiro é um homem de porte médio), fato, mas nem por isso merece ser menos respeitado ou precisa ouvir a mesma piada sempre que seus serviços são requisitados.
A verdade é que, em se tratando de senso de humor, meu tio opta pela regularidade. É um homem tradicional, não gosta de arriscar, vai sempre nas confirmadas. É me ver em casa num sábado ou domingo que ele rapidamente saca um "o Saulo em casa", pronunciado com espanto (herança dos já longínquos tempos em que eu passava todos os finais de semana nos meus primos. O hábito se foi, a piada ficou).
Também tem a frase para o momento em que um jogador de futebol perde um gol feito: "barbaridade, só fazem isso da vida e ainda erram". Raciocínio interessante. Experimenta o engenheiro errar o cálculo e desabar a ponte pra ver no que dá. Isso até deve acontecer, na verdade. Ocorre que não existem engenheiros de fim de semana no mesmo número em que há peladeiros por aí para palpitar.
Outra: estou eu lá, comendo e lendo o jornal ao mesmo tempo, hábito antigo que cultivo, chega o tiozão e manda um "cuidado pra não comer o jornal e folhear a comida".
E ri. Sempre ri, depois de todas essas piadas. Eu rio junto. O segredo da vida é saber extrair diversão das coisas.

Mujique

24.3.06

Uma explicação desnecessária mas que mesmo assim vale a pena.

Uma série de comentários e de mails alertam-me para o carácter amoral, imoral e vergonhoso dos posts deste blog intitulados «O Cantinho do Hooligan». Eu sei. Sei que são amorais, sei que são imorais e que a maior parte deles, não sendo vergonhosa, me devia fazer corar de vergonha caso se tratasse de uma coisa séria. Mas não. É futebol. Não lhes retiro uma linha, uma vírgula ou um pigmento de desvergonha. Sou um hooligan. Interesso-me vagamente pelo 4x4x2 e não posso dizer que pelo 4x3x3 tenha uma paixão de vários anos; o 3x3x4, esse, deixa-me a pingar de comoção, mas só porque serve para contrariar. Rio-me depois de escrever isto. Conheço os alas, o papel do trinco, a beleza do jogo tirado a régua e esquadro, mas nada me deixa mais comovido do que uma jogada bem feita, se for da minha equipa. Também ouvi um cavalheiro que passa por ser o Rui Santos perorar durante 35 exactos minutos sobre questões estratégicas e de «planificação política» acerca de um penalty mal assinalado, de uma coisa que chamam «património do clube» ou de um tornozelo especialmente preparado para levar traulitada. Há mails e posts de outros blogs que referem os meus «cantinho do hooligan» como produto de uma alma perturbada, se se der o caso de eu ter alma, ou de um cérebro desequilibrado, coisa de que eu abdico quando se trata de ver futebol como eu gosto de ver futebol, que é entre gente que dispensa sermões, moralidade a todas as horas do dia e declarações de concordância com Gabriel Alves. Quando eu menciono Gabriel Alves ou Rui Santos, esclareço que não ponho em causa a idoneidade profissional dos cavalheiros enquanto comentadores de futebol, coisa que não me interessa grandemente. Eu sou um hooligan nessa matéria e já vi jogos de futebol entre os Super Dragões, tal como entre o pessoal da Torcida Verde e até à beira dos Diabos Vermelhos -- mas só conheço os hinos dos Super Dragões («ninguém cala a nossa voz» é o melhor, esclareço desde já). Tenho cachecol, cartão, irresponsabilidade reconhecida e várias camisetas do FC Porto. Não estou muito interessado em reconhecer que o João Moutinho é um bom jogador (em momentos de sobriedade absoluta até gosto de Polga, porque era gremista, ou de Liedson e de Carlos Martins e Miguel Garcia) porque isso não faz a minha felicidade -- coisa que já acontece quando um dos meus marca um golo, sejam eles McCarthy, Lucho, Quaresma, Adriano ou Raul Meireles. Mas se me pedirem muito sou capaz de enumerar uma lista de onze bons jogadores da Liga, só contando com o Sporting, o Braga, o Guimarães, o Nacional ou a União de Leiria. Não me interesso pelos limites estritamente legais do jogo da bola. Prefiro que sejam tribunais comuns a julgar aquela gentinha que anda à volta do assunto. Acho que os ábritros não deviam obedecer à Liga nem à FPF. Acho que Scolari é um burro, futebolisticamente falando, mas gostava dele no Grêmio; tal como Mourinho era um chato tremendo antes de ter ido para a União de Leiria e para o FC Porto; o próprio Jardel era genial enquanto estava no FC Porto mas passou a ser um desgraçado de um cearense quando foi para a Turquia e depois se perdeu em Lisboa. Continuo a admirar Jorge Costa.Não se enfureçam nem tentem evangelizar-me, chamar-me à razão, educar-me os modos, civilizar-me, lembrar-me «a beleza eterna do grande futebol» (sim, ela existe em algum lado). Agradeço as lições e os conselhos amigáveis para que recupere a minha sensatez e algum pudor além do sentido de justiça. Mas isto é só futebol. De cada vez que Petit cai rasteirado, de cada vez que Simão falha seja o que for, eu sinto-me mais próximo da felicidade. O mesmo acontece quando a França ou a Itália perdem um jogo. Para mim, Pavão jogava futebol como ninguém. Tenho um poster de Cubillas envelhecido, mas guardado nos meus caixotes. Se insistirem falo de Rolando, de Celso, Eduardo Luís, Madjer, Juary, Gomes, Derlei, Deco e também de Domingos, Jaime Magalhães, Bené, Marco Aurélio, Duda, Teixeira e Teixeirinha, Gabriel, Oliveira, Rolando – a primeira equipa da minha memória, que contracena com outros nomes mágicos de outros tempos: Monteiro da Costa, Pinga, Virgílio, Pedroto, Barrigana, Hernâni, Seninho ou Siska. Mas não é isso que me interessa. O hooligan do «cantinho do hooligan» não se interessa nem por isso. Ele só ri. Mesmo quando perde um jogo, ele ri. E é a vida, assim.

Um hooligan darwiniano, n'O Origem das Espécies.

O rio e o céu compartilham do mesmo cinza e se cobrem da mesma bruma de início de outono. O mundo parece que termina naquelas poucas árvores, logo ali, antes do cinza. E termina mesmo.
Todo o resto existe dentro.

Não Discuto, por Patrícia Antoniete

23.3.06

Sai de mim, Rubem Braga

A crônica é o mais cretino dos gêneros literários porque é o único que se dedica completamente à celebração do homem comum. Quando é um homem incomum celebrando o homem comum, temos uma crônica boa (se é que existem crônicas boas. Estou deduzindo a existência de uma crônica boa por raciocínio, mas nunca li nenhuma). Em outras palavras, temos um homem incomum ao mesmo tempo escrevendo bem e sendo demagógico; elogiando quem está abaixo dele e seu estilo de vida e lhe dando um tapinha sintático na cabeça.

Quando é um homem comum celebrando o homem comum, temos todas as outras crônicas que já vimos na vida, em todos os jornais. Olha lá o cronista sentado no banco da praça olhando os passarinhos. Os próprios passarinhos o odeiam. Se os passarinhos escrevessem crônicas, seriam textos xingando Rubem Braga de corno e Paulo Mendes Campos de sifilítico. A obsessão dos cronistas (e dos músicos populares) por passarinhos é estranhamente parecida com a obsessão de um autista por duas dezenas de clipes caídos no chão. Vai ler um livro!

Ou então está no banco da praça falando dos, meu Deus, “tipos de minha infância” pra quem chegar perto. O Zé Bolacha, que comia muita bolacha! A Maria da Sarna, que tinha sarna! O Juca da rua de cima, que era dono da bola de capotão! Quando leio as palavras “bola de capotão”, fecho o livro; mas tarde demais, porque já devia ter fechado na palavra “Zé”.

Por favor, não me fale dos seus joelhos esfolados de guri, nem da professora azeda que um dia (oh!) chorou na classe por causa da morte da filha dela, lhe ensinando assim que pessoas azedas também choram e lhe dando para sempre uma lição da fragilidade da vida! Nem da menina que fazia favores sexuais no terreno baldio atrás da marmoraria. E se for jornalista faz tempo (por oposição ao cronista-romancista e ao cronista-publicitário), chega de anedotas pitorescas sobre Adolpho Bloch, entremeadas por mais anedotas pitorescas sobre Adolpho Bloch, e passando por anedotas pitorescas sobre Samuel Wainer (“um dia ele tirou a meia e ih, rapaz, tava fedido. Aí o Filinto Muller disse “Ih, rapaz, cobre isso”. Daí eu fui trabalhar no Zero Hora”). Cronistas-jornalistas acreditam que Adolpho Bloch era uma espécie de Samuel Johnson, e que os menores detalhes de sua vida merecem ser recordados. Não, nem os fatos principais da vida de Adolpho Bloch merecem ser recordados. Quero esquecer quem foi Adolpho Bloch com a volúpia dos desesperados. E o primeiro que chamar Samuel Wainer de Samuca vai levar com a minha edição das Obras Completas de Carlyle no nariz.

(…)

Alexandre Soares Silva

E Deus Criou o gol roubado

Gol é bom, mas o gol roubado é divino.

Existem gols feios, existem gols bonitos, mas o gol roubado é perfeito, irretocável, sempre bem-vindo: só poderia ser obra do homem lá de cima.

Gols espíritas, então, nem se fala. São os mais roubados de todos. Não se limitam à esfera humana, subvertem também as leis naturais.

Gol roubado: o grande momento do futebol.

Fantasma do Maracanã

22.3.06

Allegra, Allegra

Rastejando pela casa com a mãe de todas as gripes. Na verdade, as minhas gripes nunca são inofensivas, elas sempre são a mãe das seguintes. De uma fecundidade impressionante, as minhas gripes. Eu deveria descobrir seu segredo.A quantidade de espirros dados de ontem para hoje deve ter produzido mais efeito nos meus abdominais que um mês de Pilates. Diário.E o Dimitri, no esplendor e glória de sua fase de muda, insiste em rondar o computador e espanar a minha cara com seu rabão em leque, quando eu sou capaz de gastar outra caixa de Kleenex só de olhar para uma foto dele. Algo me diz que vou postar muito hoje.

Aspergido por Scarlet Letters.

21.3.06

ENFIM, LIVRE!

(…)

- Cara, pensei que eu fosse morrer dentro desse vestido.
- Ah, é um belo vestido pra ser enterrada.

CALABOCA que eu tô falando!

...

Acabei de descobrir que não adianta nada realizar uma lista de desejos quando não se é capaz de perceber o tanto que a vida já deu. Tô tentando abrir os olhos...
Estava zapeando a TV e parei numa cena onde perguntavam para uma garota o que ela julgava mais importante: fé, amor ou esperança. Deu falha de energia, a luz piscou, a TV desligou, ligou de novo e eu perdi a resposta. Quando o filme voltou, não conseguia mais prestar atenção em nada porque precisava chorar um pouco minha falta de fé, esperança... O filme acabou sem que eu ao menos soubesse do que se tratava. Acho que deixei a TV ligada só para as vozes dos locutores me fazerem companhia.

(…)

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

NO SUBÚRBIO - PARTE I

Na calçada estavam reunidos em três. Dois deles, recentemente banhados nas águas turvas do Lethe, tiveram forças de nadar contra a correnteza, enganar o barqueiro e, amoitados, esperar a chegada da manhã. Manhã que os encontrou numa unidade de tratamento intensivo qualquer. No mais velho deles, o peito cicatrizado já parara de doer, safenas e mamárias irrigando satisfatoriamente um velho músculo. Meu pai era este. O que continuou pulsando em seu peito de estivador foi sem dúvida a melhor parte de seu coração. O humor não o abandonou, pelo contrário, a ironia cerebral ganhou uma ternura física como companheira. Após sair do hospital, aquele homem acostumado a superfícies ásperas, trabalhador de madeira e lâminas, deteve-se em certa ocasião acariciando meus cabelos por um longo tempo. Aceitei o afago com aquela atitude contida de ornitólogo que teme que o menor movimento destrua um trabalho de observação longo e laborioso. Confessou-me seu amor e admiração. Escutei solenemente meus uirapurus. Mas divago.

O outro mergulhador chamava-se Horácio. Este, sobrevivente de um derrame cerebral grave. De homem ativo e ágil, tornou-se lento e contemplativo. “Parece que eles abriram minha cabeça aqui, não foi? O que eles usaram?” “Uma serra, um serrote, uma coisa assim”, responde o terceiro homem, um açougueiro de aproximadamente quarenta anos. Autoridade em assuntos de abrir e retalhar. “E pelo resultado, acho que o serrote estava cego”, emenda o ex-marceneiro. Horácio sorri seu sorriso fartamente desdentado, infantil. Ao seu aspecto asseado e pueril lhe caia muito bem o talco posto em seu peito por uma mulher, senão amorosa, ao menos caridosa.

Certos convalescentes parecem mesmo passarinhos caídos do ninho. Exceto que, como meu pai, Horácio estava de muito bom humor sentado em uma cadeira de balanço na calçada. Eu prefiro tamboretes pequenos para prosear. Mas eu sou o quarto homem e cheguei quando o grupo já estava composto. O terceiro era o tal açougueiro recém estabelecido na vizinhança. Mas já com desafetos. Apesar de simpático, queixava-se de uma denúncia anônima que haviam feito acerca das condições sanitárias de seu comércio. Nada se comprovou; estava feliz. “Tem gente que não pode ver o progresso do outro. A vigilância sanitária veio aqui. Disseram que meu estabelecimento comercial estava ‘o dez’ e foram embora.” Alguém sugere algo sobre propina, mas resolve não levar a brincadeira adiante: alvo fácil demais. Ao invés disso, passamos a especular que a única pessoa quase sem coração, capaz de uma sacanagem desse tipo só poderia ser meu pai. Este ouve o achincalhe com aquela certeza quieta de quem, no campo da pilhéria, sabe se defender bem. "Havendo boa vontade do comerciante, estou pronto a me calar. Qualquer contra-filé me silencia. Mas a carne tem de ser de outro açougue”.

Não prosseguem no assunto. Preferem discutir minha condição de homem descasado. O açougueiro aprova o celibato, lembra-me seu irmão da marinha mercante e suas três amantes em diferentes portos brasileiros. Um clássico da poligamia a ser seguido. Os dois mergulhadores discordam e me lembram que já não sou uma criança. “Somente quem passa pelo que a gente passou é que sabe o valor de uma família e de uma mulher”, filosofa meu pai com seu pragmatismo emocionado. “Eu tenho outra mulher no Ibura. Não veio me ver até hoje. Nem sei se sabe da minha doença”. “E sua mulher sabe da outra, Horácio?”, pergunto. “Ave Maria, não!” “Nesse caso, como essa vizinhança não pode ver o progresso de um cristão, talvez fosse melhor você não falar muito sobre esse assunto”. Todos aprovam a sugestão, embora Horácio estivesse mais propenso a entrar em detalhes.

Segunda Mão

19.3.06

A lata, o gato e o imbecil

Desde que o mundo é mundo, gente desocupada passa a vida pensando numa nova maneira de importunar quem está trabalhando, quem está sofrendo, quem precisa de ajuda. Daí, acredito, a necessária criação do ditado "Ajuda mais quem não atrapalha".
Um exemplo recente é o e-mail que circula por aí há mais de um ano, dizendo que o Hospital Sírio-Libanês oferece tratamento gratuito para câncer de mama, o que, segundo a mensagem, inclui "internação, anestesia, equipe cirúrgica, remédios, exames e imediata reconstrução da mama mutilada" (tudo de graça!), bastando para isso que a candidata faça uma consulta (igualmente gratuita), agendada por telefone.
Ora, se isso não é mentira completa, é verdade parcial: esse hospital, assim como qualquer outro, mantém convênio com o (Des)Serviço Único de Saúde, e atende gratuitamente por mês umas tantas pacientes com essa enfermidade: vinte, segundo o próprio hospital, em nota distribuída à imprensa. E, muito importante, diz a nota que é o próprio (d)SUS que encaminha a paciente a esse (ou a outro bom) hospital, se a paciente tiver pelo menos essa sorte.
Fico aqui pensando que espécie de canalha chega ao computador, cria uma "notícia" como essa, e depois fica sentado, olhando o teto com o sorriso próprio do imbecil que é, imaginando mulheres numa situação de extrema fragilidade provocada por uma doença mortal, crédulas por falta de melhor opção, voltando-se com todas as suas lágrimas e incertezas para a esperança de serem bem tratadas por um hospital de alta qualidade, para, em seguida, serem imediatamente decepcionadas, logo ao final do telefonema.
Este é um caso. Há outros, às centenas, de crianças doentes, seqüestradas ou desaparecidas, mutiladas, à morte. Os desocupados, por terem muito tempo para elaborar suas asneiras, imploram que você reenvie a mensagem "para todos da sua lista" porque, para cada e-mail reenviado, uns poucos centavos serão doados à criança em questão, como se houvesse uma maneira capaz de contabilizar o envio de mensagens com qualquer acuidade. "— Vamos salvá-la", diz o filho da puta, que deseja apenas uma coisa: ver seu e-mail circulando o mundo, como quem prende uma lata ao rabo dum gato e fica ouvindo o barulho que ele faz durante a noite, correndo desesperado pelo bairro.
A lata é a mensagem, o bairro é o mundo, e amarrar um troço ao rabo dum gato é a obra máxima que um imbecil pode criar.

branco leone

17.3.06

CECI N’EST PAS UNE DÉCLARATION D’AMOUR

Porque eu te encontrei aos 33 do segundo tempo, quando achava que já não havia esperança de encontrar alguém tão imperfeito para o mundo e tão perfeito pra mim. Porque fomos amigos antes, e de verdade. Porque fechamos muitos bares, só os dois, e amanhecemos conversando, depois que todo mundo já tinha ido embora, e o assunto não acabava. Porque o assunto ainda não acabou. Porque você também sentiu as mesmas coisas, e disfarçou do mesmo jeito, até que os amigos matchmakers desistissem. Porque você havia me conhecido e amado quando eu tinha treze anos e, burra, nem reparei em você. Porque você não se casou com a outra, a fanha, racionalizando que tinha mais de 30 anos e “tava na hora”, como tantos, tantos homens fazem. Porque você nunca foi ciumento, porque gostava de me ver de saia curta quando minhas pernas eram bonitas. Porque você ainda acha minhas pernas bonitas. Porque não se importou de não ter filhos, quando era óbvio que os queria e que seria um pai muito doce e lindo. Porque é tão parecido comigo em certas coisas e tão diferente em outras tantas. Porque deixou de detestar gatos e se apaixonou por eles depois que adotamos a Nina. Porque quis que adotássemos a Nina, mesmo não gostando de gatos, só porque eu gostava. Porque você agüenta que eu corrija o seu inglês e questione sua gramática sem ficar ofendido. Porque você me ama quando eu sou mulherzinha, quando eu sou fodona, quando eu sou criança, quando eu sou chata e porque se afasta discretamente quando eu viro monstra, mas volta logo, e às vezes apressa a minha volta ao normal fazendo palhaçada pra eu rir. Porque mesmo quando você tá deprimido, se eu ficar triste ou assustada você me abraça e diz que tudo vai ficar bem. Porque quando você tá deprimido fica com essa temperatura de febre deliciosa e suporta eu te agarrando o tempo todo. Porque você tem as palmas das mãos e as solas dos pés finas e macias como as de um bebê, muito mais do que as minhas. Porque você é mais sincero e honesto do que qualquer pessoa que eu conheça, em todos os sentidos, e sem ser chato, palmatória do mundo nem santarrão. Porque você é bom de verdade, sem achar que isso vai te dar o céu ou te livrar do inferno numa hipotética vida após a vida. Porque quando criança, você chorava ou criava caso – e apanhava, porque sempre foi de paz - quando humilhavam algum amiguinho seu, em vez de se juntar à gangue dos bullies, como a maioria das crianças faz. Porque você tem tantos talentos e é tão nonchalant com relação a eles que eu só fui descobrir alguns depois de 5 anos juntos. Porque podemos falar de astronomia – nesse caso, você fala e eu escuto -, filosofia, cinema, fofocar sobre astros de Hollywood ou contar piada de pum com a mesma naturalidade e (alto) grau de diversão. Porque você é quase sempre bem-humorado, gentil, educado e fofo. Porque você tem a boca mais delícia e macia e lindinha do mundo, mesmo quando dorme com ela aberta e ronca. Porque você prefere dormir no sofá do que ficar confortável na cama sem me deixar dormir com seu ronco. Porque você não é machista nunca, nem comigo nem com ninguém. Porque às vezes nós somos dois caminhoneiros, grossos com Ç, e mesmo assim você nunca fica horrorizado comigo nem deixa de me tratar como a sua menina. Porque às vezes você me trata como se fosse meu pai, ou meu neném, ou meu melhor amigo, sem nunca deixar de ser meu homem. Porque você nunca deixou de me achar gostosa e demonstrar isso, estivesse eu magra, gorda, imensa ou mais ou menos. Porque você gosta quando eu rio com você mas não se importa, não fica griladinho nem incorpora um Tommy de Vito se eu rio de você. Porque você também me acha engraçada e isso não te ameaça de forma nenhuma. Porque quando eu tô mal, infeliz, doente, triste ou com medo, você me abraça e em vez de mentir ou fazer promessas vazias, você só me diz “Vai passar”, e isso é a única coisa que me acalma. Porque você ama meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meus sobrinhos como se fossem seus também. Porque você às vezes acorda no meio da noite e fica com vontade de me abraçar, mas não abraça pra não me acordar porque sabe o quanto eu gosto de dormir. Porque você não liga que eu não faça depilação todo dia ou semana, as unhas nunca, o cabelo jamais, e não se importa de me beijar e depois sair de batom, por menos que ele combine com seu cavanhaque. Porque você deixa que eu decida se você vai manter ou tirar o cavanhaque, a barba, que roupa você vai vestir, de que tamanho vai ser o seu cabelo. Porque quando eu corto seu cabelo curtinho você vira meu bichinho de pelúcia e eu não consigo parar de te fazer cafuné. Porque pra falar a verdade, eu não consigo nunca tirar as mãos de você. Porque você também não consegue tirar as mãos de mim. Porque até hoje ainda gostamos mais de conversar um com o outro do que com praticamente qualquer outra pessoa, mas não ficamos emburradinhos se um dos dois engata uma longa conversa com outra pessoa. Porque nós dois estamos sempre juntos contra o mundo, mas nunca – ou quase nunca – um contra o outro. Porque nossas brigas são poucas e de curta duração. Porque você me manda emoticons novos e fofos pelo msn. Porque quando eu olho pra você consigo ver a criança que você foi e o velho que vai se tornar, e amo os dois também. Porque você não dá chilique quando eu digo que fulano é bonito, sicrano é interessante e que beltrano “eu pegava”. Porque você confia em mim e merece minha confiança. Porque você tem olhos cor de mel, mas não é por isso que eles são tão doces. Porque por mais que eu escreva coisas aqui, eu nunca vou conseguir chegar a um centésimo das razões pelas quais eu até posso, mas não quero, não quero, não quero nunca nunca nunca viver sem você. É por isso, por tudo isso, que eu não ganhei na mega-sena acumulada, e é por isso que provavelmente nunca vou ganhar nem uma quinazinha ou uma mísera quadra. É porque provavelmente a sorte tem que ser distribuída com alguma justiça entre as pessoas, e afinal, eu já ganhei na loteria faz tempo. Pra ser mais exata, há sete anos, quatro meses e vinte e nove dias.

Cyn City

16.3.06

And The Sign Said...

Só Jesus salva.

Mas se Deus faz backup das almas, posso reiniciar mais tarde?

O inferno desagrada por definição*. E a hipótese de que se evolua a cada encarnação, feito a comissão de frente da Mangueira, é otimista ao extremo -- e naturalmente errada. Só o backup salva.

E pela fundura espiritual que observo nas ruas, acho que dois gigas dá e sobra. Não precisa nem zipar.

DVD burner, a chave do céu: só hoje, preço de ocasião.

(*) para a mulher, a morte já é o inferno, mesmo que vá pro Paradise Palace Hotel. Viajar sem ter uma ou duas semanas pra fazer as malas? qual a graça? E a hipótese do purgatório é de todas a mais temível. Se as portas "giratórias" dos bancos já evocam rebuliço, que dirá um detector de metais infinito? É a morte...

dies iræ

Ortopedia

Fratura exposta, pinos no braço esquerdo e um osso instável. Meu ombro vive se deslocando, é horrível. Para colocá-lo no lugar novamente é uma dor miserável! Eu também tenho problemas na coluna cervical. De vez em quando não consigo nem mexer a cabeça. Desenvolvi tendinite na mão direita, acho que por causa do trabalho. Quebrei o dedo médio três vezes, todas jogando vôlei, e por isso ele é completamente torto. O pulso eu torci quando era moleque, andando de skate na rua com os amigos, mas até hoje ele dói - basta o tempo mudar. Por isso eu prefiro que não nos abracemos. Espero que você entenda.

Vulgo Dudu em Parágrafo Único

Relou beibes

(…)
A gata gorduchona e laranja, se joga em cima dos meus pés, mal eu me sento na frente de la computadora, e dorme o sono dos justos, largada, ressonando. Talvez eu devesse avisar essa pobrezinha de que ela não é um cachorro, mas não tenho coragem.

¡Drops da Fal!

10.3.06

Vou encher o rabo de dinheiro

Curtindo a depressão constante, vinha eu no ônibus descendo a Consolação, testa grudada no vidro, pensando em diversas maneiras de matar (bem lentamente) dois ou três seres que vêm me aporrinhando a vida. Sem qualquer razão, meus olhos se detiveram sobre o adesivo no vidro traseiro de um Corsa. Dizia o adesivo: "Quem não tem tempo para Jesus está perdendo muito tempo".
Vocês vão achar esquisito, mas ao ler aquela frase tão simples, banal até, eu me senti como que invadido pela luz. Sem tempo para Jesus. É assim que eu ando, é assim que muita gente anda. Todos trabalhamos, estudamos, temos família, namorada, namorado, amante, esposa, marido (estou falando de forma geral, não que cada um de nós tenha tudo isso. Bah, vocês entenderam). É tanta coisa que não nos sobra tempo para cuidar da vida espiritual, que no fim das contas é a vida que importa de verdade.
Não sei quanto a vocês, mas ao pensar nisso eu tomei a decisão de fazer minha parte para melhorar esse estado de coisas. As Organizações Jesus mexe com telha? Jesus, me chicoteia!, conglomerado dirigido por este que vos fala com punho (eta!) de ferro, lança no mercado a...

Gods Outsourcing Incorporated!

Você está sem tempo para Jesus, Javé, Maomé ou Xangô? Está adiando há mais de um ano aquela visitinha ao templo budista, à comunidade Hare Krishna, ao centro espírita? Tomado pelas obrigações e pelo estresse do mundo moderno, acabou ficando sem tempo para cuidar do espírito? Não se preocupe: TERCEIRIZE!

Mas como???

É simples! Basta cadastrar-se em nosso site, escolher a religião de sua preferência e a modalidade de assinatura do serviço que melhor lhe aprouver, e deixar o resto em nossas mãos! Levamos seus pecados ao padre e trazemos sua penitência e, por uma taxa adicional, hóstia para a comunhão. Resumimos os sermões de seu pastor preferido em lindas e didádicas apresentações em Power Point. Entregamos seu dízimo ao picareta de sua escolha (mediante taxa de 10%). Arriamos despacho em qualquer encruzilhada, praia ou cachoeira do Brasil. Transmitimos recados aos parentes desencarnados. Ah, você prefere o budismo? Nosso time de profissionais pode meditar por você. Prefere ser um monge Hare Krishna? Vendemos incenso nas principais avenidas e aeroportos do País.

Quanto vale tudo isso?

Não responda ainda! Além de todos os serviços, você ainda recebe em casa, totalmente grátis, uma edição de luxo da Bíblia, do Corão, do Livro dos Espíritos, do Necronomicon, enfim, do livro sagrado de sua religião predileta!

Mas isso tudo deve ser muito caro!

Não se preocupe! Temos desde planos populares até elaboradíssimos planos, com contingência de religião* para garantir o seu conforto no além! Temos o plano do tamanho do seu bolso! E muitas outras opções religiosas, do voduísmo haitiano aos dervixes rodopiantes da Turquia. Fale conosco hoje mesmo e durma de consciência tranqüila!

Nossa, deve ser uma fortuna!

Ah, então foda-se, miséria do cão! Vá pro inferno e não me encha o saco!
Apaporra!

Jesus, me chicoteia!

8.3.06

Q U A S E A C O R D A D A

Há muito tempo não ficava para escrever nas madrugadas. Estas que estranham ao ver luzes acesas onde eu costumo estar – olhos bem fechados, sonhos passando por dentro da minha cabeça desordenadamente e o silêncio. Talvez, dependendo da natureza do dia ou do sonho, uma música para animar ou entristecer. Mas sempre os olhos fechados de sono, ou em caso de insônia, na expectativa de o sono vir - e que aqui estou eu em contato com o mundo acordado numa madrugada que ainda é cedo, mas que já é tarde o suficiente para que as pestanas se cruzem a frente dos olhos e a cabeça ameace o movimento dos cansados, aquele brusco, para frente e acompanhado de um susto gigantesco. Em baixo da minha janela, passam tantos carros como se fosse dia e um grito de pavor de mulher me faz ter medo da noite na vida real.

Ai, lembrei de uma carta que recebi de uma amiga onde ela, no meio de uma declaração de amor, daquelas que só uma amiga que te viu crescer mesmo tendo te conhecido quando você já não era criança, é capaz de fazer e ela dizia: "O ônibus azul que você pegava todos os dias acabou de passar" e eu chorei tanto lendo aquilo. E quase chorei de novo agora enquanto ria lembrando.

Lembrei dos planos que ela e eu fizemos juntas envolvendo tantos outros e que nunca se encaixarão em nossas realidades.

Tenho dificuldade de esperar.

Sono é melhor que realidade.

Melina, Essa moça tá diferente

PORQUE A GENTE É ASSIM.

(…)

Eu não gosto de tirar fotos. Não gosto de congelar a cena pra guardá-la onde quer que seja. Nas viagens eu levo máquina fotográfica e esqueço no hotel, na mala, na casa onde estou hospedada. Nos eventos, não contem que eu tenha máquina à mão. Ela só vai se alguém me lembrar e fizer questão. Eu adoro as fotos dos outros, acho lindo álbuns de fotografias, mas não faço as minhas. Não sei bem porquê. Provavelmente porque nada do que está ali foi o que aconteceu. Eu acredito que posso me lembrar com muito mais precisão do que qualquer fotografia. Na memória há o cheiro, os ruídos, a temperatura, a sensação, a emoção do momento, pra muito além do que o que era visto. Acho que a foto pasteuriza a lembrança, acho que é isso.

(…)

Ticcia revelada em Megeras Magérrimas

E a pergunta que não quer calar é por que será que eu não tenho manias?!

(…)

A vozinha é hipocontríaca. Sempre está com dor em algum lugar, sempre está doente, sempre há algum problema grave. Tem um armário lotado de remédios: caixas e mais caixas. E a bolsa da velha é uma filial do armário. Nunca a vi responder está tudo bem! Remédio para dormir ela toma desde antes de eu nascer. Odeio tomar remédios. E quando sou obrigada a fazê-lo; o médico insistiu muito e a explicação foi vasta. Depois de passar a noite inteira com dores lascinantes enquanto meu filho escorria pelas pernas, chegamos no hospital e a enfermeira foi me esticar na maca. Sem querer, arranhei o braço da mulher no meio do urro. Quando o efeito da morfina foi passando e sendo substituído pelas nauseas, comecei a respirar devagarinho com medo de ferir o Lord, até desmaiar de tanta dor. Ao acordar da anestesia, a primeira coisa que vi foi o rosto dele sorrindo pra mim, dizendo que tinha acabado e tudo ia ficar bem. Pedi que ele não me deixasse mais sentir dor. Durante dois dias, de tempos em tempos ele me acordava com comprimidos de várias cores e formatos. Até hoje não tenho a menor idéia de quais ou quantos remédios tomei. Não senti mais dor. No corpo.

Rô, sem manias, no Megeras Magérrimas

7.3.06

Breve História da Minha Carreira

(…)

Hoje fui jantar com meu pai. Enquanto comíamos a pizza, discutimos sobre religião. Meu pai é católico e cristão. Eu não. Ele acredita em religião e eu acredito em psicanálise. Ele fala sobre o bem e o mal e eu falo sobre o inconsciente. Ele fala sobre um Deus e eu falo sobre ego, superego e id. Ele fala do desejo do bom cristão de fazer o bem ao próximo e eu falo de narcisismo e vaidade. Ele fala em oração e eu falo em delírio. Ele fala que a vida não teria sentido se não existisse Deus. Eu falo que a vida não tem sentido e ponto. Ele considera o materialismo algo ruim. Eu considero o materialismo a única coisa que temos. Gostei da discussão que tive com ele, embora não soubesse verbalizar meus argumentos. Sempre quis provar algo para meu pai. Muitas vezes cheio de mágoa. Tinha muito medo dele e ainda brigo comigo mesmo para resolver esse conflito. Nas nossas conversas, geralmente ele falava e eu ouvia, ou então eu apenas conversava sobre coisas em que não houvesse discórdia entre nós. Faz tempo que venho tentando discordar do meu pai. Estudar psicanálise pode ser a minha vocação. Aprender a discordar do meu pai, uma lição tão simples, pode ser o trabalho da minha vida.

:: This is why I always wonder ::

4.3.06

quebra-cabeça do amor

liga a motoserra, amor
cerra meus olhos
esmerilha dentes e gengivas
capa as orelhas
esmigalha o nariz
centrifuga o cérebro
kaputa o pescoço
destronca a clavícula
destrinça as costelas
parta o coração
afoga os pulmões
amputa o abdômen
esvazia o estômago
farofeia os miúdos
estripa as tripas
pica os culhões
desprega o cu
desmunheca as mãos
desliga os rádios
subtraia os úmeros
bamboleia os quadris
libera os fêmures
desrotula os joelhos
castiga as tíbias
opera os perônios
desande os pés
agora monta como quiser, amor

Marcos Prado & Aranha

PALAVRA DE PANTERA

Hello Kitty - Valentina

oooooooiiiiiiiiii!!!!!!!!!!
as minhas melhores amigas q dize a minha melhor amiga e a fer!!!!!!!!!!depois a carol dai a duda dai a mari e a re q e bem legal so q a mikaella e a roberta sao chatas para valer!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Hello Kitty - Valentina

Subemprego 9: Escrivã da delegacia da mulher

O único requisito era teclar rápido e ser mulher. Ninguém disse nada sobre discrição, mas eu era. A vítima podia narrar o que fosse, eu não me abalava. Ia teclando.

A história sempre começava bem:
- Ele tentou me matar.

Daí, caía no choro. Eu digitava: "choro" e cruzava os braços. Quando a vítima voltava a falar, eu voltava. Vinham os detalhes. A história padrão era homem bêbado que chega em casa nervoso e bate sem motivo. "Mais choro".

Até aí era sempre igual. Eu cruzava os braços, abria uma revista e esperava. Então vinha o motivo. Variavam entre: "ele acha que sou vagabunda", "ele acha que escondo dinheiro dele", "ele acha que vou fugir com as crianças".

A delegada pressionava mais um pouco e então sim, eu vibrava a cada toque.
"Esperei ele dormir na rede, peguei linha e agulha e costurei ele lá dentro. Daí peguei a faca de cozinha e fui embalando o Zé. Conforme a rede vinha eu mexia a faca um pouquinho pra cá ou pra lá."

Quarenta e nove facadas. Deixava o expediente deprimida. Como escritora, jamais seria capaz de imaginar algo assim.

||| Índigo - 73 Subempregos |||

conversas furtadas

DUAS SENHORAS
— Qual o certo: poblema ou pobrema?
— Os dois tão certo.
— Qual a diferença?
— Poblema é o que os professor de matemática passa na escola; pobrema
é o que nóis passa no dia-dia com marido, filho, genro...

Enviado por Walder Lopes.

--

DOIS VELHOS

— Tem duas coisas nesse mundo que eu não consigo entender.
— ...
— Big Brother e o tal do computador.

Enviado por Germano Knipeln.

conversas furtadas

Phone Sex

(...)
Ah, Maria Alice, pode ser outra hora? Que assunto mais chato de conversar no telefone.
(...)
Claro, pô. Se eu não quis conversar em pessoa porque o assunto era chato, por que ia querer conversar no telefone?
(...)
Eu não tô sendo...
(...)
Tá bom, Maria Alice. Fala.
(... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...)
Você ta completamente louca, Maria Alice. Eu não vou em sexóloga nenhuma.
(... ... ... ... ...)
Você é que disse “sexóloga”, oras. Mas também num vô em terapeuta de casais.
(... ... ... ...)
Mas, Maria Alice, não era você que vivia zombando da sua mãe porque ela tirava dúvida sobre sexo com o padre? Qual é a diferença?
(... ... ... ... ...)
Sei lá, Maria Alice, tem muito padre que entende de sexo, uai. Ce não lê as notícias?
(...)
Se padre que entende de sexo é sem vergonha, sexóloga é o quê?
(... ... ...)
Ah, quer dizer que todas as sexólogas praticam essas sacanagens que elas recomendam pros casais?
(... ...)
Bom, Maria Alice, se a sexóloga pratica essas sacanagens todas eu é que não quero pedir conselho pra ela.
(...)
Uai, porque ela é vagaba. Eu não quero conselho de vagaba. Se gostasse de vagaba, tinha casado com a sua prima Sônia e não com você.
(... ... ...)
Não fica brava, Maria Alice. Claro que você é muito mais gostosa que a sua prima Sônia.
(...)
E que a sexóloga.
(...)
Cê vai o que, Maria Alice? Me esperar no futebol?
(... ... ... ...)
Me esperar de baby-doll. Desculpa, benzão. Celular, cê sabe.
(...)
Eu também te amo.
(...)
Ah, Maria Alice, da última vez que você fez jantar afrodisíaco eu fiquei com os estrombo tudo virado.
(clic)

Filthy McNasty

3.3.06

Terça-feira, Outubro 04, 2005

Hoje deu vontade de chorar mas não chorei.

"Já que não me entendes,não me julgues, não me tentes."

Gordo félodaquenga

Algum pulha, em um passado imemorial, lhe dá um livro do Jô Soares de presente. Aquela trolha fica na estante durante anos, amarelando, sem nunca ser aberta, até que um dia você vê que precisa de mais espaço para guardar livros que prestam e resolve juntar essa a outras tranqueiras para ver se consegue desconto em algum sebo. Você mostra pro dono do estabelecimento e, com desdém, ele fala: “Isso aqui não, tenho um monte lá no fundo e ninguém compra”. Você vai para outro sebo e o sujeito de lá diz: “Isso não vale nada, poderia servir em uma troca, por dois reais, mas eu já tenho outros”. Aí você pensa em doar para uma biblioteca, mas sua fé num futuro de melhores leitores o proíbe. No terceiro sebo, você muda a tática. Pega um livro e vai pagar. Na hora de sacar a carteira, tira o desgraçado da pasta e pergunta: “Olha, eu tenho esse livro, você pode me dar um desconto?”. A mulher, titubeante, diz que não interessa. Você aproveita o vacilo e implora: “Qualquer desconto serve”. Ela, sem convicção, topa. Você faz a transação rapidamente e muda de assunto: “Bonito sebo, é novo, né?”. Você ganha a rua com Berlim Alexanderplatz tendo custado dois reais a menos e a satisfação de ter livrado a sua casa de qualquer vestígio daquele gordo filho de uma puta.

pura Maldizência

2.3.06

Diálogos bobos - ele fofo, ela venenosa

Ele diz: - E eu achando que a Kristin Scott -Thomas tinha no máximo minha idade.
Ela diz: - Nada, deve ter bem uns 50.
Ele diz: - 45.
Ela diz: - Hohoho. Maldade feminina.
Ele diz: - And I do.
Ela diz: - You don't do, you WOULD do, if you could and if she would and if I'd allow it...
Ele diz: - Huh, eu faria, eu faria, claro. Esqueci do anômalo.
Ela diz: - Anômalo é você, mi amor.
Ele diz: - Eu? Sou normalzinho, bem resolvido, bem casado, feliz e fiel, neguinha!!!
Ela diz: - Por isso mesmo, hahaha...

Cyn City