19.4.05

pobrezinha da américa latina, desde o berço explorada

E ainda chamam os conquistadores de covardes. Não vejo como. Quando meia dúzia de caipiras, armados com pau-de-fogo, dominam um continente inteiro, não são eles os covardes.

"Eles foram ajudados pelas doenças! Fomos dizimados!"

Pois é, até nas doenças a Europa sempre foi mais evoluída que a gente.

E sempre que aparecem uns tontos me pedindo indenização histórica, penso em pagar com aquilo que lhes é historicamente mais caro: um pacote de fumo e alguns espelhinhos.

Dívida... e digo à mesa do bar que lhes demos civilização, e em vez de nos retribuírem com Mozarts, Einsteins, Michelangelos, nos deram apenas Belafonte, Juruna, Basquiat e nomes outros talvez ainda mais ridículos. Quem está em dívida com quem?

É quando querem me bater. O Brasil não está preparado pra esse tipo de humor maléfico. A menos que apareça na televisão, aí todo mundo percebe que é brincadeira -- sobretudo se for no horário eleitoral, que por alguma razão só candidato leva a sério.

dies iræ

12.4.05

O maior mico da minha vida...

Aconteceu já tem um tempo. Uns anos.

Eu precisava ir ao oculista. Consulta de rotina, confirmar o grau para fazer óculos novos. Nada de mais. Como tinha o convênio da empresa da minha mãe, pedi para ela ver entre os colegas dela se alguém tinha alguma indicação.

Dias depois, ela me trouxe um nome e um telefone. Ótimo. Liguei, marquei consulta. Nada de mais.

No dia da consulta, lá vou eu, feliz e contente. Só uma consulta de rotina com um oculista, nada para preocupação. Ou não...

Chegando ao consultório, já começaram os fatos estranhos. Não parecia uma sala de espera normal. As pessoas estavam tristes, cabisbaixas, deprimidas. Extremamente preocupadas. Algumas olhavam para mim com um ar compungido, e eu não entendia porque. "Mas é só uma consulta com o oculista... tanto drama por causa de um problema de visão? Eu, hein...".

Não demorou muito para chegar a minha vez. O médico abriu a porta do consultório e chamou meu nome. Quando me levantei, ele demonstrou surpresa e o mesmo ar de pena do pessoal da sala de espera: "Você veio sozinha??". Balancei a cabeça afirmativamente. "Ora bolas, para que eu ia precisar de companhia em uma visita ao oculista?".

Ele se sentou, suspirou e atirou a pergunta, como se temesse a resposta: "Então, por que você está aqui?". Eu, sem mais rodeios, tirei a última receita com o grau dos óculos antigos da bolsa e coloquei-a sobre a mesa, com a explicação simples e direta: "Bom, é que já faz tempo que eu não confiro o grau, e preciso fazer óculos novos..."

Ele pegou a receita com um ar intrigado. Subitamente, pareceu compreender toda a situação. Olhou para mim como que contendo o riso, provavelmente em uma tentativa – inútil, mas bem-intencionada – de não me deixar constrangida. "Eu acho que você se enganou... eu não sou oculista, sou oncologista".

A palavra ficou ressoando nos meus ouvidos. "Oncologista, oncologista... caramba, o que é que eu estou fazendo aqui??????"

Para quem estiver em dúvida, oncologista é o médico especialista em câncer. E o que é pior, o cara era oncologista cirúrgico. Ou seja, o tipo do médico que só se procura quando tudo o mais já está perdido...

De repente, tudo começou a fazer sentido. O ar pesado da sala de espera, o olhar compungido da secretária, a pena do médico ao me ver entrar sozinha para a consulta. Olhei ao meu redor. Como eu não havia percebido antes? Passei os olhos pelos livros na estante: ‘Câncer na Boca’, ‘Câncer no Estômago’, ‘Câncer na Laringe"... a maca, para que diabos haveria uma maca em um consultório de um oculista??? E aquela máquina esdrúxula para exames oftalmológicos, como eu não tinha percebido que não havia uma ali??

Eu queria sumir. Queria que o chão se abrisse e me engolisse. Comecei a sentir um calor tremendo, imaginei que meu rosto devia estar um pimentão. Acho que nunca me senti tão idiota em toda a minha vida...

"Eu sei por que você se confundiu... é que a lista de oncologistas vem logo em seguida à de oculistas no livrinho do convênio...". Ele tentava justificar o injustificável.

"Vou te recomendar um oculista muito bom, um amigo, o consultório dele é aqui pertinho...". Eu já nem ouvia, só queria me levantar e sumir dali.

Ele me entregou o papel com o endereço do tal oculista. Eu peguei, agradeci, virei as costas. Tentei fazer a cara mais tranquila possível, algo assim como "enganos acontecem... que coisa mais curiosa...", mas é claro que a minha expressão denunciava o quanto eu estava me sentido a criatura mais tapada do universo.

Saí direto, sem olhar para os lados na sala de espera. Eles não sabiam, mas a minha cara de desconcerto certamente denunciaria tamanha estupidez.

Saindo do consultório, inventei de olhar para trás. Maldita hora. Só pra piorar as coisas. Uma placa enorme na porta dizia em letras garrafais: "Dr. Fulano de Tal, oncologista cirúrgico". Por que diabos eu não vi essa placa na entrada? Distraída tudo bem, mas assim já era demais...

Saindo do prédio, sentei na escadaria e fiquei lá, uma meia hora, rindo sozinha. As pessoas passavam e não entendiam nada. Mas eu entendia.

Eu tinha uma mera miopia. E isso era muito, muito bom...

Um mico by Renata

What will survive of us is love

“Ridículo” era uma das tuas palavras prediletas –como qualificativo, admoestação, crítica e premonição, era raro que uma conversa passasse sem que você a empregasse, com aquele teu estranho “r” que não tinha o ronco do RR e nem era suave como o R brando. Quando a gente via anciões de 30 anos se comportando bizarramente, você sempre me olhava e me fazia prometer que não, a gente não seria ridículo daquele jeito quando atingíssemos a vetusta idade daquela gente patética. Ou, me golpeando com o punho que ostentava um dedo médio saltado à maneira de soco inglês (aqueles socos doíam, ô), cê me encarava com severidade prussiana e ordenava “não seja ridículo, menino”.

No limiar da autonomia, a gente encarava o mundo adulto com um fascínio horrorizado –os rituais de acasalamento, a necessidade incontrolável de contar vantagem, o comportamento bizarro em cerimônias, a liberdade material e a ausência de disciplina que, estranhamente, pareciam torná-los tão mais infelizes. Porque a gente lia muito, e aqueles romances “naturalistas” todos em que um narrador explica tintim por tintim, em terceira pessoa, o que se passa nas cabeças, almas e encanamentos dos personagens, a chusma que observávamos parecia estranhamente unidimensional, rude, grotesca, meio pintura rupestre. E porque acreditávamos devotadamente nessa “vida interior” riquíssima que os livros expunham, não era exatamente como antropólogos aos selvagens que observávamos a estranha fauna –havia uma certa repulsa, de nossa parte, um fascínio meio horrorizado. Eles eram todos, para resumir como você resumia, “ridículos”.

Sabe, B., eu agora tenho a idade que eles tinham e –talvez em função da tua ausência- não consigo evitar meus momentos de ridículo. Às vezes, chafurdando nele, fico imaginando se as coisas poderiam concebivelmente ter sido diferentes, caso você tivesse sobrevivido. Mas o dirty little secret que vou te contar aqui, com atraso de quase 20 anos, é que a consciência de que estamos sendo ridículos não evita que o sejamos. A crueldade com que você e eu classificávamos todo mundo era privilégio do nosso isolamento: da janela do apartamento, quase todo mundo parece gordo na piscina. Lá embaixo, baby, você descobre que é um dos caras que ficam segurando a barriga.

Do alto de sua prussiana empáfia, é bem provável que você nem lembre da Dri, aquela namorada magricela que demonstrava amor por mim com cartões desenhados a mão contendo promessas tocantes e ortograficamente pobremáticas de fidelidade e paixão (ou, como escreveria a Dri, “paichão”). Well, ela te odiava, anyway. Dizia que era fácil achar todo mundo ridículo, sendo loira, gostosa e rica. Eu sempre descartei as críticas dela classificando-as sob a rubrica “ciúme”. But she had a point there, didn’t she? Porque em meio à tua profusão de paqueras, namorados, enroscos e casos eu era a constante da tua vida, vai ver que eu me achava loiro, rico e gostoso honorário, nem sei. Fact is, I wasn’t.

Quando saí de casa para uma cintilante carreira de garçom/aspiring musician/bad college undergrad, combinamos aquelas coisas patéticas que os jovens costumam, entre as quais reencontros a cada cinco anos –e porque você seria a melhor arquiteta do mundo e eu um astro-pop-sem-ser-mongo, aproveitamos logo pra marcar esses encontros em Firenze. Sonhar baixo, afinal, é coisa de ridículo. Não sei se acidente de automóvel aos 18 anos mereceria tua palavra predileta, baby, mas meu mundo ficou muito mais pobre e muito mais ridículo sem você. Quando vou a Firenze e passeio pelo Boboli, meus olhos se enchem de lágrimas e meu coração transborda de lembranças tuas. As meninas de 13 anos maquiadas como se fossem piranhas e acendendo um cigarro no outro que ficam na porta da escola ali perto talvez me vejam passar com os olhos vermelhos e comentem “ih, olha que turista ridículo”. Você, no prussiano céu de arquitetura impecável que inevitavelmente deve ter projetado e executado nesses 18 anos de ausência, decerto ouve e rola de rir.

Filthy McNasty

11.4.05

Sobre Blogs:

Há cerca de um ano ouço a mesma coisa: essa coisa da Blog acabou. Dizem que ninguém mais se interessa por isso, que a onda acabou, que não existem mais grupos, festas, que a coisa de linkar, comentar, visitar, fazer festa, tudo isso acabou. Eu, enquanto amante dessa coisa chamada "Blog" resolvi dar o meu grito de luta e defender essa ferramenta tão mal compreendida e tão mal utilizada. O intuíto não é provar que o "Movimento Blog não morreu", mas sim que, a fase inicial se foi, e com ela, o mal uso da ferramenta e toda a ilusão que esta incompreensão carrega. Hoje, os blogs são o que realmente devem ser, ferramentas de publicação individual, e não sites de relacionamento e/o promoção pessoal.

Blogout

Dia de domingo

Porque minha mãe sempre cozinha no domingo tomando uma cervejinha. Aí a comida só fica pronta lá pras 4h da tarde, a gente já roxinho de fome. É estratégia, almoço-janta de uma vez só. E eu, que cismam dizer não saber cozinhar, fico lá só cortando cebola e azeitona e tomate e mais cebola e agora cebolinha e salsinha e mais um pouco de cebola (pra quê tanta cebola, meus olhos chorosos perguntam) e passa o sal com alho também, corta mais tomate agora quadradinho, igual a cenoura, abre as latas de milho e ervilha. Pra no final a gente sair satisfeito, tirar um cochilo e só acordar na hora que a boca pede uma coca-cola e já tá passando o Fantástico na globo.

Domingo é sempre igual até no Sanatorium

Eu acabei de andar do início da Rua Clélia (Lapa) até o final da Rua Monte Alegre (Perdizes) embaixo desse sol foda que tá hoje, simplesmente porque o trânsito parou literalmente, a ponto do motorista do ônibus descer e ficar trocando idéia com o pessoal do comércio. Eu tava tão zureta de cansaço que eu quase fui atropelada na Av. Sumaré, porque eu comecei a pirar no povo que tava ali fazendo cooper de short, e eu dentro de uma calça jeans escura fazendo o mesmo trajeto... e nem prestei atenção que eu tava no meio da Avenida.
Eu saí de casa 7:30. São quase 10:30.
DÁ PRA IMAGINAR O TAMANHO DO ÓDIO QUE EU TÔ DESSA CIDADE?
Meu. Eu tô tão emputecida que eu não consigo nem falar palavrão.
A vantagem é que posso ficar sem exercícios para o resto da minha vida, porque não é a primeira vez que eu faço isso.
Agora dá licença que eu vou fumar um cigarro sentada na frente do computador por cerca de 8 horas, porque isso é que é vida, caminhar séculos embaixo do sol, de calça jeans, respirando o ar puro do trânsito de São Paulo, e chegar no trabalho parecendo que nem tomou banho, e ainda passar o dia sem levantar da cadeira olhando pra uma telinha.
Uhu, mas que beleza. Game Over. Don't feed me, please. Tirem a minha sonda agora.

qum se importa?

Minhas acepções sobre São Paulo

São Paulo, ou Paulo de Tarso, que antes se chamava Saulo, foi um homem que matava cristãos, mas se arrependeu quando Cristo apareceu para ele e o cegou. Depois que foi batizado por um discípulo de Jesus chamado Ananias, um dos nomes mais engraçados da Bíblia, voltou a enxergar e passou a espalhar a palavra do Senhor por todo o Império Romano, transformando o cristianismo na maior religião da época. Mas não é desse São Paulo que quero falar, ele não é importante.

São Paulo (a cidade que morei durante toda minha vida desde ontem e segunda maior cidade do Brasil, atrás apenas de Dois Córregos, maior cidade do universo e onde eu vivia até anteontem) é uma cidade barulhenta. Mal pude dormir essa noite. Som de carros, motos, caminhões, sirenes, gente sendo baleada (ah, como gente sendo baleada é barulhenta!) e jazz. Sim, jazz. O cara do quarto ao lado passou a noite ouvindo jazz. Eu teria pedido para ele abaixar o volume do rádio, mas não pude fazê-lo. Eu teria virado para o lado e dormido, ignorando a música, mas também não pude fazê-lo. Adoro jazz.
Em São Paulo, tudo é longe. A USP (onde estudo a partir de amanhã) é longe - apesar eu de poder ver a Cidade Universitária da minha janela -, o parque do Ibirapuera é longe, o estádio do Morumbi é longe, o shopping (qualquer um deles) é longe, a esquina é longe, o andar térreo é longe. Aliás, o andar térreo é muito longe, 15 andares abaixo. Moro no décimo-quinto andar. Duvido que alguém viva num lugar tão alto, excetuando-se os moradores do décimo-sexto andar. O ar é rarefeito aqui. Aviões passam logo abaixo minha janela. Esticando os braços pela janela, posso tocar satélites, foguetes, estações espaciais e até a Lua. A Lua, amiguinhos! Se o monte Everest fosse aqui ao lado, eu poderia vê-lo de cima.
E, por fim, São Paulo está cheio de ladrões. No meu primeiro dia aqui, já me roubaram 16 reais. Foi uma caixa do Cinemark. 16 reais pra assistir a um filme ruim. Um roubo, um roubo!

¡Ay, Caramba!

Dizem que burrice mata

Eu só acho que podia ser mais rápido.

CALABOCA que eu tô falando!

10.4.05

Eulálio Catamiro

Desligou o telefone. Era mais uma daquelas ligações pedindo para usar o nome de seu marido, falecido, em algum tipo de obra pública, lançamento artístico, algo assim.
Ela se lembra de todas.
- Queríamos usar o nome do Eulálio para batizar uma ponte, você se opõe? – indagou um Prefeito.
- Mas é claro que me oponho! – ela respondeu – Já imaginou quanta gente vai se matar pulando daquela ponte? E os acidentes de carro? Não, não... Nada de nome de ponte, o senhor me desculpe.
- Sim, tudo bem, a intenção era boa...
Sempre havia alguma justificativa que deixava o interlocutor praticamente sem resposta. Ou, quando tentava argumentar, recebia a apelação final.
- A obra do novo aeroporto está quase concluída. Aproveitaremos para renomeá-lo, vai se chamar “Aeroporto Internacional Eulálio Catamiro”. Queremos muito sua presença na inauguração – determinou o Governador
- Desculpa, senhor Governador. Sou sua eleitora, mas nem por isso devo concordar com esse batismo. Não quero o nome de meu marido associado a uma obra assim, você há de entender – respondeu.
- Ah, me perdoe, mas não entendo! É uma obra linda, o orgulho do Estado, e com o nome do seu marido! Veja que coisa boa!
- Não vejo por aí. Imagino os acidentes, imagino o pessoal perdendo vôo, ou então atrasado, reclamando “do trânsito absurdo até o Eulálio”. Não quero que alguém enfrente um trânsito absurdo para chegar atrasado ao nome do meu marido.
- Mas e quem vier em visita? E quem tiver contato com esta nossa Terra usando o Eulálio como intermediário? E os nossos conterrâneos que finalmente conhecerão o exterior, também por meio do Eulálio?
- Não, Governador. Não autorizo. Eu sou a esposa, e não quero o nome do meu marido associado a isso. Não há herdeiros, não há ninguém mais vivo que seja familiar de Eulálio Catamiro. Espero que respeite esse meu desejo.
- Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que, no futuro, ninguém mais se lembrará dele. Agora, todos estão ainda comovidos, e é a hora certa de batizar. Depois, minha cara, algum outro aí acaba morrendo, e ninguém mais se lembra de Eulálio! Passar bem! – ele desligou o telefone, crente de ter magoado suficientemente a audaciosa cidadã que ousou recusar tal oferta.
Mas a viúva não estava exatamente chorando. Um leve sorriso podia ser notado em seu rosto. Assim como sorri agora, enquanto se lembra de cada recusa.
Não concedeu entrevista alguma, não liberou fotografias, não aceitou que o nome de seu marido fosse usado para qualquer coisa. Seu advogado já tinha um modelo de ação judicial, mas isso só foi preciso em dois casos, fora do Estado.
O único jornalista que se pôs a tratar do tema, curiosamente a elogiou, convidando todas as viúvas, viúvos e órfãos a fazer o mesmo, ou seja, não explorar a posteridade do ente querido, por mais que fosse uma “pessoa pública finada”.
Ela já se referiu a Eulálio como “pessoa pública finada”. Roubou a expressão do jornalista. Só não respondeu ao artigo, agradecendo, porque não quer mexer ainda mais no assunto.
Sabe bem que o Governador tem razão. Com o tempo, o povo esquece, e ninguém mais vai querer batizar qualquer coisa de “Eulálio Catamiro”.
Como sempre, a grande lembrança que lhe vem é a do velório. Lembra-se perfeitamente daquela mulher, no fundo da sala, aquela que não falou com ninguém. Entrou e saiu, fez lá um sinalzinho da cruz, mas foi o bastante.
A mesma mulher com quem flagrara o marido havia vinte e cinco anos. A mesma mulher com quem o marido disse que não teria nada de mais. A mesma mulher que teria se mudado para a África, ou teria morrido de catapora, ou passado por algo assim.
A mesma mulher que aquele filho da puta jamais deixou de ver ou de amar. E que jamais deixou de amá-lo também.
De tanta raiva pela lembrança, jurou – e vem cumprindo o juramento – que todos se esquecerão de Eulálio Catamiro.

bico de pena

- Você, por acaso, viu "O Jogador", do Dostoiévski?
- Sei nem que time é este.

silenzio, no hay banda

Bizarrices da Família

Meu irmão ligou pra minha mãe do Níger (onde está fazendo pesquisa de campo para seu doutorado em Louvain-la-Neuve) para pedir que ela reze por ele porque vai atravessar hoje um rio cheio de hipopótamos.

dadarquia

O dia em que a terra parou

Essa manhã, Roma amanheceu em silencio. Mais de 600 mil pessoas se amontoavam ao redor da Piazza San Pietro para o maior funeral que a Europa já viu, a do Papa João Paulo II. Mais de 200 líderes mundiais estavam presentes. Ao redor do mundo dezenas de milhões de pessoas acompanhavam emocionadas, ao vivo, o funeral do que já está sendo considerado o maior papa da era moderna cristã. Por duas horas, o mundo parou.

Enquanto isso, eu dormia tranqüilo, e tinha sonhos eróticos.

cacofonia

9.4.05

O Rio de Janeiro está uma loucura

Ir ao Rio nunca é uma empreitada tranqüila. As ruas do centro da cidade explodem gente pelos bueiros. O calor derrete o cérebro, forma uma bolha em volta do corpo e você pinga e pinga no meio-fio junto com os aparelhos de ar-condicionado. Ok, a imagem é vagabunda, meu cérebro ainda está pastoso, mas a sensação é essa. Daí, a gente foge do bafo quente direto pra dentro de um táxi geladinho e o motorista, muito solícito, nos presenteia com relatos escabrosos de seu cotidiano no ofício. Você já está com medo porque não mora no Rio, porque fugiu do Rio, porque sabe o que aconteceu com você lá e o que ainda acontece e blablablá, e o motorista lhe conta por exemplo em detalhes como foi quase degolado e baleado por uma dimenor estudante branca e uniformizada que queria roubar-lhe a féria do dia e o carro, o que ela conseguiu. E que o delegado conhecia a mencionada assaltante mirim mas não podia fazer nada porque ela era dimenor etc. e tal. Que uma loura com pinta de executiva, sua cliente habitual nas corridas, era assaltante de políticos ricos e famosos. Que uma carreta acabou de passar por cima de um ônibus que vinha na contramão matando não sei quantos porque você não se lembra. Daí você paga o táxi, sai do geladinho e entra na bolha quente de novo porque marcou com seu amigo na porta do restaurante geladinho que NÃO PERMITE QUE VOCÊ FUME. Você entra porque já se cansou e fica sem fumar. E você e seu amigo ficam putos porque ambos fumam. Mas a saudade é maior e vocês esquecem, começam a conversar e pedem salada pro garçom porque o corpo está quente e vocês não agüentariam comer nada quente. Então o amigo quer saber de você, quer saber da nova cidade em que você mora porque você abandonou o Rio e ele quer saber como você está se virando e se sentindo. Hum-hum, tá legal, você conta. Depois pede pra ele falar do Rio. Ele conta uma fofoca política quente, nem bem uma fofoca mas um rumor à boca pequena dos cariocas, que eu não posso contar aqui e isso é uma merda, mas os cariocas falam de alguém que possivelmente está com câncer e eu abro a boca ããã e fecho. O amigo conta outras coisas mais, de lavagem de dinheiro de uma famosa empresa digamos que do entretenimento e você ããã porque não sabia, mas os cariocas sabem. Os cariocas que vivem lá sabem. Você toma um chope, pede outro, ninguém fuma e um grupo de bailarinos entra no restaurante. Não para bailar. Os bailarinos comem pizza. Você olha pra eles porque há muito tempo não vê bailarinos ao vivo. O amigo conversa, você ouve. Você conversa, o amigo ouve. O Rio é o Bronx, a Broad Street. Mas você não se droga mais. Nem fuma um cigarro. Na saída do restaurante, sob um céu estrelado e quente, vocês fumam enfim e se despedem. Um avião passa bem acima da sua cabeça direto pro Santos Dumont. Você sente vontade de chorar. Estou morrendo de saudade. Você canta. Mas saudades não pagam dívidas. Você entra na bolha fria de outro táxi. Para um pouco mais de mim, tecle zero.

Prosa Caotica

5.4.05

NEWS

Daria pra enterrar logo esse papa e mudar de assunto? Já encheu o saco.

catarro verde

4.4.05

WON'T YOU TAKE ME TO FUNKYTOWN

Antes de ir para Far Far Away, conversas telefônicas da família Cafeína:

- Pronto!
- Oi, pai, sou eu! Estás melhor da gripe?
- Bah, guri, esta gripe me derrubou!
- Tomaste remédio, pai?
- Não, foram só 20 dias. (!!!)
- Mas já estás melhor?
- Ah, agora eu tô bem.
- Que bom. A mãe tá por aí?
- TÔ NA LINHA!!!!

(Na casa dos Cafeína, eles adoram ouvir conversas telefônicas alheias)

- Tchau pai!
- Tchau, meu filho. Beijo pra ti!

- Oi, mãe! Estavas na linha ouvindo? Que feio!
- Ué, eu tenho que ver se não é pra mim, oras!
- Ah...
- Espera um pouco, meu filho. PAI, SAI DA LINHA!
- CLIC!
- Pronto, podes falar. Teu pai fica escutando a conversa dos outros...


cafeína

30.3.05

BRINQUEDOS PELA CASA

Não tomei cerveja com o meu pai. Não conversei sobre mulheres com o meu pai. Não fui ao cinema com o meu pai. Não visitamos a Expointer. O máximo de aventura que enfrentamos juntos foi quando ele estacionava em local proibido na rodoviária ao pegar os jornais e me deixava esperando no carro. Suportava a seqüência de tormentos: as buzinadas de quem vinha atrás, o pisca ligado eternamente e o pavor da multa do guardinha. Não tive nenhum papo adulto ou cabeça com ele. Ele não me indicou caminhos, não reprimiu escolhas. Não assinava meu boletim. Não autorizava minhas viagens escolares. Não me ensinou história, literatura, português. Não me explicou o sexo, a única vez que chegamos perto do assunto foi quando comentei que seria pai e já era tarde demais. Ele saiu cedo de casa (ao menos para mim), quando tinha oito anos. Não joguei futebol com meu pai e seus colegas contaram que atuava de centroavante. Queria ter jogado ao lado dele, mesmo que seja para reclamar da falta de passe. Ele escrevia muito e o escritório vivia trancado, impraticável para corridas e pega-pega entre os irmãos. Não podíamos entrar pela frente da residência. É óbvio que arrumava uma escada para espiar o que ele anotava pela janela. É óbvio que não enxergava nada de diferente.

Quando caminhava pela calçada, meu pai andava com as mãos atrás. Como é sábio andar com as mãos atrás! Tudo o que falam delem, eu paro para escutar como quem necessita reconstituir a vida que não teve. Amigos, inimigos, amores e desamores. Ouço qualquer história dele com ardor e paciência. Compraria histórias e palavras de meu pai. Meu pai é uma agenda que não foi usada. Por isso, não reclamo quando recolho os brinquedos de meus filhos pelos corredores. A maioria xinga a bagunça, não eu. Eu me alegro. Posso estar cansado, acabado, sem reservas e arrecadarei um por um dos brinquedos com dedicação. É noite alta, vou recolhendo os destroços e colocando os bonecos na prateleira. Faço um altar, distribuindo os anjos de madeira, de palha e de pano nos degraus das arquibancadas. Dobro as roupas nas gavetas. Organizo os carrinhos, sou capaz de escutar as vozes dos livros, esbarro em algum brinquedo eletrônico que quase acorda a vizinhança. Às vezes me perco em admiração pelos filhos. Entro em um transe, acionado por uma expressão nova, um fraseado diferente, uma pergunta esperta. Permaneço quietinho diante deles, mexo seus cabelos, como que colorindo desenhos dentro dos traços. Eles pensam que estou distraído. Ah se soubessem que presto atenção, tanta atenção que me disperso de mim. Só neles. Ausente enfim de mim.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

28.3.05

A CADA UM O QUE É SEU

Você fala relíquias de cristal; ele ouve caixa solta carroceria de madeira. Você tem a voz entre as mãos de quem colheu palavras a noite inteira, escolheu frases uma a uma, ensaiou em inumeráveis rascunhos de memória o melhor arranjo; ele tem ouvidos de grandes precipícios, latas de lixo, esquecimentos, escombros, vasos partidos. Você estende os braços no tom de quem pede licença e quase suplica, ele ouve como quem vira as costas e dá de ombros, fazendo pouco do muito que você acha que oferece. Você encadeia assunto, explica ausência, tenta ser engraçada. Ele cospe monossílabos, descarta coroços de frutas que ele nem sentiu o gosto.

Então você desliga o telefone, as pernas, os braços, os olhos, as mãos, a voz e vai chorar agachada, soluços mudos, num canto do banheiro.

Megeras Magérrimas

Hey Julie,

Os filhos que eu estou me recusando a ter, hoje, me enlouquecem mais do que seria possível se eles tivessem vindo ao mundo (não, eu nunca precisei fazer um aborto. E não que eu não o fizesse se achasse necessário, mas os acidentes nunca aconteceram, eu sempre morri de medo de engravidar e sempre fui neurótica com sexo sem proteção. Então não tinha mesmo como rolar... Acho. Ou foi isso ou minha brincadeira de dizer que sou estéril é real.).
Engraçado, logo depois de ler seu comentário eu tive que sair para fazer uma endoscopia (pra variar, meu estômago...). Antes de qualquer procedimento médico, a atendente queria saber onde estava meu acompanhante (é impossível fazer uma endoscopia sem ter alguém pra te carregar pra casa depois do exame). Eu disse que ele estava estacionando o carro e ela perguntou o grau de parentesco que havia entre nós. Respondi, ela anotou no prontuário e não parei mais de me perguntar o que aconteceria se eu estivesse sozinha, se não pudesse dispor do tempo de alguém pra me acompanhar em uma hora dessas e, pra piorar, pensei sobre o que você escreveu. Me vi velha, abandonada pelos parentes, louca da alma e da cabeça, sozinha no coração (como sempre me imagino quando penso sobre o pior do futuro) e, dessa vez, sozinha na sala de endoscopia, sem ninguém pra me guiar depois do exame (sim, porque eu sei que vou fazer endoscopia a vida inteira e se eu ficar velha e sozinha não vão me deixar fazer exame nenhum...). Tudo porque eu não quis ter filhos. Foi uma merda que durou pouco graças ao baque do liquidinho rosa abençoado (eu adoro a sonolência que aquela coisa dá. Só aquilo pra me fazer esquecer do que a minha vida pode, um dia, vir a ser.).
Não sei o preço que eu vou pagar por essa resistência a filhos, mas sei das estranhezas que ela tem causado nos últimos anos, dos surtos esporádicos, das dúvidas infinitas e da tristeza crônica que ela gera. Sei o quanto tem sido difícil arcar com a decisão de me rebelar contra minha natureza, meu corpo, contra as coisas que eu desconheço. Não sei mais se estou certa como sempre achei. Ainda sinto meu egoísmo transbordando quando penso que preciso de uma outra vida para dar sentido a minha. Não acho justo. Por mais que minhas crenças me enlouqueçam, não acho justo.
Não faz muito tempo me vi soluçando feito adulto que engole o choro, só porque tinha mexido no email-me e escrito (sem querer) que já me peguei pedindo para que o destino deixasse algumas de suas crianças na porta da minha casa. "Algumas" foi a única parte do pensamento que me fez parar de chorar para rir um pouco de mim mesma. Questiono meus genes, temo pela escolha paterna, tenho total desprezo pelas crises de origem dos adotados e rezo para ter a chance de criar não uma, mas "algumas" crianças (mesmo que elas não fossem minhas de sangue, mesmo que elas crescessem e surtassem com as crises estúpidas dos adotados).
De verdade eu me odeio nessas horas. Eu sei que seria uma boa mãe. Não dá pra ser uma mãe ruim depois que inventaram o Discovery Healt... E eu adoraria ter filhos... alguns filhos, uma renca de filhos. Adoraria ter o Thor, o Odin, o Bragi, o Apollo, a Gaia, a Vênus e a Alethea (toda garota pensa nos nomes. Me deixe!) E talvez eles fossem realmente a minha salvação, mas aqui dentro de mim, nunca deu pra arriscar. Acho que é porque eu não suportaria saber que eu lhes daria a vida, mas não teria como evitar que eles conhecessem a morte. Acho. Acho mesmo sem querer achar mais nada sobre essa história de ter ou não ter filhos. De qualquer forma minha querida Julie, teu conselho é um ótimo conselho para mulheres que queiram manter a sanidade, a casa cheia e garantir que sua endoscopia seja feita. Obrigada por querer o meu bem, mas algo me diz que meu tempo acabou.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Uniformes

Calça legging preta, camiseta branca folgada, meias brancas, tênis importado caríssimo, cabelo preso, rabo-de-cavalo, boné, óculos escuros, yorkshire; Costume escuro, camisa branca, gravata azul clara; Biquíni, havaianas, tatuagem na nuca, piercing no umbigo, banana boat; Bermuda larga, camisa de time de futebol, tênis surrado, meias furadas; Vestido longo, preto, decotado, fenda lateral, sandália preta de salto alto e fino, conjunto de colar e brincos de platina; Calça jeans rasgada, camisa preta de banda heavy-metal, cabelos compridos, coturno; Óculos quadrados de aros pretos e grossos, camiseta sem estampas, calça jeans escura, all-star; Vestido florido, chinelo, carrinho de feira; Batina e cueca do Mickey; Hábito e calcinha de vó; Camisa azul clara, manga comprida, camiseta branca por baixo, calça cáqui, sapatos e cinto no mesmo padrão marrom escuro; Camiseta escura por cima de camisa branca de manga comprida, calça jeans, conga, óculos escuros de lente amarela; Calça capri, tênis sem meias, camiseta colada no corpo; Bicicleta, bermuda, tênis, coleira e pit-bull; Automóvel importado e poodle no vidro traseiro, passeando no tampão do porta-malas; Pick-up e rottweiler na janela do passageiro; Sunga, touca, piscina; Espartilho, meias 7/8, ligas, calcinha fio-dental, salto agulha, tudo vermelho; Calça jeans, camiseta, bota, cinto, cabelo, tudo preto, pele claríssima; Camiseta regata, short, tênis; Sapato náutico sem meias, bermuda cáqui com cinta da cor do sapato, camisa branca por dentro da bermuda; Saia branca, camisa pólo branca, meia branca, testeira branca, tênis brancos, toalha branca, raquete roxa; Calça jeans, tênis de fazer trilha, camiseta lisa por cima da calça; Blusinha, calça jeans, sandalinha, bolsa cara, chapinha; Camiseta vermelha, calça jeans velha, tenis, grito de guerra...

...Seja ninguém na multidão.

bico de pena

27.3.05

DE SPAMS E SEMÁFOROS

Qual a diferença entre os spammers que entopem sua caixa postal com duzentos emails por dia e os entregadores de folhetos nos semáforos? A sem-cerimônia pelo menos é a mesma – você baixa sua caixa de mensagens (no primeiro exemplo) ou abaixa o vidro da janela (no segundo) e cai aquele dilúvio de propaganda em seu colo. Melhor dizendo – há uma diferença, sim. Os spammers, protegidos pela falta do contato vis-à-vis, são bem mais desaforados. Já imaginou se o conteúdo dos folhetos entregues nos semáforos viesse com esse atrevimento?

Você chama de volta o sujeito que acabou de jogar um panfleto em seu colo:
– Ei, cara!
– Fala, chefia.
– Esse folheto aqui que você me entregou: “Enlarge your penis”.
– Ah, doutor, é a última tecnologia pra turbinar o amigão aí. Coisa dinamarquesa, e…
– Não, não é isso. Você por acaso acha que eu tenho o pau pequeno?
– Como, chefia?
– Isso mesmo. Eu tenho cara de quem tem o pau pequeno?
– Imagina. Eu só entreguei o folheto pro caso do distinto precisar e…
– Não, não foi. O sinal fechou e você não saiu entregando pra todo mundo, não. Você foi olhando um por um dos motoristas, antes de entregar. Qualé, minha cara entrega? Você acha que meu pinto é verruga?
– Não, chefia. É que ele tava abaixado, e…
– Como, abaixado? Você queria que eu dirigisse de pau duro?
Ele aponta:
– Não, doutor. Eu tou falando do vidro do carro. Ele tava abaixado, então eu vim e entreguei o papel.
E antes que o pau (grande ou pequeno) quebre, você puxa o sujeito pela gola, olha no olho dele e sussurra:
– Cartão de crédito?

No próximo semáforo, pimba: outro entregador joga em seu colo um panfleto vendendo Viagra abaixo da tabela. Você encara o spammer e:

– Escuta. Você tem autorização pra vender esse remédio a esse preço?
– Ih, chefia, o problema é preço? Não seja por isso – e ele estende outro papel: - Aqui tá um método de ganhar dinheiro sem sair de casa. O distinto trabalha no computador, umas duas horas por dia, e pode tirar de de 2.000 a 8.000 reais por mês ! Em pouco tempo o doutor pode comprar Viagra, Cialis e Levitra à vontade sem reclamar do preço!

ao mirante, nelson!

Milagres

Não sei bem como a história começou. Quando cheguei, já estava no auge, mas não demorei muito pra identificar os personagens, em meio à gritaria e à multidão que se formou pra assistir. Dois guardar municipais, um vendedor de livros usados e um transeunte participativo.
Parece que o vendedor de livros usados estava no seu local de trabalho - a calçada - exercendo seu ofício diário, que é exatamente vender livros usados na calçada. Uma atividade que, aliás, tem toda minha simpatia. Então estava lá o vendedor quando chegaram os dois guardas municipais que, suponho, tentaram recolher a mercadoria ou o próprio vendedor das mercadorias. O vendedor reagiu no melhor estilo daqui-não-saio-daqui-ninguém-me-tira e iniciou uma discussão, tentando convencer os guardas que não estava comerciando produtos roubados ou falsificados. Os guardas pareciam não se convencer com os gritos e é aí que o transeunte se torna participativo, gritando repetidamente e o mais alto que conseguia em defesa do vendedor.
Foi nesse momento, quando o circo já estava armado, que eu cheguei. A tempo de assistir o vendedor ficar cada vez mais irritado e aumentar a intensidade dos gritos. Os guardas, a essa altura, já tinham a antipatia total da platéia, incentivada pelo participativo. E a cada vez que o vendedor gritava a palavra "livros", ele agarrava os livros e jogava pro alto, com toda força. Não tá vendo que são livros? (um punhado pro alto) Nunca viu um livro não? (mais um punhado) Nunca leu na vida, né? Nem sabe o que é um livro! (outro punhado, dessa vez com mais força, fazendo a multidão desviar do impacto) Fugiu da escola, né? Por isso que virou guarda! Nem sabe identificar um livro! (mais livros pro alto).
Mal acreditei no que estava vendo. Seria a resposta às minhas orações, se eu fizesse orações. Uma chuva de livros.
E a gente achando que milagres não acontecem.

bocozices

Eu, o morcego e o quartinho dos fundos

Ontem à noite eu fui pro Pelourinho ver uma amiga cantar. O show foi 10, ela arrasou, eu dancei e voltei com os pés e as pernas doídas pra casa, sonhando com minha cama, ca-la-ro.
Quando enfim cheguei em casa, entrei pela porta dos fundos já que não tinha a chave da porta da frente comigo. Entrei pela área de lavar roupa, fui pra cozinha, acendi a luz do recinto, olhei pro corredor quando... vooooooooouuuum! Um objeto voador não identificado passou com toda a velocidade. "Minha nossa senhora! É um m-o-r-c-e-g-o!".
Então resolvi ser paciente. Fiquei lá na porta da cozinha vendo o animal voar por toda a casa, entrando nos aposentos que se encontravam com a porta aberta e voltando para o corredor em seguida. Sem pausas nos seus vôos turísticos por esta residência, jamais ele se cansava, apesar de toda uma torcida da minha parte. Tudo que eu queria era que ele desse uma pausa, escolhesse um cantinho legal pra descansar, para assim eu poder chegar à última porta do corredor sã e salva e deitar na minha cama.
Esperei, esperei e nada. Claro que às vezes ele ameaçava entrar na cozinha e eu fechava a porta com direito a gritinho e tudo. Meu pai, minha mãe e Josi, que dormiam o sono dos justos, jamais acordaram. Pensei em pegar meu celular e ligar aqui pra casa prá ver se painho vinha me resgatar. Pensei em atravessar o corredor engatinhando, mas me faltou coragem. Pensei em pegar uma vassoura e usá-la como arma protetora até eu atingir meu destino, mas não consegui pôr o plano em prática.
Cansada da espera e de toda a noite que tinha acabado de desfrutar, cedi. Fechei a porta da cozinha e fui dormir no quartinho dos fundos: o quarto mais abafado da casa, sem ventilador, com uma cama sem coberta. Dormi com as lentes de contato, roupa da festa e suja.
E a pergunta que não quis calar dentro da minha cabeça durante toda a madrugada: "Terei eu coragem de me levantar para ir ao banheiro de noite de agora em diante sabendo que o morceguito pode vir visitar meu lar?".
Well, suspeito de que precisarei providenciar um pinico.

além das aparências

25.3.05

Personalidade

Acabei de ler um livro que me deixou com vontade de fazer faculdade de história.
Quando criança, fiz balé porque a minha irmã fazia.
Saí do balé e fiz piano, copiando o que minha irmã fez.
Entrei na aula de pintura em porcelana incentivada por umas amigas, que também entraram.
Fiz vestibular pra farmácia, porque um dos meus melhores professores do colégio era farmacêutico, e falava muito bem do curso.
Cansei. Decidi ter personalidade. Só não sei em quem me inspirar.

admirável blog novo

Vocabulário

A irmã, pré-adolescente, ouvindo Charlie Brown Júnior:
- Sei que isso tudo é verdade mas eu quero que se FODA essa PORRA de
sociedade!
O irmãozinho, atento, vira-se pra mãe e pergunta:
- Mãe... o que que é "sociedade"?!

mothern

Mínima máxima II

Eu tenho memória. E melhor: tenho do que lembrar.

bloggete

Contrate Ruy Goiaba para o seu casamento

Álbuns e vídeos de casamento estão entre as maiores fontes de inspiração do puragoiaba, embora sejam, ao mesmo tempo, humilhantes. Sabe lá o que é constatar que, por mais que você se esforce, jamais conseguirá atingir aquele nível transcendental de cafonice? Há, por exemplo, o casal que contrata uma dupla de estatuístas para sua cerimônia e posa, braços entrelaçados e taças de champanhe na mão, ao lado dos Neros inteiramente pintados de cor-de-cobre, da toga à coroa de louros. Há o vídeo que mostra a transformação de outro casal, em plena valsa, na Bela e na Fera do desenho animado. Há, ainda, a promoter que oferece uma festa com malabaristas e engolidores de fogo, mas não explica se o preço inclui as roupas de palhaço para os noivos. E por aí vai.
Confesso que estou louco para entrar nesse mercado. E já tenho algumas idéias interessantes. Todo casal que fizer questão de se casar ao som de "Assim Falou Zaratustra" receberá de grátis um lindo vídeo em que a noiva, no instante de jogar o buquê, se transformará, pelas artes da fusão cinematográfica, no macaco lançador de osso de "2001". E o instante em que os amigos do noivo cortam sua gravata será sutilmente intercalado com algumas cenas de "O Império dos Sentidos". Vai ficar bem bonito.

pura goiaba

Armamentos da infância e pré-adolescência

Nunca fui muito chegado a armas. Ao contrário, sempre tive medo. Claro que já me diverti com espingarda e revólveres de chumbo, principalmente na época em que surgiram as famosas “armas de pressão”, que eram verdadeiras réplicas de revólveres.
Depois, isso foi proibido e a brincadeira acabou.
Mas houve um outro tipo de armamento. Não era tão fodão quanto armas de chumbinho, mas também davam trabalho. Vejam só:

Arco e Flecha
Arco de plástico, flechas também de plástico, com ventosas de borracha na ponta. Hoje, levar uma flechada daquela talvez faça cócegas, mas na época, com uns 5, 6 anos, doía pra cacete.

Revólver de Ventosas
Essa é digna de filmes. Não sei se mais alguém tinha tal artefato. Seguinte: era um revólver, com capacidade para QUATRO projéteis com ventosas na ponta. Você atirava um, girava, atirava outro etc. Uma espécie de “tambor” com quatro tiros. Doía.

Metralhágua
Não doía, mas também não era legal levar uma jorrada de água no meio da cara. Além de molhar, havia o “fator susto”. De fato, não havia riscos à saúde da vítima, mas sim MUITOS RISCOS aos que atiravam água em pessoas mal humoradas.

Atiradeira
O popular estilingue, ou bodoque, tinha uma versão toda fodona. Tinha até um metal que apoiava na parte interna do cotovelo, além de uma super tripa-de-mico da porra. A pedra parecia uma bala. Era ideal para detonar lixeiras e vidraças a uma distância segura para correr feito o Carl Lewis, porque os donos das casas não viam pelo lado lúdico.

Zarabatana e Variantes
Trata-se daquele caninho pelo qual passa um pequeno dardo. Não sei se é de origem indígena, acho que sim, sei lá. Você coloca na boca, mira e sopra, fazendo com que o projétil atinja a vítima. Não tínhamos a do Rambo, mas sim uma versão com caneta bic e papel com cuspe.

Super Bola de Papel
O normal era amassar uma folha, formando uma pequena bola, para atirá-la na cabeça de algum panaca. A “super bola”, por sua vez, não era lá algo muito normal. Amassávamos várias folhas, passando durex ou fita crepe, e daí colávamos camadas e camadas de outras folhas, sempre as fixando com fitas adesivas. Eram verdadeiras balas de canhão.

Elastiquinho
Um simples elástico de borracha, desses de escritório, passado de certa forma nos dedos, servia para atirar, com força, pedaços de papel dobrado. Era ideal para salas de aula. Quando algum bagre tentava atirar, era normal escapar o elástico e o papel continuar na mão.

Arma com Bob
O famoso bob de cabelo, com uma bexiga, atirando feijão ou milho. Parece que não é nada, mas de todas é a mais perigosa. Arde pra caralho. Fora quando algum sem noção pegava grão-de-bico ou algo assim.

Até que não tinha nada muito grave, né?

gravataí merengue

Máxima mínima

Viver é tão perigoso que sempre acaba em morte.

catarro verde

Ê, ô, ê, ô, o Anhanguera é um terrô

Meu pai cresceu em família de 10 irmãos –se incluirmos nonno Ercole e nonna Herminia no cômputo, ele constituía minúscula e oprimida minoria corinthiana num lar dividido entre tricolores e palestrinos. Sêo Luigi e quase todos os irmãos eram jogadores razoáveis de futebol, e bons dançarinos (um deles, Guy, continua, passados os 60, a ser um exímio pé de valsa). Para o clã Norogna, futibór era coisa muito séria, e a paixão pelo esporte infectou a geração que se seguiria –tanto eu quanto meus primos éramos torcedores fanáticos desde moleques e, porque a história se repete em fezzo, passei a ser a minoria corinthiana oprimida em meio a um mar de palmeirenses e são-paulinos. Com duas diferenças essenciais, though: quando o babbo, nascido em 1941, virou corinthiano, o time ganhava tudo, enquanto eu passei a infância naquela longa seca de títulos que valeu ao escrete mosqueteiro o apelido “faz-me rir”. Plus, eu sempre fui grosso. Terminalmente. Em qualquer posição. Em qualquer modalidade das lides ludopédicas –campo, salão, várzea, gol a gol no quintal da tia- Uncle Filthy sempre viu a bola nascer quadrada.

Nonno Ercole era assíduo freqüentador de um clube de futebol de várzea da Barra Funda, o velho bairro operário paulistano em que a família vivia, e quase todos os seus filhos passaram pelo lendário esquadrão do Anhanguera, presença imprescindível nos torneios matutinos do CMTC Clube. A divisão de interesses dos freqüentadores do clube era claríssima –os mais jovens jogavam bola, os mais velhos jogavam boccia, todo mundo bebia pra cacete, mulher não entrava e qualquer pretexto servia pra convencer os silvícolas a sair na porrada. Se bem meu pai e meus tios sonhassem ver os respectivos filhos honrando a camisa vermelha e branca do “Bambambam da Barra Funda” (marchinha carnavalesca que servia de hino ao Anhanguera), quase nenhum deles continuou morando no bairro depois de casado, e com isso minhas visitas ao clube foram poucas –se bem infalivelmente divertidas.

Os velhos italianos que formavam a base de sócios eram todos, claro, muito racistas, ainda que os muitos anos de Brasil tivessem servido pra que aprendessem a conviver bem com os afrodescendentes que começaram a ocupar o bairro e, com o tempo, conquistar vagas no time do Anhanguera –afinal, os jovens italianinhos tinham todos se mudado para bairros “granfa”, como diziam os nonnos com desdém. O primeiro negro a se tornar sócio do clube, e provavelmente o primeiro negro a descer bordoada em um italiano e ser aplaudido pelos velhinhos, era um sujeito forte, alto, ferroviário aposentado prematuramente depois de um acidente de trabalho. Quando abandonou a cancha, se tornou juiz oficial dos jogos do Anhanguera, e seu fino senso de patriotismo local rendeu muitos pênaltis dúbios e impedimentos inexistentes em benefício das hostes alvi-rubras. Porque o juiz tinha perdido um braço em infeliz encontro etílico com uma locomotiva, obviamente os velhos corneteiros italianos o apelidaram “Polvo”.

Na última vez em que fui ao Anhanguera eu tinha uns 14 anos. O jogo era um “contra”, e os adversários eram moleques de uma metalúrgica do ABC, todos excelentes jogadores. Apesar dos melhores esforços do Polvo e do uso liberal do jiu-jitsu pela zaga do Anhanguera, o jogo já estava três a zero pros visitantes no primeiro tempo quando o juiz se viu obrigado a marcar uma falta contra o time da casa. O faltoso, um moleque mulato com cara de mau caráter, imediatamente xingou o juiz de “aleijado filha da puta”, e o Polvo usou a mão que lhe restava para aplicar-lhe sonora bolacha. O time adversário imediatamente se escondeu atrás do gol, perto do tapume, e o time do Anhanguera pôs fim ao jogo brigando entre si, metade defendendo o juiz, metade acusando-o do hediondo crime da imparcialidade. No meio da confusão, o que mais se ouvia eram os palavrões que o Polvo bradava, em italiano impecável –era “figli puttane” pra cá, “affanculo” pra lá. Meu avô sorriu com a bola de boccia na mão: “É por isso que eu amo esse clube”. Quando morreu, só de sacanagem, deixou instruções severas para que o Polvo fosse um dos carregadores do caixão -do lado em que não tinha braço, claro.

Filthy McNasty

24.3.05

O amor que não atravessa fronteiras

O amor verdadeiro é incondicional, não precisa de explicações.

Quem ama o Brasil por causa de Machado de Assis não ama o Brasil, e sim Machado de Assis. Quem ama o Brasil por causa do clima, ama o clima. Quem ama o Brasil por conta de sua música...

"Já entendi, já entendi. Mas desse jeito é impossível amar um país."

Ah, é? E quanto aos esquimós?

Vêm me falar de patriotismo, mas o único povo que realmente ama a sua terra é o esquimó. Porque não tem nada pior que aquilo lá. Não tem nem terra pra você amar, está tudo debaixo do gelo. Patriotismo é morar num abominável lego das neves, viver à base de comida congelada, e não sair da sua terra por nada. O resto é pra inglês ver.

dies iræ

23.3.05

silêncio

não colocaram no dicionário o que é isso. não é saudade.
não é lembrança. parece com reminiscência. mas não é resto, não é pedaço. não é inteiro. é um clima do mundo. é o ar do mundo quando estávamos juntos. o ar do mundo depois da sua presença. o hálito que o seu nome sopra, nublando o jeito das coisas. o meu corpo.
essa massa irrigada pelo teu nome, é tudo isso o que continua.
algo intraduzível por um sentimento. por um modelo teórico. o que acontece depois de alguém cruzar a sua ponte, o que acontece depois que alguém entrou nos quartos. no colo das mãos. nos ombros.
você tenta voltar ao museu privado de idéias antigas e de palavras, jeitos, posições, modos de andar e de ver, toda a cultura gestual e a memória olfativa que havia em você antes do outro aparecer, mas você não consegue escutar, essa música se perdeu.
você esboça. e nada. não há nada e mais nada. houve a contaminação, das suas palavas, dos olhares, do suor, da maneira de rir ou de andar, de coisas ditas, servidas, ocultas, subtraídas para você. medidas pelo seu gosto, pelo que você queria ou poderia ouvir.
como dizer que visitou um país se você não se lembra dele, a não ser por curvas de montanhas, pelo gosto de um chocolate caseiro que nunca mais você vai molhar naquele chocolate de uma mulher que vai morrer longe de onde passam seus pés?
o que importa isso?
o que importa isso e o que poderia nisso, ser chamado de dramático?
se é alguma coisa que não cabe na dobra de um lenço?
se é alguma coisa que escapou da folha de papel e cruza sua vida de tantas formas, aparecendo quando você se movimentou, num conto que você escreveu? a noite escura, de um sonho cheio de imagens, teatro sem vestígios, atores mudos.
a neve nos telhados, acumulada, pesando a cada inverno.
a casa sentindo o peso, mesmo agora, no pôr do sol da primavera.
rachaduras, farelos da massa de concreto que cedeu.
um gosto de bebida?
qual era o nome daquele drink que você pediu?

Nove de Copas

Raquel

É cedo, muito cedo e chove a cântaros em Porto Alegre. A temperatura caiu vertiginosamente e dos 36º, fomos parar em 17º.

Eu levanto com o sono grudado à pele, louca de vontade de ficar afofando a gata, enrodilhada em travesseiros, no edredonzinho cheiroso. Maldigo cada passo em direção ao banheiro, arrepios de frio no corpo em pé, apesar de ainda adormecido. Só bem depois que a água quente encharca os cabelos, molha o corpo todo, desperta os sensores da pele, eu acordo. Contrariada, claro. No dia mais gostoso de dormir dos últimos meses, chuvinha e friozinho, tenho que levantar mais cedo para fazer o bendito Raio X.

Saio sem café porque muito atrasada, enfrento um trânsito de inferno com a chuva atordoante, motoristas enfurecidos, nada que preste no rádio e esqueci os CD’s em casa. Brigo feito uma onça por uma vaga no estacionamento e me arrasto furiosa para dentro do Hospital Moinhos de Vento, cabelos arruinados, roupa úmida. Ai, que nojo.

Já sentada na sala de espera, olhos fixos nos meus pés. Será que a cirurgia é necessária? O ortopedista disse que melhor operar agora, sem artrose nos joanetes herdados da Vó Nininha. Penso no incômodo da cirurgia, anestesia, pós-cirurgia, recuperação de 40 dias. Cacete. Depois bota rígida, pé pro alto, nada de salto, horror, horror, horror. Temporada em Pelotas, dependendo da família. No auge do meu péssimo humor, percebo uma menina sentada perto que chacoalha irritantemente as pernas no ar.

Olho para ela como quem suplica trégua e ela entende. Pára imediatamente e sorri um sorriso de dentes de leite, muito pequenos e separadinhos entre lábios muito vermelhos, pele branquinha. Desconfio que o movimento era para chamar minha atenção.

Eu agradeço a gentileza com o melhor sorriso que consigo, entre o amarfanhado e o sem graça. Ela pergunta meu nome, respondo e retribuo a pergunta, mais como complemento da gentileza do sorriso que por vontade. Ela diz que é Raquel. Penso que com esse nome, ela deveria ter tranças, mas os cabelos estão presos num rabo de cavalo ralinho. Pergunto pela mãe, ela me diz que está falando com o doutor Marcelo. Ah.

Sigo na minha mudez casmurra, deixando claro que desisti da minha tentativa de ser simpática, mas Raquel não permite meu isolamento. Pergunta a minha idade e depois a data do meu aniversário. Ela diz que tem 7 e faz 8 em julho. A-hã.

Olho mais para Raquel. Tem braços e pernas bem longos, é toda esguia, elegante, senta-se bem, com uma postura linda para uma menina de 7 anos. Passaria fácil por uma princesinha russa. Os olhos são um breu e escondem um enigma, com toda certeza.

Um pouco antes da mãe voltar, Raquel me dirige os olhos como quem pede a minha mão e me pergunta muito naturalmente: "- Tu também veio fazer rádio?" Eu digo “hã?” para ter tempo de organizar o cérebro e ela repete: "- Tu também tem câncer?"

Nocaute, Raquel. Eu não consigo mexer os lábios. A mãe chega e possivelmente entende a minha situação difícil. Dá oi e sorri como quem me abraça, generosidade de família. Eu respondo num fio de voz que só vim tirar fotografia do pé. Raquel ri alto, dá a mão pra mãe e diz tchau.

Estórias da Carrocinha

mãe

nós na lanchonete, eu 6 anos, ela 30. na frente, uma mulher nos 20. eu comia meu sanduíche quando ouvi a voz, agressiva.

- o que que foi?

minha mãe:

- nada, só estou te achando bonita.


pai

ele lavava o carro. eu da janela, 9 anos, ele 43.

- pai, o que é simplória?

- é quem faz esse tipo de pergunta.


sempre que ouço a palavra cultura saco o meu talão de cheques

** ia **

Terapia eu já fazia.
A novidade é a academia.
Minha meta? A hipertrofia
do ego, do corpo e da mania
de botar para fora o que poderia
ter virado apatia.
Cansei de pensar no que seria.
Resolvi ser agora mesmo tudo o que eu queria:
calmaria, alegria e verborragia.

Figuras de Linguagem

19.3.05

"Infeliz do país que precisa de heróis"

Primeiro eles perseguiram os comunistas, e como eu sou daltônico e a tia ainda não tinha ensinado divisão, eu não fiz nada.

Depois resolveram perseguir os muçulmanos, e desde então sigo os preceitos de Krusty, o judeu, e vivo às gargalhadas.

Em breve eles perseguirão os traficantes, e como eu imagino que apenas a Souza Cruz seja capaz disso, I couldn't care less.

Com sorte, algum dia ainda perseguem os estudantes de artes cênicas.

Beethoven xingando os "copistas" na partitura de sua nona sinfonia -- du verfluchter Kerl! --, bem no trecho referente à fraternidade entre os homens.

O mundo é bom demais.

dies iræ

Moacir

Estava tomando café na Fnac quando o telefone tocou. Número desconhecido. Atendi.
— Alô?
— Alô, Moacir?
Muito bem. A maior parte das pessoas diria que, a não ser que você se chame Moacir, a resposta correta deve ser:
— Não, acho que você se enganou.
Então a outra pessoa diz "Ah, desculpe", ou "Que cabeça, a minha!". Você responde "Não foi nada", ambos desligam e pronto.
Pessoas que pensam assim não sabem se divertir. Eu, por exemplo, a despeito de me chamar Marco Aurélio, respondi sem hesitar:
— É ele.
— Ô, rapaz! Você vem pra cá?
— Peraí. Quem tá falando?
— O Eduardo, Moacir.
— Ô, Edu! Que bom que você ligou, já ia ligar pra você.
— Pois então, você vem pro clube?
— Ah, Edu, não sei. Essa chuva...
— Deixa disso, rapaz! A moça tá aqui, já tá tudo acertado.
— Hum. Tudo acertado?
— Tudo, tudo!
— Tem certeza, Edu? Cê cuidou do negócio todo e tal?
— Opa, claro!
— Tá bom. Então tô indo, me espera aí.
— Ok. Tô aqui na frente da Blockbuster. Você demora?
— Acho que levo uns quarenta minutos, tá um trânsito danado.
— Ah, tudo bem. Tô te esperando.
— Mas tá com a moça, né?
— Tô sim.
— Vê lá, hein Edu?
— Ô, Moacir, eu alguma vez já te deixei na mão?
— Hehehe. Espera aí, tô saindo agora mesmo.
— Tá legal. Até mais.
— Até. Abraço, Edu.
Imagino que deixei um Edu e uma moça esperando debaixo de chuva, enquanto um Moacir em algum lugar da cidade esperava por uma ligação a respeito da moça.
A vida pode ser divertida, às vezes.

Jesus, me chicoteia!

18.3.05

Sê, nega!

"A vida divide-se em três períodos: o que foi, o que é e o que há de ser.
Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo."

O chato mais digno de pena é o chato jovem.

Smart Shade of Blue

Ele chegou sem roupas nem pasta em casa. Ela só perguntou da pasta. Não que ele se importasse, mas, diabos, ele estava pelado. Não que ela se importasse, afinal, ela não se importa mesmo. E assim, pelado, ele foi ler o jornal. E assim, sentada, ela via a cena como se quisesse mudar de canal. Se pudesse.

Determinar de onde vem a culpa é inútil, uma vez que já meteram a colher na relação. O terapeuta. Terapia de casal. Encontre algo novo. Mude a rotina. Certamente, a terapia era uma quebra, mas só contribuiu para acertarem os horários. Das 19 às 20 horas, de terças e quintas, eles brigavam. E o terapeuta anotava. Ou desenhava. Às vezes só rabiscava. Nunca disse nada, por medo de estragar uma briga que, apesar de tudo, era muito boa.

Era o que tinham de melhor: as brigas. Sem dúvida, eram mestres nisso. Os insultos cada vez mais espetaculares, aprimoravam o vocabulário do casal – e dos vizinhos. Ninguém em sã consciência se atrevia a parar algo tão perfeito, tão fluído, tão caloroso.

Até que o terapeuta resolveu falar. Nem ele lembra o que foi que disse. Mas, isso foi o fim. O que ele disse realmente acabou com as brigas. E, embora ambos ocasionalmente tentassem entrar em conflito, de uma maneira ou de outra, o conselho do terapeuta pôs tudo que era de bom no relacionamento à perder. Para os vizinhos, assistir aquele casal agora era como ver uma criança autista morrer de tristeza.

Ele e ela foram vistos de mãos dadas na rua, sábado passado.
Tudo que é bom tem um fim.

Chicked Dog

Parado na paródia

POEMA DE SETE CORES TODAS DA MESMA COR

quando nasci
um pintor torto
desses que cortam as orelhas
disse
vai tinta!
ser guache na vida

Delírio (tatuagens de acne)

Focos da Fal : Correspondência Secreta

Querida Ticcia: Foi um domingo glorioso com as mulheres da minha família. Presa com elas por horas, numa cozinha. Veneno meu. Eu podia ter levantado e ido embora. Mas elas me fascinam, ao mesmo tempo em que me aborrecem, deprimem e assustam. As mulheres da minha família têm peitos pequenos, ombros estreitos, cabelos impecáveis, mechados. Elas não têm mais de 1,63 e usam blusas fofas em tons pastéis, de seda, com laçarotes. E façam o que fizerem na cozinha, suas blusas continuam impecáveis. Assim como seus cabelos. Elas não fumam. Seus filhos são ajustados. Elas têm empregos sensatos, carreiras planejadas. Elas comem fibras. Elas borboleteiam rápidas, ligeiras. E eu, alta, gorda, grande, com uma mancha de molho no peito (no meu enorme e inadequado peito), perto delas me sinto um gigante lerdo. Lerdo e cheio de dúvidas. Sou aquela que derrubou o arranjo de flores (que uma delas fez, elas não compram essas coisas prontas), quebrou dois pratos, entupiu a máquina de lavar louça (as mulheres da minha família têm máquinas, muitas máquinas). Sou aquela da perna com a qual o cachorro tenta cruzar. Elas sabiam o que queriam ser quando crescessem e foram. E são. Eu não. Elas não brincam de casinha, suas casas são austeras, exatas. Elas têm tantas certezas. E todas absolutas. E eu me sinto mínima, burra, fútil, fútil. Elas tiveram todos os bebês que quiseram antes dos 25 anos, e agora riem duma prima distante que se vê as voltas com fraldas e brotoejas aos 43. "É tão... ah, querida, você sabe, patético uma mulher dessa idade tendo que lidar com um bebê. Você tem sorte de não passar por isso". Aliás, tem sempre uma das mulheres da minha família me dizendo esse tipo de coisa. "Você tem sorte por não se preocupar com dietas, eu levo uma vida de escrava". "Você tem sorte por não ter filhos, eu vivo só para eles". "Você tem sorte por não ter um emprego, eu não sou promovida há 6 meses". E eu, a sortuda, encolho meu pés embaixo da cadeira e sorrio para minha vodca (Elas bebem vinho branco suave, doce, com licor de cassis. Eu bebo vodca. Pura. Muita).
Olho em volta, naquela cozinha imaculada, imaculada num dia de festa (nem quando eu tinha faxineira eu tinha uma cozinha assim), para observar a bancada impecável, os eletrodomésticos cromados, e uma delas logo me pergunta "Querida, o que foi, você não está com fome de novo, não é?". Elas me tratam com a condescendência que reservamos para os senis, as mulheres da minha família. Sorriem com superioridade para perguntar "E aquele seu livrinho? Ah, eu achei bonzinho, mas não pude ler inteiro, muitos palavrões, você sabe". As mulheres da minha família não falam palavrões, não lêem palavrões, não pensam em palavrões. As mulheres da minha família me atraem. Elas me hipnotizam. Nessas poucas horas de contato (eu passo aproximadamente quatro anos sem vê-las), tento aprender como ter as unhas lustrosas, o cabelo imóvel, os gestos contidos. O pobre A. me resgata, heróico, galante, beijando minhas mãos e inventando desculpas elaboradas. Ele também não entende por que eu continuo vindo. Eu não consigo explicar o fascínio, o masoquismo. Saio de lá com ataques de asma. Não, eu não tenho asma.

Focando.org - Opiniões Dose dupla de Fal

Vaselina

Odeio quem não toma partido. Odeio quem é "amigo dos dois", que faz " o possível pra permanecer amiga dele tb".
Tenha culhões, caralho. Tenha coragem. Me mande tomar no cu, mas tome uma decisão.
E aí eu tenho que ler "é uma situação complicada, mas eu não tenho nada contra vc, nem contra seu irmão, mas tb não tenho nada contra ela".
Contra mim???? Depois de 8 anos de amizade dedicada, presente, apaixonada, fiel e constante, minha filha, só que faltava era você ter alguma coisa contra mim.
Ora, se vc não toma uma decisão tomo eu.
Pode ir pra puta que pariu, sua vaca.

¡Drops da Fal!

varal

- Alô?
- Oi, Tia! O que tu tá fazendo?
- Vou lavar roupa.
- Ai, que deprimente!
- Mas tu perguntou!
- Mente!
- Tá bom. Vou fazer sexo selvagem com três homens gostosos.
- Ah, tá bom. E depois?
- Depois eu vou pendurar os três homens gostosos no varal.

A Caverna da Ogra

Cantiga de Amiga

"A gente nunca está só de verdade. Nossos sentidos conversam uns com os outros, a razão discute com a imaginação, tudo numa sublime camaradagem", dizia Ju para A. quando passei pelo sofá da sala. Ora, eu conhecia essa frase, o autor dessa frase. Levei uns 15 segundos para baixá-lo da memória. Era uma frase idiota que poderia ter sido dita por qualquer idiota, mas tinha dono. Mário de Andrade. Fui lentamente até a janela para tomar um pouco de ar. Parado. Nenhuma folha das palmeiras centenárias da Paissandu se mexia. Eu suava por baixo da camiseta preta. Dei um gole na coca, virei as costas para a rua e encarei as duas com meu olhar lombrosiano. Nada. Eu era uma cebola. Elas conversavam animadamente, pelo visto sobre a recente viagem de A. ao norte do país. Entrei na Billie Holiday do porta-retrato sobre a mesinha para ouvi-las mais de perto. A. garantia que havia provado ensopado de jacu com uísque. As duas riram. E riram. E riram. Ainda estavam rindo quando Ju disse que ia estudar literatura galega medieval no ano que vem. A. não acreditou. E riram outra vez. Ju explicou que há muito tempo era apaixonada pela literatura galega. Que nutria por seus autores "um não sei quê, que nascia não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê". A. suspirou. Eu engasguei. Outra citação? As duas suspiraram. E suspiraram. Depois começaram a cochichar e eu perdi o final da história.

Prosa Caotica

17.3.05

CLT

— Aquela lourinha é a cara da mulher do chefe!

— (mastigando) Hmmm... mais bonita...

— Olha que isso dá demissão!

— (engolindo) ...a mulher do chefe é mais bonita, eu digo.

— Aí nesse caso é justa causa!

Zeno Blog

Sério, que tipo de gente?

Que tipo de pessoa reclama quando se fala mal do Brasil? Falar mal do Brasil é a nossa única qualidade; é a nossa pequena e voluptuosa tradição. Outros países cometem a boçalidade de amar a si mesmos e, muito freqüentemente, odiar judeus; nós odiamos a nós mesmos, o que é muito menos cretino e até mesmo mais elegante. E até isso querem nos tirar?

Querem que sejamos como americanos, que cometem a boçalidade de amar o próprio país? Parem de copiar os americanos e aprendam a odiar o próprio país, como gente decente. Quando estamos todos num carro rindo do Brasil, como sempre acontece, e de repente ouvimos a sua voz fininha vindo do banco de trás, dizendo “Ai, gente, vamos parar com isso, é o nosso país” – dãaa, tem sempre um retardado que diz isso - tenho a certeza que nunca vi tamanha falta de brasilidade quanto a sua.

Alexandre Soares Silva

15.3.05

O povo, munido, jamais será vencido

Não sei se o pior é a feiúra do povo brasileiro, ou os políticos querendo pintá-lo de bonito, vendendo ideais patrióticos ridículos na tevê pra conseguirem se eleger.
Moro no Brasil há vários anos, e nunca me escapou que seus habitantes repitam na rua as gírias felomenais que aprendem em novelas de televisão. Não neguem.
Mas acordei otimista. Acordei profético. Enquanto obras de Stendhal não forem traduzidas como "O Nativo e O Afro-Descendente" ainda há esperança de salvação.

dies iræ

Celinas, Ricardos e Franciscos

Mulheres não querem relações abertas, querem ter um dono.
Mulheres não querem sexo com hora marcada.
Mulheres querem romance, querem entrar no mar de mãos dadas.
Mulheres não precisam de perdão, precisam de poesia.
Os homens não deveriam se preocupar com os Ricardos e sim com os Franciscos.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

nas nuvens

- Você ainda gosta de mim?
- Eu sou um balão. Eu só encho de amor por você.

9 de copas

12.3.05

Chico Buarque Tá Comendo Todo Mundo

Não é nova a fama de galinheiro de Chico Buarque. Mas, das fofocas que já ouvi, nenhuma tinha fotos ou fatos para comprovar a boataria. Tem aquela história de que a separação dele com a Marieta Severo foi porque ele comeu a Daniela Mercury. Não sei se acredito.

Se você for um pouco esperto também dá pra sacar que ele já comeu muita gente por aí na surdina: Babi, aquela ex-apresentadora, ex-cantora e ex-modelo da MTV e do SBT e a Fernanda Lima. Também não posso provar nada, o que fica claro é que, se Chico não comeu, pelo menos o mulheril teve vontade de dar.

Agora, um paparazzi esperto fotografou o compositor senil nos catos com Celina de Andrade Lima Sjostedt, de 35 anos. Não é lá grandes coisas, mas deve ser boa de espírito. O marido emendou com esta:

"Só quero que ele deixe nossa vida em paz, bote na balança que temos família e vá procurar alguém da idade dele. Talvez em uma clínica geriátrica."

Eu acho mesmo é que Chico devia apavorar outras vizinhanças e começar a comer todo mundo que estiver disposto, principalmente apresentadoras de tevê em decadência.


não vá se perder por aí

Pai

Ontem meu pai na hora sagrada do almoço, contou pro meu primo que meu avô o ensinou a comer viado e resolveu repassar o ensinamento:
- Pra comer viado, nunca pega na cintura, senão o pau do cara bate no teu braço, pegue na orelha!
Depois disso veio a decepção maior, quando ele olhou pro meu primo e perguntou:
- Vai me dizer que você nunca comeu um viado?

Definitivamente meu pai perdeu totalmente a vergonha e eu também, de contar isso aqui, já que passei o blog pra tantos amigos dele, tadinho.

Eu não me acho, eu tenho certeza!

9.3.05

menina com mel

Modéstia à parte, porque eu sou uma menina muito modesta, mas eu acho que estou com mel. Menina, isto nunca acontece comigo, tantos meninos, Jésuis... Será que é porque é dia da mulher e todo mundo resolveu encher minha bola? Ih, droga, não tinha pensado nisso... Tá bom, enfim, vou acreditar que não, e que eu estou com mel mesmo, porque está fazendo bem para o meu ego... Então pelo jeito o meu fim de semana vai ser atribulado. ou o fim da semana. Ou quinta. Ou quinta e sexta. Enfim... São tantas opções... hahahahhaa
Podem me xingar de biatch.

diário de uma pós adolescente urbana

7.3.05

Os olhos são as janelas da alma

Donde se deduz que a boca é a porta, a língua o tapetinho e o nariz a campainha. A orelha seria uma espécie de entrada de serviço, e o cérebro, um sótão cheio de traste velho e sem função.

dies iræ

A ESTÁTUA (conto curto)

A uma estátua foi dado o poder de se esculpir a si própria. Então, ela pegou o cinzel e o martelo e se deixou com o formato da rocha que antes era.

Pró Tensão

4.3.05

A vida noir de Filolau Sinfrônio - Episódio I

Meu nome é Sinfrônio. Filolau Sinfrônio.

Se eu fosse um cara com mais sorte, minha história teria dado um film noir. Mas meu filme queimou ainda na caixinha, e a piada que eu chamava de vida transformou-se em uma película velada, apagada. Negra como a consciência de certos beletristas paulistas. Como não pude ser produto acabado, talvez como um famoso ator de film noir, tive que me contentar em ser matéria prima _ um investigador particular. Filolau Sinfrônio Investigações, “fornecemos toda a verdade que você puder pagar”. É verdade que sofri um processo por direitos autorais de uma igreja pentecostal, mas o juiz, um cara vaidoso e bem apessoado estreante na primeira instância, acabou decidindo a meu favor. Eu já investigara a jovem e brejeira mulher de um velho desembargador uma vez, muito conhecida do juiz, o que facilitou a vida da Justiça, que é cega mas não é burra.

Descobri esta minha facilidade para desvendar casos de adultério no dia em que cheguei em casa e repentinamente intuí que havia um homem pelado em minha cama. As pistas ajudaram: havia uma cueca vermelha em cima da cômoda (todas as minhas cuecas são marrons, por uma questão de higiene), um sapato com chulé na porta do quarto, e além disso, afinal, o cara estava em minha cama. E _ sinal da transfiguração de todos os valores que caracteriza os dias que correm _ a Maria, aquela galega da minha esposa, tinha se escondido dentro do armário. Como estava desempregado, botei os dois pra fora, peguei o terno do otário em cima do sofá da sala e comecei a fornecer serviços de detetive particular. Filolau Sinfrônio, caçador de verdades sutis, a seu dispor.

Claro, a sorte me sorriu, mas só depois de algum tempo é que entendi do que é que ela estava rindo. Na verdade, isso só ficou completamente claro depois que aquela dona, muito bem apertada por uma saia de desenho hidrodinâmico, entrou no meu escritório e perguntou, como se sua quente e úmida existência dependesse disso:

_ Sinfrônio ? Filolau Sinfrônio ?

Nunca ninguém antes fora capaz de pronunciar "Filolau" de forma tão sexy. Em sua boca de lábios carnudos, o Filolau agigantava-se, adquiria entonações que até então me eram desconhecidas, as vogais se tornavam mais lânguidas e as consoantes, enrijecidas, e a palavra saía úmida e fumegante por detrás daqueles dentes perolados. Na verdade, durante toda minha vida só me chamaram de Sinfrônio, que não é tão sexy quanto Filolau. Quer dizer, exceto naquela ocasião em que visitei uma fazenda de avestruzes e...mas, divago.

O fato é que a loura escultural acabara de retirar um lencinho branco e perfumado de sua Prada e usava-o para enxugar delicadamente as janelas de sua alma. Com certeza, dentro daqueles olhos seria possível contemplar todos os mistérios da vida, mas o problema é que ela estava chorando e arfando, o que, aliado aos efeitos especiais produzidos pelo seu decote, propiciava um espetáculo que chamava minha atenção para longe dos tais mistérios da vida, menos dois deles, alvos e empinados.

_ O Sr. é detetive, não é ?

_ Claro. Formado na escola da vida. Sente-se, por favor. Qual é o problema ?

Ela se sentou e cruzou as pernas. E eu pensei ter visto Deus sob a forma de uma calcinha de renda preta.

_ Bem...não sei como dizer...

Eu já estava acostumado. Elas chegavam sempre frágeis e chorosas, mas quando começavam a desfiar o longo rosário da problemática conjugal, era questão de minutos até se transformarem nas próprias Parcas. As Parcas, aqui no meu escritoriozinho no centro, valha-me São Jorge Guerreiro.

No entanto, não foi bem isto que aconteceu. Sua voz chorosa formou uma nuvem, que choveu estas palavras sobre minha mesa:

_ ....enfim...o problema é meu marido...ele tem um blog.

_ Isto é grave _ eu disse.

_ Sim, é grave.

Constrangidos, olhamos cada um para um lado. Ela com seu lencinho, adejando no ar como um colibri ocupado em sorver o néctar daqueles olhos, e eu tamborilando os dedos sobre a fórmica da mesa, imaginando o que dizer. Maristela, a barata com síndrome do pânico que havia fixado residência em minha mesa no dia em que eu distraidamente esqueci meu vidro de Prozac aberto na gaveta, explorava o mundo exterior com suas inocentes anteninhas, que apalpavam nervosamente o ar pela fresta da gaveta. Eu a alimentava com pedacinhos de pão e fragmentos de pistas usadas. Ocasionalmente ela fazia um servicinho involuntário para mim, como a identificação de entorpecentes e psicotrópicos _ a única refeição que a fazia sair da gaveta e voar em torno da luminária.

_ Ele usa Movable Type ?

Minha experiência indicava que maridos que usavam o Movable Type nos seus blogs estavam, invariavelmente, a um passo da perdição.

_ Usa. E Haloscan também.

Talvez ela tenha percebido o deslocamento infinitesimal de minha mandíbula em direção ao chão, porque a frequência e a modulação do seu arfar alteraram-se sutilmente, trazendo considerável agitação hormonal aos fluidos deste seu criado. Compreenda-se: meu estado civil, na época, era o estado de sítio, e a mulher era um pedaço de mau caminho, daquelas de fazer parar ônibus fora do ponto. Se ela soubesse o que era um ônibus, o que certamente não era o caso.

_ O meu marido, bem... _ começou ela, em uma tímida tentativa de se transformar em Parca _ é uma pessoa muito sofisticada. Cheia de wit. Sabe ?

Eu sabia. Muitos amigos meus compravam wit na 25 de março. Segundo os médicos, excesso de wit gera dependência, seguida de um tipo de decadência elegante muito frequentemente associada a distúrbios de personalidade e delusions of grandeur. Amigos meus haviam partido desta para a melhor em uma última viagem de wit. Salvador de La Plata foi encontrado morto no Deux Magots, em Paris, com um livro do Mencken nas mãos. O livro era uma publicação em francês e estava virado de ponta cabeça, pois Salvador não lia francês. Mario Dragonetti Versal Júnior morreu congelado dentro da neve fofa após um tombo em uma estação de esqui nos Alpes. Morreu apenas porque decidiu aceitar a situação. Antípedes Florinto foi comido vivo por um tubarão branco na Cotê d´Azur. O tubarão foi encontrado morto, apenas alguns metros depois da carcaça semidevorada do Antípedes. Envenenado. Por excesso de absinto. Wit.


SMART SHADE OF BLUE

A Fábula do Garoto Quieto e da Menina Colorida

Há muito, muito tempo havia um garoto quieto, inocente, gentil e que tinha medo dos sentimentos: os deles e o dos outros. Havia também uma menina colorida. Linda, com ou sem o seu chapéu amarelo (ou azul). Ela era alegre, mas podia ficar brava de dar medo. Era carinhosa, mas também podia ser bem arisca. Enfim, como todos que viviam naquela terra, os dois eram complicados.

Quando se conheceram, a menina e o garoto viraram grandes amigos. Andavam de mãos dadas, se abraçavam, trocavam carícias inocentes. O menino amava aquilo tudo, só que ele sofria, coitado. Ele gostava muito da menina colorida, mas não sabia como dizer ao mundo isso, mesmo achando que o mundo inteiro sabia do seu segredo. Tinha medo que a menina colorida fosse embora quando soubesse o que havia dentro dele. Imaginava que ela sairia correndo quando descobrisse. Ou será que não fugiria? "Não, não vale a pena arriscar", dizia ele para si mesmo.

A amizade deles foi crescendo rapidamente e já era do tamanho do mundo. Mas aquilo que havia dentro do garoto também estava crescendo. Passou a incomodá-lo. Chegava até mesmo doer. Mas ele não dizia nada. No começo, a menina colorida parecia não se dar conta disso ou, pelo menos, não se incomodava. Mas aquela coisa ficou enorme e já tentava ocupar o mesmo lugar da amizade, que também era enorme. Assim, de repente, aqueles sentimentos do tamanho do mundo se empurram para bem longe, e os dois se separaram. Eles até queriam estar juntos, mas não conseguiam. Estavam muito longe um do outro. E foram se afastando, se afastando até se perderem de vista. Pensaram que não se veriam jamais e, por isso, aquilo tudo foi aos poucos caindo no esquecimento.

No entanto, muita gente esquece que o mundo é uma grande bola e, se você caminhar sempre em linha reta, acabará chegando ao mesmo lugar de onde saiu. E foi isso que aconteceu com o garoto e a menina colorida, só que muitos anos depois. Foi um momento surpreendente e feliz para os dois, muito embora era inegável que os dois tinham mudado muito depois de tantos anos.

Pouca gente sabe mas nossas memórias são bolinhas de vidro que vivem em nossas cabeças. Algumas são frágeis como uma flor. Outras grossas e duras como pedra. Algumas são cristalinas como o ar. Outras, escuras e impenetráveis como a noite.

Essas bolinhas vivem se mexendo de lá pra cá em nossas cabeças. De vez em quando elas surgem do nada e acabam desaparecendo tão rapidamente quanto apareceram. Outras estão sempre perto da superfície. E tem aquelas que estão sempre escondidas, pois, como são pesadas, acabam bem lá no fundo e é preciso algo muito forte para tirá-las de lá.

Voltando à nossa história, quando eles se reencontraram as bolinhas de vidro na cabeça de cada um começaram a se agitar. Na cabeça do garoto — que já não era tão quieto assim (era inclusive metido a engraçadinho) —, elas mexeram com tal força que mesmo as bolinhas mais pesadas começaram a sair do lugar.

Ele viu todo o tipo de bolinhas. A maioria era alegre e o fez sorrir. Algumas, porém, eram tristes. Aí ele chorava. Mas uma delas era especial. O vidro era duro e inquebrável, mas era cristalina e diáfana. Dava para ver tudo lá dentro. Mas só ver. E ele viu a menina colorida e todos aqueles sentimentos um dia maiores que o mundo dentro da bolinha, que era extremamente pesada para algo tão pequeno. Ele queria tocar o seu conteúdo, mas o vidro era duro de mais. Ele queria mostrá-la para a menina colorida, mas, como se sabe, ninguém além do dono vê suas próprias bolinhas.

Já a menina de amarelo viu bolinhas de vidro diferentes e não entendeu porque o garoto quieto ficava mexendo tanto no que para ela pareciam bolinhas imaginárias. E ele tentava explicar como eram as suas bolinhas, mas não conseguia. E ele queria saber como eram determinadas bolinhas na menina, mas algumas ela não conseguia achar. E ele ficou insistindo para ela procurar. Só que isso a deixou irritada e ela foi mudando de cor. Primeiro amarelo, depois azul, vermelho, roxo... E o garoto quieto não sabia falar sem fazer referências as bolinhas, tão importantes para ele, e até tentava fazer piada da situação. Mas ela não achava graça nenhuma.

Foi quando o garoto percebeu que as suas bolinhas de vidro eram dele e de mais ninguém. Não adiantava querer compartilha-las. Por mais belas e importantes que fossem. E que as bolinhas da menina colorida só poderiam ser encontradas por ela própria. Não adiantava forçá-la.

Foi nesse momento que ele virou para a menina de amarelo e disse:

— Viu o jogo do São Paulo, ontem?

Moral da história: Nossas memórias explicam quem somos, mas nem sempre são a melhor maneira de nos explicarmos para os outros. Com exceção, talvez, de seu terapeuta.

Chez Nigro's - Movimento pela Insanidade Coletiva

3.3.05

Dois pesos, duas medidas.

É incrível como o ser humano pode mudar de postura e conduta conforme a situação.

Imaginem que você é amiga de uma pessoa super legal e essa pessoa super gente boa acaba por se envolver com um cara casado, sim leitor, isto acontece e é mais comum que espinha em adolescente.

Sendo essa pessoa sua amiga querida, quem é a vítima?

Sim, ela, sua amiga, vítima, enganada, ludibriada e por fim humilhada por um canalha, filho de uma rapariga desdentada e assanhada.

Agora imaginem que você tem uma super amiga que se acha hiper bem casada e o marido dela se envolve, secreta e clandestinamente com outra mulher, que nem você nem ela conhecem.

O que "estazinha" é?

Uma vadia, destruidora de lares, desalmada, vigarista, verdadeiro demônio travestido de mulher.

Quantas verdades compotam um único fato?

veleidade

28.2.05

Entre amigos

I
- Toma mais uma vodka porque a vesguinha ta vinda na sua direção.
- Nem ferrando, eu zero mas não barango!
- Dizem que ela é campeã de boquete na cidade.
- Manda espremer um limão na vodka.

II
- Vai lá mas não beija
- Ué por que?
- Pra ser campeã tem que ter muito treinamento né?
- Puta, que nojo!

III
- Bebi tanto que eu que fiquei vesgo agora.
- Xii cuidado que vão te confundir com a vesguinha campeã hein?
- Porra mas eu sou homem!
- Ela também!

Versão Simples

23.2.05

Eu não gosto de despir casas…

Eu não gosto de despir casas, desfazer ninhos. Não desmonto móveis, nem esvazio armários ou encaixoto livros. Não acondiciono louças, não empacoto discos, não embalo objetos. Tenho medo da vingança das coisas. Tenho medo dos dias que ficaram perdidos atrás dos armários, medo que eles me agarrem pelo pescoço e perguntem porque não os resgatei. Tenho medo de ver seus rostos negros, seus dentes finos arreganhados nas bocas cheias de um tempo esquecido. Não sei desconstruir história e temo que ela me arranque as tripas, me vire do avesso, me leve de volta à rudeza das impossibilidades, ao gosto metálico dos vazios. Temo a perversa sinfonia do eco entre paredes que não cercam mais nada, réquiem da profanação do que vivi naquele território. Prefiro o discreto abandono dos despojos.


Não Discuto, por Patrícia Antoniete

22.2.05

Sotto Voce

Sentia uma angústia repugnante dentro de si. O que era aquilo? Não importava, desde que consguisse se livrar da sensação incômoda. Insatisfação, impaciência, dor, ansiedade, a mistura de tudo isso, algo inominável, apenas um mal-estar íntimo. Não sabia. Mas um laxante resolveria tudo.

~~o0o~~

Seu sonho mesmo era ser artista. Ator, mais precisamente. O pai o obrigou a fazer faculdade de medicina. Um dia, no trabalho, ouviu um colega falando mal dos atores: "imagina, criar um filho para vê-lo se transformar num ator? Que desgraça! Preferia ter que interná-lo numa clínica de drogados." O sangue ferveu. Olhou para o colega com asco e desabafou com toda a mágoa contida até aquele momento: "Pois saiba que eu vou ser ator. Vou deixar tudo isso, toda essa farsa ridícula de status e dinheiro e ir atrás da minha felicidade", disse, e apontou no nariz do colega para concluir: "E você, seu babaca, ainda vai ouvir falar de mim". No outro dia não apareceu. Largou tudo e foi fazer teatro. Ninguém nunca mais ouviu falar dele...

~~o0o~~

Lembrou de Paulo Coelho. Jamais confessaria isso em público, claro, mas lembrou nitidamente. Fazia dois dias que estava com a maldita música na cabeça. Musiquinha ruim, chata, pobre, ridícula. Mas ali, renitente, dia e noite soando na sua cabeça. E ele não era pessoa de tolerar uma música tão feia daquela ressoando em si mesmo, era como trair-se, mutilar-se. Quando era adolescente leu um livro de Paulo Coelho, em que o mago dava uma fórmula mágica para se livrar de qualquer música que insista em ser lembrada contra a vontade. A solução, segundo ele, era cantar a dita cuja a plenos pulmões, bem vividamente, e a infeliz desapareceria da mente num passe de mágica. Mas cantá-la ali, no meio dos amigos, todos eruditos esnobes e mau humorados? Conteve-se. Mas por pouco tempo, pois a música o incomodava mais que os amigos. Abriu a boca e cantou. Até afinadinho, ele. Mas todos o olharam enviesado, se afastando com gestos reprovadores. A maior vergonha de sua vida. E a música, ai meu Deus, ainda estava no mesmo lugar.

Órbita

18.2.05

Cadeia

A moça lavou a louça. Limpou a casa. Vestiu a roupa. Saiu pra rua. Chamou um taxi. Subiu no taxi. O taxi andou, parou. A moça desceu. O moço saiu na rua. Encontrou a moça. Pegou a bolsa. Roubou a moça e correu. Fugiu da moça. Que chorou.



Ela ligou. Sete horas. Tá tarde. Chovendo. Que merda. Pára de reclamar. Pára você. Não fica assim. Você já viu? Não, nem quero ver. Então tá. Você fala demais. Que merda.


A vida em mensagens de celular: mor jantar hoje 8 passar mercado salgadinhos. em reuniao, combinado. pode pegar criancas no colegio as 6? ok. more a Dani tambem vem, compra bastante salgadinho. ok. amor cade voce? os meninos estao esperando no colegio. mor quando puder liga, preocupada. desculpa estava em reuniao ja vou. estava preocupada, monstro, nao faz + isso. soh salgadinho? vinho se tiver. estou voltando. colegio ligou voce esqueceu criancas. foi mal.

fserb

15.2.05

É GIZ NO TACO

A já célebre partida de sinuca que Inri Cristo ganhou de Cacá Rosset tem tudo para ser, numa leitura óbvia e apressada, um embate entre duas teatralidades, a messiânica e a do tablado. Pulando essa curiosidade semântica, é irresistível tentar repensar o simbolismo com cores um pouco mais bizarras e nem por isso inverossímeis. Imaginem, por um instante, que o barbudão de camisola fosse mesmo o Messias e Cacá – na medida em que sua persona performática o permite – o demônio. Ambos disputando os destinos da humanidade.

Como o diabo é o rei da cizânia e da desunião, Cacá abre o jogo estourando as bolas. Depois de vê-las espalhadas pela mesa ele sussurra a Inri: “Amoleço o jogo se aqui, prostrado, me adorardes”. E Inri, passando o giz no taco: “Perdestes a cabeça? Ambiente de sinuca e eu me ajoelhando à vossa frente? O que o pessoal das outras mesas vai pensar?” E Inri mata a bola dois. Cacá tenta novamente: “Se eu acertar a seis na caçapa do meio, dar-me-eis o Vaticano - incluindo os tapetes, a prataria e as reservas do Banco Ambrosiano ”. O barbudão não se intimida: “Vós sois ímpar”. Cacá, envaidecido: “Pois então, não sou mesmo inimitável?”, e Inri esclarece: “Não, estou dizendo que mato as bolas pares e vós as ímpares.” E mata a doze. Cacá: “Se eu matar a três por tabela, permitireis que eu faça o materialismo marxista triunfar”. Inri: “Se conseguirdes colocar o marxismo em prática, tiro meu quipá.” Mas Cacá erra a bola. Inri mata a oito. Cacá não desiste: “Mato a três e a nove de uma só vez e me concedereis a vida do Papa, cuja saúde já anda mesmo pela bola sete”. E Inri: “Não vedes que ele já morreu assassinado a tiros há vinte e quatro anos, e em seu lugar colocamos um sósia – um contabilista paranaense?” De qualquer forma Cacá acerta as bolas. As do jogador da mesa ao lado, ao fazer o bolão espirrar e acertar as partes baixas do cidadão. Ânimos serenados, ele resiste: “Mato a cinco de olhos fechados e permitireis que eu leve o Ratzinger para o inferno”. Inri pensa um pouco, um sorriso lhe ilumina a face e ele: “Topo!” Mas Cacá acerta acidentalmente o ás e perde. Fim do jogo.

E nós aqui, mal sabendo do que escapamos.

Ao Mirante, Nelson!

O Poder vai Sambar

"Quem não gosta de samba
Companheiro não é
Pêfêlê na cabeça
Pega ele, Josef !"

Entra na Esplanada a escola de samba mais esperada pela platéia que deliiiiiiira: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos dos Três Poderes ! Neste ano, o carnavalesco Zé "Stálin não Morreu" Dirceu, com a generosa ajuda do corretor zoológico Carlinhos Cascatinha, resolveu ousar e explorar temas mais controversos, como o deste ano: "Fome Zero é coisa de rico, pobre gosta é do IBGE". No ano passado, todos estão lembrados, o enredo "Cotas e cocotas: eu quero ver o negro entrar" foi objeto de muita polêmica, principalmente por causa da ala "Vem neguinho, miscigenar é gostosinho", que falava dos trotes cruéis pregados nos estudantes negros pelas sociólogas da PUC. Zé promete que neste ano os carros alegóricos baseados nas metáforas presidenciais ficarão além de tudo que já se viu na Esplanada.


Aqui, uma avaliação que nossos experts fazem da possível pontuação da Unidos dos Três Poderes nos quesitos da Liga das Escolas de Samba de Davos:

Harmonia: são julgados o comportamento da escola, o entrosamento dos integrantes, a coordenação e o sincronismo entre canto, ritmo e a coreografia na avenida. Neste quesito a Unidos não deve pontuar bem, já que as alas da esquerda, da direita e do centro vivem trocando de lugar, confundindo os jurados, o público e os cientistas políticos.

Evolução: trata-se do andamento da dança de acordo com o ritmo do samba-enredo e a bateria. Nesse quesito, não há dúvida de que a escola aprendendeu a dançar conforme a música, abandonando marchinhas antigas como a "do povo, unido, jamais etc.", em prol de arranjos mais modernos, como a da bandinha de música da UDN.

Enredo: os julgadores analisam o argumento do tema central escolhido pela escola. A escola não deve alcançar boas notas, pois o enredo deste ano é confuso e, o que é pior, parece imitar o de carnavais passados.

Alegorias e adereços: concepção plástica do enredo. São julgados originalidade, propriedade, cores, movimento e efeito. Este é o quesito onde a escola tem consistentemente ganho mais pontos, porque os carros alegóricos _ desde o aerodinâmico Aerolula e as Aeromoças do Barulho até o dramático A Luta entre a Fome e a Anorexia no País dos Obesos _ incendeiam a imaginação da platéia.

Fantasias: são julgadas em relação à criatividade, cores, efeito individual e coletivo, variedade e adequação. Como desde o ano passado o carnavalesco tem estimulado os integrantes da escola a rasgarem a fantasia assim que pisam na pista, as notas têm sido baixas, já que sobra pouca fantasia para permitir qualquer avaliação.

Comissão de frente: os julgadores devem levar em consideração o cumprimento da função de saudar o público e apresentar a escola na avenida. Os integrantes têm que estar em perfeita coordenação e harmonia. O interessante é que a escola resolveu inovar criando, além da comissão de frente, as comissões de lado e as comissões de trás. O aumento excessivo de cargos em comissão vem fragilizando as finanças da escola, que por isso, instituiu mais uma comissão, a comissão dez por cento.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: casal que carrega a bandeira da escola. São observados a postura, a elegância, a graça e a leveza da Porta-Bandeira. Já o Mestre-Sala é avaliado na flexibilidade, variedade de passos, cortesia e proteção à bandeira. Aqui a escola vem tendo problemas, já que o Mestre-Sala da Silva não é propriamente flexível e leve, embora seja um mestre em dar bandeira. Já a Porta-Bandeira é mais conhecida pelo prenome, "Porta".

Duração do desfile: O tempo de duração do desfile de cada escola de samba será de, no mínimo, 65 minutos, e, no máximo, 80 minutos. Neste quesito também é provável que a escola ganhe poucos pontos, porque há boatos de que findo o desfile o carnavalesco pretende trazer de novo a escola para a pista, quantas vezes forem necessárias pro povo aprender o samba de uma nota só.

SMART SHADE OF BLUE

Ô, batíria!

No ano em que completaria 16, ele gritou seu “Fico” –enquanto a família toda ia, claro. Feriado era sempre aquela caca –excursões para a praia ou campo, horas de congestionamento, tudo lotado, chuva, tédio. Usando como desculpa a nonna que morava com a família e não viajava por motivos iguaizinhos, ele enfrentou a cara fechada do pai, os resmungos da mãe e começou a passar feriados em Sumpaulo. Um dos motivos principais era o fato de que a capacidade de patrulha da nonna era zero. Nove e meia, se tanto, ela caía dormindo, e bastava estar de volta antes das seis do dia seguinte, quando ela acordava, para escapar de qualquer controle.

Não, não se tratava exatamente de anseio irrefreável por walks on the wild side. Era mais a adultice da coisa –sair sozinho, ou o mais das vezes com outro amigo da catigoria “encostado na vó”, ir ao bar, assistir até a última entrada da última banda, dar uma canja com um dos 15 mil músicos que ele conhecia (sempre sobrava alguém tocando na cidade, em feriado –quem é que vai viajar quando pode fazer show?) Depois, longas caminhadas de volta, ou longas esperas movidas a Thomas Mann, Dostô, Thackeray, pelo ônibus da madrugada, saindo de uma em uma hora do ponto inicial na Praça da República. E havia sempre a perspectiva de que a amiga/major crush tivesse um surto de irredentismo germânico e resolvesse convocá-lo –ela sempre convocava, nunca convidava- para alguma coisa, caso cismasse de não acompanhar os pais teutônicos nas viagens de feriado à casa maravilhosa que tinham em um canto majoritariamente europeu da Riviera de São Lourenço (“argh, parece um Congresso de Nuremberg, lá”, resmungava Beate).

Ele gostava dela, ela sabia, nenhum dos dois tomava uma atitude por medo de funhanhar a amizade, feita daquela mistura de devoção e hostilidade ranheta tão peculiares da adolescência (quando ela e as amigas alemoas caminhavam juntas no colégio, ele sempre saudava a cena assobiando a “cavalgada das vaquinhas”, apelido que logo ganhou uso amplo na ala não ariana da população escolar). Eram amigos, muito a contragosto, por apego comum a determinadas coisas –um certo tipo de rock, qualquer tipo de livro- e por aversão comum a absolutamente tudo mais. Em especial aquilo que ambos, razoavelmente acostumados a passar períodos fora do Bananão, designavam “coisa de brasileiro”.

Das muitas “coisas de brasileiro” que abominavam, a mais disgusting sempre foi o carnaval. A parafernália toda causava engulhos a ambos –o frenesi compulsório, os desfiles interminavelmente bregas, as letras dos sambas, o baticum interminável de tambor (e nada de assar os missionários, comme il faut), o rebolado-de-branco-dizendo-no-pé. No ano do Fico, ele ficou. Ela ficou. E os dois planejaram o evento todo –iam ouvir Béla Bartók, iam ouvir Debussy, iam ouvir o Echo and the Bunnymen novinho que ela gravara do programa do Kid Vinil. E assistiriam a um monte de vídeos. Vídeos cabeça, claro. Porque Steven Spielberg é coisa de brasileiro.

Por medo da fofoca da governanta alemoa -chamada Bertha e tudo-, o QG da operação era a casa dele. (Todo dia, exatamente à meia-noite, toque de recolher dela em feriado, o motorista passaria para apanhá-la.) E tudo ia de acordo com os planos –jovens pretensiosos ouvindo música maravilhosa e trocando opiniões very supercilious sobre livros que eles mal entendiam- até o terceiro dia, quando a nonna decidiu se manter acordada depois do toque de recolher terceira idade, pra ver a Beija-Flor na Sapucaí, o que empatava o vídeo. O filme do dia era Bergman (porque no mundo não tem nada mais clichê do que jovens cabeça), e a solução que ele propôs, acatada com muita piadinha ginasiana de parte a parte, foi montar o aparelho no quarto dos pais, onde ficava a outra TV. Deitaram na cama, very VERY self-conscious, e botaram Det Sjunde Inseglet*.

Contemplar o gênio dos outros em ação é a major turn-on, em qualquer idade. Aos 16, quase abraçados numa cama de adulto e com três dias de blablablá intelectual zunindo nas orêia, não admira que cedessem. Por sorte ou azar, o vídeo enguiçou uns 10 minutos antes da Dança da Morte. O tranco do aparelho os tirou do transe. Os dois pularam da cama, morrendo de vergonha e, enquanto ele tentava “consertar” o vídeo, ela ligou e pediu que o motorista a apanhasse mais cedo. Na terça-feira, entendimento tácito, decidiram ir ao cinema. Assistiram Ghostbusters. E na semana seguinte, de volta às aulas, ele e os outros meninos estavam sentados na mureta que delimitava o pátio quando ela passou com a gangue alemoa. Os cinco assobiaram o trecho mais manjado da cavalgada das vaquinhas.

*O Sétimo Selo

Filthy McNasty

10.2.05

paradóques

chocolate engorda. massa engorda. coca cola engorda. arroz engorda. mas no fim só eu engordo.

viva a saciedade alternativa